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sexta-feira, 2 de junho de 2023

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #72



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #72
Escola de Artes e Ofícios
120 Minutos | Maiores de 14 anos
01 Jun 2023 | qui | 21:30


Na viragem da 7ª temporada do Shortcutz Ovar, a sessão de ontem à noite, com casa cheia, teve numa aparente contradição o elo comum aos três filmes a concurso. Basta atentar nos títulos e olhar para os nomes dos respectivos realizadores para se perceber que todos eles filmaram fora do seu “ambiente natural”. Daniel Soares nasceu na Alemanha, vive no nosso País e filmou na Suiça. Vasco Alexandre nasceu em Lisboa, está presentemente na Dinamarca e filmou em Edimburgo. Aurélie Oliveira Pernet nasceu em Besançon, vive em Zurique e filmou em Portugal. Cruzar os olhares de três cineastas da diáspora e vê-los pensar o nosso mundo e os seus paradoxos, tal foi o propósito dos programadores, daí resultando uma sessão que funcionou em “loop”, com ponto de partida e chegada em realidades tão presentes como a exploração laboral ou a falta de apoio aos cuidadores informais, e uma distopia de permeio a pensar questões como a interrupção voluntária da gravidez ou a pressão que o Estado exerce sobre os cidadãos. Uma sessão centrada na figura da mulher, com a sua força e os seus ideais, as suas dúvidas, a sua persistência e coragem.

A abrir a noite, Daniel Soares trouxe-nos “Please Make It Work”, a sua segunda obra depois de “O Que Resta”, apresentado neste mesmo local na anterior temporada do Shortcutz Ovar. Pensado e realizado em escassos dez dias, no âmbito de uma residência artística organizada pelo Festival de Cinema de Locarno, o filme dá a ver uma parcela do dia de Cláudia, trabalhadora de limpezas de alojamentos locais nos Alpes Suiços, na sua relação com um patrão exigente e arrogante e com a futilidade dos interesses de uma filha pré-adolescente. Filmado num plano-sequência único, os movimentos de câmara reduzidos a um acompanhamento continuado da acção, “Please Make it Work” é um convite à reflexão sobre aquilo que somos ou para onde caminhamos. Distante das personagens, sentindo mais do que vendo, o espectador não pode deixar de perceber o abismo que se oferece numa janela aberta quando todas as portas se fecham. Esta dimensão de tragédia, que a paisagem alpina amplia, tem no olhar irónico do realizador o seu contraponto, dizendo-nos que mais vale rir que chorar.

Também Vasco Alexandre nos ofereceu, com “Ten With a Flag”, uma segunda obra, ele que repetiu a sua presença no Shortcutz Ovar, depois de aqui ter mostrado na temporada anterior o belíssimo “Yard Kings”. Parábola sobre um futuro que pode ser já hoje, o filme é baseado num conto de Joseph Paul Haines e explora a relação dos cidadãos com o Estado, numa sociedade estruturada num sistema de rankings. A gestão de expectativas num futuro que não somos livres de controlar é o aspecto mais perturbador de um filme que encerra um vasto conjunto de leituras. Nos quadros que, das paredes, parecem observar tudo em volta ou na música infantil que pontua os momentos de tensão, a sensação é de um profundo desconforto face a uma sociedade desumanizada, permanentemente vigiada, cuja lógica assenta no medo e nega o direito de opção, embora afirme o seu contrário. Há um plano frontal da habitação que mostra o que se passa por detrás das enormes vidraças e o sentimento de solidão não poderia ser maior, como se de um quadro de Hopper se tratasse. Entre um olhar tenso e um sorriso forçado, que “bandeiras” estamos dispostos a abraçar?

Depois de uma distopia, a realidade mais crua encerraria a sessão, exposta no ecrã pela mão de Aurélie Oliveira Pernet. Inspirada nas histórias da família da autora, “As Sacrificadas” traz-nos o drama dos incêndios florestais que varrem o país de norte a sul, embora o drama aqui seja outro e bem mais presente, afectando as vidas de cerca de oitocentos mil portugueses. É assim que encontramos Otília, uma mulher a entrar na meia idade que reparte o seu quotidiano entre os trabalhos de limpeza nas Piscinas Municipais e o cuidar da mãe, com o seu rol de queixas e cismas. Um quotidiano sufocante, marcado pela solidão e pela desesperança, ao qual não vê como escapar. Prova de maturidade de uma realizadora que tem aqui o seu segundo filme, “As Sacrificadas” coloca o dedo na ferida ao falar dos cuidadores informais, mulheres e homens insubstituíveis mas que permanecem na invisibilidade sem terem quem cuide deles. Atento, sensível e generoso, o olhar de Aurélie Oliveira Pernet é cirúrgico, colocando-se do lado do cuidador e chamando a atenção para as injustiças que o acometem. Com uma superior interpretação de Tânia Alves no papel de Otília, o filme desperta a atenção do espectador para um problema ao qual o Estado tarda em dar solução.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #59



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #59
Escola de Artes e Ofícios
90 Minutos | Maiores de 14 anos
07 Abr 2022 | qui | 21:30


Com menos público do que habitualmente, a segunda sessão da sexta temporada do Shortcutz Ovar decorreu sob o signo da perda. Foi assim com “Chama-se Carla”, filme que abriu a noite e cujo momento-chave é a perda de um filho durante a gravidez. Trabalho de estreia de Cátia Biscaia, superiormente interpretado por Inês Sá Frias e Tobias Monteiro, o filme conta a história de Carla, jovem grávida de oito meses, que passa os dias à porta do estabelecimento prisional onde o companheiro cumpre pena por tráfico de droga. Feita de longas esperas e de conversas ao telemóvel ou com um dos guardas prisionais, a rotina é quebrada abruptamente quando Carla sente uma contração violenta e é levada ao hospital onde acaba por perder o seu bebé. Superar a dor da perda e começar de novo, eis o desafio. Com enorme sensibilidade, Cátia Biscaia escreveu e realizou um filme que toca o espectador pelo lado humano das questões abordadas, falando dos obstáculos que se atravessam no nosso caminho e do valor de não estarmos sós quando tudo parece desabar à nossa volta.

Também Alice tenta reencontrar o seu trisavô, um soldado japonês que combateu ao lado do exército britânico durante a I Guerra Mundial e que, vindo para Portugal, aqui deixou a sua semente antes de desaparecer. Fixando o olhar no céu, a menina recorda a história que a mãe conta acerca das mantas, essas raias gigantes que, deixando o mar, se erguem às centenas no voo, cruzando altas montanhas e florestas imensas, sobrevoando as nossas cidades e as nossas casas. Serão espíritos? Será o trisavô uma daquelas mantas? Filme de animação de Bruno Carnide, “O Voo das Mantas” conta uma história muito simples mas muito bonita, que mistura realidade e ficção. Com um traço depurado – curioso o aproveitamento que Carnide faz dos trabalhos de Cátia Biscaia, fotógrafa profissional, baseando-se neles para o desenho de belíssimos cartões -, o realizador apela à nossa condição de crianças, alçando-nos num voo feito de liberdade e magia e levando-nos ao encontro de um mundo onde todos os sonhos são concretizáveis.

A fechar a noite, “Yard Kings” trouxe-nos a história de duas crianças que fogem de um ambiente marcado pela violência doméstica, refugiando-se no caótico espaço de uma sucata em busca da felicidade. No limite, este é um filme sobre a perda da inocência, mas também sobre a extraordinária capacidade que as crianças têm de erguer novos mundos e de os tornar acessíveis aos adultos. Retirando uma enorme força de uma realidade tão terrivelmente presente, “Yard Kings” debruça-se sobre o problema da violência doméstica através do olhar dos mais novos, vítimas inocentes da disfuncionalidade das relações no seio das próprias famílias. Nesta que é a sua obra de estreia, Vasco Alexandre revela uma maturidade invulgar, tanto na mensagem que pretende fazer passar como na forma como tira partido dos recursos que tem à sua disposição. A pontuar o trabalho de realização está a a superior direcção de dois jovens actores – David Price e Elle Atkinson, de 10 anos e 9 anos, respectivamente –, dos quais extrai o que de melhor têm em matéria de expressividade, inocência e pureza. De uma ternura sem limites, o final do filme é uma lição para todos. O remate perfeito de mais uma excelente noite de cinema curto.