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domingo, 3 de maio de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #104



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #104
Com | Catarina Romano, Jorge Quintela, Francisco Mira Godinho
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
30 Abr 2026 | qui | 21:30


A sessão #104 do Shortcutz Ovar, a terceira da décima temporada, confirmou o fôlego e a pertinência de um projecto que se afirma como ponto de encontro privilegiado entre cinema e comunidade. Ainda o público se acomodava e já os acordes de “Grândola, Vila Morena” ecoavam na sala, prontamente acompanhados por vozes que, de forma espontânea, entoaram este verdadeiro hino nacional. Cravo rubro na lapela, Tiago Alves sublinhou a permanência viva desse símbolo de Abril, lembrando que liberdade e democracia exigem um cuidar contínuo. Com sala esgotada - e a presença de vários estreantes -, voltou a destacar-se um público atento, interventivo e generoso, que contribuiu activamente para o debate. As propostas juntaram o documental, a ficção e a imagem animada, com a noite a revelar-se coesa na diversidade de géneros, ideias e vontades e a ver-se atravessada por uma forte carga simbólica e política. No seu conjunto, os três filmes propuseram uma reflexão crítica sobre formas contemporâneas de alienação e resistência, convocando memória histórica, identidade colectiva e práticas culturais como territórios em conflito, e reinventando e persistindo nessa luta contra o apagamento e a redefinição da história que nos querem impor.

“Um Dia, Depois Outro”, de Catarina Romano, abriu a sessão sob o signo das palavra de Abril - “O Povo Unido Jamais Será Vencido” - para, de imediato, as colocar em tensão com um presente marcado pela automação, pela inteligência artificial, pela vigilância e controlo permanentes e por uma sensação difusa de colapso iminente. Trata-se de um filme enigmático, com uma forte carga política, cuja estrutura fragmentária parece nascer da urgência da dúvida e da denúncia. A narrativa de um operário que perde o passado e decide morrer funciona como alegoria de uma humanidade aprisionada entre o excesso de informação e a ilusão de liberdade. A realizadora recusa facilitar a leitura, exigindo do espectador um posicionamento activo, ainda que essa opção torne o objecto por vezes hermético. Contudo, é precisamente nessa fricção que o filme encontra a sua força, ampliada por uma animação de notável riqueza plástica, onde se pressentem ecos de Malevich, Hopper, Chaplin, Oscar Wilde ou George Orwell. No centro, permanece uma inquietação profunda: que espaço resta para a utopia num mundo saturado de controlo, propaganda e desigualdade?

Já “Stop – Salas de Ensaio Para um Materialismo Histórico”, de Jorge Quintela, propõe um mergulho documental na história e nas metamorfoses do mítico Centro Comercial Stop, na Rua do Heroísmo, no Porto, hoje símbolo da resistência cultural face à pressão uniformizadora do turismo de massas. Partindo de uma relação afectiva com o espaço - lugar de memórias de infância e de prática artística nas suas salas de ensaio -, o realizador constrói um objecto híbrido, na linha do foto-filme, assente em imagens de arquivo que ganham nova vida através de uma dramaturgia sonora particularmente expressiva. Inspirado pelo pensamento de Walter Benjamin, o filme lê o Centro Comercial Stop como ruína e como possibilidade, espaço onde diferentes temporalidades se sobrepõem e onde a cultura independente resiste às lógicas de mercantilização. Mais do que um exercício nostálgico, trata-se de um gesto político que denuncia processos de transformação urbana e social, afirmando o valor dos lugares enquanto territórios de criação e de comunidade.

A encerrar a sessão, “Antígona ou a História de Sara Benoliel”, primeira obra de Francisco Mira Godinho, mostrou-se com uma intensidade emocional difícil de ignorar. Inspirado pela tragédia clássica de Sófocles, o filme acompanha o percurso de Sara na tentativa de garantir um funeral digno ao irmão, vítima da pandemia de Covid-19, respeitando as tradições da cultura cabo-verdiana num contexto que tudo parecia interditar. A câmara fixa-se no rosto e nos gestos desta Antígona contemporânea, amplificando a dor, mas também a determinação que a move. Filmado em territórios como a Cova da Moura ou o extinto Bairro da Jamaica, o filme capta a verdade de comunidades ostracizadas, discriminadas e perseguidas, transformando o luto num acto colectivo de resistência e afirmação. O trabalho com não actores revela uma delicadeza rara, sustentada por uma ética de proximidade e partilha. Mais do que um retrato da pandemia, esta “Antígona” é uma ode à resiliência e à dignidade humana, que anuncia um olhar autoral promissor e que, pela sua autenticidade, dificilmente se apagará da memória de quem o viu. Por tudo isto - e o mais que podemos imaginar -, o filme caiu nas boas graças do público e viria a ser o mais votado da sessão.

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