Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Vítor Norte. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vítor Norte. Mostrar todas as mensagens

domingo, 13 de março de 2022

CINEMA: "Casa Flutuante"



CINEMA: “Casa Flutuante”
Realização | José Nascimento
Argumento | Ana Pissarra, José Nascimento
Fotografia | Aurélio Vasques
Montagem | Ana Pissarra, José Nascimento
Interpretação | Carolina Virgüez, Inês Pires Tavares, Bernardo Mayer, Carla Maciel, Vítor Norte, Gustavo Sumpta, Guilhermina Bento, Eva Duarte, Manuel Passinhas, Odete Palma, Lurdes Ruas, Melissa Matos, Tomás Sousa, Carlos Melo
Produção | José Mazeda
Portugal, Brasil | 2022 | Drama | 110 minutos | Maiores de 12
Cinema Vida
09 Mar 2022 | qua | 16:00


Falar de “Casa Flutuante” é falar de Margarida, nascida e crescida dentro de um barco nas margens do Tejo e que, com o rio, manteve uma relação de sessenta anos que se transformou quando as autarquias ribatejanas decidiram desalojar os avieiros e destruir as casas palafitas ribeirinhas. Foi nesta história que José Nascimento e Ana Pissarra se basearam para escrever o argumento do filme, cruzando-a com a “Viagem Philosophica”, de Alexandre Rodrigues Ferreira ou “A Jangada”, de Júlio Verne. O facto de haver um forte paralelismo entre a cultura avieira e os povos indígenas que habitam as margens do rio Amazonas levou ao nascimento da personagem Araci, índia e emigrante, um corpo deslocado com quem o português Inácio construiu um lar nas margens do Guadiana, ligeiramente a sul de Mértola. É aqui que Araci reinventa um microcosmos onírico onde verá crescer a neta Joana mas que lhe fecha o futuro. Se por um lado a herança cultural que lhe transmite não a integra na comunidade alentejana, por outro, o rio já não tem peixe e a permanência da casa flutuante na água vai ser ameaçada pelo poder local.

Pese embora a bondade da proposta inicial desta “Casa Flutuante”, o filme começa a perder-se com a chegada de Xavier, um jovem que emigrou com os pais para a Alemanha e que regressa à procura das raízes familiares. É ele que vai fazer emergir o conflito de Joana, mas a falta de naturalidade no desempenho da personagem torna-se quase irritante. Regressam à memória os “males do cinema português”, a exagerada teatralização dos diálogos, as coisas ditas pela metade, “porque é disso que se faz o bom cinema”. Mas se a direcção de actores tem aqui uma grande responsabilidade neste que é o ponto mais fraco do filme, também o próprio realizador se perde um bocadinho na belíssima paisagem de Mértola, filmando o rio e as azenhas, o interior da vila e das casas de Mértola e as próprias minas de S. Domingos como se de postais ilustrados se tratasse, não escapando ao cliché.

Os cinco minutos finais, de enorme significado e beleza, não chegam para atenuar o mal estar perante um filme entediante e pouco efectivo e evidente na concretização das suas propostas. Há Carolina Virgüez, claro, e há Vítor Norte, convincentes nos seus papéis, capazes de elevar os momentos em que contracenam a patamares de outra grandeza. No mais, o filme põe à prova o estoicismo do espectador, tão pouco afoito e tão desinteressante se mostra no seu desenvolvimento. Ainda que velados, ficam para a história os propósitos de denúncia das políticas desrespeitadoras de Bolsonaro dos direitos das comunidade indígenas, do seu protesto e da sua luta pela preservação da sua cultura e identidade. Daí a dedicatória “à Floresta Amazónica, às comunidades indígenas que lutam pela sua preservação e a todos que com ela mantêm uma relação de amor”, mas que, por si só, não chega para fazer um bom filme.

sábado, 22 de maio de 2021

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #46



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #46
Escola de Artes e Ofícios
90 Minutos | Maiores de 16 anos
20 Mai 2021 | qui | 21:00


Sensivelmente meio ano após a sua última sessão competitiva, o Shortcutz Ovar regressou às salas na noite da passada quinta-feira, marcando o arranque da quinta temporada. Noite de festa e de celebração, pois claro! Noite de emoções, também, por tudo aquilo que representa este reencontro com o cinema e com a cultura em geral, quer pela evolução positiva da pandemia que vai permitindo algum desconfinamento, ainda que cauteloso e com regras, quer pela presença de público na plateia, aproximando do desejável os momentos de oferta e de partilha que são marcas distintivas desta festa do cinema em versão curta. Sabendo o quanto isto é importante na dinâmica do Shortcutz Ovar, foi particularmente saboroso “estar de volta, reunir de novo a malta e voltar à Escola... de Artes”, conforme sublinhou Tiago Alves, verdadeiro mestre de cerimónias num evento de todos e para todos.

Nesta sessão inaugural da nova temporada, o público viu-se confrontado com a exibição de duas curtas-metragens apenas, em vez das habituais três ou mesmo quatro obras, situação que se prende com a necessidade de encerrar o espaço às 22h30 e de conciliar os constrangimentos de tempo com um dos grandes trunfos do Shortcutz Ovar: a presença dos realizadores ou de elementos ligados à produção dos filmes e a interacção com os espectadores mediante a abertura de espaços de conversa que se revelam, sempre, extraordinariamente enriquecedores. Assim foi uma vez mais, com três ilustres convidados a pisarem o palco da Escola de Artes, a “repetente” Alexandra Ramires (em 2018 tinha aqui apresentado “Água Mole”, uma primeira obra co-realizada por Laura Gonçalves) e os “estreantes” José Mazeda e Vítor Norte. A própria Laura Gonçalves também por cá passou, assim como Salvador Malheiro, presidente da autarquia, para quem a importância da cultura como parte integrante dos grandes desafios estratégicos do Município é incontornável, deixando a garantia de que “o Shortcutz Ovar é para continuar”.

Animação com a duração de onze minutos, “Elo” foi a primeira curta da sessão, trazendo-nos a história de dois seres que, de forma simbiótica, procuram encontrar espaço na sua relação para, abraçando diferenças e imperfeições, conseguirem transpor os seus limites. Verdadeira viagem ao princípio do ser, “Elo” fala-nos da importância de vivermos este mundo tirando o maior partido daquilo que ele tem para nos oferecer, a sua matéria-prima. Metáfora da forma como nos adaptamos e interagimos uns com os outros, o filme é um hino às relações humanas no seu sentido mais construtivo e harmonioso, lembrando-nos que todos dependemos de todos para existirmos e fazermos da vida uma doce melodia. Primeira obra a solo de Alexandra Ramires, com produção de David Doutel (que assina também a montagem, ao lado do inevitável Vasco Sá e da própria realizadora) e animação de Dimitri Mihajlovic, Inês Teixeira, Laura Gonçalves e Vitor Hugo Rocha, “Elo” conta com a preciosa colaboração de Regina Guimarães no argumento, matéria fundamental na comunhão perfeita entre a imagem e a palavra e cujo resultado estará plasmado num livro a publicar muito em breve.

A encerrar a sessão, “Para Cá do Marão”, curta-metragem de ficção realizada por José Mazeda e baseada num relato verídico, transporta-nos ao coração de Gralhas, pequena aldeia da Terra Fria, no Concelho de Montalegre, no terceiro quartel do século passado. De costumes e tradições que se vão esboroando nos fala o filme, mas também da honra e do facto de ser mais fácil a um transmontano perdoar um crime do que um roubo. Memórias marcantes do realizador, ele próprio transmontano de Mirandela, o roubo de águas de um lameiro e o desfecho trágico destes actos serve aqui de referência a uma obra que deve ser vista como uma homenagem à infância de José Mazeda e à cultura transmontana. Com João Lagarto, Vítor Norte e Adriano Carvalho no elenco, o filme tem fotografia de Aurélio Vasques, montagem de Ricardo Sobral e argumento de Daniel Pereira e do próprio José Mazeda que é, igualmente, o produtor do filme. Quanto a José Mazeda, importa vincar a enorme paixão que se derrama das suas palavras quando o assunto é cinema, bem como a grande amizade que o prende aos agentes com quem trabalhou ao longo de quase cinco décadas, nomeadamente os realizadores António Reis e Margarida Cordeiro, João César Monteiro, António Campos, Paulo Rocha, Rita Azevedo Gomes, Imanol Uribe e Roman Polanski, entre outros. “Para Cá do Marão” é um filme cuja projecção as gentes de Montalegre aguardam ansiosamente mas que, entretanto, passou já entre nós. Um belo filme, sublinhe-se.