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sábado, 7 de fevereiro de 2026

LIVRO: "Elisa" | Josefa de Maltezinho



LIVRO: “Elisa”,
de Josefa de Maltezinho
Ed. Editora Exclamação, Julho de 2025


“Há quarenta anos, que escolha tínhamos nós, filha? Que espaço de acção? Nenhum. Ambos fomos vítimas de uma sociedade manipuladora, mesquinha, intriguista, que nos obrigou a viver de acordo com os seus preceitos hipócritas, as suas regras preconceituosas. Submetidos a um escrutínio demolidor, uma pistola apontada ao crânio. Não, Elisa, não me compete julgar ninguém, condenar ninguém. Compete-me, isso sim, admitir que o homem com quem casei, cumpriu rigorosamente tudo o que prometeu. Até lhe acrescentou um amor paternal que, em momento algum, pensei ver tão sólido no seu coração. O que haverá de ser tão importante quanto isto para uma mãe? Como podia cobrar-lhe mais? Ele ditou-me as regras, eu aceitei-as de livre vontade. Se fui infeliz, a culpa foi minha.”

É com emoção que partilho algumas impressões sobre “Elisa”, o segundo romance de Josefa de Maltezinho, depois de “Maçã com Bicho” (2016). Nele, a autora constrói uma narrativa que se impõe menos pelo enredo linear do que pela espessura moral do olhar. A cena inaugural, com Elisa à janela de um prédio antigo, funciona como metáfora total do romance: observar é já uma forma de confronto. A violência doméstica a que assiste à distância - e a reacção quase automática do senso comum, cristalizada em provérbios e frases feitas -, revela como o mal se infiltra no quotidiano com a naturalidade da chuva que “mastiga quase em seco”. A autora não precisa de sublinhar; basta-lhe expor. O gesto de Elisa, apanhada de surpresa pelo bofetão que atravessa paredes e décadas, liga o passado salazarista ao presente democrático, lembrando que a lei muda antes das mentalidades. Josefa de Maltezinho mostra isto com subtileza, assumindo uma escrita que recusa a denuncia aos gritos, antes a que mói por dentro de forma lenta, persistente e estrutural.

O romance espalha-se pelo território da memória, um casamento a abrir-se como um dos grandes dispositivos de ordenação social das mulheres. A boda molhada, recordada com doçura quase supersticiosa, é simultaneamente abrigo e fronteira. A chuva abençoa, mas não lava as diferenças de classe, nem as diferenças que sentam à mesa, de costas, convidados de um e outro lado. Josefa de Maltezinho trabalha estas cenas com uma ironia subtil, revelando como o amor, mesmo quando sincero, nasce condicionado por códigos herdados. As mães e avós surgem como transmissoras de um saber duro, pragmático, feito de avisos e renúncias. O amor tem pés de barro, a cama faz-se para quem nela melhor se deitar. Não há romantização do sacrifício, apenas a exposição crua de um sistema que ensinou gerações de mulheres a sobreviverem confundindo prudência com resignação.

É particularmente incisiva a forma como a autora descreve a educação sentimental e sexual feminina, feita de interditos, eufemismos e medos. O corpo surge como campo de batalha: vigiado, coberto, higienizado, domesticado. Entre as casas de alterne, observadas de fora, e as toalhinhas brancas guardadas na gaveta, desenha-se um mapa de hipocrisias onde a sexualidade masculina circula livre e a feminina é encerrada em regras, panos e silêncios. As personagens femininas aprendem cedo que a honra pesa mais do que o desejo e que a virgindade, mais do que um estado, é moeda de troca. A escrita de Maltezinho é aqui quase etnográfica, registando expressões, rituais e crenças com um rigor que não abdica da poesia nem da crueldade.

Referirei, enfim, que “Elisa” assume uma leitura crítica do século XX português, onde o Estado Novo surge menos como regime abstracto e mais como atmosfera: um modo de estar, pensar e calar. As referências à lei, às proibições profissionais, à dependência económica e ao medo do desamparo, constroem um retrato colectivo em que o casamento é refúgio e armadilha. Mesmo vivendo em democracia, a autora mostra que a relação com os pilares da ditadura e com a cartilha de Salazar não é coisa de hoje, como se a liberdade fosse um idioma mal aprendido. Josefa de Maltezinho escreve sobre mulheres que começaram, lentamente, a desobedecer. Que tropeçaram, recuaram e avançaram outra vez. Fá-lo sem heroísmos fáceis, consciente de que cada conquista foi arrancada a custo, entre sonhos adiados e muita bílis engolida. ”Elisa” não é apenas um romance de memória; é um espelho desconfortável onde nunca deixamos de nos reconhecer. 

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

LIVRO: "Tentação da Prosa"



LIVRO: “Tentação da Prosa”,
de Luís Filipe Castro Mendes
Ed. Editora Exclamação, Maio de 2024


“Quem na sua infância sonhou em voz alta com as páginas dos atlas, com aqueles nomes mágicos que evocavam lugares deslumbrantes e passagens secretas, Samarcanda, Trebizonda, Siracusa, Ilha da Páscoa e Cabo de Horn, quem acompanhou a leitura dos livros de viagens com o percurso dos seus próprios dedos nos mapas que se abriam em frente, quem assim viajou na infância por todos os caminhos da imaginação chega ao final das suas viagens reais na vida à conclusão que o mundo todo que se lhe ofereceu era pouca coisa ao lado das extraordinárias promessas que os mapas traziam.”

Fruto da sua colaboração com o “Diário de Notícias”, Luís Filipe Castro Mendes escapa-se por momentos do lugar que reconhecemos seu por direito – a poesia! –, cedendo à “tentação da prosa” nesse “exercício frágil” das crónicas com assinatura semanal. Distribuídas por oito capítulos, as cem crónicas que preenchem o livro oferecem-nos uma visão abrangente e esclarecida do quotidiano e das preocupações do escritor, nele se inscrevendo um vasto leque de assuntos que vão da economia à política, das viagens aos livros, das memórias de infância à questão dos netos, dos que permanecem aos que partiram. São assuntos que nos levam ao encontro do “elefante no meio da sala” no momento político que atravessamos, da descrença na democracia que é terreno fértil para os populismos, do desprezo da escola pela cultura humanística e a sua instrumentalização por uma ética estritamente individualista e egoísta, dos cinco milhões de portugueses que tiveram de procurar lá fora o trabalho e a dignidade que aqui não encontraram. Mas também dos natais da nossa infância, do amor pelos livros, das memórias de Estrasburgo ou da “companhia pensativa das vacas” na magnífica “sala com árvores” que é um monte familiar no Alentejo.

“Com todo o entusiasmo da nossa emoção e todo o crivo da nossa razão”, lemos a páginas tantas, nisto residindo o cerne destas crónicas e das ideias que nelas se perfilam. Ao respeito com que cita autores de referência – Eça, Jorge de Sena, Raul Brandão, Eduardo Lourenço, Herberto Hélder, Nuno Júdice, Pessoa, Camões –, acrescenta Luís Filipe Castro Mendes o bem saber contar uma história, numa apurada combinação de inteligência e elegância, subtileza e humor. O que não o impede de se revoltar e de, perdoem-me a expressão, “chamar os bois pelos nomes”. Se há quem aplauda o empobrecimento dos que já são pobres, pois que se aponte o dedo à Sra. Lagarde. Se o jornalismo está doente, que se denunciem aqueles que desviam o olhar da realidade e a cobrem com o manto pouco diáfano das diferentes agendas dos vários sensacionalismos. Se as conquistas sociais no domínio da igualdade das mulheres, da legalização do aborto ou do respeito pelas diferentes orientações sexuais é cada vez mais posto em causa, pois que se acusem os Trumps, os Bolsonaros e os Venturas deste mundo.

“Acabado o livro, fico com a sensação de que Luís Castro Mendes se assume, por inteiro, nestes seus textos. Quero com isto dizer, por exemplo, que ele não hesita em carrear para as suas crónicas a alegria da vida familiar, gozada neste seu novo tempo. Aqui ou ali, pode não disfarçar alguma melancolia que o avançar do calendário lhe traz. Mas, do que deixa escrito, resulta o retrato claro de quem se sente de bem com o que a vida lhe trouxe, ou melhor, com aquilo que nela soube e pôde construir.” As palavras de Francisco Seixas da Costa, que podem ser lidas no prefácio deste “Tentação da Prosa”, espelham na perfeição o sentimento dominante ao longo das mais de trezentas páginas. A identificação com o autor no que nele há de ideal humanista e de pensamento político levou-me a saborear com particular emoção cada um dos seus textos e, de certo modo, a conhecer melhor a figura que se abriga por detrás da obra. Uma personalidade singular, amante dos livros e da leitura, que assume o desconforto e a alegria que pode advir do acto de escrever, que escolhe o fazer contra o lazer, que acredita, “contra todas as evidências”, na sobrevida do que escreve. E que, ainda por cima, é um confesso admirador de Tintim.

quinta-feira, 7 de março de 2024

LIVRO: "O Quarto Rosa"



LIVRO: “O Quarto Rosa”,
de Francisca Camelo
Coordenação | Maria Bochicchio, Nuno Brito
Ed. Editora Exclamação, Agosto de 2019


“hoje reparei que a tira magenta
da embalagem de rivotril
combina com as paredes
do meu quarto rosa:
foi a primeira vez que me deram
comprimidos com algodão
menina, é dormir tudo o que eu quero
não é morte o que vim comprar
só preciso de algum descanso, (…)”

Ao mergulhar neste “quarto rosa”, regresso às palavras de Francisca Camelo a abrir a penúltima mesa das Correntes d’Escritas. Recordo-lhe o tom de desânimo nesse pedido de desculpas por escrever poemas sobre tristeza quando lhe pedem poemas sobre liberdade. Estou ainda a ouvi-la falar do país, dos pais, de si e é como se fosse eu a falar do país, dos pais, de mim. Da estrada que corremos à procura de uma paragem e de só encontrarmos um semáforo. Vermelho. Parado. Há tanto tempo parado, um mar de gente que se acumula do outro lado da estrada. Como pedras, as palavras da poeta ferem o silêncio. Contam de um medo que “cheira a podre, mas segue vivo”. De ter calhado passar por aqui “a falta de dinheiro, o mercado flexível, a crise de habitação, o juro imprevisível”. “Já não se distingue pátria, estrada ou fome”, diz. Como diz que sem alegria não se fazem revoluções.

“aqui se faz a carne”. Leio devagar cada verso e reencontro-me com a aspereza das palavras que rasgam por dentro, a força da mensagem que arroja aos abismos da condição humana. Refúgio (subterfúgio?), o quarto é cada vez menos rosa nessa impotência de dizer não a quem oprime e agride, nessa raiva de atear a dor por calar a voz. O rosa faz-se cinza e o cinza faz-se negro. Espesso, pestilento, vejo-o espalhar-se pelo chão, subir pelas pernas da cama, cobrir a cadeira e a mesa de cabeceira, derrubar o abajur, “como se apenas o que nos destrói merecesse retrato”. Na mais profunda escuridão, as palavras da poeta tornam-se distintas. São como pedaços do seu corpo, escavados com as unhas do mais fundo de si, dados a ver em carne e sangue. “A carne dos que morreram antes de conhecer os seus poetas”. O “sangue na estação de metro quando pelo telefone me lês em italiano o poema da súplica à mãe de pasolini”.

Seco como um osso na aridez do deserto, insurgente como um fogo que teima em arder, intencional como uma entrada de pé em riste, assim é “O Quarto Rosa”. Olhado de um lado, do outro e de frente, não passa de um quarto igual a tantos outros. É ao penetrarmos nele que percebemos a diferença. No que noutros é aceitação, brandura, permissividade, nele é imposição, protesto, rebeldia. Por isso retemos os lugares onde depois de cair muitas vezes nos ensinámos a cair melhor, tacteamos as rotinas, escapamos da festa em silêncio, envelhecemos dentro de aviões. Podemos não ter a certeza de que é este o combóio certo, mas sabemos que todos nós podemos ser embalsamados um dia. “A forma como nos cingimos às quatro paredes é o que faz de nós parecidos”. Esbocemos, pois, um sorriso à mona lisa, imaginemos a temperatura mais acertada do forno e deixemos que o açúcar imaginário se espalhe debaixo da língua. “Até que a morte nos separe”.