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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

CINEMA: "Orwell: 2 + 2 = 5" | Raoul Peck



CINEMA: “Orwell: 2 + 2 = 5”
Realização | Raoul Peck
Argumento | Raoul Peck
Fotografia | Benjamin Bloodwell, Stuart Luck, Julian Schwanitz
Montagem | Alexandra Strauss
Interpretação | Damian Lewis, George Orwell, U Win Khine, Min Aung Hlaing, Augusto Pinochet, Ferdinand Marcos, Yoweri Museveni, Vladimir Putin, Viktor Orbán, George W. Bush, Colin Powell, Victor Otto, Ida Blair, Richard Blair, Donald Trump, Vyacheslav Molotov
Produção | George Chignell, Alex Gibney, Raoul Peck, Nick Shumaker
2025 | França, Estados Unidos | Biografia, Documentário | 119 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 18
24 Jan 2026 | sab | 18:15

Prolongando uma filmografia coerente e reconhecível, marcada pela vontade de ler o presente à luz das fracturas do passado, “Orwell: 2 + 2 = 5” traz-nos o melhor cinema de Raoul Peck. À semelhança de “I Am Not Your Negro” ou do mais recente “Ernest Cole: Perdido e Achado”, o cineasta estrutura o documentário a partir dos escritos de um autor, neste caso Eric Arthur Blair (George Orwell é pseudónimo), transformando a biografia numa lente para observar a degradação política e moral do mundo contemporâneo. Peck não procura revelar um Orwell desconhecido, mas antes reafirmar a sua dimensão profética, e visionária, sublinhando que nada do que é dito é verdadeiramente novo, neste paradoxo residindo a força do filme. A vida de Orwell surge condensada em momentos-chave da sua formação social e política - o colonialismo britânico na Birmânia, a Guerra Civil de Espanha, a passagem pela BBC - que lhe permitiram compreender, por dentro, os mecanismos de dominação, propaganda e manipulação da linguagem. A narração grave de Damian Lewis confere unidade e intimidade a um discurso composto exclusivamente por palavras de Orwell, reafirmando a ideia de que o escritor continua a falar directamente para o nosso tempo.

Formalmente, o documentário aposta numa montagem frenética e associativa, cruzando arquivos históricos, excertos de adaptações de um grande conjunto de filmes, com destaque para “1984” e “Animal Farm”, imagens da actualidade e fragmentos televisivos, para ilustrar conceitos como a novilíngua, o duplipensamento ou a vigilância total (“Big Brother is Watching You”). A célebre equação “2+2=5”, extraída da cena de tortura em “1984”, torna-se o eixo simbólico do filme, reaparecendo em múltiplas versões para mostrar até onde pode ir a persuasão autoritária. Peck examina, um por um, os slogans do romance - “War is Peace”, “Ignorance is Strength”, “Freedom is Slavery” -, associando-os a conflitos recentes, à desinformação, ao apagamento da memória histórica e à erosão das liberdades nas democracias ocidentais. A presença de figuras como Donald Trump, Benjami, Netanyahu, Viktor Orban ou Vladimir Putin ( e também Georges Soros e Elon Musk, Jeff Bezos, Silvio Berlusconi e os patrões da Globo) bem como o recurso a imagens de vigilância tecnológica e reescrita visual da história, de “deep fakes”, instrumentalização das redes sociais e inteligência artificial, actualizam o universo orwelliano e dão força a uma narrativa baseada nas vivências do escritor.

O efeito final é o de um filme contundente e deliberadamente desconfortável, que funciona menos como um alerta do que como um diagnóstico tardio. “Orwell: 2 + 2 = 5” instala no espectador a inquietante sensação de que habitamos já a distopia imaginada por Orwell, não como resultado de uma ruptura súbita, antes de um processo lento, gradual e amplamente normalizado. A erosão da verdade, a corrosão da linguagem e a diluição da responsabilidade política surgem como fenómenos quotidianos, aceites com uma mistura de fadiga cívica e resignação. Peck não oferece saídas fáceis nem momentos de catarse: a acumulação de imagens de violência simbólica e real, de discursos manipulados e de tecnologias usadas como instrumentos de controlo, gera um sentimento de asfixia, reforçado por metáforas visuais como os bacilos da tuberculose que se expandem ou o som recorrente da respiração ofegante de um Orwell tomado pela doença. A esperança final, ancorada na confiança do biografado nas “proles” como força histórica capaz de vencer os extremismos, surge mais como um gesto de fidelidade ao pensamento do escritor do que como uma convicção do próprio filme. Nesse sentido, o documentário encerra com uma nota ambígua e profundamente perturbadora: se ainda existe alguma possibilidade de resistência, ela parece depender menos da lucidez dos sistemas políticos do que da capacidade individual de preservar valores morais, quando alguém persiste em fazer crer que 2 + 2 = 5.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

CINEMA: “Ernest Cole: Perdido e Achado” | Raoul Peck



CINEMA: “Ernest Cole: Perdido e Achado” / “Ernest Cole: Lost and Found”
Realização | Raoul Peck
Argumento | Ernest Cole, Raoul Peck
Fotografia | Wolfgang Held, Moses Tau
Montagem | Alexandra Strauss
Interpretação | LaKeith Stanfield, Ernest Cole, Leslie Matlaisane, Jürgen Schadeberg, Gerrie Hugo, Joe Mamasela, Benzien Jeffrey, Ashley Forbes, Helen Joseph
Produção | Raoul Peck, Tamara Rosemberg
França, Estados Unidos | 2024 | Documentário, Biografia, História | 105 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 19
25 Set 2025 | qui | 16:00


“Na África do Sul tinha medo de ser preso, nos Estados Unidos tinha medo de ser morto.”

Ernest Cole foi uma figura seminal na história da fotografia documental, sendo o primeiro fotógrafo negro freelancer a emergir da África do Sul durante o regime brutal do apartheid. As suas imagens não só documentam as condições opressivas e desumanas impostas pelos poderes segregacionistas, mas também rompem o silêncio global em torno da injustiça racial naquele país. A sua coragem em capturar a realidade sem filtros fez dele um alvo do regime, forçando-o ao exílio nos Estados Unidos, onde continuou a sua luta pela justiça através da arte. O documentário de Raoul Peck, “Ernest Cole: Perdido e Achado”, não apenas celebra a obra artística de Cole, mas também revela a complexidade da sua vida pessoal e o impacto duradouro das suas fotografias, que permanecem tão poderosas hoje quanto na altura em que foram captadas. A descoberta recente de cerca de sessenta mil negativos guardados num cofre em Estocolmo adiciona uma dimensão inédita à sua narrativa, permitindo um olhar mais amplo sobre o seu legado e a profundidade do seu olhar crítico.

A construção do filme é uma verdadeira obra-prima do storytelling documental, combinando habilmente imagens de arquivo, fotografias inéditas e a narração emotiva de LaKeith Stanfield, que dá voz ao próprio Cole. Esta escolha narrativa permite que o espectador mergulhe não só nas condições sociais e políticas da África do Sul do século XX, mas também nos pensamentos íntimos do fotógrafo, que escreveu e reflectiu profundamente sobre o seu trabalho e as dificuldades do exílio. Peck cria um retrato multifacetado, onde o documento visual se torna também uma introspecção sobre identidade, perda e resistência. O filme transcende a mera biografia, convertendo-se numa reflexão poderosa sobre a arte como instrumento de denúncia e transformação social, e sobre o preço pessoal que a criação artística pode acarretar quando confrontada com regimes opressores.

Além do seu valor artístico e histórico, “Ernest Cole: Perdido e Achado” é uma análise dolorosa das consequências do apartheid, não só para o fotógrafo, mas para toda uma geração de sul-africanos negros que enfrentaram a repressão, o deslocamento e a invisibilidade. O documentário ilumina as tensões da vida no exílio, o sentimento de nostalgia e a luta pela preservação da memória num mundo que, a cada novo dia, parece obstinado em reescrever a História e em passar um pano sobre os factos mais incómodos. A redescoberta dos negativos esquecidos dá voz a um arquivo silenciado e celebra a importância da memória cultural na resistência contra a opressão. Apesar de algumas irregularidades no ritmo narrativo, sobretudo na sua parte final, o filme é uma peça fundamental para entender a intersecção entre arte, história e direitos humanos, tornando-se uma obra indispensável para quem valoriza o poder da fotografia como forma de justiça social e como testemunho eterno da humanidade.