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terça-feira, 15 de setembro de 2026

TEATRO: “Maiúscula” | Jacinto Lucas Pires



TEATRO: “Maiúscula”,
de Jacinto Lucas Pires
Encenação | Marcos Barbosa
Cenografia e figurinos | Simon Donger
Desenho de luz | Filipe Pinheiro
Desenho de som | Joel Azevedo
Interpretação | Luísa Cruz
Produção | Teatro Nacional São João
75 Minutos | Maiores de 12 Anos
Teatro Carlos Alberto
13 Set 2026 | dom | 16:00


Há uma frase inaugural que contém, muito subtilmente, todo o programa de “Maiúscula”: “Caíram as cuecas da corda”. Do prosaico e doméstico, o dramaturgo Jacinto Lucas Pires faz nascer uma vertigem sobre o tempo, a memória e aquilo que resta quando as grandes personagens se retiram e a casa se torna demasiado grande para quem nela ficou. Benedetta Croce - nome que é, divertidamente, uma transparência e uma homenagem a Luísa Cruz - recebe a hipótese de interpretar Medeia num filme de grande orçamento e, a partir desse telefonema, vê abrir-se diante de si um território simultaneamente real, imaginado e recordado. Marcos Barbosa encena este solo como quem sabe que o teatro é também uma arte de assombrações. Há os fantasmas das personagens, dos amores perdidos, do marido, do filho e das ausências quotidianas; mas há sobretudo os fantasmas de todos os papéis e de todos os palcos que uma actriz transporta consigo. “Maiúscula” torna-se, assim, um laboratório do ser, onde uma mulher se observa ao espelho e pergunta, com uma violência discreta, como se continua a ser quem se foi.

É aqui que Luísa Cruz realiza aquilo que o texto parece pedir-lhe desde a primeira linha: não representar apenas Benedetta, mas deixar que Benedetta atravesse, sem nunca se confundir com ela, a memória da actriz. A extraordinária inteligência da sua presença dá espessura a esta mulher dividida entre a altivez e a fragilidade, a crueldade e a autoderrisão, a vaidade e o medo. Cada palavra parece ser experimentada antes de ser dita; algumas são saboreadas, outras recusadas como se nelas estivesse escondida uma ameaça. “Frágil” e “odor” pertencem ao vocabulário que o envelhecimento impõe e que Benedetta combate; “irrepetível”, “insubstituível” ou “indestrutível” são, pelo contrário, pequenas barricadas contra a evidência do declínio. Luísa Cruz percorre estas oscilações com uma disciplina que nunca se torna fria e com um humor que impede o espectáculo de se fechar na solenidade. O que poderia ser apenas o retrato de uma actriz envelhecida converte-se, graças à sua interpretação, numa reflexão muito mais ampla sobre a humilhação de sentir-se descartável e sobre a teimosia, quase heróica, de continuar a desejar.

Medeia, o M maiúsculo, paira sobre este combate. A heroína de Eurípides, convocada através da recriação de Sophia de Mello Breyner Andresen, não surge apenas como o papel capaz de ressuscitar uma carreira: é a medida impossível de uma vida vivida em maiúsculas. Benedetta deseja a personagem, mas deseja igualmente a fúria, a grandeza e a centralidade que Medeia promete; contra a solidão contemporânea, sonha ainda com um papel que devolva sentido à sua própria narrativa. E, no entanto, é precisamente nessa desproporção entre a dimensão do mito e a pequenez dos gestos quotidianos que “Maiúscula” se mostra mais intensa e comovente. Não há coro que ampare esta mulher, apenas uma casa, uma voz e os ecos que ela própria convoca para não sucumbir ao silêncio. A encenação de Marcos Barbosa escuta com rigor as elipses e os fantasmas da escrita de Jacinto Lucas Pires, mas é Luísa Cruz quem lhes dá corpo e respiração. No fim, fica a pergunta essencial: será possível continuar a ser uma Mulher Maiúscula quando o mundo insiste em reduzir-nos à minúscula? “Maiúscula” não responde, revelando nessa recusa, simultaneamente dolorosa e luminosa, toda a sua grandeza.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

TEATRO: “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” | Victor Hugo Pontes



TEATRO: “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem”
A partir da obra de Manuel António Pina
Direcção | Victor Hugo Pontes
Dramaturgia | Jacinto Lucas Pires, Victor Hugo Pontes
Música | A garota não
Cenografia | Fernando Ribeiro
Figurinos | Luís Carvalho
Interpretação | Ana Afonso Lourenço, Catarina Carvalho Gomes, Daniel Teixeira Pinto, Jorge Mota, Joana Carvalho, José Santos, Marco Olival, Patrícia Queirós, Pedro Frias, Siobhan Fernandes
Produção | Teatro Nacional São João
80 Minutos | Maiores de 6 Anos
Teatro Nacional de São João
29 Mar 2026 | dom | 16:00


Começaria por dizer que “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” é uma preciosidade, uma peça de visão obrigatória. Nascida de um encontro particularmente feliz entre a matéria viva e fecunda de Manuel António Pina e o exercício de dramaturgia finamente “costurado” por Jacinto Lucas Pires e Victor Hugo Pontes, respeita a fragmentação e a deriva próprias do universo literário do jornalista e escritor, apostando na criatividade como matriz e na dispersão como método. Estruturada num tecido coerente de tensões, ecos e ressonâncias, ela traz-nos os gatos de Manuel António Pina, obviamente, mas também a ingenuidade aparente, a curiosidade e o questionamento constante próprios da infância, os trocadilhos e ambiguidades que fazem da linguagem um jogo, o inesperado (e poético) que brota do meio do banal, e sempre - mas sempre! - um humor fino, por vezes quase imperceptível, capaz de desmontar todas as certezas. Longe de ser apenas técnica, a construção dramatúrgica torna-se o próprio lugar de pensamento de um espectáculo onde cada fragmento encontra o seu peso específico numa arquitectura fluida e em constante recomposição.

É igualmente notável a forma como a essência de coreógrafo de Victor Hugo Pontes atravessa todo o espectáculo, conferindo-lhe uma identidade singular onde palavra, música e corpo se entrelaçam de modo indissociável. A dança não surge como ornamento, mas como pensamento em movimento, um contraponto expressivo que dá corpo às zonas de indeterminação do texto. A excelência da composição musical, assinada por A garota não, vem intensificar o valor e alcance da peça, funcionando não como mero suporte, mas como um plano sensível autónomo que respira com a cena, abrindo fendas emocionais e ampliando o alcance do que é dito, mas sobretudo do que permanece por dizer. E há, também (ou sobretudo) um conjunto de actores em estado de graça, capazes de habitar o espaço com uma precisão física e sensorial que transforma cada gesto, cada pausa e cada deslocação em matéria significativa. O movimento, a pose, a mímica e as qualidades vocais são mostrados com uma delicadeza rara, acentuando a unidade impressionante do colectivo, a escuta comum que sustenta o risco e a instabilidade da proposta, permitindo que o espectáculo se mantenha vivo, permeável e em constante transformação diante do espectador.

No centro de tudo, permanece a extraordinária obra de Manuel António Pina, cuja força se impõe não apenas como ponto de partida, mas como urgência renovada. A peça não se limita a divulgar o autor: convoca-o, interroga-o e, sobretudo, reabre a necessidade da sua descoberta - ou redescoberta - num tempo que tantas vezes esquece a complexidade da linguagem e a força do pensamento poético. Atravessada por um tom nostálgico e introspectivo, a peça mergulha directamente na singularidade do universo do escritor, uma zona de permanente desajuste, habitada por sábios que recusam certezas e se mostram inteiros na sua clareza e fragilidade. Ao expor a dúvida como método e a imperfeição como motor, “Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem” devolve-nos à essência inquieta da escrita de Manuel António Pina, fazendo dela uma experiência partilhada, sensível e profundamente contemporânea. O resultado é uma criação que recusa a estabilidade e a clausura, afirmando-se como travessia e como gesto de resistência. Um convite a desacelerar, a escutar de novo e a reencontrar, no intervalo entre palavras e corpos, esse lugar inaugural onde o sentido ainda se constrói de pernas para o ar. Sempre em aberto, sempre em risco.

[Foto: Teatro Nacional São João | https://www.facebook.com/TeatroNacionalSaoJoao]

sexta-feira, 15 de junho de 2018

LIVRO: "A Gargalhada de Augusto Reis"



LIVRO: “A Gargalhada de Augusto Reis”,
de Jacinto Lucas Pires
Ed. Porto Editora, Maio de 2018


“Belo título”! Quase consigo imaginar Jacinto Lucas Pires a rir às gargalhadas com esta tirada de mestre, a última de muitas gargalhadas dispersas ao longo das páginas do livro, na altura em que acabava de escrever as derradeiras palavras. “A Gargalhada de Augusto Reis” é, na verdade, um delicioso divertimento, uma longa rêverie ou, se preferirmos, uma imensa gargalhada em torno de pequenos nadas, equívocos e contradições da vida de todos os dias, com o autor a mostrar-se exímio na forma como dá sentido a uma história que se reparte entre um tempo hoje e um outro, distante 44 anos, o 25 de Abril de 1974 a servir de marco natural daquilo a que poderemos chamar acção. Sem uma linha precisa, a narrativa voga ao sabor dos caprichos do escritor, genial na forma como retorce as suas personagens e as molda ao fio e à medida da(s) história(s), assim conduzindo o leitor nos trilhos deste quase devaneio literário, onde se torna evidente, em todo o seu esplendor, a arte de manipular.

É realmente fascinante perceber como Lucas Pires começa por cativar o leitor com três histórias ao encontro de três personagens aparentemente desfasadas entre si, nas quais se misturam revolução e Estado Novo, pobreza e opressão, sexo e cinema. E depois vemos que nada disto é matéria do livro (ou talvez seja tudo isto ao mesmo tempo). Cada passagem é como uma suculenta e fumegante torrada com manteiga que o autor, por mão própria, nos aproxima da boca, para a retirar no momento preciso em que, salivantes, nos preparamos para lhe desferir uma vigorosa dentada. Se quiséssemos uma prova provada da verdade deste facto, teríamos a própria poesia. Este é um livro que respira poesia, se alimenta dela, a enumera e reverencia ao virar de cada página… mas onde não encontramos um só poema, uma parcela que seja. Quando muito, um título!

Neste livro vem ao de cima a forte ligação do escritor com o cinema e as artes do palco, exímio em criar imagens a partir das situações mais banais. Uma página escrita, adormecida no alto dum monte de lixo, assemelha-se à pele de alguns peixes, o travo dum certo uísque escocês pode conter uma casa inteira a arder e Li Bai, Mallarmé e Manuel Bandeira cabem por inteiro num covilhete duma certa pastelaria em Vila Real. Penso não dever revelar mais do que já revelei, convidando aqueles que quiserem aprofundar o assunto a lerem a sinopse (não será difícil encontrá-la na net, afinal a crítica quase se reduz a sinopses hoje em dia). Aquilo que posso asseverar é que “A Gargalhada de Augusto Reis” tem de ser lido e saboreado em estado virgem. Um livro que é, todo ele, um “poema em cima da hora”, de tal forma a vida roda célere e os pequenos nadas de que é feita tornam as pessoas mais próximas e mais iguais, nas ambições ou na dúvida, nas emoções ou na poesia, na forma como manipulam ou se deixam manipular. E depois, na vida, como na escrita, haverá toda uma arte que fará a diferença!