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sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: "Hoje, 3 de Maio" | Patrícia Portela



LIVRO: “Hoje, 3 de Maio”,
de Patrícia Portela
Ed. Editorial Caminho, Maio de 2026


“Para sobreviveres, tens de fuzilar ou ser fuzilado. E tu aceitas ou recusas a ordem dos eventos, mas não podes ficar indiferente. E por isso fuzilas(-te).
Numa praça, num tribunal, num parlamento, numa arena, mas também numa escola. Em casa, na rua, a caminho do trabalho, num lugar recôndito, num lugar público, num subterrâneo.
3 de maio repete-se. Hoje, amanhã e depois. Repetiu-se ontem. Repete-se sempre.”

Começarei por dizer que “Hoje, 3 de Maio” dificilmente existiria sem a atribuição a Patrícia Portela da 2.ª Bolsa Literária da Embaixada de Portugal em Espanha, o que permitiu à escritora passar um mês no Museu Nacional do Prado, em Madrid, durante o ano de 2022. Dessa convivência quotidiana com a pintura de Goya nasceu muito mais do que um exercício de interpretação histórica ou artística. Nasceu uma investigação sobre o olhar, sobre a memória e sobre a capacidade de preservarmos a nossa humanidade perante a repetição da barbárie. “Hoje, 3 de Maio” abre uma fissura no tempo. Patrícia Portela conduz o leitor numa viagem onde passado, presente e futuro coexistem em estado de permanente inquietação. Eternizado por Goya, o levantamento madrileno de 1808 não surge como mero episódio encerrado na moldura dos tempos, mas como uma ferida que não cessa de sangrar e doer. Mais do que narrar os factos, o romance interroga a sua própria natureza, lembrando que a verdade raramente avança em linha recta. Cada página funciona como uma câmara de ecos onde os mortos falam com os vivos, os vivos respondem aos que ainda estão por nascer e os acontecimentos reflectem-se uns nos outros, como espelhos colocados frente a frente e que fazem com que nos projectemos até ao infinito.

Além da densidade, acutilância e imaginação, a escrita de Patrícia Portela possui uma qualidade profundamente polifónica. Não se limita a contar: escuta. Escuta os carrascos e as vítimas, os fantasmas e os arquivos, os soldados e os pintores, os visitantes de museu e as mulheres que entram numa papelaria para levantar uma encomenda. As vozes sucedem-se, cruzam-se, contradizem-se, ampliam-se, formando uma composição coral de extraordinária complexidade. Há momentos em que a narrativa assume o tom de um depoimento histórico; noutros, mergulha no monólogo íntimo, na alucinação, na sátira ou na meditação filosófica. Daqui resulta uma obra onde cada discurso convoca um novo discurso, onde cada pergunta abre uma nova galeria de perguntas. Essa multiplicidade formal encontra correspondência numa impressionante diversidade de géneros. “Hoje, 3 de Maio” move-se com igual naturalidade entre o épico e o coloquial, a ficção e o ensaio, o lirismo e o drama, o thriller e a farsa. O livro é simultaneamente romance, investigação, elegia, manifesto e dispositivo cénico, o que vale por dizer que poucas obras contemporâneas dispõem de uma tão rara capacidade para mudar de registo sem perder unidade, fazendo da heterogeneidade uma forma superior de coerência.

Partindo da contemplação obsessiva de “Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808”, de Goya, a autora leva a que o livro se expanda até adquirir uma dimensão universal. O que tem numa tela o seu ponto de partida transforma-se numa cartografia da violência humana. As mães da Praça de Maio surgem ao lado das vítimas do genocídio em Gaza; Cristo perante Pilatos encontra-se com os escombros da Guerra da Ucrânia; o Massacre de Lisboa de 1506 dialoga com os instantes decisivos do 25 de Abril na Rua do Arsenal. Nada aqui é gratuito ou ornamental. Patrícia Portela estabelece ligações inesperadas entre acontecimentos separados por séculos e continentes, revelando continuidades morais que a História oficial, cada vez mais, procura ocultar. A sua escrita demonstra que a violência muda de uniforme, de língua e de bandeira, mas nunca abdica dos seus mecanismos fundamentais. O quadro de Goya converte-se, assim, numa espécie de espelho universal, onde regressam incessantemente as mesmas perguntas: quem dispara, quem obedece, quem observa, quem se insurge, quem se resigna, quem cala. O livro obriga-nos a reconhecer que a distância histórica não constitui uma absolvição e que a condição de espectador pode muito bem ser uma forma de cumplicidade.

“Hoje, 3 de Maio” demonstra que a literatura continua a ser um dos poucos lugares onde a complexidade do mundo pode manifestar-se sem rodeios. Nele, o tempo torna-se matéria porosa, atravessada por vozes, imagens e memórias que se contaminam mutuamente. Dessa recusa da linearidade nasce uma poderosa reflexão sobre a responsabilidade histórica, sobre aquilo que escolhemos recordar e sobre o que preferimos deixar afundar-se na sombra. Ler este livro é compreender que nenhum acontecimento termina verdadeiramente quando acaba; continua a reverberar através dos tempos, à espera de novos olhos que o reconheçam. Livro de pensamento e de imaginação, de indignação e de beleza, de arquivo e de vertigem, esta é uma obra de enorme generosidade, que agita e desassossega, mas que, como poucas, é absolutamente inspiradora, capaz de transformar uma pintura num tribunal moral e um instante histórico numa pergunta dirigida ao nosso próprio tempo. Ao fechar estas páginas, fica-se com a sensação de que Goya continua diante de nós, fósforo aceso na escuridão, pequenina luz bruxuleante que ilumina não apenas o que fomos, mas sobretudo o que somos e o que viremos a ser.

domingo, 27 de julho de 2025

LIVRO: "Manual para Andar Espantada por Existir" | Patricia Portela



LIVRO: “Manual para Andar Espantada por Existir”,
de Patrícia Portela
Ed. Editorial Caminho, Junho de 2025


“Aqui é uma vergonha passar a todas as disciplinas na escola. Quem faz isso nunca terá sucesso. Os líderes deste lugar só podem ganhar eleições se os seus discursos só tiverem disparates, e não podem ter uma única boa ideia senão, esquece, ninguém vota neles. Consegues imaginar? Um mundo inteiro governado por idiotas? Estás a dizer que sim com a cabeça, mas não fazes ideia nenhuma do que aqui se passa!”

“O tempo tem lá dentro uma espiral / uma espiral que se chama história / e que num andar natural / e por força de vontade / resolveu ter um capricho / chamado liberdade”. Quando o poema foi escrito (e cantado), os seus versos exprimiam um tempo de exaltação, em que dava vontade de abraçar, sorrir, viver e gritar “somos livres, não voltaremos atrás.” A espiral do tempo, porém, tem no seu mecanismo um pequeno botãozinho que, quando accionado, faz com que tudo rode tão depressa que rapidamente a transforma em espiral do medo. Terá sido assim em 1933, quando José Gomes Ferreira olhou em volta e viu um senhor que usava sempre os mesmos sapatos, a clamar “que [o País] obedeça quando se chegar à altura de mandar”. Daí nasceu o folhetim “As Aventuras de João Sem Medo”, dedicado aos seus dois filhos, alertando-os para aqueles que “sujam o mundo e odeiam a Imaginação”. Quase um século depois, Patrícia Portela encontra inspiração no livro de José Gomes Ferreira e oferece-nos um “Manual para Andar Espantada por Existir”, assumindo o seu espanto por uma estranha forma de vida e lembrando que “ter medo é ter coragem e que só tem coragem quem tem medo”.

“Perfilados de medo, sem mais voz / O coração nos dentes oprimido / Os loucos, os fantasmas somos nós / Rebanho pelo medo perseguido / Já vivemos tão juntos e tão sós / Que da vida perdemos o sentido”. A história que Patrícia Portela nos conta tem o seu início em Antuérpia, mas poderia ser em Rabo de Peixe, no Fundão, em Ovar ou em Chora-Que-Logo-Bebes, como a terra do herói das aventuras sem medo que inspiraram este livro. É lá que a vamos encontrar, João Medrosa que é, juntamente com “um amigo de longa data, uma espécie de cara-metade belga, de seu nome Peter De Bie (parece Pedro, A Abelha, mas Bie não quer dizer abelha, é pena!)”, João Sem Medo no gesto e na pose. Gostam de conversar, de passear, de inventar coisas juntos e de se desafiar um ao outro. Daí que um estranho muro altíssimo que topam numa rua da cidade seja motivo de espanto, até porque nas suas pedras está gravada a frase: “Proibida a entrada a quem não andar espantado por existir”. Começa aqui uma enorme aventura no seio da Floresta Branca, depois de ambos se atreverem a saltar o muro. Saltar o muro? Que digo? Saltar era no “João sem Medo”, do José Gomes Ferreira. Os tempos agora são outros e se o Harry Potter consegue atravessar o muro, como que por pura magia, os nossos heróis não lhe ficarão atrás.

“Viva, viva o cão raivoso / Tem o pelo eriçado / Seu dente é guloso / E o seu faro ajustado / Cão raivoso, cão raivoso, cuidado”. Estamos no interior da Floresta Branca e João Medrosa perdeu de vista o Abelha. Instada a escolher o caminho a seguir, opta pelo da Felicidade, como, aliás, qualquer um de nós optaria. Mas a felicidade que lhe querem impingir tem razões que a razão de João Medrosa despreza, a começar por uma personagem que parece saída de uma tela de Magritte e que apregoa que para se ser feliz é necessário perder a cabeça. Ou por um “par de sapatos de estilo inglês, de cabedal italiano, com excelente dentadura a apertar o tornozelo, também conhecidos por Sapatos de Salazar”, e que apregoa o andar, o pensar e o viver em círculos como único caminho para a felicidade. Entre paredes que se sentem sozinhas, colheres que piscam os olhos, fontes no meio do deserto, varinhas mágicas prontas a satisfazer todos os desejos e a casa da mariquinhas, o que Patrícia Portela nos diz é que tudo é possível no reino da imaginação. Deixemo-nos guiar por ela através de um mundo às avessas, dispostos a fazer algo tão necessário como enfrentar o medo. Imaginativo, irreverente, hilariante, visionário, delirante, inspirador, eis o Manual certo para quem acredita que “o sonho comanda a vida”. Ele leva-nos ao encontro desse outro botãozinho que permite inverter a espiral do medo e incita a lutar por igualdade e justiça, por uma “cidade sem muros nem ameias / gente igual por dentro, gente igual por fora”.

domingo, 29 de setembro de 2024

TEATRO: "Homens Hediondos"



TEATRO: “Homens Hediondos”,
de David Foster Wallace
Encenação, tradução, dramaturgia, vídeo, figurinos, cenografia | Patrícia Portela
Desenho de Luz | Cárin Geada
Desenho de Som | Miguel Abras
Interpretação | Nuno Cardoso
Produção | Teatro Nacional São João
105 Minutos | Maiores de 16 anos
Teatro Carlos Alberto
12 Set 2024 | qui | 19:00


Dois peixinhos nadam na companhia um do outro quando encontram um peixe mais velho que lhes pergunta: “- Que tal a água?”. Ao que os peixinhos respondem: “- Água? O que é a água?”. Mais do que uma parábola sobre aquilo em que vivemos mergulhados e do qual não nos damos conta, esta frase é um convite ao espectador a deixar-se tomar pela figura do outro como se dele próprio se tratasse. Reflectindo sobre as questões vulgares de um quotidiano vulgar, a peça mostra que homens hediondos podem ser pessoas banais, com quem nos relacionamos todos os dias, no trabalho, nos transportes, nos cafés, em casa, e não necessariamente criaturas feias, repugnantes, monstruosas. Que homens hediondos são “essa imensa maioria que perpetua os mesmos comportamentos e relações de poder, e cuja violência muitas vezes aceitamos em nome da estabilidade e do nosso estilo de vida”. É disto que nos fala a mais recente criação de Patrícia Portela, uma peça escrita a partir do livro de David Foster Wallace, “Breves Entrevistas com Homens Hediondos”. Nela, somos confrontados com a dúvida, a raiva e o desespero de alguém que se sente obrigado a tolerar um sistema que tão ativamente condena, que se sabe cada vez mais hediondo. Nela vemos que em nós habita uma parte desse alguém.

A encenação como a dramaturgia são dois aspectos fundamentais da peça, a merecerem nota máxima. O terceiro aspecto é a interpretação de Nuno Cardoso, num monólogo intenso e vivo, segurado com a raiva nos dentes e os nervos à flor da pele. Mas vamos por partes. Não é preciso conhecer o livro para se perceber que há aqui um grande trabalho em torno das personagens que o habitam. Concentrar numa figura única as ameaças de uma extrema solidão, as tensões que advêm da incomunicabilidade ou da incompreensão ou a ausência de lucidez num oceano de emoções contraditórias, e conseguir evitar que o monólogo caia na redundância ou na esquizofrenia, é quase um milagre, tantas são as armadilhas à espreita de um e do outro lado de uma corda necessariamente bamba. A descrição do que de mais bizarro pode haver nos mundos interiores, a representação que cada um faz de si próprio e a forma como supostamente é visto pelos outros, as palavras ditas que se repetem em contextos opostos, a interrogação sobre os sentimentos humanos em circunstâncias estranhas ou extremas e a enorme coerência de um todo fortemente incoerente, são marcas distintivas de um trabalho pensado ao pormenor, depurado e rigoroso, posto em cena como um dedo espetado onde mais nos dói.

Falo, enfim, de Nuno Cardoso e da sua capacidade de encarnar todas estas figuras sem cair no exagero ou no exercício fútil da stand up comedy. Evitando as ciladas do histrionismo, o “actor genérico” mostra-se sóbrio e seguro quando nos vem lembrar que há santos porque há, igualmente, demónios, e que uns e outros habitam em nós. Transmitir a urgência que sente em tocar o espectador, em partilhar com ele a vida, partilhar caminho, sem se meter na sua cabeça, é a força que o move. Maridos ausentes, pais ausentes, relações pessoais e profissionais tensas, violência familiar, abandono parental, depressão, reacções emocionais, redes de apoio e por aí fora, são temas atirados à cara do espectador como se de um jogo de acção-reacção se tratasse. Aqui, toda a banalidade pode transformar-se, de um momento para o outro, num caso muito sério. Afinal, como refere Nuno Cardoso, “assistir a uma peça de teatro é como levar o pensamento ao ginásio.” Ficamos com os rituais e as pulsões que suportam os jogos de sedução, com as diferenças e semelhanças entre o “porco básico” e o “grande amante”, com a pessoa de quem todos fogem, que se sente cada vez pior e a única coisa que faz é perguntar: “Gostam de mim? Gostam de mim? Gostem de mim!” Ficamos com um enorme momento de teatro.

[Foto: © Teatro Nacional São João | https://www.tnsj.pt/]

domingo, 11 de agosto de 2024

TEATRO: "Mercado das Madrugadas"



TEATRO: “Mercado das Madrugadas”
Ideia original, texto, encenação | Patrícia Portela
Bancas de mercado, adereços | João Gonçalves, Patrícia Portela
Direcção Técnica | Miguel Abras, Bee Barros
Figurinos | Fred Botta, Patrícia Portela
Composição musical, ambiente sonoro | Miguel Abras
Direcção musical | Maria Repas
Movimento | Vânia Rovisco
Interpretação | Ana Rocha, Beatriz Teodósio, Célia Fechas, David Costa, Diogo Dória, Elsa Bruxelas, Fred Botta, João Grosso, Miguel Abras, Miguel Baltazar, Mónica Coteriano, Patrícia Portela, Sara Alexandra, Vânia Rovisco
Produção | Prado - Associação Cultural
Co-Produção | Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Aveirense, Rota Clandestina
100 Minutos | Maiores de 6 anos
Praça Dr. Joaquim Melo Freitas
10 Ago 2024 | sab | 20:30


Vieram do lado da ponte e instalaram-se ao redor da praça. Enquanto montam as tendas do “mercado das madrugadas”, cantam, conversam e riem, indiferentes aos turistas frenéticos, aos mirones que se juntam, à conversa das mulheres a fazer croché, às luzes que se vão acendendo e aos gritos das andorinhas no adeus a mais um dia. São floristas e vendedores de chá, mágicos e adivinhos, hipnotizadores e encantadores de serpentes, faquires e malabaristas, unidos na vontade de dizer que “o amanhã é inevitável e começa hoje!”. Não por acaso, escolheram este lugar por saberem que, aqui como em Lisboa ou Versalhes, Veneza ou Madrid, é na Praça que se come e dorme, se sonha e celebra, se chora, se humilha, se prende, se tortura e mata. No preciso local onde se queimaram bruxas, se mataram judeus, se decapitaram republicanos e fuzilaram anarquistas, os seus passos cruzam-se hoje com os dos académicos das revoluções, dos vencidos da vida, dos sábios das sargetas, das senhoras que vêm ao teatro com as amigas e do executivo saído da pastelaria e que chega à Praça ainda a comer o seu peixinho de ovos moles. Olhos nos olhos, pedem-lhes que escutem a Praça com atenção. Porque é na Praça que cada um prova pela primeira vez o que faz arder a garganta. É aqui que sente as fraquezas tornarem-se em forças, experimenta o que mete mais medo e aquilo que traz alguma esperança.

“Esta Praça está parada / na casa do ditador. / Este tempo está parado / por falta de tocador”. Na banca ao meu lado, Patrícia Portela prepara um “chá para limpar a alma”. Na água a ferver irá verter cardamomo e cravinho, coentros, salsa, canela e gengibre, “duas ou três raspas de limão e uma unha de ruibarbo”, noz moscada, rosmaninho e erva doce. Uma mezinha, que além de combater as doenças como a falta de ar, a tensão alta e a diabetes, as dores de dentes, as dores de costas e as dores de corno, também “é contra a inquietação, a inquietação, cá dentro a inquietação, a inquietação, a inquietação ainda”. Sorrio ao beber o chá. Recordo a promessa de ser o “Mercado das Madrugadas” um “Manual de Instruções para Revoluções Futuras”. Encaro a possibilidade de um lugar mágico onde encontrar a inspiração que levará à mudança. Como outros, penso no que é preciso para sair porta fora, furioso, lançado em todas as direcções na garupa de um cavalo (deve ser efeito do gengibre, eu que nunca andei a a cavalo). Afinal, talvez seja apenas uma questão de “fitness”. Assumirmos que somos capazes de quebrar uma ou duas regras por dia, só para nos habituarmos ao dia em que tenhamos de quebrar uma regra muito maior. Porque esse dia irá chegar, o dia da revolução, e então estaremos preparados. Uma revolução com duas pequeninas regras quebradas todos os dias, até ao dia em que, juntos, quebraremos uma regra gigante. Pelo menos, é isso que a peça nos diz. Por mim, começo já hoje!

“Não é fácil comer terra, quando se provou um pedaço de céu”. Lugar para todas as possibilidades, na Praça trocam-se impressões e acepipes, mas também propostas para os próximos cinquenta anos de Abril. Passos pisam a gravilha. Das gargantas sai a música da Grândola e a pele volta a arrepiar-se: “O povo é quem mais ordena / dentro de ti ó cidade”. Durante um minuto respiramos juntos e em silêncio a ideia memorável de uma greve geral no mundo. Depois, recuamos cinquenta anos e não temos liberdade, não podemos encontrar os amigos na rua, falta-nos os quinze tostões para o bilhete de autocarro, lemos livros às escondidas, vemos as nossas mães a chorar por aqueles que foram para a guerra, que fugiram da guerra, que foram presos por causa da guerra, que morreram na guerra. Pensamos em tanta dor arbitrária, em tanta lei absurda e eis-nos, de novo, na Praça, humilhados, sem saída nem futuro, a maldizer esta merda de ditadura e a sonhar num amanhã em que tudo pudesse ser diferente. Mas hoje é madrugada de 25 de Abril e o amanhã chegou. E nós, aqui na Praça, gritamos a plenos pulmões: “Acabou”. Cinquenta anos depois de Abril, podemos continuar a dizer “acabou”?

Aquilo que era a promessa de um lugar novo, caminhou lentamente para este lugar onde as pessoas são todos os dias mandadas à merda e ainda têm de agradecer. Vivemos escondidos de nós próprios, desiludidos, atormentados no desequilíbrio entre o possível e o real, entre o início fulgurante da democracia e os dias que se seguiram até hoje. Precisamos de voltar à Praça, de voltar a senti-la como o sítio onde podemos acreditar numa nova oportunidade, onde somos capazes de quebrar, de forma permanente, as regras diárias que nos atam, o modo de vida que nos mata. “Somos um brilho que corre, por entre margens diversas / Que lentamente percorre o seu destino as avessas / Mas é nas margens do povo que havemos que ser do ventre / Pra fazer um país novo, num sentindo bem diferente.” Os quadros sucedem-se e, com eles, uma força cresce nos dedos, uma raiva nasce nos dentes. Uma folha em branco é uma mensagem de protesto. Um corpo a tremer é, tal como um corpo imóvel, uma forma de protesto. O pão que é de um é de todos. E um escaramocho é… um escaramocho. 

É noite cerrada e a Praça é a nossa casa. É bom sermos tantos na Praça, lugar de todos os encontros, de todas as possibilidades, de todas as revoluções, de todos nós, de todas nós. Fomos instigados a fazer uma pausa na rotina e agora só pensamos em transformações. Todas as Praças são de Versalhes ou de S. Marcos, são de Abril e são de Maio. A qualquer momento numa Praça pode acontecer uma revolução, pode celebrar-se uma festa, pode-se ser fuzilado. Pode-se sobreviver, morrer, testemunhar, olhar para o lado. Olhamos em redor e somos carrascos, vítimas e testemunhas, rebeldes e traidores. Somos aquele que dá a ordem para atirar, aquele que foge e se esconde, aquele que tapa os olhos para não ver o seu assassino, aquele que enfrenta as balas a peito aberto, destemido. O europeu com passaporte de luxo que quando a coisa aperta apanha um avião para um sítio melhor. O ilegal que mantém a cidade a funcionar e que depois é despejado quando já ninguém precisa dele. Somos o pobre de espírito, o que decide, o que se acanha, o que aceita, o que se revolta. Estamos todos aqui, mas quem somos? Quem queremos ser? Quem podemos ser? Quem conseguimos ser? Quem? Quem? Quem?

Fazer deste tempo um tempo de comunhão e diálogo sobre o futuro é o grande mérito deste “Mercado das Madrugadas”, uma peça que vive de um texto extraordinário de Patrícia Portela e da generosidade e nobreza de um punhado de actores, fortemente empenhados em quebrar o marasmo e a apatia em que caímos e fazer reviver a força e a emoção dos dias em que conhecemos a cor da liberdade. É fantástico ver como funciona tão bem esta mescla de veterania - extraordinários João Grosso e Diogo Dória - com uma juventude ousada e livre, combativa, participativa, que acredita e faz acreditar. Em Abril de 1974 saímos à rua, invadimos praças e avenidas, distribuímos cravos e abraços e gritámos “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”. Depois esmorecemos, acomodámo-nos, desistimos. Deixo a Praça para trás e penso, incrédulo, no ponto a que nos deixámos chegar: a extrema direita nas ruas, a extrema direita no Parlamento, a extrema direita nas nossas vidas. Olho a lua, essa pequena unha que se reflecte nos canais. Ela traz-me as palavras de Manuel da Fonseca: “Ó meus amigos desgraçados / se a vida é curta e a morte infinita / despertemos e vamos / Eia!”. Ao longe, vibrante, ainda o eco dessa frase maravilhosa: “Eu quero tomar o céu de assalto contigo”.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

TEATRO / DANÇA: "Porque É Infinito"



TEATRO: “Porque É Infinito”
Direcção artística | Victor Hugo Pontes
Texto | Joana Craveiro, a partir de uma releitura de “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare
Cenografia | F. Ribeiro
Música original | Rui Lima e Sérgio Martins
Direcção técnica e desenho de luz | Wilma Moutinho
Desenho de som | Leandro Leitão
Figurinos | Cristina Cunha, Victor Hugo Pontes
Interpretação | António Júlio, Benedito José, Inês Azedo, Ivo Santos, José Ferreira, Luísa Guerra, Pedro Frias, Rui Pedro Silva, Santiago Mateus, Sofia Montenegro, Vera Santos
Produção | Nome Próprio
Duração 90 minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Nacional São João
01 Dez 2021 | qua | 19:00


Escrita entre 1591 e 1595, nos primórdios da carreira literária de William Shakespeare, “Romeu e Julieta” é uma das mais belas e trágicas histórias de amor de todos os tempos. Através dela se imortaliza Romeu, filho único da família Montéquio, e Julieta, filha única da família Capuleto, que se conhecem durante um baile de máscaras em Verona e se apaixonam perdidamente um pelo outro. O seu amor proibido e o desenlace fatal da relação levam a que a história seja um arquétipo do amor juvenil, com as suas deslumbrantes paixões e os seus desgostos viscerais. Foi este o foco da releitura que Joana Craveiro fez da peça, colocando a adolescência em pano de fundo e questionando o amor e os seus limites. Victor Hugo Pontes acrescentou-lhe uma linguagem coreográfica que exalta o turbilhão de emoções em “tempo de excessos adolescentes e de madrugadas longas”. O resultado é este “Porque É Infinito” e é genial.

Há aspectos neste trabalho que importa realçar. Comecemos por onde normalmente ninguém começa, pela direcção técnica e desenho de luz, assinados por Wilma Moutinho. Só com aquela luz, os “quadros vivos” poderiam atingir tais níveis de beleza, as sombras destacarem-se na imensidão do palco, a amálgama de objectos materializarem-se ou os corpos ganharem a dimensão pretendida. Depois há o texto e a forma como é tornado actual sem se desviar do cânone. Vertidas sobre a linguagem do quotidiano, as palavras brotam em diálogos ricos de significado, explorando a ambiguidade e o equívoco, temperados com generosas doses de humor. Assente no ritmo e na batida forte da música original de Rui Lima e Sérgio Martins, a dança vem dar expressão à riqueza do texto, transpondo o torvelinho de emoções para os corpos que, em palco, se apartam ou se enleiam, se multiplicam em gestos, se desgarram, se recompõem.

“Já te aconteceu?” Informal, a interrogação suceder-se-á ao longo da peça, como se um comentador viesse à boca de cena convidar-nos a escavar mais fundo, a romper a espessura das aparências. Aos actores é dada liberdade para, sempre que se justifique, fazerem uma pausa e meditarem na origem ou consequências dos actos que as suas personagens acabam de praticar. Por arrasto, o público é levado a reflectir também, tornando-se cúmplice da trama. Assim nasce um muito útil “manual de instruções”, espécie de guia para sobreviver a corações despedaçados e afins. Dando vida às personagens, oito jovens, com idades entre os 15 e os 20 anos, puseram à prova a sua capacidade de representação e mostraram saber estar em cima de um palco, algo que aconteceu pela primeira vez para a maioria deles. Chapelada da boa para o Ivo, a Inês, o Benedito, a Ana Luísa, o José, o Santiago, a Sofia e o Rui Pedro (e também para os menos novos Pedro, Vera e António Júlio), pela sua generosidade e enorme cumplicidade. Isso foi muito visível da plateia. Parabéns para todos eles.

[Foto: José Caldeira | https://www.nomeproprio.pt/]

sábado, 3 de julho de 2021

LIVRO: " - Hífen - "



LIVRO: “ - Hífen - “,
de Patrícia Portela
Ed. Editorial Caminho, Abril de 2021


“Ler não é só ler. Ler é quem escreve e o que escreve, juntos. É o quando e o onde lemos. Ler é hifanar. Mesmo que todas as palavras escritas sejam feitas de letras coladinhas umas às outras. Ler é o hífen entre o leitor e o autor e nos permite compreender o que estamos a ler. Entre a novidade que lemos e o que já sabemos. Ler é um casamento. É partilhar a cama de mentes diferentes. Ler é vestir a roupa do outro quando a nossa ainda está por lavar. Ou já não nos serve. É ser e não ser em simultâneo, e isso fazer sentido. É deixar-se ficar em casa e mesmo assim sair à rua e visitar palavras que já estiveram em tantos outros lugares e pensamentos. É não regressar.”

Entre as várias definições que dela dá, Patrícia Portela começa por lembrar que a palavra “hífen” é a “união de duas palavras para que a palavra resultante seja mais do que a junção das duas que a compõem”. É com base neste princípio que se desenvolve “ - Hífen - “, ficção brilhante que toca as pontas do real ao falar-nos dos efeitos de uma doença que se instala insidiosamente e vai alastrando de forma tenaz até ganhar contornos de hecatombe. A reacção inicial das autoridades de saúde será de ligeireza, para adquirir um tom musculado à medida que a epidemia se espalha, sem cura nem fim à vista. Aliada incondicional do regime, formatada para contar apenas um lado da história, a imprensa vai-se multiplicando em contos e ditos, espelhando a desorientação reinante. Enquanto isto, os doentes e as suas famílias são tratados em ambiente asséptico por verdadeiros autómatos. Mas onde é que eu já vi isto?

Oferecendo-se a múltiplas leituras, “ - Hífen - ” adopta um cenário distópico para melhor discorrer sobre “nós e os outros”. A escrita é tomada como um acto de rebeldia porquanto constitui uma “maneira de ver o que se pensa e de o mostrar a outros cérebros”; nos cuidados de saúde, a “eficácia total da mecanização em caso de situações absurdas ou inesperadas” tende a apagar do dicionário a palavra humanização; a cultura, entendida como um “tranquilizante”, é gerida por “dedicados amanuenses com francas aspirações políticas”; e os jornais e revistas abandonaram a grande reportagem política e as reflexões filosóficas e são agora ocupados por “múltiplos artigos (muito concisos) sobre produtos de limpeza doméstica ou beleza corporal, sugestões alimentares ou conselhos para passar os tempos livres”. Enquanto isso, “um ser humano consegue levar uma vida de cão, trabalhar em condições miseráveis (e das quais se queixa compassivamente aos amigos) e votar com convicção num ditador que lhe cortará o salário, dizendo -lhe que não há alternativa”.

Entre notas de um caderno, entradas de um muito particular alfabeto e ementas peculiares, o que Patrícia Portela nos vem dizer é que os hífens estão em toda a parte. Juntam coisas e pessoas, fazem a ponte para novos caminhos, multiplicam-se em conceitos, dão sentido aos sonhos e carregam às costas os males do mundo. Têm as costas largas, os hífens. São arautos da desgraça e bodes expiatórios. Mas são imprescindíveis, fazem parte da nossa vida, até nas mais pequeninas coisas. Estão no nosso código genético e trazem consigo a marca da sobrevivência. Que os “eus” tendam a virar-se para si, a erguer muros à sua volta e a proclamar a sua superioridade perante os demais, não passa de um erro. Erro que teimamos em alimentar, seres superiores duma Flandia em queda livre, perdulários e displicentes, entregues a algoritmos que vão tomando conta de nós e da capacidade de cada um pensar pela sua cabeça. De uma lucidez e eficácia incríveis, as baterias apontadas ao individualismo e à egomania, “ - Hífen - ” é um livro imprescindível a quem ousa ver mais longe.

sábado, 11 de abril de 2020

LIVRO: "dias úteis"



LIVRO: “dias úteis”, 
de Patrícia Portela 
Ed. Editorial Caminho, Maio de 2017


“Mantém uns óculos escuros sempre à mão. O regresso à realidade é sempre um choque demasiado iluminado e nem sempre mais construtivo, ainda que se diga por aí, e de forma leviana, que de toda a desgraça se pode tirar uma qualquer lição.” 

Em termos pessoais, diria que o nome de Patrícia Portela remete por inteiro para o Teatro. É na qualidade de encenadora, dramaturga, cenógrafa ou actriz (ou tudo isso ao mesmo tempo), que a conheço e me habituei a vê-la. A verdade é que, havendo uma Patrícia Portela em todos esses papéis, há sobretudo uma Patrícia Portela escritora, como ela própria reconhece em entrevista ao Jornal de Letras, datada de 2017, e que pode ser vista AQUI. Foi isso que percebi ao ler “dias úteis”, um livro onde nos damos conta de uma escrita singular, versátil e tremendamente imaginativa, à medida que adentramos o multifacetado universo desta autora. Através das suas palavras, descobrimos o afã criador nesse ponto indefinido onde Literatura e Teatro se parecem misturar e confundir, e que nos parece lembrar que a vida é o mais precário dos palcos.

Quem o sopesa no início e olha para ele agora que a leitura chega ao fim, sabe bem o quão enganador um livro pode ser. Com pouco mais de cem páginas, “dias úteis” é gigante naquilo que tem para nos oferecer. As leituras possíveis são tantas e tão distintas que se torna impossível classificá-lo. É um livro exigente, denso e complexo, que pede tempo e reclama investimento. Sucedendo-se numa lógica que parece estar ali para se contrariar a si própria, as palavras são objectos que se colhem em sobressalto, se avaliam na sua intimidade, se analisam dos mais variados ângulos antes de, com todo o cuidado, serem devolvidas ao livro. Entre a tentativa e o erro, ditos e subentendidos, palavras soltas ou escritas pela metade, o leitor vai rodando nas mãos as peças deste imenso puzzle até descobrir o sítio certo onde as encaixar. É um jogo de paciência, cuja imagem final deixará perceber a presença de um ínfimo elemento à deriva no caos que tomou conta da humanidade e no qual cada leitor tenderá a reconhecer-se.

Antes de segunda-feira, o primeiro dia útil da semana, já Patrícia Portela nos abriu as portas da quadra de jogo, apresentou as equipas e veio dizer que a regra é não haver regra. Somos peões num tabuleiro do qual não podemos fugir. A cada um o seu momento. Todos acabarão por ser chamados a dar prova do seu valor e da sua verdade. Nesse imponderável que é estar vivo, serão muitos os que perceberão que é naquilo que os separa dos outros que se encontram os melhores trunfos. Outros, por seu lado, jogarão o jogo sem sequer se darem conta. Os dias suceder-se-ão e mostrarão que “levar uma vida habitual de segunda a sexta feira” é o máximo a que cada um poderá aspirar. O resto é o que já sabemos: Desmembramo-nos aos poucos, como se fossemos feitos de papel. Trocamos todas as coisas por qualquer coisa, até darmos por nós a plantar urânio numa praia. Buscar respostas claras para o complexo princípio do Universo é inútil, tão inútil como fazer planos de férias. “Somos todos zombies, nem carne, nem peixe, nem vivos, nem mortos, e não há plano de contingência para tamanha catástrofe natural.” A semana chega ao fim. O epitáfio de domingo para o dia seguinte é um espaço em branco.