TEATRO: “Maiúscula”,
de Jacinto Lucas Pires
Encenação | Marcos Barbosa
Cenografia e figurinos | Simon Donger
Desenho de luz | Filipe Pinheiro
Desenho de som | Joel Azevedo
Interpretação | Luísa Cruz
Produção | Teatro Nacional São João
75 Minutos | Maiores de 12 Anos
Teatro Carlos Alberto
13 Set 2026 | dom | 16:00
Há uma frase inaugural que contém, muito subtilmente, todo o programa de “Maiúscula”: “Caíram as cuecas da corda”. Do prosaico e doméstico, o dramaturgo Jacinto Lucas Pires faz nascer uma vertigem sobre o tempo, a memória e aquilo que resta quando as grandes personagens se retiram e a casa se torna demasiado grande para quem nela ficou. Benedetta Croce - nome que é, divertidamente, uma transparência e uma homenagem a Luísa Cruz - recebe a hipótese de interpretar Medeia num filme de grande orçamento e, a partir desse telefonema, vê abrir-se diante de si um território simultaneamente real, imaginado e recordado. Marcos Barbosa encena este solo como quem sabe que o teatro é também uma arte de assombrações. Há os fantasmas das personagens, dos amores perdidos, do marido, do filho e das ausências quotidianas; mas há sobretudo os fantasmas de todos os papéis e de todos os palcos que uma actriz transporta consigo. “Maiúscula” torna-se, assim, um laboratório do ser, onde uma mulher se observa ao espelho e pergunta, com uma violência discreta, como se continua a ser quem se foi.
É aqui que Luísa Cruz realiza aquilo que o texto parece pedir-lhe desde a primeira linha: não representar apenas Benedetta, mas deixar que Benedetta atravesse, sem nunca se confundir com ela, a memória da actriz. A extraordinária inteligência da sua presença dá espessura a esta mulher dividida entre a altivez e a fragilidade, a crueldade e a autoderrisão, a vaidade e o medo. Cada palavra parece ser experimentada antes de ser dita; algumas são saboreadas, outras recusadas como se nelas estivesse escondida uma ameaça. “Frágil” e “odor” pertencem ao vocabulário que o envelhecimento impõe e que Benedetta combate; “irrepetível”, “insubstituível” ou “indestrutível” são, pelo contrário, pequenas barricadas contra a evidência do declínio. Luísa Cruz percorre estas oscilações com uma disciplina que nunca se torna fria e com um humor que impede o espectáculo de se fechar na solenidade. O que poderia ser apenas o retrato de uma actriz envelhecida converte-se, graças à sua interpretação, numa reflexão muito mais ampla sobre a humilhação de sentir-se descartável e sobre a teimosia, quase heróica, de continuar a desejar.
Medeia, o M maiúsculo, paira sobre este combate. A heroína de Eurípides, convocada através da recriação de Sophia de Mello Breyner Andresen, não surge apenas como o papel capaz de ressuscitar uma carreira: é a medida impossível de uma vida vivida em maiúsculas. Benedetta deseja a personagem, mas deseja igualmente a fúria, a grandeza e a centralidade que Medeia promete; contra a solidão contemporânea, sonha ainda com um papel que devolva sentido à sua própria narrativa. E, no entanto, é precisamente nessa desproporção entre a dimensão do mito e a pequenez dos gestos quotidianos que “Maiúscula” se mostra mais intensa e comovente. Não há coro que ampare esta mulher, apenas uma casa, uma voz e os ecos que ela própria convoca para não sucumbir ao silêncio. A encenação de Marcos Barbosa escuta com rigor as elipses e os fantasmas da escrita de Jacinto Lucas Pires, mas é Luísa Cruz quem lhes dá corpo e respiração. No fim, fica a pergunta essencial: será possível continuar a ser uma Mulher Maiúscula quando o mundo insiste em reduzir-nos à minúscula? “Maiúscula” não responde, revelando nessa recusa, simultaneamente dolorosa e luminosa, toda a sua grandeza.
Sem comentários:
Enviar um comentário