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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Josefa de Maltezinho



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Josefa de Maltezinho
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
18 Fev 2026 | qui | 17:00


A vigésima nona sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, promovidas pelo Centro de Reabilitação do Norte, voltou a provar que a palavra é, tantas vezes, o mais eficaz dos remédios. Na tarde de 18 de Fevereiro, as paredes habituadas ao silêncio abriram-se a uma respiração mais funda, feita de escuta e partilha. Dirigida muito especialmente aos utentes internados e às suas famílias, a iniciativa tem sido esse território de confluência onde o bem-estar se constrói devagar, como quem cose uma ferida com pontos de luz. Mas é, também, um momento de encontro com o livro enquanto objecto que acrescenta saber e enriquecimento, que desafia a clausura da doença e convida a viajar à descoberta de paisagens com outras e novas cores, longe do negro da imobilidade e da dependência, do branco asséptico de corredores e enfermarias. Cada sessão é uma pequena travessia, cada convidado um farol aceso na margem. Um farol que, na tarde da passada quarta-feira, teve nome literário e voz de mulher.

Josefa de Maltezinho, pseudónimo de Julieta Aleluia, nasceu no Porto, mas foi em Aveiro que aprendeu a soletrar o mundo e a permanecer. Professora do Ensino Básico, formada pela Universidade de Aveiro, guardou durante décadas cadernos e versos, como quem guarda sementes à espera de serem lançadas à terra na estação propícia. Em 2013 publicou “Água Corrente”, a que se seguiu o romance “Maçã com Bicho”. Regressou depois à poesia com “Porque um Rio Também se Cansa”, publicou em Espanha a edição bilingue “Otoño de Visita”, e continuou o seu caminho com “Uma Garfada de Sol no Umbigo”, “Fracturas Expostas”, “Solidão Assistida ou a Brutalidade do Quotidiano” e “Pela Lente do Repórter”. Em Julho de 2025, com a chancela da Editora Exclamação, deu à estampa “Elisa”, obra que serviu de ponto de partida para uma conversa que se quis inteira e sem rede.

Dos doentes e para os doentes, a tertúlia fez-se viva, intensa e livre. Antes de qualquer apresentação formal, os presentes quiseram saber tudo sobre a convidada, como se a curiosidade fosse uma urgência vital. A Teresa e o Alberto, a Diana, a Paula e tantos outros que fizeram questão de erguer a voz como quem segura na mão um espelho, reflectiram, opinaram, inquiriram e partilharam as suas inquietações sobre o papel da mulher, a sua educação para a resignação, a sua secundarização histórica, os lentos processos de emancipação. Olhando o romance “Elisa”, o moderador evocou Alfred Hitchcock e o seu “Janela Indiscreta” para colocar os presentes na pele de um James Stewart a observar vidas alheias através de uma janela imaginária: a mulher romena com a criança ao colo, abrigando-se da chuva; a outra que, entre gritos domésticos, é agredida. Em paralelo, emergiu a memória de tempos em que secretárias do Ministério dos Negócios Estrangeiros, enfermeiras, hospedeiras da TAP Air Portugal ou professoras não podiam ser casadas. Falou-se de Maio de 2000, data em que a violência doméstica passou a constituir crime público, mas também da persistência de mentalidades que ainda murmuram que “entre marido e mulher não se mete a colher”.

Na segunda parte da sessão, a poesia tomou a sala como um sopro. A leitura partilhada revelou uma autora multifacetada, atenta às imagens de violência que nos entram pela casa adentro à hora do jantar, trazidas pelos noticiários, mas igualmente sensível ao rumor de um tasco “à moda antiga” do Porto, onde a vida é servida em copos de três e as conversas se saboreiam sem tempo. A palavra poética, ali, não foi ornamento: foi bisturi e foi abraço. Interrogou-nos no que temos de mais cru, convidando cada um a revisitar a sua própria história. E quando a escritora encerrou a sessão com um elogio à iniciativa — “pela cultura, pelo bem-estar de quem não se encontra nas melhores condições físicas e tanto precisa destes incentivos” — percebeu-se que não foi apenas literatura o que ali se celebrou, antes a possibilidade de, mesmo em contexto de fragilidade, se continuar a crescer. Como uma resposta afirmativa e livre ao desejo de que cada livro aberto possa ser uma janela menos indiscreta e mais luminosa sobre a esperança.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Paulo M. Morais



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Paulo M. Morais
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Jan 2026 | qui | 17:00


À entrada de um novo ano, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para mais um momento de pura magia à roda dos livros e da leitura. Numa sessão aguardada com enorme expectativa, Paulo M. Morais foi um interlocutor perfeito, trazendo para a tertúlia uma coloquialidade rica e sedutora e uma generosa partilha de histórias e memórias. Numa mesa onde pontificou grande parte da obra do autor, a primazia foi dada a “A Glória Efémera”, a sua última publicação. Biografia do Nobel da Medicina Egas Moniz, o livro e a conversa proporcionada geraram no público uma admiração e cumplicidade imediatas. Para os presentes, escapar a uma rotina que vive de e para a pessoa doente, e ter a possibilidade de, ainda que por um curto espaço de tempo, mergulhar no mundo das letras e seguir os caminhos da arte e da ciência de mãos dadas com Egas Moniz e o seu tempo - entre uma conturbada carreira política, os desafios da investigação científica e uma riquíssima vida interior – revelou-se precioso. Daí que todos tenham deixado a sessão de coração cheio e, estendendo a vista até ao horizonte, sentissem que, por um momento, o cinzentismo da doença se viu vestido de tantas quantas as cores de que a vida é feita.

“Eu, que já passei muito tempo num contexto hospitalar a ser tratado a um cancro, devo dizer que a leitura foi das coisas que mais me ajudou a ultrapassar esse período”, começou por referir Paulo M. Morais ao dirigir-se aos presentes a quem saudou de forma calorosa, realçando a importância de existirem espaços como este, dedicados aos livros e à leitura em ambientes improváveis. Falando de “A Glória Efémera”, o escritor lembrou a relutância que teve em aceitar o desafio do editor Rui Couceiro e o reconhecimento de alguma “dose de loucura”, no momento de dar o sim a tão grande empreitada. Ter tido um avô médico pesou certamente na decisão: “Sempre falei muito com o meu avô sobre Medicina, mais no sentido da humanidade que o médico teria que ter, do tempo a dispensar aos seus doentes e de como isso se estava a perder. Acho que o legado dessas conversas e a memória do meu avô acabou por ser muito importante, até para me identificar com o biografado e meter-me na loucura de escrever o livro.”

O trabalho de investigação tomou conta do escritor ao longo de três anos, entre 2020 e 2023, com o labor da escrita a estender-se pelos dois anos seguintes. Entretanto, uma constatação antes de arregaçar as mangas: “Tinha de analisar o que já estava escrito [sobre Egas Moniz] para ver se havia espaço para uma coisa diferente. Li a biografia escrita pelo João Lobo Antunes e achei que era uma biografia feita por um médico. Percebi que, no que respeita à parte médica, nunca conseguiria fazer melhor do que aquilo, mas também percebi que havia outras partes da vida de Egas Moniz que não estavam tão bem exploradas.” Agora que o livro já passeia pelas mãos dos leitores, importa dizer que o resultado é pautado por um notável equilíbrio, revelador do cuidado em ir ao encontro de Egas Moniz na sua vertente de investigador e médico, mas também de um aguerrido e astuto político, um tribuno vibrante, um coleccionador, escritor e empresário, um amante da tranquilidade do lar e das coisas boas da vida.

“O que senti ao avançar com a biografia é que, provavelmente, o Egas Moniz ficou demasiado afunilado ao Nobel que lhe calhou, entre aspas. Porque poderia ter ganho o Nobel pela descoberta da angiografia e, neste caso, talvez a glória não fosse tão efémera”, referiu o convidado ao explicar o porquê do título do livro. Foi o momento de falar das questões éticas relacionadas com a leucotomia, do contexto de toda uma época na qual a Psiquiatria tentava fugir ao estigma de ser o “parente pobre” das especialidades médicas, mas também de que “o próprio Egas Moniz, no final da sua vida, terá percebido que a descoberta que lhe tinha dado o Nobel já estava a cair em desuso, levando-o a temer que já não fosse ficar para a história da forma como gostaria.” De romancista a biógrafo adivinha-se um processo de transição quase natural: “O romancista está habituado a urdir a sua trama de forma prática e fluida”, diz Paulo M. Morais, acrescentando que “ajuda escrever romances e depois adoptar o princípio de ver o biografado como se fosse uma personagem e nunca lhe perder o centro. Importa dar um contexto histórico, naturalmente, mas sobretudo não nos esquecermos de que o centro é aquele homem. A premissa que utilizei foi a mesma, com a diferença de que numa biografia não se pode inventar, os factos não podem ser alterados”, disse.

Da Fundação Mário Soares à Biblioteca Nacional, dos arquivos municipais à Casa do Marinheiro e ao legado escrito do Nobel, o trabalho de pesquisa bibliográfica foi-se adensando: “Começamos a meter canas de pesca em tudo quanto é sítio. De repente percebe-se que aquela picou qualquer coisa, aquela também já deu qualquer coisa, que esta é para esquecer…”. Fruto dessa recolha, o escritor destaca a surpresa de se ter visto confrontado com os excessos da vida política nos finais da monarquia e primeira república, “a linguagem bélica dos debates parlamentares”, fazendo com que os políticos de hoje, se comparados com os de ontem, pareçam “meninos de coro”. Ainda que as qualidades de Egas Moniz enquanto homem político se pautassem pela combatividade, argúcia, capacidade de argumentação e calculismo - e Paulo M. Morais demonstra à saciedade todas essas qualidades, apoiando-se na imprensa da época -, há um particular momento da vida política do Nobel que surpreendeu o biógrafo: “A relação de Egas Moniz com Salazar nunca foi fácil e o Nobel acabou por servir de capa para as posições que viria a tomar de oposição ao Estado Novo. As entrevistas que fui encontrando de Egas Moniz são de alguém que diz abertamente que vivíamos num estado sem liberdade de expressão, que as eleições eram uma fantochada e que se sentia preso no seu próprio país.”

Aberta a tertúlia às questões do público, foi tempo de falar do processo de investigação e de um hipotético recurso à Inteligência Artificial, tentação à qual Paulo M. Morais resistiu. Caso para dizer que “A Glória Efémera” foi “o último livro que o escritor Paulo M. Morais escreveu sem recorrer à Inteligência Artificial”. Só quando o livro já estava na gráfica se permitiu o biógrafo explorar questões tão banais como “livros escritos por Egas Moniz” e enumerados pelo chat gpt, percebendo, com grande alívio, que os livros que desconhecia afinal nunca existiram. Foi também tempo de abordar as questões que envolveram a justiça do Nobel, com o escritor a lembrar o grande problema social e de saúde pública que os doentes do foro psiquiátrico representavam na altura - com oito tiros desferidos por um louco à queima-roupa, nem o próprio Egas Moniz terá sabido muito bem como escapou com vida -, as terríveis condições de internamento dos alienados em asilos, os tratamentos “horripilantes” a que eram sujeitos, aos quais se deve acrescentar o pioneirismo da Psicocirurgia, o que cauciona, na opinião de Paulo M. Morais, a atribuição do Prémio Nobel. “Uma coisa tenho a certeza: Egas Moniz era um médico profundamente humanista e eu acho que nunca teria avançado para uma intervenção se não tivesse a certeza absoluta de que aquela era a melhor solução ao seu alcance”, conclui.

Já na recta final, a conversa olha agora Egas Moniz no ambiente íntimo do lar e da família. Mas antes, uma questão “provocadora” a uma participante muito especial nesta sessão das Tertúlias Literárias, a escritora Isabel Rio Novo. Foi ela a primeira leitora de “A Glória Efémera” - “nós somos sempre o primeiro leitor um do outro” - e deixou-nos uma opinião que considera isenta: “Escrever uma biografia não é pegar em tudo aquilo que já se escreveu, ler muito bem, baralhar de novo e voltar a escrever. E o Paulo não se conformou com o muito que já existia, com o muito que já se sabia, e aí ele foi original ao descobrir coisas que ainda não tinham sido vistas.” Referindo que o livro “não é um romance, mas lê-se como um romance”, Isabel Rio Novo remata com o melhor elogio que um escritor pode receber: “Sou uma grande leitora de biografias e esta é a melhor biografia que eu já li”. Paulo M. Morais falou então do ambiente da Casa do Marinheiro - “quando todos estiverem melhor, aconselho muito uma visita à Casa-Museu Egas Moniz, em Avanca” -, de um bucolismo romântico muito presente e cuja ruralidade servia de contraponto ao cosmopolitismo das vivências sociais do médico.  Enfim, a partilha de uma última revelação: “No meio de tanta correspondência que faz parte do seu espólio não se encontra uma carta entre marido e mulher. Mesmo nos escritos autobiográficos, a relação com a Dona Elvira, companheira de uma vida, é tratada em dois ou três parágrafos. Embora, como biógrafo, consiga perceber a intenção de Egas Moniz de preservar uma certa intimidade, acho estranho que alguém que guarda tanto não tenha encontrado uma ou outra carta que valesse a pena deixar para a posteridade.”

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Olívia Clara Pena



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Olívia Clara Pena
Leituras | Isabel Marcolino, Teresa Teixeira, Gabriela Sá e Fernando Ramos
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
16 Dez 2025 | ter | 17:00


Num ano recheado de “Conversas às 5”, coube a Olívia Clara Pena a “última palavra” no fecho de um ciclo que trouxe ao Centro de Reabilitação do Norte, ao longo deste ano, poetas e ficcionistas, artistas plásticos, cineastas, músicos, fotógrafos e pensadores. Com direito a pinheirinho de Natal e luzinhas a piscar, a sala encheu-se para escutar a autora de “Amor e Outros Desencontros” e beber, em ambiente intimista, quase confessional, “o amor e outras delicadezas vertidos em palavras”. “Sou mãe, professora, bióloga, escrevo poesia e adoro dizer poesia”, começou por afirmar Olívia Clara Pena, em jeito de apresentação, para de seguida se virar para o seu trabalho poético, para um livro que surgiu “de forma inusitada”, fruto de um processo de crescimento gradual e que teve no período da pandemia um enorme incremento. “Escrevia porque precisava de escrever”, referiu a poetisa, para quem “a escrita é uma coisa compulsiva”. Os muitos escritos que foi reunindo serviram de base, primeiramente, a uma série de poemas e ilustrações, enviados para os interessados sob a forma de “cartas de amor”. De seguida, à poesia juntou-se a música, reveladora de mais uma faceta de Olívia Clara Pena (para além do seu gosto pela dança). Os muitos estímulos para escrever foram combustível que alimentou o fogo criador e o livro, ainda que não pensado inicialmente, acabou por surgir em 2024, editado pela Cordel D’ Prata.

A cargo do moderador, a apresentação de “Amor e Outros Desencontros” enfatizou a verdade que as palavras encerram e a sensibilidade da autora nesse processo sempre delicado de verter nas páginas do livro o amor e o fulgor, a presença e a falha, o corpo e o desejo, o tempo e a finitude. A partir daqui, o diálogo abriu-se a um conjunto de convidados que, de forma inteiramente livre, celebraram a poesia de Olívia Clara Pena, dizendo cada um alguns poemas da sua preferência. “ (…) há amigos que são pétalas de chuva / labirintos de ternura / florescem-nos viçosos / em cada redondo poro // e há aqueles que são cura / de dias de desventura // e aqueles que são trilhos / vibrantes desconhecidos // e há aqueles que são trova / que são bailado e são canção // e há os amigos / que ficam / que resistem / e persistem / que nos arejam por dentro / como se fossem feitos / apenas de ar puro.” Tornado Sarau Poético, o momento ofereceu-se à poesia em toda a sua plenitude, com Olívia Clara Pena a “abrir as hostilidades” e a declamar “Amigos”, colocando uma primeira e significativa pedra num edifício de emoções feito e que, até ao final da sessão, não mais cessou de crescer.

“Escondi as palavras ocas e sem retorno / frouxas e sem cor / flácidas. // Quero apenas palavras fecundas / Que trazem brilho nos olhos e maciezas na pele, / Serenas, apaziguadoras / Um presente”. Na esteira da palavra, Isabel Marcolino deu voz à poesia de Olívia Clara Pena, passando o testemunho aos diseurs seguintes. Fernando Ramos trouxe “A esperança”, “às vezes, (…) um sorvedouro de vida”; Gabriela Sá disse “Adeus” e Teresa Teixeira fez do momento uma “Prece e Anunciação”: “A poesia feminina / escava fendas no misterioso oculto / tem dias que é prece / e outros que é / anunciação.” Terminada a primeira ronda de poemas, novo momento de conversa, desta vez juntando a poesia ao universo da mulher. Para a poetisa, “sendo distintos os mundos masculino e feminino, em tempos de maiores dificuldades, de restrições à liberdade ou de ameaças à democracia, as mulheres são sempre quem mais sofre.” Maria Teresa Horta, Natália Correia ou Clara Pinto Correia são referidas como exemplo das ameaças que pendem sobre as mulheres, em particular sobre aquelas que arriscam, através da poesia ou de outras formas de arte, dar voz ao corpo e ao desejo. Olívia Clara Pena não escapa, com este livro, a uma certa afirmação política da sua poesia: “O fugirmos ao plano das ideias e ao confronto agressivo, o abraçarmos um lirismo fora de moda, o falar de forma doce, real, com o corpo, é um gesto político”.

Chamando ao palco a poesia de Olívia Clara Pena no início de nova vaga de emoções, Gabriela Sá trouxe consigo uma pergunta: “Como posso eu dizer-te adeus?”. Teresa Teixeira disse “ (…) um poema / de amor / e / de amar”, em “Oração”. Isabel Marcolino mostrou o “seu” poema, “Casa”: “O quarto / simples e nu / portadas de borboleta / Cheiro ameno e carmesim / fresta de luz e ternura.” Fernando Ramos fechou a ronda com “ (…) chuva / delicada e persistente / antevendo o convite / entre os pingos e a folhagem.” A sessão abriu-se às questões do público, nomeadamente na figura da “morte”, implícita na poesia da autora, que com ela tem “uma relação pouco apaziguada, de dificuldade em aceitar essa dimensão que nos toca”. Outra questão remeteu para o “silêncio” na sua poesia, visto pela autora em “duas dimensões”: Uma “luminosa”, nos espaços que abre à escuta e à reflexão; outra de “ausência, de um fim de comunicação, de separação”. A convidada encerraria a sessão lendo “O Tempo”, “(...) esse conceito abstracto / compasso de sonhos / carrasco d’ausências / doce e amigo / tempestade e raio de luz.” Francos e generosos, os aplausos irromperam e houve lugar a “encore”, primeiro com um apontamento em forma de poema, da autoria de Isabel Marcolino, um “roubar títulos” de homenagem à poeta. “No burburinho dos juncos / (…) no silêncio das papoilas”, um derradeiro poema lido por Olívia Clara Pena - ainda e sempre o amor - encerrou da melhor forma a sessão, gravando nos presentes as suas palavras: “O vento da serrania sussurra-me o teu amor, / Tão simples, / Tão leve, / Como este fluído que me corre nas veias.”

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Sara Duarte Brandão



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Sara Duarte Brandão
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
04 Nov 2025 | ter | 17:00

As Tertúlias Literárias “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para a sua 26.ª sessão. À semelhança das anteriores iniciativas, o momento foi de comunhão e partilha à volta dos livros, abrindo a possibilidade de ampliar o processo de reabilitação dos doentes do Centro, expandindo-o ao universo colorido da literatura, à força das palavras, às viagens feitas de sonho e magia e, ao mesmo tempo, alertando para a importância dos livros nas nossas vidas. Convidada especial de um momento sempre especial, Sara Duarte Brandão trouxe consigo a sua enorme juventude e energia, a paixão pela vida e pela escrita, a promessa de um futuro que se espera melhor para todos. Um futuro feito de empatia, cumplicidade e dádiva. “Quem tem Medo dos Santos da Casa”, romance vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada 2023 e editado no passado mês de Marco com a chancela das Publicações Dom Quixote é o reflexo do espírito determinado e livre da autora, sendo o grande responsável pelo preenchimento do espaço da tertúlia, trazendo consigo as muitas camadas de que se reveste, das esculturas religiosas de Altino Maia às relações intergeracionais, dos valores da liberdade e da justiça à força de ser mulher.

“Um dos deveres do escritor e de quem se move no universo dos livros é levar a literatura a todo o lado”, referiu Sara Duarte Brandão, depois de afirmar a sua enorme emoção e alegria por poder falar da sua obra para um público muito particular e num lugar tão especial. Nascida no Porto, a convidada viveu praticamente toda a sua vida em Vilar do Paraíso, relativamente perto do Centro de Reabilitação do Norte. Designer de comunicação, com mestrado em Literatura, está actualmente a fazer o doutoramento em Ciências da Educação e a trabalhar com crianças e jovens cujos pais se encontram privados de liberdade e institucionalizados em estabelecimentos prisionais. Num contexto global mostra-se uma defensora acérrima da “educação pela arte e do seu impacto na vida de diferentes grupos e de diferentes pessoas”. Apresentando-se aos presentes, Sara Duarte Brandão falou da sua actividade como escritora, mas também como leitora: “Escrevo muito, mas leio muito mais”, disse. “Aprendi a andar de bicicleta aqui em frente, embora já não saiba andar de bicicleta”, lembrou, ao mesmo tempo reafirmando o carinho que tem por toda esta muito bela faixa litoral e que, seguindo para norte, encontra a foz do rio Douro e, na sua margem esquerda, a comunidade da Afurada, com o seu viver entre o rio e o mar, a sua identidade muito vincada, os estendais de roupa comunitários, as festas a S. Pedro e… os “santos da casa”.

Integrar uma equipa de alunos de Mestrado em História da Arte, Património e Cultura Visual da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, na altura a trabalhar na Afurada, foi o despertar para a escrita de “Quem Tem Medo dos Santos da Casa”, um livro que tem na sua génese a obra do escultor Altino Maia (1911-1988) e dos Santos da Afurada, revelados ao mundo aquando da inauguração, em 1955, da Igreja Paroquial de S. Pedro da Afurada. A História fala-nos da apoteótica viagem das imagens até à Afurada, num grandioso cortejo de barcos, mas fala-nos também da sua rejeição por parte da comunidade, ao não reconhecer nelas uma ligação devocional. Apeadas e enclausuradas em armários da sacristia após a saída do Padre Joaquim, o defensor e protector destas esculturas durante quatro décadas, as peças foram resgatadas no âmbito deste trabalho de mestrado e mostradas ao público no Centro Interpretativo do Património da Afurada, em exposição inaugurada no dia 04 de Julho de 2020. “Como é que pessoas tão devotas a um determinado Santo se sentem no direito de humilhar e destruir a sua figura”, foi a questão que mais inquietou a escritora e que a levou a comparar o percurso das imagens ao da mulher, “em especial em Portugal, ao longo do tempo”. Juntar à história dos Santos da Afurada a figura de todas as mulheres, vítimas de discriminação e de isolamento ao longo dos tempos, ergueu-se com a força iniludível das causas maiores. Daí à escrita do romance foi uma questão de (pouco) tempo e (muita) garra.

Em velocidade de cruzeiro, a conversa segue agora na senda dos detalhes. A paixão pela arte têxtil e a ligação destes lavores à figura da mulher levou a que a escritora trouxesse essa imagética para o livro, colocando Maria Teresa, a protagonista, na figura de alguém que tece e se serve da memória para recuperar as imagens dos santos e fazer deles tema dos nove tapetes que se propôs fazer. O próprio nome da protagonista, Maria Teresa, é uma homenagem à coragem, à determinação e ao valor e significado da obra de Maria Teresa Horta. Outrora encerrados no escritório do avô, os livros que povoam a casa de Maria Teresa e que, aos poucos, acabaram por se transformar em territórios de liberdade, são uma memória ligada à importância dos avós na educação e na formação dos netos. A pouca abertura do Estado Novo a novas tendências ou correntes estéticas levou a que o próprio Altina Maia fosse visto como alguém exterior aos princípios e valores culturais do regime e caísse em descrédito, acabando por morrer na miséria. Camada após camada - a mulher, a comunidade, as gerações, os santos, o regime -, o livro vai-se “construindo” na mente dos presentes, graças às palavras de Sara Duarte Brandão: Vivas, ricas, inspiradoras.

“A minha filha é Sara e eu sou Teresa. Estive para não vir hoje, porque não estava muito bem disposta. Estou muito feliz por ter decidido vir. Muito obrigado”. Este testemunho tão cheio de luz abriu a conversa ao público presente, com o diálogo a ampliar-se graças às várias questões colocadas. Os santos de Altino Maia acabaram por se constituir no grande motivo de conversa e fonte, até, de alguma controvérsia. As questões socio-culturais ou o papel da arte enquanto figuração do real estiveram em debate, com o moderador a lembrar que “vivemos tempos muito conturbados e percebemos que as diferenças estão a afastar-nos uns dos outros, a servirem de pretexto a que muros se ergam à nossa volta e nos isolem cada vez mais, ao invés de nos aproximarem, já que é na diferença que encontramos a nossa diversidade e nos afirmamos enquanto comunidade e humanidade”. Se, como diz o povo, “santos da casa não fazem milagres”, este livro é um lançar da semente no coração dos leitores, das quais, diz a convidada, “umas brotam e outras não”. E acrescenta: “Aqui reside o milagre da literatura”. A conversa encerrou com o (hipotético) gesto furtivo de alguém que, munido de um balde de tinta e de um pincel grosso, escreve uma frase numa das paredes da Afurada, na certeza de que resistirá ao vento e ao sal. Esse alguém é Sara Duarte Brandão e a frase é “roubada” a Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.” Um maravilhoso final de uma tarde perfeita.

terça-feira, 30 de setembro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Vítor Pinto Basto



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Vítor Pinto Basto
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
23 Set 2025 | ter | 17:00


Após um período de merecidas férias, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para uma hora de boa conversa à roda dos livros. Vítor Pinto Basto foi o convidado da 24.ª sessão de uma série de tertúlias literárias que tiveram o seu início em Abril de 2021 e, a propósito de duas das suas obras - “O Rapaz que Queria Aprender a Olhar” e “A Arte de Ser Boa Pessoa” - teceu um conjunto de reflexões que cruzaram os temas fortes da memória e da liberdade. “Nunca pensei em vir a apresentar os meus livros num lugar fantástico como este”, começou por afirmar o autor, perante uma plateia numerosa e ávida de escutar as palavras de quem diz que “aprender a olhar é também aprender a questionar”. Dirigindo-se ao público, referiu estarmos num sítio “onde não falta quem nos cubra com o manto da ciência e da ternura”, abrindo espaço àquilo que designou por “boas pessoas”, aquelas que fazem “do cuidado, da ternura e da empatia uma forma de resistência e de preservação da dignidade”. Reforçando a ideia de que “um ser humano nunca deve abandonar a sua humanidade”, Vítor Pinto Basto lembrou que “todos temos dentro de nós esse fermento fabuloso de criar meios para podermos ser felizes numa vida que nos foi dada”, nesse labor residindo “a arte de ser boa pessoa”.

Olhando à nossa volta um mundo que se desmorona a cada dia que passa, que despreza o colectivo em nome do individual, que separa em vez de unir, que cerra fileiras contra os princípios e valores de Abril, Vítor Pinto Basto apontou o dedo “àqueles que destilam ódio”, afirmando que têm um problema: “Têm pela frente as boas pessoas, aquelas que estão aqui para enfrentar as más pessoas. Sem armas, sem ódio, apenas com ternura.” Para o convidado, “todo o ser humano tem direito a ser feliz e nós temos o direito de não deixar que nos destruam esse direito”. Olhando nos olhos os presentes, deixou um repto: “Não apoiem quem destila o ódio e a desumanização nos seus discursos políticos. Apoiem e apoiem-se em quem dignifica a vida.” Entrando no pequeno-grande mundo da escrita, Vítor Pinto Basto concordou com a ideia transmitida pelo moderador de que “o olhar, nos seus livros, mais do que um sentido é uma responsabilidade” e aproveitou para falar do papel da literatura em ensinar a olhar o mundo, usando o jornalismo como contraponto. A este propósito, referiu que “as notícias caminham não no sentido de um mundo melhor, mas no de nos atirar uns contra os outros. Ao invés, o escritor não tem de se submeter a uma linha editorial”, vincando a ideia de liberdade associada à literatura e que existe cada vez menos no jornalismo.

Conhecido e reconhecido pela correcção da sua postura ética e deontológica, Vítor Pinto Basto é um bom exemplo do escritor que busca, através da literatura, reforçar o que de bom existe em cada um de nós. “Preocupo-me em contar histórias que têm uma base real, histórias que possam tocar as pessoas, na medida em que se revêem nos factos e nas personagens”, diz. Mas adverte que “A Arte de Ser Boa Pessoa” é um livro incómodo: “Não vale a pena a literatura se não for para inquietar, para apoquentar”. Implícita em ambos os livros, a memória foi um tema forte da conversa, com o escritor a denunciar os movimentos fascistas e aquilo que diz ser “uma tentativa de apagar a memória colectiva”. “O Rapaz Que Queria Aprender a Olhar” surge como um meio de lembrar o que de bom se fez em democracia: “Quando se diz que nestes cinquenta anos só houve corrupção, essa é das mentiras mais torpes e imundas que podem existir (…). No tempo da ditadura a corrupção era muito pior, só que era silenciada”. Ser boa pessoa volta a surgir no debate como imperativo moral, uma escolha individual que se repercute no colectivo. Instado a deixar uma mensagem simples mas duradoura no espírito dos presentes, Vítor Pinto Basto encerrou a sessão com um significativo: “Não desistam!”

segunda-feira, 30 de junho de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5” | Agostinho Santos



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
Com | Agostinho Santos
Participação especial | Manuel Sobrinho Simões
Centro de Reabilitação do Norte
26 Jun 2025 | qui | 17:00


“ (…) Germinam escolhas intrincadas:
grito vermelho de lâmina erguida
no preto e branco
- tela de protesto ou prenúncio de terramoto:
vozes de ruas desertas,
águas que cavalgam naufrágios de vidas
em simbioses (com)sentidas.”
Ilda Figueiredo, in “Nas Asas do Pássaro de Fogo”

As Tertúlias Literárias “Conversas às 5” voltaram a abrir-se em novidade e espanto aos muitos amantes das artes e das letras que marcaram presença no Centro de Reabilitação do Norte, para assistir à última sessão antes da pausa estival. Pela primeira vez na história do evento, o convite foi endereçado a um artista plástico e o livro à volta do qual a conversa se desenrolou foi um magnífico álbum, repleto de intrigantes e muito belos trabalhos artísticos, quase despido de palavras, mas com muito para dizer. Jornalista, artista plástico, investigador, curador independente e director da Bienal Internacional de Arte de Gaia, Agostinho Santos foi o convidado da sessão, a qual contou também com a participação especial de Manuel Sobrinho Simões, renomado patologista, Professor Emérito da Universidade do Porto e fundador do IPATIMUP, um dos três laboratórios europeus acreditados pelo Colégio Americano de Patologistas. “O Estranho Terrível Outro”, editado pela Officium Lectionis (2025), foi o livro em cima da mesa, girando a conversa em torno do trabalho de Agostinho Santos e da forma como, através do desenho, da pintura ou da colagem, o artista interpreta, de forma única, a variedade de rostos de pessoas com cancro.

“A arte é uma arma para denunciar e alertar para os males do mundo, e também para reflectir e convidar a reflectir sobre todas as questões que nos incomodam”, começou por dizer Agostinho Santos, artista que não dispensa de elevar a voz que a arte lhe confere para denunciar “a guerra, as desigualdades sociais, as injustiças, a corrupção, os problemas ambientais, a discriminação entre o homem e a mulher, a violência”. Veio isto a propósito de “O Estranho Terrível Outro”, um livro que aborda a questão do cancro na óptica do pintor, assunto que, confessa, “me mete medo, me faz pensar”. Um livro que, antes de o ser, foi uma série de pinturas sobre o cancro na tentativa de o personalizar, de partir em busca da sua imagem. Neste caminho de descoberta, Agostinho Santos sentiu, a partir de dada altura, a necessidade de aprofundar o tema, recorrendo para tal ao Professor Manuel Sobrinho Simões que o foi “municiando” com “fotografias de cancros, desde peças macroscópicas e imagens de microscopia óptica, até paisagens lunares de microscopia electrónica”. O resultado salda-se, nas palavras do patologista, por “uma incursão feliz na tentativa de aproximar a estranheza da diferença”.

Folheando o livro, salta à vista do leitor a diversidade de abordagens àquilo que de comum há num tema tão vasto. Incontornáveis, a rica iconografia - imagens que se entrecruzam e metamorfoseiam numa estranha simbiose, figurações de animais e plantas, símbolos do sagrado e do profano - e as séries sequenciais marcadas por uma cor predominante, foram temas de conversa, com Manuel Sobrinho Simões a falar da cor como “algo que tem um preço”, dando como exemplo o polvo e a evolução natural que lhe permite confundir-se com o seu meio natural e escapar aos predadores. “O artista faz o contrário, a coisa pior para o artista é passar despercebido”, acrescenta. Visto por Agostinho Santos como um assunto “negro, doloroso, que me mete medo”, o cancro representado na sua pintura - além de constituir uma tentativa de exorcizar fantasmas e demónios -, tem muita cor. “Um dos principais responsáveis por eu utilizar muito a cor foi o Professor Sobrinho Simões que me fez chegar trabalhos de estudo e de investigação com muita cor. Portanto, eu tentei que os rostos de pessoas com cancro - e neste livro só há rostos - incorporassem os medos, as inquietações, o que as pessoas sentem, dando cor àquilo que nos mete medo, não reduzir o problema ao preto e branco.”

“Não há nada tão parecido connosco como os nossos cancros. Se eu tiver um gémeo, sou mais parecido com o meu cancro do que com o meu gémeo”. A estranheza da frase teve o condão de adensar ainda mais o silêncio na sala, com o público extraordinariamente atento àquilo que Sobrinho Simões tinha para dizer. Sem perder o foco numa particular representação pictórica do cancro, o patologista falou da carga genética comum ao ser humano e ao arroz, ao bróculo ou à banana, por exemplo - “quando estamos a comer uma banana, estamos a comer um primo afastado, o que é uma chatice”, ironizou. Lembrando que todos nós “já fomos um ovo”, Sobrinho Simões destacou a forma como o artista mostra os diferentes rostos de pessoas com cancro, diferentes representações “não só da biologia, como da relação com os outros, o medo, as expressões mais elaboradas do ser humano”. E acrescenta que “não é a arte e a ciência que nos caracterizam, antes a educação, a formação, a relação com os outros, o sermos decentes. Quando temos um cancro, perdemos estas carapaças, temos cagaço”, algo que o artista consegue captar muito bem, estabelecendo diferenças no que é semelhante.

A cor e as questões de ordem prática ou as tendências a ela ligadas, a forma como é percepcionada ou exprime estados de espírito, abriu espaço às questões do público, enriquecendo o momento com apontamentos de grande pertinência. O luto em diferentes culturas, os sonhos a cores ou a preto e branco, o daltonismo e aquilo que é inato ou adquirido, as influências da moda, as viagens e os livros, foram assuntos sobre a mesa a suscitar um intenso momento de troca de opiniões e partilha de experiências e conhecimento. “Não seria o pintor que sou, se não fosse o jornalista que fui”, disse Agostinho Santos, acrescentando que se não fosse jornalista e pintor gostaria de ser “jornalista e pintor”, para logo emendar e falar no gosto imenso que teria em ser cientista (com provas dadas em miúdo, quando quase fazia ir pelos ares a cave lá de casa). Os derradeiros momentos ouviram Agostinho Santos e Manuel Sobrinho Simões falar dos muitos “estranhos terríveis outros” que minam as nossas sociedades, mas também deste “exercício de comunidade” que são as tertúlias, do valor dos momentos em que abandonamos o “eu” e nos voltamos para o “nós”. Agostinho Santos irá regressar ao Centro de Reabilitação do Norte para mostrar os trabalhos resultantes da passagem da esposa, Ilda Figueiredo, por este espaço. Será em Agosto e estão todos convidados a visitar a exposição.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Teresa Teixeira



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”, 
Com | Teresa Teixeira 
Participação especial | Isabel Marcolino
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Abr 2025 | ter | 17:00


A poucos dias de festejar quatro anos de existência, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para um momento verdadeiramente especial. A grande novidade desta sessão deveu-se ao facto de, pela primeira vez, a convidada ser alguém presentemente internada no Centro, abraçando a conversa na qualidade de escritora, sem se distanciar da situação de doente. Nessa dupla função, as palavras de Teresa Teixeira adquiriram um novo e maior alcance, permitindo ver o lado salvífico da poesia como a expressão de um viver tanto mais intenso e estimulante quanto maiores os desafios e provações que encerra. “Menina de olhos tristes, / Que adivinha teu olhar, / Que naufrágios entreviste / Na placidez do teu mar?”. Pela voz de Isabel Marcolino, incansável respigadora e semeadora de poesia, o “Auto-Retrato” de Teresa Teixeira (do livro “Da Serena Idade das Coisas”, Ed. Temas Originais, 2012) abriu uma janela sobre a poetisa e sobre a inspiradora paisagem duriense, seu “nascedouro”. “É impossível não se ser poeta vivendo no Douro”, dirá a convidada na sua primeira intervenção, afirmando-se um produto dele - “está sempre no meu coração, está sempre na minha poesia” - e acrescentando ter um sonho: “Um livro meu, só com fotos e poemas ao Douro”.

Teresa Teixeira nasceu em Figueira, concelho de Lamego, beiral-sul do deslumbrante Douro. “É tão fácil ser poeta (…)”, escreveu um dia, ainda talvez inocente do suor implícito na ventura de o ser. Autodidacta e intuitiva (é de fé tranquila, a sua escrita de sensibilidades), reconhece, contudo, que construir obra poética é também labor, empenho, procura, cuidado. E entrega. Profissionalmente ligada ao sector bancário, foi deixando a vida amadurecer-lhe o gosto de escrever, e só recentemente começou a aventurar-se no meio literário, tendo participado em várias Colectâneas de Poesia, em Portugal e no Brasil. Entre alguns destaques, foi a vencedora, em 2011, do I Concurso de Poesia da Associação Cultural DRACA, de Palmela, que lhe valeu a publicação do seu primeiro livro, “Da serena idade das coisas”. Em 2014, publicou, a convite, o livro “Voo Livre”, sob chancela da editora Versbrava. Ainda em 2014, venceu o XIX Concurso de Poesia da APPACDM de Setúbal, de cujo prémio resultou a publicação de “Labiríntimos”, sob patrocínio da editora Lua de Marfim. Feitas as apresentações, voltemos de novo o olhar para a vida e para os poemas, uma e a mesma coisa no universo multifacetado da escritora.

“Sempre escrevi para mim, para as gavetas, para os bolsos, para deitar fora.” A conversa prossegue e percebemos que o material acumulado, muito dele “poemas de amor” a uma filha “que me levou para a poesia”, viria a servir de base para a publicação de um primeiro livro, graças ao prémio num concurso literário. Depois desse “sonho cumprido”, os livros de poesia foram-se sucedendo, trazendo neles o viver e o sentir de Teresa Teixeira, em amor e em verdade. Na batalha da vida - “(…) a batalha começa aqui, sempre / na cruz que a minha arma marca no chão” -, a escrita serve de “analgésico” contra a tristeza, a amargura e a saudade, deixando transparecer a doçura, o amor e a gratidão. Fruto de um espírito intuitivo e eclético, os poemas tanto nos falam dos sons do silêncio como de sinos ao vento, deixando perceber que “escrever é um exercício de mente”. Nos cruzamentos de linhas e palavras, a poesia de Teresa Teixeira encontra-se com António Gedeão e Mia Couto, Fernando Pessoa, Manuel Alegre e, inevitavelmente, Miguel Torga. Nesse “palavra puxa palavra”, a autora confessa que “há versos de muitos poemas que toda a vida ouvimos, que fazem parte de nós, e com os quais gosto de brincar, modificando-os, indo por outro caminho”.

“Trabalho muito, não me sobra tempo para a poesia”. A resposta ao desafio de um elemento da assistência teve o condão de chamar a atenção para a realidade de quem está internado no Centro e se entrega com afinco a complexos e exigentes programas de reabilitação. Lembrar que, entre a assistência, “há quem já tenha seis horas ou mais de trabalho intenso, num dia que começa muito cedo, e que dispensou um momento de merecido repouso para poder estar aqui”, foi tarefa do moderador, levando a plateia a reagir com uma calorosa salva de palmas. Com a conversa a caminhar para o final, percebeu-se que no público haveria “algumas pessoas que gostariam de ler poemas da Teresa”, podendo ser esta “uma forma de trazer para o Centro mais pessoas que gostam de dizer poesia”. Bem aceite por todos - houve mesmo quem sugerisse a gravação de leituras para pessoas com incapacidade em ler -, a ideia levou a que, a Isabel Marcolino, se juntassem Gabriela Sá, Conceição Lima e Alzira Santos, fazendo da leitura a muitas vozes um momento de emoções partilhadas, de exaltação da poesia e de amor à vida. Saiu-se da sessão de coração cheio, nesta abraço a Teresa Teixeira. Ficamos com um desejo seu: “Que seja procura, sempre, o caminho - a Poesia é um Horizonte belo demais para se perder de vista, caleidoscópico demais, para se definir em cores óbvias ou definitivas.”

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Aurora Gaia



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Aurora Gaia
Participação especial | Tomás Caroço (piano)
Centro de Reabilitação do Norte
25 Fev 2025 | ter | 17:00


Quando temos fome, o que fazemos é sair à procura de comida. Tem sido assim desde tempos imemoriais, sabendo nós que a produção de alimentos foi a razão pela qual os seres humanos abandonaram o nomadismo e formaram comunidades. Aliás, a própria conformação do corpo humano é fruto da evolução alimentar, na medida em que a necessidade de colher alimentos em pontos cada vez mais altos levou à progressiva alteração da postura física. Mas não é de antropologia que quero falar hoje, nem de necessidades físicas, antes da fome de cultura e da consequente busca de alimento para o espírito. Fome, entenda-se, motivada por um vírus louco que, nos períodos mais críticos, barrou o acesso ao teatro e à dança, ao cinema e aos concertos, às galerias e museus, às conversas e tertúlias. Ora, “se Maomé não pode ir à montanha, pois que venha a montanha a Maomé”, que o mesmo é dizer que dessa fome nasceram as Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, persistente prova de amor aos livros e à literatura, a completarem agora o bonito número de vinte edições.

Antes de abordar uma sessão verdadeiramente especial, importa render homenagem e abraçar com a maior emoção e gratidão aqueles que ajudaram a erguer e a consolidar estas “conversas”. Desde logo os escritores Sandra Barão Nobre, Sérgio Almeida, Miguel Araújo, Gustavo Carona, Álvaro Domingues, Minês Castanheira, Pedro Guilherme-Moreira, Rosa Alice Branco, Marta Duque Vaz, André Domingues, Valdemar Cruz, Isabel Rio Novo, Aurelino Costa, Diogo Leite Castro, Cláudia Cruz Santos, Marta Pais Oliveira, Dora Gago e, em dois momentos distintos, João Luís Barreto Guimarães. Foram eles que, desde esse longínquo 27 de Abril de 2021, abriram portas à magia e ao sonho que só os livros podem conter, falando do seu mester, dando a ver as suas obras, falando de outros autores, de outros livros, de novas viagens. Importa estender o agradecimento às muitas centenas de participantes que nos têm dado o prazer da sua presença, mas também àqueles que fazem com que as tertúlias aconteçam, da Administração e Direção Clínica do Centro aos muitos colaboradores nas mais diversas unidade de internamento e áreas terapêuticas.

Em tempo de celebração, a poetisa Aurora Gaia e o pianista Tomás Caroço foram os ilustres convidados de uma sessão que se constituiu num abraço à poesia e à música. Aurora Gaia nasceu no Porto, a 7 de setembro de 1938, tendo vivido longos anos em Gaia e atualmente a viver no Furadouro, Ovar. Desde sempre associada a projetos de cariz cultural, desenvolveu a sua atividade profissional na televisão como caracterizadora. Tem o seu nome ligado ao teatro, em peças como “Um cálice de Porto”, “A dama de copas” e “Felizmente há luar” e ao cinema, tendo participado em longas, médias e curtas metragens, entre as quais se destaca o filme “Uma relação fiel e verdadeira” de Margarida Gil. Publicou dois livros de poesia “E por isso eu amo tanto a Palavra” e “A Palavra na Arte”. Tomás Caroço é médico interno de Medicina Física e de Reabilitação no Hospital de Faro. Iniciou os estudos musicais aos 7 anos no piano, e aos 10 anos na viola d’arco. Concluiu a classe de instrumento (viola d’arco) na Escola de Música do Conservatório Nacional. Actualmente, dedica-se, entre outras áreas, à Medicina das Artes Performativas, tocando regularmente com a Orquestra Médica Ibérica.

“Palavras são como facas que trespassam os nossos sentidos”. Na beleza das palavras, na suavidade dos gestos e na delicadeza e harmonia dos sons, o tempo da sessão foi de emoção e encanto. Os poemas escolhidos foram pretexto para Aurora Gaia render homenagem a alguns poetas da sua predilecção, de João Luís Barreto Guimarães a Eugénio de Andrade, de Aurelino Costa a Amadeu Baptista ou a António Gedeão. “Simplesmente Aurora”, tornada “Gaia” pela “falta de estética” do apelido Carvalhais, Aurora Gaia quis mostrar também alguma da sua poesia e, simultaneamente, mostrar-se a si mesma no amor e apego aos outros, chamando para o pé de si a actriz Luísa Pinto ou a fotógrafa Lauren Maganete. A música foi-se imiscuindo nos poemas e António Pinho Vargas fez-se ouvir em duas peças muito belas, “Tom Waits” e “Dança dos Pássaros”. Chick Corea e um mexido “Armando’s Rhumba” foi outra das peças interpretadas, sendo ainda possível, em fim de festa, ouvir “The Heart Asks Pleasure First”, um dos mais inspirados temas de Michael Nyman. O melhor, porém, chegaria justamente no fim, com Aurora Gaia a cantar uma pérola do Cante, “Para Que Quero Eu Olhos”. Sim, a cantar - “(…) oh és tão linda, oh és tão formosa” - e a encantar. Memorável!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Dora Gago



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Dora Gago
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
06 Fev 2025 | qui | 17:00


As “Conversas às 5" regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte na passada quinta-feira, trazendo ao encontro de doentes, colaboradores e visitantes a escritora Dora Gago. Doutorada em Literaturas Românicas Comparadas, mestre em Estudos Literários Comparados e licenciada em Português e Francês, foi investigadora e professora universitária no Uruguai, Macau, Estados Unidos e Portugal. Actualmente é investigadora doutorada integrada do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa e lecciona também, a título de professora convidada, na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal. É autora de livros de poesia, ficção, crónica e ensaio, tendo publicado o seu primeiro livro, “Planície de memória”, em 1997. “Floriram por engano as rosas bravas” e “Palavras nómadas”, este último distinguido com o Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga da Associação Portuguesa de Escritores / Câmara Municipal de Braga, são as suas obras mais recentes e foram elas que, em cima da mesa, serviram de base a um momento intensamente livre e enriquecedor de partilha de experiências e conhecimentos.

Tão distante e, porém, tão perto, o mar de permeio a desenhar-se em ouro e prata do lado de lá das vidraças da sala, o Oriente impôs-se na conversa, num inequívoco convite à viagem e ao sonho. Foi Macau o grande protagonista de uma hora de convívio franco e livre, em ambiente intimista, aberto aos presentes em mistério e magia no que encerra de choque cultural, as assimetrias e contradições de vastos territórios e culturas milenares como fonte de espanto e sedução. E foi de sedução que se constituíram as primeiras palavras, das primeiras letras numa pequenina aldeia do barrocal algarvio, onde Dora Gago nasceu e “onde ainda não chegava a luz eléctrica”, ao poema “Peregrina do Amor”, publicado numa revista no início da adolescência. Mas foi, sobretudo, a sedução decorrente da experiência de uma visita a Macau e Hong Kong, em Agosto de 1991, a cultura portuguesa tão presente, certos traços arquitectónicos a mostrarem Macau como território intrinsecamente português, que levaram a convidada a interiorizar, mais do que uma vontade, uma certeza: “Sempre acreditei que voltaria a Macau”, conforme as palavras deixadas na abertura do livro “Floriram por engano as rosas bravas”.

Dora Gago voltou em 2011, como professora de português na Universidade de Macau, a qual integra, neste momento, o maior departamento de Português do mundo, com mais de trinta professores a leccionarem a nossa língua. Por lá permaneceu uma década, o território já sob administração da China, e talvez ainda lá estivesse, não fora uma pandemia mostrar, em simultâneo, o lado negro da doença e de um regime político de partido único como é o chinês. Sobre esta permanência estendida no tempo, falou a escritora de múltiplas experiências que não se resumiram a Macau, abraçando os vizinhos Laos, Tailândia, Malásia, Vietname e outras regiões da própria China. Foi tempo de mostrar uma sociedade marcadamente patriarcal e a predominância das personagens femininas na sua escrita, os nove tons do cantonês e o “risco de insultar as pessoas sem querer”, a violência de um tufão e a loucura do jogo nos Casinos, o impacto na sociedade da política do filho único e a grande afluência às bibliotecas de Macau. Também de Saramago, Lídia Jorge ou António Lobo Antunes e as suas obras traduzidos para chinês, a quase veneração de Maria Ondina Braga e Camilo Pessanha, sobre os quais caiu o pano de uma sessão feita de “palavras coladas à alma”, a conversa como sementes plantadas no coração dos presentes. Sementes das quais certamente florirão, em beleza e harmonia, todas as rosas bravas que a imaginação possa conter.

sábado, 25 de janeiro de 2025

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Marta Pais Oliveira



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Marta Pais Oliveira
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
23 Jan 2025 | qui | 17:00


Neste início de 2025, estão de regresso ao Centro de Reabilitação do Norte as “Conversas às 5”, iniciativa dirigida primordialmente aos utentes da instituição e que tem como grande objectivo a promoção do livro e a criação de hábitos de leitura. Convidada desta décima oitava edição, Marta Pais Oliveira trouxe consigo um rico e variado mundo de histórias e memórias, fundado naquilo em que acredita, “no poder e na liberdade da palavra”. O seu trabalho de escrita inclui ficção, poesia e textos para cena. Publicou em 2021 o primeiro romance, “Escavadoras”, vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, ao qual se seguiram os contos “O homem na Rotunda”, “Quando Virmos o Mar” e “Medula”, Prémio Nortear - Galiza / Norte de Portugal. É autora dos libretos “Maria Magola”, "Madrugada: As razões de um movimento” e do teatro musical “O Guarda-Rios Mágico”. “Tenho os Olhos a Florir” marca a entrada na literatura infanto-juvenil. “Faina” é o seu segundo romance. Mas esta foi uma sessão muito especial não apenas pela sensibilidade, delicadeza e generosidade da interlocutora, mas também pelo facto de, pela primeira vez, ter decorrido naquela que será em breve uma realidade chamada “Ponto do Livro”, espaço natural para a realização de algumas das actividades culturais que se projectam para o Centro de Reabilitação do Norte e que a partir do próximo dia 14 de fevereiro irá albergar a nova Biblioteca. Uma pré-inauguração, portanto, que não poderia ter sido mais feliz.

Foi justamente neste espaço luminoso, com o sol a adormecer e o mar a perceber-se ao longe, que uma interessante e interessada plateia, constituída na sua grande maioria por utentes internados no Centro, acolheu Marta Pais Oliveira para ouvi-la falar de si, do gosto pela leitura e de como, através dos livros, encontramos formas de expandir os nossos mundos. “A escrita tem essa particularidade de partir da leitura e quase que dela transborda”, referiu a escritora, cujo trabalho está ligado à comunicação, mas sobre o qual procura, cada vez mais, abrir espaço para os livros e fazer disso parte da sua vida, por ser aquilo que a move e apaixona. A escrita não foi um fenómeno precoce, lembra a convidada, surgindo na entrada para a idade adulta, no início do seu trabalho na área da comunicação empresarial. Foi nessa altura que sentiu a necessidade de escrever diariamente um pequenino conto, à noite, para combater a rotina de um trabalho ligado a metas e a números que lhe atrofiava a imaginação. Lembra, a propósito, que “eram pequeninos contos que escrevia quase para salvar o dia” e que muitos desses contos tinham traços surrealizantes. Não eram necessariamente contos do quotidiano, antes que a levavam para sítios fantásticos, “onde não há lei da gravidade e podia pintar o céu de outra cor”.

A um conto seguiu-se outro conto, e outro ainda. O “comboio” foi ganhando velocidade e a pulsão para abraçar algo mais substancial cresceu também. É deste labor que nasce “Escavadoras”, mas também da inquietação da escritora sobre a incomunicabilidade, à qual se alia a solidão. É um livro que fala de identidade e memória, de resistência e liberdade. De estarmos todos ligados, lembrando Marta Pais Oliveira que “a nossa pele não acaba na nossa pele, fazemos todos parte de um mesmo tecido e onde uma coisa se rompe outra vai-se romper mais à frente, onde uma coisa se regenera, mais à frente outra coisa se pode regenerar.” Também “Faina”, o seu segundo romance, se sustenta nos mesmos conceitos, ao encontro de uma comunidade piscatória que resiste aos avanços do tempo e do progresso, alicerçada em princípios e valores apenas seus. Falando da sua experiência de leitor, o moderador confessa que este foi “um livro mil vezes posto de parte, mil vezes recuperado”, o que mereceu da escritora a observação de que isso a deixa muito feliz: “Gosto muito que o texto tenha momentos em que repele e outros em que atrai, tal como a vida, tal como o mar no seu vai e vem, que afasta e aproxima.” A conversa à volta de “Faina” serviu para falar de muitas coisa, do redeiro e do Zé Gordo, do cancioneiro popular e da arte xávega, da dinâmica de uma sociedade matriarcal, de“quando o mar chama” e do quão importante é saber respeitar os ritmos da natureza. “Ritmos de cura”, chama-lhes a escritora, estabelecendo um contraponto com o ritmo frenético e doentio em que vivemos nos dias de hoje.

No fluir da conversa falou-se ainda de mistério e magia, da percepção de que “a magia da escrita e da leitura está em podermos abandonar a nossa pele e sermos outra coisa, sermos montanha, sermos água, sairmos dos nossos limites, das nossas barreiras físicas e psicológicas, conseguirmos uma quase dissolução”. Falou-se também do poder de criar que há em cada leitor, fazendo o escritor “apenas metade do trabalho. É o imaginário do leitor, a sua capacidade de efabular em cima do que está ler, que faz do livro aquilo que pode representar (e que é sempre diferente de leitor para leitor). O livro é, assim, um acto de criação, de imaginação e de resistência”. Para fim de conversa falou-se do gesto da escrita, da sua imprevisibilidade e dos caminhos que pode levar, tomando como certa a felicidade de estarmos vivos, de ainda contarmos e fazermos parte de tudo isto, devermos acreditar que podemos regenerar aquilo que parece perdido e confiar no valor daquilo que fazemos. Mas o livro deve ser também “um lugar de estranheza, de atropelo das nossas vidas e das nossas vozes, um lugar que possa trazer algum desconforto”. Um lugar onde nos perdemos para que nos possamos encontrar, onde nos sentimos cativos para podermos dar todo o valor à nossa liberdade.

sábado, 23 de novembro de 2024

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Cláudia Cruz Santos



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Cláudia Cruz Santos
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
20 Nov 2024 | qua | 17:00


Com o ano à beirinha do fim, o Centro de Reabilitação do Norte foi palco, ao final da tarde da passada quarta feira, da última sessão de 2024 das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”. Convidada especial de um momento sempre especial, a romancista Cláudia Cruz Santos trouxe-nos um pouco dos seus “ruidosos” mundos, tão em contraciclo com aquilo que veio encontrar nesta cidade sem muros nem ameias, “um espaço de paz e harmonia, como se fosse um parênteses no tempo”. Uma janela de oportunidade que lhe permitiu, ainda que por breves instantes, afastar-se da confusão lá fora, ao encontro de um conjunto de pessoas muito variado, mas que tem como denominador comum o gostarem de histórias. Começando por falar de si, a convidada referiu terem sido “muito turbulentos” os seus últimos anos. Professora de Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, a certa altura, mais ou menos por acaso, iniciou outras aventuras que a confrontaram com o mundo do Futebol e da Política. Actual Presidente do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol e, a partir de 2019, eleita como deputada independente nas listas do Partido Socialista, Cláudia Cruz Santos tem vivido os últimos quatro anos e meio em contextos de grande conflitualidade e confessou sentir muitas saudades da sua vida na Faculdade. “Tantas saudades, que este ano voltei a dar aulas e, sempre que ponho um pezinho em Coimbra, tenho uma sensação de alívio. A mesma sensação que sinto aqui”, disse.

Ainda antes de abordar as questões à roda dos seus livros, Cláudia Cruz Santos referiu que a perfeição “é um dia com o meu filho, mar, areia e um bom livro”. Falando da sua vida enquanto membro do hemiciclo, salientou que “não se deve ser deputado, deve-se estar deputado”, vincando a noção de transitoriedade inerente ao lugar. Pegando na sua experiência, disse: “Quando aceitei o convite para integrar as listas, tinha um interesse particular. Como professora de Direito Penal, interessava-me perceber como é que as leis são feitas (…), participar nesse processo. Mas quando cheguei à Assembleia, percebi que era tudo muito mais difícil do que imaginava. O conflito é muito grande, o debate nunca é orientado para a procura de consensos.” A convidada recorda a sua primeira semana na Assembleia: “Eu estava intimidada com o clima do plenário, com a gritaria, a animosidade. Ao meu lado estava sentado um velho deputado, o José Magalhães, a quem manifestei o meu incómodo com aquele modo de comunicar. Ele disse-me qualquer coisa como isto: É melhor que se habitue, prepare-se, porque caiu dos cadeirais onde se sentam os académicos para a arena onde lutam os leões. Portanto, a Assembleia da República tem esse ambiente de gladiadores e cada grupo parlamentar tem os seus. Para tratar um determinado assunto vão para a fila da frente e usam as suas armas. O debate é um debate para ganhar, não é para chegar a consensos. Portanto, um debate difícil, muito diferente daquele que há na Universidade.” Voltando a José Magalhães e ao conselho recebido, Cláudia Cruz Santos nunca se sentiu preparada: “Acho que tenho até mais dificuldade agora do que tinha no principio”, concluiu.

Tempo, agora, para falar de livros. Ao contrário da sua produção académica, os romances apareceram absolutamente por acaso. Treinada para “uma escrita muita argumentativa, sem imaginação, sem adjectivos, refém da necessidade de provar tudo aquilo que é dito”, Cláudia Cruz Santos encontrou, no Verão de 2016, uma oportunidade para desenhar outro género de escrita. Os entediantes dias de exames no Centro de Estudos Judiciários, de cujo júri fazia parte, levaram-na a pensar na figura de “uma juíza insuportável”, o que viria a dar origem a um pequeno texto e à descoberta de que este tipo de abordagem criativa a ajudava “a fazer as pazes com o Universo”. De pequeno texto em pequeno texto - onde foram cabendo o traficante, a vítima sexual ou o jogador de futebol -, nasceu “Nenhuma Verdade se Escreve no Singular” (Bertrand Editora, Setembro de 2017), conjunto de contos unidos pela argamassa da ficção, com um fio condutor: Uma juíza, Amália, que deixa a sua sala de audiências, ao encontro de diferentes tipos de pessoas e da vida que levam cá fora. Este livro serviu também para partir em busca de respostas às muitas dúvidas que se levantam na relação da Justiça com os cidadãos: “Temos um sistema de Justiça que não dá resposta aos problemas reais das pessoas. Há um grande número de situações que deveriam ser resolvidas através de soluções terapêuticas. Muitas pessoas praticam crimes porque têm problemas de saúde mental, de alcoolismo ou relacionados com a pobreza, para os quais deveria haver respostas - ainda que sejam mais difíceis, impliquem mais investimento do Estado, maior disponibilidade -, em vez do encarceramento puro e simples das pessoas, o que raramente produz efeitos positivos.”

Acerca de “A Vida Oculta das Coisas” (Bertrand Editora, Março de 2019), Cláudia Cruz Santos referiu que a ideia para a escrita do livro surgiu numa altura em que estava a preparar uma conferência para um grande Congresso sobre tráfico de seres humanos. Do estudo das rotas do tráfico de mulheres - América do Sul (sobretudo do Nordeste do Brasil), Leste Europeu (Roménia e Moldávia) e África (sobretudo da Nigéria) -, ao modo de recrutamento nos países de origem, ao transporte para a Europa e à sua colocação em casas de alterne ou em casas onde se pratica a prostituição, nasce um romance que mostra a mulher “não na dimensão da sua sexualidade, mas na complexidade das suas vidas”. Ao mesmo tempo, a autora quis mostrar uma realidade que permanece particularmente invisível, a “vida oculta” de pessoas tratadas como “coisas”, “pessoas traficadas que existem à nossa volta e que nós não vemos - e não vemos porque têm medo -, mas que precisam muito de ajuda”. No espaço de perguntas e respostas aberto ao público, para cima da mesa saltaram os extremismos, o futebol e a prostituição, em questões fantásticas e desafiantes. A ida recente ao Paquistão e o confronto com um regime profundamente injusto serviu para dizer que vale sempre a pena afirmar uma posição de verdade e de justiça, conseguindo dar a ouvir a voz daqueles que a não têm. Já o futebol, levou-nos à decisão “profundamente censurável” da FIFA em organizar o Mundial no Qatar, mas também à certeza de haver neste particular mundo muitas pessoas corajosas e dignas. Finalmente, quanto à prostituição e ao debate aberto à sua volta, a convidada não tem dúvida de que deve ser legalizada, num modelo de livre escolha.

Para o final ficou “O Extraordinário Caso da Mosquinha-Morta” (Gigões & Anantes, Maio de 2020), um romance em linha com os anteriores em termos de conteúdo, mas algo diferente na forma como se abre ao leitor, já que se trata de um policial. E um policial porquê? “Eu gosto imenso de policiais, embora seja, de algum modo, um género desconsiderado pelos grandes apaixonados pela literatura”. Apreciadora confessa de Ruben Fonseca, Francisco José Viegas e João Tordo, Cláudia Cruz Santos acha muito difícil escrever policiais, “porque é difícil não revelar tudo, mas não chegar a uma solução incoerente”. Na busca de um homicida que não fosse óbvio - “na realidade quase nunca são óbvios” -, a autora fala de preconceito e de estereótipos, dos toxicodependes, árabes barbudos e homens solitários que atraem criancinhas com rebuçados, para nos dizer que o mal pode estar onde menos se espera. As últimas palavras da convidada foram para este momento de revisitação da sua obra. Assustada, à partida, com a possibilidade de voltar a esta dimensão da sua vida - “o último livro é de 2020 e nós estamos em 2024”, lembra - e a investir-se num papel do qual se tinha começado a esquecer, foi percebendo, afinal, que as coisas não estavam assim tão distantes e o momento revelou-se extraordinariamente prazeroso para todos os participantes na Tertúlia. Parece haver um novo romance no horizonte, mas a oportunidade para desenvolver uma história já desenhada na mente da autora tarda em surgir. Talvez Cláudia Cruz Santos possa regressar proximamente ao CRN para nos falar desse seu novo livro.

domingo, 8 de setembro de 2024

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Diogo Leite Castro



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com Diogo Leite Castro
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
05 Set 2024 | qui | 17:00


Com as baterias carregadas após a pausa de Verão, as tertúlias literárias “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para mais um final de tarde à roda dos livros e da leitura. Promovida por esta instituição de saúde, a iniciativa contou com a forte adesão de um público maioritariamente composto por utentes do Centro, que receberam calorosamente Diogo Leite Castro, o convidado desta 16.ª sessão. Aberto à partilha do seu mundo literário com a plateia, o escritor foi acolhendo com entusiasmo as questões que moderador e público colocaram ao longo de uma hora de conversa, a todos respondendo com enorme solicitude, franqueza e generosidade. Uma hora de puro prazer envolto em livros, olhando processos criativos, as possibilidades que se abrem perante uma página em branco, as “private jokes” que se escondem num lugar ou numa personagem, a fixação na secção de necrologia do JN, Cesare Lombroso, Mário Cláudio e a livraria Flaneur, os conceitos de identidade, eternidade e transcendência, o pensamento e a opinião, o real e o aparente, a mentira e a verdade.

Num espaço luminoso com o mar em pano de fundo, as primeiras palavras de Diogo Leite Castro foram para uma plateia onde pontificavam as cadeiras de rodas e que, olhada nos olhos, foi classificada pelo escritor, no melhor dos sentidos, de “muito impressionante”. Voltando-se para os livros enquanto “objectos transcendentes”, como canta Caetano Veloso, o escritor confessou que a leitura foi amor à primeira vista, “um amor que nunca me desiludiu, nunca me abandonou e que eu nunca abandonei. Um amor muito próximo da perfeição, o que tem um carácter transcendente, [uma vez que] amores perfeitos só no campo da transcendência.” Este amor deve-o a duas professoras de português que não esquece, bem como à escola e às leituras obrigatórias, “porque me orientaram sempre nos melhores caminhos”. Hoje, pode dizer que a leitura e a escrita servem, sobretudo, para o salvar: “Eu trabalho para ganhar a vida, mas a literatura entrou em mim para me salvar de um quotidiano hostil, difícil, que me obriga a tomar decisões complicadas. A literatura faz com que possa afastar-me de tudo isso e, em grande medida, salva-me.” Dos primórdios de uma relação apaixonada e apaixonante fica, ainda, a ideia de que “a leitura nos afasta das decisões difíceis da vida, ao passo que a escrita nos obriga a tomar decisões.”

A conversa evoluiu, muito naturalmente, para o processo criativo, com Diogo Leite Castro a falar de “exercício tortuoso” ao referir-se à escrita. “Parece-me que estou constantemente a liquidar personagens, a liquidar possibilidades”, diz. E exemplifica: “Quando digo que aquela personagem se desloca de casa para a escola, estou a destruir todas as outras possibilidades, o ir ao cinema ou uma ida à praia, por exemplo. Preocupam-me as ausências, o que gostaria de ter dito e acabo por não dizer. Mas a vida é mesmo assim, provoca-nos constantemente e obriga-nos a tomar decisões. É terrível a dialéctica que se estabelece entre o que se diz e o que não se diz, o que se escreve e aquilo que não se escreve.” Abordando o método de escrita, o escritor revela: “Tenho o texto aberto muitas horas, mas não estou sempre a escrever. Escrevo um parágrafo e paro, vou fazer outras coisas, regresso ao parágrafo, revejo-o, acrescento mais uma linha. (…) O livro acaba por ser um organismo vivo, que cresce à medida que se vai fazendo.”

Olhar os três livros que estão, literalmente, em cima da mesa - o livro de contos “Histórias da Vida Moderna” (2015) e os romances “Descrição Abreviada da Eternidade” (2020) e “Biografia do Esquecimento” (2024) - é o passo seguinte. O primeiro livro de contos parte de um conjunto de episódios que aconteceram com pessoas próximas do escritor e que, de alguma forma, tinham um lado hilariante. “Partilhava os contos com essas pessoas e, realmente, elas reconheciam-se nas personagens e tiravam um enorme gozo do que escrevia”, lembra. No meio desta corrente de textos que foram circulando, alguém pegou nos contos e decidiu publicá-los. Assim nasceu um escritor. Já o mesmo não acontece com os romances. Enquanto os contos refletem as vivências e experiências pessoais sem grandes filtros, nos romances percebe-se um distanciamento do real, substituído por pensamentos que o autor foi formulando, ideias que foi construindo, leituras que foi fazendo. Nesta medida “os meus romances acabam por ser a expressão de uma vontade de fazer algo mais ambicioso”.

Olhando ambos os romances, o moderador começou por estabelecer uma relação entre eles, fazendo vincar que é muito mais o que os une que aquilo que os separa. O processo criativo vem novamente à baila: “Uma pessoa que é bem disposta no dia a dia, tem sempre dentro de si uma outra que o não é. É essa outra figura que eu gosto de explorar porque, literalmente, é muito mais rica que o seu contrário. Por isso, os meus romances são povoados por personagens angustiadas, presas dentro do seu próprio labirinto, que duvidam de si e dos outros. São personagens que oferecem muito mais possibilidades à criação de um universo literário do que uma personagem para a qual está sempre tudo bem.” Do primeiro romance diz que fala de “contaminação” e de “crises de identidade”, do que já não somos ou poderíamos ser quando somos contaminados pelos outros. Dessa tomada de consciência resulta a procura de uma purificação física, esperando que essa purificação possa ser também espiritual: “De que forma o fazemos? Tomamos um banho e vestimos uma túnica branca, como o Cravel do livro.”

“Biografia do Esquecimento” não foi esquecido. Diogo Leite Castro corrobora a opinião de um conjunto de personalidades que sustentam que “todas as biografias ou auto-biografias tendem para o romance, e que todos os romances tendem para a biografia ou auto-biografia.” Porém, no caso concreto deste seu último romance, a questão pode colocar-se com toda a legitimidade: “Escrever sobre a vida de alguém que, aparentemente, não fez nada, será que vale a pena? O que é que vou escrever sobre aquela pessoa se ela não tem nada para dizer?” O que levanta duas questões não menos legítimas: “Será que a nossa biografia se resume apenas àquilo que fazemos? Ou não será que nós somos também o que pensamos, sonhamos, desejamos e gostaríamos de ser? O escritor responde: “Se formos capazes de ter sonhos e ideias, independentemente de os concretizarmos ou não, isso deve ser considerado para efeitos da nossa existência, da nossa biografia. Escrever sobre isso é muito mais estimulante do que escrever coisas tão banais, como “formou-se nesta data”, “seguiu esta ou aquela carreira”, “foi presidente aqui ou ali”, que é o que encontramos na Wikipedia”.

Entramos na parte final da tertúlia e é tempo de abrir as questões à plateia. As respostas não se fazem esperar, com dicas para escrever nas mais variadas circunstâncias, dilemas confessados sobre o alívio ao terminar um livro e a angústia sentida quando o “síndrome de privação” ataca o escritor ao fim de algum tempo (“já passaram dois meses e ainda não escrevi nada, o que é que se passa?”), o escrever à mão ou em computador, os “gatilhos” necessários para iniciar um romance. “Estou a tentar escrever qualquer coisa e, neste momento, tenho três folhas que demoraram três meses a completar” é uma das últimas revelações, numa espécie de regresso ao princípio, às possibilidades que se abrem perante uma página em branco, à escrita como processo salvador, mas que dá muito trabalho. As últimas ideias vão para as pessoas que amamos e que, objectivamente ou de forma subtil, gostamos de pôr nos livros em jeito de homenagem, para os livreiros e as livrarias que têm a capacidade de se reinventarem e para uma Zundapp de estimação, “que falha sempre”. Uma muito merecida salva de palmas encerrou a sessão, com a promessa de que as “Conversas às 5” regressarão em Novembro. Estejam atentos.