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quinta-feira, 19 de março de 2026

LIVRO: “Educação da Tristeza” | Valter Hugo Mãe



LIVRO: “Educação da Tristeza”,
de Valter Hugo Mãe
Ed. Porto Editora, Maio de 2025 (reimpresso em Setembro de 2025)


“Tenho saudades do meu pai, mesmo que ele não fosse de conversas. Porque tenho saudades de estarmos todos vivos e juntos e de isto ser a começar e não haver garantia nenhuma, mas também não haver fim. Eu não ia ser nada de nada. Ia trabalhar nas obras a carregar baldes de areia. Pensei nisso mil vezes e quase me afeiçoei à ideia. Julguei que casaria com uma moça que me berraria noite e dia, faríamos os almoços de domingo na casa da sua mãe, escutaria como se haveria de queixar de minha lentidão e alma poética, eu ia viciar-me em cerveja, acabaria por cair da obra, despencando de um quinto andar a ver ao longe o mar, talvez os prédios altos da Póvoa onde a minha alma secaria como roupa num varal para a eternidade. Pouco importa. O tamanho da vida está todo dentro do amor. Se amarmos, somos extensos, infinitos. Se não amarmos, recolhemos como bocadinhos de poeira sem sentido, sem valor.”

Qualquer nova publicação de Valter Hugo Mãe é sempre recebida como um acontecimento literário, mas “Educação da Tristeza” é isso e mais ainda. Trata-se do seu primeiro livro assumidamente de não-ficção e nasce de um duplo golpe pessoal: a morte de um sobrinho adolescente e a perda de uma amiga muito próxima. A partir desse lugar de fractura, o autor desloca-se para um território particularmente íntimo, erguendo um conjunto de textos que oscilam entre o diário, o ensaio e a meditação poética. Não há aqui intriga nem personagens inventadas, apenas e só um homem que tenta compreender o significado de continuar vivo depois da ausência. O título anuncia a matéria do livro e cumpre-a: não se trata de eliminar a tristeza, mas de a aprender, de a domesticar com delicadeza, como quem aceita que o sofrimento é parte integrante da experiência humana. Nesse processo, Valter Hugo Mãe reafirma uma das marcas distintivas da sua escrita, essa qualidade única de extrair beleza dos territórios mais sombrios. Em “Educação da Tristeza”, cada frase parece construída como se fosse um verso, mantendo aquela musicalidade singular que transformou o autor numa das vozes mais reconhecíveis da literatura portuguesa contemporânea.

Se a matéria é autobiográfica, a experiência proposta ao leitor é, paradoxalmente, universal. Ao narrar a sua própria dor, Valter Hugo Mãe convoca também as nossas perdas, aquelas que cada leitor transporta silenciosamente. O luto surge aqui em toda a sua complexidade: tristeza, sim, mas também raiva, culpa, incredulidade, perplexidade perante o modo abrupto como a vida se reorganiza depois da morte de alguém. Há momentos em que o autor escreve como quem conversa com os ausentes, imaginando a morte não como um desaparecimento absoluto, mas como um lugar para onde ainda será possível caminhar. Noutros, insiste na ideia de que quem parte não se dissolve no nada; permanece como excesso de memória, como presença que cresce no interior de quem ficou. A prosa de Valter Hugo Mãe move-se assim entre a contemplação e a esperança, entre o reconhecimento da brevidade da vida e a convicção de que o amor prolonga as pessoas para além da sua existência física. A tristeza, nesse sentido, não é uma derrota, antes uma forma de fidelidade.

O livro confirma, enfim, aquilo que muitos leitores já reconheceram na obra do autor: a rara habilidade de transformar o sofrimento em matéria luminosa. Mesmo quando fala da morte, Valter Hugo Mãe não abdica de um certo espanto diante do milagre quotidiano de estar vivo. Há passagens de grande ternura e até inesperados lampejos de humor, lembrando que a memória, tal como a própria vida, é inevitavelmente contraditória. A edição, cuidada ao pormenor, reforça essa dimensão sensível: as ilustrações do próprio autor e o jogo cromático entre o vermelho e o azul conferem ao livro um aspecto quase objectual, como se de um relicário de afectos se tratasse. No fim, “Educação da Tristeza” não pretende oferecer respostas definitivas para o enigma da perda. Propõe antes um gesto de aprendizagem: aceitar que a tristeza, quando educada pelo amor e pela memória, pode tornar-se uma forma de resistência. E talvez, supremo paradoxo, uma forma de alegria.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

LIVRO: "O Filho de Mil Homens" | Valter Hugo Mãe



LIVRO: “O Filho de Mil Homens”,
de Valter Hugo Mãe
Ed. Porto Editora, Setembro de 2011 (14.ª edição, Abril de 2018)


“Ele sentia como se procurasse uma criança que lhe pertencesse, e como se a tivesse perdido algures num passeio por distracção e faltasse apenas reencontrá-la. Era como se essa criança o pudesse quase prever, ansioso na busca, ansiosos no amor. Sentia-se mal com a demora, porque o seu filho poderia estar com fome, poderia estar com medo ou cansado, a precisar de ajuda para o rio ou para o escuro da noite. O Crisóstomo pensava que o seu filho também só poderia ser inteiro quando estivessem juntos os dois. Perguntava-se que pai seria, assim a perder-se de uma criança tanto tempo. Que pai seria se chegasse tarde de mais. Cada segundo a menos no tempo de um filho era para um pai uma trágica perda, e nada haveria de o compensar.”

Romance de Valter Hugo Mãe publicado em 2011, “O Filho de Mil Homens” nasce de uma falta. Crisóstomo, pescador de quarenta anos, vive como quem perdeu metade de si e procura intuir, no rumor do mar, a explicação para um vazio que o perpassa como vento através de uma casa sem portas nem janelas. O homem sabe que é da queda que nasce a busca e a aparição de Camilo, menino órfão do avô, responderá às suas preces. Luminosa e ferida, a escrita do autor acompanha Crisóstomo, esse homem que decidiu afrontar o ridículo e declarar ao mundo que buscava um filho, não para o salvar, mas para se completar através do gesto de proteger, transmitir, perpetuar. À medida que o romance avança, porém, a tessitura poética transforma o que poderia ser miséria num campo fértil onde germina a esperança mais improvável. Metáfora da solidão contemporânea, a história mais não é do que a constatação de que a vida, acumulada sem partilha, é apenas peso. Crisóstomo passa de personagem a fábula, de homem partido a início de comunidade, caminhando entre o sonho e a realidade como figura bíblica que carrega sobre os ombros a urgência de inventar um destino novo.

Regressemos à história de Camilo e Crisóstomo, ao filho tão desejado e ao pai enfim inteiro. Os dois reconhecem-se como se o acaso tivesse resolvido um teorema antigo. A partir daqui, o romance torna-se num laboratório de afectos: a família deixa de ser fatalidade biológica para se tornar construção artesanal, dilatada por camadas sucessivas de escolha e risco. A mulher que amará ambos não tardará em chegar, uma mulher cansada do amor possível, mas disponível para o amor verdadeiro, esse que aceita a fatalidade da dor como parte do ofício quotidiano. Valter Hugo Mãe abandona aqui qualquer tentação de doçura ingénua. Mesmo se terna, a sua escrita nunca cede ao fácil: o amor exige trabalho e persistência, remodelação constante, a coragem de enfrentar o que fere. O autor dá-nos personagens marcadas por cicatrizes que não pedem piedade, mas tempo para respirar. São seres que transportam fragilidades e grandezas em igual medida, e é essa densidade humana, tão concreta e tão lírica, que impede o romance de deslizar para a fábula moralista. Em vez disso, compõe uma cartografia da coragem íntima, onde cada gesto de cuidado expande a família como círculos sobre a água.

No seu todo, “O Filho de Mil Homens” funciona como uma celebração indócil da possibilidade de reconfigurar o mundo pela ternura. Há no livro algo de epopeia doméstica, de fábula luminosa erguida sobre ruínas. Um texto assombroso, capaz de unir o orgânico ao fantástico, o quotidiano ao onírico. Precisa, rendilhada, visceral, a linguagem conduz o leitor com a delicadeza de quem segura uma vida frágil na palma da mão. Estamos aqui perante um romance que aborda a filiação não como destino, mas como acto de liberdade. A paternidade não como herança, mas como ofício. O amor não como epifania, mas como decisão. O milagre literário de Valter Hugo Mãe está na forma como transforma essas ideias em matéria palpável, quase pictórica, como se cada personagem emergisse de um quadro de Schiele, as suas linhas cruas, directas e honestas como evidência da sua enorme fragilidade, desejo, angústia, humanidade. É por isso que o livro se lê de um fôlego: não pela leveza, mas pela força que dele irradia. Ao terminar, percebe-se que este é menos um romance sobre um homem que deseja um filho e mais um tratado sobre a construção do humano, esse trabalho lento, imperfeito e infinito onde, apesar da sombra, a esperança aprende sempre a voltar.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

LIVRO: "Casa e Logradouro"



LIVRO: “Casa e Logradouro”,
de Aurelino Costa
Ed. Porto Editora, Fevereiro de 2023 (reimpresso em Junho de 2023)


“Só na tua mão, mãe,
principia o sinal
coberto pelo teu beijo.”

Mergulhar em “Casa e Logradouro” é – usando uma expressão por certo grata a Aurelino Costa – “pôr a mão na massa”. É penetrar no ambiente mágico de uma “carpintaria fitada em caracóis” e ver os “desejos transparentes no focinho do gado”. É “urinar contra o vento num circuito agudo de cheiro a mosto” e perceber “o inesperado, a graça na mão dos pobres”. É sentir o ondular do rio “nesta manhã de Novembro líquido” e orar “pelas almas do purgatório especialmente as mais abandonadas”… Composto por quarenta e quatro poemas que tocam as cordas da alma, “Casa e Logradouro” é uma viagem íntima aos lugares da memória, feita de serenidade e sobressalto, inquietação e júbilo. Com firmeza, o poeta conduz-nos através de uma paisagem orgânica, inteira, despojada, visceral, húmus de palavras com sabor a terra e a mar, de cheiros entardecidos e marés incendiadas. Convida a que a ela nos entreguemos, aconchegados no calor da dádiva, seguros da partilha como o bem mais precioso de um caminho que ainda agora aprendemos a trilhar.

Depois de “Pitões das Júnias” e “Amónio”, volto a Aurelino Costa e a uma poesia intensa e viva, que não dispensa o humor e a ironia. Que ama por igual o tosco e o delicado, o frágil e o bruto. Que vive e sente com uma simplicidade desconcertante e que oferece imagens tão belas como “o sol [que] avermelha a lua”, “o silêncio de que falam os teus olhos” ou “a fartura dos versos que das árvores pendiam como brasas”. Feitos de seda gumosa, os bichos da seda trazem com eles o mistério e o medo. A noite “agoniza os sonhos e trepa uivos de sombras pelas paredes”. Num tempo amalgamado, há cântaros e lamparinas de azeite, bonecos de madeira a decorar o Presépio, a palha do colchão, o toque do sino, nabos talhados a foice, a água que pinga de um ralo, uma nuvem aberta em lume brando, o forno do pão lacrado a bosta, uma flor que se bebe em tigela de tinto. Parece pouco este cão de língua de fora e duas balas no carregador de um revólver talvez já sejam demais. “Antes de falecer, a imortalidade é um gozo em minúcia e pária entre o que há-de vir e a estreita lucidez da morte. Uma bolometria esférica.”

Entre a casa e o logradouro, entre o sagrado e o profano, assim se move Aurelino Costa. Mas nem só do que vê e sente, daquilo que nele são recordações, vive a sua poesia. “Na ossatura desmesurada de um cansaço” leva-nos ao encontro da “miséria da escrita”, do esforço hercúleo, da impotência: “Escancarado ante a displicência da ignorância congénita à idade [o escritor] vai-se debruçado aqui e acolá olhando as couves do quintal”. As referências a personalidades do mundo da Literatura, da Música ou da Filosofia atravessam as páginas do livro: Carlos Paredes, Luis de Freitas Branco e Álvaro Cassuto, Paul Celan e Narciso Yepes, Franz Kafka, uma “fuga” de Bach, a paradoxia de Confucio. E ainda Eugénio, mais Lisboa do que Andrade, pois gatos não há no poema. Apesar da nostalgia que se adivinha nas camadas exteriores dos poemas, é no seu interior, musgoso e húmido, que encontramos uma realidade as mais das vezes crua e magoada. Mas é nesse lugar de encontro que apetece estar. “[A]té que o 33 desça da cruz e [n]os corra a todos”.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

LIVRO: "Um Cão Deitado à Fossa"



LIVRO: “Um Cão Deitado à Fossa”,
de Carla Pais
Ed. Porto Editora, Fevereiro de 2022


“Se ao menos tivesse sido o filho a falar, certo era que aquilo não ficaria por ali, Urbano levantaria a voz para o mandar calar ou para lhe desligar o telefone nas ventas como é hábito dos presunçosos, mão não, fora Maria Rita, a filha, uma mulher a erguer a voz, a descoser-lhe a arrogância e a vaidade. A única mulher que ousara enfrentá-lo, sem medo, a única que o apoucara sem resguardo, que o despira de virtudes para o despir de pecados e disformidades. De nada. Os defeitos ali talhados na voz da filha, que articulava as palavras com força, que não mostrava vassalagem à besta, que dizia,
tenho vergonha de um pai como tu,
não me chames filha,
não tens respeito por ninguém…
nem por ti mesmo!”

Entre o perdão e a culpa, há uma vida que se apaga e outra que renasce. Chega desta forma ao fim “Um Cão Deitado à Fossa”, livro desapiedado, de uma dureza violenta, sem cedências na sua forma de ser rude e crua, que rejeita quaisquer efeitos de bondade ou desejos de redenção. Um livro que se espraia por dias enganosos e manhãs que começam sempre à mesma hora, que se mostra nos olhos arremelgados e nos dedos gretados, nas mãos calejadas e nas unhas dos pés engrossadas das micoses. Feito de sonhos quebrados e ideias imperfeitas, olhos acesos de cismas e pressas na barriga, corpos derreados e pedras no lugar do coração. Visceral, impulsivo, incómodo, primitivo, nele as palavras mais brandas são banalidades de assuntos vazios. As mais das vezes, erguem-se em silêncios que ferem ou estalam na vileza de um insulto ou na ameaça mais brutal. Sempre, mas sempre, essa ausência de felicidade a tomar conta de tudo e a impor-se como uma inevitabilidade.

Podemos imaginar uma serração, tal como nos é sugerido na sinopse deste livro. Ao barulho da serra que não para nunca, sobrepõe-se o silêncio de um homem. Tem junto a ele os dois filhos, que trata de maneira desigual. A um deles, o mais frágil, o pai dá tudo. Ao outro, reserva toda a sua indiferença e despeito. É neste ambiente de uma “ruralidade fechada nos seus próprios fantasmas”, que Urbano irá crescer à sombra da mãe, também ela arredada das boas graças do marido. Um dia far-se-á homem, lembrará o pai como o dono à ordem do qual se agacha um exército de cães, parecer-lhe-á ainda ouvir as suas palavras que o tratam como “um inútil, desgraçado”, mas mostrar-se-á incapaz de lidar com a mulher e os filhos de forma substancialmente diferente. O mesmo ensimesmamento, a mesma insensibilidade, uma total inépcia para ver nos seus aquilo que realmente são, a sua família. E, todavia, continuará a perguntar pela vida fora: “Do que são feitas as bestas, senhor?”

Que modo de ser é este, que transforma a bondade em indiferença e o amor em prepotência, que desconhece o sentido do decoro, se afirma na arrogância e faz orelhas moucas à moral e à razão? Esta espécie de vírus que parece inscrever-se no código genético, tornando o miserável escravo da sua própria miséria? De uma extraordinária coerência, a história que Carla Pais nos oferece arrepia naquilo que adivinhamos nela de verdade. A escrita vive de momentos simples, tornados intensos pelas emoções que conseguem despertar ao encontrarmos neles traços das nossas próprias vivências. É de hoje este mundo fechado onde vivem as personagens do livro e histórias como esta são bem mais abundantes do que se possa imaginar, na aldeia como na cidade, na casa escura e húmida de onde o Inverno parece nunca querer ausentar-se, como no confortável apartamento debruçado sobre a praia. Com uma escrita segura e firme, num todo de enorme coerência, Carla Pais oferece-nos uma pérola literária que importa guardar num lugar muito especial. Um livro que abre o ano de 2024 sob os melhores auspícios.

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

LIVRO: "Dor Fantasma"




LIVRO: “Dor Fantasma”, 
de Rafael Gallo
Ed. Porto Editora, Março de 2023


“Com o braço esquerdo, remove o lençol; gesto canhestro, de alguém apartado do controle. A coberta cai e se expõem as ataduras no final do braço direito: forma de ovo fechado. Por isso foi mais difícil abrir os dedos desse lado. Rômulo olha fixamente para as bandagens, estranha que lhe falte a dor esperada, por ter os longos dedos de pianista espremidos em tão pouco espaço. Só pode ser efeito dos anestésicos. E quando abre e fecha os dedos... Que diabos? A amplitude dos movimentos extrapola, em muito, as dimensões daquela pequena clausura de gazes e esparadrapos. É como se a mão adormecesse fora da mão. O indicador, ao ser estendido, chega aonde só se vê a parede ao fundo. O polegar também, todos; borram-se os limites. Dói onde nada existe.”

“As mãos pousam ao piano.” São estas as palavras que abrem “Dor Fantasma”, relato denso e perturbador do percurso de um pianista num mundo construído à sua imagem, o piano como prolongamento (e parte integrante) do próprio corpo. Um mundo de uma exigência sem limites, severo e inflexível, insensível à dor e ao sofrimento, que se mostra intolerante face ao erro e desconhece o significado da palavra perdão. Rômulo Castelo é a personagem principal deste romance. Pianista virtuoso, encontra na música a essência do seu próprio ser. “Cada gesto, cada detalhe, exatamente como deve ser; em tudo somente o que é certo. Nenhum equívoco, nada a ser indultado. O zelo exige rigor.” Por isso se prepara em segredo para espantar o mundo com a sua interpretação do “Rondeau Fantastique”, a peça intocável de Liszt. Por direito próprio, muito em breve será seu um lugar de relevo na História da Música. De si próprio exige a perfeição, nada menos do que a perfeição.

Em matéria de livros, os ventos que sopram do Brasil continuam a revelar-se extraordinariamente bonançosos. Depois de Celso Costa ter sido galardoado com o Prémio LeYa pelo seu “A Arte de Driblar Destinos”, é agora a vez de Rafael Gallo vencer a mais recente edição do Prémio José Saramago com o romance “Dor Fantasma”. Nele, o autor conta, de forma envolvente e intensa, uma história que rompe com as convenções e expande conceitos como a ambição, a arrogância, a inquietação ou o desespero a níveis do domínio do patológico. Os apontamentos pessoais denotam importantes conhecimentos nas áreas da psicologia e da psiquiatria. Por outro lado, a sua formação musical nas áreas da composição e direcção, aliada à experiência como produtor musical, revela-se um forte aliado no momento de descrever a relação do pianista com a sua música e está, inclusive, na base dos títulos escolhidos para cada um dos capítulos em que o livro se divide - “Coda”, “Exposição”, “Desenvolvimento” e “Cadenza”.

Mas é no campo das relações que o livro nos surpreende verdadeiramente. O comportamento de Rômulo Castelo perante o público enquanto artista, os alunos e colegas enquanto professor ou aqueles que lhe são mais próximos enquanto pai e marido, faz com que não dê qualquer valor a quem não se mostra ao seu nível, espalhando pelos outros a tristeza e o sofrimento que o atinge profundamente. É notável o tratamento dado por Rafael Gallo à personagem, tornando-a num ser tortuoso e abjecto, de quem o leitor tenderia a afastar-se, não fora a forma como a narrativa é conduzida, surpreendendo a cada nova atitude e reacção do pianista e daqueles que com ele se cruzam. “Dor Fantasma” é um daqueles livros desconcertantes, que sabem como trocar as voltas ao leitor, construindo agora para desconstruir logo de seguida, num verdadeiro jogo do gato e do rato que deixa tudo em aberto até à última página (e mais além…). É também um “thriller” psicológico por excelência, que expõe as feridas daqueles que desdenham ver para lá de si próprios. E que abundam, nas mais variadas áreas.

quinta-feira, 16 de março de 2023

LIVRO: "Um Castelo em Ipanema"



LIVRO: “Um Castelo em Ipanema”,
de Martha Batalha
Título original | “Nunca Houve um Castelo” (2018)
Ed. Porto Editora, Setembro de 2020


“O lado de Estela também não fazia progressos. Joaquim e Ana queriam chamar os parentes de Realengo, integrantes da mais tradicional comunidade portuguesa do Rio. Portugueses na essência e na aparência, dançadores de vira, apreciadores de fado, duros com os seus e com os outros, repletos de um amor meio bruto. Mas os parentes de Realengo eram como elos de uma corrente. Um se ligava a outro, que se ligava a outro e a outro, sendo impossível chamar só alguns. Havia também os sócios do Clube da Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, que Ana e Joaquim conheciam desde os tempos de biscates e empregos mal pagos. Uma portuguesada cheia de filhos, netos e enteados que somavam tanta gente que em algum momento era preciso botar a mão na testa e parar de contar.”

Era uma vez um Johan, um castelo e uma mulher de cabelos louros. Assim poderia começar esta verdadeira saga familiar, feita de um quotidiano ora agitado e rocambolesco, ora terno e cúmplice. No miolo da história, Estela e Tavinho personificam o casal com tanto a uni-lo como a separá-lo, discordantes nas ideias, desavindos nas rotinas, mas com muito amor entre os dois. Amor que não é de sempre mas que será para sempre. Gravitando à sua volta, amigos e amantes ajudarão a compor o retrato de uma sociedade brasileira que se deixou degradar ao longo dos tempos, qual “castelo em Ipanema”, que até os mais velhos afirmam que nunca existiu. Um castelo que descobriremos, não sem antes descobrirmos Ipanema num domingo de Maio, nada mais que uma praia deserta, cortada no meio por um rio que se estende até ao mar, a água límpida a convidar a um mergulho.

Dizer de “Um Castelo em Ipanema” que é um livro divertido e descomprometido é, no caso concreto, um elogio. Há nele uma leveza que nunca é inconsequente, um sentido de humor que convida à saudável gargalhada, uma ironia que tem tudo a ver com destino, uma sensibilidade que aquece e embala. É um livro envolvente, que agarra o leitor desde o início, em cuja leitura mergulhamos com um sorriso no rosto, certos de que nos espera uma nova e inesperada peripécia a cada virar de página. Porque este é um livro que nos oferece, de forma vívida, um mundo de sons e tons genuínos, extraídos do peculiar quotidiano de uma família no Brasil, ao longo de quatro gerações. Através dela, Martha Batalha fala-nos do sonho da ascensão social, dos ideais femininos e feministas, da revolução sexual, da reacção ao golpe militar, da divisão de classes, da deterioração do país, mostrando o quanto há de precário na memória, de efémero na matéria, de imponderável no futuro.

Martha Batalha tem uma escrita deliciosa. Com um domínio perfeito dos tempos da narrativa e uma enorme segurança na composição de cada uma das personagens, a autora sabe temperar a acção com o pitoresco que se desprende das falas correntes, dos passatempos, das comidas, dos lugares. As personagens por si criadas levam-nos a conhecer “a turca que vendia fósforos, o homem que vendia aves, o leiteiro com vaca e bezerro, o pescador com balaio de peixes, o italiano com cesto de empadas, o mulato com tabuleiro de doces”. Olhamos para todos eles, descalços, e conseguimos sentir a cacofonia que se solta no ar e se mistura com uma infinidade de aromas, uns bem apelativos, outros nem por isso. Mas a autora não nos leva apenas à praia, ao mercado, a uma festa ou, muito simplesmente, nos deixa à janela a ver quem passa. Ela é igualmente capaz de nos colocar numa cela a assistir ao espancamento de um preso político ou levar-nos na Passeata dos cem mil na Candelária, pedindo o regresso da democracia. Um belíssimo livro de uma autora cujo nome importa reter.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

LIVRO: "Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio"



LIVRO: “Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio”,
de Julieta Monginho
Ed. Porto Editora, Abril de 2021


“Desse amor desesperado por uma terra alheia, ignorada pelo dono, nascera o cante. Nasceram as lágrimas e a raiva do pai antes do pai antes do filho, e neste se destinavam aos sucessores. Por isso Mário, expulso da sucessão, deambulara de cidade em cidade evitando os encontros, recusando tudo o que ameaçasse durar mais de uma noite. De todos os perigos, o maior era a palavra. De todas as palavras, a mais ameaçadora: submissão.”

Socorro-me da metáfora que toma conta de uma boa parte de “Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio” e, apanhado pelo dilúvio que tudo arrasta à sua frente, debato-me no mar de ideias que Julieta Monginho me oferece. Debalde esbracejo, procuro manter-me à tona da água, luto com todas as forças para me agarrar a algo. Soçobro, afundo-me. Se fizesse uso da gíria futebolística, diria que “nunca cheguei a entrar no jogo”. E tentei. Deus sabe que tentei. Quis muito perceber as figuras que se desprendem de alguns dos mais importantes quadros que se dão a ver nas paredes do Rijksmuseum, encontrar nelas o porquê de se tornarem palpáveis. Também procurei ver para lá de um barco feito Arca de Noé, onde vogam à deriva um homem e sua mãe, uma mulher e um “pinto calçudo”. Não fui capaz. Restou-me a certeza da dor e da amargura que habita cada uma das personagens. Tudo o mais escapou-me, como areia por entre os dedos.

Tento percorrer o labiríntico processo que estará na génese deste livro. A história de uma família disfuncional terá sido um dos pontos de partida. Um homem dividido nos seus caminhos, que guarda em si toda a raiva do mundo, partilha com o filho o centro da história. Há na fuga uma pulsão a uni-los, ainda que fujam para sítios diferentes. A partir daqui a narrativa flui, ao sabor da imaginação de Julieta Monginho, refém de uma lógica que à autora assiste. A ela o poder de abrir ou fechar a acção, tornar as personagens opacas ou dar-lhes um cunho transparente. As palavras reflectem um mundo pessoal e quero acreditar que a autora terá retirado um enorme prazer das soluções que foi encontrando para levar a história por diante. O trabalho terá sido árduo, mas recompensador. Mas, e o leitor? Que chaves lhe deu para abrir as portas desse seu mundo? Será ele suficientemente hábil ao ponto de conseguir abri-las? Ou terá perdido as chaves?

No início de um novo ano, Sandra Barão Nobre partilhava no seu blogue [AQUI] um artigo onde, a linhas tantas, dizia algo que, há algum tempo, toma conta das minhas inquietações. Para ela, “se a leitura não estiver a ser prazerosa e/ou proveitosa, põe-se o livro de parte e parte-se para outro, porque a nossa esperança média de vida não se coaduna com a quantidade avassaladora de livros que estão à espera da nossa atenção, especialmente aqueles que parecem ter sido escritos de propósito para cada um de nós.” Livros como este reforçam a minha convicção de que é hora de pôr de parte os sentimentalismos. O cerimonial que envolve a escolha e a compra de um livro, a expectativa criada à beira da primeira página, o carinho com que o folheamos, parece incompatível com este “pôr de parte”, mas é chegado o tempo de assumir actos e aceitar consequências. Ou bem que sou inflexível face ao desprazer da leitura, ou bem que sou masoquista. E de masoquismos “Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio” curou-me. Agradeço-lhe, ao menos, isso.

domingo, 27 de março de 2022

LIVRO: "A Última Curva do Caminho"



LIVRO: “A Última Curva do Caminho”,
de Manuel Jorge Marmelo
Ed. Porto Editora, Fevereiro de 2022


“Morto há algum tempo, Henrique Quarto Coelho pareceu-me ainda menos vivo do que os falecidos comuns, mais defunto do que as pessoas que, nas paredes, se assomavam das molduras com retratos de gente antiga. Ali estavam, quase todos homens de feições rudes, os meus avós quando eram novos e vivos, posando a partir de outro tempo para que as suas histórias se agitassem apenas um pouco e se desprendesse do vidro dos caixilhos a poeira fina e invisível a que, sem outros afazeres mais práticos, hei-de procurar dar sentido.”

Após se ter jubilado, um professor catedrático regressa à velha casa de família, deixando para trás o bulício da cidade, uma preenchida vida social, a própria mulher. Vai poder agora tirar o máximo partido da tranquilidade do campo, recuperar uma saúde castigada pelos excessos e dedicar todo o tempo livre à leitura e, sobretudo, à escrita. De boas intenções, porém, está o inferno cheio e Nicolau Coelho vê os seus projectos esbarrarem na inércia, na ausência de vontade para ir além do básico à sobrevivência, lançando-se numa ociosidade estéril que o afasta cada vez mais dos outros e de si próprio. Restam-lhe as memórias de um passado indistinto, mescla de verdade e fantasia, onde as suas próprias histórias se cruzam com as histórias da família - do trisavô Henrique Damião Coelho ao pai Henrique Quarto Coelho -, vergadas ao peso de uma “condenação” que a todos une. Enquanto isso, a página aberta do computador permanece em branco. Imutável. Serena. Definitiva.

Feito de avanços e recuos, de interpolações, de pausas que se abrem no tempo como clareiras, como se os segundos pudessem divergir na sua duração e o tempo fosse algo que se acomodasse aos estados de alma, “A Última Curva do Caminho” obriga-nos a reflectir sobre a vida e as suas intermitências. Da idade da inocência ao inverno da vida, somos aquilo que quiseram que fôssemos ou que nos permitiram ser. Ainda que a vontade interior possa, em certa medida, determinar os rumos de uma vida, há estigmas dos quais nunca nos libertamos e que teimam em assombrar-nos, agigantando-se no momento de encararmos “a última curva do caminho”. Puxando das fotografias dos seus antepassados, como se de um jogo de cartas se tratasse, Nicolau Coelho vai encontrando pedaços de si em cada uma daquelas personagens, ao mesmo tempo que se confronta com a impossibilidade de baralhar e voltar a dar. O jogo está a chegar ao fim e a vida é uma “negra”, sem lugar a desforras.

É de braços caídos que a personagem principal do livro faz o balanço de toda uma vida. Nela, o momento presente adquire um peso esmagador face a um passado que é olhado de forma nostálgica mas não sem uma ponta de ironia. Um paquete branco que sulca um mar pejado de peixes-voadores, um triciclo amarelo em África que o filho mais novo da preta Cesária tanto cobiçava, a primeira bicicleta, o charco dos girinos, os livros que escreveu ou as mulheres que amou, estão de volta só para confirmar que “a memória é um negrume riscado por débeis coriscos que mal permitem enxergar alguma coisa”. O aumento das pensões, o mau entrosamento do meio-campo do clube de futebol da terra ou o escandaloso romance do barbeiro com a mulher do farmacêutico não atenuam, hoje, a sensação de Nicolau Coelho estar escondido sem que alguém o procure ou queira saber dele. “Quer tenham sido mendigos ou faraós, os mortos deixam para trás tudo o que possuíram e voltam a ser apenas cinzas e pó”. Safoda.

sábado, 11 de dezembro de 2021

LIVRO: "De Maneira Que É Claro..."



LIVRO: “De Maneira Que É Claro…”,
de Mário de Carvalho
Ed. Porto Editora, Setembro de 2021


“Num letreiro manuscrito, afixado no cinema, pediam-se colaboradores. E lá aparecemos uma noite, o Quim João e eu, a oferecer-nos. Fomos bem recebidos, mas notámos por detrás dos sorrisos e das boas-vindas, um fio de desconfiança. Eram tempos de bufos e de informadores, a polícia política tinha ventosas por todo o lado. Fôssemos embora muito novos, eles sabiam lá ao que nós verdadeiramente íamos. A suspeita era legítima. O Cineclube funcionava como uma segunda linha do movimento cultural impulsionado pelas associações académicas. Lá nos puseram a preparar sobrescritos de comunicados a enviar aos sócios. E voltámos e tornámo-nos assíduos. ‘Envelopes’, a grande tarefa.”

É-me difícil ver em “De Maneira Que É Claro…” um livro de contos. São, sobretudo, relatos breves roubados à gaveta das memórias, aparentados na forma e tamanho, sem ordem cronológica definida, alinhados ao sabor das emoções. No seu conjunto, cobrem um arco temporal de três décadas de vida intensa, ao correr dos quais Mário de Carvalho partilha com o leitor os primórdios de uma infância feliz e os momentos de uma adolescência aberta à curiosidade e à grande necessidade de saber mais sobre um mundo de difícil compreensão, mas também as acções de resistência ao regime de Salazar, as lutas académicas, o serviço militar interrompido pela prisão e o posterior exílio na Suécia ao qual o 25 de Abril se encarregará de pôr termo. De amores e desamores não fala Mário de Carvalho, só coisas práticas. De maneira que é claro…

Das primeiras braçadas na piscina grande do Algés e Dafundo ao velho caderno de Latim, a transbordar de lições esquecidas, são noventa e seis as peças de um puzzle que, devidamente encaixadas, nos permitem ficar a conhecer melhor a pessoa e o seu percurso de vida notável a muitos títulos. Neste desfiar de memorabília - “factos ou coisas dignos de memória ou que se guardam como lembrança” -, Mário de Carvalho compõe o retrato de um país acanhado, cinzento, desconfiado e atrasado, tolhido por um regime ditatorial avesso ao livre pensamento, brutal nas acções contra os seus opositores, ao mesmo tempo que afirma as tomadas de consciência política, a sua filiação ao Partido Comunista Português, as reuniões clandestinas, as “credenciais”, os “pontos de apoio”, a prisão do pai, a sua própria prisão, a coação, a tortura do sono, o exílio num país distante, o regresso com Abril e a "terceira via", a longa e dolorosa separação do seu partido de sempre.

Num estilo de escrita muito próprio, que cativa e sacia, Mário de Carvalho adopta o discurso directo para se abrir ao leitor em retalhos de vida plenos de significado e emoção. Vergadas ao peso das vicissitudes, carregadas de ironia, leves e belas de tão inocentes e quase sempre envoltas num humor delicado, as histórias narradas são sinónimo de alegres brincadeiras e rebeldias inocentes, mas também de resistência e luta, de cumplicidade e solidariedade. Professores, colegas de escola, camaradas de partido ou a humilde gente que ajudava só por ajudar são aqui evocados com calor e apreço, peças fundamentais que foram na vida do escritor. Tijolo a tijolo, Mário de Carvalho mostra-nos como se ergue e consolida o edifício de uma vida, buscando nas fraquezas a força de lutar por aquilo em que se acredita. Não fazem ninho os milhafres nas cavernas dos leões.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

LIVRO: "As Doenças do Brasil"



LIVRO: “As Doenças do Brasil”,
de Valter Hugo Mãe
Ed. Porto Editora, Setembro 2021


“O negro aninhou novamente entre a folhagem e, à sua guarda, ficou o grito de ferro. O corpo morto era a dez passos dali, alguns bichos abeiravam ao cheiro do sangue. Incrédulo, o negro escolheu apenas esperar. Havia algo de muito absurdo em tudo aquilo. Não parava de pensar que o branco fora abatido, impotente contra a tocaia de Honra, não parava de pensar o quanto isso era feio e o quanto isso trazia justiça aos seus povos negros. Então, Meio da Noite capacitou-se para sentir um nervosismo feliz. Até mesmo que os bichos pudessem abeirar o cadáver para o devorar, Meio da Noite pensou nisso e sentiu uma incontida alegria. Pensou que gostava de Honra. Pensou que era importante que Honra fosse e voltasse em segurança, magnífico, destemido em sua coragem e em seu ódio. Ele entendeu que o guerreiro branco fazia a coisa certa. Era santo. Era inteiramente santo naquilo que acabara de fazer.”

É com emoção que falo de “As Doenças do Brasil”, pelo que de espanto e delícia me trouxe e pelo que de razão e consciência acrescentou à minha condição de leitor. Na sua peculiaríssima forma de contar uma história, Valter Hugo Mãe voltou a deixar uma importante parte do trabalho para o leitor, obrigando-o a pensar a própria literatura naquilo que nela há de mais substantivo e essencial: a palavra. Sentir cada palavra como um formidável constructo de imagens e símbolos cujas raízes se firmam no primordial e instintivo, é aceitar um desafio que implica tempo, paciência e perseverança. É um novo “aprender a falar”. Para isso, porém, é fundamental resistir ao “calvário” que são as primeiras cinquenta páginas. Importa perceber que cada palavra é uma pedra do edifício lexical que pacientemente nos dispomos a erguer. Em breve, descodificar as palavras e os seus sentidos será tão natural como ler este texto e compreendê-lo. Há uma janela a abrir-se no nosso cérebro e das sombras despontará a luz. Uma luz penetrante, ofuscante, imensamente bela.

A acção deste livro remete para um período de expansão colonialista no Brasil e para a realidade do poderio do homem branco sobre as comunidades índias. Nas “ilhas dos três mares”, a tribo dos abaeté vive no respeito pelos valores ancestrais e em plena comunhão com a natureza. As pressões e ameaças, porém, não tardarão a fazer-se sentir e o horizonte irá tingir-se de nuvens ameaçadoras à medida que se torna clara a verdadeira intenção do invasor. Sob a verde e exuberante Amazónia há uma doença a espalhar-se e que o Padre António Vieira, no seu Sermão da Visitação de Nossa Senhora (1638), tão bem descreveu: “Esta foi a origem do pecado original, e esta é a causa original das doenças do Brasil: tomar o alheio, cobiças, interesses, ganhos e conveniências particulares, por onde a justiça se não guarda, e o Estado se perde. Perde-se o Brasil, Senhor digamo-lo em uma palavra porque alguns ministros de S. Majestade não vêm cá buscar o nosso bem, vêm cá buscar nossos bens.”

Impregnado de uma forte espiritualidade, repleto de homens e mulheres “imprudentemente poéticos”, “As Doenças do Brasil” é um livro poderoso, tanto pelas imagens que convoca como pela mensagem que pretende espalhar. Ao proclamar ideias de pureza e humildade, mas também de coragem e justiça, na figura de dois adolescentes muito diferentes entre si, Valter Hugo Mãe estabelece um fortíssimo contraponto à maldade e ignomínia que preenchem os corações daqueles que tomam a cor da pele como um sinal de superioridade, para desprezar, humilhar, oprimir e aniquilar. Saibamos compreender que não há presente sem passado e esse, no Brasil como em muitos outros lugares deste mundo, deixou marcas fundas. É importante essa consciência para terminar seus efeitos e começar a mais elementar solidariedade. Ao menos, a solidariedade, contra toda a agressão, espoliação e assassinato a que sujeitam ainda os povos originários, esses que são o Brasil original, o Brasil sem as doenças brancas que quase os extinguiram.

domingo, 1 de agosto de 2021

LIVRO: "O Regresso de Julia Mann a Paraty"



LIVRO: “O Regresso de Júlia Mann a Paraty”,
de Teolinda Gersão
Ed. Porto Editora, Janeiro de 2021


“Mas esse mundo tornara-se silencioso porque o tinham silenciado: as ruas da aldeia inundadas, onde se andava de barco quando havia cheias, os cânticos nas procissões dos santos, as ruidosas festas de Carnaval, as canoas que a levavam até à Ilha Grande, a casa dos avós, o som dos remos cortando a água, o estalar dos foguetes que o avô Manuel Caetano lançava da praia. Mas agora as imagens não tinham som.”

Em boa hora segui a recomendação de um amigo e me atirei a “O Regresso de Júlia Mann a Paraty”, naquela que constituiu a minha primeira incursão no universo literário de Teolinda Gersão. E digo “em boa hora” pelo prazer que esta leitura me proporcionou, “três novelas que se entrecruzam de forma surpreendente” e que, lidas no seu todo, funcionam perfeitamente como um romance, a acção inteligentemente urdida em redor de três personagens improváveis mas com tanto para dizer uns aos outros e para nos dizer a nós, leitores. Segura na escrita, compondo com elegância e harmonia cada quadro, a autora guia-nos por caminhos de descoberta que se espalham para além das margens de um vasto e rico manancial, propondo um olhar sobre nós próprios, ao encontro de dúvidas e certezas, da forma como cada um olha o seu mundo.

“Freud pensando em Thomas Mann em Dezembro de 1938” é o título da primeira novela. Estamos no período entreguerras, numa Alemanha inflamada com a ascensão do nazismo, as perseguições aos judeus a fazerem-se sentir com toda a violência e a obrigarem Freud, então com 82 anos, a refugiar-se em Londres, onde viria a falecer uns meses mais tarde. Contemporâneos, figuras proeminentes de uma Alemanha que se avaliava culta entre os cultos, poucas vezes o pai da Psicanálise e o Prémio Nobel da Literatura terão trocado palavras de forma directa. Aos ensaios e discursos proferidos por Mann a propósito de Freud, das suas ideias e da sua obra, retribuía este com o envio de exemplares dos seus livros. Um relacionamento cordato que escondia um mar de críticas, recriminações e acusações de ordem vária, a fazerem adivinhar egos de uma envergadura descomunal e uma certa inveja no tocante ao sucesso alheio.

A segunda novela faz-nos recuar oito anos. “Thomas Mann pensando em Freud em Dezembro de 1930”, pode ser interpretado como uma resposta apriorística às reflexões de Freud na novela anterior. Às pontas deixadas soltas, pede Teolinda Gersão ao leitor o trabalho de as perceber e juntar. Há um clima de desconfiança latente em relação a Freud, ao que ele faria com as revelações de Thomas Mann se, por acaso, o apanhasse no seu divã de psicanalista. Isso nunca aconteceria, nunca poderia acontecer. Tão pouco Freud poderia saber que Mann chegara a encarar essa hipótese. A possibilidade de alguém penetrar na sua mente seria, por si só, aterradora. Uma carreira de sucesso, eis o que move exclusivamente o escritor, mesmo que nela assome um terrível pacto com o Diabo: “Goethe salva o seu Fausto, mas, se um dia eu vestir essa pele, não irei salvar-me.” São a insegurança e o medo a ditarem as suas leis.

Finalmente, “O regresso de Julia Mann a Paraty” fala da mãe de Thomas Mann, Julia, filha de pai alemão e de mãe brasileira, uma mistura de sangue ariano e sangue negro. Da obrigação de trocar o Brasil pela Alemanha com sete anos de idade apenas, ao “olhar de lado” da família do lado alemão, a um casamento forçado e às múltiplas peripécias que se seguiram, até ao tão desejado regresso a Paraty, esta novela é absolutamente preciosa na forma elegante e contida como está contada. Se as duas novelas anteriores dificilmente sobrevivem uma sem a outra, “O regresso de Julia Mann a Paraty” lê-se por si só com admiração e deleite. Percebe-se nela esse ensejo de fechar um ciclo, de dar um remate naquilo que terá ficado por dizer nos dois “episódios” anteriores, mas a abordagem que faz de uma vida de luta pela liberdade, contra a discriminação pelo facto de ser mulher e, ainda por cima, evidenciar traços de negritude, levam a que valha, por si só, a leitura deste livro. Uma grata surpresa!

domingo, 4 de abril de 2021

LIVRO: "Contra Mim"



LIVRO: “Contra Mim”,
de Valter Hugo Mãe
Ed. Porto Editora, Outubro de 2020


“Alguma noite, o meu pai chamou: anda ver o que este homem está a dizer. E era um homem esquisito, que falava com urgência. Eu e o meu pai, disfarçados de sermos muito machos, a desviar o rosto para as paredes vazias, ficámos de olhos em água ao ouvir o Charlie Chaplin. Não parecia nada um ditador. Parecia um porte. Ou um súbito candeeiro aceso nas palavras. Os meus heróis vão ser estes, pensei. Os improváveis que se levantam humanos contra toda a pressão.”

Perto de completar “cinquenta anos de idade, quarenta anos de Caxinas, que se tornou, sim, a Capital, e vinte e cinco anos de livros publicados”, Valter Hugo Mãe surpreende-nos com uma autobiografia que remete para um tempo que se estende pelos seus primeiros anos de vida, até ao final da adolescência. Resultado de um conjunto de textos “sem muito destino”, escritos esparsamente ao longo de quinze anos e coligidos num corpo único, enxuto, para que possam ser lidos com a mesma lógica com que se lê um certo romance, “Contra Mim” é um delicioso exercício da memória, feito de subjectividade e emoção, a meditação suscitada tornando nítidos “os instantes onde preponderam as decisões mais endémicas e modeladoras de todas”.

Nascido em Saurimo, Angola, nos idos de 71, Valter Hugo Mãe é um dos muitos filhos do retorno. Paços de Ferreira, a terra que o acolheu no regresso dos pais à metrópole e onde viveu até aos dez anos de idade, será o palco das suas primeiras recordações, um tempo de experiências iniciáticas, avanços, conquistas e ilusões. Algumas desilusões, também. Moldadas na candura do seu olhar de criança, as memórias do autor desenterram Cristos de luz resgatados do lixo, folares de Páscoa à volta do pescoço, Bíblias envoltas em panos de linho, milagres do São Bentinho, um chocolate como parte do urgente salário, o mistério da alegria própria deixado por Deus em cada pessoa.

A segunda parte do livro tem lugar nas Caxinas, aldeia piscatória onde o pai do autor se estabeleceu com a família no início dos anos 80, explorando um café. Num cenário radicalmente diferente, marcado pelo tanto que o mar dá e rouba, Valter Hugo Mãe irá entrar na adolescência com a ameaça da onda que tudo destrói a pender-lhe sobre a cabeça. Numa terra pequena, o mundo faz-se grande. É tempo de comprar o primeiro livro, aprender o beijo, ouvir os Rolling Stones, ler António Ramos Rosa, assistir no Cine Neiva a um filme pornográfico, ver desaparecer um homem nas ondas e perceber que a santidade não precisa de um caminho organizado.

Este mergulho de Valter Hugo Mãe no seu mais íntimo é um convite ao leitor para que o faça também. Sem embaraços nem reservas. Mais do que de verdade, é de bondade e de espiritualidade que estão carregadas as palavras do autor, naquilo que revelam do eu mais fundo. Este é o tempo da curiosidade que se sobrepõe aos medos, dos mitos derrubados um por um, das fronteiras imaginárias vencidas, do fruto proibido tomado nas mãos, levado à boca e saboreado com deleite e demora. Tal como Valter Hugo Mãe, não somos mais os meninos de belíssimas intenções que fomos, essas crianças de uma pureza que ainda hoje nos inspira. Mas queremos muito ser ao menos a memória dessa pureza. A memória de um tempo em que havia, em cada um nós, a promessa intensa de poeta à solta.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

LIVRO: "Casos do Beco das Sardinheiras"



LIVRO: “Casos do Beco das Sardinheiras”,
de Mário de Carvalho
Ed. Porto Editora, Novembro de 2013 (reimpresso em Agosto de 2019)


“Uma noite, a Lecas Pasteleira, serigaita de quinze anos, acordou com humidade na cara e gritou para a mãe que dormia no quarto ao lado:
– Ai, mãe, que estou toda molhada, venha cá, senhora!
Acenderam-se as luzes, no meio de grande sarrabulho, e os familiares da Lecas constataram que lhe chovia abundantemente na cara. Não que a chuva viesse de fora, por fendas arreliadoras, que a rua estava quieta, serena e seca. Era antes uma nuvem, formada naquele ar do quarto, aí do tamanho duma almofada, que despejava sobre a cara da Lecas uma chuvada violenta.”

Está perto de se completar quarenta anos que Mário de Carvalho lançou os seus “Contos da Sétima Esfera”, primeiro livro de uma vasta e aclamada obra que faz dele uma das vozes mais importantes da nossa literatura contemporânea. Seguiu-se, precisamente, “Casos do Beco das Sardinheiras”, de Maio de 1982, que contou com nove edições até ser republicado com a chancela da Porto Editora em Novembro de 2013. Nele, o autor volta a brindar-nos com um livro de contos, verdadeiro “porto de abrigo” ao qual regressará de forma recorrente naquilo que leva de vida literária, sendo disso exemplo os muito recentes “Burgueses Somos Nós Todos ou Ainda Menos”, “O que Eu Ouvi na Barricas das Maçãs” e “Epítome de Pecados e Tentações”.

No vulgaríssimo Beco das Sardinheiras, “um beco como outro qualquer, encafuado na parte velha de Lisboa”, os casos são tudo menos vulgares. Nas suas casas velhas, de dois ou três andares, janelas de guilhotina, beirais avançados e um permanente cheiro a refogados ou a caracóis com orégãos, há um homem que é só busto, outro que engole a Lua, outro que fala mas não entende (ou entende mas não fala) e outro ainda, padre por sinal, com queda para os inventos. Há nuvens do tamanho de almofadas que não param de chover, máquinas de costura piores que congeladores, marcos do correio onde desembocam subterrâneos caminhos e pedras que só um catraio consegue mover. Há fados e facadas, moços lampeiríssimos pelos telhados, frascos de “amarelinha” nos coldres da pistola, gatos que crescem desmesuradamente e o que de mais escanifobético se possa imaginar.

Reunindo um conjunto de personagens verdadeiramente peculiares – do Virgolino Alpoim ao Zé Metade, do Zeca da Carris ao Quim Ambrósio -, Mário de Carvalho dá-nos um “cheirinho” de uma Lisboa em vias de extinção, de velhos sentados à porta em cadeiras de palhinha, mulheres a mexericar, padres a padralhar, polícias a policiar, cada qual a opinar, a lei do desenrascanço a prevalecer e no fim, todos amigos, vai um copo de três ou uma “amarelinha”, que a Marta Taberneira hoje está de generosidades. Com um apurado sentido do ritmo e um humor irresistível a piscar o olho à BD, “Casos do Beco das Sardinheiras” encanta pelo que faz sobressair de verdade no meio de tantas e tão fantásticas aventuras. O leitor vai encontrar neste livro alguns belos pretextos para uma boa gargalhada. Convém mas é não confundir género humano com Manuel Germano.

sábado, 9 de janeiro de 2021

LIVRO: "Insubmissos"



LIVRO: “Insubmissos”,
de Richard Zimler
Tradução | Daniela Carvalhal Garcia
Ed. Porto Editora, Outubro de 2020


“Já vi pessoas atingirem o limite, e tu não estás sequer perto disso. Ainda não vomitas para cima dos livros que lês. Não tens a cara roxa. Nem os olhos salientes como os de um inseto. As roupas ainda te servem, porra! Estás a ouvir? Não estás nem perto! Eu aviso-te quando te aproximares! Vais saber, foda-se, porque nem vais conseguir lembrar-te quando ainda tinhas saúde e conseguias berrar como um ser humano! Vais saber que estás perto quando os teus ossos ficarem tão salientes que terás medo que um deles te perfure quando te sentares. Aí, sim, porra, vais estar perto! E aí, sim, terás atingido o teu limite.”

Assistirá sempre ao leitor o direito de acreditar naquilo que quiser, mas ao iniciar “Insubmissos” com a revelação de um conjunto de factos e experiências pessoais, sobretudo as relacionados com a morte do irmão e sobre a forma como a pandemia da sida lançou uma negra sombra sobre a vida na área da Baía de São Francisco nos anos 80 do século passado, Richard Zimler quis abrir o coração para que melhor fosse entendido e, quem sabe, julgado. Daí que optasse por transformar um posfácio em prefácio, quiçá demasiado revelador, onde a palavra “verdade” se ergue acima de qualquer outra. Por vontade própria, Zimler quis que o leitor fosse o primeiro a saber ao que ía, se situasse no drama que foi a descoberta de uma doença para a qual não havia cura, sentisse a dor e o medo de quem sabe que vai morrer, para então se entregar à leitura sem reservas ou preconceitos, antes de forma cúmplice, solidária.

Vertido numa longa carta, “Insubmissos” não é um livro fácil. A questão da homossexualidade – aqui abordada de forma crua – e a carga emocional que envolve a narrativa, impedem o leitor de se sentir confortável e encontrar sérias dificuldades na distinção que faz daquilo que é real do que é ficção. A personagem do Professor, por exemplo, é indissociável da figura do próprio Zimler. É ele que vemos a olhar-se ao espelho, a entregar-se a um amante, a reagir às ofensas ou a enfrascar-se de Valium. Talvez o autor não tivesse querido “impor-se” de forma tão clara, mas a impressão que passa é essa. E ainda bem. Seguimo-lo – e, com ele, seguimos também Miguel e António, pai e filho – e aprendemos com eles a mergulhar no nosso próprio eu, ao encontro de valores tão caros como a humildade, a coragem, a franqueza e a amizade.

Não deixa de ser significativo o facto de este livro ter esperado mais de vinte anos para ser lançado em Portugal. As razões para este “atraso” estão igualmente explicadas no prefácio e prendem-se com a sociedade fechada e tacanha que é a nossa – se nos lembrarmos que o inenarrável Sousa Lara, poucos anos antes, vetara a candidatura de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago, a um prémio literário europeu, por considerar que o livro ofendia a moral cristã, penso que está tudo dito. Por outro lado, é profundamente irónico que o livro seja lançado em plena pandemia de Covid-19, permitindo fazer a ponte com a pandemia de VIH e dizendo-nos, claramente, que as coisas não acontecem apenas aos outros. Pela sua lucidez, inteligência e verdade, “Insubmissos” merece uma leitura atenta e empenhada. Ele tem, certamente, algo de muito importante para dizer a cada um de nós.