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segunda-feira, 14 de abril de 2025

TEATRO: "Victor ou as Crianças no Poder"



TEATRO: “Victor ou as Crianças no Poder”,
de Roger Vitrac
Tradução | Jorge Silva Melo
Encenação | João Pedro Mamede
Cenografia | Bruno Bogarim
Figurinos | Sara Coimbra Loureiro
Interpretação | Henrique Gil, André Pardal, Ana Amaral, Catarina Rôlo Salgueiro, Isabel Costa, Rafael Gomes, Mia Tomé, Inês Reis, Leonardo Garibaldi, Leonor Buescu, António Simão
Produção | Os Possessos, Artistas Unidos
120 Minutos | Maiores de 16 Anos
Teatro Carlos Alberto
13 Abr 2025 | dom | 16:00


Tudo acontece num único serão, entre as oito e a meia-noite, no apartamento dos Paumelles, em Paris. É dia 12 de setembro de 1909, Victor faz nove anos e declara com estrondo: “Não espero nem mais um ano para ser adulto. Estou decidido a ser alguém e é já!” Escrita e estreada entre guerras, em 1928, “Victor ou as Crianças no Poder” reporta-se ao período anterior à Grande Guerra. A burguesia pouco se distrai da sua obsessão com a guerra (ou fantasia?), seja isso uma sombra de anteriores conflitos ou o prenúncio (os preliminares?) de sucessivas tragédias que se avizinham, levando-se sempre muito a sério. O som é um elemento que sabe do deslizar da farsa para o drama, coisa que Lili, a criada da casa, só vem a descobrir no final. Mas e nós? Saberemos como é que as coisas acabam? Para os Paumelles, guerra terá de haver sempre, seja lá fora, ou dentro de casa. Veremos famílias endinheiradas, as suas crianças, os seus criados, amigos de família e ainda uma visita surpresa. Ou duas. As provocações de Victor às convenções e protocolos sociais e familiares vão dar-nos a perceber melhor estes ricaços parisienses do início do século XX. Que família seria esta nos dias de hoje? Pelo sim, pelo não, será a criada da casa a abrir e fechar o pano, e a interpelar-nos directamente: o ponto de vista de Lili.

Roger Vitrac conheceu cedo o movimento dadaísta, assim como os textos de Lautréamont, Alfred Jarry e René Crevel. Foi na revista Aventure que, em 1922, publicou a sua primeira peça, “Le Peintre”. Tem, desde então, intensa atividade como poeta, publicando regularmente nas revistas do surrealismo, movimento que integra no início, tendo no entanto sido dele excluído por Breton, em 1928. Funda o Teatro Alfred Jarry (1926-30), com Antonin Artaud, com quem estreia várias peças, como “Les Mystères de l’amour” (1927) e, sobretudo, “Victor ou les enfants au pouvoir”, em 1928. Aliando paródia e tragédia íntima, o seu estilo surpreendente coloca-o como inegável precursor do teatro do absurdo. O surrealismo, de que a peça que esteve em cena no Carlos Alberto é filha dissidente, confere às personagens de Vitrac uma histeria muito actual, uma ânsia muito particular de projectar os seus medos e vontades nos outros. A convivência estreita desta família faz com que o medo de uns se torne o divertimento de outros. Estas pessoas, de facto, não se sabem divertir – partindo do princípio de que a violência não é um divertimento –, e ainda acreditam que a realidade não é capaz de os surpreender ou desmascarar.

Todas as personagens de Vitrac são verdadeiras: as crianças gigantes que gritam verdades assustadoras e que, no dia do nono aniversário, descobrem de uma assentada o Conhecimento e a Morte, são legião; os pobres e coxos casais adúlteros, como Charles e Thérèse, com um pé no ridículo e outro nessa exaltação solitária do eu a que os amantes ainda chamam paixão, formigam à nossa volta; a Morte, enfim, apresenta-se em muitos lares pequeno-burgueses frequentemente sob os traços de uma grande dama, muito bela e fétida; mas todos fingimos não a reconhecer, fingimos não ouvir o que diz o jovem rapaz. Hoje, quase um século volvido, olhamos a peça e vemos o que tem para nos dizer. Talvez Vitrac quisesse apenas escandalizar, ou fazer o burguês da época perder-se de riso, a verdade é que as semelhanças com a situação actual em que o mundo se vê mergulhado não dá vontade de rir. Nesse equilíbrio instável entre um antes e um depois, procurando lembrar quão curta a nossa memória pode ser, João Pedro Mamede oferece-nos uma visão “moderna” do texto de Vitrac com humor e inteligência. Histriónicas como convém, as interpretações acentuam o carácter de farsa, sem esconder o drama que erguem à sua volta. No final ninguém sai a ganhar, mas talvez fosse isso mesmo que Vitrac pretendia.

[Baseado no Programa de Sala, em textos de João Pedro Mamede, Jean Anouilh e na nota biográfica de Roger Vitrac. Fotografia: Teatro Nacional de São João | https://www.tnsj.pt/]

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

TEATRO: "A Coragem da Minha Mãe"



TEATRO: “A Coragem da Minha Mãe”,
de George Tabori
Tradução | António Carlos Conde
Encenação | Jorge Silva Melo
Cenografia e figurinos | Rita Lopes Alves
Interpretação | Pedro Carraca, Antónia Terrinha, Hélder Braz
Produção | Artistas Unidos
75 Minutos | Maiores de 12 anos
Cine-Teatro de Estarreja
05 Fev 2022 | sab | 21:30


Estreado em Novembro de 2020 no Teatro da Politécnica, “A Coragem da Minha Mãe” vem trilhando, desde finais do ano passado, os caminhos da itinerância. Em Estarreja, perante uma plateia bem composta, Pedro Carraca, Antónia Terrinha e Hélder Braz deram corpo às personagens de um drama que nos fala da improvável salvação da mãe do dramaturgo húngaro George Tabori, contada pelo próprio, aquando da deportação de judeus de Budapeste para Auschwitz em julho de 1944. Uma história real, acrescente-se, de uma mulher que aos 55 anos se dirige a casa da irmã para um jogo de cartas, sendo presa e logo conduzida para a estação central de comboios onde é metida num vagão de gado, juntamente com outras quatro mil pessoas, com destino ao campo de extermínio de Auschwitz. Mas o impensável acontece e Elsa irá viver uma história mirabolante, marcada pelo absurdo e com um final feliz. Doze horas depois, a mulher estará de regresso a Budapeste e à casa da irmã para o prometido jogo de rummy.

Um piano, um cadeirão, mesa e cadeiras, uma cómoda com um naperon, um rádio e um candeeiro, são alguns dos elementos que adornam o palco. Ao centro, uma poltrona onde se senta a mãe e uma cadeira para o filho, embora este esteja quase sempre de pé enquanto vai desfiando esta história improvável e escutando da mãe as pequenas correcções à narrativa. Há pouco de interessante ou de inovador no espaço cénico, as vozes gravadas que se ouvem em fundo pouco acrescentam em termos de ambiente e as interpretações não descolam do registo convencional. Mas há um texto e uma mensagem que, esses sim, colocam esta peça num lugar à parte no universo do teatro. Uma mensagem que é vista como “a resposta subversiva de Tabori à Mãe Coragem de Brecht” ao promover um universo interpolado e fragmentado e a total inversão de expectativas.

Paródia? Talvez possamos classificá-la assim, admitindo que a peça nos fala da vida a rir de si própria. Num mundo desagregado, regido por um Estado ameaçador e brutal, com vizinhos que se tornam inimigos da noite para o dia, pessoas tratadas como animais, sobreviventes que carregam o peso da culpa, homens e mulheres que se refugiam em casa entregues à sua descrença, Elsa, a mãe de Tabori, é tudo menos uma heroína. É ela a primeira a negar a temeridade e bravura dos seus actos, interrompendo constantemente o filho para lhe dizer que “não foi bem assim”. Entre as peripécias que envolvem a detenção de Elsa, o episódio de cariz sexual com um estranho em plena viagem de comboio e a existência de um salvo-conduto da Cruz Vermelha, a dúvida instala-se. A única certeza parece saída de um conto infantil: “Se fores uma boa menina nada de mal te poderá acontecer”.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

TEATRO: "Morte de um Caixeiro Viajante"



TEATRO: “Morte de um Caixeiro Viajante”,
de Arthur Miller
Encenação | Jorge Silva Melo
Tradução | Ana Raquel Fernandes, Rui Pina Coelho
Cenografia e figurinos | Rita Lopes Alves
Interpretação | Américo Silva, Joana Bárcia, André Loubet, Pedro Caeiro, Pedro Baptista, José Neves, Paula Mora, Tiago Matias, Sara Inês Gigante, Rita Rocha Silva, Vânia Rodrigues, Ana Amaral, António Simão, Hélder Braz e Joana Resende
Produção | Artistas Unidos
120 Minutos / Maiores de 12 anos
TEMPO - Teatro Municipal de Portimão
16 Out 2021 | sab | 21:00


“Tudo bem, miúdo. Vou mostrar-te a ti e a toda a gente que Willy Loman não morreu em vão. Ele tinha um sonho bom. O único sonho que vale a pena ter — ser o número um. Lutou muito, e agora hei-de consegui-lo por ele.”
Arthur Miller, “Morte de um Caixeiro Viajante”

“Morte de um Caixeiro Viajante”, a peça de Arthur Miller, não terá mudado o mundo, mudou a nossa percepção do mundo. Foi escrita em 1948, estreada em 1949, ficou anos em cena na celebérrima encenação de Elia Kazan e nunca mais deixou os palcos do mundo inteiro. É uma peça que ecoa dentro de nós, uma tragédia moderna do cidadão comum que, nas asas do sonho americano, encontra na impotência e inutilidade do fracasso a derradeira violência. É por isso que nesta casa dos Loman não vamos encontrar grandes automóveis, garagens, televisões, sabonetes, aspiradores. Está lá um frigorífico que é pago a prestações e percebemos rapidamente que tudo o mais é pago a prestações. Os dias para Linda Loman, a mulher de Willy Loman, são feitos de contas e cálculos a pensar no fim do mês e nos seguintes enquanto, às escondidas do marido, vai cozendo meias de forma a poupar algum dinheiro.

Mas não é apenas sobre rejeição e abandono que a peça nos fala. É sobre a mentira. Somos convidados a mentir e todas estas pessoas mentem. Willy Loman mente à mulher, tem uma amante ou mesmo várias amantes, nos vários locais da América que vai visitando e colocando amostras de produtos para vender. Os filhos mentem. O mais velho roubou, mentiu, fugiu, esteve preso, voltou para casa; a mãe mente, fingindo uma felicidade que não tem. Toda a família – e Arthur Miller, como muito do teatro americano, é um autor que se centrou na família, herdeiro do teatro de Ibsen, que sempre reconheceu como seu mestre – é uma rede de mentiras que se encontram ao pequeno-almoço. E é sobre isso que “Morte de um Caixeiro Viajante” nos fala, cruzando realidade e ficção, sonho e fantasia, fantasmas e banalidades, num carrossel cada vez mais misterioso que irá acabar da pior forma.

Fazendo do palco um lugar de conflito e pensamento, “Morte de um Caixeiro Viajante” apresentou-se no Teatro Municipal de Portimão perante uma plateia muito bem composta de público. Apoiada num dispositivo cénico simples mas extraordinariamente versátil, a peça prendeu os espectadores do início ao fim, graças à força de um texto que é um sentido “requiem” por uma sociedade baseada no triunfo individual. A “leitura” de Jorge Silva Melo consegue adequar este retrato magoado do sonho americano ao tempo presente, multiplicando interpretações e pontos de vista que não podem deixar de nos tocar a todos. Talvez se esperasse um Américo Silva mais histriónico, mas a sua contenção acaba por dar o espaço que Joana Bárcia e André Loubet precisavam e que tão bem souberam ocupar. Pela actualidade do texto, pelo drama que se esconde naqueles que levam a vida a enganar-se a si próprios, pelo nível das interpretações e da encenação, esta foi uma grande noite de teatro. O pano cai antes do fim, deixando-nos a sós com os nossos medos, a nossa vulnerabilidade, a nossa solidão. Com a nossa morte.

sábado, 23 de novembro de 2019

TEATRO: "Vidas Íntimas"



TEATRO: “Vidas Íntimas”,
de Noël Coward
Tradução | Miguel Esteves Cardoso
Encenação | Jorge Silva Melo
Cenografia | Rita Lopes Alves e José Manuel Reis
Figurinos | Rita Lopes Alves
Interpretação | Rúben Gomes, Rita Durão, Tiago Matias, Vânia Rodrigues, Isabel Muñoz Cardoso
Produção | Artistas Unidos
90 Minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Nacional de S. João
14 Nov > 01 Dez 2019


O final de tarde de quarta feira é o meu momento de teatro por excelência. Longe da “conflitualidade” das múltiplas propostas de fim de semana, este dia e esta hora são ideais para apreciar uma boa peça, numa boa sala como é a do Teatro Nacional de S. João. Mas há mais vantagens, nomeadamente o facto de ser esta uma sessão muito frequentada por jovens (alunos de teatro?), sendo estimulante perceber, numa casa bem composta, a forma expectante como aguardam o início da peça e o seu entusiasmo (nem sempre, nem sempre…) no final. Também já começam a aparecer alguns turistas na sala, o que não deixa de ser visto com natural curiosidade, uma vez que não dominam a língua e nem sempre as peças são legendadas. Mas este nem terá sido um problema maior em “Vidas Privadas”, a peça de Noël Coward, com encenação de Jorge Silva Melo, em cena até ao próximo dia 1 de Dezembro. Uma constatação, aliás, que me leva a soltar a imaginação e a recuar no tempo.

O ano é o de 1931 e a sala é agora outra, embora não muito distante daqui. Estou no Águia de Ouro e é na tela e não no palco que se desenrola a comédia que tem por título “Private Lives”, dirigida por Sidney Franklin. Embora a sala esteja dotada das necessárias condições técnicas – Al Jolson, em “The Jazz Singer”, estreara o sistema de som desta sala em 1930, ao cantar, entre outros, “Give My Regards To Broadway” e “The Sidewalks of New York” -, uma irritante troca de bobines faz com que o filme comece a passar sem legendas. Numa sala completamente esgotada, poucos percebem a língua inglesa e a irritação não tarda em tornar-se audível. Por entre impropérios vários, uma vintena de espectadores abandona a sala e exige a devolução dos 2$50 pagos pelo bilhete. Todavia, quem fica – e são quase todos – não dará por mal empregue a quase hora e meia de duração do filme. Entre o natural e o caricatural, Norma Shearer, Robert Montgomery, Reginald Denny e Una Merkel arrancam uma belíssima interpretação, carregada ainda, na pose como na mímica, dos estigmas do cinema mudo. E tanto assim é que, no final, junto as minhas às palmas duma entusiástica plateia, grato pelos momentos bem passados.

Regressando “à terra” e ao TNSJ, “Vidas Íntimas” mantém os espectadores suspensos das divertidas e inusitadas aventuras de quatro amantes à beira de um ataque de nervos, expondo-os ao ridículo extremo a que uma entrega apaixonada pode levar. Do amor ao ódio e do ódio ao amor em fracções de segundos, a peça é toda ela uma cartilha das relações amorosas, tragédia e comédia ao mesmo tempo. Quanto ao desempenho dos actores, como já se percebeu, está à altura da peça. Os diálogos são importantes, naturalmente, mas a espontaneidade de Rúben Gomes, oferecendo-nos um “dandy” divertido e extremamente convincente ou de Rita Durão, num desempenho marcadamente caricatural, assumindo a personagem com total entrega, quase os dispensam. Também Tiago Matias e Vânia Rodrigues se mostram excelentes no seu papel de cônjuges traídos, muito contidos na pose, o ar de quem está perdido, completamente ultrapassado pelos acontecimentos, mas ainda assim teimando em mostrar que a situação está perfeitamente dominada. Terrivelmente actual, apesar da inocência dos tempos ser hoje outra, “Vidas Íntimas” revela-se um divertimento irresistível e pleno de charme, oferecendo hora e meia de bom teatro. A não perder!

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

TEATRO: "Do Alto da Ponte"




TEATRO: “Do Alto da Ponte”,
de Arthur Miller
Encenação | Jorge Silva Melo
Cenografia e Figurinos | Rita Lopes Alves
Interpretação | Américo Silva, Joana Bárcia, Vânia Rodrigues, António Simão, Bruno Vicente, André Loubet, Tiago Matias, Hugo Tourita, Gonçalo Carvalho, João Estima, Hélder Braz, Inês Pereira/Sara Inês Gigante, Romeu Vala, Miguel Galamba
Produção | Artistas Unidos, Teatro Viriato, São Luiz Teatro Municipal, Teatro Nacional S. João
14 Nov 2018 | qua | 19:00


Recordado como um gigante do teatro contemporâneo americano, Arthur Miller é considerado um dos grandes retratistas da América do pós-guerra. A ele se devem clássicos como “A Morte de Um Caixeiro Viajante” (1949), “As Bruxas de Salém” (1955), o argumento de “Os Inadaptados”, obra-prima da sétima arte assinada por John Huston (1961) ou este “Do Alto da Ponte” (1955), a primeira incursão dos Artistas Unidos na obra do dramaturgo e que chega agora ao Teatro Nacional S. João, no Porto.

Baseada em factos reais, a peça debruça-se sobre a conflitualidade que estala em casa dos Carbone, uma família constituída por Eddie, estivador num dos muitos portos de Brooklyn, na margem esquerda do East River, a esposa Beatrice e a sobrinha Catherine, que o casal criou após a morte da mãe desta. O precário equilíbrio no seio familiar vê-se mais abalado ainda com a vinda de Itália de dois primos, emigrantes ilegais, sobretudo quando o mais novo dos dois, solteiro, fixa as suas atenções na sobrinha do casal. Dá-se então início a um jogo marcado pela imoralidade de sentimentos como a suspeição, o ciúme, a delação e a traição, o qual terminará da forma mais trágica, sob o manto da vingança.

Estendendo-se da família ao espaço lato da sociedade, este drama moderno remete, ainda que indirectamente, para a sinistra figura do macartismo. É, nessa medida, um pedaço do mundo de Arthur Miller que se abre em palco, sentido de forma intensa por um homem que foi, ele mesmo, vítima da famigerada caça às bruxas. As emoções que percorrem “Do Alto da Ponte” são devidas à mestria de Miller, que tão bem soube construir as histórias de vida da família Carbone e dos que com ela se relacionam, numa parábola que acaba por se revelar extraordinariamente actual. Jorge Silva Melo soube dosear a peça entre o contido e o impulsivo, preenchendo de emoção um palco praticamente despido de adereços. O resultado salda-se em duas horas de excelente teatro, ancorado nas interpretações dum belíssimo naipe de actores, com destaque para a figura de Beatrice, numa notável composição de Joana Bárcia. Para ver até 25 de Novembro.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

TEATRO: "O Grande Dia da Batalha"



TEATRO: “O Grande Dia da Batalha”,
de Máximo Gorki e Jorge Silva Melo
Encenação | Jorge Silva Melo
Interpretação | Inês Pereira, Ricardo Aibéo, Ruben Gomes, André Loubet, Vânia Rodrigues, Simon Frankel, José Neves
Produção | Artistas Unidos
Teatro Nacional D. Maria II | 10 Fev 2018 | sab | 21:00


“Li a tua peça [Albergue Nocturno]. É nova e inegavelmente boa. O segundo acto é muito bom: é o melhor, o mais forte, e quando estava a lê-lo, especialmente o fim, quase dancei de alegria. O tom é sombrio, opressivo: o público não familizarizado com estas temáticas, sairá do teatro sobressaltado (...)”. Se cito este excerto da carta que Anton Tchekov escreveu a Gorki, seu amigo, é porque ele resume, em parte, aquilo que senti ao ver “O Grande Dia da Batalha”, peça escrita “a duas mãos” por Máximo Gorki e Jorge Silva Melo e em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Quando, em 1902, Máximo Gorki escreveu “Albergue Nocturno”, já tinha escrito contos, novelas, um grande romance (“Foma Gordaiev”), já era um escritor admirado, já tinha escrito aquilo a que hoje se chama grandes reportagens, já atravessara a Rússia, a Ucrânia, já tinha sido sapateiro, atravessara o Volga a trabalhar nas cozinhas de um navio, já fora expulso da universidade, já pescara no Mar Cáspio, já estivera preso uma, duas, três vezes, conspirador, já andara pelas estradas como os miseráveis, vagabundos, profetas e ladrões, já conhecera os Humilhados e Ofendidos”, já lera “Os Miseráveis”, era um deles. Daí que todo este mundo salte para o palco em “O Grande Dia da Batalha” e, com ele, nós mesmos, obrigados a olhar para tanta gente, a viver os destinos diversos de personagens atiradas para ali, suspensas no tempo, algumas apenas defendendo ideais.

Ao prolongar o gesto de Gorki, Jorge Silva Melo injecta as nossas ruas, as nossas cidades, neste sórdido Albergue Nocturno, ao encontro dos desgraçados atirados para o lixo nas primeiras metrópoles e agora atirados para o lixo de Schengen e outras globalizações. São personagens abandonas pela industrialização, abandonadas pela pós-industrialização, morrendo de drogas como outrora de tuberculose. São muitos, cada vez mais. São os refugiados, os abandonados, os excluídos. São os protagonistas da história dos tempos modernos, os mesmos que protagonizaram a história há 115 anos atrás e antes e depois e sempre. É Gorki amplificado, revisto e actualizado, mas sempre Gorki. Mas é também o recuperar do “teatro com a comunidade”, do teatro da boa consciência social, da pura transcrição das falas das vítimas, sem mediações, nu e cru. Do bom teatro, portanto!

[Texto baseado no Programa da peça. Fotografia de Jorge Gonçalves, em http://artistasunidosnacapital.blogspot.pt/]