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quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

INSTALAÇÃO: “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo” | Lisa Barbosa



INSTALAÇÃO: “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo”,
de Lisa Barbosa
Curadoria | Lisa Barbosa, Patrícia Sarrico
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025
Estação de Aveiro
18 Out 2025 > 18 Jan 2026

Vestido de branco e pintado de azulejos, o edifício da antiga Estação dos Caminhos de Ferro de Aveiro acolhe, por estes dias, “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo”, instalação de Lisa Barbosa que se integra na XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025. Numa sala envolta em penumbra, um conjunto de girassóis atrai o olhar e a reflexão do visitante. A artista parte das memórias de infância, dos lugares campestres, do barro, para reconstruir um território onde gesto e emoção se fixam e desmultiplicam. Aqui, cada pétala endurecida pelo fogo guarda a vulnerabilidade daquilo que nasce para desaparecer, lembrando-nos que a beleza é sempre, tal como a flor, uma aparição fugaz, uma forma de luz ancorada na experiência humana. Nesse encontro entre tradição e escultura contemporânea, a flor não é ornamento, antes veículo: Condensa afectos, traduz ausências, transporta o peso simbólico de celebrações, lutos e renascimentos. Como quem reaviva um vocabulário esquecido, Lisa Barbosa convoca a flor como testemunho da nossa busca insistente pelo belo, uma busca que, longe de ser superficial, é a forma mais honesta de manter vivo aquilo que em nós insiste em florescer.

Núcleo visceral da instalação, o campo de girassóis negros prolonga esta reflexão e desloca-a para o território da comunidade e do cuidado. A cor do carvão, onde tudo termina e tudo recomeça, acolhe hastes firmes que perseguem a luz sabendo que só o confronto da sombra lhes permite erguer-se e perseverar. A artista reinscreve o heliotropismo como metáfora ética, dizendo-nos que crescer é procurar a claridade, mas também reconhecer o lado oculto que sustenta o movimento. Na rigidez suspensa das flores, há um eco de brisa que perpassa, fricção que desinquieta e se oferece ao olhar para desmontar certezas e guiar o espectador aos lugares da sua própria interioridade. O amarelo vibrante que vemos com a imaginação no topo de cada uma das flores ressoa como promessa de alegria, de partilha, de pertença, enquanto o negro que se impõe ao nosso olhar devolve à obra a sua dimensão cíclica e trágica. Aqui, cada caule é uma biografia em construção no amparo das raízes entrelaçadas, prova de que a flor só se cumpre plenamente quando é, também, comunidade.

A instalação avança então para o terreno íntimo da semente, esse lugar onde origem, aposta e risco coabitam. Em cada girassol, Lisa Barbosa expõe a fragilidade das relações humanas, o semear no outro o que temos a mais, mas também o que nos falta. Ali, as sementes repousam sobre um solo incapaz de nutrir, espelhando a tentação de investir afectos em terras inférteis, num gesto de devoção cega que desfaz o equilíbrio do dar e receber. A cerâmica, ao fixar esse instante de falha e de esperança, afirma a semente como território ético. Germinar implica humildade, aceitar a espera, resistir com coragem. A artista utiliza a cerâmica para materializar esse instante crítico, tornando visível o que normalmente permanece abstracto: A escolha dos solos afectivos onde investimos, a linha ténue entre generosidade e devoção cega, a exaustão de quem se oferece de forma desmedida. As sementes pousam sobre um solo de carvão estéril, imagem que sintetiza o perigo de esquecer o próprio centro e de ignorar as necessidades internas. Ao reencenar este ciclo com precisão escultórica, Lisa Barbosa amplia o alcance ético da instalação: O crescimento emocional não depende apenas da luz que procuramos, mas da lucidez com que escolhemos onde semear e da coragem de reconhecer terrenos estéreis.

domingo, 11 de agosto de 2024

TEATRO: "Mercado das Madrugadas"



TEATRO: “Mercado das Madrugadas”
Ideia original, texto, encenação | Patrícia Portela
Bancas de mercado, adereços | João Gonçalves, Patrícia Portela
Direcção Técnica | Miguel Abras, Bee Barros
Figurinos | Fred Botta, Patrícia Portela
Composição musical, ambiente sonoro | Miguel Abras
Direcção musical | Maria Repas
Movimento | Vânia Rovisco
Interpretação | Ana Rocha, Beatriz Teodósio, Célia Fechas, David Costa, Diogo Dória, Elsa Bruxelas, Fred Botta, João Grosso, Miguel Abras, Miguel Baltazar, Mónica Coteriano, Patrícia Portela, Sara Alexandra, Vânia Rovisco
Produção | Prado - Associação Cultural
Co-Produção | Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Aveirense, Rota Clandestina
100 Minutos | Maiores de 6 anos
Praça Dr. Joaquim Melo Freitas
10 Ago 2024 | sab | 20:30


Vieram do lado da ponte e instalaram-se ao redor da praça. Enquanto montam as tendas do “mercado das madrugadas”, cantam, conversam e riem, indiferentes aos turistas frenéticos, aos mirones que se juntam, à conversa das mulheres a fazer croché, às luzes que se vão acendendo e aos gritos das andorinhas no adeus a mais um dia. São floristas e vendedores de chá, mágicos e adivinhos, hipnotizadores e encantadores de serpentes, faquires e malabaristas, unidos na vontade de dizer que “o amanhã é inevitável e começa hoje!”. Não por acaso, escolheram este lugar por saberem que, aqui como em Lisboa ou Versalhes, Veneza ou Madrid, é na Praça que se come e dorme, se sonha e celebra, se chora, se humilha, se prende, se tortura e mata. No preciso local onde se queimaram bruxas, se mataram judeus, se decapitaram republicanos e fuzilaram anarquistas, os seus passos cruzam-se hoje com os dos académicos das revoluções, dos vencidos da vida, dos sábios das sargetas, das senhoras que vêm ao teatro com as amigas e do executivo saído da pastelaria e que chega à Praça ainda a comer o seu peixinho de ovos moles. Olhos nos olhos, pedem-lhes que escutem a Praça com atenção. Porque é na Praça que cada um prova pela primeira vez o que faz arder a garganta. É aqui que sente as fraquezas tornarem-se em forças, experimenta o que mete mais medo e aquilo que traz alguma esperança.

“Esta Praça está parada / na casa do ditador. / Este tempo está parado / por falta de tocador”. Na banca ao meu lado, Patrícia Portela prepara um “chá para limpar a alma”. Na água a ferver irá verter cardamomo e cravinho, coentros, salsa, canela e gengibre, “duas ou três raspas de limão e uma unha de ruibarbo”, noz moscada, rosmaninho e erva doce. Uma mezinha, que além de combater as doenças como a falta de ar, a tensão alta e a diabetes, as dores de dentes, as dores de costas e as dores de corno, também “é contra a inquietação, a inquietação, cá dentro a inquietação, a inquietação, a inquietação ainda”. Sorrio ao beber o chá. Recordo a promessa de ser o “Mercado das Madrugadas” um “Manual de Instruções para Revoluções Futuras”. Encaro a possibilidade de um lugar mágico onde encontrar a inspiração que levará à mudança. Como outros, penso no que é preciso para sair porta fora, furioso, lançado em todas as direcções na garupa de um cavalo (deve ser efeito do gengibre, eu que nunca andei a a cavalo). Afinal, talvez seja apenas uma questão de “fitness”. Assumirmos que somos capazes de quebrar uma ou duas regras por dia, só para nos habituarmos ao dia em que tenhamos de quebrar uma regra muito maior. Porque esse dia irá chegar, o dia da revolução, e então estaremos preparados. Uma revolução com duas pequeninas regras quebradas todos os dias, até ao dia em que, juntos, quebraremos uma regra gigante. Pelo menos, é isso que a peça nos diz. Por mim, começo já hoje!

“Não é fácil comer terra, quando se provou um pedaço de céu”. Lugar para todas as possibilidades, na Praça trocam-se impressões e acepipes, mas também propostas para os próximos cinquenta anos de Abril. Passos pisam a gravilha. Das gargantas sai a música da Grândola e a pele volta a arrepiar-se: “O povo é quem mais ordena / dentro de ti ó cidade”. Durante um minuto respiramos juntos e em silêncio a ideia memorável de uma greve geral no mundo. Depois, recuamos cinquenta anos e não temos liberdade, não podemos encontrar os amigos na rua, falta-nos os quinze tostões para o bilhete de autocarro, lemos livros às escondidas, vemos as nossas mães a chorar por aqueles que foram para a guerra, que fugiram da guerra, que foram presos por causa da guerra, que morreram na guerra. Pensamos em tanta dor arbitrária, em tanta lei absurda e eis-nos, de novo, na Praça, humilhados, sem saída nem futuro, a maldizer esta merda de ditadura e a sonhar num amanhã em que tudo pudesse ser diferente. Mas hoje é madrugada de 25 de Abril e o amanhã chegou. E nós, aqui na Praça, gritamos a plenos pulmões: “Acabou”. Cinquenta anos depois de Abril, podemos continuar a dizer “acabou”?

Aquilo que era a promessa de um lugar novo, caminhou lentamente para este lugar onde as pessoas são todos os dias mandadas à merda e ainda têm de agradecer. Vivemos escondidos de nós próprios, desiludidos, atormentados no desequilíbrio entre o possível e o real, entre o início fulgurante da democracia e os dias que se seguiram até hoje. Precisamos de voltar à Praça, de voltar a senti-la como o sítio onde podemos acreditar numa nova oportunidade, onde somos capazes de quebrar, de forma permanente, as regras diárias que nos atam, o modo de vida que nos mata. “Somos um brilho que corre, por entre margens diversas / Que lentamente percorre o seu destino as avessas / Mas é nas margens do povo que havemos que ser do ventre / Pra fazer um país novo, num sentindo bem diferente.” Os quadros sucedem-se e, com eles, uma força cresce nos dedos, uma raiva nasce nos dentes. Uma folha em branco é uma mensagem de protesto. Um corpo a tremer é, tal como um corpo imóvel, uma forma de protesto. O pão que é de um é de todos. E um escaramocho é… um escaramocho. 

É noite cerrada e a Praça é a nossa casa. É bom sermos tantos na Praça, lugar de todos os encontros, de todas as possibilidades, de todas as revoluções, de todos nós, de todas nós. Fomos instigados a fazer uma pausa na rotina e agora só pensamos em transformações. Todas as Praças são de Versalhes ou de S. Marcos, são de Abril e são de Maio. A qualquer momento numa Praça pode acontecer uma revolução, pode celebrar-se uma festa, pode-se ser fuzilado. Pode-se sobreviver, morrer, testemunhar, olhar para o lado. Olhamos em redor e somos carrascos, vítimas e testemunhas, rebeldes e traidores. Somos aquele que dá a ordem para atirar, aquele que foge e se esconde, aquele que tapa os olhos para não ver o seu assassino, aquele que enfrenta as balas a peito aberto, destemido. O europeu com passaporte de luxo que quando a coisa aperta apanha um avião para um sítio melhor. O ilegal que mantém a cidade a funcionar e que depois é despejado quando já ninguém precisa dele. Somos o pobre de espírito, o que decide, o que se acanha, o que aceita, o que se revolta. Estamos todos aqui, mas quem somos? Quem queremos ser? Quem podemos ser? Quem conseguimos ser? Quem? Quem? Quem?

Fazer deste tempo um tempo de comunhão e diálogo sobre o futuro é o grande mérito deste “Mercado das Madrugadas”, uma peça que vive de um texto extraordinário de Patrícia Portela e da generosidade e nobreza de um punhado de actores, fortemente empenhados em quebrar o marasmo e a apatia em que caímos e fazer reviver a força e a emoção dos dias em que conhecemos a cor da liberdade. É fantástico ver como funciona tão bem esta mescla de veterania - extraordinários João Grosso e Diogo Dória - com uma juventude ousada e livre, combativa, participativa, que acredita e faz acreditar. Em Abril de 1974 saímos à rua, invadimos praças e avenidas, distribuímos cravos e abraços e gritámos “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”. Depois esmorecemos, acomodámo-nos, desistimos. Deixo a Praça para trás e penso, incrédulo, no ponto a que nos deixámos chegar: a extrema direita nas ruas, a extrema direita no Parlamento, a extrema direita nas nossas vidas. Olho a lua, essa pequena unha que se reflecte nos canais. Ela traz-me as palavras de Manuel da Fonseca: Ó meus amigos desgraçados / se a vida é curta e a morte infinita / despertemos e vamos / Eia!”. Ao longe, vibrante, ainda o eco dessa frase maravilhosa: “Eu quero tomar o céu de assalto contigo”.

sábado, 13 de janeiro de 2024

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Paisajes Entretejidos”



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Paisajes Entretejidos”,
de Juana Fernandez
XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Estação
28 Out 2023 > 28 Jan 2024


A presente edição da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro está a chegar ao fim, mas é tempo ainda de apreciar o trabalho da artista galega Juana Fernandez, no espaço da antiga Estação da CP. Distribuídas por duas salas, as peças são significativas do trabalho mais recente da ceramista, nomeadamente as pertencentes às séries “Vaivenes” e “Medidas Variabiles” e ainda trabalhos de joalharia da série “Constelaciones”. Passear pelo mundo de Juana Fernandez é perceber na natureza a origem do seu trabalho, o quanto o vento ou uma paisagem servem de inspiração e ponto de partida de novas formas, estruturas ou processos de crescimento. É deixar fluir os sentidos ao encontro de reflexões, emoções e memórias, experiências vitais que se materializam na argila.

O processo de trabalho de Juana Fernandez é intuitivo. Partindo de elementos simples, neles são perceptíveis a repetição do gesto e a impressão dos dedos como registos do processo. As peças nascem da reunião desses elementos, da forma como são agrupados, como se da construção de um puzzle se tratasse. O tempo lento e pausado que o trabalho implica faz também parte do produto final, integrando as formas e fazendo-se adivinhar em cada estrutura. Da exploração das propriedades da argila, do grés ou da porcelana nascem arquitecturas efémeras, pequenos habitats, abrigos, ninhos, conchas, peças compostas por finas lâminas de aspecto frágil e delicado. Óxidos e pigmentos acrescentam novos matizes às superfícies, elevando a capacidade de provocar e o poder de comunicar sensações de cada uma das peças.

Mas nem só de argila se faz o trabalho de Juana Fernandez. A incorporação do têxtil na cerâmica, mediante a construção de uma trama, acrescenta textura às superfícies, desenha um jogo de contrastes que resulta numa percepção mais sensorial e táctil, oferecendo ao conjunto novos significados e ressonâncias. A expressão, a intenção e a plasticidade tornam-se evidentes, convidam o visitante a experimentar, ele mesmo, o impulso criador, a energia, o gesto, a força, o impulso. O caminho é reflexivo e íntimo, tão próximo como uma carícia na nossa própria pele. Nalgumas obras encontramos uma inocente atitude naif, noutras é a cor a trazer ao nosso encontro o valor das coisas mais simples. Vale a pena mergulhar na poesia que cada trabalho de Juana Fernandez encerra, deixarmo-nos dominar pela música que deles se derrama e passear pelos mais ínfimos detalhes da sua obra.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “A Poética da Erosão. A Obra Cerâmica de Cecília de Sousa”



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “A Poética da Erosão. A Obra Cerâmica de Cecília de Sousa”
XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Galeria da Antiga Capitania
28 Out 2023 > 28 Jan 2024


Cecilia de Sousa nasceu em Lisboa em 1937. Aos 13 anos de idade, o pai inscreveu-a num curso de lavores femininos na prestigiada Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, mais adequada aos destinos domésticos tradicionais que eram então consagrados às mulheres, mas Cecilia rejeitou obstinadamente esta hipótese e conseguiu ser matriculada no Curso de Cerâmica. Esta impertinência juvenil, associada ao facto de ter tido como professor Manuel Cargaleiro, seria fundamental para a sua vida, revelando desde logo um temperamento afirmativo e perseverante que, como veremos, permitiu estruturar uma continuada carreira como ceramista. Concluído o Curso de Cerâmica em 1955, realizou no ano seguinte uma viagem a França e à Suiça, aí tomando conhecimento da obra de Rouault Modigliani e Vieira da Silva, facto assinalado com peso biográfico pela autora e que articula directamente com as suas escolhas estéticas. Ainda em 1956, mantém a colaboração com Manuel Cargaleiro na produção dos azulejos da fachada da Igreja de Santo António em Moscavide.

Em 1957, foi aceite a sua participação na Exposição de Artes Plásticas da recém-criada Fundação Calouste Gulbenkian. O primeiro reconhecimento do seu trabalho, mais do que serenar, estimulou ainda mais a inquietação e curiosidade em conhecer o que de melhor se fazia na disciplina que elegera como sua, a Cerâmica. Este facto levou-a a cumprir, no mesmo ano, uma breve passagem pelo Estúdio SECLA nas Caldas da Rainha, referência para a cerâmica moderna em Portugal, principalmente porque nesse Estúdio trabalhava a ceramista húngara Hansi Stael, tendo ficado como documento desta incursão de Cecília de Sousa uma pequena travessa com gestos caligráficos imbricados contra um fundo texturado. Ao fim de 11 anos de intenso trabalho, Cecilia participou em vinte e três exposições, cinco das quais no estrangeiro, e três individuais; recebeu quatro prémios nacionais em 1957, 1962, 1964 e 1965; executou encomendas para espaços públicos em Portugal e Espanha e colaborou com alguns dos nossos melhores arquitectos e decoradores.

Homenageada pela Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, Cecília de Sousa dá-nos a ver “A Poética da Erosão”, através da qual revela a forma como explora todas as potencialidades da cerâmica, quer na concepção de painéis, quer de peças avulsas que tiram partido das texturas, dos brilhos e de todos os recursos técnicos que individualizam esta expressão artística. A sua obra é dotada de uma expressão poética, da linha e da cor, que ganha cada vez maior identidade e se acentua no contraste progressivamente matérico dos seus objetos. Num projecto de fachada para um hall de hotel, um salão de bowling, um refeitório de uma fábrica, uma estação de metro ou um cinema, como em peças de singular beleza como o “Disco” ou a “Placa”, as “Camarinhas Azuis” ou os “Sinais de Lisboa”, é visível a intenção com que a artista introduz nas suas criações o tempo, a erosão, a memória de criações e civilizações arcaicas, construindo peças que parecem quase arqueológicas, testemunhos de idades esquecidas e culturas ignoradas.

Não obstante o brutalismo evidente de alguns objetos, a desmesura das suas dimensões, todas são pontuadas por uma subtileza, uma doçura que nos cativa, não no imediato, mas quando nos perdemos observando-as, sentindo os acidentes e o desgaste a que foram sujeitas, um pouco como o rosto pode testemunhar uma existência feita de muitos momentos, traçado por inúmeras experiências, burilado pela vida. Assim é a obra de Cecília de Sousa, uma ceramista que partindo da lógica e estética do seu tempo descobriu, no seu percurso, o caminho da intemporalidade e que agora se dá a conhecer na Galeria da Antiga Capitania de Aveiro, integrada na XVI Bienal Internacional de Cerâmica de Aveiro. Exposição em cooperação com o Museu Nacional do Azulejo.

sábado, 9 de dezembro de 2023

CERTAME: XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2023



CERTAME: XVI Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2023
Vários locais
28 Out 2023 > 28 Jan 2024


No reino do génio, do engenho e da criatividade. É desta forma que podemos classificar a Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, evento a cumprir a sua décima sexta edição e que serve de prólogo ao Aveiro 2024 - Capital Portuguesa da Cultura. Repartido por onze pólos distintos, o Programa da Bienal oferece, para além do Concurso Internacional cuja exposição reúne 98 trabalhos de 80 artistas, várias exposições individuais e colectivas, uma das quais “Corrente Báltica”, resulta de uma parceria com a Bienal de Cerâmica da Letónia. A ligação à comunidade escolar exprime-se através do projecto “Bienal vai à Escola. A Poesia da Forma”, com a proposta de trabalhar o tema “A Viagem da Palavra”. Masterclasses, workshops, actividades participativas, programas para as famílias, visitas orientadas, oficinas, conferências e jornadas técnicas, acrescentam qualidade e diversidade ao programa, tornando-o rico e apelativo. Acrescente-se um conjunto de eventos culturais que incluem visitas encenadas, dança, novo circo, conversas, poesia e muita música e torna-se claro que esta Bienal tem tudo para agradar a todos.

Falando da minha própria experiência, direi que a imersão na Bienal tomou-me praticamente uma tarde inteira (as visitas terminam às 18h00), oferecendo a possibilidade de visitar sete polos expositivos. A aquisição do Passaporte para visita aos vários núcleos é mandatária e tem o custo de € 2,00. Começando pelo Museu de Aveiro / Santa Joana, é lá que se encontram expostos os trabalhos do Concurso Internacional, seleccionados de um universo de 915 peças, de 565 artistas representando 63 nacionalidades, naquela que constitui a maior participação de sempre. No seu conjunto reflectem a diversidade nas abordagens dos artistas ao nível das técnicas, dos materiais, das formas e dos conceitos e, simultaneamente, expressam as diferentes geografias resultando num exercício de experimentação, inovação e criatividade em cerâmica. Para além da obra vencedora, “Balance in Red”, da neerlandesa Paula Bastiaansen, e de outras obras premiadas, como “Grow”, da nipónica Hidemi Tokutake, “Ming-Miao Ko”, do artista de Taiwan com o mesmo nome ou “Que nasçam flores”, da portuguesa Lisa Barbosa, é possível apreciar interessantes trabalhos de artistas de países tão diversos como a Itália ou os Estados Unidos, a Argentina ou a Turquia, a Suíça ou o Irão.

Paragem seguinte, a Galeria Morgados da Pedricosa, a dois passos do Museu Santa Joana, alberga uma exposição colectiva de ceramistas portugueses onde se incluem Carlos Enxuto, João Carqueijeiro e Sofia Beça, entre outros. A mostra é imperdível e tem a particularidade de reunir pela primeira vez, numa exposição única, artistas / ceramistas portugueses com o carimbo AIC - Academia Internacional de Cerâmica. No caminho para a baixa da cidade, paragem nos Claustros da Igreja da Misericórdia para apreciar “Binómio”, colectiva da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, com obras cujo diálogo assenta nas ideias de interioridade, exterioridade, verticalidade ou horizontalidade. Segue-se a Galeria da Antiga Capitania e a obra cerâmica de Cecília de Sousa, subordinada ao título “A Poética da Erosão”, exposição que, pelo seu valor, será alvo de um apontamento individualizado aqui no blogue. O mesmo acontecerá com o extraordinário trabalho “Paraísos Frágeis”, de Ellen Van Der Woude, patente no Museu Arte Nova. O Museu da Cidade acolhe “Corrente Báltica”, onde se mostra a corrente criativa dos países bálticos, à boleia da Bienal de Cerâmica da Letónia. Percorrer a Avenida Lourenço Peixinho em toda a sua extensão, ao encontro da Estação de Caminhos de Ferro. pode ser desmotivador, mas “Paisagens Entrelaçadas”, de Juana Fernández, vale mesmo a pena.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Utopia e Realidade"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Utopia e Realidade”,
de Gina Marrinhas
Galeria Morgados da Pedricosa, Aveiro
27 Mai > 20 Jun 2023


“O ser humano que nos gabamos de ser soube sempre humilhar e ofender aqueles a quem, com triste ironia, continua a chamar seus semelhantes. Inventamos o que não existe na natureza, a crueldade, a tortura, o desprezo. Por um uso perverso da razão viemos dividindo a humanidade em categorias irredutíveis entre si, os ricos e os pobres, os senhores e os escravos, os poderosos e os débeis, os sábios e os ignorantes, e em cada uma dessas divisões fizemos novas divisões, de modo a podermos variar e multiplicar à vontade, incessantemente, os motivos para o desprezo, para a humilhação e a ofensa.”
[Extraído de José Saramago: “Chiapas, nome de dor e de esperança”, Visão, 9 de Junho de 1998]

Depois de “Histórias de Encantar”, que tive oportunidade de ver muito recentemente na Biblioteca Municipal de Ovar, e de “Lusíadas, a Alma da (Nossa) Gente”, em finais de 2019 e no mesmo local, volto a cruzar o olhar com a pintura de Gina Marrinhas. No bonito e bem cuidado espaço da Galeria Morgados da Pedricosa, em Aveiro, é possível apreciar “Utopia e Realidade”, exposição patente ao público desde o passado sábado e que reúne um conjunto de vinte e oito trabalhos representativos do multifacetado universo da artista. Pintora de causas, atenta aos problemas que afligem as sociedades actuais, empenhada na busca de soluções, Gina Marrinhas elege a sua pintura como arma de denúncia, espalhando através dela uma mensagem universalista, transformadora, interventiva e profundamente humanista, que luta pela valorização da pessoa e da sua condição e sonha com um mundo mais justo e melhor.

Os desafios a que vamos sendo sujeitos, desde uma pandemia e uma guerra na Europa à crise inflacionista, às desconfianças que recaem sobre os sectores da economia e da política ou à escalada dos movimentos populistas e nacionalistas, não escapam ao olhar e à sensibilidade da pintora. Por isso pede que estejamos atentos às atitudes e comportamentos preconceituosos e discriminatórios que pendem sobre os mais frágeis e vulneráveis e que abandonemos o tom de passividade face ao sofrimento das crianças e idosos, das mulheres vítimas de violência doméstica, dos que sofrem perseguição política ou fogem das guerras, dos que revelam uma orientação sexual diversa ou não nasceram com a mesma cor da pele. Marginalizados, excluídos, vamos encontrá-los em quadros cuja enorme beleza pictórica não oculta o significado de um olhar perdido na imensidão, de um ombro que se enlaça, de um grito calado, de um rosto dolorido, de umas mãos que se erguem aos céus. Quadros que devemos olhar de frente, como quem se vê ao espelho.

Num todo coerente, “Utopia e Realidade” leva-me a abraçar Gina Marrinhas com a maior admiração. A sua pintura sempre me cativou, as figuras evanescentes, aquela paleta reduzida em combinações a primar pela elegância e bom gosto, quase como quem pede desculpa por “abusar” da cor, por vezes um fulgor vermelho vivo como um risco que se aceita correr. Porém, mostra-se aqui de uma forma que eu não conhecia, que me surpreendeu e me fascinou. Nesta exposição, a crueldade que se abriga por detrás de um conto infantil tem uma expressão bem real. Este país (este mundo) não é o de Alice, na floresta o lobo-mau não admite perguntas e pinóquios é o que mais há. Armas, só de destruição maciça, os barões assinalados são carne para canhão e as “ilhas dos amores” tomam o nome de Samos, Lesbos ou Lampedusa. Quase nada disto, porém, é mostrado cruamente. A inquietação gerada advém do contraste entre a chamada de atenção subtil e o conjunto de emoções que daí advêm. Um grito será sempre um grito, mesmo que levantado num sussurro.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Aqua +32" | Carlos Enxuto



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Aqua +32”,
de Carlos Enxuto
XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Museu da Cidade de Aveiro
30 Out 2021 > 30 Jan 2022


Carlos Enxuto nasceu nas Caldas da Rainha no ano de 1963. Tinha aqui início uma viagem onde o artista e a cerâmica se cruzaram repetidamente, das visitas à olaria no velho moinho ao cimo da rua, às muitas oficinas e olarias que existiam na sua cidade ou à “sala de visitas” em que o Museu Malhoa acabaria por se transformar. Sem dar por isso, seguiu o ramo das ciências no Ensino Secundário”, a matemática, a física e a química a surgirem como fontes de inquietação para acabarem por se transformar na base interdisciplinar de conhecimentos que aplica hoje na sua cerâmica. Incessante busca pelo equilíbrio das formas e das cores, tendo na representação da água uma constante, a viagem de Carlos Enxuto no mundo da cerâmica toma forma numa nova exposição intitulada “Aqua +32”, integrada na programação da XV Bienal Internacional de Cerâmica Artista de Aveiro e que, até ao próximo dia 30 de Janeiro, pode ser vista no Museu da Cidade.

“Aqua” pretende constituir-se num momento de reflexão, de sentir o significado da água na vida de cada um de nós, tal como Carlos Enxuto a sente. Numa cidade banhada por água, os canais como veias que percorrem o corpo da cidade, a obra do ceramista adquire a dimensão do real, a força das suas mãos como as correntes que fluem ao sabor das marés. O objecto que nasce do barro banhado pela água vem contar uma história, olhando o tempo que traz e leva, momentos de vida das gentes da Água. Ora orgânicas, ora geométricas, as formas onde essa água continua a sua viagem transportam a um movimento onde o ceramista procura o equilíbrio na sua criação, como o intervalo entre as marés onde a luz na água reflecte o que a envolve. Nelas percebemos diálogos, narrativas, matéria-criador, objecto-observador, algo só possível porque resultado da união das águas com a matéria.

Em “+32”, os tempos de criação do objecto cerâmico são debatidos através das peças que acompanham a exposição. A caixa conta a história de quem trabalhou o bloco de grés, o vidrado que a cobre a deixar à vista as cicatrizes deixadas no barro pelas mãos do Homem e da Natureza. Transportado para um bailado entre o ocidente e o oriente, o visitante vê em “Bules” um convite à celebração da cerimónia do chá, à comunhão e à partilha. A porcelana aparece numa viagem em “Timeline”, mostrando a sua força como matéria enquanto percorre um rio negro. A instalação “À mesa” é uma história contada com milhares de anos, desde a primeira tigela em simples argila vermelha, até à delicada tijela de porcelana. O térmico da exposição é marcado pelo início da cerâmica, acentuando a viagem pela criação, onde o artista encontra o prazer de criar o arquétipo da cerâmica – a tigela -, o objecto cuja beleza e estética nos transporta para casa, cuja forma nos dá prazer e conforto e cuja função alimenta as gentes do mar e as gentes da terra.

sábado, 11 de dezembro de 2021

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "L'Empreinte du Geste" | Jean-François Fouilhoux



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “L’Empreinte du Geste”,
de Jean-François Fouilhoux
XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Galeria da Antiga Capitania do Porto de Aveiro
30 Out 2021 > 30 Jan 2022


“Gosto da argila. Comovo-me sempre quando vejo a marca dos meus dedos no barro. A argila memoriza o mínimo toque, guardando o movimento que lhe transmitimos. É imediato; a mais pequena variação e até hesitação deixam a sua marca.”
Jean-François Fouilhoux

À semelhança do pigmento e da parede da caverna, ou do lápis e do papel, o barro alia-se primeiro à mão, depois, ao corpo e a todo o tipo de ferramentas. O trabalho de Jean-François Fouilhoux desenvolve esta ideia: ele escreve no barro. Tudo começa com a criação de uma parede de argila na qual irá desenhar. O seu lápis? Uma lâmina flexível que vai curvando à sua vontade para desenhar um volume. Depois movimenta-o no interior da parede de argila que vai cortando ao mesmo tempo que desenha na sua superfície. No interior do barro o volume forma-se às cegas, apenas imaginado à medida que vai sendo criado. O artista vive esse volume, fruto de um traço de energia, de tensão, levado a cabo por um caligrafia, para, num gesto meditado, o sacrificar. Enfim livre, a marca do gesto reduz o todo à sua superfície, como se fosse pele ou uma folha.

A relação de Jean-François Fouilhoux com a argila é mais uma história entre o cheio e o vazio, recorrente na cerâmica. É isso que podemos constatar, apreciando os seus trabalhos agora expostos na Galeria da Antiga Capitania, peças obtidas a partir da moldagem e cozedura de grés branco e esmalte “celadon”. Criados ao sabor do gesto, arcadas, volutas, arabescos e muitas outras formas de variada complexidade encontram-se e travam entre si diálogos eloquentes, como elementos de uma coreografia cósmica única e irrepetível. Na sua busca pelo momento determinante, Jean-François Fouilhoux faz da sua uma obra de oposições e contrastes: a profundidade do “celadon” e a sua transparência, a forma como o esmalte trata a luz, a oposição entre o macio e o áspero, a leveza da argila, o finito e o inacabado, a curva e o ângulo recto. Feita de poesia, espanto, emoção, de rupturas inesperadas que despertam a suavidade da cor, as peças parecem existir para mergulhar o visitante no abismo do prazer.

Num movimento ascendente cuja origem se encontra no mais fundo da terra, “L’Empreinte du Geste” é um convite a uma viagem sensorial entre dobras, transparências e fissuras, sinclinais e anticlinais que abrigam a força do gesto que os determinou. O “celadon” funciona como um complemento perfeito na obra de Fouilhoux, conferindo-lhe uma sensação de doçura, uma impressão de profundidade infinita. Esta serenidade permite-lhe exaltar as tensões, uma certa dramaturgia em esculturas de linhas complexas, vivas e por vezes atormentadas. Perante cada uma das peças, percebemos esse ímpeto vibratório, o encontro do cheio e do vazio, de definido e do indefinido, um equilíbrio frágil que encontra eco na nossa condição humana. Como um elo que finalmente podemos tecer entre culturas, uma linguagem que cabe a cada um de nós decifrar e partilhar. A arte como linguagem universal. Que melhor coisa podemos querer?

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

CERTAME: XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro



CERTAME: XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Vários Locais
30 Out 2021 > 30 Jan 2022


A Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro constitui uma das mais relevantes manifestações culturais em Portugal e a nível internacional, no âmbito da produção de cerâmica artística. Através do estímulo à experimentação e à criatividade, o certame visa contribuir para a produção de cerâmica artística contemporânea, constituindo-se como um polo dinamizador de novas tendências da cerâmica e contribuindo para uma formação didática e para o desenvolvimento de carácter cultural. Centro de diálogo e partilha, age como disseminador de correntes e conceitos, abrindo caminhos no campo da cerâmica artística contemporânea, actuando no âmbito da renovação estética e, igualmente, dando a conhecer novos materiais e técnicas.

Contemplando 128 obras de 113 artistas de 58 nacionalidades diferentes, a exposição principal está sediada no Museu de Aveiro / Santa Joana. Os trabalhos foram seleccionados entre 477 obras a concurso de um total de quase três centenas de artistas (individuais e colectivos) que se candidataram. Esta exposição destaca-se pela diversidade e pelo carácter inovador, explorando a riqueza plástica da matéria cerâmica. Nela podemos ver as peças vencedoras do concurso internacional, com destaque para “Big Smile”, de Ellen van der Woude, a obra vencedora. Marie-Josée Comello, com “ETA 24.06”, e Andri Ioannou, com “Nereide”, alcançaram as posições imediatas. É lá que encontramos também as menções honrosas atribuídas a Anima Roos, Cheng-Chung Yu, Chin-Wang Chen, Filipe Faleiro, Lara De Sio, Olga Simonova, Rita Gonçalves, Sunbin Lim e Yukiko Kitahara.

Integrando o vasto programa, há um conjunto de exposições que ocupam alguns dos mais importantes equipamentos culturais da cidade e que vale a pena visitar. No Museu da Cidade de Aveiro, Carlos Enxuto expõe “Aqua + 32”. As imagens de Celine Marie dão lugar a “A Metamorfose do Corpo” e ocupam o lindíssimo espaço da Estação de Aveiro. “L’Empreinte du Geste”, de Jean-François Fouilhoux, toma conta da Galeria da Antiga Capitania. Ícone do figurado de Barcelos, Rosa Ramalho tem expostas uma colecção das suas mais representativas peças na Galeria Morgados da Pedricosa. Parte do projecto “A Bienal vai à Escola - A Poesia da Forma”, Anabela Soares expõe “Quarto Escuro” no ATLAS Aveiro - Edifício Fernando Távora. Finalmente, no Museu Arte Nova, podemos encontrar “Argila que nos Une. Bienal em Movimento”, exposição itinerante que integra obras das últimas edições do concurso da Bienal e que permite a revisitação de algumas das peças vencedoras. Para se ter uma ideia, excluindo o edifício da Estação, diria que é possível visitar todos os pólos da Bienal em duas a três horas. Para o púbico em geral há um “passaporte” que tem o custo de dois euros e dá acesso a todos os espaços.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "O Poder das Mãos: O Extraordinário Imaginário de Rosa Ramalho"



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “O Poder das Mãos: O Extraordinário Imaginário de Rosa Ramalho”
XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro
Galeria Morgados da Pedricosa, Aveiro
30 Out 2021 > 30 Jan


“Figura franzina, sempre de escuro vestida, lembrando uma viuvez de muitos anos, iletrada, de uma inteligência e sensibilidades fulgurantes, de linguagem brejeira mas comedida, olhos vivos e penetrantes que, só por si falavam, temente a Deus que, na sua pobre oficina de Galegos S. Martinho, mais lembrando um presépio, projectou o nome de Barcelos e de Portugal pelas quatro partidas do Mundo. Rosa Ramalho foi rica de tudo... pobre só no dinheiro…”
Vasco de Faria, Jornal de Barcelos, 25 de Janeiro de 1990

A arte e a cultura populares têm, em Barcelos, uma expressão única e de grande riqueza, formada na vida do seu próprio povo: o artesanato em barro. Desta matéria prima apanhada da terra para sustento das famílias saiu o figurado de Barcelos, autêntica expressão artística das pessoas simples que saltou das rudes oficinas e do espaço rural do concelho, onde se confinava, para o infinito mundo urbano pela mão de intelectuais e artistas. Foi este o percurso feito por Rosa Ramalho, há pouco mais de 50 anos. Ao preterir o ofício da mãe tecedeira, metendo as mãos no barro na casa de uma vizinha, a artesã de S. Martinho de Galegos deu início, ainda criança, a uma verdadeira saga, um modo de vida que, muitos anos mais tarde, levaria à descoberta da sua obra por determinados círculos académicos, processo que culminaria com a elevação do artesanato anónimo e pobre ao estatuto de arte com assinatura reconhecida.

Verdade ou lenda, consta que a menina nem teria muito jeito para os bonecos. Diziam os pais e vizinhos que ela não ia “encarreirar na arte”, mas a jovem não desistiu do sonho e continuou a fazer os bonecos que lhe dava gosto modelar. Até que um dia, no S. João das Fontaínhas, no Porto, um contacto fortuito com o professor António Quadros mudaria radicalmente a popularidade da Ti Rosa e dos seus bonecos. Estava-se em meados da década de 50. O marido tinha morrido em junho de 1956 e Rosa começa a receber a visita, na Feira de Barcelos e em sua casa de S. Martinho, de comitivas de estudantes de Belas Artes, atraídos pela motivação do seu mestre e pela peculiariedade da sua obra. Conhecida e famosa, a sua arte começa a ser requisitada, cobiçada, idolatrada. A fama da artesã rapidamente atingiu tal dimensão que é consensual dizer-se que no figurado de Barcelos há um antes e um pós Rosa Ramalho: o figurado sortido, arte menor, dá lugar ao figurado de autor.

Senhora de uma criatividade única, inspirada pela lacónica realidade que a envolvia, modelou peças que retratavam as cenas do quotidiano popular, da matança do porco, mulheres em carros de bois, pombas e músicos, ao mundo místico das procissões, santos e anjos. Para além destas, produziu uma vasta obra imbuída de um universo que, enquanto criança, a perturbava – “o mundo dos monstros”. Lobisomens, feiticeiras, diabos, bichos informes, entre outras figuras, marcaram um imaginário enigmático e original. Esta vertente da sua obra, fantasmagórica e inimaginável, distinguiu-a de tantos outros barristas desta região, dando-lhe um reconhecimento público que, ainda hoje é notório pelo mundo fora. A XV Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro presta-lhe uma sincera e justíssima homenagem, expondo um conjunto de trabalhos com a sua assinatura, bem representativos do seu mundo das formas. A Galeria Morgados da Pedricosa, a dois passos do Museu de Aveiro / Santa Joana, acolhe a exposição e é local de visita obrigatória. Só até 30 de Janeiro.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Aveiro no Olhar dos Outros 2"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Aveiro no Olhar dos Outros 2”
Vários Autores
Museu da Cidade de Aveiro
27 Jun > 13 Set 2020


Os dois pisos superiores do Museu da Cidade de Aveiro acolhem, por estes dias, a mostra fotográfica “Aveiro no Olhar dos Outros 2”, conjunto de 43 registos fotográficos que documentam a cidade no período que vai da segunda metade do século passado até ao presente. Trata-se, como o próprio nome deixa antever, duma exposição que complementa aquela outra que, com o mesmo nome, teve lugar neste espaço em 2019 e que deu a ver a cidade tal como ela era na primeira metade de Novecentos. De comum às duas mostras, para além da narrativa expositiva sobre uma cidade de inegável beleza e fotogenia, estão os trabalhos provenientes quer de instituições nacionais, quer de coleções particulares, oferecendo ao visitante as mais diversas perspectivas, introspecções e técnicas de captar o real. A complementar as imagens surgem alguns objetos como uma máquina fotográfica e material de laboratório do Estúdio Beleza.

De Artur Pastor podem ser vistos oito magníficos apontamentos cujo valor documental só tem par na qualidade estética dos mesmos. João Martins é outros dos fotógrafos mais representados, repousando o olhar sobre a Ria e aqueles que dela vivem. João Galamba traz-nos dois flamingos na beleza do voo e um olhar sobre os esteiros que recortam a paisagem. Com Maria Pinto atravessamos as marinhas de sal e António Novais recorda-nos a faina dos moliceiros em tempos idos. O leque de autores presentes nesta mostra fica completo com Elza Rocha, Fernando Galhano, Paulo Abrantes, Gonçalves Pedro, Pedro Lobo, Horácio Novais, Michel Waldmann, Manuel Pinheiro Rocha e Octávio Lixa Filgueiras.

Fiéis intérpretes de trechos citadinos e da paisagem urbana, monumental e lagunar de Aveiro, os autores aqui representados devolvem-nos, entre o realista e o contemplativo, o pulsar de uma cidade que recusa a modernidade descaracterizadora, antes se assume altiva e insubmissa na sua identidade e valores. O diálogo entre o novo e o menos novo é recorrente, nele se reconhecendo o lugar cimeiro que a Ria ocupa, outrora fonte de sustento, desenvolvimento económico e muitas preocupações, hoje fonte de contemplação da população local e dos muitos que a visitam. Em última análise, o que “Aveiro no Olhar dos Outros 2” nos apresenta é uma cidade que se reinterpreta à luz de um passado do qual muito se orgulha e que abraça o futuro com a certeza daquilo que sempre foi e é: “Doce Fada / Namorada / Duma beleza sem par / És ainda / Terra linda / Linda terra à beira-mar.”

sábado, 22 de junho de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Terra de Sonhos"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Terra de Sonhos”,
de Cristina Garcia Rodero
Arte na Rua
Rossio, Aveiro
18 Jun > 24 Jul 2019


Foi no Mosteiro de Tibães, no âmbito da 4ª edição dos Encontros da Imagem de Braga, que me cruzei pela primeira vez com Cristina Garcia Rodero. Estávamos em 1990 e a mostra “España Oculta”, inaugurada no ano anterior no Museo de Arte Contemporáneo de Madrid e sendo, de seguida, apresentada na vigésima edição dos Encontros Internacionais de Fotografia de Arles, foi de tal forma impactante que o nome da fotógrafa espanhola passou a figurar ao lado de René Burri, Henri Cartier-Bresson e Pierre de Fenoyl como as minhas maiores referências neste campo tão particular da fotografia. Depois disso cruzei-me ao de leve com outros trabalhos seus – no Musée de l'Élysée, em Lausanne, ou ainda recentemente no Centro Português de Fotografia, no Porto -, mas nunca mais tive a oportunidade de ver outra mostra da artista. A oportunidade surge agora, quase ao fim de três décadas, através de “Terra de Sonhos”, conjunto de 40 fotografias patente ao público no Rossio de Aveiro e que é obrigatório ver.

Dedicada às mulheres de Anantapur, “Terra de Sonhos” lança um olhar sobre a vida quotidiana dos habitantes desta cidade no Estado de Andhra Pradesh, considerada uma das zonas mais pobres da Índia. Durante mês e meio, Cristina García Rodero visitou hospitais, centros de acolhimento de mulheres vítimas de violência, oficinas, escolas e casas, realizando fotografias que procuram dar voz a pessoas que são, muitas vezes, esquecidas. Crianças, pessoas com deficiência, mães, camponesas, costureiras, noivas de diferentes religiões, professoras, enfermeiras e estudantes têm um papel de destaque no projecto de Cristina Garcia Rodero. “A exposição entra no mais sensível e mágico do mundo feminino e na força e capacidade de superação das mulheres em Anantapur, através de uma selecção de imagens que cativam pela sua qualidade de composição e de vivência, refere um texto alusivo da Fundação “la Caixa”, promotora do evento.

Cruzar “España Oculta” com “Terra de Sonhos” é tarefa ingrata. Embora em ambos os casos haja a preocupação da fotógrafa em dar a ver aquilo que normalmente não se vê, há aspectos culturais demasiado díspares entre as duas realidades que impedem qualquer tipo de aproximação. Ou talvez não. Um dos traços mais marcantes da fotografia de Cristina Garcia Rodero em “España Oculta” era a genuinidade e espontaneidade do gesto e da pose, de par com um certo exibicionismo, que os retratados apresentavam e que fazia deles personagens quase grotescos. Impresso em cada imagem, havia ali um profundo choque entre o sagrado e o profano, com uma mensagem muito clara sobre quem somos e quais os nossos limites. E essa é uma mensagem muito presente neste “Terra de Sonhos”, embora o retrato seja aqui muito menos espontâneo, nalguns casos mesmo encenado (veja-se, por exemplo, a magnífica imagem de Nandini, de 8 anos, em frente à lição do dia escrita no quadro negro da sua escola ou a pequenina Nissi Rachel, convidada a um casamento cristão). De qualquer forma, esta exposição é absolutamente tocante, no que encerra de verdade sobre um conjunto de realidades que têm na pobreza o denominador comum. A não perder!

domingo, 6 de janeiro de 2019

CONCERTO: "Do Natal aos Reis"



CONCERTO: “Do Natal aos Reis”,
com César Prata, Ariel Ninas e Catarina Moura
Igreja das Carmelitas, Aveiro
05 Jan 2019 | sab | 21:30


“Levante-se daí minha senhora dessa cadeira de cortiça / Venha-nos dar as Janeiras, a morcela ou a chouriça”. À voz da cantora, segue-se o refrão, o público em uníssono a responder: “S. José se alevantou e uma vela se acendeu / A adorar o Deus Menino que à meia-noite nasceu!”. Não terá sido com esta espontaneidade toda, implicou explicação prévia, exigiu dois ou três ensaios, mas o resultado pareceu bom a todos. Desta forma alegre e harmoniosa chegava ao fim o concerto “Do Natal aos Reis” que lotou por completo a Igreja das Carmelitas, em Aveiro, embalando músicos e público no sabor da tradição.

César Prata, Ariel Ninas e Carolina Moura foram os “três reis magos” que, na voz e num conjunto de intrumentos tradicionais – da guitarra à harmónica, dos sinos ao adufe -, ofereceram este concerto temático sobre canções tradicionais da quadra do Natal da Galiza e Portugal. Os dois primeiros são “companheiros de estrada”, à dupla se devendo o singular projecto “Cantos de Cego da Galiza e Portugal”, que deu lugar a uma série de concertos ao longo de 2018 e ainda à edição dum disco com o mesmo nome (ed. aCentral Folque, da Galiza). A eles se juntou Catarina Moura, um dos sete elementos do colectivo feminino “Segue-me à Capela” e cuja voz, harmoniosa e doce, teve o condão de aquecer o espaço deste magnífico exemplar do Barroco e penetrar nos corações das gentes.

Percorrendo espaços que unem, culturalmente, o norte e o sul do Rio Minho, o trio foi ao encontro da mais profunda tradição, propondo cantigas de louvor a um Deus Menino acabadinho de nascer. Em português, mirandês e galego, fizeram-se escutar Hinos, Janeiras, Entradas e Aguinaldos, recordando-se temas populares - “Oh Bento Airoso”, que a Brigada Vitor Jara popularizou, ou “Beijai o Menino”, que conhecemos na voz de Né Ladeiras – e escutando-se outros menos conhecidos. Do Minho (“Eu hei-de ir ao Presépio”) ao Alentejo (“Esta Noite é de Janeiras”), por veredas de pastores (“Oh Meu Menino Jesus”) ou no coração da Galiza (“Entrada de Aninovo” ou “Reis das Mozas”), convivendo com uma “traiçoeira” língua mirandesa (“Cantar de ls Reis”, onde “có-có” significa “truz-truz”) ou saudando Fernando Pessoa (“Chove. É dia de Natal”), foi esta uma viagem por um tempo outro, tornado nosso graças à excelência da música oferecida pelo trio. Uma música que vai dar lugar a um novo álbum, prometido para breve. Vamos estar atentos!