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domingo, 16 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Interseções" | Júlio-Saúl Dias



EXPOSIÇÃO: “Interseções: em torno da expressão artística. Pintura, desenho, dança, música e poesia na obra de Julio”,
de Júlio-Saúl Dias
Curadoria | Bernardo Pinto de Almeida, Laura Garrido e Caetano
Centro de Memória de Vila do Conde
21 Mar > 27 Set 2026


Há exposições que confirmam as nossas expectativas e outras que as desmentem pelas melhores razões, ao descobrirmos nelas algo de mais estimulante. Está neste último caso “Interseções: em torno da expressão artística. Pintura, desenho, dança, música e poesia na obra de Julio”, patente no Centro de Memória de Vila do Conde. Quem, como eu, ali entrar à procura do pintor Julio, e sobretudo do artista de recorte mais assumidamente surrealista, começará por estranhar a presença dominante do desenho. São muitos os desenhos, frequentemente organizados em séries, por vezes insistindo sobre uma mesma figura, um mesmo gesto ou uma mesma situação, como se o artista necessitasse de voltar sucessivamente ao papel para fixar aquilo que a pintura, pela sua própria natureza, tornaria mais definitivo. Ao longo de cento e sessenta e três obras, entre pinturas, desenhos, manuscritos, publicações e objectos do atelier, “Interseções” revela um Julio menos compartimentado do que a memória que dele guardamos. A mostra, com curadoria de Bernardo Pinto de Almeida e Laura Garrido e Caetano, não se limita a reunir peças de diferentes períodos: propõe uma leitura capaz de fazer perceber como, em mais de cinco décadas de actividade, a pintura e o desenho foram mantendo entre si uma relação de permanente contaminação.

A surpresa maior está, por isso, em perceber que aqueles desenhos que à partida poderiam parecer estudos, apontamentos ou exercícios de uma outra ordem são, afinal, uma espécie de território onde as várias dimensões da criação de Julio se encontram. A linha pode sugerir o movimento de um corpo, a cadência de um gesto, a repetição de uma frase musical ou a atmosfera de um poema. Há uma evidente vocação coreográfica em muitas dessas figuras, uma atenção ao corpo e à sua transformação que aproxima o desenho da dança; há também uma dimensão rítmica, quase musical, na sucessão das formas e na maneira como o artista explora a repetição, a variação e o silêncio. E há a literatura, não apenas porque Saúl Dias foi também poeta, mas porque palavra e imagem parecem nascer, em diversos momentos, de uma mesma necessidade expressiva. A organização da exposição em quatro núcleos — pintura e desenho, dança, poesia e música — evita uma leitura cronológica e favorece justamente esse trânsito entre linguagens. A “Revista de Baltar”, realizada em 1914 com José Régio, a correspondência e as publicações poéticas, o óleo de 1918 que agora volta a ser mostrado e até o bandolim do século XIX, exposto pela primeira vez, funcionam menos como curiosidades do que como peças de um mesmo universo. É nesse cruzamento que Julio ganha uma outra espessura: a do artista que não cabe inteiramente numa disciplina e cuja obra parece pedir que se escute o que se vê.

Nisto reside a grande virtude de “Interseções”: devolver a Julio a complexidade que a própria designação de pintor, por mais justa que seja, acaba por ocultar. A exposição encontra na Galeria Julio, instalada no Centro de Memória, um lugar particularmente feliz para essa revisitação. A cidade está profundamente ligada à preservação e à divulgação da sua obra, e as salas que lhe são dedicadas constituem não apenas um espaço de memória, mas uma presença cultural que permite olhar para Julio com continuidade e proximidade. “Interseções” aproveita essa relação para propor um percurso que não pretende encerrar a obra numa explicação única. Pelo contrário: deixa que as linguagens se aproximem, se contaminem e, por vezes, se confundam. O visitante que, como aconteceu comigo, chega à exposição em busca da pintura, sai com a sensação de ter descoberto várias portas de entrada para ela. Porque os desenhos não são aqui um parêntesis nem uma margem da obra pictórica: são a sua maior chave. Na simplicidade de uma linha ou na complexidade de uma composição, no corpo que parece dançar, no ritmo que a imagem sugere ou na palavra que permanece próxima, reconhece-se afinal o mesmo artista. Um artista para quem criar foi, acima de tudo, uma forma de estabelecer relações entre o visível e o imaginado, entre a mão e o pensamento. Entre a pintura, o desenho, a dança, a música e a poesia.

sábado, 9 de maio de 2026

LIVRO: “Entra-se na casa pelo pátio” | Carla Louro



LIVRO: “Entra-se na casa pelo pátio”,
de Carla Louro
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Março de 2026


“hoje o caminho tinha um cheiro que não era dele
mas da minha infância
era um cheiro a pão misturado com cheiro a chão
e não era nenhum deles
escrevi-o
como se os cheiros se escrevessem
como se escreve uma recordação
que por instantes nos coloca de novo
no princípio da nossa vida”

“Entra-se na casa pelo pátio” é um livro que convoca o espaço da casa, abrindo-lhe portas e janelas como quem abre um verso - e um verso que se percorre como uma casa. A ideia não é simples metáfora, mas uma arquitectura íntima onde cada divisão corresponde a um gesto de linguagem, e cada objecto guarda a memória de um corpo que o tocou. “Entra-se na casa pelo pátio / como no verso”, escreve Carla Louro, nessa equivalência ancorando toda a sua poética. Mais do que cenário, o espaço doméstico é aqui matéria activa da escrita. A cozinha, sobretudo, surge como o centro gravitacional desse universo, lugar onde o tempo se mede em fervuras e esperas, onde o “cheiro a torradas” ou o “refogado com cebola alho e tomate” instauram uma gramática sensorial que antecede a palavra. A casa respira - e ao respirar, dita. Há uma disciplina silenciosa nos gestos de arrumar, de limpar o pó que “está limpo e limpa-se outra vez”, como se a repetição fosse uma forma de permanência e a permanência uma tentativa de compreender a vida. Longe de ser banal, o quotidiano transforma-se no lugar onde o poema germina, discreto, quase invisível, como um soalho que treme e que, nesse abalo, anuncia o início do ciclo de centrifugação da máquina de lavar roupa.

A casa não existe sem as linhas que a cosem, e é aí que o poema se revela enquanto ofício. A herança do avô alfaiate prolonga-se num labor paciente: “alinhavo as palavras nas folhas / como se fossem poemas”. Escrever é coser, desmanchar, voltar a coser - “nos medos / faço alinhavos mais largos / e deixo a ponta da linha sem nó / para poder puxar por ela e desmanchá-los a todos”. Há, neste gesto, uma recusa da fixidez e uma aceitação do erro como parte do processo criativo. O poema não nasce inteiro: constrói-se ponto a ponto, como uma peça de roupa que precisa de corpo para existir. E, tal como na costura, há um saber táctil, uma inteligência das mãos que antecede a consciência plena do que se faz. “Procuro o peso certo das palavras”, e essa procura é quase física, exige medir o ar, a voz, o silêncio que envolve cada sílaba. A linguagem tem densidade, tem temperatura, tem som; e só quando encontra o seu equilíbrio pode pousar na folha. Assim, o poema é expressão, mas é também matéria trabalhada, objecto que se afina até caber no mundo.

Entre a casa e o poema, há ainda o fio invisível das relações da escritora, sobretudo com a filha, cuja presença reconfigura ambos os espaços. É ela quem pergunta “de que cor são os novelos”, transformando a vida em interrogação e o poema em resposta provisória. A infância introduz um olhar inaugural, capaz de ver pedras “em forma de televisão” ou de dizer que o azeite “é que liga tudo”, revelando, com desarmante clareza, a essência da criação. Há sempre um elemento que une, que dá coesão ao disperso. Nesse sentido, a casa torna-se também lugar de transmissão, onde se aprendem, não só gestos, mas modos de ver. E o poema, por sua vez, torna-se herança em construção, algo que se carrega “na mochila”, mesmo quando pesa. Os diálogos preenchem-se de ternura, ganham consciência de que escrever é também cuidar, como quem faz uma canja para uma garganta dorida, ou diz palavras “com o cheiro da roupa passada”. Terna e delicadamente, “Entra-se na casa pelo pátio” oferece a ideia de que habitar e escrever são actos indissociáveis, ambos feitos de paciência, de atenção e de uma delicada insistência em dar forma ao que, de outro modo, se perderia. É de mansinho que o faz, envolvendo o leitor num abraço e convidando-o a entrar nesta que é, também, a sua casa.

terça-feira, 31 de março de 2026

CONCERTO | PERFORMANCE: “Poesia de Sons na Música das Palavras”



CONCERTO | PERFORMANCE: “Poesia de Sons na Música das Palavras”
Coordenação | Maria João Cartaxo
Com | João Martins (bateria), Inês Lamela (piano e teclados), Gabriel Neves (saxofone)
Declamadores | Andreia Lopes, Aurora Gaia, Carlos Baldaia, Carlos Rainha, Diogo Costa Leal, Diogo Pinto, Eva Estrela, Fernando Pinto, Hélder Ramos e Joaquim Margarido
Dia Nacional dos Centros Históricos | Semana da Leitura / Plano Nacional de Leitura
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
28 Mar 2026 | sab | 16:00


Entre as paredes vivas do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, um raro instante de comunhão brotou. Nele, a palavra respirou música e a música encontrou corpo na palavra, como se ambas regressassem a uma origem comum, anterior a tempos e silêncios. “Poesia de Sons na Música das Palavras” foi mais do que um concerto-performance. Foi um território sensível onde as sílabas ganharam pulsação e os sons aprenderam a dizer, num diálogo íntimo e colectivo, que fez da arte um gesto partilhado. Como sugeria o eco de Voltaire, a poesia revelou-se música da alma e a música, poema em expansão, numa celebração que rasgou fronteiras e convocou o público nessa travessia. Houve ritmo nas pausas, melodia nos olhares e uma espécie de respiração comum que se instalou entre quem disse e quem escutou, nesse propósito de abraçar instantes e dissolver distâncias. A palavra, dita por vozes múltiplas, deixou de pertencer a quem a escreveu para passar a habitar o coração do público. Nesse instante, a Casa tornou-se mais do que memória literária. Ela foi presente vivo, laboratório de criação, mesa posta onde a arte se deixou saborear. O momento foi de encontro, mas foi sobretudo um princípio, uma semente lançada à terra fértil da comunidade, trazendo em si a certeza da germinação em futuras celebrações de cometimento, reinvenção e partilha do indizível.

Nos poemas - diversos como constelações dispersas e, ainda assim, ligados por invisíveis linhas de sentido -, foi possível encontrar uma unidade feita de desejo, perda, reinvenção e espanto. Da flor de sílabas de Nuno Júdice nasceu o próprio gesto criador, como se cada poema declamado fosse colhido no instante exacto em que a linguagem se fez vida. Dessa matéria brotou, também, a saia infinita de liberdade e infância, onde cabem relâmpagos, paz e revolução, numa dança luminosa que atravessa o corpo e o mundo. Houve quem pedisse um novo amanhã, rasgando o real com imagens febris - girassóis-coração, ventos, constelações -, numa urgência de existir para além dos limites; e quem, na dureza da ausência e da pobreza, reinventasse o Natal como último reduto do amor, no qual o outro é abrigo. A dor íntima, quase indizível, cruzou-se com o erotismo da espera, com o corpo preparado como oferenda e ausência, com a memória que regressa em palavras mortas e silêncios cheios. Entre papoilas e bicicletas, entre rosas levadas no risco do caminho e diálogos nocturnos onde o amor hesita mas resiste, desenhou-se um mapa profundamente humano, feito de dádiva e perda, desejo e resistência, luta e liberdade. E nele, a lição serena de aceitar o mundo inteiro, contraditório e natural, como quem aprende a respirar dentro da própria imperfeição.

No Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, a arte deixou de ser objecto distante para se tornar experiência comum, tecido vivo entre pessoas que se escutaram e se revelaram. Poema após poema, essa aura ganhou uma energia quase palpável, literatura e música entrelaçadas como se sempre tivessem pertencido uma à outra. O “milagre” deveu-se, em grande medida, ao trabalho de coordenação de Maria João Cartaxo e à inspirada colaboração de João Martins, Inês Lamela e Gabriel Neves, cuja sensibilidade na composição e interpretação das peças musicais foi sólida argamassa capaz de unir os poemas, de os iluminar e expandir, oferecendo-lhes novas camadas de sentido, como se cada nota abrisse espaço para outra respiração da palavra. Ao lado dessa construção sonora, ergueu-se a força dos declamadores: vozes seguras, maduras, de presença firme, convivendo com outras ainda em nascimento, mais frágeis talvez, mas igualmente verdadeiras. Nesse encontro de experiências, residiu a beleza maior do momento, porquanto a comunidade é feita de risco, de escuta, de partilha. “Poesia de Sons na Música das Palavras” revelou-se uma novidade necessária e fecunda, capaz de gerar continuidade, de criar raízes e de deixar no horizonte, em firme promessa, frutos densos, inesperados, perfumados de humanidade.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Olívia Clara Pena



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Olívia Clara Pena
Leituras | Isabel Marcolino, Teresa Teixeira, Gabriela Sá e Fernando Ramos
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
16 Dez 2025 | ter | 17:00


Num ano recheado de “Conversas às 5”, coube a Olívia Clara Pena a “última palavra” no fecho de um ciclo que trouxe ao Centro de Reabilitação do Norte, ao longo deste ano, poetas e ficcionistas, artistas plásticos, cineastas, músicos, fotógrafos e pensadores. Com direito a pinheirinho de Natal e luzinhas a piscar, a sala encheu-se para escutar a autora de “Amor e Outros Desencontros” e beber, em ambiente intimista, quase confessional, “o amor e outras delicadezas vertidos em palavras”. “Sou mãe, professora, bióloga, escrevo poesia e adoro dizer poesia”, começou por afirmar Olívia Clara Pena, em jeito de apresentação, para de seguida se virar para o seu trabalho poético, para um livro que surgiu “de forma inusitada”, fruto de um processo de crescimento gradual e que teve no período da pandemia um enorme incremento. “Escrevia porque precisava de escrever”, referiu a poetisa, para quem “a escrita é uma coisa compulsiva”. Os muitos escritos que foi reunindo serviram de base, primeiramente, a uma série de poemas e ilustrações, enviados para os interessados sob a forma de “cartas de amor”. De seguida, à poesia juntou-se a música, reveladora de mais uma faceta de Olívia Clara Pena (para além do seu gosto pela dança). Os muitos estímulos para escrever foram combustível que alimentou o fogo criador e o livro, ainda que não pensado inicialmente, acabou por surgir em 2024, editado pela Cordel D’ Prata.

A cargo do moderador, a apresentação de “Amor e Outros Desencontros” enfatizou a verdade que as palavras encerram e a sensibilidade da autora nesse processo sempre delicado de verter nas páginas do livro o amor e o fulgor, a presença e a falha, o corpo e o desejo, o tempo e a finitude. A partir daqui, o diálogo abriu-se a um conjunto de convidados que, de forma inteiramente livre, celebraram a poesia de Olívia Clara Pena, dizendo cada um alguns poemas da sua preferência. “ (…) há amigos que são pétalas de chuva / labirintos de ternura / florescem-nos viçosos / em cada redondo poro // e há aqueles que são cura / de dias de desventura // e aqueles que são trilhos / vibrantes desconhecidos // e há aqueles que são trova / que são bailado e são canção // e há os amigos / que ficam / que resistem / e persistem / que nos arejam por dentro / como se fossem feitos / apenas de ar puro.” Tornado Sarau Poético, o momento ofereceu-se à poesia em toda a sua plenitude, com Olívia Clara Pena a “abrir as hostilidades” e a declamar “Amigos”, colocando uma primeira e significativa pedra num edifício de emoções feito e que, até ao final da sessão, não mais cessou de crescer.

“Escondi as palavras ocas e sem retorno / frouxas e sem cor / flácidas. // Quero apenas palavras fecundas / Que trazem brilho nos olhos e maciezas na pele, / Serenas, apaziguadoras / Um presente”. Na esteira da palavra, Isabel Marcolino deu voz à poesia de Olívia Clara Pena, passando o testemunho aos diseurs seguintes. Fernando Ramos trouxe “A esperança”, “às vezes, (…) um sorvedouro de vida”; Gabriela Sá disse “Adeus” e Teresa Teixeira fez do momento uma “Prece e Anunciação”: “A poesia feminina / escava fendas no misterioso oculto / tem dias que é prece / e outros que é / anunciação.” Terminada a primeira ronda de poemas, novo momento de conversa, desta vez juntando a poesia ao universo da mulher. Para a poetisa, “sendo distintos os mundos masculino e feminino, em tempos de maiores dificuldades, de restrições à liberdade ou de ameaças à democracia, as mulheres são sempre quem mais sofre.” Maria Teresa Horta, Natália Correia ou Clara Pinto Correia são referidas como exemplo das ameaças que pendem sobre as mulheres, em particular sobre aquelas que arriscam, através da poesia ou de outras formas de arte, dar voz ao corpo e ao desejo. Olívia Clara Pena não escapa, com este livro, a uma certa afirmação política da sua poesia: “O fugirmos ao plano das ideias e ao confronto agressivo, o abraçarmos um lirismo fora de moda, o falar de forma doce, real, com o corpo, é um gesto político”.

Chamando ao palco a poesia de Olívia Clara Pena no início de nova vaga de emoções, Gabriela Sá trouxe consigo uma pergunta: “Como posso eu dizer-te adeus?”. Teresa Teixeira disse “ (…) um poema / de amor / e / de amar”, em “Oração”. Isabel Marcolino mostrou o “seu” poema, “Casa”: “O quarto / simples e nu / portadas de borboleta / Cheiro ameno e carmesim / fresta de luz e ternura.” Fernando Ramos fechou a ronda com “ (…) chuva / delicada e persistente / antevendo o convite / entre os pingos e a folhagem.” A sessão abriu-se às questões do público, nomeadamente na figura da “morte”, implícita na poesia da autora, que com ela tem “uma relação pouco apaziguada, de dificuldade em aceitar essa dimensão que nos toca”. Outra questão remeteu para o “silêncio” na sua poesia, visto pela autora em “duas dimensões”: Uma “luminosa”, nos espaços que abre à escuta e à reflexão; outra de “ausência, de um fim de comunicação, de separação”. A convidada encerraria a sessão lendo “O Tempo”, “(...) esse conceito abstracto / compasso de sonhos / carrasco d’ausências / doce e amigo / tempestade e raio de luz.” Francos e generosos, os aplausos irromperam e houve lugar a “encore”, primeiro com um apontamento em forma de poema, da autoria de Isabel Marcolino, um “roubar títulos” de homenagem à poeta. “No burburinho dos juncos / (…) no silêncio das papoilas”, um derradeiro poema lido por Olívia Clara Pena - ainda e sempre o amor - encerrou da melhor forma a sessão, gravando nos presentes as suas palavras: “O vento da serrania sussurra-me o teu amor, / Tão simples, / Tão leve, / Como este fluído que me corre nas veias.”

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

CONCERTO: "Canções para Beber com Pessoa" | Ana Deus e Luca Argel



CONCERTO: “Canções para Beber com Pessoa”,
de Ana Deus e Luca Argel
XI Festival Literário de Ovar
Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2025 | qui | 22:30


Fernando Pessoa fez-se forte presença no Festival Literário de Ovar na música e na voz de Ana Deus e Luca Argel. Intitulado “Canções para Beber com Pessoa”, o concerto da dupla fechou o serão do segundo dia do certame, dando a ver uma das facetas menos conhecidas, mas não menos importantes, do poeta, ensaísta, dramaturgo, inventor, crítico literário e publicitário: a de tradutor. Desde a Pérsia do século XI, os “Rubaiyat” do poeta Omar Khayyam atravessaram quase um milénio de tempo e de linguagem até chegarem às mãos de Fernando Pessoa, pela recriação inglesa de Edward FitzGerald. Mais do que uma simples tradução, o encontro de Pessoa com os “Rubaiyat” transformou-se numa experiência literária e sensorial, um jogo livre de reinterpretação onde o vinho, a dúvida e o deslumbramento se entrelaçam numa contemplação do mundo que tanto revela a sua beleza efémera como se abre num abismo ontológico, onde nem mesmo Deus parece alcançar razão. Um século depois, estes poemas ressurgem reinventados pelas vozes de Ana Deus e Luca Argel, mergulhando nos delírios filosóficos e hedonistas do poeta e vestindo-os com uma roupagem contemporânea, onde palavra, som e silêncio se entrelaçam numa nova forma de escuta e celebração.

Não é a primeira vez que Ana Deus e Luca Argel investem o seu talento na obra pessoana. Versos, estrofes e toda uma panóplia de histórias de Fernando Pessoa ganharam uma nova vida no álbum “Ruído Vário”, a convite da Casa Fernando Pessoa, editado em 2017. Poemas bem conhecidos como “Liberdade”, “Na Ribeira Deste Rio”, “Entre o Sono e o Sonho” ou “Ó Sino da Minha Aldeia” ganharam assim uma nova dimensão, ampliando e colorindo a obra daquele que é amplamente considerado como um dos maiores poetas portugueses do Século XX. Regressar a Pessoa foi quase uma “obrigação” para a dupla, fascinada com o trabalho de tradução livre do poeta sobre os “Rubaiyat”, considerado o livro que contém mais notas manuscritas por Pessoa, em toda a sua biblioteca particular. No pequeno palco da Escola de Artes e Ofícios, em formato intimista (duas vozes e uma guitarra), a intensidade e presença cristalina da voz de Ana Deus juntou-se à delicadeza e doçura, já bem conhecidas, da interpretação de Luca Argel, convidando o público a saborear quinze canções praticamente inéditas, nas quais as palavras de Fernando Pessoa foram servidas em pequenas doses refrescantes.

Tema inaugural do concerto, “O Som das Águas” serviu de aperitivo a uma noite de sedução e encanto. As canções seguintes - “É Inútil Dizer”, “Ouvi os Sábios” e “O Grande Espaço Azul” - pareceram querer dizer: Bebe! Bebe! Um beber que, nas palavras e na música de Ana Deus e Luca Argel, se traduz em alegria, tranquilidade e amor. Na dolência de uma valsa ou no frenesim de um samba, é o carácter hedonista, contemplativo e profundamente filosófico do poeta persa que se revela, passando á prática essa ideia fundamental de aproveitar o presente, “pois o tempo é breve e a morte é certa”. “Fingi quem Fui”, “Endoidecendo”, “Melancolia” e “Não Fiz Nada” falam-nos mais de Pessoa que de Khayyam, tal como “Autopsicografia”, interpretado já no “encore” - “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. Desenhado com cuidado e bom gosto, o concerto oferece um conjunto de registos em vídeo que evocam a ideia de centriptismo, que atrai o público para o seu interior e o convida a pede que se deixe seduzir pela doce libação das palavras e da voz. Uma experiência sensorial deveras inebriante, que a todos tocou.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Teresa Teixeira



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”, 
Com | Teresa Teixeira 
Participação especial | Isabel Marcolino
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Abr 2025 | ter | 17:00


A poucos dias de festejar quatro anos de existência, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para um momento verdadeiramente especial. A grande novidade desta sessão deveu-se ao facto de, pela primeira vez, a convidada ser alguém presentemente internada no Centro, abraçando a conversa na qualidade de escritora, sem se distanciar da situação de doente. Nessa dupla função, as palavras de Teresa Teixeira adquiriram um novo e maior alcance, permitindo ver o lado salvífico da poesia como a expressão de um viver tanto mais intenso e estimulante quanto maiores os desafios e provações que encerra. “Menina de olhos tristes, / Que adivinha teu olhar, / Que naufrágios entreviste / Na placidez do teu mar?”. Pela voz de Isabel Marcolino, incansável respigadora e semeadora de poesia, o “Auto-Retrato” de Teresa Teixeira (do livro “Da Serena Idade das Coisas”, Ed. Temas Originais, 2012) abriu uma janela sobre a poetisa e sobre a inspiradora paisagem duriense, seu “nascedouro”. “É impossível não se ser poeta vivendo no Douro”, dirá a convidada na sua primeira intervenção, afirmando-se um produto dele - “está sempre no meu coração, está sempre na minha poesia” - e acrescentando ter um sonho: “Um livro meu, só com fotos e poemas ao Douro”.

Teresa Teixeira nasceu em Figueira, concelho de Lamego, beiral-sul do deslumbrante Douro. “É tão fácil ser poeta (…)”, escreveu um dia, ainda talvez inocente do suor implícito na ventura de o ser. Autodidacta e intuitiva (é de fé tranquila, a sua escrita de sensibilidades), reconhece, contudo, que construir obra poética é também labor, empenho, procura, cuidado. E entrega. Profissionalmente ligada ao sector bancário, foi deixando a vida amadurecer-lhe o gosto de escrever, e só recentemente começou a aventurar-se no meio literário, tendo participado em várias Colectâneas de Poesia, em Portugal e no Brasil. Entre alguns destaques, foi a vencedora, em 2011, do I Concurso de Poesia da Associação Cultural DRACA, de Palmela, que lhe valeu a publicação do seu primeiro livro, “Da serena idade das coisas”. Em 2014, publicou, a convite, o livro “Voo Livre”, sob chancela da editora Versbrava. Ainda em 2014, venceu o XIX Concurso de Poesia da APPACDM de Setúbal, de cujo prémio resultou a publicação de “Labiríntimos”, sob patrocínio da editora Lua de Marfim. Feitas as apresentações, voltemos de novo o olhar para a vida e para os poemas, uma e a mesma coisa no universo multifacetado da escritora.

“Sempre escrevi para mim, para as gavetas, para os bolsos, para deitar fora.” A conversa prossegue e percebemos que o material acumulado, muito dele “poemas de amor” a uma filha “que me levou para a poesia”, viria a servir de base para a publicação de um primeiro livro, graças ao prémio num concurso literário. Depois desse “sonho cumprido”, os livros de poesia foram-se sucedendo, trazendo neles o viver e o sentir de Teresa Teixeira, em amor e em verdade. Na batalha da vida - “(…) a batalha começa aqui, sempre / na cruz que a minha arma marca no chão” -, a escrita serve de “analgésico” contra a tristeza, a amargura e a saudade, deixando transparecer a doçura, o amor e a gratidão. Fruto de um espírito intuitivo e eclético, os poemas tanto nos falam dos sons do silêncio como de sinos ao vento, deixando perceber que “escrever é um exercício de mente”. Nos cruzamentos de linhas e palavras, a poesia de Teresa Teixeira encontra-se com António Gedeão e Mia Couto, Fernando Pessoa, Manuel Alegre e, inevitavelmente, Miguel Torga. Nesse “palavra puxa palavra”, a autora confessa que “há versos de muitos poemas que toda a vida ouvimos, que fazem parte de nós, e com os quais gosto de brincar, modificando-os, indo por outro caminho”.

“Trabalho muito, não me sobra tempo para a poesia”. A resposta ao desafio de um elemento da assistência teve o condão de chamar a atenção para a realidade de quem está internado no Centro e se entrega com afinco a complexos e exigentes programas de reabilitação. Lembrar que, entre a assistência, “há quem já tenha seis horas ou mais de trabalho intenso, num dia que começa muito cedo, e que dispensou um momento de merecido repouso para poder estar aqui”, foi tarefa do moderador, levando a plateia a reagir com uma calorosa salva de palmas. Com a conversa a caminhar para o final, percebeu-se que no público haveria “algumas pessoas que gostariam de ler poemas da Teresa”, podendo ser esta “uma forma de trazer para o Centro mais pessoas que gostam de dizer poesia”. Bem aceite por todos - houve mesmo quem sugerisse a gravação de leituras para pessoas com incapacidade em ler -, a ideia levou a que, a Isabel Marcolino, se juntassem Gabriela Sá, Conceição Lima e Alzira Santos, fazendo da leitura a muitas vozes um momento de emoções partilhadas, de exaltação da poesia e de amor à vida. Saiu-se da sessão de coração cheio, nesta abraço a Teresa Teixeira. Ficamos com um desejo seu: “Que seja procura, sempre, o caminho - a Poesia é um Horizonte belo demais para se perder de vista, caleidoscópico demais, para se definir em cores óbvias ou definitivas.”

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Aurora Gaia



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Aurora Gaia
Participação especial | Tomás Caroço (piano)
Centro de Reabilitação do Norte
25 Fev 2025 | ter | 17:00


Quando temos fome, o que fazemos é sair à procura de comida. Tem sido assim desde tempos imemoriais, sabendo nós que a produção de alimentos foi a razão pela qual os seres humanos abandonaram o nomadismo e formaram comunidades. Aliás, a própria conformação do corpo humano é fruto da evolução alimentar, na medida em que a necessidade de colher alimentos em pontos cada vez mais altos levou à progressiva alteração da postura física. Mas não é de antropologia que quero falar hoje, nem de necessidades físicas, antes da fome de cultura e da consequente busca de alimento para o espírito. Fome, entenda-se, motivada por um vírus louco que, nos períodos mais críticos, barrou o acesso ao teatro e à dança, ao cinema e aos concertos, às galerias e museus, às conversas e tertúlias. Ora, “se Maomé não pode ir à montanha, pois que venha a montanha a Maomé”, que o mesmo é dizer que dessa fome nasceram as Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, persistente prova de amor aos livros e à literatura, a completarem agora o bonito número de vinte edições.

Antes de abordar uma sessão verdadeiramente especial, importa render homenagem e abraçar com a maior emoção e gratidão aqueles que ajudaram a erguer e a consolidar estas “conversas”. Desde logo os escritores Sandra Barão Nobre, Sérgio Almeida, Miguel Araújo, Gustavo Carona, Álvaro Domingues, Minês Castanheira, Pedro Guilherme-Moreira, Rosa Alice Branco, Marta Duque Vaz, André Domingues, Valdemar Cruz, Isabel Rio Novo, Aurelino Costa, Diogo Leite Castro, Cláudia Cruz Santos, Marta Pais Oliveira, Dora Gago e, em dois momentos distintos, João Luís Barreto Guimarães. Foram eles que, desde esse longínquo 27 de Abril de 2021, abriram portas à magia e ao sonho que só os livros podem conter, falando do seu mester, dando a ver as suas obras, falando de outros autores, de outros livros, de novas viagens. Importa estender o agradecimento às muitas centenas de participantes que nos têm dado o prazer da sua presença, mas também àqueles que fazem com que as tertúlias aconteçam, da Administração e Direção Clínica do Centro aos muitos colaboradores nas mais diversas unidade de internamento e áreas terapêuticas.

Em tempo de celebração, a poetisa Aurora Gaia e o pianista Tomás Caroço foram os ilustres convidados de uma sessão que se constituiu num abraço à poesia e à música. Aurora Gaia nasceu no Porto, a 7 de setembro de 1938, tendo vivido longos anos em Gaia e atualmente a viver no Furadouro, Ovar. Desde sempre associada a projetos de cariz cultural, desenvolveu a sua atividade profissional na televisão como caracterizadora. Tem o seu nome ligado ao teatro, em peças como “Um cálice de Porto”, “A dama de copas” e “Felizmente há luar” e ao cinema, tendo participado em longas, médias e curtas metragens, entre as quais se destaca o filme “Uma relação fiel e verdadeira” de Margarida Gil. Publicou dois livros de poesia “E por isso eu amo tanto a Palavra” e “A Palavra na Arte”. Tomás Caroço é médico interno de Medicina Física e de Reabilitação no Hospital de Faro. Iniciou os estudos musicais aos 7 anos no piano, e aos 10 anos na viola d’arco. Concluiu a classe de instrumento (viola d’arco) na Escola de Música do Conservatório Nacional. Actualmente, dedica-se, entre outras áreas, à Medicina das Artes Performativas, tocando regularmente com a Orquestra Médica Ibérica.

“Palavras são como facas que trespassam os nossos sentidos”. Na beleza das palavras, na suavidade dos gestos e na delicadeza e harmonia dos sons, o tempo da sessão foi de emoção e encanto. Os poemas escolhidos foram pretexto para Aurora Gaia render homenagem a alguns poetas da sua predilecção, de João Luís Barreto Guimarães a Eugénio de Andrade, de Aurelino Costa a Amadeu Baptista ou a António Gedeão. “Simplesmente Aurora”, tornada “Gaia” pela “falta de estética” do apelido Carvalhais, Aurora Gaia quis mostrar também alguma da sua poesia e, simultaneamente, mostrar-se a si mesma no amor e apego aos outros, chamando para o pé de si a actriz Luísa Pinto ou a fotógrafa Lauren Maganete. A música foi-se imiscuindo nos poemas e António Pinho Vargas fez-se ouvir em duas peças muito belas, “Tom Waits” e “Dança dos Pássaros”. Chick Corea e um mexido “Armando’s Rhumba” foi outra das peças interpretadas, sendo ainda possível, em fim de festa, ouvir “The Heart Asks Pleasure First”, um dos mais inspirados temas de Michael Nyman. O melhor, porém, chegaria justamente no fim, com Aurora Gaia a cantar uma pérola do Cante, “Para Que Quero Eu Olhos”. Sim, a cantar - “(…) oh és tão linda, oh és tão formosa” - e a encantar. Memorável!

sábado, 21 de dezembro de 2024

TERTÚLIA LITERÁRIA: “Tomai lá do O’Neill!”



TERTÚLIA LITERÁRIA: “Tomai lá do O’Neill!”
Com Aurora Gaia
Agrupamento de Escolas de Ovar Sul
Biblioteca Escolar Júlio Dinis
19 Dez 2024 | qui | 18:30


“Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.”
Alexandre O’Neill. Excerto de “Ao Rosto Vulgar dos Dias”, in “No Reino da Dinamarca

Escritor autodidacta, escultor de palavras, publicitário brilhante, Alexandre O’Neill foi um dos grandes vultos da literatura portuguesa do século XX. Com Mário Cesariny, António Pedro, Moniz Pereira e outros, fundou o Movimento Surrealista de Lisboa. Entre poesia e prosa, traduções e antologias, escreveu muito, apaixonou-se muito, amuou muito. “Moreno português, cabelo asa de corvo”, sustentou que a regra é não haver regra. Perfilou-se de medo, seguiu o cherne, povoou de gaivotas o céu de Lisboa, deu novos sonhos à vida e fez da morte um lugar-comum. Nunca deixou de lançar um olhar irónico sobre este “País Relativo” (o que lhe valeu ter sido preso pela PIDE por diversas vezes), vertido em palavras que deixam entender o quotidiano mesquinho de um “modo funcionário de viver”. Autor de “Uma Coisa em Forma de Assim”, “Feira Cabisbaixa” ou “Um Adeus Português” – no qual lavra o epitáfio “Aqui jaz Alexandre O'Neill/ Um homem que dormiu muito pouco/ Bem merecia isto” –, faria anteontem 100 anos, caso tivesse tido pachorra para tanto.

A assinalar a efeméride, o Agrupamento de Escolas de Ovar Sul teve a iniciativa de promover uma sessão evocativa aberta à comunidade escolar. No acolhedor espaço da Biblioteca da Escola Secundária Júlio Dinis, a sessão arrancou com a projeção de “E Se Um Dia a Liberdade…”, curta-metragem de animação coordenada por João Católico e que envolveu alunos e professores de cinco escolas dos concelhos de Espinho e Ovar. Momento inaugural inteiro e lindo, o filme fez-nos recuar a 25 de Abril de 1974, convidando a olhar o antes, o durante e o após a libertação da ditadura. A primeira parte mostra-se preciosa num grafismo delirante, no cruzamento original da poesia de O’Neill e de Natália Correia e nas muitas camadas que encerra, feitas de mensagens subliminares e “private jokes”. A segunda parte segue os passos de Celeste Caeiro, a mulher que ofereceu cravos aos soldados, fazendo com que as armas florissem no “dia em que imergimos da noite e do silêncio”. O “hoje” dá-nos uma visão orwelliana de um mundo cinzento, as pessoas fechadas sobre si mesmas, cada vez menos capazes de pensar pelas próprias cabeças, submissas a um “big brother” insaciável que quanto mais as conecta às redes sociais, mais as afasta da realidade.

“Há palavras que nos beijam / Como se tivessem boca. / Palavras de amor, de esperança, / De imenso amor, de esperança louca”. Entre uma belíssima caricatura, da autoria de Adélia Oliveira, e um conjunto de trabalhos espalhados pela sala, ilustrativos de uma forma diferente de ler Alexandre O’Neill, poesia e prosa preencheram o momento seguinte, nas vozes das Professoras Manuela Bastos e Ana Maria Ferreira e, também, do Gustavo e da Rita, do Vasco, das duas Leonores, da Joana, da Matilde, do André Maia. Convidada especial, a poetisa e actriz Aurora Gaia encerrou a sessão, trazendo um “inusitado alinhavado de memórias”, nele avultando a sua relação profissional com a cineasta Noémia Delgado, que foi casada com Alexandre O’Neill. Também aqui a poesia não podia faltar e, na sua forma única de declamar, Aurora Gaia pintou, com gestos e palavras, “Um Adeus Português”, “O Emigrante”, “Ode à Liberdade” e “Gaivota”, este último a convocar a música de Alain Oulman e a voz de Amália. Encerrada a sessão, os momentos finais foram de convívio, à volta de uma “Mesa dos Sonhos”, recheada de acepipes. Cantam-se os parabéns aos 100 anos do poeta, parte-se o bolo. Brindo com um cálice de Porto, despeço-me. Para trás fica O'Neill e as pessoas bonitas que tão bem o souberam lembrar. Fica a biblioteca e o momento “onde vi o necessário onde aprendi / que só entre os homens e por eles / vale a pena sonhar”.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (V)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Adriano Cerqueira, Alexandre Rosas, Ana Isabel Gonçalves, Carlos Nuno Granja, Dénis Conceição, Elisabete Pinho, Eltânia André, Jorge Reis-Sá, José Pereira Pinto, José Vaz Nunes, Luísa Sobral, Mafalda Mota, Mantraste, Marcelo Teixeira, Maria Saraiva de Menezes, Miguel Marques, Ozías Filho, Patrícia Furtado, Paula Pina, Pedro Guilherme-Moreira, Rosário Alçada Araújo, Teresa Carvalho
Parque Urbano de Ovar, Centro de Artes de Ovar
22 Set 2024 | dom | 10:00 e 14:30


“Esta décima edição do FLO foi a melhor de sempre”. Proferida no discurso de encerramento do Festival Literário de Ovar, a afirmação é de Carlos Nunos Granja, a alma (e uma boa parte do corpo) do FLO. Uma afirmação que exprime o sentimento geral de quem acompanhou o Festival ao longo de cinco longos dias, deliciando-se com uma oferta rica, variada e de enorme qualidade, apreciando a sua dinâmica, vivendo as histórias de Ozías Filho, a poesia de Lauren Mendinueta, os contos de Marta Hugon, os livros infantis de Rosário Alçada Araújo ou a música de Jorge Névoa, da mesma forma que se emocionou com Camões, Pessoa ou Agostinho da Silva, no sentir e nas palavras de António Manuel Ribeiro e Maria José Quintela, Ana Isabel Marques e José Emílio-Nelson, Aurora Gaia e Jorge Reis-Sá, entre tantos outros. Numa altura em que se começa a construir a edição que assinalará uma década de Festival Literário de Ovar, o sucesso destes dias constitui o maior estímulo para quem vem pugnando, ano após ano, por mais e melhor FLO. Numa óptica de crescimento do Festival, a tão falada internacionalização já no próximo ano encerra enormes desafios, mas é uma aposta ganha à partida dada a forma como a marca FLO se soube afirmar e consolidar no circuito dos grandes festivais literários do país.

No último dia do Festival, o Parque Urbano de Ovar abriu-se aos mais pequenos “com sol entre os dedos, com estrelas nos olhos, e o vento aos segredos”. Histórias de encantar, desenhos mil, apresentações de livros e uma mesa temática preencheram um tempo de reflexão e partilha sobre aquilo que a literatura dita infantil pode significar no crescimento e desenvolvimento da pessoa e na sua forma de ver o mundo. José Vaz Nunes, Mafalda Mota e Luísa Sobral tiveram oportunidade de falar dos seus livros, com esta última a referir-se ao peso esmagador de certas palavras quando dirigidas a alguém de forma pejorativa ou maldosa. São as “palavras-elefante” que tantos estragos provocam na concepção que temos de nós próprios e do mundo e que muitos acabam por carregar toda uma vida. Com moderação de Carlos Nuno Granja, a mesa temática juntou Dénis Conceição, Rosário Alçada Araújo, Patrícia Furtado e Maria Saraiva de Menezes, quatro escritores dedicados à literatura infantil que, muito generosamente, partilharam a sua visão de um mundo particular no qual as palavras e as ilustrações se passeiam de mãos dadas. Um mundo de livros, reunido numa só frase por Rosário Alçada Araújo: “Um livro para crianças é um livro para todas as idades.”

A tarde dividiu-se pelo espaço exterior do Centro de Artes de Ovar, o Bar do CAO e o seu Auditório. Lá fora, as actividades continuaram a visar um público mais jovem com a apresentação do livro “Eureka! As descobertas que mudaram a ciência”, de Adriano Cerqueira, mas também uma sessão de contos com Ana Isabel Gonçalves e Paula Pina e ainda uma oficina de ilustração por Mantraste, artista visual com uma ligação estreita à Arte Urbana. Enquanto isso, o espaço do Bar mostrava-se pequeno para escutar a conversa com os escritores Ozías Filho e Eltânia André, na qual o moderador, Marcelo Teixeira, fez questão de manifestar o seu apreço por um festival que consegue reunir autores consagrados e muitos outros que dão os primeiros passos nas letras, sem esquecer “o apoio à actividade local”. E mais pequeno ainda ficou com o público que acorreu em grande número para ouvir José Pereira Pinto falar do segundo volume do livro “Associação Desportiva Ovarense - Clube Centenário: Uma Chama que Resiste”. Moderada por Teresa Carvalho, a última mesa do Festival juntou os escritores Pedro Guilherme-Moreira e Jorge Reis-Sá, voltando a chamar Camões para falar de vida e morte. Por fim, os “Sangue Suor”, projecto musical que junta as baterias de Ricardo Martins, Rui Rodrigues e Susie Filipe e que carregou de energia o Auditório do Centro de Artes. Um final em grande, sincopado e bem batido, feito de música que soube passear-se entre a alucinação da prosa e o fulgor da poesia.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (IV)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Ana Cristina Silva, Ana Isabel Marques, António Canteiro, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Beatriz Francisco, Carlos Nuno Granja, Célia Correia Loureiro, Cristina Marques, David Pintor, Diogo Carvalho, Dora Maria Nunes Gago, Emerenciano Rodrigues, Fernanda Cunha, Helena Ribeiro, Inês Viegas Oliveira, Jorge Valentim, João Eduardo Ferreira, José Emílio-Nelson, Lara Xavier, Lauren Mendinueta, Leandro Ribeiro, Luís Aguiar, Manuel Halpern, Patrícia Ribeiro Martins, Paulo Romão Brás, Pedro Almeida Maia, Renata Bueno, Rosário Alçada Araújo, Susana Amaro Velho, Victor Oliveira Mateus, Yana Marques, Zetho Cunha Gonçalves
Parque Ambiental do Buçaquinho | Museu Júlio Dinis | Jardim dos Campos | Centro de Artes de Ovar
21 Set 2024 | sab | 10:00, 14:30 e 21:00


Dia grande. Dia em grande. Por tradição, o sábado é aquele dia que mais dilemas coloca ao público do Festival Literário de Ovar, já que a sua programação é um verdadeiro non-stop de apresentações de livros, conversas, oficinas, histórias contadas e mesas temáticas. Deste dia fizeram parte, ainda, a apresentação da terceira edição do concurso literário e de ilustração Júlio Dinis, uma visita guiada e encenada à antiga vila histórica de Ovar, uma peça de teatro e, a encerrar catorze horas intensas à volta dos livros e da leitura, um sarau de poesia “a meias”. A cafetaria do Parque do Buçaquinho abriu as suas portas ao público para a apresentação do livro “A Arte de Gostar de Ler”, de Carlos Nuno Granja, com a qual teve início o quarto dia do FLO10. Seguiu-se uma mesa temática dedicada à literatura infantil com as autoras Ana Isabel Marques, Inês Viegas Oliveira e Lara Xavier, moderada por Helena Ribeiro. Nela se falou do valor e dos valores que a escrita encerra e se partilharam histórias sobre a arte e o engenho de escrever para os mais novos. Enquanto isso, no verde e fresco espaço exterior, a escritora e artista visual Renata Bueno orientava uma oficina de ilustração na qual crianças e adultos davam asas à sua criatividade. A fechar o período da manhã, as atenções recaíram numa conversa com David Pintor sobre a arte da ilustração e ainda numa sessão de contos pela dupla “O Som do Algodão”.

Após o almoço, o FLO10 deixou o espaço verde do Buçaquinho e mudou-se para o Jardim dos Campos e para o Museu Júlio Dinis com mais uma mão cheia de propostas irrecusáveis. A tarde começou com a apresentação da terceira edição do concurso literário e de ilustração Júlio Dinis, seguindo-se uma mesa temática moderada por Jorge Valentim e que reuniu os escritores Dora Maria Nunes Gago, Lauren Mendinueta e Luís Aguiar para um exercício de reflexão em torno da escrita enquanto espaço de liberdade e de vida. Fernanda Cunha, João Eduardo Ferreira, Manuel Halpern e Paulo Romão Brás apresentaram, de forma brilhantemente encenada, excertos do volume 7 de “A Morte do Artista”, uma “revista literária de periodicidade eventual. José Emílio-Nelson falou do seu livro de poemas “Rosa Canina”, tendo ao seu lado o artista plástico Emerenciano Rodrigues, autor das ilustrações do livro, o poeta e dizedor Aurelino Costa que leu um escrito de Maria Estela Guedes e a poetisa Aurora Gaia que declamou dois poemas. Victor Oliveira Mateus conduziu uma nova mesa temática que juntou Ana Cristina Silva, António Canteiro e Pedro Almeida Maia em torno do processo de transformação de uma folha em branco em livro. Entretanto, no espaço exterior ao Museu, Carlos Nuno Granja apresentava o livro “Tralhas e Coisas do Sr. Loisas”, com ilustrações de Yana Marques, e Rosário Alçada Araújo falava de “Quem Me Dera Ser Assim”, ilustrado por Beatriz Francisco. Uma oficina de ilustração orientada por Nic e Inês e uma visita guiada e encenada à vila histórica de Ovar, por Leandro Ribeiro, fecharam as contas da tarde.

À noite, todos os passos foram dar ao Centro de Artes de Ovar. Diogo Carvalho foi o primeiro protagonista ao apresentar o seu livro “Sol”, vincando que “a Banda Desenhada não é um género, antes é um meio de comunicação.” Presença assídua nas andanças do Festival desde a primeira hora, Cristina Marques moderou a quarta e última mesa temática do dia. Sob o mote de Camões e daquilo a que o nosso maior poeta chamou “caminho da virtude”, o “alto e fragoso” caminho da escrita, as jovens escritoras Célia Correia Loureiro e Susana Amaro Velho partilharam as suas ideias sobre a escrita de ontem e de hoje, com a primeira a afirmar que “estamos a viver uma época dourada no sentido em que há muito interesse por parte dos leitores portugueses na literatura portuguesa” e a considerar iniciativas como o FLO a prova disso mesmo pela possibilidade que oferece aos leitores de “estar perante autores vivos, autores que ainda podem discutir a sua obra”. Perante uma sala completamente esgotada, a Yellow Star Company representou a peça “A Noite”, de José Saramago, com encenação e adaptação de Paulo Sousa Costa. Através dela, o público recuou à noite de 24 para 25 de Abril de 1974, mergulhando no espaço da Redacção do “Jornal de Lisboa” e vivendo os sentimentos opostos daqueles que manifestavam a sua fidelidade ao regime fascista e dos outros que sentiam nascer ali “o dia inicial inteiro e limpo”. Com os ponteiros do relógio muito para lá da meia noite, Aurora Gaia, Aurelino Costa e Zetho Cunha Gonçalves encerraram o programa com um momento de “Poemas a Meias”.

quinta-feira, 20 de junho de 2024

LIVRO: "Casa e Logradouro"



LIVRO: “Casa e Logradouro”,
de Aurelino Costa
Ed. Porto Editora, Fevereiro de 2023 (reimpresso em Junho de 2023)


“Só na tua mão, mãe,
principia o sinal
coberto pelo teu beijo.”

Mergulhar em “Casa e Logradouro” é – usando uma expressão por certo grata a Aurelino Costa – “pôr a mão na massa”. É penetrar no ambiente mágico de uma “carpintaria fitada em caracóis” e ver os “desejos transparentes no focinho do gado”. É “urinar contra o vento num circuito agudo de cheiro a mosto” e perceber “o inesperado, a graça na mão dos pobres”. É sentir o ondular do rio “nesta manhã de Novembro líquido” e orar “pelas almas do purgatório especialmente as mais abandonadas”… Composto por quarenta e quatro poemas que tocam as cordas da alma, “Casa e Logradouro” é uma viagem íntima aos lugares da memória, feita de serenidade e sobressalto, inquietação e júbilo. Com firmeza, o poeta conduz-nos através de uma paisagem orgânica, inteira, despojada, visceral, húmus de palavras com sabor a terra e a mar, de cheiros entardecidos e marés incendiadas. Convida a que a ela nos entreguemos, aconchegados no calor da dádiva, seguros da partilha como o bem mais precioso de um caminho que ainda agora aprendemos a trilhar.

Depois de “Pitões das Júnias” e “Amónio”, volto a Aurelino Costa e a uma poesia intensa e viva, que não dispensa o humor e a ironia. Que ama por igual o tosco e o delicado, o frágil e o bruto. Que vive e sente com uma simplicidade desconcertante e que oferece imagens tão belas como “o sol [que] avermelha a lua”, “o silêncio de que falam os teus olhos” ou “a fartura dos versos que das árvores pendiam como brasas”. Feitos de seda gumosa, os bichos da seda trazem com eles o mistério e o medo. A noite “agoniza os sonhos e trepa uivos de sombras pelas paredes”. Num tempo amalgamado, há cântaros e lamparinas de azeite, bonecos de madeira a decorar o Presépio, a palha do colchão, o toque do sino, nabos talhados a foice, a água que pinga de um ralo, uma nuvem aberta em lume brando, o forno do pão lacrado a bosta, uma flor que se bebe em tigela de tinto. Parece pouco este cão de língua de fora e duas balas no carregador de um revólver talvez já sejam demais. “Antes de falecer, a imortalidade é um gozo em minúcia e pária entre o que há-de vir e a estreita lucidez da morte. Uma bolometria esférica.”

Entre a casa e o logradouro, entre o sagrado e o profano, assim se move Aurelino Costa. Mas nem só do que vê e sente, daquilo que nele são recordações, vive a sua poesia. “Na ossatura desmesurada de um cansaço” leva-nos ao encontro da “miséria da escrita”, do esforço hercúleo, da impotência: “Escancarado ante a displicência da ignorância congénita à idade [o escritor] vai-se debruçado aqui e acolá olhando as couves do quintal”. As referências a personalidades do mundo da Literatura, da Música ou da Filosofia atravessam as páginas do livro: Carlos Paredes, Luis de Freitas Branco e Álvaro Cassuto, Paul Celan e Narciso Yepes, Franz Kafka, uma “fuga” de Bach, a paradoxia de Confucio. E ainda Eugénio, mais Lisboa do que Andrade, pois gatos não há no poema. Apesar da nostalgia que se adivinha nas camadas exteriores dos poemas, é no seu interior, musgoso e húmido, que encontramos uma realidade as mais das vezes crua e magoada. Mas é nesse lugar de encontro que apetece estar. “[A]té que o 33 desça da cruz e [n]os corra a todos”.

quinta-feira, 7 de março de 2024

LIVRO: "O Quarto Rosa"



LIVRO: “O Quarto Rosa”,
de Francisca Camelo
Coordenação | Maria Bochicchio, Nuno Brito
Ed. Editora Exclamação, Agosto de 2019


“hoje reparei que a tira magenta
da embalagem de rivotril
combina com as paredes
do meu quarto rosa:
foi a primeira vez que me deram
comprimidos com algodão
menina, é dormir tudo o que eu quero
não é morte o que vim comprar
só preciso de algum descanso, (…)”

Ao mergulhar neste “quarto rosa”, regresso às palavras de Francisca Camelo a abrir a penúltima mesa das Correntes d’Escritas. Recordo-lhe o tom de desânimo nesse pedido de desculpas por escrever poemas sobre tristeza quando lhe pedem poemas sobre liberdade. Estou ainda a ouvi-la falar do país, dos pais, de si e é como se fosse eu a falar do país, dos pais, de mim. Da estrada que corremos à procura de uma paragem e de só encontrarmos um semáforo. Vermelho. Parado. Há tanto tempo parado, um mar de gente que se acumula do outro lado da estrada. Como pedras, as palavras da poeta ferem o silêncio. Contam de um medo que “cheira a podre, mas segue vivo”. De ter calhado passar por aqui “a falta de dinheiro, o mercado flexível, a crise de habitação, o juro imprevisível”. “Já não se distingue pátria, estrada ou fome”, diz. Como diz que sem alegria não se fazem revoluções.

“aqui se faz a carne”. Leio devagar cada verso e reencontro-me com a aspereza das palavras que rasgam por dentro, a força da mensagem que arroja aos abismos da condição humana. Refúgio (subterfúgio?), o quarto é cada vez menos rosa nessa impotência de dizer não a quem oprime e agride, nessa raiva de atear a dor por calar a voz. O rosa faz-se cinza e o cinza faz-se negro. Espesso, pestilento, vejo-o espalhar-se pelo chão, subir pelas pernas da cama, cobrir a cadeira e a mesa de cabeceira, derrubar o abajur, “como se apenas o que nos destrói merecesse retrato”. Na mais profunda escuridão, as palavras da poeta tornam-se distintas. São como pedaços do seu corpo, escavados com as unhas do mais fundo de si, dados a ver em carne e sangue. “A carne dos que morreram antes de conhecer os seus poetas”. O “sangue na estação de metro quando pelo telefone me lês em italiano o poema da súplica à mãe de pasolini”.

Seco como um osso na aridez do deserto, insurgente como um fogo que teima em arder, intencional como uma entrada de pé em riste, assim é “O Quarto Rosa”. Olhado de um lado, do outro e de frente, não passa de um quarto igual a tantos outros. É ao penetrarmos nele que percebemos a diferença. No que noutros é aceitação, brandura, permissividade, nele é imposição, protesto, rebeldia. Por isso retemos os lugares onde depois de cair muitas vezes nos ensinámos a cair melhor, tacteamos as rotinas, escapamos da festa em silêncio, envelhecemos dentro de aviões. Podemos não ter a certeza de que é este o combóio certo, mas sabemos que todos nós podemos ser embalsamados um dia. “A forma como nos cingimos às quatro paredes é o que faz de nós parecidos”. Esbocemos, pois, um sorriso à mona lisa, imaginemos a temperatura mais acertada do forno e deixemos que o açúcar imaginário se espalhe debaixo da língua. “Até que a morte nos separe”.

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

LIVRO: "Cada Gesto Essencial"



LIVRO: “Cada Gesto Essencial”,
de Raquel Patriarca
Ed. Officium Lectionis Edições, 2022


“Escrevi um poema naqueles dias
Em que vi o mundo a encolher.”

Essencial, o gesto. O gesto de abraçar uma tília, aproximar a chávena do rosto, pousar o lápis, escrever uma carta. Erguer o corpo a cada manhã, abrir as portadas da varanda, sair para a irrealidade azul da noite, atravessar a rua, procurar um lugar próprio para o encontro. Sentar no lugar dos sonhos, “os pés como pêndulos em descuidado”. Em cada gesto a mesma gentileza, o mesmo abrigo. No olhar pousado na flor branca, “entre o granito e o pensamento”, como na urgência do poema escrito naqueles dias em que se vê o mundo a encolher. O gesto que se faz palavra, “gesto opaco como o vento, verso breve como o mar”. Gesto simples, autêntico, que se dá em abraço, torna o instante em alegria, traz consigo a certeza “que o amor pode quase tudo e que um dia o tempo poderá o resto.”

Essencial, a escrita. Porque é ela o fermento que digere o que assusta e afasta, tudo aquilo que não se entende, esse “arder de ideias em labaredas de febre e insónia”. Escrita que molda a circunstância de imaginar, não como um mecanismo de controlo, antes de depuração, de pacificação. A mesma escrita que põe palavras nos pensamentos e sentimentos, nas emoções e experiências, que preenche e alenta, que traz em si o estro e a cura. Espontânea, honesta, genuína, carregada de verdade, assim é a escrita de Raquel Patriarca, chão e casa, berço de memórias, ninho de afectos. Escrita que é dádiva, partilha. Que se abre em aconchego numa coberta de lã sobre o regaço, num canto de embalo antigo, numa história tímida, num verso feito de puro nada. Que é gesto de gestos essenciais.

Essencial, a poesia. Essencial procurar um lugar para o silêncio, “onde possa sentar-me imóvel no redor do mundo”.  Essenciais as conversas sem destino, estes versos que nos dizem que “para ser inteiro basta querer bem a alguém”. Essencial rever a lista de compras, uma, duas, três vezes (não vá esquecer “os temperos e demais utensílios do cheiro”). Essencial a ideia e a herança, o canto da janela, a morte da ilusão, a circunstância de imaginar. Qualquer sucedâneo do papel. Essencial todos os poemas todos. Essencial lê-los em recolhimento ou em voz alta, com fato domingueiro ou em calção e chinelos de dedo, na penumbra do quarto ou no meio da praça em dia de mercado. Essencial partilhá-los com a mulher e com os filhos, com a vizinhança, os colegas de trabalho, a gente anónima com quem nos cruzamos na rua, no café, na barbearia. Essencial ter sempre à mão “Cada Gesto Essencial”. Essencial lê-lo. E amá-lo.

domingo, 17 de setembro de 2023

PERFORMANCE: "Os Surrealistas" | Lisbon Poetry Orchestra



PERFORMANCE: “Os Surrealistas”
Lisbon Poetry Orchestra
Com | Nuno Miguel Guedes (voz), José Anjos (voz), Paula Cortes (voz), Alexandre Cortez (baixo eléctrico, teclados), Mário João Santos (bateria, percussões), Luís Bastos (saxofone, clarinete), Filipe Valentim (teclados), Sérgio Costa (guitarra eléctrica)
Festival Literário de Ovar FLO 2023
Centro de Arte de Ovar
16 Set 2023 | sab | 22:30


“Lisboa, 1949. A capital portuguesa vive num cinzento palha, reflexo triste do resto do país. A ditadura ataca sem ter medo. A polícia política está por toda a parte, insidiosa, rasteira. As suas ordens são simples: Calar, proibir, prender. Ainda assim há marcas de cor. Lisboa vive o cosmopolitismo forçado dado pelos refugiados de guerra que se juntam num país supostamente neutro. E é neste ambiente que vamos encontrar os nossos heróis. Imaginemos um café lisboeta, frequentado por todo o tipo de gente: Rufias, poetas, espiões, dândis, prostitutas, toda uma fauna colorida. Ali, naquele canto, está um grupo de jovens que se juntam em nome de uma palavra que lhe é sagrada: Liberdade. Chamaram-lhes os surrealistas.”

Foi com “Os Surrealistas”, o seu mais recente trabalho, que a Lisbon Poetry Orchestra se apresentou na noite de ontem no Centro de Arte de Ovar. A identificação do grupo com a matriz surrealista - contestária e provocadora, desassombrada e imensamente livre - fez do espectáculo um exercício de maravilhosa subversão e de exaltação da poesia. Intenso e inebriante, inquietante e provocador, o poema foi imperativo e chamada geral, veneno e país, cidade e navio de espelhos. Viagem pela obra de alguns dos mais ilustres representantes do movimento surrealista - Alexandre O’Neill, António José Forte, António Maria Lisboa, Carlos Eurico da Costa, Fernando Lemos, Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria e Pedro Oom - “Os Surrealistas” pôs a tónica na palavra, à qual soube acrescentar a música e a imagem, em composições de singular beleza e fascínio. Em estreita simbiose, o público deixou-se contaminar por atmosfera tão atractiva quanto absorvente e, quase sem dar por isso, fez parte da trama e (também) surrealizou.

Entre o estranhar e o entranhar foi tempo de dois poemas (e a adesão só não foi imediata porque a música demasiado alta fez com que nem sempre a palavra fosse perceptível, retardando o processo). Ainda assim, foi possível perceber no poema de abertura, com assinatura de Mário Cesariny, a urgência da sua mensagem: “é preciso correr é preciso ligar é preciso sorrir é preciso suor / é preciso ser livre é preciso ser fácil é preciso a roda o fogo-de-artifício”. De António José Forte seguiu-se “Reservado ao Veneno” e as dúvidas, se as havia, tornaram-se, em definitivo, certezas. Os versos modelados na música (ou o seu contrário), rima e ritmo aconchegados numa indisfarçável cumplicidade, os sentidos da palavra afeiçoados às cores da voz, concorriam em uníssono para a construção de harmoniosas atmosferas e de delicados matizes musicais intrínsecos ao poema. Na tela, o extraordinário trabalho pictórico de João Alves e as animações de Ruca Bourbon iam pontuando a palavra e a música, desfilando em arte e magia ante o olhar de admiração do público.

Numa altura em que celebramos o centenário do nascimento de Mário Cesariny, do poeta escutámos “O Navio dos Espelhos”, “You Are Welcome to Elsinore” e “No País”, poemas que desmontam as convenções institucionais e se abrem ao ouvinte (ao leitor) em ousada frontalidade e em mordacidade feroz. “Entre nós e as palavras há perfis ardentes / espaços cheios de gente de costas /altas flores venenosas portas por abrir / e escadas e ponteiros e crianças sentadas / à espera do seu tempo e do seu precipício”. “A Cidade de Palaguim”, de Carlos Eurico da Costa, com a sua “gente a beber sofregamente / a água dos esgotos e das poças” e o seu “corpo de bombeiros / que lançava nas chamas gasolina” foi um dos momentos mais altos da performance, a par de “O Poema Pouco Original do Medo”, de Alexandre O’Neill, e do monumental “Chamada Geral”, de Mário-Henrique Leiria. O tom surrealizante estendeu-se aos “Poetas Portugueses de Agora”, título do trabalho de estreia da Lisbon Poetry Orchestra, com a poesia de Cláudia R. Sampaio e de Daniel Jonas, antes de Pedro Oom encerrar a noite com “Pode-se Escrever”: “Pode-se escrever nada / Pode-se escrever com nada / Pode-se escrever sem nada / Pode-se não escrever”. Uma noite memorável.