“Para sobreviveres, tens de fuzilar ou ser fuzilado. E tu aceitas ou recusas a ordem dos eventos, mas não podes ficar indiferente. E por isso fuzilas(-te).
Numa praça, num tribunal, num parlamento, numa arena, mas também numa escola. Em casa, na rua, a caminho do trabalho, num lugar recôndito, num lugar público, num subterrâneo.
3 de maio repete-se. Hoje, amanhã e depois. Repetiu-se ontem. Repete-se sempre.”
Começarei por dizer que “Hoje, 3 de Maio” dificilmente existiria sem a atribuição a Patrícia Portela da 2.ª Bolsa Literária da Embaixada de Portugal em Espanha, o que permitiu à escritora passar um mês no Museu Nacional do Prado, em Madrid, durante o ano de 2022. Dessa convivência quotidiana com a pintura de Goya nasceu muito mais do que um exercício de interpretação histórica ou artística. Nasceu uma investigação sobre o olhar, sobre a memória e sobre a capacidade de preservarmos a nossa humanidade perante a repetição da barbárie. “Hoje, 3 de Maio” abre uma fissura no tempo. Patrícia Portela conduz o leitor numa viagem onde passado, presente e futuro coexistem em estado de permanente inquietação. Eternizado por Goya, o levantamento madrileno de 1808 não surge como mero episódio encerrado na moldura dos tempos, mas como uma ferida que não cessa de sangrar e doer. Mais do que narrar os factos, o romance interroga a sua própria natureza, lembrando que a verdade raramente avança em linha recta. Cada página funciona como uma câmara de ecos onde os mortos falam com os vivos, os vivos respondem aos que ainda estão por nascer e os acontecimentos reflectem-se uns nos outros, como espelhos colocados frente a frente e que fazem com que nos projectemos até ao infinito.
Além da densidade, acutilância e imaginação, a escrita de Patrícia Portela possui uma qualidade profundamente polifónica. Não se limita a contar: escuta. Escuta os carrascos e as vítimas, os fantasmas e os arquivos, os soldados e os pintores, os visitantes de museu e as mulheres que entram numa papelaria para levantar uma encomenda. As vozes sucedem-se, cruzam-se, contradizem-se, ampliam-se, formando uma composição coral de extraordinária complexidade. Há momentos em que a narrativa assume o tom de um depoimento histórico; noutros, mergulha no monólogo íntimo, na alucinação, na sátira ou na meditação filosófica. Daqui resulta uma obra onde cada discurso convoca um novo discurso, onde cada pergunta abre uma nova galeria de perguntas. Essa multiplicidade formal encontra correspondência numa impressionante diversidade de géneros. “Hoje, 3 de Maio” move-se com igual naturalidade entre o épico e o coloquial, a ficção e o ensaio, o lirismo e o drama, o thriller e a farsa. O livro é simultaneamente romance, investigação, elegia, manifesto e dispositivo cénico, o que vale por dizer que poucas obras contemporâneas dispõem de uma tão rara capacidade para mudar de registo sem perder unidade, fazendo da heterogeneidade uma forma superior de coerência.
Partindo da contemplação obsessiva de “Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808”, de Goya, a autora leva a que o livro se expanda até adquirir uma dimensão universal. O que tem numa tela o seu ponto de partida transforma-se numa cartografia da violência humana. As mães da Praça de Maio surgem ao lado das vítimas do genocídio em Gaza; Cristo perante Pilatos encontra-se com os escombros da Guerra da Ucrânia; o Massacre de Lisboa de 1506 dialoga com os instantes decisivos do 25 de Abril na Rua do Arsenal. Nada aqui é gratuito ou ornamental. Patrícia Portela estabelece ligações inesperadas entre acontecimentos separados por séculos e continentes, revelando continuidades morais que a História oficial, cada vez mais, procura ocultar. A sua escrita demonstra que a violência muda de uniforme, de língua e de bandeira, mas nunca abdica dos seus mecanismos fundamentais. O quadro de Goya converte-se, assim, numa espécie de espelho universal, onde regressam incessantemente as mesmas perguntas: quem dispara, quem obedece, quem observa, quem se insurge, quem se resigna, quem cala. O livro obriga-nos a reconhecer que a distância histórica não constitui uma absolvição e que a condição de espectador pode muito bem ser uma forma de cumplicidade.
“Hoje, 3 de Maio” demonstra que a literatura continua a ser um dos poucos lugares onde a complexidade do mundo pode manifestar-se sem rodeios. Nele, o tempo torna-se matéria porosa, atravessada por vozes, imagens e memórias que se contaminam mutuamente. Dessa recusa da linearidade nasce uma poderosa reflexão sobre a responsabilidade histórica, sobre aquilo que escolhemos recordar e sobre o que preferimos deixar afundar-se na sombra. Ler este livro é compreender que nenhum acontecimento termina verdadeiramente quando acaba; continua a reverberar através dos tempos, à espera de novos olhos que o reconheçam. Livro de pensamento e de imaginação, de indignação e de beleza, de arquivo e de vertigem, esta é uma obra de enorme generosidade, que agita e desassossega, mas que, como poucas, é absolutamente inspiradora, capaz de transformar uma pintura num tribunal moral e um instante histórico numa pergunta dirigida ao nosso próprio tempo. Ao fechar estas páginas, fica-se com a sensação de que Goya continua diante de nós, fósforo aceso na escuridão, pequenina luz bruxuleante que ilumina não apenas o que fomos, mas sobretudo o que somos e o que viremos a ser.
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