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quarta-feira, 25 de março de 2026

TERTÚLIA | CONVÍVIO: Finissage das Exposições da Residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”



TERTÚLIA | CONVÍVIO: Finissage das Exposições da Residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”
Com | Ana Isabel Nistal Freijo, Solange Azevedo e Hélder Sousa
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
22 Mar 2026 | dom | 16:00


Sensível e íntimo, instigante e provocador, assim foi a finissage das exposições da residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”, momento de convívio e de memória feito de emoções e afecto. Com “um pé no passado e outro no futuro”, Ana Isabel Nistal Freijo, fez uma retrospectiva daquilo que foi o “Inovar as Letras - À Escuta da Literatura”, projecto cultural e residência artística que agora chega ao fim. Em ambiente de grande familiaridade, percebemos que o projecto não nasceu da fria arquitectura do pensamento, mas de um impulso íntimo, quase indizível, onde o coração se impôs como princípio e fim de todas as coisas. Com tudo o que foi acrescentando, o percurso foi marcado pelo reencontro com raízes biográficas e espirituais, nesse lugar onde a literatura e a música se entrelaçam na experiência de quem escuta e recria. Do deslumbramento inaugural pela palavra à maturidade da escuta contemporânea, ergueu-se uma ponte onde o ensino, a criação e a memória fluíram, dando corpo a uma ideia que encontrou no Museu Júlio Dinis não apenas um espaço físico, mas uma casa plural aberta ao sonho e à metamorfose.

“Toda a alma precisa de um corpo para se manifestar, e esse corpo é para nós o Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense”. Foi nesse corpo, vivo e acolhedor, que a alma do projecto se manifestou plenamente, sustentada pelo encontro entre impulsos criativos e vontades institucionais. O Museu revelou-se como lugar de confluência, a herança dinisiana projectada no presente através da experimentação artística. Entre Abril de 2025 e o passado domingo, as artes dialogaram de múltiplas formas, da celebração de projectos contemporâneos à encomenda de novas obras, das exposições às instalações sonoras que transformaram o espaço em matéria sensível. Cada gesto criativo - fosse nas composições, nas artes plásticas ou na palavra dita e cantada - constituiu um prolongamento desse legado, fazendo ressoar vozes que, mesmo ausentes, permanecem vivas na tessitura do projecto. Assim, o “Inovar as Letras” afirmou-se como território de criação partilhada, no qual tradição e invenção coexistiram num delicado equilíbrio, alimentado pelo estímulo e pela confiança de todos quantos nele acreditaram.

Mas foi sobretudo na comunidade que o projecto encontrou o seu centro de gravidade. Oficinas, conversas, ensaios abertos e concertos fizeram do público parte integrante do processo, assumindo-se como presença activa, cúmplice e transformadora: “Verdadeiros espectadores emancipados”, capazes de dar o seu contributo para uma obra colectiva em permanente construção. E, como num ciclo que se cumpre sob o signo das flores - símbolo de esperança, ilusão e efemeridade -, o projecto encerra levando consigo um delicado ramo de memórias. “Há flores assim que só os sentidos muito delicados lhes reconhecem o perfume”, escreveu Júlio Dinis em carta endereçada a sua tia. Assim parte esta experiência, e com ela uma nómada que deixa atrás de si uma fragrância leve, nesse gesto de partida residindo a promessa de que o que foi vivido continuará a ecoar, subtil e indelével, no coração de quem o escutou. Mas nele residindo também a certeza de que este não é “o fim do encantamento”. O gracioso virginal, cópia fiel de um instrumento de início do século XVII e cuja sonoridade Hélder Sousa tão delicadamente mostrou, é a prova de que “a procissão ainda vai no adro”.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Josefa de Maltezinho



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Josefa de Maltezinho
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
18 Fev 2026 | qui | 17:00


A vigésima nona sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, promovidas pelo Centro de Reabilitação do Norte, voltou a provar que a palavra é, tantas vezes, o mais eficaz dos remédios. Na tarde de 18 de Fevereiro, as paredes habituadas ao silêncio abriram-se a uma respiração mais funda, feita de escuta e partilha. Dirigida muito especialmente aos utentes internados e às suas famílias, a iniciativa tem sido esse território de confluência onde o bem-estar se constrói devagar, como quem cose uma ferida com pontos de luz. Mas é, também, um momento de encontro com o livro enquanto objecto que acrescenta saber e enriquecimento, que desafia a clausura da doença e convida a viajar à descoberta de paisagens com outras e novas cores, longe do negro da imobilidade e da dependência, do branco asséptico de corredores e enfermarias. Cada sessão é uma pequena travessia, cada convidado um farol aceso na margem. Um farol que, na tarde da passada quarta-feira, teve nome literário e voz de mulher.

Josefa de Maltezinho, pseudónimo de Julieta Aleluia, nasceu no Porto, mas foi em Aveiro que aprendeu a soletrar o mundo e a permanecer. Professora do Ensino Básico, formada pela Universidade de Aveiro, guardou durante décadas cadernos e versos, como quem guarda sementes à espera de serem lançadas à terra na estação propícia. Em 2013 publicou “Água Corrente”, a que se seguiu o romance “Maçã com Bicho”. Regressou depois à poesia com “Porque um Rio Também se Cansa”, publicou em Espanha a edição bilingue “Otoño de Visita”, e continuou o seu caminho com “Uma Garfada de Sol no Umbigo”, “Fracturas Expostas”, “Solidão Assistida ou a Brutalidade do Quotidiano” e “Pela Lente do Repórter”. Em Julho de 2025, com a chancela da Editora Exclamação, deu à estampa “Elisa”, obra que serviu de ponto de partida para uma conversa que se quis inteira e sem rede.

Dos doentes e para os doentes, a tertúlia fez-se viva, intensa e livre. Antes de qualquer apresentação formal, os presentes quiseram saber tudo sobre a convidada, como se a curiosidade fosse uma urgência vital. A Teresa e o Alberto, a Diana, a Paula e tantos outros que fizeram questão de erguer a voz como quem segura na mão um espelho, reflectiram, opinaram, inquiriram e partilharam as suas inquietações sobre o papel da mulher, a sua educação para a resignação, a sua secundarização histórica, os lentos processos de emancipação. Olhando o romance “Elisa”, o moderador evocou Alfred Hitchcock e o seu “Janela Indiscreta” para colocar os presentes na pele de um James Stewart a observar vidas alheias através de uma janela imaginária: a mulher romena com a criança ao colo, abrigando-se da chuva; a outra que, entre gritos domésticos, é agredida. Em paralelo, emergiu a memória de tempos em que secretárias do Ministério dos Negócios Estrangeiros, enfermeiras, hospedeiras da TAP Air Portugal ou professoras não podiam ser casadas. Falou-se de Maio de 2000, data em que a violência doméstica passou a constituir crime público, mas também da persistência de mentalidades que ainda murmuram que “entre marido e mulher não se mete a colher”.

Na segunda parte da sessão, a poesia tomou a sala como um sopro. A leitura partilhada revelou uma autora multifacetada, atenta às imagens de violência que nos entram pela casa adentro à hora do jantar, trazidas pelos noticiários, mas igualmente sensível ao rumor de um tasco “à moda antiga” do Porto, onde a vida é servida em copos de três e as conversas se saboreiam sem tempo. A palavra poética, ali, não foi ornamento: foi bisturi e foi abraço. Interrogou-nos no que temos de mais cru, convidando cada um a revisitar a sua própria história. E quando a escritora encerrou a sessão com um elogio à iniciativa — pela cultura, pelo bem-estar de quem não se encontra nas melhores condições físicas e tanto precisa destes incentivos — percebeu-se que não foi apenas literatura o que ali se celebrou, antes a possibilidade de, mesmo em contexto de fragilidade, se continuar a crescer. Como uma resposta afirmativa e livre ao desejo de que cada livro aberto possa ser uma janela menos indiscreta e mais luminosa sobre a esperança.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Paulo M. Morais



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Paulo M. Morais
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
15 Jan 2026 | qui | 17:00


À entrada de um novo ano, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para mais um momento de pura magia à roda dos livros e da leitura. Numa sessão aguardada com enorme expectativa, Paulo M. Morais foi um interlocutor perfeito, trazendo para a tertúlia uma coloquialidade rica e sedutora e uma generosa partilha de histórias e memórias. Numa mesa onde pontificou grande parte da obra do autor, a primazia foi dada a “A Glória Efémera”, a sua última publicação. Biografia do Nobel da Medicina Egas Moniz, o livro e a conversa proporcionada geraram no público uma admiração e cumplicidade imediatas. Para os presentes, escapar a uma rotina que vive de e para a pessoa doente, e ter a possibilidade de, ainda que por um curto espaço de tempo, mergulhar no mundo das letras e seguir os caminhos da arte e da ciência de mãos dadas com Egas Moniz e o seu tempo - entre uma conturbada carreira política, os desafios da investigação científica e uma riquíssima vida interior – revelou-se precioso. Daí que todos tenham deixado a sessão de coração cheio e, estendendo a vista até ao horizonte, sentissem que, por um momento, o cinzentismo da doença se viu vestido de tantas quantas as cores de que a vida é feita.

“Eu, que já passei muito tempo num contexto hospitalar a ser tratado a um cancro, devo dizer que a leitura foi das coisas que mais me ajudou a ultrapassar esse período”, começou por referir Paulo M. Morais ao dirigir-se aos presentes a quem saudou de forma calorosa, realçando a importância de existirem espaços como este, dedicados aos livros e à leitura em ambientes improváveis. Falando de “A Glória Efémera”, o escritor lembrou a relutância que teve em aceitar o desafio do editor Rui Couceiro e o reconhecimento de alguma “dose de loucura”, no momento de dar o sim a tão grande empreitada. Ter tido um avô médico pesou certamente na decisão: “Sempre falei muito com o meu avô sobre Medicina, mais no sentido da humanidade que o médico teria que ter, do tempo a dispensar aos seus doentes e de como isso se estava a perder. Acho que o legado dessas conversas e a memória do meu avô acabou por ser muito importante, até para me identificar com o biografado e meter-me na loucura de escrever o livro.”

O trabalho de investigação tomou conta do escritor ao longo de três anos, entre 2020 e 2023, com o labor da escrita a estender-se pelos dois anos seguintes. Entretanto, uma constatação antes de arregaçar as mangas: “Tinha de analisar o que já estava escrito [sobre Egas Moniz] para ver se havia espaço para uma coisa diferente. Li a biografia escrita pelo João Lobo Antunes e achei que era uma biografia feita por um médico. Percebi que, no que respeita à parte médica, nunca conseguiria fazer melhor do que aquilo, mas também percebi que havia outras partes da vida de Egas Moniz que não estavam tão bem exploradas.” Agora que o livro já passeia pelas mãos dos leitores, importa dizer que o resultado é pautado por um notável equilíbrio, revelador do cuidado em ir ao encontro de Egas Moniz na sua vertente de investigador e médico, mas também de um aguerrido e astuto político, um tribuno vibrante, um coleccionador, escritor e empresário, um amante da tranquilidade do lar e das coisas boas da vida.

“O que senti ao avançar com a biografia é que, provavelmente, o Egas Moniz ficou demasiado afunilado ao Nobel que lhe calhou, entre aspas. Porque poderia ter ganho o Nobel pela descoberta da angiografia e, neste caso, talvez a glória não fosse tão efémera”, referiu o convidado ao explicar o porquê do título do livro. Foi o momento de falar das questões éticas relacionadas com a leucotomia, do contexto de toda uma época na qual a Psiquiatria tentava fugir ao estigma de ser o “parente pobre” das especialidades médicas, mas também de que “o próprio Egas Moniz, no final da sua vida, terá percebido que a descoberta que lhe tinha dado o Nobel já estava a cair em desuso, levando-o a temer que já não fosse ficar para a história da forma como gostaria.” De romancista a biógrafo adivinha-se um processo de transição quase natural: “O romancista está habituado a urdir a sua trama de forma prática e fluida”, diz Paulo M. Morais, acrescentando que “ajuda escrever romances e depois adoptar o princípio de ver o biografado como se fosse uma personagem e nunca lhe perder o centro. Importa dar um contexto histórico, naturalmente, mas sobretudo não nos esquecermos de que o centro é aquele homem. A premissa que utilizei foi a mesma, com a diferença de que numa biografia não se pode inventar, os factos não podem ser alterados”, disse.

Da Fundação Mário Soares à Biblioteca Nacional, dos arquivos municipais à Casa do Marinheiro e ao legado escrito do Nobel, o trabalho de pesquisa bibliográfica foi-se adensando: “Começamos a meter canas de pesca em tudo quanto é sítio. De repente percebe-se que aquela picou qualquer coisa, aquela também já deu qualquer coisa, que esta é para esquecer…”. Fruto dessa recolha, o escritor destaca a surpresa de se ter visto confrontado com os excessos da vida política nos finais da monarquia e primeira república, “a linguagem bélica dos debates parlamentares”, fazendo com que os políticos de hoje, se comparados com os de ontem, pareçam “meninos de coro”. Ainda que as qualidades de Egas Moniz enquanto homem político se pautassem pela combatividade, argúcia, capacidade de argumentação e calculismo - e Paulo M. Morais demonstra à saciedade todas essas qualidades, apoiando-se na imprensa da época -, há um particular momento da vida política do Nobel que surpreendeu o biógrafo: “A relação de Egas Moniz com Salazar nunca foi fácil e o Nobel acabou por servir de capa para as posições que viria a tomar de oposição ao Estado Novo. As entrevistas que fui encontrando de Egas Moniz são de alguém que diz abertamente que vivíamos num estado sem liberdade de expressão, que as eleições eram uma fantochada e que se sentia preso no seu próprio país.”

Aberta a tertúlia às questões do público, foi tempo de falar do processo de investigação e de um hipotético recurso à Inteligência Artificial, tentação à qual Paulo M. Morais resistiu. Caso para dizer que “A Glória Efémera” foi “o último livro que o escritor Paulo M. Morais escreveu sem recorrer à Inteligência Artificial”. Só quando o livro já estava na gráfica se permitiu o biógrafo explorar questões tão banais como “livros escritos por Egas Moniz” e enumerados pelo chat gpt, percebendo, com grande alívio, que os livros que desconhecia afinal nunca existiram. Foi também tempo de abordar as questões que envolveram a justiça do Nobel, com o escritor a lembrar o grande problema social e de saúde pública que os doentes do foro psiquiátrico representavam na altura - com oito tiros desferidos por um louco à queima-roupa, nem o próprio Egas Moniz terá sabido muito bem como escapou com vida -, as terríveis condições de internamento dos alienados em asilos, os tratamentos “horripilantes” a que eram sujeitos, aos quais se deve acrescentar o pioneirismo da Psicocirurgia, o que cauciona, na opinião de Paulo M. Morais, a atribuição do Prémio Nobel. “Uma coisa tenho a certeza: Egas Moniz era um médico profundamente humanista e eu acho que nunca teria avançado para uma intervenção se não tivesse a certeza absoluta de que aquela era a melhor solução ao seu alcance”, conclui.

Já na recta final, a conversa olha agora Egas Moniz no ambiente íntimo do lar e da família. Mas antes, uma questão “provocadora” a uma participante muito especial nesta sessão das Tertúlias Literárias, a escritora Isabel Rio Novo. Foi ela a primeira leitora de “A Glória Efémera” - “nós somos sempre o primeiro leitor um do outro” - e deixou-nos uma opinião que considera isenta: “Escrever uma biografia não é pegar em tudo aquilo que já se escreveu, ler muito bem, baralhar de novo e voltar a escrever. E o Paulo não se conformou com o muito que já existia, com o muito que já se sabia, e aí ele foi original ao descobrir coisas que ainda não tinham sido vistas.” Referindo que o livro não é um romance, mas lê-se como um romance”, Isabel Rio Novo remata com o melhor elogio que um escritor pode receber: “Sou uma grande leitora de biografias e esta é a melhor biografia que eu já li”. Paulo M. Morais falou então do ambiente da Casa do Marinheiro - “quando todos estiverem melhor, aconselho muito uma visita à Casa-Museu Egas Moniz, em Avanca” -, de um bucolismo romântico muito presente e cuja ruralidade servia de contraponto ao cosmopolitismo das vivências sociais do médico.  Enfim, a partilha de uma última revelação: “No meio de tanta correspondência que faz parte do seu espólio não se encontra uma carta entre marido e mulher. Mesmo nos escritos autobiográficos, a relação com a Dona Elvira, companheira de uma vida, é tratada em dois ou três parágrafos. Embora, como biógrafo, consiga perceber a intenção de Egas Moniz de preservar uma certa intimidade, acho estranho que alguém que guarda tanto não tenha encontrado uma ou outra carta que valesse a pena deixar para a posteridade.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: LITERATURA ESTRANGEIRA



10. O País dos Outros
Leïla Slimani
Título original | Le Pays des Autres (© Éditions Gallimard, 2020)
Tradução | Tânia Ganho
Ed. Alfaguara, Maio de 2021 (6.ª reimpressão, Janeiro de 2024)

“ (…) Com o subtítulo “A guerra, a guerra, a guerra”, este primeiro volume permite a Leila Slimani fazer um ponto da situação das suas personagens, bem como dos principais temas a abordar no romance e, certamente, ao longo da trilogia. Numa visão intimista e impressionista, a autora privilegia as personagens em detrimento dos acontecimentos, embora a situação política do país, na viragem da década de 1940, se faça presente, contextualizando a sociedade e a forma como são condicionadas as acções dos protagonistas.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/livro-o-pais-dos-outros-leila-slimani.html



9. A Voz das Mulheres
Miriam Toews
Texto original | Women Talking, © 2018 Miriam Toews
Tradução | Ana Maria Pereirinha
Ed. Alfaguara, Setembro de 2023

“ (…) A autora trabalha com grande mestria a oralidade e a tensão entre fé, tradição e emancipação. A estrutura do romance — centrada em reuniões clandestinas — revela não só a progressiva tomada de consciência das personagens, mas também o nascimento de uma linguagem própria, capaz de pensar o trauma e propor alternativas. Cada mulher, à sua maneira, redescobre o poder de pensar, de questionar, de agir. “A Voz das Mulheres” não é apenas um romance sobre a violência. É, sobretudo, uma meditação sobre a liberdade, a responsabilidade e a construção de um novo pacto comunitário, feito desta vez por mulheres e para mulheres.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/09/livro-voz-das-mulheres-miriam-toews.html



8. O Desencanto
Beatriz Serrano
Título original | El Descontento (Editorial Planeta, 2023)
Tradução | Rita Custódio
Ed. Bertrand Editora, Outubro de 2024

“ (…) Através de Marisa, uma publicitária na casa dos trinta anos presa a uma agência madrilena, Serrano constrói um retrato ácido do trabalho enquanto sistema de sobrevivência emocional, mais do que espaço de realização pessoal. O escritório surge como cenário onde a produtividade se confunde com sentido de vida e onde a linguagem corporativa - “briefings”, “calls”, “team buildings” - funciona como verniz moderno que disfarça o vazio. Marisa não odeia apenas o emprego: rejeita a impostura constante, a obrigação de ser simpática, feminista funcional e líder inspiradora durante oito horas por dia.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/09/livro-o-desencanto-beatriz-serrano.html



7. Querida Tia
Valérie Perrin
Título original: Tata (© Éditions Albin Michel, Paris, 2024)
Tradução | Maria de Fátima Carmo, Maria Ferro
Ed. Editorial Presença, Novembro de 2024 (4.ª edição, Janeiro de 2025)

“ (…) No seu todo, “Querida Tia” combina mistério, drama familiar e factos históricos, permeados de forma subtil com referências à música e ao cinema. Valérie Perrin faz uso da sua habilidade como contadora de histórias para dar voz a personagens muitas vezes invisíveis, iluminando vidas marcadas pelo silêncio e pelo esquecimento. Entre as linhas, discute-se a solidão, a infância ferida e os vínculos do coração que transcendem o sangue, num romance que, apesar das suas fragilidades, tem para oferecer momentos de leitura cativantes e comoventes.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/09/livro-querida-tia-valerie-perrin.html



6. Mudar de Ideias
Aixa de la Cruz
Título original | Cambiar de Idea (© 2019, Aixa de la Cruz)
Tradução | Pedro Rapoula
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Junho de 2025

“ (…) “Mudar de Ideias” é a prova de que um livro não tem de ser forçosamente sórdido, chocante ou sensacionalista quando é de experiências pessoais contrárias a uma moral conservadora que se trata. Íntima e política, a escrita de Aixa de la Cruz desconstrói as normas de género, ao mesmo tempo que aponta o dedo às violências estruturais. Introspectiva, a sua abordagem a um conjunto de assuntos polémicos é pautada pelo desassombro, vestindo de ironia fina o desfiar de uma grande diversidade de histórias que ajudam a perceber o pensamento da autora, a sua sensibilidade, a firme posição de denúncia dos movimentos e contextos que conduzem à objectificação da mulher, mas também das contradições do “eu” feminino nas sociedades neoliberais.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/08/livro-mudar-de-ideias-aixa-de-la-cruz.html




5. Kairos
Jenny Erpenbeck
Texto original | Kairos, 2021
Tradução | António Sousa Ribeiro
Ed. Relógio D’Água Editores, Dezembro de 2024

“ (…) O espaço onde a acção decorre e o ambiente social e político não são puras metáforas. O declínio do regime, impulsionado pela Perestroika, era então uma realidade palpável e levantava as maiores dúvidas no Bloco de Leste. Jenny Erpenbeck socorre-se dessa verdade histórica para estabelecer um paralelismo com a vida amorosa e descrever os diferentes aspectos da felicidade através do percurso dos dois amantes. Em poucas palavras, esta é a história de um grande amor e da sua queda, mas é também a história da dissolução de todo um sistema político, o que conduz a uma questão muito simples: Como é que algo que se afigura certo e firme de início, pode vir a revelar-se tão errado?” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/03/livro-kairos-jenny-erpenbeck.html



4. Eu Canto e a Montanha Dança
Irene Solà
Texto original | Canto jo i la muntanya balla, © Irene Solà, 2019
Tradução | Rita Custódio e Àlex Tarradellas
Ed. Cavalo de Ferro, Abril de 2024

“ (…) Com uma escrita simples, mas altamente eficaz, Irene Solà persiste em partir de uma única história e, tal como uma árvore que cresce e se desenvolve, fazer com que dela brotem “ramos” que a consubstanciam e reforçam. Percebermo-nos, enquanto seres humanos, como uma simples parte de um sistema complexo é a grande lição que se extrai do livro.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/05/livro-eu-canto-e-montanha-danca-irene.html



3. Despedidas Impossíveis
Han Kang
Título original: 작별하지 않는다 (© Han Kang, 2021)
Tradução | Maria do Carmo Figueira e Ana Saragoça, a partir da tradução inglesa de e. yaewon e Paige Aniyah Morris, 2024
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Janeiro de 2025

“ (…) Temas recorrentes da escrita de Han Kang, a vida e a morte, a dor e a dádiva, preenchem as páginas do livro, marcando de forma intensa duas histórias indissociáveis uma da outra: A da personagem principal e a do povo coreano, sujeito ao terror de sucessivos regimes ditatoriais cujas práticas violentas resultaram em centenas de milhares de mortos. Através de Inseon, das suas memórias e de um conjunto de documentos de época, Kyungha irá ser confrontada com o massacre de Jeju, em 1948, aquando da declaração de lei marcial do presidente Syngman Rhee e da campanha anticomunista e de contrainsurgência dela resultante, levando à morte de 30.000 pessoas, cerca de dez por cento da população da ilha (…)”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/07/livro-despedidas-impossiveis-han-kang.html



2. O Livro Branco
Han Kang
Título original | 흰, (© Han Kang, 2016)
Tradução | Maria do Carmo Figueira, a partir da tradução inglesa de Deborah Smith
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Junho de 2019 (3.ª edição, Novembro de 2024)

“ (…) Numa escrita feita de serenidade e doçura, empática e fortemente poética, Han Kang traz de volta à vida esta “onni” (“irmã mais velha” em coreano), imaginando-a a pôr o casaco pelos ombros e a ir à farmácia quando a mãe de ambas estivesse doente, a pôr o dedo à frente dos lábios pedindo-lhe que não fizesse barulho, a escrever equações no livro de exercícios de matemática para que praticasse, a tirar-lhe uma farpa espetada no pé, usando uma agulha que esterilizaria na chama do bico do fogão. Uma “onni” cuja história é também a história de Han Kang, de como nasceu e cresceu no lugar dessa morte, de como olha o mundo através dos seus olhos.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/livro-o-livro-branco.html



1. Sem Destino
Imre Kertész
Título original | Sorstalanság (© 1975 Imre Kertész)
Tradução | Ernesto Rodrigues
Ed. Editorial Presença, Maio de 2003 (5ª edição revista, Janeiro de 2025)

“ (…) Independentemente da visão pessoal do autor sobre o horror à sua volta, o que mais impressiona é a sua capacidade de narrar o inenarrável sem trair um olhar não despido de inocência. É nesse ponto crucial que a sua escrita se revela, em simultâneo, tão terrível e tão poderosa, a visão sobre o absurdo e a forma como o seu espírito se adapta ao ponto de se sentir reduzido a nada, de perder a humanidade e, mesmo assim, recusar para si próprio a “solução final”, numa luta feroz pela sobrevivência.” Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/livro-sem-destino.html

terça-feira, 30 de setembro de 2025

TERTÚLIAS LITERÁRIAS: "Conversas às 5" | Vítor Pinto Basto



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”
Com | Vítor Pinto Basto
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
23 Set 2025 | ter | 17:00


Após um período de merecidas férias, as “Conversas às 5” regressaram ao Centro de Reabilitação do Norte para uma hora de boa conversa à roda dos livros. Vítor Pinto Basto foi o convidado da 24.ª sessão de uma série de tertúlias literárias que tiveram o seu início em Abril de 2021 e, a propósito de duas das suas obras - “O Rapaz que Queria Aprender a Olhar” e “A Arte de Ser Boa Pessoa” - teceu um conjunto de reflexões que cruzaram os temas fortes da memória e da liberdade. “Nunca pensei em vir a apresentar os meus livros num lugar fantástico como este”, começou por afirmar o autor, perante uma plateia numerosa e ávida de escutar as palavras de quem diz que “aprender a olhar é também aprender a questionar”. Dirigindo-se ao público, referiu estarmos num sítio “onde não falta quem nos cubra com o manto da ciência e da ternura”, abrindo espaço àquilo que designou por “boas pessoas”, aquelas que fazem “do cuidado, da ternura e da empatia uma forma de resistência e de preservação da dignidade”. Reforçando a ideia de que “um ser humano nunca deve abandonar a sua humanidade”, Vítor Pinto Basto lembrou que “todos temos dentro de nós esse fermento fabuloso de criar meios para podermos ser felizes numa vida que nos foi dada”, nesse labor residindo “a arte de ser boa pessoa”.

Olhando à nossa volta um mundo que se desmorona a cada dia que passa, que despreza o colectivo em nome do individual, que separa em vez de unir, que cerra fileiras contra os princípios e valores de Abril, Vítor Pinto Basto apontou o dedo “àqueles que destilam ódio”, afirmando que têm um problema: “Têm pela frente as boas pessoas, aquelas que estão aqui para enfrentar as más pessoas. Sem armas, sem ódio, apenas com ternura.” Para o convidado, “todo o ser humano tem direito a ser feliz e nós temos o direito de não deixar que nos destruam esse direito”. Olhando nos olhos os presentes, deixou um repto: “Não apoiem quem destila o ódio e a desumanização nos seus discursos políticos. Apoiem e apoiem-se em quem dignifica a vida.” Entrando no pequeno-grande mundo da escrita, Vítor Pinto Basto concordou com a ideia transmitida pelo moderador de que “o olhar, nos seus livros, mais do que um sentido é uma responsabilidade” e aproveitou para falar do papel da literatura em ensinar a olhar o mundo, usando o jornalismo como contraponto. A este propósito, referiu que “as notícias caminham não no sentido de um mundo melhor, mas no de nos atirar uns contra os outros. Ao invés, o escritor não tem de se submeter a uma linha editorial”, vincando a ideia de liberdade associada à literatura e que existe cada vez menos no jornalismo.

Conhecido e reconhecido pela correcção da sua postura ética e deontológica, Vítor Pinto Basto é um bom exemplo do escritor que busca, através da literatura, reforçar o que de bom existe em cada um de nós. “Preocupo-me em contar histórias que têm uma base real, histórias que possam tocar as pessoas, na medida em que se revêem nos factos e nas personagens”, diz. Mas adverte que “A Arte de Ser Boa Pessoa” é um livro incómodo: “Não vale a pena a literatura se não for para inquietar, para apoquentar”. Implícita em ambos os livros, a memória foi um tema forte da conversa, com o escritor a denunciar os movimentos fascistas e aquilo que diz ser “uma tentativa de apagar a memória colectiva”. “O Rapaz Que Queria Aprender a Olhar” surge como um meio de lembrar o que de bom se fez em democracia: “Quando se diz que nestes cinquenta anos só houve corrupção, essa é das mentiras mais torpes e imundas que podem existir (…). No tempo da ditadura a corrupção era muito pior, só que era silenciada”. Ser boa pessoa volta a surgir no debate como imperativo moral, uma escolha individual que se repercute no colectivo. Instado a deixar uma mensagem simples mas duradoura no espírito dos presentes, Vítor Pinto Basto encerrou a sessão com um significativo: “Não desistam!”

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Pela Janela do Olhar" | Mafalda Rocha



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Pela Janela do Olhar”,
de Mafalda Rocha
XI Festival Literário de Ovar
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
05 Jul > 03 Out 2025


“Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares demais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.”
Miguel Sousa Tavares

Quase a chegar ao fim a exposição de pintura “Pela Janela do Olhar”, da autoria de Mafalda Rocha, tempo ainda para algumas palavras sobre este magnífico conjunto de trabalhos, com a secreta esperança de que alguns daqueles que lerem esta mensagem possam encontrar a disponibilidade necessária a visitá-los no Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense. Começando pela autora, importa dizer que Mafalda Rocha é artista plástica e que a sua pintura habita um território contemporâneo e expressivo, cruzamento de emoções, matéria e consciência cívica. Entre paisagens interiores e exteriores, a obra da artista evoca atmosferas onde o olhar repousa e se demora, mas também convoca temas urgentes como a Paz, a condição da Mulher, a Literatura e a Democracia. Na pintura de Mafalda Rocha, cada obra é “um lugar habitável, onde quem vê possa parar, escutar e, talvez, encontrar-se”. A série “Pela Janela do Olhar” é um exemplo dessa fusão entre a arte e a palavra: rostos de escritores e escritoras cruzam-se com fragmentos das suas obras, num tributo à literatura e ao milagre da criação.

“Pela Janela do Olhar”, série surgida na sequência do Festival Literário ESCRITARIA e propriedade do Município de Penafiel, é disso um excelente exemplo. Através dela, Mafalda Rocha homenageia os autores e autoras de língua portuguesa celebrados pelo evento desde a sua génese, em 2008, interpretando os rostos e, sobretudo o olhar, dos sujeitos retratados. Com uma paleta minimal onde, num fundo de vermelhos, se destacam a prata, o estanho ou o cobre, Mafalda Rocha abre uma janela sobre a alma dos escritores, num exercício que resulta em memória viva, gesto performativo e homenagem colectiva. Na sua obra pictórica, o gesto nasce do silêncio — um silêncio denso, habitado, onde a emoção encontra forma e a matéria se torna linguagem. A artista trabalha num território íntimo e contemporâneo, onde luz, transparência e textura se entrelaçam numa busca subtil em territórios do visível e do invisível. A sua pintura é feita de escuta e de intenção, de intuição e consciência, exprimindo-se entre o gesto contido e a expressão crua, sem descurar a ética do olhar.

Entre paisagens interiores e exteriores, os rostos de Ana Luísa Amaral, Alice Vieira, Mia Couto, António Lobo Antunes, ou Mário de Carvalho cruzam-se com as suas palavras, num tributo à literatura e à dignidade da criação. E se o ESCRITARIA se afirma como ponto de encontro entre a literatura e as artes visuais graças à obra de Mafalda Rocha - e Penafiel é palco onde o olhar e a palavra dançam cúmplices -, as virtualidade da itinerância estendem o abraço a outra cidade e a outro Festival que tem na celebração da palavra um desígnio comum. Ovar é, desde 2015, palco de um evento literário que se consolida ano após ano e este “casamento”, intermediado pela pintura, acrescenta-lhe força e substância, enobrece-o. E, por isso, aqueles que tiveram a oportunidade de, neste mesmo local, escutar as palavras de Filipa Vera Jardim, Rita Tormenta, Vítor Gil Cardeira ou Vasco Prazeres, irão encontrar na pintura de Mafalda Rocha o espelho e o reverso da identidade literária que une todos os criadores. Para ver até ao dia 3 de Outubro.

sábado, 26 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO: "Proust e as Artes"



EXPOSIÇÃO: “Proust e as Artes”
Vários artistas
Museu Nacional Thyssen-Bornemisza
04 Mar > 08 Jun 2025


“Proust e as Artes”, exposição temporária patente ao público no Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, fala-nos da importância da arte na obra de Marcel Proust, um dos escritores mais influentes do século XX, reconhecido na literatura, na filosofia e na teoria da arte. As ideias estéticas que Proust desenvolveu na sua obra, os ambientes artísticos, monumentais e paisagísticos que o rodearam e que recria nos seus livros, bem como os artistas contemporâneos ou do passado que lhe serviram de estímulo, são alguns dos aspectos que articulam o itinerário da exposição. O objectivo é realçar esta ligação e a inter-relação entre a arte e a sua figura, a sua vida e a sua obra. Proust era fascinado não só pelas artes, mas também pela modernidade que estava tão em voga no final do século XIX numa Paris em transformação com o aparecimento da eletricidade, dos automóveis, dos espectáculos, dos restaurantes e dos cafés. A imagem da modernidade criada pelos pintores impressionistas através da representação das ruas e outros ambientes de Paris está na base da estética proustiana: tudo isto marcará a sua biografia e os seus escritos.

Uma das suas primeiras obras publicadas, “Os Prazeres e os Dias” (1896), é apresentada na primeira sala da exposição, mostrando o seu gosto precoce pelas artes, pela música, pelo teatro e, sobretudo, pela pintura, e as suas frequentes visitas ao Museu do Louvre.  Este interesse continua na sua obra maior, o romance “Em Busca do Tempo Perdido”, publicado em sete partes entre 1913 e 1927. A Paris da Terceira República, em especial a zona dos Campos Elísios, o Bois de Boulogne e os palácios aristocráticos do Faubourg Saint-Germain, bem como as praias e as costas do Norte de França, são alguns dos cenários em que o romance se desenrola e que pintores como Manet, Pissarro, Renoir, Monet, Boudin e Dufy reflectem nos seus quadros. A importância do teatro na obra de Proust reflecte-se também na impressionante pintura de Georges Clairin, do museu Petit Palais, em Paris, representando Sarah Bernhardt, na qual se baseou, entre outras, a personagem Berma, omnipresente em todo o romance.

A exposição destaca ainda um dos temas mais marcantes da obra de Proust, o da criação e consolidação, nas últimas décadas do século XIX, de uma nova e moderna disciplina, a História da Arte, o seu fascínio por uma cidade como Veneza, à qual viajou duas vezes, no seu interesse pelas catedrais e pela arquitectura gótica e na não tão conhecida “ligação espanhola” do escritor, através das figuras de Mariano Fortuny y Madrazo e Raimundo de Madrazo, incluindo nas salas alguns trajes e tecidos desenhados pelo primeiro para mostrar um tema, o da moda, essencial para o autor francês e que a exposição pretende realçar. Para além de pinturas de Rembrandt, Vermeer, Van Dyck, Watteau, Turner, Fantin Latour, Manet, Monet, Renoir e Whistler, entre outros, uma escultura de Antoine Bourdelle e os já referidos desenhos de Fortuny e de outros artistas da época, a exposição inclui uma seleção de livros de Proust provenientes da Bibliothèque Nationale de France e da Biblioteca del Ateneo em Madrid, bem como empréstimos do Museu do Louvre, do Rijksmuseum de Amesterdão ou do Städel Museum de Frankfurt, entre outros.

sábado, 28 de dezembro de 2024

O MELHOR DE 2024: LITERATURA ESTRANGEIRA



10. “Os Esquecidos de Domingo”,
de Valérie Perrin
Título original | “Les Oubliés du Dimanche” (Éditions Albin Michel, Paris, 2015)
Tradução | Maria de Fátima Carmo
Ed. Editorial Presença, Novembro de 2023

“ (…) A combinação da história de Hélène e Lucien, um casal com um amor desmedido que nem a guerra e a deportação conseguiram separar, com a mais recente de Justine, a jovem auxiliar de uma energia inesgotável e de uma bondade sem limites, permite desfrutar de momentos de enorme intensidade poética, mas também da emoção que se desprende do livro à medida que um terrível segredo de família vai sendo revelado. Se Justine, com a sua infinita empatia pelos velhos, dá ao romance o toque certo de humanidade, a personagem de Hélène é a nota de poesia, graças à sua história de amor com Lucien, ao calvário da guerra, à espera do seu regresso, à passagem do tempo ou à presença da gaivota”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2024/02/livro-os-esquecidos-de-domingo.html



9. “A Vida Não é Útil”,
de Ailton Krenak
Pesquisa e organização | Rita Carelli
Edição | Eurídice Gomes
Ed. Objectiva, Novembro de 2020

“ (…) São várias as ideias que convergem numa chamada de atenção para a destruição do planeta e para o desastre anunciado. Do seu ponto de observação no Estado de Minas Gerais, Ailton Krenak fala de uma atitude “caótica e predatória” em relação aos recursos ambientais, de um mundo que está a desaparecer a cada dia e de uma ideia de concentração de riqueza que atingiu um clímax. Denuncia o capitalismo, interessado em vender a ideia de que podemos reproduzir a vida e, inclusivamente, reproduzir a Natureza, ao mesmo tempo que lamenta o modo de vida ocidental, exímio na formatação do mundo como uma mercadoria e fazendo com que uma criança crescida dentro desta lógica viva a existência como se de uma experiência total se tratasse”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2024/08/livro-vida-nao-e-util.html



8. “No Jardim do Ogre”,
de Leïla Slimani
Título original | “Dans le jardin de l’ogre” (Éditions Gallimard, 2014)
Tradução | Tânia Ganho
Ed. Alfaguara, Maio de 2018 (3ª republicação, Junho de 2023)

“ (…) Com a perícia de um taxidermista e a precisão de um cirurgião plástico, Leïla Slimani constrói, ao longo de um pouco menos de duzentas páginas, o retrato de uma mulher tomada pela solidão, a angústia e a culpa. Sentimentos que arrasta consigo sem comoção ou arrependimento, como uma ferida impossível de sarar”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2024/03/livro-no-jardim-do-ogre.html



7. “Mulher, Vida, Liberdade”
Coordenação | Marjane Satrapi
Título original | “Femme, Vie, Liberté”, (© Editions de l’Iconoclaste, Paris)
Tradução | Sofia Fraga
Edição | Amaia Iglesias
Ed. Iguana, Outubro de 2023

“ (…) Extraordinária, pela força dos textos, desenhados em onze quadros escritos com os nervos à flor da pele, dados a ver em memória ou fado, em manifesto ou mensagem. Extraordinária, ainda, pela qualidade das interpretações, ousadas, irreverentes, à imagem e semelhança do momento que se ousou recriar. Extraordinária, enfim, pela mensagem que faz passar para estes tempos estranhos que vivemos, tempos acomodados, de espera, enquanto os inimigos da democracia, como vampiros, nos vão chupando o sangue pela calada. Alerta, povo, alerta. Às armas, se preciso for”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2024/08/livro-mulher-vida-liberdade.html



6. “A Zona Interdita”,
de Mary Borden
Título original | “The Forbidden Zone” (© Patrick Aylmer, 1929, 2008, 2023)
Tradução | Eugénia Antunes
Ed. Minotauro, Setembro de 2023

“ (…) A vida na sinistra prisão de Evin, espelho do horror do regime, o massacre de Zahedan ou as execuções sem culpa formada de participantes nos movimentos de contestação, são alguns dos capítulos mais intensos e dramáticos do livro. Nos “rostos para a posteridade” rende-se homenagem aos “filhos da liberdade”, aos muitos que deram a sua vida ou sofreram horrores nas prisões do regime por exprimirem o seu desejo de um país justo e livre”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2024/02/livro-zona-interdita.html



5. “Um Dia na Vida de Abed Salama: Anatomia de uma Tragédia em Jerusalém”,
de Nathan Thrall
Título Original | "A Day in the Life of Abed Salama: Anatomy of a Jerusalem Tragedy" (©2023 Nathan Thrall)
Tradução | Sara Veiga
Ed. Livros Zigurate, Outubro de 2023

 (…) Com uma clareza cortante, este judeu americano a residir em Jerusalém olha o eterno conflito entre Israel e a Palestina a partir da dor de uma família. A sensação de sobressalto faz-se presença constante ao longo da leitura do livro, tornando-se chocante a tomada de consciência da política de ingerência de Israel nos enclaves palestinianos e do impacto que isso produz. O velho autocarro, as estradas esburacadas e a inconsciência de um condutor, funcionam como metáforas de uma “viagem” trágica a qual, com melhores actores e pequenos ajustes na história, teria certamente outro desfecho”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2024/07/livro-um-dia-na-vida-de-abed-salama.html



4. “Uma Brancura Luminosa”,
de Jon Fosse
Título original | “Kvitleik”
Tradução | Liliete Martins
Ed. Cavalo de Ferro, Fevereiro de 2024

“ (…) Lançando o braço sobre o ombro do leitor, guiando-o por caminhos que à fé dizem respeito, o autor faz notar, com voz serena, que a dúvida é uma virtude maior do ser, a capacidade de pôr em causa as certezas claras e distintas como fonte de conhecimento, a primazia dos sentidos como caminho ínvio de condução do homem à razão. Mas também sugere que deve aceitar de forma tranquila a ausência de respostas satisfatórias às suas dúvidas e inquietações, a ideia de verdade como algo inescrutável”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2024/04/livro-uma-brancura-luminosa.html



3. “Os Anos”,
de Annie Ernaux
Título original | “Les Années” (© Editions Gallimard, 2008)
Tradução | Maria Etelvina Santos
Ed. Livros do Brasil, Fevereiro de 2020 (reimpresso em Fevereiro de 2023)

“ (…) Dos filmes às canções, dos anúncios à política, dos avanços tecnológicos aos acontecimentos que abalaram o mundo, sem esquecer as tendências da moda, a pílula contraceptiva ou as emoções da Volta à França em bicicleta, de tudo um pouco se “escreve” um livro apurado ao detalhe, passado pelo crivo da memória da autora, que não esquece a condição de ser mulher e de esquerda. Tudo isto ritmado pelas refeições de família ou de amigos, das conversas à mesa que fazem eco da mudança de tempos e vontades”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2024/07/livro-os-anos.html



2. “Manhã e Noite”,
de Jon Fosse
Título original | “Morgon og Kveld” (Det Norske Samlaget, Noruega, 2000)
Tradução | Manuel Alberto Vieira
Ed. Cavalo de Ferro, Novembro de 2020 (5ª edição, Outubro de 2023)

“ (…) Extraordinariamente vívida, intensa e penetrante, a escrita de Jon Fosse impressiona pela forma como valoriza a palavra, pela fidelidade aos ambientes, pelo rigor das descrições. Mas também pelo arrojo formal que ultrapassa a mera abolição do uso dos pontos finais, por essa relação intrínseca com a oralidade, pela intencionalidade das ideias assente na repetição constante de certas palavras, pela ternura com que abraça as personagens e que faz do romance um longo e belo poema”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2024/01/livro-manha-e-noite.html



1. “Atos Humanos”,
de Han Kang
Título na edição inglesa | “Human Acts” (© Han Kang, 2014)
Tradução do inglês | Maria do Carmo Figueira
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Agosto de 2017

“ (…) A escritora fala de alguém com a familiaridade que um “tu” pressupõe, mesmo podendo tratar-se de um perfeito desconhecido. É um artifício que obriga o leitor a deslocar-se para dentro da história, a tomar parte nela. Está dado o passo decisivo no processo de adesão ao livro, algo que ultrapassará em muito uma eventual relação empática, transformando-se num apego íntimo, num sentir comum feito de cumplicidade, compaixão e humanidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2024/10/livro-atos-humanos.html