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terça-feira, 7 de julho de 2026

CONCERTO: Maria João, André Mehmari & Carlos Bica



CONCERTO: Maria João, André Mehmari & Carlos Bica
Com | Maria João (voz), André Mehmari (piano) e Carlos Bica (contrabaixo)
Teatro Aveirense
05 Jul 2026 | dom | 18:00


Há concertos que parecem nascer de uma inevitabilidade artística, como se os músicos estivessem destinados a encontrar-se em palco. Foi essa, precisamente, a sensação que percorreu o encontro de André Mehmari com Maria João e Carlos Bica, na tarde do passado domingo, no Teatro Aveirense. Três personalidades absolutamente singulares, dotadas de uma invulgar versatilidade e de um domínio técnico irrepreensível, souberam construir um diálogo musical de cumplicidade única, cada gesto, cada silêncio e cada improvisação assentes numa escuta permanente entre iguais. Mais do que um concerto, assistiu-se a um exercício de criação em tempo real, onde jazz, tradição e improvisação se cruzaram sem fronteiras nem convenções. No centro desse universo criativo esteve, muito claramente, Maria João. A sua presença cénica dominou o espectáculo, não por qualquer protagonismo imposto, mas pela força magnética da sua comunicação. Elástica, poderosa, límpida, capaz de alternar entre o murmúrio intimista e a explosão expressiva, entre o canto, o grito, o sussurro, o riso e a palavra dita, a voz revelou-se, uma vez mais, um instrumento inesgotável. Poucas intérpretes conseguem transformar o palco num espaço de tão absoluta liberdade.

Os três primeiros temas — “Parrots and Lions”, de Maria João e Mário Laginha, “Duplo Falso Par”, de André Mehmari, e “Passarinhadeira”, de Guinga — anunciaram desde logo a identidade estética do projecto. A improvisação surgiu como linguagem comum, sustentada por uma escrita exigente e por uma permanente atenção ao equilíbrio entre os três músicos. André Mehmari impressionou pela elegância do discurso pianístico, alternando momentos de refinada contenção com passagens de arrebatador virtuosismo, enquanto Carlos Bica voltou a demonstrar porque continua a ser um dos grandes contrabaixistas europeus, desenhando linhas melódicas de enorme subtileza e uma pulsação que nunca deixou de respirar. Maria João respondeu a ambos com uma criatividade vocal verdadeiramente desconcertante, explorando sonoridades étnicas, inflexões populares e uma expressividade quase teatral. “Lucky”, composição de Carlos Bica incluída no álbum “11:11”, foi um momento inesquecível. Nela, música, palavra e gesto expandiram-se até aos limites da imaginação, convocando vocalizos de ressonância ancestral, improvisação livre e os célebres versos de Romeu e Julieta - “My only love sprung from my only hate…” - numa construção cénica e musical de rara intensidade, tão inesperada quanto comovente, que ficará certamente como o momento mais memorável do concerto.

O espectáculo prosseguiu numa sucessão de permanentes descobertas, oscilando com absoluta naturalidade entre a intimidade e a exuberância, entre a contenção e o risco. Houve referências subtis aos blues, inesperadas incursões por registos operáticos, episódios de oralidade narrativa e ecos da canção nordestina, sempre integrados num discurso coerente e profundamente livre. A capacidade dos três músicos para transformar cada tema num organismo vivo, em permanente mutação, constituiu uma das maiores virtudes desta apresentação, recusando qualquer previsibilidade e envolvendo o público numa experiência de permanente surpresa. “Para Além do Alentejo” e “Do Sertão ao Mar”, duas belíssimas composições de André Mehmari, enriquecidas por uma leitura calorosa e inspirada do trio, encerraram o alinhamento da melhor forma. A voz ampla, quente e generosa de Maria João voltou a assumir-se como o grande eixo emocional da música, enquanto Carlos Bica confirmava, com um trabalho magistral no contrabaixo, uma capacidade invulgar de sustentar e, simultaneamente, reinventar o discurso do trio. O público respondeu com entusiasmo inteiramente justificado a um concerto que dificilmente se apagará da memória. Pela excelência individual dos seus protagonistas, mas sobretudo pela extraordinária comunhão artística que alcançaram, esta foi uma daquelas raras ocasiões em que a música pareceu acontecer em absoluto estado de graça.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

CONCERTO: Camané



CONCERTO: Camané
Com | Camané (voz), José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola), Paulo Paz (contrabaixo)
Teatro Aveirense
21 Fev 2026 | sab | 21:30


Camané subiu ao palco do Teatro Aveirense para mostrar o quanto a depuração pode arrastar em si a intensidade mais vertiginosa. Nada de gestos largos, nenhum artifício cénico a distrair a escuta, apenas a voz, erecta e sóbria, a rasgar o silêncio como uma lâmina, a talhar na penumbra a matéria invisível da emoção. Fiel a uma trajectória que fez da palavra território sagrado e da contenção instrumento dramático, Camané desenhou o concerto como rito de contenção e verdade. Instantes houve em que a sala pareceu suspensa no fio de um verso - “o amor quando se revela” -, como se a revelação fosse menos epifania do que espaço aberto na memória. Cada pausa foi acção, cada sílaba um gesto ético, cada inflexão uma escolha estética irrevogável. Nesse recolhimento atento, a emoção não se derramou, antes condensou-se até ganhar raízes. E foi nessa condensação, quase ascética, que o espectáculo encontrou grandeza rara, fazendo do silêncio não ornamento, mas pulsação secreta, nervo exposto que sustentou toda a arquitectura da noite.

Ao percorrer geografias diversas da sua discografia, Camané teceu o alinhamento do concerto como quem atravessa estações de uma mesma viagem interior, costurando tradição e reinvenção de forma lúcida e inteligente. A guitarra portuguesa de José Manuel Neto, a viola de Carlos Manuel Proença e o contrabaixo de Paulo Paz mostraram-se irrepreensíveis na construção de um tecido sonoro depurado, de transparência quase líquida, os acordes a surgirem como extensões orgânicas da respiração do fadista. A cumplicidade com Neto revelou-se em subtis oscilações de dinâmica, ora sustentando um dramatismo contido, ora abrindo clareiras de leveza melancólica, como em “Com Que Voz”, as palavras de Luís Vaz de Camões transmudadas em tristeza e dor. “Te Juro” foi promessa a ganhar densidade moral, “Fado Sagitário” fez o destino soar a constelação íntima, “Amar Não Custa” mostrou o quanto de afirmação estética pode residir na simplicidade e “Saudades Trago Comigo” não foram apenas verso, mas condição humana partilhada. Nada sobrou, nada faltou: tudo foi rigor melódico, dicção cristalina e uma intensidade a raiar o incêndio.

Pelo palco passaram as palavras de Sebastião Belfort Cerqueira, Manuela de Freitas, José Carlos Ary dos Santos, Pedro Homem de Mello, Alexandre O’Neill ou Pessoa, numa travessia que foi do “Fado Alfacinha” ao “Fado da Bica”, do “Fado Cravo” ao “Fado Moliceiro”, sem esquecer a “Casa da Mariquinhas”, como se cada fado fosse casa habitada por fantasmas luminosos. O contraponto de modernidade surgiu na poesia de Pedro Abrunhosa, enquanto a herança de José Mário Branco se impôs num conjunto de temas inspirados, com destaque para os incontornáveis “A Guerra das Rosas” e “Ela Tinha Uma Amiga”, momentos de tensão subtil e contida. “Fado Peniche” e “Sei de Um Rio” colheram aplausos prolongados, como se o público resistisse a regressar ao tempo comum. Mais do que concerto, esta hora e meia com Camané foi experiência de comunhão exigente, foi tradição e risco de mãos dadas, memória e presente entrelaçados. Foi narrativa contínua onde cada verso encontrou o seu exacto peso específico e cada silêncio disse mais do que qualquer excesso poderia ousar. Memorável!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

TEATRO: "Class Enemy" | Manuel Tur



TEATRO: “Class Enemy”,
de Nigel Williams
Encenação | Manuel Tur
Cenografia | Ana Gormicho
Figurinos | Sara Pazos
Interpretação | Bernardo Gavina, Daniel Silva, Gonçalo Botelho, Gonçalo Fonseca, Lisa Reis, Tiago Araújo, Sérgio Sá Cunha
Produção | 11Zero2
110 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Aveirense
13 Fev 2026 | sex | 21:30


Escrita em 1976, “Class Enemy” conserva uma actualidade perturbadora, como se o diagnóstico de Nigel Williams tivesse sido traçado para o futuro. O dramaturgo afirmou ter concebido a peça movido pela convicção de que a busca do conhecimento deveria ocupar o centro da experiência escolar, acima da retórica pedagógica, das reuniões e dos bons resultados estatísticos. É precisamente essa inversão de prioridades que o espectáculo de Manuel Tur expõe com uma clareza implacável. Entramos na sala de aula, um espaço fechado onde o tempo deixou de avançar. Seis alunos, classificados pelo sistema como irrecuperáveis, veem nela, em simultâneo, um refúgio e uma condenação. Aqui permanecem porque a casa, a rua ou o vazio se afiguram como alternativas ainda mais inóspitas. A ausência do professor, motor narrativo da peça, assume uma dimensão simbólica contundente: é a metáfora de todas as desistências institucionais que moldaram aquelas vidas. A sala transforma-se num purgatório laico, um ciclo fechado onde a linguagem substitui a acção e onde a violência verbal emerge como arma e escudo contra o silêncio, esse território perigoso onde se insinuam a raiva e a dor.

Ao optar por um elenco mais velho do que o previsto no texto original, Manuel Tur sublinha que o que está em causa não é a idade biológica, mas o desgaste precoce de existências encurraladas. A cenografia acentua a ideia de depósito humano, com as paredes fendidas, as carteiras riscadas, uma porta partida, como se aquela Turma H existisse fora do mapa oficial da escola. Não é uma sala, é um “buraco negro” onde o sistema recolhe e esconde os seus resíduos. A analogia com o Sermão de Santo António aos Peixes ecoa na dinâmica interna do grupo: os grandes devoram os pequenos, a sobrevivência faz-se pela humilhação mútua. Ferro, líder carismático e cruel, impõe-se pela força física e pela violência do discurso, silenciando Clerasil e esmagando Pirilampo, cuja tentativa de elevação moral é punida com brutalidade. Cada “aula” improvisada revela vidas atravessadas pela pobreza e pelo racismo, pela exclusão e pela frustração, expondo a falácia meritocrática que exige esforço individual a quem nunca partiu do mesmo ponto. A escola é aqui uma máquina avaliativa, pródiga em diagnósticos e projectos avulso, mas incapaz de sustentar uma relação educativa consequente.

Entre o palavrão e a obscenidade - linguagem que aqui não é ornamento, mas sintoma - pulsa uma fome de sentido que nenhuma grelha ou classificação consegue medir. Quando as personagens improvisam as suas “aulas”, revelam não apenas vidas feridas, mas também um desejo difuso de serem vistas e ouvidas para lá da etiqueta de “problemáticas”. A encenação recusa qualquer tentação redentora: o professor que nunca chega, ou que chega já desistente, surge como figura esvaziada por metas, relatórios e dispositivos de controlo, transformando a relação pedagógica numa gestão de danos. Ao desmontar a ficção do mérito, essa narrativa confortável segundo a qual o esforço individual basta para superar a desigualdade, “Class Enemy” devolve-nos a imagem de uma escola que classifica antes de compreender e que abandona antes de assumir as suas responsabilidades. Não saímos felizes do espectáculo, antes dominados pela inquietação e pelo desconforto de percebermos ser este o sistema que ajudámos a naturalizar. Como no sermão do Padre António Vieira que nos deixava “descontentes connosco”, o teatro cumpre aqui a sua função mais exigente, a de não confortar, antes desassossegar, implicar e convidar a agir.

[Foto: Teatro Aveirense | https://www.facebook.com/teatroaveirense]

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

CONCERTO: "Contar Cantigas" | Paulo de Carvalho



CONCERTO: “Contar Cantigas”
Com | Paulo de Carvalho (voz), Victor Zamora (piano)
Teatro Aveirense
09 Fev 2025 | dom | 2025


Quando, em 1971, alcançou o segundo lugar no Festival RTP da Canção com “Flor Sem Tempo”, música de José Calvário e letra de José Sottomayor, Paulo de Carvalho era um quase estreante nas andanças televisivas: “Foi a segunda vez que eu apareci, mas foi a primeira vez que as pessoas repararam em mim”, recordou. “Contar Cantigas”, o espectáculo que, com o pianista Victor Zamora, levou ao palco do Teatro Aveirense na noite do passado domingo, trouxe precisamente essas memórias de “tempos muito lá para trás, mas onde se fizeram coisas muito boas”. De fora desses primórdios de há mais de seis décadas ficaram os “Sheiks”, que fundaria em 1963 juntamente com  Carlos Mendes, Fernando Chaby e Jorge Barreto, bem como uma passagem fugaz pelos juniores do Benfica, mas outras e boas memórias estavam prestes a serem partilhadas. Assim foi ao longo de mais de hora e meia, o cantor e compositor a mostrar-se um bom contador de histórias e a oferecer ao público a música que gosta de cantar e que continua a encantar, mesmo que a idade não perdoe, a voz já não seja o que era e “uma anca ande para aqui a chatear”.

“Viva a alegria, viva a vida, viva o amor!” O concerto não poderia ter começado da melhor forma, com uma canção “oferecida” há uns anos largos por um conterrâneo, natural do Alentejo e emigrado em França. Foi com ela, cantada “à Capella”, que Paulo de Carvalho abriu um conjunto de 15 + 1 canções, com as quais preencheu um alinhamento que, para além de recuperar um conjunto de temas intemporais, serviu de homenagem a alguns dos maiores poetas e músicos da nossa língua, de José Carlos Ary dos Santos a José Niza, de Fernando Assis Pacheco a Agostinho da Silva. Sob os ritmos do Caribe escutou-se “O Cacilheiro”, já que “ninguém é perfeito” falou-se de “Lisboa, Menina e Moça”, com “Balada para uma Boneca de Capelista” percebeu-se que o azar de uns pode ser a sorte de outros, “O Meu Mundo Inteiro” mostrou que isto das cantigas também é, ou pode ser, negócio de família e “Um Beijo à Lua” lembrou que há diferenças a separar a noite do dia, a mulher do homem. Fazendo um interregno nestas cantigas contadas, Paulo de Carvalho deu o protagonismo ao público e este não se fez rogado, gargantas ao rubro, num abraço às Américas e a Consuelo Velásquez com“Besame Mucho”.

“Maria Vida Fria” e “Calé” levaram os presentes numa viagem pelos mais acolhedores lugares da alma, a qual se prolongou com “E Posto que Viver me é Excelente” e “Caminho Para São Tomé (Sodade)”, no primeiro caso o tampo do piano a fazer de adufe e no segundo o suporte do microfone a servir de tambor. A viagem prosseguiu pela imensidão da África e da América do Sul com a poesia de Rui Mingas, Alda Lara e Sílvio Rodriguez, em temas como “Prelúdio (Mãe Negra)”, “Os Meninos de Huambo” e “Pequeña Serenata Diurna”. Com o concerto a entrar na recta final, “Gostava de vos ver aqui” foi, na verdade do poema, um abraço ao público por “aquele que vos diz que a canção sou eu”, enquanto “Nini dos Meus Quinze Anos” constituiu mais um momento sublime de partilha, com espaço para bailarico de aldeia e um polvo à galega. Como não podia deixar de ser, “E Depois do Adeus”, fechou o serão em beleza, os quatro primeiros versos do poema extraídos “de quatro princípios de quatro cartas de África escritas pelo José Niza para a mulher”, a imporem a sua força, tal como se do começo desse dia inicial inteiro e limpo se tratasse. Foi bonita a festa, Paulo.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

CONCERTO: “A Garota Não, Banda Amizade, Ela Vaz em Concerto!”



CONCERTO: “A Garota Não, Banda Amizade, Ela Vaz em Concerto!”
Direcção Artística | Carlos Marques
Teatro Aveirense
14 Dez 2024 | sab | 21:30


A música é sempre melhor com amigos e esta é uma certeza para a Banda Amizade. Sejam amigos recentes ou de longa data, amigos de agora, amigos de outrora, amigos presentes ou que já partiram, é com amigos que se faz a festa da música. A celebrar 190 anos de existência, a Banda Amizade – Banda Sinfónica de Aveiro subiu ao palco do Teatro Aveirense e trouxe alguns desses amigos para ajudar a soprar tantas velas: Ela Vaz, uma amiga que não é de agora e da qual guarda a voz tão particular e as doces memórias de outras partilhas, e A Garota Não, uma nova amiga, assumida por inteiro na intensidade da sua voz, no poder da palavra e com quem é fácil desenvolver relações de amizade, solidariedade e cumplicidade. Às duas convidadas juntou-se Fausto Bordalo Dias, uma amizade mais antiga, de alguém com quem – e com cujas composições – a Banda Amizade teve o privilégio de privar por algumas vezes e que nos deixou recentemente, legando-nos, no entanto, a força de uma música que prima pela intemporalidade e rompe as fronteiras da alma.

Como não podia deixar de ser, foi com Fausto que teve início o concerto e com “A Memória dos Dias”, espantosa composição que abre “O Despertar dos Alquimistas”, um álbum que se prepara para fazer 40 anos. Assistiu-se, desde logo, a um trabalho de orquestração notável, ao qual Ela Vaz acrescentou a paixão da sua voz, preenchendo de imagens poéticas e de sentimentos profundos o momento inaugural, as palavras perfumadas pelo cravo e pelo alecrim como símbolos de esperança que teima em manter-se viva face aos atentados à liberdade a que vamos assistindo. Seguiu-se “Caminho Certo”, um tema que Ela Vaz foi buscar ao seu “Eu” e tem o dedo de Viriato Teles e Ricardo Fino, para logo se afirmar um velho e enorme amigo, Zeca Afonso, de quem se escutou “Mulher da Erva”, essa “vela que a onda condena” e que nos traz uma mulher que, como tantas outras, não tem, e nunca teve, futuro. Antes de passar o testemunho a A Garota Não, Ela Vaz voltou a abraçar Fausto em “Porque Me Olhas Assim”, de novo a Banda a fazer vir ao de cima a beleza e riqueza das sonoridades do autor de “O Barco Vai de Saída” e “A Guerra é a Guerra”.

Cantada a meias, “Canção Sem Final” trouxe ao palco A Garota Não e a sua música de protesto e desafio – “podem decretar o fim da arte / e a gente faz uma canção sobre isso”. “Entregue a si própria”, mas sempre com o abraço da Banda Amizade à qual teceu os mais rasgados elogios, A Garota Não interpretou quatro das suas músicas mais conhecidas – “422”, “Mulher Batida”, “Urgentemente” (com uma quase imperceptível mas muito significativa alteração da letra, trocando “ódio” por “chega”) e “Dilúvio” – antes de devolver o palco a Ela Vaz que cantou “Queixa das Almas Jovens Censuradas” naquele que terá sido o momento mais alto da noite, a Banda a tirar o maior partido da genialidade da música de José Mário Branco e a abrir espaço para a beleza e intensidade da poesia de Natália Correia. Seguiram-se dois temas que resultam da colaboração da cantora aveirense no novo trabalho discográfico de Toli César Machado, “Sul” e “Adeus Liberdade”, esta última com uma mensagem muito forte, a de que “os homens precisam sonhar”, brilhantemente ilustrada por Gabriel Manarte que assegurou os desenhos ao vivo e em tempo real que foram desfilando na tela ao longo da noite.

Entramos na recta final do concerto e é de novo A Garota Não a brindar o público com as suas tiradas assertivas – “se eu cantasse como ela [Ela Vaz] chegava aqui e só dizia boa-noite” – e a atrever-se a mergulhar no universo de Fausto com “Roupa Velha”. Anima-se a plateia, tornam-se audíveis as palmas a compasso e os corpos balançam ao sabor de “Lá No Xepangara” e “Canto Moço”, de Zeca Afonso. “Só temos mais duas músicas, por isso, agora, dêem tudo nas palmas, nos gritos e no ‘linda, és linda’”, pede A Garota Não, arrancando gargalhadas à plateia. Primeiro, “Canção a Zé Mário Branco”, num arranjo que viu uma parte da banda a trocar os instrumentos por esse outro instrumento fantástico que é a voz e a juntar-se num afinado coro. Por fim, a loucura: bombos pela sala, muitas palmas, punhos erguidos e vivas à liberdade, ao som de “Eu Vi Este Povo a Lutar (Confederação)”. O público ergueu-se das cadeiras, juntando a sua à voz das cantoras num tema com direito a “bis”. Nos 190 anos da Banda Amizade, Abril e os seus valores calaram bem alto nos corações de todos. “Bandeira vermelha / Bem alevantada / Ai minha senhora / Que linda desfilada”.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

CONCERTO: Aldina Duarte



CONCERTO: Aldina Duarte
Aveiro 2024 - Capital Portuguesa da Cultura
Teatro Aveirense - Sala Aberta (Praça da República)
17 Ago 2024 | sab | 22:00


Genuinamente uma enorme fadista e uma laboriosa e comprometida cultora do fado, Aldina Duarte foi a convidada do mais recente momento da programação de rua do Teatro Aveirense, enchendo de graça e encanto uma nova “Sala Aberta”. Numa noite fresca e ventosa, a sua voz foi xaile generoso e aconchegante para o muito público que acorreu à Praça da República a escutá-la e que, de forma sentida, abraçou a espontaneidade e a emoção do seu fado, como se de um afago se tratasse. Aldina Duarte tem esta capacidade, exclusiva apenas de alguns, de pôr naquilo que canta a tristeza e melancolia que lhe parecem intrínsecas e que são marcas distintivas do próprio fado. Ao tom sofrido da sua voz, acrescenta o respeito pelas particularidades de cada fado, dominando como ninguém as pausas que os pontuam (leva de tal forma ao limite os silêncios em certos fados, que o coração quase nos salta do peito só de imaginar que poderá ter-se esquecido da letra). E, depois, tem esse dom único de ser como é, de se virar para a assistência após uma gargalhada e dizer, com toda a simplicidade e verdade: “É pá, desculpem lá… É que está mesmo a saber-me bem. Espero passar isso para vocês. É o que eu mais quero.”

“Trago dentro do meu fado / Uma figura de proa / E uma velha caravela / Que naufragou em Lisboa”. Foi com a poesia de João Ferreira Rosa e a música de Alfredo Duarte, do Fado Senhora do Monte, que Aldina Duarte abriu o concerto. Ao escutar cada uma das palavras deste “Auto-retrato”, ao sentir cada um dos seus silêncios, que também são música, percebe-se o quanto o fado e a vida estão nela tão intimamente ligados, dispostos a dar-se em arrebatamento e desejo, mas também em raiva e desespero. Extraídos de “Metade-Metade”, o seu mais recente trabalho, “Pisco-de-peito-ruivo”, “Duas Mãos”, “Primavera” e “Aprendiza” foram temas cantados ao longo do concerto, pondo o público, também ele, com um pé no fado e outro na vida. Com assinatura de Capicua, letrista improvável de um género tão singular, os temas pisam terrenos do fado, mas trazem com eles assuntos “de outros fados”, preocupações quotidianas que são da fadista e não menos nossas. Nem saudade ou nostalgia, inveja ou ciúme, sangue ou paixão. Antes silêncio e cativeiro, inépcia e cansaço, espera e solidão, o cheiro da terra molhada, um cedro velho, um planeta cada vez menos azul.

“Eu hei-de ser das cerejas / Da vertigem dos cardumes / Do mistério dos pardais”. João Monge, com a sua “Estação das Cerejas”, vem enriquecer o leque de poetas que se passeiam por dentro do fado no tempo do concerto. Também lá cabe a poesia de Manuela de Freitas e João Nobre, de Manel Cruz e Maria do Rosário Pedreira, da própria Aldina Duarte, vertida em músicas originais ou bebidas na tradição, do Fado Alcântara ao Fado Margarida, do Fado Ferreira ao Fado Carriche. “Quando se ama loucamente / Nada existe de outra forma”, diz-nos a fadista, tomada pela emoção de reconhecer nos talentosos Bernardo Romão (guitarra portuguesa), Rogério Ferreira (viola) e Francisco Gaspar (viola baixo), os cúmplices de uma extraordinária viagem, e por sentir que essa cumplicidade se estende a uma plateia completamente rendida. Momento de profunda religiosidade, “Senhora da Nazaré, rogai por mim / Também sou um pescador que anda no mar / Ao largo da vida aproei nas vagas sem fim”, é um momento único de espanto e comoção. Para o final, reservou a fadista duas pérolas: uma muito aplaudida guitarrada e um “Fado com Dono”, em cujos versos guardamos Aldina: “Diz quem já me ouviu cantar / Que, quando soa o meu canto / A terra inteira estremece / E os rios perdem o mar / E as pedras rolam de espanto / E até o mal se estremece”.

domingo, 11 de agosto de 2024

TEATRO: "Mercado das Madrugadas"



TEATRO: “Mercado das Madrugadas”
Ideia original, texto, encenação | Patrícia Portela
Bancas de mercado, adereços | João Gonçalves, Patrícia Portela
Direcção Técnica | Miguel Abras, Bee Barros
Figurinos | Fred Botta, Patrícia Portela
Composição musical, ambiente sonoro | Miguel Abras
Direcção musical | Maria Repas
Movimento | Vânia Rovisco
Interpretação | Ana Rocha, Beatriz Teodósio, Célia Fechas, David Costa, Diogo Dória, Elsa Bruxelas, Fred Botta, João Grosso, Miguel Abras, Miguel Baltazar, Mónica Coteriano, Patrícia Portela, Sara Alexandra, Vânia Rovisco
Produção | Prado - Associação Cultural
Co-Produção | Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Aveirense, Rota Clandestina
100 Minutos | Maiores de 6 anos
Praça Dr. Joaquim Melo Freitas
10 Ago 2024 | sab | 20:30


Vieram do lado da ponte e instalaram-se ao redor da praça. Enquanto montam as tendas do “mercado das madrugadas”, cantam, conversam e riem, indiferentes aos turistas frenéticos, aos mirones que se juntam, à conversa das mulheres a fazer croché, às luzes que se vão acendendo e aos gritos das andorinhas no adeus a mais um dia. São floristas e vendedores de chá, mágicos e adivinhos, hipnotizadores e encantadores de serpentes, faquires e malabaristas, unidos na vontade de dizer que “o amanhã é inevitável e começa hoje!”. Não por acaso, escolheram este lugar por saberem que, aqui como em Lisboa ou Versalhes, Veneza ou Madrid, é na Praça que se come e dorme, se sonha e celebra, se chora, se humilha, se prende, se tortura e mata. No preciso local onde se queimaram bruxas, se mataram judeus, se decapitaram republicanos e fuzilaram anarquistas, os seus passos cruzam-se hoje com os dos académicos das revoluções, dos vencidos da vida, dos sábios das sargetas, das senhoras que vêm ao teatro com as amigas e do executivo saído da pastelaria e que chega à Praça ainda a comer o seu peixinho de ovos moles. Olhos nos olhos, pedem-lhes que escutem a Praça com atenção. Porque é na Praça que cada um prova pela primeira vez o que faz arder a garganta. É aqui que sente as fraquezas tornarem-se em forças, experimenta o que mete mais medo e aquilo que traz alguma esperança.

“Esta Praça está parada / na casa do ditador. / Este tempo está parado / por falta de tocador”. Na banca ao meu lado, Patrícia Portela prepara um “chá para limpar a alma”. Na água a ferver irá verter cardamomo e cravinho, coentros, salsa, canela e gengibre, “duas ou três raspas de limão e uma unha de ruibarbo”, noz moscada, rosmaninho e erva doce. Uma mezinha, que além de combater as doenças como a falta de ar, a tensão alta e a diabetes, as dores de dentes, as dores de costas e as dores de corno, também “é contra a inquietação, a inquietação, cá dentro a inquietação, a inquietação, a inquietação ainda”. Sorrio ao beber o chá. Recordo a promessa de ser o “Mercado das Madrugadas” um “Manual de Instruções para Revoluções Futuras”. Encaro a possibilidade de um lugar mágico onde encontrar a inspiração que levará à mudança. Como outros, penso no que é preciso para sair porta fora, furioso, lançado em todas as direcções na garupa de um cavalo (deve ser efeito do gengibre, eu que nunca andei a a cavalo). Afinal, talvez seja apenas uma questão de “fitness”. Assumirmos que somos capazes de quebrar uma ou duas regras por dia, só para nos habituarmos ao dia em que tenhamos de quebrar uma regra muito maior. Porque esse dia irá chegar, o dia da revolução, e então estaremos preparados. Uma revolução com duas pequeninas regras quebradas todos os dias, até ao dia em que, juntos, quebraremos uma regra gigante. Pelo menos, é isso que a peça nos diz. Por mim, começo já hoje!

“Não é fácil comer terra, quando se provou um pedaço de céu”. Lugar para todas as possibilidades, na Praça trocam-se impressões e acepipes, mas também propostas para os próximos cinquenta anos de Abril. Passos pisam a gravilha. Das gargantas sai a música da Grândola e a pele volta a arrepiar-se: “O povo é quem mais ordena / dentro de ti ó cidade”. Durante um minuto respiramos juntos e em silêncio a ideia memorável de uma greve geral no mundo. Depois, recuamos cinquenta anos e não temos liberdade, não podemos encontrar os amigos na rua, falta-nos os quinze tostões para o bilhete de autocarro, lemos livros às escondidas, vemos as nossas mães a chorar por aqueles que foram para a guerra, que fugiram da guerra, que foram presos por causa da guerra, que morreram na guerra. Pensamos em tanta dor arbitrária, em tanta lei absurda e eis-nos, de novo, na Praça, humilhados, sem saída nem futuro, a maldizer esta merda de ditadura e a sonhar num amanhã em que tudo pudesse ser diferente. Mas hoje é madrugada de 25 de Abril e o amanhã chegou. E nós, aqui na Praça, gritamos a plenos pulmões: “Acabou”. Cinquenta anos depois de Abril, podemos continuar a dizer “acabou”?

Aquilo que era a promessa de um lugar novo, caminhou lentamente para este lugar onde as pessoas são todos os dias mandadas à merda e ainda têm de agradecer. Vivemos escondidos de nós próprios, desiludidos, atormentados no desequilíbrio entre o possível e o real, entre o início fulgurante da democracia e os dias que se seguiram até hoje. Precisamos de voltar à Praça, de voltar a senti-la como o sítio onde podemos acreditar numa nova oportunidade, onde somos capazes de quebrar, de forma permanente, as regras diárias que nos atam, o modo de vida que nos mata. “Somos um brilho que corre, por entre margens diversas / Que lentamente percorre o seu destino as avessas / Mas é nas margens do povo que havemos que ser do ventre / Pra fazer um país novo, num sentindo bem diferente.” Os quadros sucedem-se e, com eles, uma força cresce nos dedos, uma raiva nasce nos dentes. Uma folha em branco é uma mensagem de protesto. Um corpo a tremer é, tal como um corpo imóvel, uma forma de protesto. O pão que é de um é de todos. E um escaramocho é… um escaramocho. 

É noite cerrada e a Praça é a nossa casa. É bom sermos tantos na Praça, lugar de todos os encontros, de todas as possibilidades, de todas as revoluções, de todos nós, de todas nós. Fomos instigados a fazer uma pausa na rotina e agora só pensamos em transformações. Todas as Praças são de Versalhes ou de S. Marcos, são de Abril e são de Maio. A qualquer momento numa Praça pode acontecer uma revolução, pode celebrar-se uma festa, pode-se ser fuzilado. Pode-se sobreviver, morrer, testemunhar, olhar para o lado. Olhamos em redor e somos carrascos, vítimas e testemunhas, rebeldes e traidores. Somos aquele que dá a ordem para atirar, aquele que foge e se esconde, aquele que tapa os olhos para não ver o seu assassino, aquele que enfrenta as balas a peito aberto, destemido. O europeu com passaporte de luxo que quando a coisa aperta apanha um avião para um sítio melhor. O ilegal que mantém a cidade a funcionar e que depois é despejado quando já ninguém precisa dele. Somos o pobre de espírito, o que decide, o que se acanha, o que aceita, o que se revolta. Estamos todos aqui, mas quem somos? Quem queremos ser? Quem podemos ser? Quem conseguimos ser? Quem? Quem? Quem?

Fazer deste tempo um tempo de comunhão e diálogo sobre o futuro é o grande mérito deste “Mercado das Madrugadas”, uma peça que vive de um texto extraordinário de Patrícia Portela e da generosidade e nobreza de um punhado de actores, fortemente empenhados em quebrar o marasmo e a apatia em que caímos e fazer reviver a força e a emoção dos dias em que conhecemos a cor da liberdade. É fantástico ver como funciona tão bem esta mescla de veterania - extraordinários João Grosso e Diogo Dória - com uma juventude ousada e livre, combativa, participativa, que acredita e faz acreditar. Em Abril de 1974 saímos à rua, invadimos praças e avenidas, distribuímos cravos e abraços e gritámos “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”. Depois esmorecemos, acomodámo-nos, desistimos. Deixo a Praça para trás e penso, incrédulo, no ponto a que nos deixámos chegar: a extrema direita nas ruas, a extrema direita no Parlamento, a extrema direita nas nossas vidas. Olho a lua, essa pequena unha que se reflecte nos canais. Ela traz-me as palavras de Manuel da Fonseca: “Ó meus amigos desgraçados / se a vida é curta e a morte infinita / despertemos e vamos / Eia!”. Ao longe, vibrante, ainda o eco dessa frase maravilhosa: “Eu quero tomar o céu de assalto contigo”.

domingo, 30 de junho de 2024

VIAGEM LITERÁRIA: "Zeca Afonso, Cantor e Poeta"



VIAGEM LITERÁRIA: “Zeca Afonso, Cantor e Poeta”
Criação artística | Carla Gomes e Carlos Campos
Selecção de poemas e textos | Carlos Campos
Actores | Alexandra Silva, António Morais, Carla Gomes, Carlos Campos, João Castro Gomes, Maria Manuel Almeida, Paula Gonçalves, Pedro Gama, Nelson Matias e Rui Damasceno
Interpretação (Teatro Aveirense) | Catarina Moura, Rita Redshoes, Rui Oliveira, Banda Amizade - Banda Sinfónica de Aveiro
Maestro | Carlos Marques
Produção | Grande Coisa!
Coimbra e Aveiro, vários locais
29 Jun 2024 | sab | 13h30


No âmbito das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril, a Grande Coisa! quis recordar Zeca Afonso, destacando nele o cantor, compositor e poeta. Sob a forma de uma Viagem Literária, meia centena de participantes seguiram nos passos do autor de “Grândola, Vila Morena”, num périplo com início no Largo da Sé Velha, em Coimbra e que teve como ponto alto um concerto no Teatro Aveirense. Pelo meio ficaram as visitas a locais repletos de histórias e memórias do cantor: a casa onde viveu no Largo da Sé Velha, o Ateneu de Coimbra, as Repúblicas dos Kágados e do Prá-Kys-Tão, o Largo da Portagem. Atribulada - com “paragem na fronteira entre Portugal e Espanha para controlo de pessoas e bens” e que levou ao confisco de alguns instrumentos -, a viagem para Aveiro fez-se de autocarro e teve no recuperado e lindíssimo edifício da antiga Estação dos Caminhos de Ferro uma oportuna pausa para um “lanche revolucionário”. Com Zeca na voz, desceu-se a Avenida Lourenço Peixinho até ao Teatro Aveirense, onde decorreu o concerto de homenagem ao cantor. O jantar popular, na sede da Banda Amizade, colocou um ponto final num dia de festa e de celebração da palavra.

“A cidade é um chão de palavras pisadas”. É no Largo da Sé Velha que a viagem principia. Olhamos o espaço em volta e tudo nos faz lembrar Zeca Afonso. Quantas vezes não terá pisado as pedras deste chão? Quantas vezes não terá tocado e cantado nas escadinhas da Sé? Arautos de uma poesia rica e viva, uma dezena de actores dá voz à palavra. Numa esplanada de café ou no salão do Ateneu, escutam-se poemas. Em frente à casa onde viveu “o trovador da liberdade”, as palavras de Zeca Afonso levam-nos ao encontro de Catarina Eufémia, Teresa Torga e Alípio de Freitas. Das janelas da República dos Kágados, entre o resignado e o indignado, ouve-se que “eles comem tudo, tudo, tudo… e não deixam nada!”. Do altaneiro varandim da República do Pra-Kys-Tão, solta-se uma “Arcebispíada”: “ (…) Se o Pinochet concordasse / Já em Fátima haveria / Mais de trinta mil vermelhos / A arder de noite e de dia”. No Largo da Portagem, e antes de embarcar para Aveiro, afinam-se as gargantas. À nossa frente há desenhos de crianças inspirados na poesia do Zeca. De dentro, com emoção, clama-se: “Venham mais cinco / Duma assentada que eu pago já”.

“Canta camarada canta / Canta que ninguém te afronta / Que esta minha espada corta / Dos copos até à ponta”. Depois de um delicioso lanche revolucionário, o grupo seguiu viagem descendo a Avenida Lourenço Peixinho. Empunham-se cartazes onde pode ler-se “Cidade Sem Muros nem Ameias”, “Onde não há Pão não há Sossego”, “Viva o Poder Popular”, “Imperialismo Não Passará”, “Mulher na Democracia não é Biombo de Sala” ou “O Povo é quem mais Ordena”. E canta-se. Todos cantam a “Grândola, Vila Morena” e “A Morte Saiu à Rua”, “A Formiga no Carreiro” e o “Canto Moço”, “Maio maduro Maio” e “Os Vampiros”. Em frente ao Cine-Teatro Avenida evoca-se o III Congresso da Oposição Democrática, em Abril um ano antes de Abril. Contam-se histórias do Zeca, lembra-se o testemunho de Natércia Pedroso “levantada do chão” pelo cantor na sequência da brutal carga da polícia, uma noite passada em casa de uma tia surda e a intervenção no Congresso onde terá estreado o “Venham Mais Cinco”. Antes do concerto, tempo ainda para escutar mais poesia e admirar o local onde foi plantada uma azinheira trazida de Grândola no passado mês de Abril. “Jurei ter por companheira / Grândola a tua vontade”.

 “Agora é que pinta o bago / Agora é qu'isto / vai aquecer”. O ambiente no Teatro Aveirense é de festa, apenas toldada pela presença notória de dois agentes da PIDE que, à paisana, se insinuam na plateia. Em palco, a Banda Amizade, sob a regência do maestro Carlos Marques, afina os instrumentos. À boca de cena, sobre o lado direito, o actor (são notáveis as semelhanças com Zeca Afonso) traz-nos de novo a poesia: “Feiticeira / Mãe de todos nós / Flor da espiga / Maldita para tiranos / Amorosa te louvamos / tens mais de um milhão de anos / Rapariga”. E logo Rui Oliveira e “No Lago do Breu”, Rita Redshoes e “Fui à beira do Mar”, Catarina Moura e “Mulher da Erva”. Há cartas da prisão e “um redondo vocábulo”. E de novo a música, com arranjos para orquestra absolutamente notáveis, a emprestar mais vivacidade, força e energia a canções intemporais como “O Cavaleiro e o Anjo”, “A Morte Saiu à Rua”, “Canto Moço” ou “Grândola, Vila Morena”. Há um burburinho na sala. Do balcão voam panfletos onde se lê “1º de Maio - Paz, Eleições Livres, Democracia - Todos ao Rossio às 6,30 da Tarde”. Uma mulher grita “filhos da mãe, fascistas” enquanto é levada pela PIDE. “Foram-se os bandos dos chacais / Chegou a vez dos tribunais”.

“Ergue-te ó Sol de Verão / Somos nós os teus cantores / Da matinal canção / Ouvem-se já os rumores / Ouvem-se já os clamores / Ouvem-se já os tambores”. Ânimos serenados e de novo a música com o “Coro da Primavera” primeiro, e logo com “Lá no Xepangara”, “Os Fantoches de Kissinger” e “Utopia”. “A velha história ainda mal começa / Agora está voltando ao que era dantes”. Poesia e música voltam a cruzar-se em “Tinha uma Sala Mal Iluminada”, “Altos Castelos”, “Agora” e “Década de Salomé”, tema que fechou o alinhamento do concerto. Muito interveniente e participativo, juntando a sua voz à dos cantores ao longo de todo o concerto, o público presta uma longa ovação à Banda e aos músicos e o “encore” não se faz esperar. Em dose dupla, “Venham mais Cinco” é o culminar de um momento de júbilo, a sala em peso a cantar: “A bucha é dura / Mais dura é a razão / Que a sustem / Só nesta rusga / Não há lugar / Pr’ós filhos da mãe”. Foi bonita a festa e agora "é já tempo / D’embalar a trouxa / E zarpar.” No Salão de Festas da Banda Amizade come-se caldo e verde e bifanas no pão. Festeja-se o dia. Celebra-se a partilha e a amizade. A noite ainda agora começa. “Não sei quem seja de acordo / Como vamos terminar / Vinho velho vinho novo / Viva o Poder Popular”.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

TEATRO: "Quis Saber Quem Sou"



TEATRO: “Quis Saber Quem Sou”
Concepção, texto e encenação | Pedro Penim
Direcção musical | Filipe Sambado
Cenografia | Joana Sousa
Figurinos | Luís Carvalho
Interpretação | Ana Pereira, Bárbara Branco, Eliseu Ferreira, Francisco Gil Mata, Inês Marques, Jéssica Ferreira, Joana Bernardo, Joana Brito Silva, Manuel Coelho, Manuel Encarnação, Pedro Madeira Lopes, Rafael Ferreira, Rute Rocha Ferreira, Vasco Seromenho
Produção | Teatro Nacional D. Maria II
120 Minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Aveirense
25 Mai 2024 | sab | 21:30


“Tempo extraordinário e contraditório, este que vivemos. Deveríamos estar em clima de celebração, mas existe desalento, numa relação muito directa com o facto de que as conquistas da nossa revolução, 50 anos passados, estão agora, senão permanentemente, ameaçadas”. As palavras de Pedro Penim, numa entrevista conduzida por Maria João Guardão [AQUI], ajudam a explicar o porquê desta peça, a urgência de voltar às palavras de ordem de há cinco décadas, às cantigas como armas, e de divulgar esse riquíssimo cancioneiro, passando-o a outras gerações. Por isso vemos em cena uma conjugação de pedidos de socorro a essa constelação de poetas, de compositores, de autores, para que possam servir de guia e de inspiração, num período que parece mais invernal do que primaveril. Ao longo de duas horas, de “Acordai” a “Grândola Vila Morena”, desfilarão à nossa frente neste concerto teatral um conjunto de canções emblemáticas de Fausto Bordalo Dias e Sérgio Godinho, José Mário Branco e Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso e GAC - Vozes na Luta, a par de outras, igualmente intemporais, de Belchior, Les Poppys ou Woody Guthrie.

Reflexão sobre o tempo presente, “Quis Saber Quem Sou” começa por remeter para o primeiro verso da canção “E Depois do Adeus”, na voz de Paulo de Carvalho, frase de cariz revolucionário da democracia portuguesa, ouvida cinco minutos antes das onze da noite de 24 de abril de 1974 nas ondas dos Emissores Associados. Foi ela quem sinalizou o arranque da Revolução dos Cravos, transformando uma canção de amor num símbolo de liberdade. É, justamente, com uma reflexão sobre um dos seus versos mais emblemáticos, que tem início a peça, num extraordinário monólogo de Vasco Seromenho, um actor surdo que se dirige aos espectadores em linguagem gestual, colocando a tónica na surpresa, na integração e na democratização do próprio teatro, numa certa ideia de revolução (de um actor e de uma comunidade). Por isso o espectáculo nos fala de liberdade, da possibilidade de conquistar espaço através daquilo que fazemos. Porque apesar de este ser um teatro altamente politizado e afirmativo, o gesto não deixa de ser artístico, propondo uma reflexão sobre o momento que vivemos e perguntando-se para onde nos estamos a dirigir enquanto Nação.

Arte por excelência do “aqui e agora”, o teatro impõe-se no que importa contrariar de uma certa ideia de fado, de destino, que nos ata e condena. De uma maneira mais formal, esta disposição concretiza-se nas citações às configurações da tragédia grega, sobretudo através da utilização de um coro de jovens actores que traz para o espaço do teatro, para o anfiteatro, uma discussão proposta por um colectivo. Um coro novo, no sentido etário, feito de intérpretes entre os 16 e os 20 anos, ilustres representantes da geração que, neste momento, tem mais coisas a dizer e a fazer, mas que se encontra, inevitavelmente, distanciada deste cancioneiro e destas palavras de Abril. Daí essa duplicidade de, por um lado, Pedro Penim colocar no centro da acção o pensamento desta geração Z, mas ao mesmo tempo incitá-la a não perder o vínculo com este legado, sabendo que é essa a sua génese. E os espectadores, “actores” de outros palcos, de outras gerações, qual o seu papel na peça? Se os mais novos os ouviram cantar, gargantas ao rubro, “que força é essa amigo”, “a liberdade está a passar por aqui”, “ouvem-se já os clamores”, saberão o quão tatuado na alma está “o dia inicial inteiro e limpo”. Vitória, pá… finalmente, pá… conseguimos, pá… é agora ou nunca, pá… dá cá um abraço, pá… porreiro, pá!


segunda-feira, 11 de setembro de 2023

TEATRO: "As Areias do Imperador"



TEATRO: “As Areias do Imperador”
A partir do romance de Mia Couto
Adaptação e encenação | Victor de Oliveira
Cenografia | Margaux Nessi
Figurinos e adereços | Sara Machado
Interpretação | Ana Magaia, Bruno Huca, Daniel Pinto, Elliot Alex, Eunice Mandlate,Gracinda Nave, Horácio Guiambe, Isabelle Cagnat, Josefina Massango, Lucrécia Paco, Klemente Tsamba, Mário santos, Miguel Moreira, Miguel Nunes, Sufaida Moyane, Victor de Oliveira
Produção | Teatro Nacional de São João
210 Minutos | Maiores de 16 anos
Teatro Aveirense
09 Set 2023 | sab | 21:00


“Todas as manhãs se erguiam sete sóis sobre a planície de Inharrime. Nesses tempos, o firmamento era bem maior e nele cabiam todos os astros, os vivos e os que morreram. Nua como havia dormido, a nossa mãe saía de casa com uma peneira na mão. Ia escolher o melhor dos sóis. Com a peneira recolhia as restantes seis estrelas e trazia-as para a aldeia. Enterrava-as junto à termiteira, por trás da nossa casa. Aquele era o nosso cemitério de criaturas celestiais. (…) Certa vez, já a manhã peneirada, uma bota pisou o Sol, esse Sol que a mãe havia eleito. Era uma bota militar, igual à que os portugueses usavam. Desta vez, porém, quem a trazia calçada era um soldado Nguni. O soldado vinha a mando do imperador Ngungunyane. Os imperadores têm fome de terra e os seus soldados são bocas devorando nações. Aquela bota quebrou o Sol em mil estilhaços. E o dia ficou escuro. Os restantes dias também. Os sete sóis morriam debaixo das botas dos militares. A nossa terra estava a ser abocanhada. Sem estrelas para alimentar os nossos sonhos, nós aprendíamos a ser pobres. E nos perdíamos da eternidade. Sabendo que a eternidade é apenas o outro nome da Vida.”
Mia Couto, in “Mulheres de Cinza”

Novembro de 1894. O sargento Germano de Melo chega a Moçambique com a missão de capitanear o posto de Nkokolani, na fronteira com o chamado Estado de Gaza. De um lado, as Terras da Coroa, onde governa um monarca que nenhum africano haveria algum dia de conhecer; do outro, os VaNguni, comandados por Ngungunyane, que têm no Sul um reduto militar e político de combate ao poder colonial português. Já em Nkokolani, o sargento encontrará Imani Tsembe, jovem moçambicana que se oferece como serviçal e com quem terá um relacionamento amoroso. Entretanto, a guerra vai conhecer novos contornos, acabando as tropas do capitão Mouzinho de Albuquerque por capturar Ngungunyane na aldeia de Chaimite. Está garantida a soberania da coroa. Condenado ao exílio e enviado para o continente na companhia das suas mulheres e de alguns dos seus dignitários, o Leão de Gaza seguirá para a Ilha Terceira onde morrerá após onze anos de desterro.

Baseado na “trilogia moçambicana” do escritor Mia Couto – “Mulheres de Cinza”, “A Espada e a Azagaia” e “O Bebedor de Horizontes” –, “As Areias do Imperador” constitui um fresco vibrante e poderoso sobre um particular momento da história de Moçambique. Pelas vozes dos agressores ou das vítimas, ao longo de três horas e meia vão sendo narrados o absurdo e as incongruências de uma guerra baseada na soberba e na ganância, longe da vista dos senhores que tudo podem e tudo mandam, contra populações pouco mais do que indefesas, privadas dos seus bens, feridas na sua dignidade e sujeitas a todo o tipo de humilhações. Das estrelas que alimentam os sonhos, aos imperadores com fome de terra, “os seus soldados como bocas devorando nações”, Moçambique é terra mártir, flagelada pela guerra e pela fome, terra de uns poucos para desespero de tantos. Terra de muita beleza mas poucas certezas, onde um poente glorioso é da cor do sangue derramado por milhares e milhares dos seus filhos.

Sai-se da peça com a sensação agridoce de se ter passado ao lado de um extraordinário momento de teatro. A cuidada recriação de ambientes, o primor cénico de certos quadros, a reconstituição das tradições, a riqueza dos figurinos ou a beleza da língua, encontram paralelo na qualidade interpretativa dos actores moçambicanos, irrepreensíveis na entrega, inatacáveis na sua verdade (extraordinárias as representações de Sufaida Moyane e de Klemente Tsamba, nos papéis de Imani e Ngungunyane, respectivamente). Porém, há aspectos que se revestem de um primarismo inexplicável, que desviam o foco do que é essencial e se perdem em devaneios num apontamento de vídeo, nas notas de um piano, no vazio de um adereço. As indispensáveis legendas fazem com que muito do que se passa em palco se perca. Há, enfim, o excessivo tempo de duração da peça, a provar que o bom é inimigo do óptimo.

[Foto: Teatro Nacional de São João | www.tnsj.pt]

segunda-feira, 17 de abril de 2023

CONCERTO: "A Cor da Liberdade"



CONCERTO: “A Cor da Liberdade”
Banda Amizade – Banda Sinfónica de Aveiro
Coral Vera Cruz, Coral Polifónico de Aveiro, Coro de Santa Joana, Orfeão da Santa Casa da Misericórdia de Ílhavo, Coro Infantil Voz Nua, Círculo Experimental de Teatro de Aveiro, Grupo Experimental de Música e Dança de Aveiro
Artistas convidados | Rui Oliveira, Dino d’Santiago
Direcção artística | Carlos Marques, João Curto
Produção | URAP - União de Resistentes Antifascistas Portugueses
Teatro Aveirense
16 Abr 2023 | dom | 18:00


“Qual a cor da liberdade? É verde, verde e vermelha.” Dominado pelas cores da liberdade, o concerto que teve lugar no Teatro Aveirense, ao final da tarde de ontem, fez-se em festa e júbilo num sentido cantar Abril. Em palco, a Banda Amizade – Banda Sinfónica de Aveiro, sob a direcção do maestro Carlos Marques, viu-se acompanhada por um vasto número de vozes – dos coros ao teatro e à dança –, o todo abrilhantado pela presença de dois ilustres representantes da “gerason di oro”, Rui Oliveira e Dino d’Santiago. À qualidade das interpretações juntou-se o valor e significado das palavras, fazendo do espectáculo uma sentida homenagem “aos trabalhadores, camponeses, intelectuais e estudantes que, das mais variadas formas, resistiram, enfrentaram e lutaram durante os 48 anos da ditadura em Portugal”. Um espectáculo que serviu igualmente para assinalar os 50 anos do 3º Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, evento determinante no derrube do fascismo e um dos momentos mais altos da luta pela liberdade no nosso País.

“E, por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.” A força das palavras de Jorge de Sena, na sua “Carta a Meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya”, o “Cantar da Emigração” de Adriano Correia de Oliveira entoado em fundo, abriu da melhor forma o espectáculo. De seguida, foi tempo de escutar uma belíssima selecção de “Canções Heróicas”, de Fernando Lopes Graça, a preencher toda a primeira parte do programa. Oportunidade sublime para recordar a poesia de Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, José Gomes Ferreira, João José de Mello Cochofel Aires de Campos ou Arquimedes da Silva Santos, em temas emblemáticos como “Mãe Pobre” “Canto de Esperança”, “Convite”, “Combate” e “Jornada”. Num breve “intermezzo”, declamaram-se os poemas “E Havia Outono?”, de Fernando Assis Pacheco e “Nambuangongo Meu Amor”, de Manuel Alegre, antes de nova série de “heróicas”, nas quais se incluíram “Canto de Paz”, “Canção do Camponês”, “Ronda” e o sempre arrepiante “Acordai”, voltarem a empolgar-nos.

Já sem os corais da cidade em palco, teve início a segunda parte do concerto com a declamação de um excerto do poema “Cantiga de Abril”, de Jorge de Sena (que viria a ser retomado mais tarde) e “Fábula da Fábula”, de Miguel Torga. Prolongando o valor e significado do momento, Rui Oliveira, o primeiro dos dois convidados especiais, ofereceu-nos, na sua profunda e bem timbrada voz, três canções de Adriano Correia de Oliveira. “Emigração”, “E Alegre Se Fez Triste” e “As Balas” foram escutados em profundo silêncio, as palavras de Manuel Alegre, Manuel da Fonseca e do próprio Adriano a calarem bem fundo em cada um dos presentes. Dino d’Santiago respondeu a uma fortíssima ovação com três músicas de Cabo Verde que lhe são particularmente queridas. Com “Porton di nos Ilha”, do mítico grupo “Os Tubarões”, homenageou o pai e todos aqueles que se viram obrigados a deixar a sua terra em busca de uma vida melhor. Depois veio “Sodade”, incontornável tema que notabilizou Cesária Évora e que fala da ida forçada de cabo-verdianos para as roças de S. Tomé e Príncipe nos anos 50 do século passado. Finalmente, “Kriolu”, composição do próprio Dino d’Santiago, na qual “Branku ku pretu um gerason di oru” é toda uma via programática rumo a uma sociedade que se quer mais fraternal, justa e livre.

“Hoje, meio século passado sobre o derrube do fascismo, quando novas velhas ideias ressurgem na tentativa de adulterar as conquistas de Abril e o regime democrático consagrado na Constituição da República Portuguesa, importa continuar a trilhar o caminho dos que nos antecederam, com novas gerações de homens e mulheres empenhados em defender os valores de Abril, por um País mais justo, soberano, desenvolvido e igualitário.” Foi isso que todos vimos e sentimos já nos momentos finais, com os meninos e meninas do Coro Infantil Voz Nua a oferecerem a todos os presentes “Galinhas do Mato”, de José Afonso. Na ternura que se espalhou pelo sorriso de todos, percebeu-se uma particular nota de esperança num futuro melhor e mais justo. Aos aplausos somaram-se os gritos de “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, que ecoavam ainda nas mentes de cada um à saída do Teatro Aveirense. Connosco vieram peças soltas das muitas músicas escutadas, como veio um forte sentimento de gratidão que, no meu caso, se traduziu num apertado abraço a Rui Oliveira. Connosco vieram, sobretudo, as cores do poema: “Saem tanques para a rua, / sai o povo logo atrás: / estala enfim altiva e nua, / com força que não recua, / a verdade mais veraz. / Qual a cor da liberdade? / É verde, verde e vermelha.”

sábado, 18 de março de 2023

TEATRO: "Ensaio de Orquestra"



TEATRO: “Ensaio de Orquestra”,
a partir do filme “Ensaio de Orquestra” (1978), de Federico Fellini
Direcção | Tónan Quito
Texto e dramaturgia | Filipe Melo, Tónan Quito
Música original | Filipe Melo
Interpretação | António Fonseca, Paula Diogo, Sara de Castro, Tónan Quito. Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal: André Ribeiro, António Almeida, António Morais, Bernardo Tinoco, Eduardo Lála, Gonçalo Marques, Inês Matos, Jéssica Pina, João Capinha, José Almeida, José Silva, José Soares, Luís Cunha, Margarida Campelo, Paulo Gaspar, Pedro Felgar, Ricardo Sousa, Rui Ferreira, Tomás Marques
Cenografia | F. Ribeiro
Figurinos | José António Tenente
Produção | HomemBala
80 Minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Aveirense
17 Mar 2023 | sex | 21:30


“Ensaio de Orquestra” começa por ser um filme de Federico Fellini, realizado em 1978. Um filme dentro do filme, para ser mais preciso, já que esta Orquestra, em noite de ensaio, recebe a visita de uma equipa de televisão que trabalha na feitura de um documentário. Hesitantes quanto à ideia de estarem a ser filmados, os músicos lá vão abordando a forma como encaram o seu trabalho, a versatilidade e beleza dos respectivos instrumentos, o que os aproxima e separa. Aos poucos, porém, acabam por relegar as melhores intenções para segundo plano, acabando por deixar vir ao de cima o pior que há em si, os problemas de cada um, a precariedade das relações com os restantes elementos da Orquestra. De repente, tudo é posto em causa, da localização de uma simples cadeira ou da pronúncia da Madeira, aos direitos laborais dos músicos ou à forma como o maestro conduz a Orquestra. A presença da televisão ajuda a potenciar a revolta - quem pode desdenhar do direito inalienável aos seus 15 minutos de fama? -, a contestação sobe de tom, a violência e o caos instalam-se.

“Ensaio de Orquestra”, a peça, levou-me a rever “Ensaio de Orquestra”, o filme. Enriquecedor a todos os títulos, este exercício permitiu-me pôr “os pontos nos ii” em relação a um filme que, injustamente, considerei sempre como menor no conjunto da obra de Fellini, demasiado datado, mas que, afinal, se mostra enorme de actualidade, com um carácter premonitório, quase profético. Por outro lado, deu-me a oportunidade de valorizar o trabalho de adaptação de Filipe Melo e Tónan Quito, a forma como se colam fielmente ao texto e o preenchem de elementos subtis. Uma trompete toma o lugar de um violino, uma tuba faz-se passar por um contrabaixo, a harpa transmuta-se em guitarra. Toscanini é Wynton Marsalis, Duke Ellington substitui Wagner, troca-se um solo de Verdi pelo “Moonlight Serenade”, de Glenn Miller. A “grande cidade” de Afragola toma o nome de Estarreja, a FIAT é agora a Auto-Europa. O sentimento que sustenta peça e filme e as respectivas mensagens, esses permanecem os mesmos, deixados intactos na sua força e pertinência.

“Orquestra. Terror. Morte ao Director!”. As palavras de ordem sucedem-se, “metrónomo” rima com “autónomo”, o clima é de anarquia absoluta. Os protestos sobem de tom a um ponto insustentável. O auditório desaba, a plateia estremece (literalmente). Tal como no filme (o final esmagador, o discurso de ódio falado em alemão), também a peça pede que não nos deixemos levar pelas aparências. Aqui, o desvio em relação ao filme é maior, com Filipe Melo a sentir a necessidade de escrever todo um discurso adaptado aos momentos tremendos que vivemos por estes dias. Populistas, reaccionárias, as palavras do maestro negam a possibilidade de coabitação entre liberdade e autoridade, apelando a esta última como única forma de manter a coesão e “salvar” a música e os músicos. Um grande momento de teatro de intervenção que nos vem lembrar, mais do que nunca, a importância de manter a guarda alta face aos extremismos de direita que não param de subir de tom. Uma palavra final para os actores, a grande maioria deles habituada aos palcos, mas em diferentes papéis. Foi muito bom encontrar o Luís Cunha, o João Capinha, a Jéssica Pina, o Tomás Marques e tantos outros em novos papéis e ver como se desenrascaram tão bem, a interdisciplinaridade entre a música, o teatro e o cinema a funcionarem na perfeição com o seu contributo. Um belo momento de teatro que importa reter.