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terça-feira, 15 de setembro de 2026

TEATRO: “Maiúscula” | Jacinto Lucas Pires



TEATRO: “Maiúscula”,
de Jacinto Lucas Pires
Encenação | Marcos Barbosa
Cenografia e figurinos | Simon Donger
Desenho de luz | Filipe Pinheiro
Desenho de som | Joel Azevedo
Interpretação | Luísa Cruz
Produção | Teatro Nacional São João
75 Minutos | Maiores de 12 Anos
Teatro Carlos Alberto
13 Set 2026 | dom | 16:00


Há uma frase inaugural que contém, muito subtilmente, todo o programa de “Maiúscula”: “Caíram as cuecas da corda”. Do prosaico e doméstico, o dramaturgo Jacinto Lucas Pires faz nascer uma vertigem sobre o tempo, a memória e aquilo que resta quando as grandes personagens se retiram e a casa se torna demasiado grande para quem nela ficou. Benedetta Croce - nome que é, divertidamente, uma transparência e uma homenagem a Luísa Cruz - recebe a hipótese de interpretar Medeia num filme de grande orçamento e, a partir desse telefonema, vê abrir-se diante de si um território simultaneamente real, imaginado e recordado. Marcos Barbosa encena este solo como quem sabe que o teatro é também uma arte de assombrações. Há os fantasmas das personagens, dos amores perdidos, do marido, do filho e das ausências quotidianas; mas há sobretudo os fantasmas de todos os papéis e de todos os palcos que uma actriz transporta consigo. “Maiúscula” torna-se, assim, um laboratório do ser, onde uma mulher se observa ao espelho e pergunta, com uma violência discreta, como se continua a ser quem se foi.

É aqui que Luísa Cruz realiza aquilo que o texto parece pedir-lhe desde a primeira linha: não representar apenas Benedetta, mas deixar que Benedetta atravesse, sem nunca se confundir com ela, a memória da actriz. A extraordinária inteligência da sua presença dá espessura a esta mulher dividida entre a altivez e a fragilidade, a crueldade e a autoderrisão, a vaidade e o medo. Cada palavra parece ser experimentada antes de ser dita; algumas são saboreadas, outras recusadas como se nelas estivesse escondida uma ameaça. “Frágil” e “odor” pertencem ao vocabulário que o envelhecimento impõe e que Benedetta combate; “irrepetível”, “insubstituível” ou “indestrutível” são, pelo contrário, pequenas barricadas contra a evidência do declínio. Luísa Cruz percorre estas oscilações com uma disciplina que nunca se torna fria e com um humor que impede o espectáculo de se fechar na solenidade. O que poderia ser apenas o retrato de uma actriz envelhecida converte-se, graças à sua interpretação, numa reflexão muito mais ampla sobre a humilhação de sentir-se descartável e sobre a teimosia, quase heróica, de continuar a desejar.

Medeia, o M maiúsculo, paira sobre este combate. A heroína de Eurípides, convocada através da recriação de Sophia de Mello Breyner Andresen, não surge apenas como o papel capaz de ressuscitar uma carreira: é a medida impossível de uma vida vivida em maiúsculas. Benedetta deseja a personagem, mas deseja igualmente a fúria, a grandeza e a centralidade que Medeia promete; contra a solidão contemporânea, sonha ainda com um papel que devolva sentido à sua própria narrativa. E, no entanto, é precisamente nessa desproporção entre a dimensão do mito e a pequenez dos gestos quotidianos que “Maiúscula” se mostra mais intensa e comovente. Não há coro que ampare esta mulher, apenas uma casa, uma voz e os ecos que ela própria convoca para não sucumbir ao silêncio. A encenação de Marcos Barbosa escuta com rigor as elipses e os fantasmas da escrita de Jacinto Lucas Pires, mas é Luísa Cruz quem lhes dá corpo e respiração. No fim, fica a pergunta essencial: será possível continuar a ser uma Mulher Maiúscula quando o mundo insiste em reduzir-nos à minúscula? “Maiúscula” não responde, revelando nessa recusa, simultaneamente dolorosa e luminosa, toda a sua grandeza.

domingo, 15 de junho de 2025

TEATRO: "Babel"



TEATRO: “Babel”
A partir de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões
Encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos | Nuno Cardoso
Vídeo | Fernando Costa
Interpretação e co-criação | Carlos Rodrigues, Cristina Almeida, Edilson Wa Ka Chambe, Emílio Costa, Hermínia Teixeira, José Teixeira, Luísa Costa, Madalena Costa, Marlene Pacheco, Rodrigo Matos, Roldy Harrys, Rosa Quiroga, Sérgio Nogueira, Tiago Ribeiro, Sérgio Sá Cunha, Telma Cardoso
Música ao vivo | Adriano Silva (eufónio), Diogo Gomes (trompete), Lucas Domingos (trombone), Marta Figueira (clarinete), Rafael Fonseca (tuba), Francisco “el Killo” Beirão (percussão)
Produção | Teatro Nacional São João
90 Minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Nacional Carlos Alberto
14 Jun 2025 | sab | 19:00


“Vamos construir uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Assim, havemos de nos tornar nomeados para evitar que nos dispersemos por toda a superfície da Terra.
O Senhor, porém, desceu, a fim de ver a cidade e a torre que os homens estavam a edificar.
E o Senhor disse: “Eles constituem um só povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa alguma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projectos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros.”
E o Senhor dispersou-os dali por toda a superfície da Terra, e suspenderam a construção da cidade.”
Livro do Génesis, 11:1-9

Vindo dos tempos conturbados das origens, este é o relato do mito de Babel. Já não era a primeira vez que o Criador e a criação se desentendiam – primeiro, foram expulsos do Paraíso; depois, Caim foi amaldiçoado por ter matado o irmão; depois, o dilúvio, por serem blasfemadores e ímpios; finalmente, Babel, por serem orgulhosos. Pode ter sido diferente nesse tempo, mas nada garante que a mesma língua – um esperanto, inglesing, ou globish – produza uma compreensão mútua se as ideias forem diferentes. É muito mais fácil enganar o parceiro usando a mesma linguagem. Pelos vistos, o Génesis, como hoje, era um tempo de catástrofes (sobre)naturais resultante do confronto entre uma divindade caprichosa e uma humanidade libertina que, ao invés de compreender e praticar a harmonia que lhe fora destinada, gastava o tempo em conflitos, jogos de poder, matanças, invejas, vinganças, orgias e tudo o mais. Com a confusão das línguas e sem acesso à tradução automática, os humanos dispersaram-se e o Criador, muito seguro de si e vingativo, dividia para reinar. Literalmente, Babel significa “Porta do Céu”, mas não entra quem quer. “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele” – escreveu Saramago em Caim (2009), sem explicar os desentendimentos reinantes entre o suposto colectivo designado pela primeira pessoa do plural, nós.

A Babel que veio do teatro do mundo para o Teatro Carlos Alberto não é nenhum rebanho conduzido por pastor ou cão. Do tumulto dos dias, transportando vidas contraditórias, as personagens desaguam uma a uma num lugar de onde vão partir novamente. Medem-se, evitam-se e olham-se com sentimentos de superioridade ou desprezo. Pelo telefone de cada uma, este lugar desdobra-se numa teia de assuntos: cada qual tenta organizar o seu mundo e dar conta do estranhamento e da incomodidade que as outras lhe causam. Um padre difunde um velho discurso de Salazar sobre a autoridade e o povo submisso: “Está tudo bem assim e não poderia ser de outra forma.” Dois actores recitam versos do início de Os Lusíadas, de Camões: “As armas e os barões assinalados.” O resultado é uma enorme gargalhada em uníssono. Fala-se a mesma língua, não há nenhuma torre para construir, e o somatório dos indivíduos equipados com dispositivos de comunicação não constitui uma sociedade, um colectivo. Os corpos vigiam-se mutuamente e repelem-se. Cada voz inscreve-se numa bolha, e perpassa por todos um estado de desregulação emocional – a expressão é do filósofo Daniel Innerarity – que traduz a desconfiança, a ansiedade, a fragilidade, a raiva, a ameaça ou o medo com que se interpreta o quotidiano e se verbalizam ideias e actos políticos: nós e eles; o mundo contra mim; eu e o mundo pelas redes sociais.

A esfera pública não existe como lugar-comum do debate público e, à medida que se aprofunda a globalização ao toque acelerado da acumulação do capital, vão desaparecendo os dispositivos de vida em comum, de redistribuição e justiça social, de hospitalidade e cuidado com o outro. Clama-se por segurança, contra os imigrantes, pelos malefícios do CO2, pela extinção dos pandas, pelo clima ou pelos oceanos. Anuncia-se o fim do mundo para que nos esqueçamos do quotidiano e aceitemos qualquer coisa que nos seja incutida como remédio para tal cataclismo, mas o populismo digital apenas serve para manter a fritura quente dos acontecimentos que se sucedem em regime torrencial, sobre isto e aquilo, aqui ou do outro lado do mundo, tudo acelerado e superficial para que a corrente não cesse e a turbulência se mantenha. Atordoados, os indivíduos naufragam no grande turbilhão. A saturação e a dissipação esgotam a energia e mantêm o cidadão entretido, revoltado, amorfo ou enquistado na sua luta pessoal, na sua causa e activismo – existem milhares de causas para abraçar e, juntas, compõem uma cacofonia sem fim. Apesar da presença dos corpos, a pólis ficou reduzida a escombros e ao caos. A indiferença e a individuação encontram terreno fértil na complexidade e na contradição dos tempos, na erosão do Estado Social, numa sensação de cidadania nunca cumprida porque diluída para lá do estado-nação, dissolvido no sistema-mundo do salve-se quem puder, onde tudo se joga, compra ou vende: um emprego, um projecto de vida, uma guerra, um desastre, uma torre no Dubai, ou o paraíso num resort de areia dourada.

Transformada em expressão banal, a comunidade é um mito, uma palavra para repetir até à exaustão, denominando qualquer coisa, com a expectativa de que, depois de tantas vezes repetida, acabe por se revelar na sociedade dos indivíduos. Zygmunt Bauman, o teórico da modernidade líquida, defende que tal insistência se deve sobretudo a uma busca de segurança, usando uma palavra que, antes mesmo de se acabar de pronunciar, arrasta consigo o melhor da condição humana – a solidariedade, a atenção ao outro. Nos EUA, uma comunidade fechada é um condomínio privado. Comunidades abertas são o contrário de mais de um século de antropologia a explicar que as comunidades são muito pouco permeáveis. À volta, o que se vê é mais o cancelamento do que o diálogo, a recusa mais do que a escolha, a rejeição em vez da preferência. O presentismo domina os actos políticos em modo binário e demagógico, e o mercado promete equilibrar tudo, apesar de nunca o ter feito. Esta é a Babel, movimento perpétuo, gente à procura de si mesma, ora muito certa das suas pretensões e “glórias de mandar” dentro da entropia do sistema, ora muito consciente da sua fragilidade, da facilidade com que se pode tornar inútil e ser jogada no refugo. “No mar, tanta tormenta e tanto dano, / Tantas vezes a morte apercebida! / Na terra, tanta guerra, tanto engano”, cantava Camões, como quem hoje fala do cemitério em que se tornou o Mediterrâneo. Quando tudo depende do que se passa no grande mundo, o lugar onde se está torna-se mais relevante, porque aí estará, para cada um, o seu lugar. É urgente que daí possam brotar a utopia e a hospitalidade. É uma questão de desligar as redes sociais, fazer silêncio, ouvir quem somos e que coisas podemos fazer pelos outros. A comunidade não existe, tão pouco a identidade: constroem-se.

[Texto transcrito na íntegra, da autoria de Álvaro Domingues, inserto no Programa de Sala, em https://www.tnsj.pt/ficheiros/eventos/programa-de-sala68406da5db370.pdf; foto de TNSJ, em https://www.tnsj.pt/]

segunda-feira, 14 de abril de 2025

TEATRO: "Victor ou as Crianças no Poder"



TEATRO: “Victor ou as Crianças no Poder”,
de Roger Vitrac
Tradução | Jorge Silva Melo
Encenação | João Pedro Mamede
Cenografia | Bruno Bogarim
Figurinos | Sara Coimbra Loureiro
Interpretação | Henrique Gil, André Pardal, Ana Amaral, Catarina Rôlo Salgueiro, Isabel Costa, Rafael Gomes, Mia Tomé, Inês Reis, Leonardo Garibaldi, Leonor Buescu, António Simão
Produção | Os Possessos, Artistas Unidos
120 Minutos | Maiores de 16 Anos
Teatro Carlos Alberto
13 Abr 2025 | dom | 16:00


Tudo acontece num único serão, entre as oito e a meia-noite, no apartamento dos Paumelles, em Paris. É dia 12 de setembro de 1909, Victor faz nove anos e declara com estrondo: “Não espero nem mais um ano para ser adulto. Estou decidido a ser alguém e é já!” Escrita e estreada entre guerras, em 1928, “Victor ou as Crianças no Poder” reporta-se ao período anterior à Grande Guerra. A burguesia pouco se distrai da sua obsessão com a guerra (ou fantasia?), seja isso uma sombra de anteriores conflitos ou o prenúncio (os preliminares?) de sucessivas tragédias que se avizinham, levando-se sempre muito a sério. O som é um elemento que sabe do deslizar da farsa para o drama, coisa que Lili, a criada da casa, só vem a descobrir no final. Mas e nós? Saberemos como é que as coisas acabam? Para os Paumelles, guerra terá de haver sempre, seja lá fora, ou dentro de casa. Veremos famílias endinheiradas, as suas crianças, os seus criados, amigos de família e ainda uma visita surpresa. Ou duas. As provocações de Victor às convenções e protocolos sociais e familiares vão dar-nos a perceber melhor estes ricaços parisienses do início do século XX. Que família seria esta nos dias de hoje? Pelo sim, pelo não, será a criada da casa a abrir e fechar o pano, e a interpelar-nos directamente: o ponto de vista de Lili.

Roger Vitrac conheceu cedo o movimento dadaísta, assim como os textos de Lautréamont, Alfred Jarry e René Crevel. Foi na revista Aventure que, em 1922, publicou a sua primeira peça, “Le Peintre”. Tem, desde então, intensa atividade como poeta, publicando regularmente nas revistas do surrealismo, movimento que integra no início, tendo no entanto sido dele excluído por Breton, em 1928. Funda o Teatro Alfred Jarry (1926-30), com Antonin Artaud, com quem estreia várias peças, como “Les Mystères de l’amour” (1927) e, sobretudo, “Victor ou les enfants au pouvoir”, em 1928. Aliando paródia e tragédia íntima, o seu estilo surpreendente coloca-o como inegável precursor do teatro do absurdo. O surrealismo, de que a peça que esteve em cena no Carlos Alberto é filha dissidente, confere às personagens de Vitrac uma histeria muito actual, uma ânsia muito particular de projectar os seus medos e vontades nos outros. A convivência estreita desta família faz com que o medo de uns se torne o divertimento de outros. Estas pessoas, de facto, não se sabem divertir – partindo do princípio de que a violência não é um divertimento –, e ainda acreditam que a realidade não é capaz de os surpreender ou desmascarar.

Todas as personagens de Vitrac são verdadeiras: as crianças gigantes que gritam verdades assustadoras e que, no dia do nono aniversário, descobrem de uma assentada o Conhecimento e a Morte, são legião; os pobres e coxos casais adúlteros, como Charles e Thérèse, com um pé no ridículo e outro nessa exaltação solitária do eu a que os amantes ainda chamam paixão, formigam à nossa volta; a Morte, enfim, apresenta-se em muitos lares pequeno-burgueses frequentemente sob os traços de uma grande dama, muito bela e fétida; mas todos fingimos não a reconhecer, fingimos não ouvir o que diz o jovem rapaz. Hoje, quase um século volvido, olhamos a peça e vemos o que tem para nos dizer. Talvez Vitrac quisesse apenas escandalizar, ou fazer o burguês da época perder-se de riso, a verdade é que as semelhanças com a situação actual em que o mundo se vê mergulhado não dá vontade de rir. Nesse equilíbrio instável entre um antes e um depois, procurando lembrar quão curta a nossa memória pode ser, João Pedro Mamede oferece-nos uma visão “moderna” do texto de Vitrac com humor e inteligência. Histriónicas como convém, as interpretações acentuam o carácter de farsa, sem esconder o drama que erguem à sua volta. No final ninguém sai a ganhar, mas talvez fosse isso mesmo que Vitrac pretendia.

[Baseado no Programa de Sala, em textos de João Pedro Mamede, Jean Anouilh e na nota biográfica de Roger Vitrac. Fotografia: Teatro Nacional de São João | https://www.tnsj.pt/]

sábado, 18 de janeiro de 2025

TEATRO: "Frágua de Amor"



TEATRO: “Frágua de Amor”,
de Gil Vicente
Encenação | António Augusto Barros
Tradução dos versos em castelhano | José Bento
Direcção musical e música original | Hugo Sanches
Cenografia | João Mendes Ribeiro, Luísa Bebiano
Figurinos e adereços | Ana Rosa Assunção
Interpretação | Ana Teresa Santos, Carlos Meireles, Igor Lebreaud, Maria Quintelas, Miguel Magalhães, Mónica Camaño, Nuno Meireles, Ricardo Kalash, Sérgio Ramos
Música | Eunice Abranches D’Aguiar, Irene Brigitte, Patrícia Silveira, Carlos Meireles, Sérgio Ramos, Hugo Sanches, Xurxo Varela, Carlos Sánchez, Rita Rógar
Produção | A Escola da Noite, O Bando de Surunyo
60 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Carlos Alberto
17 Jan 2025 | sex | 15:00


As peças de Gil Vicente têm-se constituído presença assídua na programação do Teatro Carlos Alberto, e ainda bem. Pela forma como retratam a sociedade portuguesa, pelo carácter moralizador e satírico, pela sua enorme comicidade e sentido de humor, mas sobretudo pelo seu humanismo, são peças sempre cativantes, divertidas e capazes de oferecer momentos verdadeiramente prazerosos. Assim é com “Frágua de Amor”, tragicomédia representada no desponsório do rei D. João III com a rainha D. Catarina, em Évora, no ano de 1524. Começando por celebrar tão faustoso acontecimento, a peça tem Cupido como principal protagonista. Com a ajuda de quatro robustos ferreiros - Mercúrio, Júpiter, Saturno e o Sol -, Cupido apresenta uma frágua capaz de transformar em realidade os sonhos daqueles que a ela se submetam. O primeiro a experimentá-la é um negro apaixonado por Vénus e que ambiciona tornar-se branco. Segue-se a Justiça, uma velha deformada que pretende alterar a imagem. Finalmente Rodrigo, um frade criticado pela sua falta de vocação e que deseja voltar a ser leigo. A peça termina com uma alegre canção, o que não é de somenos, visto a música assumir lugar de destaque ao longo de toda a representação.

Sabemos que Gil Vicente juntava às suas qualidades de dramaturgo as de compositor. As didascálias que, embora escassas e genéricas, é possível encontrar em algumas das suas peças deixam entender de forma clara que é esse o programa do teatro: finalizar com música. Mas a música no teatro de Gil Vicente está longe de ser confinada ao papel de um elemento de remate. Seja exclusivamente instrumental, seja cantada ou bailada, no elenco das suas peças a música ocupa um lugar de protagonista. “Frágua de Amor” surge nesta linha-charneira do teatro vicentino, surpreendendo pela estranheza de um texto linguisticamente distante, mais do que bilingue, e que precisa da cenografia, dos figurinos, da fala e jogo dos actores para se abrir à compreensão e adesão emocional dos espectadores. Mas, surpresa maior, vai ser justamente a alegria e a sofisticação carreadas pela música, pelos músicos e cantores, e pela sua interacção com as actrizes e os actores, a fazer-nos sentir o arrebatamento de uma acção que faz apelo à transformação, à metamorfose, e que, politicamente, nos diz, ainda hoje, como Gil Vicente apelava já a um urgente “desejo de mudança”.

Encantadora, a peça encenada por António Augusto Barros e que tem em Hugo Sanches o responsável pela parte musical permite-nos apreciar algo de verdadeiramente incomum e que podemos classificar como um musical vicentino. Posta em cena desta forma, com a componente lírica a assumir uma tão grande preponderância, a peça faz jus à ideia de um teatro a ampliar-se e a separar-se dos momos e chacotas, composto agora por monólogos, diálogos, música tocada, cantada e bailada, sagrada e profana, popular ou palaciana, como ensina Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Aliás, muito deste modus faciendi está patente em indicações textuais do dramaturgo, que também foi músico e autor de canções, como é o caso de “Muy graciosa es la doncella” e “El que quisiere apurar-se”, desta mesma tragicomédia, interpretadas com brio pelos elementos d'O Bando de Surunyo, investidos também em actores e pelos actores d'A Escola da Noite, que assumem igualmente o papel de músicos. Tudo aqui é Gil Vicente, mas convenhamos que é um luxo poder assistir a uma peça com tanto encanto e beleza e tão extraordinariamente bem interpretada.

[Excertos do texto construídos a partir da Folha de Sala da peça, a qual pode ser lida na íntegra em https://storage.googleapis.com/assets.tnsj.pt/documents/d29935bd-tnsj_2025-01-13_fragua-de-amor_programa-de-sala_af_web.pdf]

terça-feira, 22 de outubro de 2024

TEATRO DE MARIONETAS: "Dura Dita Dura"



TEATRO DE MARIONETAS: “Dura Dita Dura”,
de Regina Guimarães
Encenação, cenografia, marionetas | Igor Gandra
Música | Michael Nick
Fado / canção | Ana Deus
Interpretação | Igor Gandra
Produção | Teatro de Ferro
50 Minutos | Maiores de 6 anos
Festival Internacional de Marionetas do Porto
Teatro Carlos Alberto
17 Out 2024 | qui | 15:00


“Era uma vez um menino pequeno, que vivia num país pequeno, virado para o grande oceano. Dizia-se que nesse país pequeno, grandes homens e homens de todos os tamanhos se tinham lançado no mar dentro, à procura de outros países e de outros homens. Mas isso tinha acontecido há tanto tempo que o menino de que estamos a falar nunca tinha molhado sequer os pés no mar. Dizia-se também que nesse país pequeno as pessoas tinham saudades de toda a espécie de coisas e que todos os domingos aqueles que viviam bem perto do grande oceano iam até junto da praia para daí ficarem a olhar as ondas a bater horas a fio. Era o passeio dos tristes. (…)”
Regina Guimarães

Passaram quinze anos desde que “Dura Dita Dura” subiu pela primeira vez à cena, no Museu da Marioneta, em Lisboa. A peça conta a história de um menino, o Baltazar, que nasceu algures numa terra pequena, rodeada por serras, onde só muito raramente vinha a camioneta do peixe e o cheiro do mar nunca chegava. Apesar de ter memória de elefante, perna de lebre, olho de lince e ouvido de perdigueiro, Baltazar era mudo. Tinha feito já sete anos, mas não ia à escola porque não havia escolas para meninos sem fala num país em que as pessoas falavam pouco. Toda a gente o olhava como se fosse uma galinha de três cabeças e chamavam-lhe coitadinho, em vez de Baltasar, que era o seu nome, do seu padrinho e do padrinho do seu padrinho. Sabia, confusamente, que não devia ser mais coitadinho do que todos os outros. Mas tinha imensa pena dos pais quando percebia que raramente o levavam à rua para não terem de ouvir coitadinho a cada esquina, nem terem de sentir mais culpa ou vergonha no país das pessoas culpadas e envergonhadas.

Nascido da necessidade de reflectir sobre o modo como, ainda hoje, a ditadura fascista revela a sua influência no modo como vivemos e sentimos o nosso país, “Dura Dita Dura” parte de um texto de Regina Guimarães para expor as marcas de um tempo retrógrado e miserável do nosso viver colectivo. Levados ao longo do país do passeio dos tristes, vemos o quanto as alegrias eram pouca e mal vistas, falamos com voz sussurrada porque as paredes têm ouvidos, escutamos os rapazes que andam na guerra e que vêm à televisão dizer “adeus e até ao meu regresso” (embora não se saiba quando regressam), ouvimos mulheres e crianças a rezar nas escuras naves de igrejas a cheirar a flores, a incenso e a cadáver, vamos em romaria de fé a Fátima e tememos por aqueles que arriscam a sua segurança e a da família ao pôr em causa uma doutrina fundada na trilogia “Deus, Pátria e Família”. É nesta atmosfera de terror surdo que a vivacidade de Baltazar, menino fora do baralho, conflitua com o obscurantismo que caracteriza o Portugal dos pequenitos que é o seu. Baltazar é um escândalo de silêncio num País silenciado. Mas não se escolhe o lugar e o tempo onde se nasce.

Ao brilhantismo do texto, junta-se o rigor cénico de um jardim sem cor, por onde se passeiam pequenas figuras como que petrificadas, reforçando a ideia de imobilidade permanente de uma situação da qual não se consegue sair. Marionetista experiente, Igor Gandra explora os tempos da peça com enorme rigor e inteligência, num registo de tragicomédia capaz de amarrar o público às cadeiras ao mesmo tempo que lhe põe um sorriso no rosto. Numa altura em que assistimos ao recrudescimento e normalização de políticas fascizantes, nas suas expressões mais brutais ou mais insidiosas, e vemos instalar-se uma progressiva repressão do dissenso - o exemplo mais recente é o tratamento dado em alguns países europeus (e não só) às vozes que protestam contra o massacre do povo palestiniano -, abracemos “Dura Dita Dura” como uma peça urgente no que tem de denúncia das políticas de silenciamento e ostracização daqueles que se atrevem a falar por seu livre pensamento. Um espectáculo que importa, não apenas pela sua dimensão histórica, mas também porque, levando-nos a refletir sobre o nosso passado, obriga-nos a arrepiar caminho em relação ao futuro. A história não se repete nem está escrita de antemão; por isso é tão importante voltar a esta história de um menino que vivia num país pequeno e emudecido pelo medo.

domingo, 13 de outubro de 2024

TEATRO: “As Grandes Comemorações Quase Oficiais do Período Histórico Habitualmente Conhecido como PREC (Processo Revolucionário em Curso)”



TEATRO: “As Grandes Comemorações Quase Oficiais do Período Histórico Habitualmente Conhecido como PREC (Processo Revolucionário em Curso)”
Textos | Joana Bértholo, Joana Craveiro, Jorge Louraço Figueira, Jorge Palinhos, Lígia Soares, Pedro Goulão, Rui Pina Coelho, Sérgio de Carvalho
Encenação | Gonçalo Amorim
Coordenação dramatúrgica | Rui Pina Coelho
Cenografia | Catarina Barros
Figurinos | Cátia Barros
Interpretação | João Miguel Mota, Eduardo Breda, Pedro Galiza, Teresa Arcanjo, Catarina Chora, Tomé Pinto, Inês Afonso, Pedro Quiroga Cardoso, Daniel Silva, Telma Cardoso, Maria Inês Peixoto
Produção | Teatro Experimental do Porto, ASSéDIO, Teatro Nacional São João
180 Minutos (com intervalo) | Maiores de 12 anos
Teatro Carlos Alberto
06 Out 2024 | dom | 16:00


“Na manhã de 25 de abril, quem ligasse a rádio ouviria imediatamente que algo extraordinário estava a acontecer, mas era-lhe igualmente solicitado (ou ordenado) que permanecesse em casa, a aguardar tranquilamente o desenrolar dos acontecimentos. É sabido que a revolução começou aí, quando tantos e tantas desafiaram essas instruções e encheram as ruas. Uma citação, provavelmente apócrifa, atribuída a Rosa Luxemburgo, sustenta que nada parece mais improvável do que uma revolução cinco minutos antes de começar e nada parece mais inevitável do que uma revolução cinco minutos depois de ter começado. O nosso olhar póstumo tende a debruçar-se sobre os acontecimentos de há cinquenta anos com um sentimento de incredulidade. A generalidade dos trabalhos historiográficos reforça esse sentimento, abordando o passado revolucionário não apenas como um país estrangeiro, mas como um local exótico, de contornos quase mitológicos. E, no entanto, para aqueles e aquelas que protagonizaram as greves, ocupações, mobilizações e conflitos do PREC, os mais extraordinários gestos foram quase sempre encarados como uma condição necessária a qualquer processo de democratização efectiva. Sem a liberdade de mudar e decidir, a democracia teria permanecido um ritual desprovido de significado. A revolução foi, pelo contrário, o tempo breve em que a democracia se exerceu e é precisamente isso que, cinquenta anos depois, lhe confere uma marca de profunda e irredutível alteridade face ao tempo morno que vivemos.”
Excerto do texto “Como parar um comboio prestes a descarrilar?”, de Ricardo Noronha
Investigador do Instituto de História Contemporânea (NOVA FCSH)

Extraordinária peça de teatro aquela a que assisti no Carlos Alberto, ao encontro do mais problemático e contraditório momento da história da democracia em Portugal, aquele que mais posições extremou, que mais fileiras cerrou, que mais esperanças matou. Extraordinária, pela força dos textos, desenhados em onze quadros escritos com os nervos à flor da pele, dados a ver em memória ou fado, em manifesto ou mensagem. Extraordinária, ainda, pela qualidade das interpretações, ousadas, irreverentes, à imagem e semelhança do momento que se ousou recriar. Extraordinária, enfim, pela mensagem que faz passar para estes tempos estranhos que vivemos, tempos acomodados, de espera, enquanto os inimigos da democracia, como vampiros, nos vão chupando o sangue pela calada. Alerta, povo, alerta. Às armas, se preciso for. Não adiantarei mais, abrindo caminho à Comissão de Festas Populares do Teatro Experimental do Porto e da ASSéDIO - Companhia de Teatro para que vertam, nos próximos parágrafos, “Enquanto houver força”, espécie de “manifesto” que integra o Programa de Sala da peça e que expõe, na perfeição, os princípios e valores desta peça, repito, extraordinária. [Pergunto-me como é que estas “Grandes Comemorações” nem uma semana estiveram em cena].

“O fim do PREC a 25 de Novembro de 1975 (se arriscarmos fazer uma datação precisa de um movimento tão fluido e tão complexo) não foi propriamente uma surpresa. Até certo ponto, tendo em conta a bipolarização geopolítica que emergiu da Conferência de Ialta (1945), o fim do PREC era inevitável - e até - muito provavelmente - desejado por todas as forças políticas organizadas, na altura activas em Portugal. Então, o Ocidente e o Leste olharam para a revolução portuguesa como um possível laboratório para a experimentação política. Simplificando (muito), para a esquerda - mais próxima ideologicamente do Bloco de Leste - o 25 de Abril seria uma espécie de Maio de 1968 tardio; e para a direita - mais próxima do capitalismo ocidental, a revolução portuguesa seria a primeira das transições democráticas que viriam a desembocar na queda do Muro de Berlim. Esquerda e direita usavam a história como um campo de batalha para a reconquista de uma narrativa sobre a sua própria cronografia.
 
Todavia, este espectáculo não é sobre o 25 de Novembro de 1975 e a previsível inevitabilidade da morte do Processo Revolucionário em Curso. Este é, sobretudo, um espectáculo sobre o fantasismo utópico e alegre que animou muitas cabeças, corações e mãos em Portugal durante os cerca de dezoito meses do PREC. É um espectáculo sobre o país que arriscou “assaltar o céu”. Mas é, também, um espectáculo assombrado pelas muitas derrotas e pelas muitas figuras trágicas que pairaram, espectrais, sobre todos os acontecimentos, durante esse período. Daí a nossa melancolia (de esquerda).

Neste espectáculo, contraria-se a tese de que, em 1974, após o 25 de Abril, se descambou num caos desordenado e excessivo. Ao invés, descobre-se no “dia inicial inteiro e limpo” e no processo revolucionário que se lhe sucedeu a eclosão de uma força popular sem epicentros coordenadores (um “abalo telúrico”, na feliz expressão de Fernando Rosas). No discurso político, o PREC rapidamente se transforma em confusão e desordem e a sua liquidação em sinónimo da institucionalização da democracia. Por seu lado, o 25 de Novembro tornou-se sinónimo da correcção dos perigosos excessos de uma imberbe democracia. Contudo, é a dimensão descentrada, libertária, espontânea, vitalista, popular, socialista e luxemburguista do PREC que mais nos fascina, ainda! Assim, entendemos, aqui, o PREC como mais uma das muitas batalhas travadas pela esquerda, alimentada pelo desejo de utopia, mas que, todavia, acabou derrotada... e que, por isso, é assombrada por revoluções passadas e, inevitavelmente, assombrará as revoluções futuras. Sim, as revoluções futuras, porque isto ainda não acabou. Este espectáculo desconfia da narrativa dos brandos costumes e de como em Portugal se fez uma revolução (quase) sem sangue.

Este espectáculo desconfia da narrativa de que houve um bando de brutos analfabetos que não souberam o que fazer com a liberdade que os soldados do MFA lhes atiraram para o colo. Este espectáculo duvida, também, da narrativa de que os dias do PREC foram loucos, excessivos, desorientados, a reboque de um bando de perigosos esquerdistas que tiveram de ser postos na ordem. Este espectáculo duvida da narrativa de que os portugueses não estavam preparados para a democracia. Este é um espectáculo que celebra a passagem dos cinquenta anos sobre o PREC. Este é um espectáculo dedicado a todas e a todos os que ainda conseguem estar motivados. Sim, motivados, porque isto ainda não acabou.”

domingo, 29 de setembro de 2024

TEATRO: "Homens Hediondos"



TEATRO: “Homens Hediondos”,
de David Foster Wallace
Encenação, tradução, dramaturgia, vídeo, figurinos, cenografia | Patrícia Portela
Desenho de Luz | Cárin Geada
Desenho de Som | Miguel Abras
Interpretação | Nuno Cardoso
Produção | Teatro Nacional São João
105 Minutos | Maiores de 16 anos
Teatro Carlos Alberto
12 Set 2024 | qui | 19:00


Dois peixinhos nadam na companhia um do outro quando encontram um peixe mais velho que lhes pergunta: “- Que tal a água?”. Ao que os peixinhos respondem: “- Água? O que é a água?”. Mais do que uma parábola sobre aquilo em que vivemos mergulhados e do qual não nos damos conta, esta frase é um convite ao espectador a deixar-se tomar pela figura do outro como se dele próprio se tratasse. Reflectindo sobre as questões vulgares de um quotidiano vulgar, a peça mostra que homens hediondos podem ser pessoas banais, com quem nos relacionamos todos os dias, no trabalho, nos transportes, nos cafés, em casa, e não necessariamente criaturas feias, repugnantes, monstruosas. Que homens hediondos são “essa imensa maioria que perpetua os mesmos comportamentos e relações de poder, e cuja violência muitas vezes aceitamos em nome da estabilidade e do nosso estilo de vida”. É disto que nos fala a mais recente criação de Patrícia Portela, uma peça escrita a partir do livro de David Foster Wallace, “Breves Entrevistas com Homens Hediondos”. Nela, somos confrontados com a dúvida, a raiva e o desespero de alguém que se sente obrigado a tolerar um sistema que tão ativamente condena, que se sabe cada vez mais hediondo. Nela vemos que em nós habita uma parte desse alguém.

A encenação como a dramaturgia são dois aspectos fundamentais da peça, a merecerem nota máxima. O terceiro aspecto é a interpretação de Nuno Cardoso, num monólogo intenso e vivo, segurado com a raiva nos dentes e os nervos à flor da pele. Mas vamos por partes. Não é preciso conhecer o livro para se perceber que há aqui um grande trabalho em torno das personagens que o habitam. Concentrar numa figura única as ameaças de uma extrema solidão, as tensões que advêm da incomunicabilidade ou da incompreensão ou a ausência de lucidez num oceano de emoções contraditórias, e conseguir evitar que o monólogo caia na redundância ou na esquizofrenia, é quase um milagre, tantas são as armadilhas à espreita de um e do outro lado de uma corda necessariamente bamba. A descrição do que de mais bizarro pode haver nos mundos interiores, a representação que cada um faz de si próprio e a forma como supostamente é visto pelos outros, as palavras ditas que se repetem em contextos opostos, a interrogação sobre os sentimentos humanos em circunstâncias estranhas ou extremas e a enorme coerência de um todo fortemente incoerente, são marcas distintivas de um trabalho pensado ao pormenor, depurado e rigoroso, posto em cena como um dedo espetado onde mais nos dói.

Falo, enfim, de Nuno Cardoso e da sua capacidade de encarnar todas estas figuras sem cair no exagero ou no exercício fútil da stand up comedy. Evitando as ciladas do histrionismo, o “actor genérico” mostra-se sóbrio e seguro quando nos vem lembrar que há santos porque há, igualmente, demónios, e que uns e outros habitam em nós. Transmitir a urgência que sente em tocar o espectador, em partilhar com ele a vida, partilhar caminho, sem se meter na sua cabeça, é a força que o move. Maridos ausentes, pais ausentes, relações pessoais e profissionais tensas, violência familiar, abandono parental, depressão, reacções emocionais, redes de apoio e por aí fora, são temas atirados à cara do espectador como se de um jogo de acção-reacção se tratasse. Aqui, toda a banalidade pode transformar-se, de um momento para o outro, num caso muito sério. Afinal, como refere Nuno Cardoso, “assistir a uma peça de teatro é como levar o pensamento ao ginásio.” Ficamos com os rituais e as pulsões que suportam os jogos de sedução, com as diferenças e semelhanças entre o “porco básico” e o “grande amante”, com a pessoa de quem todos fogem, que se sente cada vez pior e a única coisa que faz é perguntar: “Gostam de mim? Gostam de mim? Gostem de mim!” Ficamos com um enorme momento de teatro.

[Foto: © Teatro Nacional São João | https://www.tnsj.pt/]

segunda-feira, 15 de abril de 2024

TEATRO: "O 25 de Abril Nunca Aconteceu"



TEATRO: “O 25 de Abril Nunca Aconteceu”
Texto e encenação | Ricardo Alves
Cenografia | Ricardo Alves, Sandra Neves
Figurinos | Inês Mariana Moitas
Interpretação | Beatriz Baptista, Eloy Monteiro, Ivo Bastos, Filomena Gigante, Mário Moutinho, Rodrigo Santos, Valdemar Santos
Produção | Teatro da Palmilha Dentada
90 Minutos | Maiores de 14 anos
Teatro Carlos Alberto
14 Abr 2024 | dom | 16:00


Como seria Portugal se Salgueiro Maia não tivesse parado no semáforo vermelho, tivesse chocado com um camião de entrega de pão e o 25 de Abril não tivesse acontecido? Nos 50 anos da Revolução dos Cravos, o Teatro Nacional São João convidou a Palmilha Dentada a aventurar-se numa ficção distópica. “O 25 de Abril Nunca Aconteceu” acompanha um dia na vida da família Freitas, numa estética devedora de filmes como “O Pai Tirano” e “O Pátio das Cantigas”. O mundo avançou, mas Portugal não. A PIDE continua ativa e cada vez mais ridícula. As crocs, tal como a coca-cola, são proibidas. O pai trabalha via Internet num esquema de extorsão de dinheiro a mulheres falantes de português espalhadas pelo mundo. A empresa, tal como as tipografias anteriores a 1974, é local de funcionamento de uma célula clandestina, que põe a circular informação sobre a ditadura portuguesa. É nela que se ensaia uma peça que reflecte sobre a ficção de ter havido, na verdade, um 25 de Abril e as pessoas viverem hoje melhor. O encenador é preso.

Não é preciso consultar nenhuma estatística para perceber que a percentagem daqueles que têm memória do “antes” e que viveram efectivamente o 25 de Abril é cada vez mais reduzida. Isso faz com que, inevitavelmente, haja o aspecto emocional que se perde, independentemente da passagem do testemunho vivido e dos registos dos livros de história. O lado imensamente afectivo do 25 de Abril é uma das suas marcas mais perenes e deve-se à intensa vivência que a dita “última revolução romântica do seculo XX” proporcionou àqueles que tiveram a felicidade de a viver. Saiu-se de um ambiente cinzento e taciturno para uma explosão de luz e de alegria, onde um regime decrépito se finou, com a multidão nas ruas a clamarem liberdade e os cravos a despontar dos canos das metralhadoras. Em algumas horas, passámos de um povo manso e obediente a um mar de gente onde em cada rosto se via uma esperança nascente. Mais do que os factos, a sensação de liberdade e a memória dessa embriaguez, dessa esperança desmedida, são o fundamental a celebrar em Abril.

Para o comemorar, a Palmilha Dentada escolheu fazê-lo desaparecer e, com isso, tornar mais vivo na nossa actualidade um “antes” de que alguns dizem ter saudades. O acto tem tanto de provocatório como de pedagógico. Nos trabalhos da Palmilha, o texto é pretexto e o humor é o contexto. O colectivo cultiva o seu público, não para lhe agradar, mas para o agarrar, para o trazer para as questões aparentemente simples que nos enformam como sociedade. Assim também é neste seu 25 de Abril falhado (a revolução, não a peça) - um retrato onde se efabula como se tudo hoje fosse (quase) como antes. Todos sabemos que a hipótese é absurda, que o regime estava moribundo, que se não fosse assim era assado e que se não fosse a 25 era a 26; mas a fábula é importante para a reflexão da realidade. O texto do Ricardo Alves é eficaz no nosso retrato: nós somos os Marcolinos, os Pôncios, os Rosendos e as Ofélias de hoje. Reconhecermo-nos neles é perceber de que forma teríamos conseguido chegar à liberdade se o Salgueiro Maia não tivesse parado no semáforo.

Mas temos de estar atentos, perceber que depende de nós que aquele que “ama o passado e que não vê que o novo sempre vem” não encontre espaço para a sua visão retrógrada e saudosista; estar preparados para agir, para novas formas de construir a democracia e preservar a liberdade. Os espectáculos da Palmilha habituaram-nos as cenas que se compõem à nossa frente e aos seus finais abruptos sem termos de esperar muito tudo acontece porque tem de acontecer e acaba porque tem de se acabar. Batemos palmas e seguimos com a nossa vida. Tratamos de regressar a casa em sossego, mesmo que com algo a bulir na nossa cabeça para além do riso e da boa disposição. Pensamos na peça e sentimos o dever de preservar e acarinhar as nossa liberdade e a nossa democracia. ASbandonar um pouco a afectividade sentimental pela data e abraçar a afectividade cerebral pelo seu significado. Substituir um bocadinho do coração por um pouco de pensamento construtivo. Efectivamente, o 25 de Abril nunca aconteceu. O 25 de Abril acontece todos os dias e tem de continuar a acontecer todos os dias. Depende de nós. E nós dependemos disso.


sábado, 16 de março de 2024

TEATRO: "A Farsa de Inês Pereira"

 

TEATRO: “A Farsa de Inês Pereira”
Texto e encenação | Pedro Penim, a partir de Gil Vicente
Cenografia e adereços | Joana Sousa
Figurinos | Béhen
Interpretação | Ana Tang, Bernardo de Lacerda, David Costa, Hugo Van Der Ding, João Abreu, Rita Blanco, Sandro Feliciano
Produção | Teatro Nacional D. Maria II
100 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Carlos Alberto
15 Mar 2024 | sex | 15:00


Há algo que interessa a Pedro Penim, no teatro e em tudo aquilo que se propõe fazer e que tem a ver com a ideia de nuance, ou seja, “complexificar as situações para humanizar as personagens, (…) permitindo‑lhes expor ideias difíceis de julgar, até do ponto de vista ético”. Quem o diz é o próprio, acrescentando: “Quando se fala da abolição da família ou do trabalho, há questões éticas e práticas que entram em linha de conta, e estas personagens são colocadas nesse sítio mais nebuloso em que a própria convicção oscila”. No caso concreto desta peça, aquilo que temos é uma Inês “muito ciente da falta de aplicabilidade do que propõe, mas [que] não deixa de jogar com esse facto e de torná‑lo muitas vezes uma questão lúdica, outras vezes destrutiva ou até auto-destrutiva”. Há aqui uma abertura que esta Inês encontra para o que chamaríamos um espaço de desaceleração, de falta de produtividade, com o propósito de contrariar as estruturas produtivas que nos empurram no sentido do auto-aperfeiçoamento, da melhoria da performance, da evolução rumo ao ganho.

Em linha com os seus mais recentes trabalhos – “Pais & Filhos” e “Casa Portuguesa” –, Pedro Penim volta a olhar as gerações abaixo da sua, “os millennials, a geração Z”, expondo aquilo que designa por “abismos intergeracionais”. Partindo do sofrimento histórico perante as estruturas hegemónicas e de como existem franjas importantes da população que foram martirizadas por esse poder principal, o encenador mantém a sua Inês Pereira nesse lugar de revolta que já está na peça do Gil Vicente, mas reserva-lhe um espaço mais íntimo, um espaço de liberdade onde possa sonhar com outras realidades e outros futuros: o seu quarto, a sua cama. Esse gesto, de acordo com Pedro Penim, “põe a Inês numa posição activista, mas um activismo que subverte a ideia imediata do que é ser activista. Ela encontra um caminho para concretizar essa revolta e foi surpreendente usá‑lo como tema principal: a passividade enquanto formato possível de luta.”

A personagem interpretada pela Rita Blanco recebe o mesmo tratamento que a Inês. Há uma tentativa de colocá‑la também num sítio de revolta – contra as instituições –, mas na perspetiva do trabalho, de sair para a rua, uma forma mais clássica de luta e activismo. Estas novas dimensões humanizam as personagens, o que faz com que a peça se situe em 1523, mas tenha os pés bem assentes no presente e um discurso claramente contemporâneo. As questões mercantilistas do século XVI estão distantes daquilo que vivemos hoje, mas, até como questão estética e poética, resulta muito bem o anacronismo de a peça se passar no século XVI e ser claramente vicentina, criando uma reação ora de distanciamento, ora de aproximação à personagem de Inês, “porque ela admite que não é no seu tempo de vida que poderá experienciar o mundo que idealiza, transportando essa ideia para 500 anos depois”. A Inês entra no campo da ficção científica, mas devolve‑nos a responsabilidade de sabermos que permanecemos num tempo e num lugar onde as relações com as estruturas de poder continuam a ser tensas e conflituosas.


segunda-feira, 20 de junho de 2022

TEATRO: "A Mina"



TEATRO: “A Mina”
Direcção artística | André Amálio e Tereza Havlíčková
Criação, dramaturgia, interpretação | André Amálio
Co-criação, movimento | Tereza Havlíčková
Criação musical e interpretação | Edison Otero
Interpretação e co-criação | Florinda Santos Sousa, Maria dos Santos Vicente, Maria Gama, José Sousa, José Gaspar Ferreira, Serafim Ramos, Daniel Vieira, Patrícia Lima, Vilma Lima, Carla Pontes Monteiro, Eduarda Bento, Rafael Magalhães, Bruna Rocha, Mário Sá, Marta Salazar
Direção do coro | Guilhermino Monteiro
Coro Vox Populi (e convidados) da Escola secundária de S. Pedro da Cova | Abel Alves, Alberto Lopes, Ana Ulisses, Carla Pontes Monteiro, Inês Salselas, João Mesquita, Luís Diego, Olga Martins, Manuela Santos, Rui Mendes, Teresa Queirós
Cenografia | Aurora dos Campos
Vídeo | Marta Salazar
Produção | Companhia de Teatro Hotel Europa
Duração 100 Minutos | Maiores de 12 anos
Teatro Carlos Alberto
16 Jun 2022 | qui | 19:00


Embora tivessem passado já três anos, as peças “Amores Pós-Coloniais” e “Passa-Porte” continuam bem vivas na minha memória. A uni-las está o “carimbo” Hotel Europa, a companhia de André Amálio e Tereza Havlíčková que, desde 2015, vem afirmando a sua voz na nossa cena teatral ao estabelecer pontes entre o passado e o presente mediante a abordagem de questões ligadas ao colonialismo, às migrações, ao ambiente ou à gentrificação, entre outras. Assim, foram certos e seguros os passos que me levaram ao Carlos Alberto para uma hora e meia de teatro documental com muito para revelar, a verdade das palavras carregada de emoção na voz dos protagonistas de uma história que nos faz recuar no tempo e olhar para aquilo que foi o complexo mineiro de S. Pedro da Cova ao longo de quase dois séculos. E se a nossa atenção permanece centrada nas minas, tal não tem já a ver com o passado mineiro e a actividade de extração de carvão que foi o principal sustento de famílias inteiras, antes com a deposição, em 2001, de toneladas de resíduos tóxicos da Siderurgia Nacional, ainda hoje não totalmente removidos.

Foi com a comunidade de S. Pedro da Cova que André Amálio e Tereza Havlíčková trabalharam “A Mina”, testemunho vivo sobre o passado mineiro e os atuais problemas ambientais que se colocam àquelas populações. Tudo começara em 2018 com uma reportagem da Antena 1, “Vizinhos Perigosos”, assinada pela jornalista Cláudia Aguiar Rodrigues. O que André Amálio escutou deixou-o indignado. Dessa indignação nasceu a necessidade de reforçar os canais de denúncia de um tão grave atentado ambiental e da incúria e desleixo do Estado Português na resolução do problema. Em S. Pedro da Cova foi recebido pelo “cavalete” que, com a sua imponência, lhe lembrou que deste local, nos anos 30 e 40, saía 65% da produção nacional de carvão. Pareceu-lhe ver a “jaula”, sempre a subir e a descer, levando para o fundo da mina homens e trazendo o minério. Também as britadeiras, de joelhos no terreiro, partindo pedra incessantemente o dia inteiro. Ou os filhos dos mineiros a lavarem as costas de quem, do fundo da mina, regressava a casa exausto e coberto de negro. Ou ainda o eléctrico que, do coração do Porto, transportava os operários para o complexo mineiro. A ideia de construir a peça mediante a reprodução do que viu e ouviu estava a desenhar-se na sua cabeça. Daí a levá-la ao palco do Carlos Alberto foi um pequeno passo.

Mas não levou apenas as “cenas” tal como as viveu e sentiu. Levou também os protagonistas, homens e mulheres de S. Pedro da Cova, mineiros, enchedores, britadeiras, os seus filhos, os seus netos: José Sousa, 83 anos, enchedor, engatador, carteiro; Daniel Vieira, 36 anos, neto de mineiro e britadeira; Serafim de Oliveira Ramos, 71 anos, mineiro, filho de mineiro; Patrícia Lima, 32 anos, neta de mineiro e britadeira; Vilma Lima, 25 anos, neta de mineiro e britadeira, irmã de Patrícia; Florinda Santos Sousa, 79 anos, filha de mineiro, irmãos mineiros e marido mineiro. Como estes, outros trabalhadores da mina, com os seus gasómetros, as suas picas e martelos, pás e marcas, capacetes, óculos de protecção, tabaqueiras, vagonas, zorras, cavalos, a imagem de Santa Bárbara. Com os seus riscos, as suas mortes por acidentes de trabalho, as suas doenças profissionais, a falta de direitos, a desigualdade e a violência sobre si. Com as suas histórias de quem vai levar o café ao pai e traz um carrego de carvão de primeira desviado “à socapa”; de quem lembra os avós, ela “alta, cabelos compridos, pele e olhos claros, sardas”, ele um maltês, um “Zé Pequeno cheio de lábia”; de quem foi obrigado a mutilar-se para ter direito a uma baixa médica; ou, de quem teve de passar pelas mãos de um tal Dr. Porfírio de má memória, com tanto de malvadez e com tão pouco de humanidade.

Com esta argamassa se ergueu o edifício que a peça de teatro é. Um edifício emocional, onde o choro e o riso andam de mãos dadas com os cânticos ou com os gritos. Em palco, quinze não-actores dão corpo às suas próprias personagens, emprestando-lhes também a sua alma. A voz dos mais novos espelha o que de mais forte permanece na memória dos mais velhos, desse tempo outro em que a mina era um imenso formigueiro. Sentimos o quanto esses tempos penetraram no seu sangue e nos seus ossos: “Era um trabalho duro, mas era o nosso trabalho”, lembra a propósito Maria Vicente. André Amálio e Tereza Havlíčková mostram-se exímios na forma como conduzem a acção, como pegam nas peças e as encaixam no seu devido lugar, abrindo espaço a narrativas intensas em torno dos fenómenos sociais, económicos, éticos, morais e políticos que envolvem o drama. Entretanto chegamos a Março de 1970 e a mina fecha. O Estado Novo quis passar um risco sobre o assunto mas o 25 de Abril veio impor com força a vontade do povo. Ocupam-se os escritórios da minas, surge o Centro Revolucionário Mineiro, S. Pedro da Cova vive um Verão particularmente quente. Hoje, de décadas de exploração industrial, sobram ainda algumas toneladas de resíduos perigosos. Quando veremos um clarão abrir-se sobre as populações de S. Pedro da Cova pondo fim ao seu pesadelo? Quando escutaremos, no fim desta história, “e viveram felizes para sempre”?

[Foto: Teatro Nacional de São João | https://www.tnsj.pt/]

sexta-feira, 4 de março de 2022

TEATRO: "Monólogo de Uma Mulher Chamada Maria Com a Sua Patroa"



TEATRO: “Monólogo de Uma Mulher Chamada Maria Com a Sua Patroa”
Criação, texto e interpretação | Sara Barros Leitão
Assistência à criação | Susana Madeira
Cenografia e figurino | Nuno Carinhas
Produção | Cassandra
100 Minutos | Maiores de 12 Anos
Teatro Carlos Alberto
02 Mar 2022 | qua | 19:00


“Lavar cortinas. Aspirar atrás dos móveis. Lavar janelas. Limpar. Lavar. Atender telefones. Dar recados. Desenhar refeições equilibradas. Fazer uma bainha. Coser umas meias. Gerir conflitos. Manter a alegria. Tomar conta das crianças. Ajudar nos deveres. Tomar conta dos idosos. Dar banho às crianças. Aos idosos. Ao cão. Passear o cão. Já que vai lá fora leva o lixo. Já que leva o lixo desentope a fossa. Já que desentope a fossa arranja o autoclismo. A-E-I-O-U”.

A história que escutamos não é um policial ou um romance de cordel. Talvez já a conhecêssemos, talvez dela fossemos cúmplices, talvez fossemos protagonistas. Talvez nunca tivéssemos pensado sobre ela ou talvez preferíssemos fechar os olhos. Não é uma história de vilões, embora haja maldade. Também não é uma história de ladrões, embora se fale de roubos. Muito menos é um conto de fadas, ainda que envolva bruxas. Esta é uma história sobre as mulheres “que são como se fossem da família”, uma história que começa a ser contada desde tempos imemoriais e que perdura até aos nossos dias. Escrita e interpretada por Sara Barros Leitão, esta é uma história que nos surpreende pelo que descobrimos em nós e naquilo que se passa à nossa volta. Uma história sob a forma de monólogo. De uma mulher chamada Maria com a sua patroa.

Estreada no CCB há pouco menos de quatro meses, “Monólogo de Uma Mulher Chamada Maria Com a Sua Patroa” chega agora ao Porto, depois de ter passado por várias cidades do país. Baseando-se numa série de entrevistas a trabalhadoras domésticas, historiadoras, sociólogos e sociólogas, dirigentes sindicais e juristas, e na análise de material diverso, dos arquivos do Sindicato do Serviço Doméstico a um conjunto de livros, filmes, teses e artigos, a criadora e intérprete vem resgatar o teatro como modelo de intervenção social e política, carregando-o de verdade com uma fortíssima presença em palco e com o peso das suas palavras, afiadas, cortantes, demolidoras. Ao longo de pouco mais de hora e meia, Sara Barros Leitão assume um conjunto de papéis que têm no “ser mulher” o denominador comum, expondo, reclamando, denunciando e exigindo, em nome da igualdade, do respeito e da justiça. Porque não basta sonhar, é preciso passar à acção.

Com o coração pequenino, vamos escutando as histórias de milhares e milhares de mulheres escravizadas, desrespeitadas e humilhadas, cuja história colectiva continua por contar. “Corte, corte, corte, frieira, queimadura, corte”. As mazelas acumulam-se no corpo, mas também na alma. Insiste-se que “connosco é diferente”, que “elas são como se fossem da família”, rejeitando-se a relação de trabalho e convocando-se a “linguagem dos afectos”, porque ninguém quer assumir que é patrão e que a sua casa constitui um posto de trabalho. Hoje, Portugal é dos países da Europa que mais contrata empregadas domésticas. Um país onde é permitido por lei que estas mulheres trabalhem 44 horas semanais, sem falar no serviço interno. Da mesma forma que é permitido que recebam menos que o salário mínimo, pois a lei prevê que parte do salário possa ser pago em géneros. Vibrante e livre, assim é Sara Barros Leitão e o “monólogo” que tão bem soube escrever e interpretar. Para que a história não fique por contar e a voz das que não têm voz possa ser ouvida.

[Foto: TNSJ | https://www.tnsj.pt/]