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sexta-feira, 28 de junho de 2024

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #84



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #84
Apresentação | Tiago Alves
Com | João Rodrigues, Bruno Carnide, Inês Teixeira
Escola de Artes e Ofícios
150 Minutos | Maiores de 14 anos
27 Jun 2024 | qui | 21:30


Os espectadores do Shortcutz Ovar habituaram-se a encontrar um fio condutor na programação das curtas-metragens exibidas em cada sessão. Excluindo as sessões temáticas – as curtas que se aproximam do género do fantástico e do terror em tempo de Halloween, a recente incursão no género histórico graças às comemorações do 25 de Abril –, é um grato desafio perceber aquilo que une (ou separa) as várias propostas de uma noite sempre especial. Desta vez, porém, os programadores resolveram “elevar a parada” e a sessão não revelou um óbvio elo comum. Poderá haver quem argumente que as três narrativas são conduzidas por personagens femininas. Ou que o sugerido tem um peso superior ao que é mostrado. Ou, ainda, que a poesia, esse enorme saco onde tudo cabe, é o delicado traço a unir três argumentos cuidadosamente desenhados. Ou que as curtas são uma súmula de mundos pessoais abertos à novidade, num processo de descoberta que rompe e transforma.

“Ana Morphose”, multi-premiada obra de João Rodrigues, é desta última alternativa um bom exemplo. Filmada em stop-motion, conta a história de uma menina que toma consciência da sua própria verdade após mergulhar, literalmente, num livro, que a faz desaguar num universo fantástico. Quando Ana se dá conta das armadilhas que este novo mundo encerra, é demasiado tarde. Perdida a inocência, regressará a custo ao seu quarto e aos objectos do quotidiano, mas será incapaz de voltar a vê-los da mesma forma. A fragilidade, a precariedade e a insegurança são agora marcas de uma vida presa por cordas. Parece não haver limites para a imaginação de João Ferreira, artífice de um universo metafórico feito de teatros barrocos, jogos ópticos, referências literárias e até de um jardim do Éden muito particular onde não falta o fruto proibido. Visualmente, “Ana Morphose” é precioso, com João Rodrigues a merecer os aplausos do público pela força da mensagem e por um trabalho de animação feito com arte, minúcia e um enorme bom gosto.

Presença assídua no Shortcutz Ovar, Bruno Carnide apresentou em estreia nacional “Memórias de uma Casa Vazia”, curta-metragem de ficção rodada em camcorder digital e película no formato Super 8, e que nos fala das recordações que assombram e confortam uma mulher, expressas através das cartas que escreve ao marido e à filha. Derradeiro episódio de uma “trilogia familiar”, o filme retira uma enorme força do argumento de Cátia Biscaia, uma “peça literária” intensamente poética, amarga e doce ao mesmo tempo. Não fosse a fotografia tão bela, com todo aquele “ruído” a ir ao encontro da memória como um lugar de imagens (cada vez mais) difusas e imprecisas, e o filme quase poderia viver só da palavra, que a voz de Inês Sá Frias tão bem sabe realçar. Mas há Bruno Carnide e o seu jeito de compensar o “medo de usar as palavras” com planos muito belos (inesquecível a imagem dos flamingos nas águas da Ria de Ovar), metáforas de um tempo e de uma vida que se descobre para sempre perdida.

A fechar a noite, Inês Teixeira apresentou “Corpos Cintilantes”, curta de ficção que, com os seus mais de vinte e três minutos, nos veio falar das questões, desafios, medos e mitos próprios da adolescência. Quando Mariana aceita o “inesperado e desconcertante” convite de Jorge para passar um fim de semana com a sua família numa outra cidade, terá idealizado algum tipo de aventura? Quanto de expectativa e de ilusão terá corrido à sombra daquele “sim”? Presente na secção “Semana da Crítica” da edição de 2023 do Festival de Cannes, o filme trata o período da adolescência com enorme cuidado e carinho, um quase pudor, no qual é fácil encontrarmos traços das nossas próprias vivências. Inteligência, corpo, voz, beleza, sedução e desejo são pilares emocionais que se afirmam ao longo do filme como marcas distintivas de um tempo de descoberta e de risco. Também ela a descobrir-se enquanto realizadora, Inês Teixeira fez um filme com o coração e soube pôr nele a emoção das primeiras vezes.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #71



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #71
Escola de Artes e Ofícios
120 Minutos | Maiores de 14 anos
27 Abr 2023| qui | 21:30


Mais uma grande noite Shortcutz Ovar. À enorme qualidade dos filmes exibidos – o que vem sendo uma constante na competição desta temporada -, juntou-se de novo a presença de um público entusiasta e conhecedor, fazendo da sessão um momento incontornável de festa e celebração do cinema curto português. Pondo de lado este aparte, a sessão #71 abriu com uma surpresa. Fora da competição, foi exibido “Janeiro”, (provavelmente) a primeira curta desenvolvida com recurso a Inteligência Artificial. Apesar de se encontrar disponível na plataforma youtube há cerca de três meses, o filme foi apresentado em sala pela primeira vez e contou com a presença do realizador, Bruno Carnide, o homem por detrás da ideia. “Nenhuma imagem foi capturada, desenhada ou modelada. Nenhum texto foi escrito ou gravado. Nenhuma música foi composta ou executada. O ser humano precisou apenas de fornecer as pistas e juntar as peças”, pode ler-se no início de um filme “que se fez a si mesmo em 24 horas”. Levar ao questionamento dos riscos que a supremacia da tecnologia sobre a criatividade acarreta, ou a frustração e os ressentimentos que a Inteligência Artificial pode gerar nos artistas, são aspectos nos quais importa atentar. Preparados para o que aí vem?

A competição abriu com “Sónia”, um documentário que bem poderia ser uma ficção. Através dele, Maria Moreira dá-nos a ver os bastidores do seu desporto de eleição, o badminton, acompanhando a campeã nacional Sónia Gonçalves e o seu trajecto com vista a garantir uma presença nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Em plena pandemia, a atleta ficou a três lugares da qualificação para os Jogos, teve de lidar com uma gravidez inesperada e o nascimento do filho, mas não desistiu nem desiste. No horizonte está Paris em 2024 e no presente acolhe um projecto lindíssimo em torno do badminton adaptado. Enquanto isso, vai gerindo a ambição de compatibilizar a sua condição de atleta, com a de estudante, trabalhadora e mãe. Se a vida, na figura de um recém-nascido, é um dos grandes vectores de “Sónia”, em “Palma” é a morte que emerge, carregando consigo a angústia e o sofrimento, mas também, paradoxalmente, uma enorme atracção, uma quase obsessão por aquilo que o além esconde. Sara (espantosa Mafalda Banquart) é uma jovem mulher que resiste a aceitar a morte da mãe e se deixa contaminar pelo peso de uma entidade que encerra o grande mistério da humanidade. Filme de época, “Palma” apoia-se num texto marcadamente romântico, quase “camiliano”, tirando partido do requinte dos espaços, da beleza dos planos, da subtileza dos pormenores e de uma estética apurada que o torna fascinante aos olhos do espectador.

Apresentar dois filmes a concurso numa mesma sessão do Shortcutz Ovar é algo praticamente inédito, mas que aconteceu ontem pela terceira vez em sete temporadas do certame. Mónica Santos foi a “reincidente” e o filme exibido, “O Casaco Rosa”, voltou a fechar a noite sob o signo do cinema de animação, tal como acontecera na sessão de Março com “Ice Merchants”, de João Gonzalez. Com uma estética muito própria ligada ao filme musical, o filme tem um cunho marcadamente político ao fazer incidir a história na figura de António Rosa Casaco, o homem que chefiou a brigada da PIDE responsável pelo assassínio do general Humberto Delgado no dia 13 de fevereiro de 1965, perto de Badajoz. Partindo das “façanhas” do torcionário fascista, Mónica Santos propõe-nos um “Casaco Rosa” que, no conforto doméstico, conspira e tortura, com recurso à linha e costura, contra os opositores do sistema. O ponto de partida terá sido um artigo de José Pedro Castanheira no jornal Expresso, mas o desenvolvimento do tema é absolutamente único e brilhante. De arma carregada, a realizadora não desperdiçou um único tiro. Aqui silenciam-se “amanhãs que cantam”, a censura, o saco azul e a cadeia são casas do “Monopólio”, a história acoita-se num livro com a lombada virada para dentro. Alfinetes, tesouras, ferros de engomar e bastidores são instrumentos de tortura. Os versos são de uma ironia avassaladora, o humor impera, mas nada é “a brincar”. Exibido dois dias após celebrarmos o 49º aniversário do 25 de Abril, “O Casaco Rosa” é a pedra de toque de uma democracia que se quer com memória. Um filme obrigatório!

sexta-feira, 8 de abril de 2022

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #59



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #59
Escola de Artes e Ofícios
90 Minutos | Maiores de 14 anos
07 Abr 2022 | qui | 21:30


Com menos público do que habitualmente, a segunda sessão da sexta temporada do Shortcutz Ovar decorreu sob o signo da perda. Foi assim com “Chama-se Carla”, filme que abriu a noite e cujo momento-chave é a perda de um filho durante a gravidez. Trabalho de estreia de Cátia Biscaia, superiormente interpretado por Inês Sá Frias e Tobias Monteiro, o filme conta a história de Carla, jovem grávida de oito meses, que passa os dias à porta do estabelecimento prisional onde o companheiro cumpre pena por tráfico de droga. Feita de longas esperas e de conversas ao telemóvel ou com um dos guardas prisionais, a rotina é quebrada abruptamente quando Carla sente uma contração violenta e é levada ao hospital onde acaba por perder o seu bebé. Superar a dor da perda e começar de novo, eis o desafio. Com enorme sensibilidade, Cátia Biscaia escreveu e realizou um filme que toca o espectador pelo lado humano das questões abordadas, falando dos obstáculos que se atravessam no nosso caminho e do valor de não estarmos sós quando tudo parece desabar à nossa volta.

Também Alice tenta reencontrar o seu trisavô, um soldado japonês que combateu ao lado do exército britânico durante a I Guerra Mundial e que, vindo para Portugal, aqui deixou a sua semente antes de desaparecer. Fixando o olhar no céu, a menina recorda a história que a mãe conta acerca das mantas, essas raias gigantes que, deixando o mar, se erguem às centenas no voo, cruzando altas montanhas e florestas imensas, sobrevoando as nossas cidades e as nossas casas. Serão espíritos? Será o trisavô uma daquelas mantas? Filme de animação de Bruno Carnide, “O Voo das Mantas” conta uma história muito simples mas muito bonita, que mistura realidade e ficção. Com um traço depurado – curioso o aproveitamento que Carnide faz dos trabalhos de Cátia Biscaia, fotógrafa profissional, baseando-se neles para o desenho de belíssimos cartões -, o realizador apela à nossa condição de crianças, alçando-nos num voo feito de liberdade e magia e levando-nos ao encontro de um mundo onde todos os sonhos são concretizáveis.

A fechar a noite, “Yard Kings” trouxe-nos a história de duas crianças que fogem de um ambiente marcado pela violência doméstica, refugiando-se no caótico espaço de uma sucata em busca da felicidade. No limite, este é um filme sobre a perda da inocência, mas também sobre a extraordinária capacidade que as crianças têm de erguer novos mundos e de os tornar acessíveis aos adultos. Retirando uma enorme força de uma realidade tão terrivelmente presente, “Yard Kings” debruça-se sobre o problema da violência doméstica através do olhar dos mais novos, vítimas inocentes da disfuncionalidade das relações no seio das próprias famílias. Nesta que é a sua obra de estreia, Vasco Alexandre revela uma maturidade invulgar, tanto na mensagem que pretende fazer passar como na forma como tira partido dos recursos que tem à sua disposição. A pontuar o trabalho de realização está a a superior direcção de dois jovens actores – David Price e Elle Atkinson, de 10 anos e 9 anos, respectivamente –, dos quais extrai o que de melhor têm em matéria de expressividade, inocência e pureza. De uma ternura sem limites, o final do filme é uma lição para todos. O remate perfeito de mais uma excelente noite de cinema curto.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

CINEMA: Shortcutz Ovar 2020 | Sessão #36



CINEMA: Shortcutz Ovar 2020 | Sessão #36 
Escola de Artes e Ofícios 
90 Minutos | Maiores de 16 anos
18 Jun 2020 | qui | 22:00 


Três meses após o último momento em Sala, o Shortcutz Ovar regressou ao convívio dos amantes de cinema, de forma presencial, na noite de ontem. Numa sessão marcada pela emoção, o primeiro aplauso foi para o público, “pelo acto de coragem”, nas palavras de Tiago Alves, co-organizador e apresentador do evento. “Eu confio” foi a grande mensagem que quis passar, transmitida com optimismo moderado porque, apesar do elevado grau de confiança em como vai ficar tudo bem, é preciso estar atento e cumprir com as normas. O distanciamento entre o público, as máscaras no rosto e a ausência de abraços ou beijos mostram uma nova normalidade, mas se tem de ser assim, pois que assim seja. Até porque... “The show must go on!”. E o espectáculo começou com “Equinox”, de Bruno Carnide, nele se destacando o cuidado e a delicadeza da animação, mas sobretudo o argumento da autoria de Carlos Salvador. Nomeado para os Prémios da Academia Portuguesa de Cinema na categoria de Animação, são só três minutos de filme mas que se vêem com imenso prazer, o azedume nas relações entre um homem e uma mulher a atingirem o paroxismo, a noite de Tóquio em pano de fundo. 

Os três filmes seguintes, de imagem real, seguiram por caminhos idênticos, os altos e baixos das relações a pontuarem as respetivas narrativas, os amantes confinados ao espaço de um quarto ou de uma casa. Desse ponto de vista, quase poderíamos falar de uma sessão temática, tal o cuidado do programador em alinhar um leque de obras muito próximas entre si, que se completam de forma extraordinária, apesar das particularidades estéticas e formais que as distinguem. Com “Um Retrato de Borboletas”, Henrique Prudêncio dá-nos a ver as tensões que antecedem o decisivo momento da separação, tal como sucede com “Lisboa, 2018.”, de Francisco Valente. Entre o “provisório” e o “definitivo”, ambos os filmes olham para o futuro, abrindo espaço à reflexão. São obras assentes em argumentos muito fortes e em diálogos intensos, fazendo brilhar o trabalho de actor - um enorme aplauso para a Mariana, de “Lisboa, 2018.”, superiormente interpretada por Beatriz Brás -, e remetendo para o teatro, a quem rendem homenagem.

Para o final estava guardado o melhor desta sessão, com a exibição de “Cenas de Uma Vida Amorosa”, um filme de Miguel Afonso Carranca. No espaço redutor de uma pequena casa, a vida de um casal – Marta (Beatriz Godinho) e Luís (Filipe Sambado) – é posta à prova dia após dia, minuto após minuto. Tal como a vida, “feita de pequenos nadas”, também o filme vive de momentos banais, tornados sublimes por uma fotografia de excelência na forma como joga com o espaço e a luz, pela mestria da montagem e pela narrativa paralela gerada pelos entretítulos que introduzem as várias cenas e que são a afirmação de que o amor não se rege por cronologias (particularmente significativa uma cena amorosa numerada de “infinito”). Uma palavra ainda para os dois actores, pela dinâmica gerada em torno da sua relação e pela forma como conferem a necessária intensidade a cada uma das cenas, sejam elas tão elementares como escovar os dentes ou tão intensas, mesmo brutais, na forma do insulto ou da agressão. Muito bom!