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sexta-feira, 22 de abril de 2022

EXPOSIÇÃO: "Insubmissos"


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EXPOSIÇÃO: “Insubmissos”
Vários artistas
Curadoria | Richard Zimler
Galeria da Junta de Freguesia de Espinho
05 > 20 Abr 2022


Depois de uma apresentação inaugural na Galeria Geraldes da Silva, no Porto, “Insubmissos” rumou a Sul, à bonita cidade de Espinho, onde esteve patente na Junta de Freguesia ao longo de duas semanas. Produzidos por utentes do Hospital de Magalhães Lemos, através do seu Serviço de Reabilitação Psicossocial, os trabalhos expostos repartiram-se por desenho, pintura, escultura e instalação, resultando do labor criativo de cinquenta e três artistas e que pode ser interpretado como uma etapa mais da longa e sobressaltada relação entre o hospital e a comunidade, “feita de aventuras e desventuras e de uma árdua batalha diária contra a discriminação e o estigma social”. São estes mesmos artistas que adivinhamos “agarrados a um pedaço de barro virgem ou a uma tela expectante de cor”, dando forma e corpo ao objecto artístico. São eles que, assim, “lutam pelo resgate do seu espaço individual (…), um lugar onde direitos e deveres se complementam e a cidadania se exerce em todas as suas dimensões.”

Numa iniciativa da sociedade civil, encabeçada por Cláudia Reis e Sérgio Rodrigues, com curadoria do escritor Richard Zimler, “Insubmissos” é-nos apresentada como uma “exposição de arte bruta”. Terá sido este o aspecto que mais despertou o meu interesse, fazendo com que desenvolvesse todos os esforços no sentido de poder visitá-la. Tal como Zimler, também eu nutro um enorme fascínio por esta forma de arte, sendo a Colecção Treger / Saint Silvestre, em depósito no Centro de Arte Oliva, em S. João da Madeira, uma referência maior. Aquilo que vi fez com que uma enorme dúvida se instalasse em torno do que pode ser considerado, ou não, arte bruta. O facto de o artista estar diagnosticado com uma doença mental e, eventualmente, institucionalizado, faz com que a sua arte mereça automaticamente a classificação de arte bruta? Até que ponto a terapia ocupacional ou os trabalhos manuais constituem trabalho artístico? As mesmíssimas peças, criadas por alguém dito “normal”, seriam valorizadas como arte? E afinal o que é isso de “normalidade”, quando é da mente e dos seus eventuais transtornos que falamos?

Questões à parte, cuja discussão resultaria, muito provavelmente, estéril, importa sublinhar a qualidade de alguns dos trabalhos expostos, em qualquer dos casos reflexo das suas vidas interiores. Recuperando as palavras de Zimler na folha de sala, são “admiráveis e invulgares trabalhos”, esperando-se que possam contribuir “para a compreensão de que as pessoas com doenças mentais podem ser tão talentosas e imaginativas quanto o resto da população e merecem todas as oportunidades de exprimir as suas potencialidades criativas e conseguir uma vida realizada”. Se outra virtude não tivesse, esta exposição ajuda-nos a lembrar que “as pessoas que sofrem com doenças mentais tradicionalmente tiveram que lutar para simplesmente ganhar os direitos e benefícios que o resto de nós geralmente toma como garantidos, incluindo o direito à educação e o acesso a cuidados médicos adequados.” O título “Insubmissos” é, assim, uma “homenagem à sua corajosa luta”.

[Texto construído a partir da Folha de Sala da exposição]

sábado, 9 de janeiro de 2021

LIVRO: "Insubmissos"



LIVRO: “Insubmissos”,
de Richard Zimler
Tradução | Daniela Carvalhal Garcia
Ed. Porto Editora, Outubro de 2020


“Já vi pessoas atingirem o limite, e tu não estás sequer perto disso. Ainda não vomitas para cima dos livros que lês. Não tens a cara roxa. Nem os olhos salientes como os de um inseto. As roupas ainda te servem, porra! Estás a ouvir? Não estás nem perto! Eu aviso-te quando te aproximares! Vais saber, foda-se, porque nem vais conseguir lembrar-te quando ainda tinhas saúde e conseguias berrar como um ser humano! Vais saber que estás perto quando os teus ossos ficarem tão salientes que terás medo que um deles te perfure quando te sentares. Aí, sim, porra, vais estar perto! E aí, sim, terás atingido o teu limite.”

Assistirá sempre ao leitor o direito de acreditar naquilo que quiser, mas ao iniciar “Insubmissos” com a revelação de um conjunto de factos e experiências pessoais, sobretudo as relacionados com a morte do irmão e sobre a forma como a pandemia da sida lançou uma negra sombra sobre a vida na área da Baía de São Francisco nos anos 80 do século passado, Richard Zimler quis abrir o coração para que melhor fosse entendido e, quem sabe, julgado. Daí que optasse por transformar um posfácio em prefácio, quiçá demasiado revelador, onde a palavra “verdade” se ergue acima de qualquer outra. Por vontade própria, Zimler quis que o leitor fosse o primeiro a saber ao que ía, se situasse no drama que foi a descoberta de uma doença para a qual não havia cura, sentisse a dor e o medo de quem sabe que vai morrer, para então se entregar à leitura sem reservas ou preconceitos, antes de forma cúmplice, solidária.

Vertido numa longa carta, “Insubmissos” não é um livro fácil. A questão da homossexualidade – aqui abordada de forma crua – e a carga emocional que envolve a narrativa, impedem o leitor de se sentir confortável e encontrar sérias dificuldades na distinção que faz daquilo que é real do que é ficção. A personagem do Professor, por exemplo, é indissociável da figura do próprio Zimler. É ele que vemos a olhar-se ao espelho, a entregar-se a um amante, a reagir às ofensas ou a enfrascar-se de Valium. Talvez o autor não tivesse querido “impor-se” de forma tão clara, mas a impressão que passa é essa. E ainda bem. Seguimo-lo – e, com ele, seguimos também Miguel e António, pai e filho – e aprendemos com eles a mergulhar no nosso próprio eu, ao encontro de valores tão caros como a humildade, a coragem, a franqueza e a amizade.

Não deixa de ser significativo o facto de este livro ter esperado mais de vinte anos para ser lançado em Portugal. As razões para este “atraso” estão igualmente explicadas no prefácio e prendem-se com a sociedade fechada e tacanha que é a nossa – se nos lembrarmos que o inenarrável Sousa Lara, poucos anos antes, vetara a candidatura de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago, a um prémio literário europeu, por considerar que o livro ofendia a moral cristã, penso que está tudo dito. Por outro lado, é profundamente irónico que o livro seja lançado em plena pandemia de Covid-19, permitindo fazer a ponte com a pandemia de VIH e dizendo-nos, claramente, que as coisas não acontecem apenas aos outros. Pela sua lucidez, inteligência e verdade, “Insubmissos” merece uma leitura atenta e empenhada. Ele tem, certamente, algo de muito importante para dizer a cada um de nós.