CONCERTO: Orquestra Camerata EPME
Direcção musical e violino | Elicia Silverstein
Com | Leonor Cirne, Luísa Margalho, Pedro Castro, Miguel Martins, Maria Pérez, Dinis Coimbra, Gustavo Alvares (violino), Maria Inês Teixeira, Marta Moreira (viola), Diogo Santos, Joana Pinto, Salomé Tavares, Renata Costa (violoncelo), Dinis Augusto (contrabaixo)
ReabilitaSons 2026
Centro de Reabilitação do Norte
29 Abr 2026 | qua | 17:30
A Escola Profissional de Música de Espinho continua a erguer-se, firme e luminosa, no horizonte do ensino artístico no nosso país, como quem cultiva não apenas o saber, mas uma forma delicada de estar no mundo. Não é só na arquitectura rigorosa dos seus programas pedagógicos que reside a sua força, mas sobretudo na maneira como abre aos seus alunos portas para experiências que moldam o espírito e ampliam a escuta interior. A parceria com o Centro de Reabilitação do Norte, que em 2025 deu origem ao ciclo de concertos “ReabilitaSons”, é disto exemplo acabado e surge como um gesto de rara beleza ao levar a música a espaços onde o som se transforma em cuidado, onde cada nota toca mais do que o ouvido. Formada pelos alunos dos graus de ensino mais avançados, a Orquestra Camerata da EPME encarna esse desígnio com singular clareza, vivendo como um organismo que respira em conjunto, sustentado pela confiança, pela atenção e pela responsabilidade. Sob a orientação da violinista Elicia Silverstein, foi este ensemble que visitou, na tarde da passada quarta-feira, o Centro de Reabilitação do Norte, nele encontrando um lugar de cruzamento entre disciplina e liberdade.
Mais do que um concerto, o que ali se viveu foi um instante denso de aprendizagem, onde o rigor técnico se entrelaçou com uma sensibilidade quase palpável, como se cada gesto musical fosse em busca do indizível. Pensado com inteligência e intuição, o programa desenhou uma travessia entre épocas e geografias sonoras. A abertura com o Divertimento em Fá maior, K. 138, de Wolfgang Amadeus Mozart, trouxe consigo uma luz serena, feita de equilíbrio e transparência, que os jovens músicos souberam acolher com elegância e precisão. Depois, como quem muda de paisagem sem perder o fio da memória, surgiram as “Armenian Folk Songs”, de V. Komitas, nos arranjos de Sergei Aslamazian, revelando uma orquestra capaz de habitar outras linguagens, de colorir o som com nuances subtis e de evocar, com delicadeza, a alma popular destas melodias. O encerramento, novamente com Mozart e o seu Divertimento em Ré maior, K. 136, reforçou a energia vibrante na sala, pondo em evidência um pulsar rítmico vivo e uma coesão como que nascida de um entendimento silencioso entre todos.
Iniciativas destas ultrapassam o mero gesto artístico, inscrevendo-se numa dimensão mais vasta, onde a música se torna ponte, cuidado e presença. Ao longo do concerto, foi impossível não sentir o labor paciente na construção de um som comum, como quem tece, fio a fio, uma matéria invisível que apenas existe, se partilhada. À semelhança de momentos anteriores vividos no âmbito do ReabilitaSons, os jovens executantes da EPME demonstraram uma maturidade que surpreendeu, não necessariamente pela perfeição, mas pela verdade que atravessou cada interpretação. O público que preencheu a sala deixou-se envolver por essa corrente sensível, respondendo com uma gratidão silenciosa e profunda. A comoção que percorreu a audiência foi o sinal claro dessa força transformadora, que encontra na proximidade e na entrega um dos seus mais altos propósitos. Para os jovens músicos, ficou a consciência renovada de que o seu trabalho ecoa para além de si, tocando vidas de forma concreta e duradoura. E assim, nesse diálogo sem palavras, mas pleno de sentido, educação, cultura e saúde entrelaçaram-se, como mãos que se encontram para cuidar, inspirar e, enfim, reabilitar.
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