CINEMA: “Orwell: 2 + 2 = 5”
Realização | Raoul Peck
Argumento | Raoul Peck
Fotografia | Benjamin Bloodwell, Stuart Luck, Julian Schwanitz
Montagem | Alexandra Strauss
Interpretação | Damian Lewis, George Orwell, U Win Khine, Min Aung Hlaing, Augusto Pinochet, Ferdinand Marcos, Yoweri Museveni, Vladimir Putin, Viktor Orbán, George W. Bush, Colin Powell, Victor Otto, Ida Blair, Richard Blair, Donald Trump, Vyacheslav Molotov
Produção | George Chignell, Alex Gibney, Raoul Peck, Nick Shumaker
2025 | França, Estados Unidos | Biografia, Documentário | 119 Minutos | Maiores de 14 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 18
24 Jan 2026 | sab | 18:15
Prolongando uma filmografia coerente e reconhecível, marcada pela vontade de ler o presente à luz das fracturas do passado, “Orwell: 2 + 2 = 5” traz-nos o melhor cinema de Raoul Peck. À semelhança de “I Am Not Your Negro” ou do mais recente “Ernest Cole: Perdido e Achado”, o cineasta estrutura o documentário a partir dos escritos de um autor, neste caso Eric Arthur Blair (George Orwell é pseudónimo), transformando a biografia numa lente para observar a degradação política e moral do mundo contemporâneo. Peck não procura revelar um Orwell desconhecido, mas antes reafirmar a sua dimensão profética, e visionária, sublinhando que nada do que é dito é verdadeiramente novo, neste paradoxo residindo a força do filme. A vida de Orwell surge condensada em momentos-chave da sua formação social e política - o colonialismo britânico na Birmânia, a Guerra Civil de Espanha, a passagem pela BBC - que lhe permitiram compreender, por dentro, os mecanismos de dominação, propaganda e manipulação da linguagem. A narração grave de Damian Lewis confere unidade e intimidade a um discurso composto exclusivamente por palavras de Orwell, reafirmando a ideia de que o escritor continua a falar directamente para o nosso tempo.
Formalmente, o documentário aposta numa montagem frenética e associativa, cruzando arquivos históricos, excertos de adaptações de um grande conjunto de filmes, com destaque para “1984” e “Animal Farm”, imagens da actualidade e fragmentos televisivos, para ilustrar conceitos como a novilíngua, o duplipensamento ou a vigilância total (“Big Brother is Watching You”). A célebre equação “2+2=5”, extraída da cena de tortura em “1984”, torna-se o eixo simbólico do filme, reaparecendo em múltiplas versões para mostrar até onde pode ir a persuasão autoritária. Peck examina, um por um, os slogans do romance - “War is Peace”, “Ignorance is Strength”, “Freedom is Slavery” -, associando-os a conflitos recentes, à desinformação, ao apagamento da memória histórica e à erosão das liberdades nas democracias ocidentais. A presença de figuras como Donald Trump, Benjami, Netanyahu, Viktor Orban ou Vladimir Putin ( e também Georges Soros e Elon Musk, Jeff Bezos, Silvio Berlusconi e os patrões da Globo) bem como o recurso a imagens de vigilância tecnológica e reescrita visual da história, de “deep fakes”, instrumentalização das redes sociais e inteligência artificial, actualizam o universo orwelliano e dão força a uma narrativa baseada nas vivências do escritor.
O efeito final é o de um filme contundente e deliberadamente desconfortável, que funciona menos como um alerta do que como um diagnóstico tardio. “Orwell: 2 + 2 = 5” instala no espectador a inquietante sensação de que habitamos já a distopia imaginada por Orwell, não como resultado de uma ruptura súbita, antes de um processo lento, gradual e amplamente normalizado. A erosão da verdade, a corrosão da linguagem e a diluição da responsabilidade política surgem como fenómenos quotidianos, aceites com uma mistura de fadiga cívica e resignação. Peck não oferece saídas fáceis nem momentos de catarse: a acumulação de imagens de violência simbólica e real, de discursos manipulados e de tecnologias usadas como instrumentos de controlo, gera um sentimento de asfixia, reforçado por metáforas visuais como os bacilos da tuberculose que se expandem ou o som recorrente da respiração ofegante de um Orwell tomado pela doença. A esperança final, ancorada na confiança do biografado nas “proles” como força histórica capaz de vencer os extremismos, surge mais como um gesto de fidelidade ao pensamento do escritor do que como uma convicção do próprio filme. Nesse sentido, o documentário encerra com uma nota ambígua e profundamente perturbadora: se ainda existe alguma possibilidade de resistência, ela parece depender menos da lucidez dos sistemas políticos do que da capacidade individual de preservar valores morais, quando alguém persiste em fazer crer que 2 + 2 = 5.
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