A vigésima nona sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, promovidas pelo Centro de Reabilitação do Norte, voltou a provar que a palavra é, tantas vezes, o mais eficaz dos remédios. Na tarde de 18 de Fevereiro, as paredes habituadas ao silêncio abriram-se a uma respiração mais funda, feita de escuta e partilha. Dirigida muito especialmente aos utentes internados e às suas famílias, a iniciativa tem sido esse território de confluência onde o bem-estar se constrói devagar, como quem cose uma ferida com pontos de luz. Mas é, também, um momento de encontro com o livro enquanto objecto que acrescenta saber e enriquecimento, que desafia a clausura da doença e convida a viajar à descoberta de paisagens com outras e novas cores, longe do negro da imobilidade e da dependência, do branco asséptico de corredores e enfermarias. Cada sessão é uma pequena travessia, cada convidado um farol aceso na margem. Um farol que, na tarde da passada quarta-feira, teve nome literário e voz de mulher.
Josefa de Maltezinho, pseudónimo de Julieta Aleluia, nasceu no Porto, mas foi em Aveiro que aprendeu a soletrar o mundo e a permanecer. Professora do Ensino Básico, formada pela Universidade de Aveiro, guardou durante décadas cadernos e versos, como quem guarda sementes à espera de serem lançadas à terra na estação propícia. Em 2013 publicou “Água Corrente”, a que se seguiu o romance “Maçã com Bicho”. Regressou depois à poesia com “Porque um Rio Também se Cansa”, publicou em Espanha a edição bilingue “Otoño de Visita”, e continuou o seu caminho com “Uma Garfada de Sol no Umbigo”, “Fracturas Expostas”, “Solidão Assistida ou a Brutalidade do Quotidiano” e “Pela Lente do Repórter”. Em Julho de 2025, com a chancela da Editora Exclamação, deu à estampa “Elisa”, obra que serviu de ponto de partida para uma conversa que se quis inteira e sem rede.
Dos doentes e para os doentes, a tertúlia fez-se viva, intensa e livre. Antes de qualquer apresentação formal, os presentes quiseram saber tudo sobre a convidada, como se a curiosidade fosse uma urgência vital. A Teresa e o Alberto, a Diana, a Paula e tantos outros que fizeram questão de erguer a voz como quem segura na mão um espelho, reflectiram, opinaram, inquiriram e partilharam as suas inquietações sobre o papel da mulher, a sua educação para a resignação, a sua secundarização histórica, os lentos processos de emancipação. Olhando o romance “Elisa”, o moderador evocou Alfred Hitchcock e o seu “Janela Indiscreta” para colocar os presentes na pele de um James Stewart a observar vidas alheias através de uma janela imaginária: a mulher romena com a criança ao colo, abrigando-se da chuva; a outra que, entre gritos domésticos, é agredida. Em paralelo, emergiu a memória de tempos em que secretárias do Ministério dos Negócios Estrangeiros, enfermeiras, hospedeiras da TAP Air Portugal ou professoras não podiam ser casadas. Falou-se de Maio de 2000, data em que a violência doméstica passou a constituir crime público, mas também da persistência de mentalidades que ainda murmuram que “entre marido e mulher não se mete a colher”.
Na segunda parte da sessão, a poesia tomou a sala como um sopro. A leitura partilhada revelou uma autora multifacetada, atenta às imagens de violência que nos entram pela casa adentro à hora do jantar, trazidas pelos noticiários, mas igualmente sensível ao rumor de um tasco “à moda antiga” do Porto, onde a vida é servida em copos de três e as conversas se saboreiam sem tempo. A palavra poética, ali, não foi ornamento: foi bisturi e foi abraço. Interrogou-nos no que temos de mais cru, convidando cada um a revisitar a sua própria história. E quando a escritora encerrou a sessão com um elogio à iniciativa — “pela cultura, pelo bem-estar de quem não se encontra nas melhores condições físicas e tanto precisa destes incentivos” — percebeu-se que não foi apenas literatura o que ali se celebrou, antes a possibilidade de, mesmo em contexto de fragilidade, se continuar a crescer. Como uma resposta afirmativa e livre ao desejo de que cada livro aberto possa ser uma janela menos indiscreta e mais luminosa sobre a esperança.
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