Páginas

domingo, 28 de junho de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #106



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #106
Com | Margarida Paias, Marcelo Pereira e Nevena Desivojević
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
25 Jun 2026 | qui | 21:30


Com a energia e a boa disposição que o caracterizam, o Shortcutz Ovar entrou na pausa estival da melhor forma, celebrando o cinema português em formato curto com a presença de três realizadores estreantes no certame. Explorando o imaginário, as emoções e as experiências associadas aos meses mais quentes do ano, Nevena Desivojević, Marcelo Pereira e Margarida Paias fizeram do Verão o verdadeiro protagonista da sessão, contaminando o ecrã e o espírito de um público atento e participativo que voltou a encher a acolhedora sala expande da Escola de Artes e Ofícios. Mais do que uma simples sessão competitiva, a noite transformou-se num espaço de encontro entre diferentes olhares sobre a memória, a identidade e a infância, convocando emoções e experiências partilhadas por todos. O entusiasmo do público, patente ao longo da sessão, confirmou, uma vez mais, a relevância que o Shortcutz Ovar assume no panorama cultural local, afirmando-se como um espaço privilegiado de diálogo entre criadores e espectadores e demonstrando a vitalidade de uma comunidade que continua a encontrar no cinema um pretexto para o convívio, a reflexão e a troca de ideias.

A abrir a sessão, “Dias de Verão” revelou a ambição de Nevena Desivojević em captar uma condição emocional e preservá-la para memória futura. O reencontro de duas irmãs, separadas durante anos, serve de ponto de partida para uma delicada reflexão sobre a forma como a distância transforma as relações e faz do passado o único território verdadeiramente comum. Filmado na Sérvia a partir da experiência pessoal da realizadora, o filme assume-se como uma obra feita longe de casa, mas extraordinariamente próxima do coração. A água percorre toda a narrativa como espaço simbólico onde memória, desejo e ausência se confundem. Discreta, a câmara aproxima cada plano de uma recordação em constante reconstrução, reforçando a natureza fragmentária da memória. Influenciada pelo cinema de Alexandr Sokurov - embora uma espectadora tenha identificado, muito adequadamente, afinidades com a obra de Manoel de Oliveira -, Nevena Desivojević trabalha o tempo, o silêncio e a palavra com notável sensibilidade, construindo um filme subtil e contemplativo, onde aquilo que permanece por dizer adquire um peso que nenhuma explicação consegue substituir.

Se “Dias de Verão” assentou num registo intimista e contemplativo, “A Emancipação de Mimi”, primeira curta-metragem de Marcelo Pereira fora do contexto académico, imprimiu uma mudança de ritmo e conduziu a sessão para o território da comédia. Inteligente, mordaz e profundamente observadora, a obra parte das memórias de infância do realizador - antigo aluno de um colégio católico e vendedor de calendários religiosos de porta em porta - para construir uma reflexão lúcida sobre os mecanismos da idolatria. Longe de constituir um ajuste de contas com a educação religiosa que recebeu, Marcelo Pereira prefere olhar, com humor e inteligência, as fronteiras entre o sagrado e o profano, sugerindo que a devoção religiosa e o culto das celebridades respondem, afinal, a impulsos deveras semelhantes. A irreverência da proposta motivou uma divertida provocação do moderador Tiago Alves - "Que heresia é esta?" -, sintetizando na perfeição o espírito do filme. Eleito pelo público como o melhor filme da sessão, “A Emancipação de Mimi” coloca a comédia no centro da narrativa - um género subestimado no panorama nacional - e confirma Marcelo Pereira como uma voz a ter em conta no seio da novíssima geração do cinema português.

A encerrar a noite, “Rui Carlos” mergulhou os espectadores nas memórias de infância do pai da realizadora e, atrevo-me a dizer, nas suas próprias memórias. Primeira curta-metragem de Margarida Paias, o filme constrói um retrato delicado e profundamente evocativo dos verões dos anos 80, quando a rua era território de descoberta, liberdade e cumplicidade. Entre jogos de futebol e pequenas aventuras quotidianas, recorda-nos que, apesar de as crianças de ontem e de hoje partilharem a mesma curiosidade perante o mundo, os contextos em que crescem moldam experiências profundamente distintas. A aparente simplicidade da narrativa encerra uma subtil reflexão sobre o instante em que a infância se confronta, pela primeira vez, com o peso da responsabilidade, simbolizado pela bola furada que deixa o Carlinhos sozinho perante um problema que já não pode ser resolvido apenas com a ajuda dos amigos. O argumento, cuidadosamente construído, confere autenticidade ao episódio vivido por Rui Carlos e reforça a dimensão afetiva da obra, assumida como uma homenagem ao pai da realizadora e, por extensão, a todos aqueles que prolongam a memória familiar através das histórias que contam aos filhos. Imaginativo, emotivo, terno e muito divertido, “Rui Carlos” foi o fecho perfeito de uma noite que abraçou, com nostalgia e doçura, as memórias de um tempo mais puro e mais livre.

Sem comentários:

Enviar um comentário