A história da fotografia Polaroid confunde-se com uma das promessas mais sedutoras da modernidade: a possibilidade de assistirmos ao nascimento de uma imagem. Fundada em 1937 por Edwin Land e popularizada desde 1948 com a introdução da fotografia instantânea, a Polaroid alterou radicalmente a relação entre o fotógrafo, o tempo e a imagem. Num mundo habituado à espera - dias ou semanas até à revelação -, a fotografia passou a acontecer diante dos olhos, quase como um pequeno milagre doméstico. Essa instantaneidade não era apenas técnica, mas também emocional, transformando a Polaroid num objecto tão pessoal quanto artístico. Ao longo das décadas, a singularidade material da imagem e a sua irrepetibilidade atraiu figuras do mundo das artes como Andy Warhol, David Hockney ou Robert Mapplethorpe, capazes de encontrarem na imperfeição um território fértil para a experimentação e a intimidade. O seu desaparecimento e o subsequente renascimento, impulsionado pelo polaco Wiaczesław Smołokowski e pelo projecto comercial “Polaroid Originals”, inscreveram a Polaroid num ciclo de nostalgia activa: um revivalismo que não se limita à recuperação de um objecto do passado, mas que revaloriza a atitude de fotografar mais pausadamente, aceitar o acaso e celebrar o erro como linguagem.
É nesse território entre herança e reapropriação que se inscreve “Momento Polaroid”, de Filipe Carneiro, exposição patente no Centro de Reabilitação do Norte e inserida nas “Propostas Fotográficas” da iNstantes – Associação Cultural. Entendendo a polaroid não como mera curiosidade, mas como campo expressivo pleno, o artista mostra um conjunto de trinta imagens dialogantes entre si e unidas por afinidades subtis, dos temas recorrentes aos jogos formais, das variações de luz e cor à especificidade dos diferentes tipos de filme utilizados. Esta disposição convida o visitante a uma leitura atenta, quase táctil, no sentido de perceber a relevância de cada imagem tanto na sua autonomia como na relação com o conjunto. É tempo de reconhecer as potencialidades da Polaroid, mas também as suas limitações, e perceber que o foco suave, as dominantes cromáticas inesperadas, as margens por vezes instáveis, longe de empobrecerem a imagem, acabam por lhe conferir um carácter único e densidade poética. Filipe Carneiro trabalha precisamente nesse limiar, explorando a chamada “beleza da imperfeição” como valor estético e conceptual. As falhas eventuais - fugas de luz, enquadramentos instintivos, nuances do processo químico - não são ocultadas, antes assumidas como parte integrante do gesto fotográfico.
Num tempo marcado pela abundância infinita de imagens e pela sua correcção obsessiva, que privilegia o instantâneo apenas enquanto descartável, a fotografia Polaroid ocupa um lugar quase filosófico de resistência. Ao olharmos uma Polaroid, confrontamo-nos com a fotografia enquanto objecto palpável, que rejeita a nuvem. Ela volta a mostrar-se como algo que se segura, que obriga a que lhe avaliemos volume e peso, cujo processo de envelhecimento guarda marcas do tempo e da memória. Numa relação fértil, terna e sensível entre forma e afecto, há nela tanto de sentimental como de artístico. O gesto de aguardar que a imagem se revele, de a proteger da luz, de aceitar aquilo em que decide tornar-se, contrasta com a lógica de controlo absoluto e perfeição do digital. A estética imperfeita torna-se, assim, um refúgio e um manifesto: um elogio do erro, do acaso, da finitude. Guardar um momento em papel, com todas as suas fragilidades e riscos, é cada vez mais um capricho, mas que concorre para a construção de um espaço de aconchego, uma pausa num mundo cada vez mais acelerado e impessoal. E esse é o grande desígnio da exposição de Filipe Carneiro, o de nos lembrar que a fotografia, mais do que consumo visual, pode ser presença, memória e matéria.
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