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domingo, 11 de agosto de 2024

TEATRO: "Mercado das Madrugadas"



TEATRO: “Mercado das Madrugadas”
Ideia original, texto, encenação | Patrícia Portela
Bancas de mercado, adereços | João Gonçalves, Patrícia Portela
Direcção Técnica | Miguel Abras, Bee Barros
Figurinos | Fred Botta, Patrícia Portela
Composição musical, ambiente sonoro | Miguel Abras
Direcção musical | Maria Repas
Movimento | Vânia Rovisco
Interpretação | Ana Rocha, Beatriz Teodósio, Célia Fechas, David Costa, Diogo Dória, Elsa Bruxelas, Fred Botta, João Grosso, Miguel Abras, Miguel Baltazar, Mónica Coteriano, Patrícia Portela, Sara Alexandra, Vânia Rovisco
Produção | Prado - Associação Cultural
Co-Produção | Teatro Nacional D. Maria II, Teatro Aveirense, Rota Clandestina
100 Minutos | Maiores de 6 anos
Praça Dr. Joaquim Melo Freitas
10 Ago 2024 | sab | 20:30


Vieram do lado da ponte e instalaram-se ao redor da praça. Enquanto montam as tendas do “mercado das madrugadas”, cantam, conversam e riem, indiferentes aos turistas frenéticos, aos mirones que se juntam, à conversa das mulheres a fazer croché, às luzes que se vão acendendo e aos gritos das andorinhas no adeus a mais um dia. São floristas e vendedores de chá, mágicos e adivinhos, hipnotizadores e encantadores de serpentes, faquires e malabaristas, unidos na vontade de dizer que “o amanhã é inevitável e começa hoje!”. Não por acaso, escolheram este lugar por saberem que, aqui como em Lisboa ou Versalhes, Veneza ou Madrid, é na Praça que se come e dorme, se sonha e celebra, se chora, se humilha, se prende, se tortura e mata. No preciso local onde se queimaram bruxas, se mataram judeus, se decapitaram republicanos e fuzilaram anarquistas, os seus passos cruzam-se hoje com os dos académicos das revoluções, dos vencidos da vida, dos sábios das sargetas, das senhoras que vêm ao teatro com as amigas e do executivo saído da pastelaria e que chega à Praça ainda a comer o seu peixinho de ovos moles. Olhos nos olhos, pedem-lhes que escutem a Praça com atenção. Porque é na Praça que cada um prova pela primeira vez o que faz arder a garganta. É aqui que sente as fraquezas tornarem-se em forças, experimenta o que mete mais medo e aquilo que traz alguma esperança.

“Esta Praça está parada / na casa do ditador. / Este tempo está parado / por falta de tocador”. Na banca ao meu lado, Patrícia Portela prepara um “chá para limpar a alma”. Na água a ferver irá verter cardamomo e cravinho, coentros, salsa, canela e gengibre, “duas ou três raspas de limão e uma unha de ruibarbo”, noz moscada, rosmaninho e erva doce. Uma mezinha, que além de combater as doenças como a falta de ar, a tensão alta e a diabetes, as dores de dentes, as dores de costas e as dores de corno, também “é contra a inquietação, a inquietação, cá dentro a inquietação, a inquietação, a inquietação ainda”. Sorrio ao beber o chá. Recordo a promessa de ser o “Mercado das Madrugadas” um “Manual de Instruções para Revoluções Futuras”. Encaro a possibilidade de um lugar mágico onde encontrar a inspiração que levará à mudança. Como outros, penso no que é preciso para sair porta fora, furioso, lançado em todas as direcções na garupa de um cavalo (deve ser efeito do gengibre, eu que nunca andei a a cavalo). Afinal, talvez seja apenas uma questão de “fitness”. Assumirmos que somos capazes de quebrar uma ou duas regras por dia, só para nos habituarmos ao dia em que tenhamos de quebrar uma regra muito maior. Porque esse dia irá chegar, o dia da revolução, e então estaremos preparados. Uma revolução com duas pequeninas regras quebradas todos os dias, até ao dia em que, juntos, quebraremos uma regra gigante. Pelo menos, é isso que a peça nos diz. Por mim, começo já hoje!

“Não é fácil comer terra, quando se provou um pedaço de céu”. Lugar para todas as possibilidades, na Praça trocam-se impressões e acepipes, mas também propostas para os próximos cinquenta anos de Abril. Passos pisam a gravilha. Das gargantas sai a música da Grândola e a pele volta a arrepiar-se: “O povo é quem mais ordena / dentro de ti ó cidade”. Durante um minuto respiramos juntos e em silêncio a ideia memorável de uma greve geral no mundo. Depois, recuamos cinquenta anos e não temos liberdade, não podemos encontrar os amigos na rua, falta-nos os quinze tostões para o bilhete de autocarro, lemos livros às escondidas, vemos as nossas mães a chorar por aqueles que foram para a guerra, que fugiram da guerra, que foram presos por causa da guerra, que morreram na guerra. Pensamos em tanta dor arbitrária, em tanta lei absurda e eis-nos, de novo, na Praça, humilhados, sem saída nem futuro, a maldizer esta merda de ditadura e a sonhar num amanhã em que tudo pudesse ser diferente. Mas hoje é madrugada de 25 de Abril e o amanhã chegou. E nós, aqui na Praça, gritamos a plenos pulmões: “Acabou”. Cinquenta anos depois de Abril, podemos continuar a dizer “acabou”?

Aquilo que era a promessa de um lugar novo, caminhou lentamente para este lugar onde as pessoas são todos os dias mandadas à merda e ainda têm de agradecer. Vivemos escondidos de nós próprios, desiludidos, atormentados no desequilíbrio entre o possível e o real, entre o início fulgurante da democracia e os dias que se seguiram até hoje. Precisamos de voltar à Praça, de voltar a senti-la como o sítio onde podemos acreditar numa nova oportunidade, onde somos capazes de quebrar, de forma permanente, as regras diárias que nos atam, o modo de vida que nos mata. “Somos um brilho que corre, por entre margens diversas / Que lentamente percorre o seu destino as avessas / Mas é nas margens do povo que havemos que ser do ventre / Pra fazer um país novo, num sentindo bem diferente.” Os quadros sucedem-se e, com eles, uma força cresce nos dedos, uma raiva nasce nos dentes. Uma folha em branco é uma mensagem de protesto. Um corpo a tremer é, tal como um corpo imóvel, uma forma de protesto. O pão que é de um é de todos. E um escaramocho é… um escaramocho. 

É noite cerrada e a Praça é a nossa casa. É bom sermos tantos na Praça, lugar de todos os encontros, de todas as possibilidades, de todas as revoluções, de todos nós, de todas nós. Fomos instigados a fazer uma pausa na rotina e agora só pensamos em transformações. Todas as Praças são de Versalhes ou de S. Marcos, são de Abril e são de Maio. A qualquer momento numa Praça pode acontecer uma revolução, pode celebrar-se uma festa, pode-se ser fuzilado. Pode-se sobreviver, morrer, testemunhar, olhar para o lado. Olhamos em redor e somos carrascos, vítimas e testemunhas, rebeldes e traidores. Somos aquele que dá a ordem para atirar, aquele que foge e se esconde, aquele que tapa os olhos para não ver o seu assassino, aquele que enfrenta as balas a peito aberto, destemido. O europeu com passaporte de luxo que quando a coisa aperta apanha um avião para um sítio melhor. O ilegal que mantém a cidade a funcionar e que depois é despejado quando já ninguém precisa dele. Somos o pobre de espírito, o que decide, o que se acanha, o que aceita, o que se revolta. Estamos todos aqui, mas quem somos? Quem queremos ser? Quem podemos ser? Quem conseguimos ser? Quem? Quem? Quem?

Fazer deste tempo um tempo de comunhão e diálogo sobre o futuro é o grande mérito deste “Mercado das Madrugadas”, uma peça que vive de um texto extraordinário de Patrícia Portela e da generosidade e nobreza de um punhado de actores, fortemente empenhados em quebrar o marasmo e a apatia em que caímos e fazer reviver a força e a emoção dos dias em que conhecemos a cor da liberdade. É fantástico ver como funciona tão bem esta mescla de veterania - extraordinários João Grosso e Diogo Dória - com uma juventude ousada e livre, combativa, participativa, que acredita e faz acreditar. Em Abril de 1974 saímos à rua, invadimos praças e avenidas, distribuímos cravos e abraços e gritámos “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”. Depois esmorecemos, acomodámo-nos, desistimos. Deixo a Praça para trás e penso, incrédulo, no ponto a que nos deixámos chegar: a extrema direita nas ruas, a extrema direita no Parlamento, a extrema direita nas nossas vidas. Olho a lua, essa pequena unha que se reflecte nos canais. Ela traz-me as palavras de Manuel da Fonseca: Ó meus amigos desgraçados / se a vida é curta e a morte infinita / despertemos e vamos / Eia!”. Ao longe, vibrante, ainda o eco dessa frase maravilhosa: “Eu quero tomar o céu de assalto contigo”.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

TEATRO: "Quis Saber Quem Sou"



TEATRO: “Quis Saber Quem Sou”
Concepção, texto e encenação | Pedro Penim
Direcção musical | Filipe Sambado
Cenografia | Joana Sousa
Figurinos | Luís Carvalho
Interpretação | Ana Pereira, Bárbara Branco, Eliseu Ferreira, Francisco Gil Mata, Inês Marques, Jéssica Ferreira, Joana Bernardo, Joana Brito Silva, Manuel Coelho, Manuel Encarnação, Pedro Madeira Lopes, Rafael Ferreira, Rute Rocha Ferreira, Vasco Seromenho
Produção | Teatro Nacional D. Maria II
120 Minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Aveirense
25 Mai 2024 | sab | 21:30


“Tempo extraordinário e contraditório, este que vivemos. Deveríamos estar em clima de celebração, mas existe desalento, numa relação muito directa com o facto de que as conquistas da nossa revolução, 50 anos passados, estão agora, senão permanentemente, ameaçadas”. As palavras de Pedro Penim, numa entrevista conduzida por Maria João Guardão [AQUI], ajudam a explicar o porquê desta peça, a urgência de voltar às palavras de ordem de há cinco décadas, às cantigas como armas, e de divulgar esse riquíssimo cancioneiro, passando-o a outras gerações. Por isso vemos em cena uma conjugação de pedidos de socorro a essa constelação de poetas, de compositores, de autores, para que possam servir de guia e de inspiração, num período que parece mais invernal do que primaveril. Ao longo de duas horas, de “Acordai” a “Grândola Vila Morena”, desfilarão à nossa frente neste concerto teatral um conjunto de canções emblemáticas de Fausto Bordalo Dias e Sérgio Godinho, José Mário Branco e Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso e GAC - Vozes na Luta, a par de outras, igualmente intemporais, de Belchior, Les Poppys ou Woody Guthrie.

Reflexão sobre o tempo presente, “Quis Saber Quem Sou” começa por remeter para o primeiro verso da canção “E Depois do Adeus”, na voz de Paulo de Carvalho, frase de cariz revolucionário da democracia portuguesa, ouvida cinco minutos antes das onze da noite de 24 de abril de 1974 nas ondas dos Emissores Associados. Foi ela quem sinalizou o arranque da Revolução dos Cravos, transformando uma canção de amor num símbolo de liberdade. É, justamente, com uma reflexão sobre um dos seus versos mais emblemáticos, que tem início a peça, num extraordinário monólogo de Vasco Seromenho, um actor surdo que se dirige aos espectadores em linguagem gestual, colocando a tónica na surpresa, na integração e na democratização do próprio teatro, numa certa ideia de revolução (de um actor e de uma comunidade). Por isso o espectáculo nos fala de liberdade, da possibilidade de conquistar espaço através daquilo que fazemos. Porque apesar de este ser um teatro altamente politizado e afirmativo, o gesto não deixa de ser artístico, propondo uma reflexão sobre o momento que vivemos e perguntando-se para onde nos estamos a dirigir enquanto Nação.

Arte por excelência do “aqui e agora”, o teatro impõe-se no que importa contrariar de uma certa ideia de fado, de destino, que nos ata e condena. De uma maneira mais formal, esta disposição concretiza-se nas citações às configurações da tragédia grega, sobretudo através da utilização de um coro de jovens actores que traz para o espaço do teatro, para o anfiteatro, uma discussão proposta por um colectivo. Um coro novo, no sentido etário, feito de intérpretes entre os 16 e os 20 anos, ilustres representantes da geração que, neste momento, tem mais coisas a dizer e a fazer, mas que se encontra, inevitavelmente, distanciada deste cancioneiro e destas palavras de Abril. Daí essa duplicidade de, por um lado, Pedro Penim colocar no centro da acção o pensamento desta geração Z, mas ao mesmo tempo incitá-la a não perder o vínculo com este legado, sabendo que é essa a sua génese. E os espectadores, “actores” de outros palcos, de outras gerações, qual o seu papel na peça? Se os mais novos os ouviram cantar, gargantas ao rubro, “que força é essa amigo”, “a liberdade está a passar por aqui”, “ouvem-se já os clamores”, saberão o quão tatuado na alma está “o dia inicial inteiro e limpo”. Vitória, pá… finalmente, pá… conseguimos, pá… é agora ou nunca, pá… dá cá um abraço, pá… porreiro, pá!


segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

TEATRO: "Casa Portuguesa"



TEATRO: “Casa Portuguesa”
Texto e encenação | Pedro Penim
Cenografia | Joana Sousa
Figurinos | Béhen
Interpretação | Carla Maciel, João Lagarto, Sandro Feliciano, Lila Tiago, João Caçador
Produção | Teatro Nacional D. Maria II
110 Minutos | Maiores de 14
Teatro Nacional S. João
14 Jan 2023 | sab | 19:00


“ (…) Fica bem esta franqueza, fica bem / Que o povo nunca desmente / A alegria da pobreza / Está nesta grande riqueza / De dar, e ficar contente.” Alegria da pobreza? Quantos de nós se detiveram já na letra de “Uma Casa Portuguesa”, uma das canções mais conhecidas da nossa música, imortalizada na voz de Amália Rodrigues? Haverá algo mais ao gosto da ideologia do Estado Novo? Numa altura em que nos preparamos para celebrar os cinquenta anos do 25 de Abril, é dramático, uma quase heresia, saber de cor esta letra e continuar a cantá-la tão alegre e descontraidamente. Esta e outras questões vamos encontrá-las no miolo de “Casa Portuguesa”, texto e encenação de Pedro Penim, em cena por estes dias no Teatro Nacional S. João, no Porto. É lá que somos confrontados com um conjunto de assuntos que fazem parte do nosso quotidiano e que importa escrutinar. Assuntos que entroncam, desde logo, nos modelos de masculinidade, estendendo-se às questões de género, às desigualdades sociais, culturais e políticas, ao preconceito racial. Assuntos que se discutem à volta da casa, na casa, em casa. No seio da família, célula de formação de identidades e valores por excelência. Para o bem e para o mal.

Peça ficcional inspirada em situações reais, extraídas do diário do pai de Pedro Penim aquando da sua passagem pela guerra em Moçambique [“No Planalto dos Macondes”, de Joaquim Manuel Penim, edição de autor, Lisboa 2004] e de testemunhos de ex-combatentes, “Casa Portuguesa” tem a particularidade de assentar num texto genial, apostado em abalar consciências e em não deixar ninguém incólume. O valor da sua escrita advém da urgência em perceber o porquê de uma sociedade tão acomodada e indiferente, de chamar a atenção para as contradições em que quotidianamente lavramos, de questionar a falta daquilo a que Miguel Torga chamou “o romantismo cívico da agressão”, face ao nosso desígnio de “comunidade pacífica de revoltados”. Através da história deste ex-soldado, em diálogo com os seus fantasmas, o espectador é confrontado com “a decadência e a transformação do ideal de casa, de família, de país e do cânone da figura paterna.” É então que o texto opera milagres, uma arrebatadora e pungente “carta ao pai” como um despertar de consciências, o tirar o tapete àqueles que, sobranceira e arrogantemente, se firmam nos seus “princípios” e se recusam a questionar a sua conduta enquanto pais ou educadores.

Um texto assim pede actores à altura e, também neste capítulo, a nota é muito elevada. No papel do pai, João Lagarto tem aqui uma interpretação notável. Na sua inadaptação à mudança, na forma como se escuda atrás da idade para dizer que já não quer nada, já não espera nada, o actor agiganta-se, enorme de realismo, de uma verdade comovedora. Carla Maciel e Sandro Feliciano são igualmente exímios na forma como encarnam os seus papéis, Carla Maciel a sustentar de forma magnífica o diálogo com João Lagarto em torno da masculinidade - “os homens são lixo” - e Sandro Feliciano a ter um desempenho brilhante ao dirigir-se ao pai nessa carta de sentido único, verdadeiramente arrasadora, arrebatadoramente verdadeira. Há, enfim, Lila Tiago e João Caçador, convincentes em papéis de grande exigência, uma cartada genial de Pedro Penim ao lançá-los num registo menos conhecido do grande público e, para quem os associa exclusivamente à música dos Fado Bicha, uma surpresa da boa. Pedro Penim faz aqui a sua estreia à frente do Teatro Nacional D. Maria II. Cabe-lhe a tarefa de levar por diante um conjunto de propostas de enorme interesse e, não menos importante, manter e, se possível, elevar o legado de Tiago Rodrigues, o anterior director. Eu diria que não poderia ter começado melhor.


sábado, 23 de abril de 2022

TEATRO: "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas"



TEATRO: “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”
Texto e encenação | Tiago Rodrigues
Cenografia | F. Ribeiro
Figurinos | José António Tenente
Desenho de luz | Nuno Meira
Sonoplastia, desenho de som e música original | Pedro Costa
Interpretação | António Fonseca, Beatriz Maia, Carolina Passos Sousa, Isabel Abreu, Marco Mendonça, Pedro Gil, Romeu Costa, Rui M. Silva
Produção | Teatro Nacional D. Maria II
150 Minutos | Maiores de 16 anos
Casa da Cultura de Ílhavo
22 Abr 2022 | sex | 21:00


Que fascistas são estes de que nos fala o título da peça? Seguramente, os que fazem do populismo e do discurso racista e xenófobo uma autêntica “vacina” contra os maus políticos que nos vêm governando desde que Portugal é uma democracia. Seguramente, aqueles que se mostram, “ao lado dos polícias e dos militares que garantem a nossa segurança”, a favor de um sistema livre dos que nada fazem nem querem fazer, isento de impostos que travam a economia e deixam os empresários manietados, sem políticos que chafurdem na lama e sem parlamentares que não sejam autênticos palhaços, a favor de regimes imunes ao “veneno da corrupção”, à “doença” da homossexualidade e às mulheres que não são “boas donas de casa”. Afinal, tudo começa por uma opinião, “uma opiniãozinha que todos temos o direito de exprimir” e que, como um cancro, acabará por crescer desmesuradamente até contaminar tudo à sua volta. Há que extirpar as vozes e as pessoas por detrás das vozes antes que seja tarde. Há que calá-las, enquanto é tempo. Há que matá-las, se for esse o remédio.

O nosso tempo mudou e é talvez tempo de o teatro usar os seus artifícios para nos transportar a um tempo futuro que melhor nos fale do tempo presente. Foi este olhar alegórico que Tiago Rodrigues tomou como premissa da sua peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”. Uma família reúne-se numa casa perto da aldeia de Baleizão para cumprir uma tradição anual: raptar e matar fascistas. Acabada de completar 26 anos, hoje é o dia de Catarina, um dos mais “promissores” elementos da família. Adivinha-se um dia de festa, beleza e morte. Mas Catarina é incapaz de matar e o conflito instala-se, enquanto o fantasma de uma outra Catarina, Eufémia de apelido, assoma. O que é um fascista? Há lugar para a violência na luta por um mundo melhor? Podemos violar as regras da democracia para melhor a defender? Como um poema distópico, o espetáculo afasta-se da realidade para melhor nos aproximar dela, ensaiando uma negociação poética com a cultura popular. Forma coletiva de projeção num futuro que nos compete construir, o teatro mostra-se, inteiro e livre, na sua dimensão mais interventivamente política, intrometida, inquietante, inquisidora.

Nunca uma peça mexeu tanto comigo como este “Catarina ou a Beleza de Matar Fascistas”. O texto, de Tiago Rodrigues, esmaga-nos pela sua actualidade e alcance. Os elementos que vão sendo dispensados dizem-nos que este é o nosso tempo, que o lugar da História é o país onde vivemos, que os actores somos todos. Em crescendo, a peça redunda num vendaval de emoções que se estende à plateia, incapaz de assistir aos factos de forma impávida, levada a erguer a voz e a gritar “Não Passarão” ou “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”. De um lado soam gritos exaltados, do outro escutam-se vozes que entoam a “Grândola, Vila Morena”. Descendo pela coxia, são muitos os espectadores que abandonam a sala. Outros permanecem mudos, dominados pelo medo de uma ficção tornada realidade. Uma ficção tornada realidade! De uma inteligência superior, Tiago Rodrigues e a peça atingem os seus propósitos. A mensagem é implacável para com uma enorme esquerda distanciada da acção, demitida da sua vocação, expectantemente cobarde. Os actores são preciosos, de sangue e nervo feitos, assim o texto o exige. Os espectadores estão siderados. A peça termina com uma ovação de pé, por larguíssimos minutos. Saio da sala a tremer. Dêem-me uma arma!

terça-feira, 3 de março de 2020

TEATRO: "Romeu e Julieta"



TEATRO: “Romeu e Julieta” 
Texto | William Shakespeare 
Versão | John Romão, a partir da tradução de Filomena Vasconcelos 
Encenação e cenografia | John Romão 
Dramaturgia | John Romão, Marta Bernardes 
Figurinos | Carolina Queirós Machado 
Interpretação | João Arrais, João Cachola, João Jesus, Mariana Monteiro, Mariana Tengner Barros, Matamba Joaquim, Rodrigo Tomás, Rui Paixão, Gonçalo Menino 
Produção | Colectivo 84 
90 Minutos | Maiores de 12 anos 
Teatro Nacional D. Maria II – Sala Garrett 
23 Fev 2020 | dom | 16:00


“O que me motiva neste texto é, exactamente, pensá-lo como uma pedra, no sentido em que ele tem uma forma tão específica e ao mesmo tempo tão ampla – a do nosso imaginário – que, finalmente, somos nós que definimos o que pode ser ‘Romeu e Julieta’. É um texto que tem um movimento quase dialético com a passagem do tempo, que ganha sentido à medida que o tempo passa. E essa é a força e o poder destes textos: são eles que regressam ao presente, não somos nós que os vamos buscar”. Estas palavras de John Romão, reproduzidas na folha de sala da peça e que são parte duma conversa muito interessante com Maria João Guardão, levam-nos directamente a uma constatação: Numa época em que o palpável, o materializável, cede rapidamente lugar ao virtual, a forma como o encenador trabalha o texto de William Shakespeare e o dá a ver, realça a sua actualidade e vitalidade e constitui, em si mesma, uma poderosa metáfora do mundo de hoje e um extraordinário momento de teatro.

A peça conta a história, por demais conhecida, de dois jovens apaixonados, filhos de famílias rivais, que sucumbem ao ódio que os separa, mas cujo amor perdura para além da morte. Esta poderia ser, como tantas outras, apenas mais uma versão do clássico de Shakespeare, mas aquilo que John Romão e o Colectivo 84 nos oferecem, escapa claramente à banalização. Seja pela estranheza dos corpos estáticos, em despojamento total, nos quais se reconhecerá uma queda livre, vertiginosa e febril, que (n)os aproxima rapidamente do momento derradeiro, seja pelo dispositivo cénico, marcado por uma evidente estética cinematográfica, pela palavra, pelo belíssimo texto de um dos mais pungentes dramas de toda a literatura clássica, ou pela interpretação dum colectivo de actores fantástico, esta versão de “Romeu e Julieta” é uma peça absolutamente única, duma eficácia e beleza ímpares no nosso panorama teatral.

Comprometido com os aspectos julgados essenciais neste texto, nomeadamente um Romeu e uma Julieta que se assumem como motores de uma construção individual e de uma decisão consciente em não se aterem à inevitabilidade de serem quem lhes diziam que tinham de ser, John Romão lança mão de uma série de recursos cenográficos de extraordinário recorte estético, para melhor vincar a mensagem que pretende fazer passar. Das cortinas de luz à individualização do movimento dos vários palcos da acção, dos símbolos evocativos da guerra como da paz aos lugares que ora são ora deixam de o ser, é a um lugar do amor e da transgressão, a um lugar da impossibilidade – ou seja, o lugar de todas as possibilidades – que John Romão nos transporta. Verticalidade e horizontalidade, movimento e imobilidade, céu e terra, vida e morte, é entre esses estados que flutuamos, ao encontro dos lugares de onde viemos e para onde caminhamos. No final, diremos como Julieta, depois de tomar o veneno: “E se tudo falhar tenho sempre a possibilidade de morrer.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

TEATRO: "Sopro"



TEATRO: “Sopro”,
de Tiago Rodrigues
Texto e encenação | Tiago Rodrigues
Cenografia e desenho de luz | Thomas Walgrave
Figurinos | Aldina Jesus
Sonoplastia e operação de som | Pedro Costa
Interpretação | Cristina Vidal, Isabel Abreu, Romeu Costa, Vítor Roriz, Beatriz Brás e Sofia Dias
Produção | Teatro Nacional D. Maria II
Teatro Nacional S. João
16 Jun 2019 | dom | 16:00


A peça chega ao fim e o aplauso do público, de princípio tímido, faz-se agora ouvir com força. Levanto-me do lugar de um pulo e junto o meu ao aplauso geral que ecoa pela sala. Tenho os olhos embaciados. Quero dizer algo mas o nó na garganta, apertado, torturante, impede-mo. Os actores regressam uma segunda vez ao palco para agradecer a ovação que se prolonga. E então lá sai, estranho e rouco, quase indistinto, um muito emocionado “bravo”. Vem isto a propósito de “Sopro”, com texto e encenação de Tiago Rodrigues, uma peça estreada no prestigiado Festival de Avignon em Julho de 2017 e que chega agora ao Teatro Nacional de S. João, onde irá permanecer até ao próximo sábado.

É do ponto, essa espécie em vias de extinção, que nos fala “Sopro”. Serve-se, para tanto, das histórias e memórias de Cristina Vidal, que sai da sombra ao fim de quatro décadas como ponto profissional no Teatro Nacional D. Maria II, oferecendo a palidez da sua pele às luzes e ao público. Obedecendo a um desígnio inerente à sua profissão – “a discrição do ponto deve ser proporcional à indiscrição do actor” -, ela consegue o “milagre” de passar incógnita no seio dos restantes actores, apesar de ser o denominador comum de todas as sequências, o único elemento em palco da primeira à última fala. Para tanto beneficia dum texto escrito com uma sensibilidade e uma doçura que é, em si mesmo, um hino ao teatro.

Mas se o texto é – já o disse – uma preciosa pérola, ressumando teatro por todos os poros, espalhando pelo palco Sófocles e Ésquilo, Tchekhov e Molière, Racine e António Patrício, é em Cristina Vidal que repousam o olhar e a atenção do público. No seu desempenho, está o desempenho de todos aqueles que, no palco como na vida, trabalham na sombra, fazendo-o de forma árdua e abnegada porque amam aquilo que fazem. Resgatando o conhecimento, a sabedoria e o afecto que há no ofício de ponto, ela é ponto e contra-regra, encenadora quando é preciso sê-lo, mas também amiga e confidente, alguém que está sempre ali, com quem se pode sempre contar, uma presença que é, em si mesma, uma segurança para qualquer actor.

Podia falar deste espectáculo interminavelmente, da enorme dimensão humana do texto, da solução cénica de colocar três pontos e não um em palco, de como nas marcações há todo um sofisticado enredo coreográfico, das situações mais burlescas e que arrancam ao público saborosas gargalhadas, de como o desenho de luzes é um espectáculo dentro do espectáculo, escondendo sem esconder Cristina Vidal ou desse momento, já perto do final, em que a sequência de frases sopradas adquire uma dimensão épica. Fico-me por Cristina Vidal. Com Cristina Vidal. Penso em como o espectador de teatro – o verdadeiro, o que ama o teatro - se está a tornar também numa espécie em vias de extinção. Então volto-me e confirmo aquilo que há muito tempo sei. Ao meu lado caminha uma Cristina Vidal, um ponto que me acompanha e que estará sempre ali para me soprar a frase certa quando a “branca” surgir. Entretanto, o teatro vai-se desmoronando e o vento, impiedoso e agreste, assobia cada vez com mais força através das brechas cavadas na minha existência!

[Foto: Christophe Raynaud de Lage | pontosj.pt]

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

TEATRO: "O Grande Dia da Batalha"



TEATRO: “O Grande Dia da Batalha”,
de Máximo Gorki e Jorge Silva Melo
Encenação | Jorge Silva Melo
Interpretação | Inês Pereira, Ricardo Aibéo, Ruben Gomes, André Loubet, Vânia Rodrigues, Simon Frankel, José Neves
Produção | Artistas Unidos
Teatro Nacional D. Maria II | 10 Fev 2018 | sab | 21:00


Li a tua peça [Albergue Nocturno]. É nova e inegavelmente boa. O segundo acto é muito bom: é o melhor, o mais forte, e quando estava a lê-lo, especialmente o fim, quase dancei de alegria. O tom é sombrio, opressivo: o público não familizarizado com estas temáticas, sairá do teatro sobressaltado (...)”. Se cito este excerto da carta que Anton Tchekov escreveu a Gorki, seu amigo, é porque ele resume, em parte, aquilo que senti ao ver “O Grande Dia da Batalha”, peça escrita “a duas mãos” por Máximo Gorki e Jorge Silva Melo e em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Quando, em 1902, Máximo Gorki escreveu “Albergue Nocturno”, já tinha escrito contos, novelas, um grande romance (“Foma Gordaiev”), já era um escritor admirado, já tinha escrito aquilo a que hoje se chama grandes reportagens, já atravessara a Rússia, a Ucrânia, já tinha sido sapateiro, atravessara o Volga a trabalhar nas cozinhas de um navio, já fora expulso da universidade, já pescara no Mar Cáspio, já estivera preso uma, duas, três vezes, conspirador, já andara pelas estradas como os miseráveis, vagabundos, profetas e ladrões, já conhecera os Humilhados e Ofendidos”, já lera “Os Miseráveis”, era um deles. Daí que todo este mundo salte para o palco em “O Grande Dia da Batalha” e, com ele, nós mesmos, obrigados a olhar para tanta gente, a viver os destinos diversos de personagens atiradas para ali, suspensas no tempo, algumas apenas defendendo ideais.

Ao prolongar o gesto de Gorki, Jorge Silva Melo injecta as nossas ruas, as nossas cidades, neste sórdido Albergue Nocturno, ao encontro dos desgraçados atirados para o lixo nas primeiras metrópoles e agora atirados para o lixo de Schengen e outras globalizações. São personagens abandonas pela industrialização, abandonadas pela pós-industrialização, morrendo de drogas como outrora de tuberculose. São muitos, cada vez mais. São os refugiados, os abandonados, os excluídos. São os protagonistas da história dos tempos modernos, os mesmos que protagonizaram a história há 115 anos atrás e antes e depois e sempre. É Gorki amplificado, revisto e actualizado, mas sempre Gorki. Mas é também o recuperar do “teatro com a comunidade”, do teatro da boa consciência social, da pura transcrição das falas das vítimas, sem mediações, nu e cru. Do bom teatro, portanto!

[Texto baseado no Programa da peça. Fotografia de Jorge Gonçalves, em http://artistasunidosnacapital.blogspot.pt/]