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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Josefa de Maltezinho



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Josefa de Maltezinho
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
18 Fev 2026 | qui | 17:00


A vigésima nona sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, promovidas pelo Centro de Reabilitação do Norte, voltou a provar que a palavra é, tantas vezes, o mais eficaz dos remédios. Na tarde de 18 de Fevereiro, as paredes habituadas ao silêncio abriram-se a uma respiração mais funda, feita de escuta e partilha. Dirigida muito especialmente aos utentes internados e às suas famílias, a iniciativa tem sido esse território de confluência onde o bem-estar se constrói devagar, como quem cose uma ferida com pontos de luz. Mas é, também, um momento de encontro com o livro enquanto objecto que acrescenta saber e enriquecimento, que desafia a clausura da doença e convida a viajar à descoberta de paisagens com outras e novas cores, longe do negro da imobilidade e da dependência, do branco asséptico de corredores e enfermarias. Cada sessão é uma pequena travessia, cada convidado um farol aceso na margem. Um farol que, na tarde da passada quarta-feira, teve nome literário e voz de mulher.

Josefa de Maltezinho, pseudónimo de Julieta Aleluia, nasceu no Porto, mas foi em Aveiro que aprendeu a soletrar o mundo e a permanecer. Professora do Ensino Básico, formada pela Universidade de Aveiro, guardou durante décadas cadernos e versos, como quem guarda sementes à espera de serem lançadas à terra na estação propícia. Em 2013 publicou “Água Corrente”, a que se seguiu o romance “Maçã com Bicho”. Regressou depois à poesia com “Porque um Rio Também se Cansa”, publicou em Espanha a edição bilingue “Otoño de Visita”, e continuou o seu caminho com “Uma Garfada de Sol no Umbigo”, “Fracturas Expostas”, “Solidão Assistida ou a Brutalidade do Quotidiano” e “Pela Lente do Repórter”. Em Julho de 2025, com a chancela da Editora Exclamação, deu à estampa “Elisa”, obra que serviu de ponto de partida para uma conversa que se quis inteira e sem rede.

Dos doentes e para os doentes, a tertúlia fez-se viva, intensa e livre. Antes de qualquer apresentação formal, os presentes quiseram saber tudo sobre a convidada, como se a curiosidade fosse uma urgência vital. A Teresa e o Alberto, a Diana, a Paula e tantos outros que fizeram questão de erguer a voz como quem segura na mão um espelho, reflectiram, opinaram, inquiriram e partilharam as suas inquietações sobre o papel da mulher, a sua educação para a resignação, a sua secundarização histórica, os lentos processos de emancipação. Olhando o romance “Elisa”, o moderador evocou Alfred Hitchcock e o seu “Janela Indiscreta” para colocar os presentes na pele de um James Stewart a observar vidas alheias através de uma janela imaginária: a mulher romena com a criança ao colo, abrigando-se da chuva; a outra que, entre gritos domésticos, é agredida. Em paralelo, emergiu a memória de tempos em que secretárias do Ministério dos Negócios Estrangeiros, enfermeiras, hospedeiras da TAP Air Portugal ou professoras não podiam ser casadas. Falou-se de Maio de 2000, data em que a violência doméstica passou a constituir crime público, mas também da persistência de mentalidades que ainda murmuram que “entre marido e mulher não se mete a colher”.

Na segunda parte da sessão, a poesia tomou a sala como um sopro. A leitura partilhada revelou uma autora multifacetada, atenta às imagens de violência que nos entram pela casa adentro à hora do jantar, trazidas pelos noticiários, mas igualmente sensível ao rumor de um tasco “à moda antiga” do Porto, onde a vida é servida em copos de três e as conversas se saboreiam sem tempo. A palavra poética, ali, não foi ornamento: foi bisturi e foi abraço. Interrogou-nos no que temos de mais cru, convidando cada um a revisitar a sua própria história. E quando a escritora encerrou a sessão com um elogio à iniciativa — “pela cultura, pelo bem-estar de quem não se encontra nas melhores condições físicas e tanto precisa destes incentivos” — percebeu-se que não foi apenas literatura o que ali se celebrou, antes a possibilidade de, mesmo em contexto de fragilidade, se continuar a crescer. Como uma resposta afirmativa e livre ao desejo de que cada livro aberto possa ser uma janela menos indiscreta e mais luminosa sobre a esperança.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

LIVRO: "Elisa" | Josefa de Maltezinho



LIVRO: “Elisa”,
de Josefa de Maltezinho
Ed. Editora Exclamação, Julho de 2025


“Há quarenta anos, que escolha tínhamos nós, filha? Que espaço de acção? Nenhum. Ambos fomos vítimas de uma sociedade manipuladora, mesquinha, intriguista, que nos obrigou a viver de acordo com os seus preceitos hipócritas, as suas regras preconceituosas. Submetidos a um escrutínio demolidor, uma pistola apontada ao crânio. Não, Elisa, não me compete julgar ninguém, condenar ninguém. Compete-me, isso sim, admitir que o homem com quem casei, cumpriu rigorosamente tudo o que prometeu. Até lhe acrescentou um amor paternal que, em momento algum, pensei ver tão sólido no seu coração. O que haverá de ser tão importante quanto isto para uma mãe? Como podia cobrar-lhe mais? Ele ditou-me as regras, eu aceitei-as de livre vontade. Se fui infeliz, a culpa foi minha.”

É com emoção que partilho algumas impressões sobre “Elisa”, o segundo romance de Josefa de Maltezinho, depois de “Maçã com Bicho” (2016). Nele, a autora constrói uma narrativa que se impõe menos pelo enredo linear do que pela espessura moral do olhar. A cena inaugural, com Elisa à janela de um prédio antigo, funciona como metáfora total do romance: observar é já uma forma de confronto. A violência doméstica a que assiste à distância - e a reacção quase automática do senso comum, cristalizada em provérbios e frases feitas -, revela como o mal se infiltra no quotidiano com a naturalidade da chuva que “mastiga quase em seco”. A autora não precisa de sublinhar; basta-lhe expor. O gesto de Elisa, apanhada de surpresa pelo bofetão que atravessa paredes e décadas, liga o passado salazarista ao presente democrático, lembrando que a lei muda antes das mentalidades. Josefa de Maltezinho mostra isto com subtileza, assumindo uma escrita que recusa a denuncia aos gritos, antes a que mói por dentro de forma lenta, persistente e estrutural.

O romance espalha-se pelo território da memória, um casamento a abrir-se como um dos grandes dispositivos de ordenação social das mulheres. A boda molhada, recordada com doçura quase supersticiosa, é simultaneamente abrigo e fronteira. A chuva abençoa, mas não lava as diferenças de classe, nem as diferenças que sentam à mesa, de costas, convidados de um e outro lado. Josefa de Maltezinho trabalha estas cenas com uma ironia subtil, revelando como o amor, mesmo quando sincero, nasce condicionado por códigos herdados. As mães e avós surgem como transmissoras de um saber duro, pragmático, feito de avisos e renúncias. O amor tem pés de barro, a cama faz-se para quem nela melhor se deitar. Não há romantização do sacrifício, apenas a exposição crua de um sistema que ensinou gerações de mulheres a sobreviverem confundindo prudência com resignação.

É particularmente incisiva a forma como a autora descreve a educação sentimental e sexual feminina, feita de interditos, eufemismos e medos. O corpo surge como campo de batalha: vigiado, coberto, higienizado, domesticado. Entre as casas de alterne, observadas de fora, e as toalhinhas brancas guardadas na gaveta, desenha-se um mapa de hipocrisias onde a sexualidade masculina circula livre e a feminina é encerrada em regras, panos e silêncios. As personagens femininas aprendem cedo que a honra pesa mais do que o desejo e que a virgindade, mais do que um estado, é moeda de troca. A escrita de Maltezinho é aqui quase etnográfica, registando expressões, rituais e crenças com um rigor que não abdica da poesia nem da crueldade.

Referirei, enfim, que “Elisa” assume uma leitura crítica do século XX português, onde o Estado Novo surge menos como regime abstracto e mais como atmosfera: um modo de estar, pensar e calar. As referências à lei, às proibições profissionais, à dependência económica e ao medo do desamparo, constroem um retrato colectivo em que o casamento é refúgio e armadilha. Mesmo vivendo em democracia, a autora mostra que a relação com os pilares da ditadura e com a cartilha de Salazar não é coisa de hoje, como se a liberdade fosse um idioma mal aprendido. Josefa de Maltezinho escreve sobre mulheres que começaram, lentamente, a desobedecer. Que tropeçaram, recuaram e avançaram outra vez. Fá-lo sem heroísmos fáceis, consciente de que cada conquista foi arrancada a custo, entre sonhos adiados e muita bílis engolida. ”Elisa” não é apenas um romance de memória; é um espelho desconfortável onde nunca deixamos de nos reconhecer. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (II)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Ana Maria Ferreira, Ana Moreira, Elisabete Pinho, Jorge Névoa, José Ferreira, Josefa de Maltezinho, Leocádia Regalo, Maria José Quintela, Paulo Félix
Escola de Artes e Ofícios
19 Set 2024 | qui | 21:00

Em velocidade de cruzeiro, o Festival Literário de Ovar fez da Escola de Artes e Ofícios a sua base para duas noites de partilha e conhecimento à roda dos livros e da leitura. Numa edição - a décima - que evoca os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, mas também os 50 anos do 25 de Abril, a liberdade foi o assunto que dominou a mesa temática, com o mote a surgir nas palavras de Bernardo Soares / Fernando Pessoa: “Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.” E foi precisamente por aqui que a moderadora Ana Maria Ferreira começou, acrescentando o natural complemento à frase escolhida para tema de conversa e contextualizando-a no registo do “Livro do Desassossego”: “Passar dos fantasmas da fé para os espectros da razão é somente ser mudado de cela. A arte, se nos liberta dos manipansos assentes e obsoletos, também nos liberta das ideias generosas e das preocupações sociais — manipansos também.” Um apontamento pleno de oportunidade que nos vem dizer que “o conceito de liberdade que temos na frase inicial tem muito que se lhe diga”. Estava dado o mote para a conversa.


Numa mesa que juntou três escritoras, três poetisas, três mulheres, o tema da liberdade conjugou-se com as ideias de solidão, espanto e poder, de paisagens interiores, da urgência da escrita. Enfermeira de profissão, “mas essencialmente leitora”, Maria José Quintela partilhou um texto que escreveu especificamente para este momento e que acabou por dominar a sessão. Nas suas palavras, podemos escutar, entre outras inquietações próprias de quem se pensa a si e ao espaço em volta, o seguinte: “A liberdade é um rumor de asas no interior de quem se arrisca a pensar, sem medo de perder o chão ou se perder de si. Olhar a partir de dentro clarifica a nossa posição no Universo e nada tão desastroso como perder a noção de espaço que ocupamos: Um pequenino quintal, cercado de intrigas e representações no limite da ocupação”. Pegando neste assunto, Leocádia Regalo afirmou que nos “interessamos, às vezes, mais com a opinião dos outros do que com as nossas vivências, com os nossos sonhos, com os riscos que temos de correr”, acrescentando que “não é artista aquele que pensa que só a arte deve agradar ou deve vender.” Josefa de Maltezinho observou que “estamos subjugados a determinados pontos que, quer queiramos quer não, iremos seguir” e que “quem quer chegar aos leitores, encontra na liberdade uma certa prisão.”

Ana Maria Ferreira fechou a mesa com a leitura de um poema de Maria José Quintela, do seu livro “Morrer e Depois”, como “homenagem às três convidadas”, e que termina assim: “(…) desbridam o firmamento, / avaliam a escala das formas luminosas, / escalam as marés e os montes lunares, / e, como cálidos incensos, / ardem a ansiedade nos meteoritos / e alargam a dança de roda a cada um que passa. / afinal, já todos foram todos.” Um belíssimo momento, que abriu espaço a outro momento não menos belíssimo, trazendo na voz e na música de Jorge Névoa, acompanhado ao piano por Ana Moreira, a poesia de Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Miguel Torga, Natália Correia, Alfred Tennyson e António Aleixo. Feitas de sensibilidade e emoção, as baladas deram a ouvir, de forma incomum, poemas tão queridos, vincando a sua riqueza e versatilidade e tornando-os mais queridos ainda. Particularmente emotivo, o momento de declamação por José Ferreira de dois poemas de Manuel Ramos Costa, poeta ovarense recentemente desaparecido, calou fundo no coração de todos os presentes. Uma última nota para a apresentação do livro “O Pêndulo - Nenhum Segredo é Eterno”, de Elisabete Pinho, por Paulo Felix, que abriu o segundo dia do FLO e que, nas palavras da escritora, é “essencialmente um drama familiar”, envolto no ritmo do suspense e do thriller, “para dar mais vontade ao leitor de não perder a história.” O FLO10 regressa mais logo, pelas 18h00, estendendo-se pela noite fora com uma mão cheia de propostas imperdíveis.