“Há quarenta anos, que escolha tínhamos nós, filha? Que espaço de acção? Nenhum. Ambos fomos vítimas de uma sociedade manipuladora, mesquinha, intriguista, que nos obrigou a viver de acordo com os seus preceitos hipócritas, as suas regras preconceituosas. Submetidos a um escrutínio demolidor, uma pistola apontada ao crânio. Não, Elisa, não me compete julgar ninguém, condenar ninguém. Compete-me, isso sim, admitir que o homem com quem casei, cumpriu rigorosamente tudo o que prometeu. Até lhe acrescentou um amor paternal que, em momento algum, pensei ver tão sólido no seu coração. O que haverá de ser tão importante quanto isto para uma mãe? Como podia cobrar-lhe mais? Ele ditou-me as regras, eu aceitei-as de livre vontade. Se fui infeliz, a culpa foi minha.”
É com emoção que partilho algumas impressões sobre “Elisa”, o segundo romance de Josefa de Maltezinho, depois de “Maçã com Bicho” (2016). Nele, a autora constrói uma narrativa que se impõe menos pelo enredo linear do que pela espessura moral do olhar. A cena inaugural, com Elisa à janela de um prédio antigo, funciona como metáfora total do romance: observar é já uma forma de confronto. A violência doméstica a que assiste à distância - e a reacção quase automática do senso comum, cristalizada em provérbios e frases feitas -, revela como o mal se infiltra no quotidiano com a naturalidade da chuva que “mastiga quase em seco”. A autora não precisa de sublinhar; basta-lhe expor. O gesto de Elisa, apanhada de surpresa pelo bofetão que atravessa paredes e décadas, liga o passado salazarista ao presente democrático, lembrando que a lei muda antes das mentalidades. Josefa de Maltezinho mostra isto com subtileza, assumindo uma escrita que recusa a denuncia aos gritos, antes a que mói por dentro de forma lenta, persistente e estrutural.
O romance espalha-se pelo território da memória, um casamento a abrir-se como um dos grandes dispositivos de ordenação social das mulheres. A boda molhada, recordada com doçura quase supersticiosa, é simultaneamente abrigo e fronteira. A chuva abençoa, mas não lava as diferenças de classe, nem as diferenças que sentam à mesa, de costas, convidados de um e outro lado. Josefa de Maltezinho trabalha estas cenas com uma ironia subtil, revelando como o amor, mesmo quando sincero, nasce condicionado por códigos herdados. As mães e avós surgem como transmissoras de um saber duro, pragmático, feito de avisos e renúncias. O amor tem pés de barro, a cama faz-se para quem nela melhor se deitar. Não há romantização do sacrifício, apenas a exposição crua de um sistema que ensinou gerações de mulheres a sobreviverem confundindo prudência com resignação.
É particularmente incisiva a forma como a autora descreve a educação sentimental e sexual feminina, feita de interditos, eufemismos e medos. O corpo surge como campo de batalha: vigiado, coberto, higienizado, domesticado. Entre as casas de alterne, observadas de fora, e as toalhinhas brancas guardadas na gaveta, desenha-se um mapa de hipocrisias onde a sexualidade masculina circula livre e a feminina é encerrada em regras, panos e silêncios. As personagens femininas aprendem cedo que a honra pesa mais do que o desejo e que a virgindade, mais do que um estado, é moeda de troca. A escrita de Maltezinho é aqui quase etnográfica, registando expressões, rituais e crenças com um rigor que não abdica da poesia nem da crueldade.
Referirei, enfim, que “Elisa” assume uma leitura crítica do século XX português, onde o Estado Novo surge menos como regime abstracto e mais como atmosfera: um modo de estar, pensar e calar. As referências à lei, às proibições profissionais, à dependência económica e ao medo do desamparo, constroem um retrato colectivo em que o casamento é refúgio e armadilha. Mesmo vivendo em democracia, a autora mostra que a relação com os pilares da ditadura e com a cartilha de Salazar não é coisa de hoje, como se a liberdade fosse um idioma mal aprendido. Josefa de Maltezinho escreve sobre mulheres que começaram, lentamente, a desobedecer. Que tropeçaram, recuaram e avançaram outra vez. Fá-lo sem heroísmos fáceis, consciente de que cada conquista foi arrancada a custo, entre sonhos adiados e muita bílis engolida. ”Elisa” não é apenas um romance de memória; é um espelho desconfortável onde nunca deixamos de nos reconhecer.
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