Inaugurada no final do ano passado, a exposição “Edições Selecionadas. 2008 - 2024”, de Alexandre Farto aka Vhils, funciona como um mapa arqueológico de quase duas décadas de trabalho. São setenta e três obras que condensam um percurso iniciado na erosão das superfícies urbanas e expandido para múltiplos suportes, sem nunca abandonar a obsessão pelo rosto humano enquanto território estético e político. Dos dioramas aos azulejos, dos cartazes às risografias e publicações, o que se apresenta é, mais do que uma selecção de edições, a sedimentação de um método. Vhils sempre trabalhou por subtracção - escavando, perfurando, detonando -, com o fim de revelar camadas invisíveis da cidade. Aqui, essa lógica mantém-se, mas é traduzida para o espaço museológico com rigor quase laboratorial. O MUDE, ele próprio dedicado às linguagens do design e da cultura material, torna-se num lugar de fricção entre a rua e a instituição, o efémero e o arquivo, o gesto insurgente e a edição seriada.
Se os murais que espalhou pelo mundo - de Lisboa a Xangai, de São Paulo a Londres - consagraram Vhils como um dos nomes incontornáveis da arte urbana contemporânea, esta mostra evidencia algo mais subtil: a consistência conceptual que sustenta a diversidade formal. Nele, a multiplicação técnica não é dispersão, antes insistência. Possuidor de uma técnica inconfundível, explora o azulejo contemporâneo a ponto de o reinventar, fragmenta cartazes como quem desmonta a propaganda visual do quotidiano, constrói dioramas como se fossem cápsulas de memória social. Há sempre uma tensão entre destruição e revelação, entre ruína e identidade. Os rostos anónimos que emergem das superfícies corroídas são retratos de comunidades invisibilizadas, marcas de uma globalização que homogeneíza fachadas mas não apaga biografias. Ao trazer essas imagens para o formato de edição, Vhils democratiza o acesso sem diluir a intensidade, criando objectos que circulam como testemunhos portáteis de uma prática originalmente inscrita na escala monumental.
“Edições Selecionadas. 2008 - 2024” não é, por isso, uma retrospectiva convencional. É antes um ensaio sobre permanência. Ao reunir obras produzidas ao longo de dezasseis anos, a exposição revela como a pesquisa de Vhils permanece fiel a um núcleo ético: dar visibilidade ao que está soterrado. No contexto do MUDE, essa ética ganha uma nova e mais expressiva leitura. A edição, muitas vezes associada ao mercado e ao que é replicável, surge aqui como estratégia de resistência, como forma de preservar a memória de gestos que, na rua, estão condenados ao desgaste do tempo ou à voragem imobiliária. O visitante percorre a mostra como quem folheia um atlas de cicatrizes urbanas, reconhecendo nas superfícies escavadas não apenas uma técnica apurada, mas um compromisso com a história colectiva inscrita na matéria. Entre o realista e o poético, a exposição confirma a actualidade e a urgência do olhar de Vhils, afirmando-o como alguém capaz de transformar a erosão em linguagem e a memória em relevo.
Sem comentários:
Enviar um comentário