Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Editorial Caminho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Editorial Caminho. Mostrar todas as mensagens

sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: "Hoje, 3 de Maio" | Patrícia Portela



LIVRO: “Hoje, 3 de Maio”,
de Patrícia Portela
Ed. Editorial Caminho, Maio de 2026


“Para sobreviveres, tens de fuzilar ou ser fuzilado. E tu aceitas ou recusas a ordem dos eventos, mas não podes ficar indiferente. E por isso fuzilas(-te).
Numa praça, num tribunal, num parlamento, numa arena, mas também numa escola. Em casa, na rua, a caminho do trabalho, num lugar recôndito, num lugar público, num subterrâneo.
3 de maio repete-se. Hoje, amanhã e depois. Repetiu-se ontem. Repete-se sempre.”

Começarei por dizer que “Hoje, 3 de Maio” dificilmente existiria sem a atribuição a Patrícia Portela da 2.ª Bolsa Literária da Embaixada de Portugal em Espanha, o que permitiu à escritora passar um mês no Museu Nacional do Prado, em Madrid, durante o ano de 2022. Dessa convivência quotidiana com a pintura de Goya nasceu muito mais do que um exercício de interpretação histórica ou artística. Nasceu uma investigação sobre o olhar, sobre a memória e sobre a capacidade de preservarmos a nossa humanidade perante a repetição da barbárie. “Hoje, 3 de Maio” abre uma fissura no tempo. Patrícia Portela conduz o leitor numa viagem onde passado, presente e futuro coexistem em estado de permanente inquietação. Eternizado por Goya, o levantamento madrileno de 1808 não surge como mero episódio encerrado na moldura dos tempos, mas como uma ferida que não cessa de sangrar e doer. Mais do que narrar os factos, o romance interroga a sua própria natureza, lembrando que a verdade raramente avança em linha recta. Cada página funciona como uma câmara de ecos onde os mortos falam com os vivos, os vivos respondem aos que ainda estão por nascer e os acontecimentos reflectem-se uns nos outros, como espelhos colocados frente a frente e que fazem com que nos projectemos até ao infinito.

Além da densidade, acutilância e imaginação, a escrita de Patrícia Portela possui uma qualidade profundamente polifónica. Não se limita a contar: escuta. Escuta os carrascos e as vítimas, os fantasmas e os arquivos, os soldados e os pintores, os visitantes de museu e as mulheres que entram numa papelaria para levantar uma encomenda. As vozes sucedem-se, cruzam-se, contradizem-se, ampliam-se, formando uma composição coral de extraordinária complexidade. Há momentos em que a narrativa assume o tom de um depoimento histórico; noutros, mergulha no monólogo íntimo, na alucinação, na sátira ou na meditação filosófica. Daqui resulta uma obra onde cada discurso convoca um novo discurso, onde cada pergunta abre uma nova galeria de perguntas. Essa multiplicidade formal encontra correspondência numa impressionante diversidade de géneros. “Hoje, 3 de Maio” move-se com igual naturalidade entre o épico e o coloquial, a ficção e o ensaio, o lirismo e o drama, o thriller e a farsa. O livro é simultaneamente romance, investigação, elegia, manifesto e dispositivo cénico, o que vale por dizer que poucas obras contemporâneas dispõem de uma tão rara capacidade para mudar de registo sem perder unidade, fazendo da heterogeneidade uma forma superior de coerência.

Partindo da contemplação obsessiva de “Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808”, de Goya, a autora leva a que o livro se expanda até adquirir uma dimensão universal. O que tem numa tela o seu ponto de partida transforma-se numa cartografia da violência humana. As mães da Praça de Maio surgem ao lado das vítimas do genocídio em Gaza; Cristo perante Pilatos encontra-se com os escombros da Guerra da Ucrânia; o Massacre de Lisboa de 1506 dialoga com os instantes decisivos do 25 de Abril na Rua do Arsenal. Nada aqui é gratuito ou ornamental. Patrícia Portela estabelece ligações inesperadas entre acontecimentos separados por séculos e continentes, revelando continuidades morais que a História oficial, cada vez mais, procura ocultar. A sua escrita demonstra que a violência muda de uniforme, de língua e de bandeira, mas nunca abdica dos seus mecanismos fundamentais. O quadro de Goya converte-se, assim, numa espécie de espelho universal, onde regressam incessantemente as mesmas perguntas: quem dispara, quem obedece, quem observa, quem se insurge, quem se resigna, quem cala. O livro obriga-nos a reconhecer que a distância histórica não constitui uma absolvição e que a condição de espectador pode muito bem ser uma forma de cumplicidade.

“Hoje, 3 de Maio” demonstra que a literatura continua a ser um dos poucos lugares onde a complexidade do mundo pode manifestar-se sem rodeios. Nele, o tempo torna-se matéria porosa, atravessada por vozes, imagens e memórias que se contaminam mutuamente. Dessa recusa da linearidade nasce uma poderosa reflexão sobre a responsabilidade histórica, sobre aquilo que escolhemos recordar e sobre o que preferimos deixar afundar-se na sombra. Ler este livro é compreender que nenhum acontecimento termina verdadeiramente quando acaba; continua a reverberar através dos tempos, à espera de novos olhos que o reconheçam. Livro de pensamento e de imaginação, de indignação e de beleza, de arquivo e de vertigem, esta é uma obra de enorme generosidade, que agita e desassossega, mas que, como poucas, é absolutamente inspiradora, capaz de transformar uma pintura num tribunal moral e um instante histórico numa pergunta dirigida ao nosso próprio tempo. Ao fechar estas páginas, fica-se com a sensação de que Goya continua diante de nós, fósforo aceso na escuridão, pequenina luz bruxuleante que ilumina não apenas o que fomos, mas sobretudo o que somos e o que viremos a ser.

sábado, 24 de janeiro de 2026

LIVRO: "Quantas Madrugadas Tem a Noite" | Ondjaki



LIVRO: “Quantas Madrugadas Tem a Noite”,
de Ondjaki
Ed. Editorial Caminho, 2004 (5.ª edição, Fevereiro de 2018)


“Ando a pensar estes dias: tanta coisa anda a me acontecer na minha vida, mesmo incluindo esta minha conversa contigo aqui, que ficas só a me deitar olhares desses, tipo eu sou maluco de ficar a te contar bué de mambos, várias direcções da conversa, às vezes num captas, né?, pensas que eu avario, mudo sulinorte nos poentes e nascentes, trocadilhos dos personagens, é isso? Calma só, muadiê, como eu digo: pra saber q’a maré tem quatro comportamentos, é preciso olhar o mar um dia inteiro, estás a captar? O que eu te ponho aqui, dica ou recordação, vais precisar pra entender tudo. Portanto, desculpa só, eu sei: meus devaneios todos, minhas outras lembranças, mas tá tudo ligado, num dá pra fugir, os assuntos tão todos aqui, minha cabeça cansada, minha sede também. Sai mais uma birra?”

Está o leitor convidado a sentar-se à mesa de um bar de Luanda e a aceitar uma cerveja atrás de outra, não tanto para matar a sede, mas para afinar a escuta. É desse espaço nocturno e suspenso que rompe “Quantas Madrugadas Tem a Noite”, história de contornos surrealistas narrada por uma figura cujo nome só nas últimas páginas viremos a conhecer, grande amante de “birras” fresquinhas e de uma boa e longa conversa. Dirigindo-se a nós, “avilos”,  transforma-nos em cúmplices de um relato que avança aos solavancos, cheio de parêntesis, desvios e “eteceteras”, como toda a conversa verdadeiramente humana. O fio condutor é a morte improvável de AdolfoDido, mordido por uma carraça de um cão quase mitológico, mas o enredo rapidamente se multiplica: o cadáver que não descansa, as ex-mulheres que disputam o estatuto de viúva do Estado, o processo judicial que se adensa, os amigos chamados a testemunhar.

Misturando humor, suspense e uma certa melancolia que só a madrugada sabe trazer, Ondjaki constrói a narrativa como um novelo que se desenrola sem pressas, mais interessado no prazer do contar do que na urgência da resolução. A grande força do livro reside, porém, na linguagem. Escrito num registo profundamente oral e popular, “Quantas Madrugadas Tem a Noite” assume sem pudor o calão, o erro gramatical, o desvio sintático e a contaminação do português pelo umbundu e pelo kimbundu. O que à primeira leitura pode causar estranheza - e até alguma resistência - acaba por se entranhar, revelando-se uma das experiências mais fascinantes do romance. Ondjaki eleva a fala de um homem comum de Luanda à categoria de literatura, mostrando como a língua portuguesa, longe de ser um bloco fixo, é matéria viva, em permanente aculturação. O glossário no final funciona mais como rede de segurança do que como muleta indispensável: rapidamente o leitor aprende a ouvir mais do que a traduzir, deixando-se levar pelo ritmo, pela musicalidade e pela lógica interna desse falar.

Tal como em Guimarães Rosa, a língua aqui não serve apenas para contar a história — ela é a própria história. Nesse universo verbal exuberante desfilam personagens memoráveis e quase surrealistas: o anão BurkinaFaçam, empreendedor de esquemas; Jaí, o professor albino de uma honestidade luminosa; a KotaDasAbelhas, rainha improvável de uma colmeia doméstica; e O Cão, criatura temida, tratada como sultão. Entre cheias diluvianas, memórias de guerra, fraudes burocráticas e mortes mal resolvidas, o romance desenha também um retrato socio-cultural de Angola, sem peso académico, mas com uma ternura adulta que observa, ri e reflecte. Sob uma capa cuja leveza é apenas aparente, abrigam-se os temas mais densos: o peso do passado, a precariedade do quotidiano, a astúcia como forma de sobrevivência, o tempo que se dilata numa única noite. No fim, percebemos que a pergunta do título não pede uma resposta exacta. Numa boa história - como numa boa madrugada - o tempo mede-se pela intensidade de uma boa conversa.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

LIVRO: "Gaza Está em Toda a Parte" | Alexandra Lucas Coelho



LIVRO: “Gaza Está em Toda a Parte”,
de Alexandra Lucas Coelho
Fotografias | Alexandra Lucas Coelho
Ed. Editorial Caminho, Maio de 2025


“Os EUA apoiam os bombardeamentos para pressionar o Hamas. A UE segue incapaz de qualquer sanção a Israel. Centenas de milhares em Gaza são outra vez expulsos de várias zonas. Israel ameaça anexá-las, cria um ‘Gabinete de Emigração Voluntária’, impede toda a entrada de ajuda há um mês. A fome alastra, os hospitais estão cheios de corpos. Dezenas de crianças voltam a ser amputadas sem anestesia. Os mortos ultrapassam 50 mil. A estimativa incluindo desaparecidos é acima de 60 mil, segundo as autoridades de Gaza. E muito acima disso no último estudo da revista científica The Lancet (só até Outubro de 2024, 70 mil mortos). Mais 110 mil feridos, dois milhões de deslocados, a razia de um território, com o seu património de milénios. Um genocídio em directo - e em curso - que a imprensa de fora continua a não cobrir. O maior apagão na história do jornalismo. O colapso humano.”

“Numa altura em que paira no ar a ameaça de reocupação da Cidade de Gaza, novos bombardeamentos israelitas voltaram a atingi-la na madrugada desta quarta-feira, com tanques e aviões a matarem pelo menos doze pessoas”. A notícia é de anteontem, mas podia ser do início do mês, do início do ano, de um qualquer dia de 2024 ou de há uns minutos apenas. O teor, desgraçadamente, é sempre o mesmo; o que varia é a expressão dos números, acrescentando a cada novo dia mais devastação e horror ao território de Gaza e aos seus habitantes. Há quase dois anos que as atrocidades não cessam de aumentar, contando-se até ao momento, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 61 mil mortos, incluindo pelo menos 18.000 crianças, e 151 mil feridos. Cesarianas e membros amputados a crianças sem anestesia, desnutrição aguda grave de toda a população, detenções arbitrárias sem culpa formada, deslocamentos forçados e constantes, falta de segurança, de serviços básicos ou de abrigos, jornalistas e médicos mortos ou detidos e um sistema de ajuda humanitária em colapso deixam no ar uma questão muito simples: Como é possível sobreviver nestas condições?

Este livro é a reafirmação daquilo que Alexandra Lucas Coelho nos vem dizendo desde “Oriente Próximo” e que estendeu aos magistrais “E a Noite Roda” e “Líbano, Labirinto”. Ou seja, que Gaza está em toda a parte. Está naquela terra esventrada pelas bombas onde vivem quase dois milhões de pessoas, das quais dois terços dependem da ONU desde há gerações; como está nos milhares de judeus americanos que ocuparam a Grand Central Station de Nova Iorque com t-shirts onde se podia ler “não em nosso nome”. Está na ruidosa e bruxuleante noite dos milhares de geradores roncando e das telas digitais que também fazem de lanterna, único ponto de fuga para cada palestiniano; como está na clara e corajosa mensagem de António Guterres nas Nações Unidas em que afirmou que a destruição em massa de Gaza é intolerável e deve parar. Está numa Europa refém da culpa do Holocausto desde a Segunda Guerra Mundial; como está na vala comum onde Israel pretendeu esconder quinze paramédicos executados de forma sumária. Está na mesa à roda da qual se reúne a família Tamimi sem saber se aquela será a sua última refeição; como está no drone assassino que se abateu sobre uma tenda nas imediações do Hospital Al-Shifa, ceifando a vida a seis jornalistas às primeiras horas do passado domingo.

“Gaza Está em Toda a Parte” abre no interior de uma cidade onde os jornalistas estão impedidos de entrar desde o 7 de Outubro e termina com um texto intitulado “A vossa vala comum: Carta aos governantes do país e da Europa onde nasci”. Reportagens, crónicas, alguns textos nunca publicados, 148 fotografias a cores, quase todas inéditas e notas de rodapé ajudam a contextualizar alguns dos assuntos abordados; há também actualizações, referências, mapas e fontes. Mas é o dedo de Alexandra Lucas Coelho a escarafunchar fundo nas feridas do genocídio que marca a leitura e faz de cada capítulo um potente murro no estômago. A cronologia dos factos tem na contagem actualizada de mortos e feridos do lado palestiniano um elemento impressivo e que impede o leitor de se alhear do que está a acontecer no preciso momento em que pousa o olhar numa nova página. De um lado Masha Gessem, Ilan Pappé, Francesca Albanese, Mahmoud Darwish, Etty Hillesum, o Papa Francisco ou o Tribunal Penal Internacional. Do outro as políticas belicistas e expansionistas de Trump e Biden, Órban e Ursula von der Leyen, e de todos aqueles que vergam a espinha ante o sionismo, “esse fruto monstruoso do monstruoso anti-semitismo europeu.” De um lado a coragem palestiniana. Do outro o poço sem fundo da vergonha que pesa sobre a Humanidade.

domingo, 10 de agosto de 2025

LIVRO: “A Chuva Pasmada” | Mia Couto



LIVRO: “A Chuva Pasmada”,
de Mia Couto
Ilustrações | Danuta Wojciechowska
Ed. Editorial Caminho, 2004 (4.ª edição, Agosto de 2024)


“Estanquei as pernas, sacudi a cabeça. Tudo aquilo me surgia sem a devida realidade. O avô, por exemplo, segurava uma cana de pesca. O fio pequeno e o anzol ficavam suspensos a uns palmos do chão. Pescava no ar. Haveria, dizia ele, sempre um peixe que não saberia separar as águas. O avô, mais os seus ditos. Enquanto fingia pescar, os olhos fixavam um inexistente horizonte. Pensava no nascimento da bezerra?”

Os livros de Mia Couto são sempre um milagre. Profundamente enraizados na cultura moçambicana, têm para oferecer as cores, os sons, os aromas e os sabores dessa porção oriental de uma África que o viu nascer há 70 anos. Tal como acontece com o conjunto da sua obra, a prosa está envolta numa sonoridade única que lhe acrescenta autenticidade e lirismo. Vestido de poesia, “A Chuva Pasmada” é um primor de realismo mágico, onde o natural e o quotidiano se mesclam com o fantástico e o sobrenatural. Também aqui vamos encontrar um significativo conjunto de elementos místicos, espirituais e fantásticos, em convivência estreita com o dia a dia simples, no qual a inocência das crianças e o conhecimento milenar dos anciãos ganham expressão e ajudam a reflectir sobre as questões universais da humanidade. Daí que não seja estranho que avô e neto se assumam como os pilares desta história, fazendo girar à sua volta os mundos do saber e da descoberta em matérias que cruzam identidade e memória, conhecimento e afirmação, representação pessoal e condição humana.

Um avô e um neto, sim. Mas também um pai e uma mãe, uma tia e… Ntoweni. Seis personagens que, tal como Neruda, irão “saltar para a água para cair no céu”, ante um gotejar sem chuva, um cacimbo sonolento e espesso, uma chuva pasmada. Chamar-lhe-ão chuvilho e rirão muito, para logo perceberem que a indecisão da chuva não é motivo de alegria e que a diferença entre andar e nadar são duas letrinhas apenas. Feitiço, maquinação de quem queira mal aos habitantes da aldeia, obra dos fumos da nova fábrica ou castigo de Deus, a inundação sem chão faz com que histórias adormecidas rompam à superfície: O homem morto num abraço, um barco que desce até ao mar largo, um rio que nasce de uma cabaça quebrada no chão, roupa lavada solta na corrente, um filho que se vê numa gota de chuva. Tudo muito bem arrumado numa mesma gaveta onde cabem milhares de arco-íris a luzinhar à volta de uma nuvem, um português falado com mais ondas que curvaturas, a certeza de que antes ao sol do que mal acompanhado, uma cadeira sagrada ou uma tia a rezar na pequenina igreja: “Pai nosso, cristais no Céu, santo e ficado seja o vosso nome.”

O leito seco de um rio, uma ponte em ruínas, um punhado de casas pobres, uma tabuleta de letras indistintas onde outrora estivera gravado “Sembora”, o nome da aldeia que os habitantes esqueceram. Também uma fábrica, com o seu ruído constante, os seus fumos, o seu patrão branco. Mundo deste nosso mundo, a aldeia e os seus habitantes parecem reger-se por leis diferentes, do domínio do sobrenatural, servindo de modelo ao olhar de Mia Couto e à sua necessidade de contrapor as realidades mais divergentes. Na representação dessas identidades, o autor questiona a visão sobre o homem africano, sobretudo os arquétipos de pureza ou autenticidade ainda presentes, bem como os lugares-comuns da sua representação: as crendices, a feitiçaria ou a sexualidade. Conceitos como a identidade cultural ou o conflito entre o olhar europeu e o periférico num contexto pós-colonial fazem vir ao de cima os estigmas supremacistas que persistem numa lógica colonizadora. É Moçambique ainda a encontrar o melhor rumo, toda uma sociedade em contínua construção, cinquenta anos volvidos sobre a independência.

domingo, 27 de julho de 2025

LIVRO: "Manual para Andar Espantada por Existir" | Patricia Portela



LIVRO: “Manual para Andar Espantada por Existir”,
de Patrícia Portela
Ed. Editorial Caminho, Junho de 2025


“Aqui é uma vergonha passar a todas as disciplinas na escola. Quem faz isso nunca terá sucesso. Os líderes deste lugar só podem ganhar eleições se os seus discursos só tiverem disparates, e não podem ter uma única boa ideia senão, esquece, ninguém vota neles. Consegues imaginar? Um mundo inteiro governado por idiotas? Estás a dizer que sim com a cabeça, mas não fazes ideia nenhuma do que aqui se passa!”

“O tempo tem lá dentro uma espiral / uma espiral que se chama história / e que num andar natural / e por força de vontade / resolveu ter um capricho / chamado liberdade”. Quando o poema foi escrito (e cantado), os seus versos exprimiam um tempo de exaltação, em que dava vontade de abraçar, sorrir, viver e gritar “somos livres, não voltaremos atrás.” A espiral do tempo, porém, tem no seu mecanismo um pequeno botãozinho que, quando accionado, faz com que tudo rode tão depressa que rapidamente a transforma em espiral do medo. Terá sido assim em 1933, quando José Gomes Ferreira olhou em volta e viu um senhor que usava sempre os mesmos sapatos, a clamar “que [o País] obedeça quando se chegar à altura de mandar”. Daí nasceu o folhetim “As Aventuras de João Sem Medo”, dedicado aos seus dois filhos, alertando-os para aqueles que “sujam o mundo e odeiam a Imaginação”. Quase um século depois, Patrícia Portela encontra inspiração no livro de José Gomes Ferreira e oferece-nos um “Manual para Andar Espantada por Existir”, assumindo o seu espanto por uma estranha forma de vida e lembrando que “ter medo é ter coragem e que só tem coragem quem tem medo”.

“Perfilados de medo, sem mais voz / O coração nos dentes oprimido / Os loucos, os fantasmas somos nós / Rebanho pelo medo perseguido / Já vivemos tão juntos e tão sós / Que da vida perdemos o sentido”. A história que Patrícia Portela nos conta tem o seu início em Antuérpia, mas poderia ser em Rabo de Peixe, no Fundão, em Ovar ou em Chora-Que-Logo-Bebes, como a terra do herói das aventuras sem medo que inspiraram este livro. É lá que a vamos encontrar, João Medrosa que é, juntamente com “um amigo de longa data, uma espécie de cara-metade belga, de seu nome Peter De Bie (parece Pedro, A Abelha, mas Bie não quer dizer abelha, é pena!)”, João Sem Medo no gesto e na pose. Gostam de conversar, de passear, de inventar coisas juntos e de se desafiar um ao outro. Daí que um estranho muro altíssimo que topam numa rua da cidade seja motivo de espanto, até porque nas suas pedras está gravada a frase: “Proibida a entrada a quem não andar espantado por existir”. Começa aqui uma enorme aventura no seio da Floresta Branca, depois de ambos se atreverem a saltar o muro. Saltar o muro? Que digo? Saltar era no João sem Medo”, do José Gomes Ferreira. Os tempos agora são outros e se o Harry Potter consegue atravessar o muro, como que por pura magia, os nossos heróis não lhe ficarão atrás.

“Viva, viva o cão raivoso / Tem o pelo eriçado / Seu dente é guloso / E o seu faro ajustado / Cão raivoso, cão raivoso, cuidado”. Estamos no interior da Floresta Branca e João Medrosa perdeu de vista o Abelha. Instada a escolher o caminho a seguir, opta pelo da Felicidade, como, aliás, qualquer um de nós optaria. Mas a felicidade que lhe querem impingir tem razões que a razão de João Medrosa despreza, a começar por uma personagem que parece saída de uma tela de Magritte e que apregoa que para se ser feliz é necessário perder a cabeça. Ou por um par de sapatos de estilo inglês, de cabedal italiano, com excelente dentadura a apertar o tornozelo, também conhecidos por Sapatos de Salazar, e que apregoa o andar, o pensar e o viver em círculos como único caminho para a felicidade. Entre paredes que se sentem sozinhas, colheres que piscam os olhos, fontes no meio do deserto, varinhas mágicas prontas a satisfazer todos os desejos e a casa da mariquinhas, o que Patrícia Portela nos diz é que tudo é possível no reino da imaginação. Deixemo-nos guiar por ela através de um mundo às avessas, dispostos a fazer algo tão necessário como enfrentar o medo. Imaginativo, irreverente, hilariante, visionário, delirante, inspirador, eis o Manual certo para quem acredita que “o sonho comanda a vida”. Ele leva-nos ao encontro desse outro botãozinho que permite inverter a espiral do medo e incita a lutar por igualdade e justiça, por uma “cidade sem muros nem ameias / gente igual por dentro, gente igual por fora”.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

LIVRO: "Oriente Próximo"



LIVRO: “Oriente Próximo”,
de Alexandra Lucas Coelho
Ed. Editorial Caminho, Outubro de 2007 (2ª. edição, Janeiro de 2024)


“Não sou uma pacifista. Contra a ocupação militar temos direito à resistência armada, de acordo com a lei internacional. Mas a luta armada, quando cresci, não era acções contra civis, mas contra o exército. Violência contra civis, não. Acho muito triste que tenhamos tomado a linguagem dos opressores. Quanto mais sei sobre a Palestina, mais tenho a certeza que era uma sociedade pacífica e gentil, de agricultura, comunitária. As oliveiras eram um esforço comunitário. E a Palestina perdeu e perdeu e perdeu. Quando Israel estava a construir este país, com bombas e tanques, os palestinianos ainda andavam com rebanhos, a colher azeitonas. Não estou interessada em adquirir a linguagem do opressor.”

“Oriente Próximo” é sobre judeus de canudos nas orelhas, chapéus de pelo como os trisavós no império russo e telemóveis de última geração; soldados bronzeados de óculos Dolce & Gabanna a beijarem soldadas bronzeadas de óculos Linda Farrow Vintage, ambos de M16 ao ombro; uma orquestra de músicos israelitas e árabes que se encontram como iguais perante Beethoven; um Hyundai dourado entre carcaças amolgadas no centro de Ramallah; a maior vela do mundo de Hanukkah; os heterónimos de Pessoa traduzidos para hebraico; a melhor focaccia com alecrim de Jerusalém. Mas também sobre a dor sem medo de uma pedra atirada contra um tanque; milhares de oliveiras destruídas para que os colonatos se possam expandir; checkpoints que são o primado da humilhação; campos de refugiados onde milhares vivem em condições sub-humanas; aviões que quebram a barreira do som sobre as casas às três da manhã; crianças que correm a recolher fragmentos fumegantes de obuses acabados de cair; o olhar opaco de uma mãe cujo filho de vinte anos se fez explodir matando seis israelitas.

Numa altura em que um novo capítulo do secular conflito entre Israel e Palestina mantém o assunto na ordem do dia, a reedição de “Oriente Próximo” mostra-se particularmente oportuna. Publicado originalmente em Outubro de 2007, o livro detalha o viver e sentir de israelitas e palestinianos, face ao clima de constante conflitualidade em que se encontram mergulhados. À luz daquilo que vamos sabendo sobre a situação na Faixa de Gaza – os últimos nove meses de ofensiva israelita saldam-se em mais de trinta e cinco mil mortos, oitenta e seis mil feridos e uma crise humanitária sem precedentes –, o livro é revelador de princípios e valores que sustentam as diferentes tomadas de posição, ao mesmo tempo mostrando que, sendo muito aquilo que separa os lados em conflito, será muito mais o que os aproxima. Um paradoxo em parte explicado pelo apoio dos Estados Unidos à sede expansionista de Telavive, com o silêncio cúmplice da Europa e a ineficácia da ONU em fazer valer declarações e acordos. É tudo isto que Alexandra Lucas Coelho nos oferece, numa escrita atenta e esclarecida, que recusa eufemismos e não recua perante a verdade dos factos.

Resultado de várias estadias como jornalista em Israel e nos Territórios Palestinianos Ocupados em viagens a partir de 2002, e em 2005-2006 como correspondente do Público, “Oriente Próximo” vai alternando entre a reportagem e a entrevista, dando a ver uma gama o mais ampla possível de pontos de vista de um e do outro lado do conflito. Aquilo que Alexandra Lucas Coelho faz é montar um autêntico puzzle. Missão impossível, digo eu, num quadro de absoluta complexidade, com um sem número de peças que não encaixam, mas não por inabilidade da autora. Prepare-se o leitor para uma escrita musculada, interventiva e exigente, um convite a ligar as pontas do multissecular “novelo”, na certeza de que muitas outras irão surgir para lá do livro. Janela aberta sobre territórios repetidamente flagelados, “Oriente Próximo” não julga, não sentencia, não dá palpites. Mas reafirma a certeza que não é possível encontrar uma solução para o conflito com mais guerra e mais horror.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

LIVRO: “Augusta B. ou as Jovens Instruídas 80 anos depois”



LIVRO: “Augusta B. ou as Jovens Instruídas 80 anos depois”,
de Joana Bértholo
Ed. Editorial Caminho, Maio de 2024

“Augusta, incrédula, não sabia se achava a história magnífica ou péssima. Quão aleatório pode ser isto do amor? Repetiu o nome: ‘Alberto Luís Alberto Luís Alberto Luís Alberto…’, como se a tentar perceber a origem do encantamento, a resolução desta charada. Como se a tentar perceber.”

Fevereiro de 1944. Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa, jovem de 22 anos a caminho de se tornar Agustina Bessa-Luís e de assinar algumas das obras mais marcantes da literatura portuguesa contemporânea, colocou um anúncio na secção “Diversos”, d’ O Primeiro de Janeiro. Nele podia ler-se: “JOVEM INSTRUÍDA desej. corresp. c/ pessoa intelig. e culta. Resp. admin. N.º 61”. O que buscava Maria Agustina? O objectivo de um acto considerado “ousado e irreverente” – como o classifica Isabel Rio Novo, na extraordinária biografia de Agustina intitulada “O Poço e a Estrada” (Ed. Contraponto, Fevereiro de 2019) –, teria a ver apenas com aquilo que a própria escritora designou como “um desejo literário”? Quem respondeu ao anúncio, foi isso que entendeu. “O anúncio foi lido por um rapaz em Coimbra. Parece que ele enviou um desenho. Ela respondeu. Trocaram correspondência. Casaram e ficaram juntos o resto da vida. Setenta e dois anos e uma filha.”

Convidada a explorar a Póvoa de Agustina, no âmbito da iniciativa “Residência de um Dia” promovida pelo Festival Correntes d’Escritas 2023, Joana Bértholo parte deste “evento quase anedótico” da biografia da escritora para se interrogar sobre as relações interpessoais nos dias de hoje. Em forma de novela, “Augusta B. ou as Jovens Instruídas 80 anos depois” conta-nos a história de Augusta, poveira, hoje com 22 anos – os mesmos que Agustina tinha quando colocou o referido anúncio –, para quem likes, mensagens abreviadas e emojis são linguagem corrente e se sente segura “de dominar o meio, as dinâmicas, as armadilhas e os pontos-cegos” do mundo virtual. Só que não, e o relacionamento de quatro anos com Tó resultou em desgosto amoroso que a envergonhou e revoltou. É Raquel, uma amiga, que lhe fala de Agustina e lhe dá conta do anúncio. Decide, então, passar do “online” ao “offline” e fazer como Agustina. Os problemas, porém, surgem logo no texto do anúncio, com a palavra “instruída”.

Ao longo de uma centena de páginas, o leitor é convidado a acompanhar as dúvidas que assaltam Augusta e as dificuldades em levar por diante o seu projecto. O interesse pelos códigos de comunicação de outros tempos cresce, como cresce a percepção do quão difícil pode ser, nos dias de hoje, a publicação de um anúncio daquele género num jornal. Entre o fascínio e o dilema, Augusta dá-se conta “que uma jovem rapariga solteira, há oitenta anos, se sentiria porventura mais vulnerável ao colocar um anúncio deste tipo num jornal do que ela hoje a publicar uma selfie insinuante e cheia de filtros junto a centenas de outras raparigas similarmente retocadas.” Num todo engenhoso, Joana Bértholo leva-nos a viver uma quase “experiência científica”, cujo resultado, tocado pela imprevisibilidade, é revelador de estigmas que persistem, de manipulação e falsidade, de jogos viciados à partida. As imagens de duas páginas com o mesmo anúncio, separadas oitenta anos entre si, não poderiam ser mais eloquentes.

sábado, 1 de junho de 2024

LIVRO: "Dona Pura e os Camaradas de Abril"



LIVRO: “Dona Pura e os Camaradas de Abril”,
de Germano Almeida
Ed. Editorial Caminho, 1999 (2ª edição, Junho de 2018)


“E continuámos pacientemente esperando, ouvindo agora as canções proibidas durante anos, Grândola era a rainha, mas também E Depois do Adeus, a gaivota voando, e só passada a uma hora da manhã do dia 26, quando eu comia um prato de camoca com leite, apareceu finalmente no ecrã a Junta de Salvação Nacional, garantindo, pela voz do general Spínola, a sobrevivência da Nação soberana no seu todo pluricontinental, permitindo a expressão de todas as correntes de opinião, garantindo a liberdade de expressão e pensamento, prometendo a eleição de uma futura Assembleia Constituinte. E depois disso vimos como todo um povo se dirigia a Caxias e se postava junto das suas portas e exigia sem palavras a libertação dos presos políticos. Era de facto uma bonita festa, Chico Buarque tem razão, já podíamos ir dormir descansados.”

É a 25 de Setembro que Natal festeja o 25 de Abril, rodeando-se de amigos em volta de uma cachupa regada com doses generosas de bom champanhe francês. Estudante em Lisboa, o jovem Natal vivia, como toda a gente, a euforia de uma revolução que pôs fim a quase cinco décadas de fascismo, quando chamou a si a tarefa de liderar “o destemido assalto a esse último antro do fascismo colonial” que era a Casa de Macau em Lisboa. Levada a cabo no dia 25 de Setembro, a campanha deu água pela barba ao exército regular português, posto em debandada quase em passo de corrida, mas acabaria por soçobrar quando, muito poucos dias depois, quatro terroristas carecas, de olhos em bico e eventualmente barbudos e armados unicamente de longas espadas, conseguiram desalojar os ocupantes com tanta brutalidade que Natal acabaria por se ver compelido a fugir para Cabo Verde a toque de caixa. Por esse motivo, ano a pós ano, é em Setembro que celebra a revolução. Quem isto nos conta é o primo de Natal, o narrador deste livro, Germano Almeida, que faz de “Dona Pura e os Camaradas de Abril” um repositório de memórias, com a verdade própria de quem faz da realidade ficção e da ficção realidade.

Apesar do quotidiano pouco interessante de um jovem cabo-verdiano, estudante de Direito em Lisboa com uma bolsa da Gulbenkian, no início dos anos 70 do século passado, e da forma simplista como se aborda a revolução dos cravos, é muito difícil não gostar de “Dona Pura e os Camaradas de Abril”. Plena de modéstia, despretensiosa e sincera, a escrita de Germano Almeida reflecte a experiência de um jovem oriundo das províncias ultramarinas e o choque provocado pela vida agitada na capital do país. A dificuldade em encontrar um quarto a preços compatíveis com os parcos recursos, um f’junzim pedra a fumegar no prato e regado com Campelo vendido ao litro ou a solidariedade entre as pessoas das ilhas, salvo quando se trata de esmifrar o parceiro numa lerpa fratricida, apanham desprevenido o leitor que talvez esperasse uma descrição completa e detalhada dos acontecimentos, certo de que a cada um a sua revolução. Germano Almeida até sai de casa, quer ver na rua essa revolução libertadora de povos e pátrias, mas conhece mal Lisboa e acaba por não ver revolução alguma. Afinal, de que pode ele falar?

Falar-nos-á de Dona Purificação, a “Dona Pura” do título, mulher dos seus 65 anos em cuja casa se hospeda, “mil e duzentos escudos com roupa lavada, dois banhos por semana e direito a estudar na sala de jantar”. Ela personifica o cabo-verdiano aculturado, que tem de Lisboa a visão de uma terra de oportunidades e olha com desconfiança e compadecimento os seus conterrâneos, sabendo-os “abusados”. A sua história de vida é a força motriz deste livro, o pretexto para Germano Almeida oferecer uma descrição completa da forma de ser e de estar num país onde as camisolas Lacoste estão na moda e um Lagosta geladinho é o sumo dos deuses, mas que vive em ditadura e onde se pressentem bufos e pides em cada esquina. Conversadora como ninguém, mostra-se alheia à política e aos políticos. Em contrapartida, sabe que o segredo de um bom café está na forma como é torrado, é uma cozinheira de primeira água, uma mãe ciosa das suas duas filhas e diz raios e coriscos do ex-marido. Desta forma, o autor oferece-nos uma visão romântica, mas assaz lúcida, de uma sociedade marcada pelos dissabores do colonialismo e que atravessou, num processo complexo de libertação, uma incontornável crise de identidade.

segunda-feira, 11 de março de 2024

LIVRO: “O Mundo Visto do Meio - Crónicas seguidas de Um auto do século XX”



LIVRO: “O Mundo Visto do Meio - Crónicas seguidas de Um auto do século XX”,
de Conceição Lima
Ed. Editorial Caminho, Fevereiro de 2023


“A África é um grande continente, aquilo era só um bocado de organização e menos corrupção. Corrupção há em todo o lado, mas lá é demais. Mas a África tem tudo, tem tudo e já nem falo do sol… os chineses perceberam e a Índia também anda à espreita e o Brasil não deve andar na sorna. Mas o problema mesmo são aqueles dirigentes, tá a ver? querem tudo só para eles, é só carros de luxo, mansões com piscina, luxo e mais luxo e o povo que se lixe.”

Guiados por Conceição Lima, viajamos até esse “meio do mundo” que é S. Tomé e Príncipe, mil quilómetros quadrados de terra lávica, o mar em volta de onde nasce a cor azul. Uma viagem poética prenhe de emoções, que carrega o peso da história e da cultura, dos sabores e tradições, da prodigalidade da terra e da generosidade das gentes. Que nos abre um mundo novo feito de paisagens de cortar a respiração, de plantas como a fya-ponto ou a gimboa, de peixes como o maxipombo ou o zanvé, de frutos como a goiaba ou o limão da terra, de pássaros como o tomé-gagá, o suin-suin, o ossobô ou o selêlê. Que nos senta à mesa sob um frondoso micondó e nos dá a provar o calulú e o ijógó, “pratos cerimoniais, testes de aptidão”. Que nos fala da escritora Maria Odete Costa Semedo, da poetisa Alda do Espírito Santo ou do cantor José Aragão. Que nos traz a doçura ritmada do crioulo. “Uma kuesa qui non mudô aqui ainda, é êssi chêro di baro molhado, quando água rebenta como kuesa qui deus tá a despejá todo rio di céu pa cima di genti, pa cima di planta, pa cima di tera.”

Reunindo um conjunto de vinte e três crónicas publicadas originalmente na revista África 21 e no jornal digital Téla Nón, “O Mundo Visto do Meio” traz também com ele “Um Confronto Imaginado e uma Profecia”, texto vencedor da primeira edição do Prémio de Literatura Dramática Isaura Carvalho. De forma breve mas intensa, a autora teatraliza o encontro de Salustino Graça do Espírito Santo, agrónomo, proprietário agrícola e líder dos forros (descendentes de colonos brancos e escravos alforriados do séc. XVI), com o Tenente-Coronel Carlos de Sousa Gorgulho, governador da colónia de São Tomé e Príncipe, no qual este último pede ajuda para a angariação de mão de obra para as roças de cacau, numa altura em que o preço do produto nos mercados internacionais está em alta. Improdutiva, a tentativa de negociação virá a ficar marcada, nos dias 03 e 04 de Fevereiro de 1953, por violentos confrontos com a população, naquilo que ficou conhecido como o Massacre de Batepá. Vinda de longe, transfigurada, é a voz de Salustino Graça que rompe o silêncio, honrando o sacrifício dos mártires numa pungente cena final. Uma pérola preciosa que vale, por si só, o investimento na leitura deste livro.

De regresso às crónicas, importa dizer que nem só de tranquilidade, beleza e doçura se escrevem as páginas deste livro. A prosa de Conceição Lima é uma declaração de amor à sua terra, mas é também - e por isso mesmo - um objecto de reflexão e denúncia, alertando para os “lôgôzos” de toda a espécie que pululam na sociedade são-tomense, para a chocante falta de literacia da classe estudantil, para a corrupção endémica que cava assimetrias e trava o crescimento económico. São significativas as crónicas onde se percebe a vontade de mudança, seja através do exemplo de cidadania dado pelo Movimento Civil contra a Desflorestação do Sul da ilha de São Tomé, da denúncia de uma rusga que é, toda ela, uma encenação, uma “coreografia de máscaras negras para suscitar um (E)estado de medo”, ou de um parlamento em que uma maioria chumba o pedido de apoio à deslocação do Primeiro-Ministro a uma República vizinha (ainda que as viagens do chefe do governo não careçam de aprovação pelo parlamento, “mas a imaginação é livre”). Um livro onde é clara a entrega de Conceição Lima à sua terra. Uma prosa que é expressão do desejo de um país melhor e mais justo, onde a liberdade e a democracia sejam a expressão da vontade férrea do seu povo.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

LIVRO: "Estendais"



LIVRO: “Estendais”,
de Gisela Casimiro
Ed. Editorial Caminho, Abril de 2023


“ (…) A dez a dez a dez, é para a criança andar bem vestida na rua, na escola, para ir à missa! Cheguem-se para cá! É três por dez! Artigos de loja, artigos de marca! Para homem, para mulher: coisa linda! Leve tudo, leve tudo! É coisa boa, não é Primark, não é lixo. É da Loja das Meias! Pode abrir e ver. Aproveitem, Carolina, Francisca! Venham ver! Vá lá, princesa! Três collants! Olha a mala! Pode levar maiores e mais pequeninas, está bem, querida? Olhem que eu tenho luxo! Ó Teresa, esta menina diz para eu não a provocar. Vocês hoje estão uns chatos do caraças! É de roer! Andem bonitas, mulheres!”

“Roubaram a porta do meu prédio.” A forma como Gisela Casimiro introduz este seu “Estendais” é, em si mesmo, “uma história completa”. “Uma de muitas metáforas da minha vida e das mais bonitas”, confessa, ao mesmo tempo “possibilidade, portal e passagem”. Descrito pela escritora como um livro que vem “do cerne, do coração, do estômago, do amor, da observação de estendais e pessoas”, esta sua primeira incursão na prosa - depois de dois livros de poesia, “Erosão” e “Giz” - reúne mais de setenta crónicas, muitas delas inéditas, outras já publicadas em jornais, revistas e portais impressos e online como “Hoje Macau”, “Buala”, “Contemporânea” e “Gerador”. Nelas encontramos tupperwares e precipícios interiores, memórias descritivas e uma palmada no rabo, trinta dias de silêncio e uma rapariga com tatuagem de Pégaso, as dobras e estrias da Ashley Graham e o Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie. Também um ralhete do Rodrigo Guedes de Carvalho para quem sai à rua em tempos de pandemia ou um barco à deriva e sem motor ao largo de Lesbos.

Gisela Casimiro escreve para nós. Para todos nós, sublinhe-se, mesmo que as prioridades divirjam, as rotinas se estranhem ou as origens se afastem. Escreve sobre os seus lugares, as suas vivências, a sua forma de ver e sentir o espaço em volta, porque sabe que, tal como sucede consigo, haverá sempre alguém que, ali no bairro ou do outro lado do mundo, irá rever-se no que está escrito. Transparente, disponível, recebe do quotidiano pedaços de vida que se desenham a um ritmo difícil de aguentar e que, filtrados pelo seu sentir, nos são devolvidos em forma de crónica. Nessa medida, “Estendais” é um instrumento de afirmação da sua identidade. Sem nada a esconder, a escritora convida-nos a percorrer os seus lugares, a entrar nas casas, a olhar a roupa que se agita ao vento nos estendais, a escutar uma canção de Beth Orton, a falar com um sem abrigo que gosta de ler, a sentir uma ternura que nunca ganha pó. Olhos nos olhos, mão na mão, faz-nos subir e descer na escadaria das emoções e deixa-nos com a certeza que “contar histórias seria inútil se não servisse ninguém”.

No prefácio, a jornalista Lia Pereira diz que Gisela Casimiro “é, como outrora se usou dizer, local e global, íntima e partilhável, é pele e é tamanho”. Isto sente-se e é por isso que nos toca tanto escutarmos, da sua voz, que “a negação caminha de mão dada com a prostração”, que “a fome é uma ameaça que demora muito a deixar-se ver” ou que “parecemos cada vez mais desabituados uns dos outros”. Não há lamento e abandono nas suas palavras, antes uma chamada de atenção e um toque a reunir. Sabemos que o mundo não é um lugar bonito, mas há nele muitas pessoas bonitas e Gisela Casimiro é uma dessas pessoas. Só uma pessoa muito bonita nos diz que “se há dor, que a sintamos, que a expressemos, mas mais tarde ou mais cedo vai haver também felicidade, e devemos tratá-la da mesma forma.” Pessoas reais, situações reais. É disto que se faz “Estendais”, um livro habitado por pessoas e pelas suas histórias, que nos comove pela sua verdade simples, e nos faz acreditar na força que há em cada um de nós com vista à construção de um mundo melhor e mais justo e livre.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

LIVRO: "Museu da Revolução"



LIVRO: “Museu da Revolução”,
de João Paulo Borges Coelho
Ed. Editorial Caminho, Julho de 2021 (2ª edição, Julho de 2022)


“Mariamo, Mariamo. Alguém conhece Mariamo? Partem por aqueles caminhos antes amplos e perfeitamente esquadriados para neles circularem as máquinas da guerra e as ordens emanadas dos altifalantes que encimavam as torres de vigia, caminhos cujas margens o tempo foi esboroando até acabar por transformar nestes carreiros afeiçoados ao andar humano, aos pés rodados e aos rodados das bicicletas. Mariamo? Alguém conhece Mariamo?”

“Museu da Revolução” convoca uma série de reflexões em torno da escrita, essa arte de tecer histórias e de dá-las a ver. Foi esse o motivo - quiçá o único - que me fez não desistir do livro e aguentar estoicamente um virar de página sem fim à vista. Começo por falar de “economia narrativa”, conceito que o autor faz questão de ignorar, de tal forma se estende em descrições que confundem as noções de essencial e acessório e que nada acrescentam à história. Não exagero se disser que metade das páginas são supérfluas, o que faz com que o interesse se dilua e o tédio se instale com frequência. Mas há, depois, essa intensa corrente que percorre a linha do pensamento e se derrama em palavras que, alinhadas, mostram de que forma se ergue um livro. Um livro que é, em si mesmo, um “museu” feito de objectos raros ou banais, tornados únicos pelas histórias que encerram e que vão muito além de uma simples legenda na vitrina.

“Museu da Revolução” possui as particularidades de um livro de viagens. De Maputo a Vila de Sena, nas margens do Rio Zambeze, não muito longe da fronteira com o Malawi, cinco pessoas viajam numa carrinha Toyota Hiace, uma “chapa”, verdadeiro símbolo de movimento e de liberdade para os moçambicanos. Na necessidade de recuperar histórias que conhecem apenas pela metade, memórias prestes a desvanecer-se, retalhos de vida que importa reconstruir, reside o sentido da viagem. O percurso leva-os a atravessar a história recente de Moçambique, o estigma de sucessivas guerras sempre presente, a paisagem transformada por décadas de destruição e incúria. Do Chokwé a Vilanculos, do Chimoio a Maringue, a mesma realidade: Pessoas conformadas com uma situação de abandono, a desigualdade e as assimetrias cada vez mais presentes, os dilemas adensados pelo sofrimento anónimo. O final trará com ele algumas certezas, mas muitas dúvidas permanecerão.

Assente no diálogo entre narrador e um dos viajantes da carrinha, “Museu da Revolução” tem no real o seu ponto de partida. Nele, a ficção assume-se como um espaço de liberdade onde se forjam novas histórias destinadas a unir as pontas deixadas soltas por acaso ou porque sim. João Paulo Borges Coelho faz questão de assumir o jogo da escrita: “Se não sabes, inventa.” Narrador e “informador” trocam frequentemente impressões quanto à plausibilidade e adequação dos episódios ficcionados, moldados à medida das necessidades. Este “turismo da memória”, esta viagem a um passado que ecoa no presente, remete para a noção de museu a que o título do livro alude, obrigando-nos a ver cada uma das peças como parte de um todo. Um todo desagregado, imprestável, à semelhança do Museu da Revolução, privatizado e depois encerrado. O tom metafórico torna-se dominante, permitindo realçar os fundamentos da escrita de ficção. A arte de escrever “segura” o livro. No demais, estamos conversados.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

LIVRO: "A História de Roma"



LIVRO: “A História de Roma”,
de Joana Bértholo
Ed. Editorial Caminho, Setembro de 2022


“As imagens mais verdadeiras são aquelas que mentem. Se lembrarmos, ou googlarmos: ‘auto-retrato de Picasso’, enter, ‘auto-retrato de Frida Kahlo’, enter, e o mesmo com ‘Warhol’, ‘Francis Bacon’ ou ‘Cindy Sherman’, enter, é evidente que o desvio da ilustração fidedigna é o que melhor os representa. Pode um texto funcionar como esses auto-retratos?”

Joana Bértholo é daquelas escritoras que sabem como pôr-nos a pensar. Talvez por isso – mas não só – eu goste tanto dela. Respigado deste livro, o excerto acima encerra uma questão à qual a autora procurará dar resposta através de um exercício de autoficção não isento de riscos. Ao longo de trezentas páginas, iremos acompanhá-la nessa busca, à medida que tomamos consciência do quão engenhoso, criativo e desafiante pode o romance ser, tanto para quem o escreve, como para quem o lê. A narradora com o mesmo nome da autora, a narrativa na primeira pessoa, tornam particularmente precário o equilíbrio na estreita linha de fronteira entre a realidade e a ficção. De uma coisa vamos tendo a certeza: Há locais descritos no livro que são bem reais – fiz uma pesquisa por “Eloisa Cartonera”, por exemplo, e encontrei-a em 0,39 segundos. Já quanto às pessoas, sê-lo-ão ou não. Sobretudo esta Joana, vertida no que importa esconder, escondida no que entende revelar.

Joana, pois. A mesma Joana de uma residência literária Lisboa-Maputo, do Serviço de Voluntariado Europeu em Buenos Aires, do programa Leonardo Da Vinci em Berlim, dos muitos amigos que facilitaram ou proporcionaram a sua passagem por Marselha ou Beirute. A mesma ou outra, talvez a de uma sala de conferências em Hiroxima, de uma esplanada na Plaza Mayor de Salamanca, num cais de Montevideu ou num ferry que cruza o Tejo rumo à Trafaria. Numa e (ou) noutra o mesmo fascínio por esse homem que começou por ser um palhaço, cores garridas em roupas dignas, na ponta dos dedos o feitiço na forma de um delicado catavento. Passam dez anos sobre esse momento inaugural no babélico centro urbano da capital argentina e o reencontro dá-se na cidade branca. Dez anos revisitados em dez dias, o encontro a ampliar desencontros, as memórias tornadas díspares, as revelações envoltas em amargura e dor. E uma história intitulada “Roma”, como uma ferida aberta.

Quanto do que escrevemos corresponde à busca de respostas? Mais ou menos organizadamente, adoptamos muitas vezes a figura do “diário”, ao qual confiamos aquilo que de bom a vida nos oferece, mas também as nossas dúvidas e cismas, as nossas angústias e medos. São momentos de reflexão, por vezes de catarse, onde as ideias se alinham em torno das certezas ou, pelo contrário, servem para avolumar as dúvidas. “A História de Roma” é um pouco isto: A partilha dos momentos que marcam uma relação e a dúvida que se instala a partir dela. Dúvida que, no limite, questiona a verdade de cada um. Mas qual verdade? Joana Bétholo vai muito longe neste livro. É genial a forma como aborda, muito subtilmente, temas fracturantes das sociedades actuais – a crise económica, a desigualdade social, os conflitos bélicos, os problemas ambientais, a sobrepopulação, as questões de género – e os integra na narrativa sem se desviar dessa história intensa que é a história de Roma. Apenas “falta dizer que [roma] é amor escrito ao contrário e um fruto deleitoso em caso de til”. E ainda que “romance começa por roma e por vezes também acaba”.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

LIVRO: "Crónicas Fora de Jogo"



LIVRO: “Crónicas Fora de Jogo”,
de Patrícia Portela
Ed. Editorial Caminho, Agosto de 2022


“Fiquei a dormir no teu quarto, conheci os teus amigos, ouvi a tua música preferida, li os teus livros, vi os videoclips que gravavas no teu VHS. Não cheguei a ver nenhuma daquelas atrações que falam do Rio de Janeiro, nem a beber água de coco, nem a passear pelo paredão, nem vi lá a garota de Ipanema, mas ouvi muita música boa, e tive as melhores conversas da minha vida. No fim da estadia, e um pouco a medo, estava eu já quase a despedir-me, pedi à tua mãe se poderia ficar com uma das três únicas fotografias tuas que havia lá na casa. A tua mãe disse-me que eu podia escolher a que quisesse. E eu escolhi esta que tatuei no braço direito mal cheguei ao Porto.”

Depois de “Dias Úteis” e desse extraordinário “Hífen”, regresso à escrita de Patrícia Portela com o entusiasmo que é devido às coisas verdadeiramente estimulantes, que nos dão a segurança e a certeza de podermos acrescentar ao nosso olhar uma perspectiva diferente e, com isso, aprendermos a pensar (que é “diferente de acreditar, saber de cor, ou pior, fazer só o que nos dizem.”) Afastando-se do registo que encontramos nos títulos mencionados, “Crónicas Fora de Jogo” agrupa, em dois “blocos” autónomos, os textos de “Fio da Meada”, conjunto de vinte e cinco crónicas radiofónicas, difundidas semanalmente na Antena 1 entre 10 de Setembro de 2019 e 25 de Fevereiro de 2020, e uma selecção de quarenta e duas crónicas que escreveu para o JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias, de Janeiro de 2017 a Agosto de 2021, sob o título “Na Hora de Comer o Treinador”. Um registo diverso, dizia eu, mas a mesma atenção felina, o dedo tenso no gatilho pronto a disparar, o mesmo dedo que toca agora a ferida, a escarafuncha e abre, revelando o podre encoberto e que importa extirpar.

O “Fio da Meada” tem num elevador o seu fio condutor. É nele que Patrícia Portela entra a cada terça-feira – “porque é às terças que a semana começa de vez” –, percorrendo para cima e para baixo os noventa andares deste mundo ao som de “Once in a Lifetime” dos Talking Heads, “Better Off Without a Wife” de Tom Waits ou “O Elevador da Glória” dos Rádio Macau. Parece-me vê-la sorrir antes de fechar os olhos e carregar num andar ao calhas “a ver se lhe sai a sorte grande e se não acerta no alarme”. Ler cada crónica é entrar uma e outra vez no elevador, ao abrigo do acaso, das circunstâncias ou de uma qualquer musa inspiradora que tocou na corda certa. Meio pé já está lá dentro quando a autora nos faz pensar na noção de trabalho (e de escravidão), nos milhares de crianças que entram ilegalmente no Reino Unido, na nossa falta de esperança como o maior obstáculo à mudança ou no ar que nos permite viver e nos asfixia por causa de um maldito vírus que anda no ar. (Penso ou não penso?) Entro ou não entro?

Neste afã de reportar, com o máximo rigor, a vida tal como ela é, a autora assume, no espaço de uma crónica, o papel de “um reformado, uma terrorista, um nerd, um pedaço de pão, uma fronteira, um assassino, uma mulher vítima de violação”. E de uma baleia, Tilikum, a “baleia assassina” que atacou a sua treinadora durante um show de entretenimento no parque de diversões de Orlando e que leva Patrícia Portela, num extraordinário exercício de interiorização do sofrimento do outro (no caso, um animal), a afirmar sem rodeios que “é hora de comer o treinador”. Esta primeira crónica da “série” JL serve de mote às restantes, cruzando o mundo em todas as direcções ao encontro da História. Com frequência, a autora apropria-se das personagens e das situações e traz-nos as estórias na primeira pessoa, acentuando o seu lado emocional e ganhando a nossa cumplicidade. Cada leitor julgará por si, mas há aqui descrições fortíssimas, que nos magoam e nos fazem, ainda e sempre, pensar. E há, claro, Patrícia Portela, observadora atenta, escritora exímia e (também) cronista de excelência.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

LIVRO: "Líbano, Labirinto"



LIVRO: “Líbano, Labirinto”,
de Alexandra Lucas Coelho
Ed. Editorial Caminho, Junho de 2021


“Quando as revistas estrangeiras vêm a Beirute entre guerras (ou desastres), Gemmayzeh é um daqueles bairros que aparecem descritos como “Soho-sur-mer”. Restaurantes do mundo, bares com DJ, artistas. Só que na porta de ferro deste restaurante alguém grafitou a vermelho um enforcado. Outro, a negro, na fachada. Uma legenda diz, em árabe: “Execução.” A outra: “Levantem-se das ruínas.” Não é Soho-sur-mer. É Beirute.”

Uma barreira que parece ser de betão serve de protecção à fachada do Ministério do Interior libanês. Está pintada com as cores da bandeira do país, três listas horizontais, a superior e a inferior num tom de vermelho escuro, a do meio branca. A negro, cedros desenhados em sequência despontam entre os muitos cartazes e fotografias coladas, as tags que se multiplicam, os grafitis. A palavra “REVO⅃UTION” prende a nossa atenção, as letras que formam a palavra “LOVE” inscritas a vermelho e invertidas. Na rua, as pessoas acumulam-se. Há gente que discursa de megafone na mão. Agitam-se bandeiras, erguem-se cartazes. Em muitos deles, a frase: “We want our money back”. É este o poder de uma fotografia. Uma das muitas que ilustram “Líbano, Labirinto”, o olhar de Alexandra Lucas Coelho a corroborar a narrativa, a prolongá-la, a vincá-la. Porque este livro é, para além da crónica, reportagem e ensaio que se abrigam na sua matriz, também um álbum fotográfico.

As primeiras páginas colocam o leitor no centro de um pesadelo, duas semanas e meia passadas sobre aquela que foi uma das maiores explosões não-atómicas da História. Os ponteiros marcavam as 18:07 desse fatídico 04 de Agosto de 2020 quando se deu o rebentamento das quase três mil toneladas de Nitrato de Amónio que há sete anos se encontravam armazenadas num silo gigante do Porto de Beirute. Recordo as imagens amplamente difundidas da onda de choque que avança sobre a cidade, estilhaçando tudo à sua passagem e causando mais de duzentos mortos, sete mil feridos e cerca de uma centena de desaparecidos. Agora, é ao lado de Alexandra Lucas Coelho, do seu tradutor Ali e de Aeesha, a namorada deste, que percorremos a rua Gouraud, “tão paralelos quanto perpendiculares ao mar”. Esventrados, sem portas, os andares térreos dos prédios são buracos. Rasgões insólitos nas fachadas expõem a intimidade das casas. Tapumes, improvisos, remendos, preenchem a paisagem. Das varandas restam os ferros agarrados às paredes. O entulho amontoado dificulta a progressão e único ruído é o do vidro partido sob os nossos pés a cada passada.

Ao longo de quase quinhentas páginas, Alexandra Lucas Coelho fala-nos deste Líbano e “de uma história que parece condenada a renascer das cinzas, a voltar às cinzas.” É assim há pelo menos cem anos, desde o estertor do Império Otomano. Metodicamente, a escritora dá-nos uma lição de História, começando na Grande Revolta Árabe e no acordo secreto Sykes-Picot de permeio com Lawrence da Arábia, atravessando as sucessivas ocupações israelitas, Musa al Sadr e o Movimento dos Desprovidos, a Guerra Civil que teve início em Abril de 1975 e se prolongou por quinze anos, até à Revolução de Outubro de 2019 (que Alexandra Lucas Coelho acompanhou, deixando-nos aqui nota desses dias de esperança e luta). Neste longo périplo, vamos reconhecendo algumas figuras – Arafat, Nasser, Ariel Sharon, Muamar Kadhafi, Bashar al-Assad, Ronald Reagan, Kissinger, Khomeini – e tomando contacto com outras – Hamed Sinno, Alireza Shojaian, Soha Bechara, Wajdi Mouawad, Lamid Ziadé, Charif Majdalani. Tudo isto de permeio com os compadrios e conluios, a corrupção, promessas de morte, carros bomba, massacres, Sabra e Chatila, o Hamas, a Fatah, a Jihad Islâmica, o Hezbollah, a Palestina. E Khiam.

O que “Líbano, Labirinto” tem de mais extraordinário é o desfilar de emoções que se derrama da prosa de Alexandra Lucas Coelho e contamina o leitor. Quem a conhece de livros como “E A Noite Roda”, “A Nossa Alegria Chegou”, “O Meu Amante de Domingo” ou o fabuloso “Deus-dará” sabe ao que vai sempre que abraça um novo livro seu. Uma vez mais, ela suplanta largamente as expectativas, oferecendo-nos um livro fundamental para a compreensão da questão libanesa, exemplarmente organizado num complexo puzzle de datas, locais e figuras, profusamente ilustrado com as imagens e as vozes que marcam cada momento e inspirador na medida em que nos deixa a certeza de que “quem pisa Beirute ama Beirute”. O profundo amor por esta cidade tão martirizada, pelas pessoas que não desistem dela, percebe-se em cada frase, em cada imagem que Alexandra Lucas Coelho partilha connosco. Generosa, combativa, ela faz eco daquilo que mais ouviu em todos os relatos, em todos os testemunhos: “Não parem de falar do Líbano, não nos esqueçam.” Não esquecemos. Não esqueceremos!