Páginas

sábado, 24 de janeiro de 2026

LIVRO: "Quantas Madrugadas Tem a Noite" | Ondjaki



LIVRO: “Quantas Madrugadas Tem a Noite”,
de Ondjaki
Ed. Editorial Caminho, 2004 (5.ª edição, Fevereiro de 2018)


“Ando a pensar estes dias: tanta coisa anda a me acontecer na minha vida, mesmo incluindo esta minha conversa contigo aqui, que ficas só a me deitar olhares desses, tipo eu sou maluco de ficar a te contar bué de mambos, várias direcções da conversa, às vezes num captas, né?, pensas que eu avario, mudo sulinorte nos poentes e nascentes, trocadilhos dos personagens, é isso? Calma só, muadiê, como eu digo: pra saber q’a maré tem quatro comportamentos, é preciso olhar o mar um dia inteiro, estás a captar? O que eu te ponho aqui, dica ou recordação, vais precisar pra entender tudo. Portanto, desculpa só, eu sei: meus devaneios todos, minhas outras lembranças, mas tá tudo ligado, num dá pra fugir, os assuntos tão todos aqui, minha cabeça cansada, minha sede também. Sai mais uma birra?”

Está o leitor convidado a sentar-se à mesa de um bar de Luanda e a aceitar uma cerveja atrás de outra, não tanto para matar a sede, mas para afinar a escuta. É desse espaço nocturno e suspenso que rompe “Quantas Madrugadas Tem a Noite”, história de contornos surrealistas narrada por uma figura cujo nome só nas últimas páginas viremos a conhecer, grande amante de “birras” fresquinhas e de uma boa e longa conversa. Dirigindo-se a nós, “avilos”,  transforma-nos em cúmplices de um relato que avança aos solavancos, cheio de parêntesis, desvios e “eteceteras”, como toda a conversa verdadeiramente humana. O fio condutor é a morte improvável de AdolfoDido, mordido por uma carraça de um cão quase mitológico, mas o enredo rapidamente se multiplica: o cadáver que não descansa, as ex-mulheres que disputam o estatuto de viúva do Estado, o processo judicial que se adensa, os amigos chamados a testemunhar.

Misturando humor, suspense e uma certa melancolia que só a madrugada sabe trazer, Ondjaki constrói a narrativa como um novelo que se desenrola sem pressas, mais interessado no prazer do contar do que na urgência da resolução. A grande força do livro reside, porém, na linguagem. Escrito num registo profundamente oral e popular, “Quantas Madrugadas Tem a Noite” assume sem pudor o calão, o erro gramatical, o desvio sintático e a contaminação do português pelo umbundu e pelo kimbundu. O que à primeira leitura pode causar estranheza - e até alguma resistência - acaba por se entranhar, revelando-se uma das experiências mais fascinantes do romance. Ondjaki eleva a fala de um homem comum de Luanda à categoria de literatura, mostrando como a língua portuguesa, longe de ser um bloco fixo, é matéria viva, em permanente aculturação. O glossário no final funciona mais como rede de segurança do que como muleta indispensável: rapidamente o leitor aprende a ouvir mais do que a traduzir, deixando-se levar pelo ritmo, pela musicalidade e pela lógica interna desse falar.

Tal como em Guimarães Rosa, a língua aqui não serve apenas para contar a história — ela é a própria história. Nesse universo verbal exuberante desfilam personagens memoráveis e quase surrealistas: o anão BurkinaFaçam, empreendedor de esquemas; Jaí, o professor albino de uma honestidade luminosa; a KotaDasAbelhas, rainha improvável de uma colmeia doméstica; e O Cão, criatura temida, tratada como sultão. Entre cheias diluvianas, memórias de guerra, fraudes burocráticas e mortes mal resolvidas, o romance desenha também um retrato socio-cultural de Angola, sem peso académico, mas com uma ternura adulta que observa, ri e reflecte. Sob uma capa cuja leveza é apenas aparente, abrigam-se os temas mais densos: o peso do passado, a precariedade do quotidiano, a astúcia como forma de sobrevivência, o tempo que se dilata numa única noite. No fim, percebemos que a pergunta do título não pede uma resposta exacta. Numa boa história - como numa boa madrugada - o tempo mede-se pela intensidade de uma boa conversa.

Sem comentários:

Enviar um comentário