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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: "Edições Selecionadas. 2008 - 2024" | Alexandre Farto aka Vhils




EXPOSIÇÃO: “Edições Selecionadas. 2008 - 2024”,
de Alexandre Farto aka Vhils
Curadoria | Pedro Ferreira
MUDE - Museu Design Lisboa
17 Dez 2025 > 03 Mai 2026


Inaugurada no final do ano passado, a exposição “Edições Selecionadas. 2008 - 2024”, de Alexandre Farto aka Vhils, funciona como um mapa arqueológico de quase duas décadas de trabalho. São setenta e três obras que condensam um percurso iniciado na erosão das superfícies urbanas e expandido para múltiplos suportes, sem nunca abandonar a obsessão pelo rosto humano enquanto território estético e político. Dos dioramas aos azulejos, dos cartazes às risografias e publicações, o que se apresenta é, mais do que uma selecção de edições, a sedimentação de um método. Vhils sempre trabalhou por subtracção - escavando, perfurando, detonando -, com o fim de revelar camadas invisíveis da cidade. Aqui, essa lógica mantém-se, mas é traduzida para o espaço museológico com rigor quase laboratorial. O MUDE, ele próprio dedicado às linguagens do design e da cultura material, torna-se num lugar de fricção entre a rua e a instituição, o efémero e o arquivo, o gesto insurgente e a edição seriada.

Se os murais que espalhou pelo mundo - de Lisboa a Xangai, de São Paulo a Londres - consagraram Vhils como um dos nomes incontornáveis da arte urbana contemporânea, esta mostra evidencia algo mais subtil: a consistência conceptual que sustenta a diversidade formal. Nele, a multiplicação técnica não é dispersão, antes insistência. Possuidor de uma técnica inconfundível, explora o azulejo contemporâneo a ponto de o reinventar, fragmenta cartazes como quem desmonta a propaganda visual do quotidiano, constrói dioramas como se fossem cápsulas de memória social. Há sempre uma tensão entre destruição e revelação, entre ruína e identidade. Os rostos anónimos que emergem das superfícies corroídas são retratos de comunidades invisibilizadas, marcas de uma globalização que homogeneíza fachadas mas não apaga biografias. Ao trazer essas imagens para o formato de edição, Vhils democratiza o acesso sem diluir a intensidade, criando objectos que circulam como testemunhos portáteis de uma prática originalmente inscrita na escala monumental.

“Edições Selecionadas. 2008 - 2024” não é, por isso, uma retrospectiva convencional. É antes um ensaio sobre permanência. Ao reunir obras produzidas ao longo de dezasseis anos, a exposição revela como a pesquisa de Vhils permanece fiel a um núcleo ético: dar visibilidade ao que está soterrado. No contexto do MUDE, essa ética ganha uma nova e mais expressiva leitura. A edição, muitas vezes associada ao mercado e ao que é replicável, surge aqui como estratégia de resistência, como forma de preservar a memória de gestos que, na rua, estão condenados ao desgaste do tempo ou à voragem imobiliária. O visitante percorre a mostra como quem folheia um atlas de cicatrizes urbanas, reconhecendo nas superfícies escavadas não apenas uma técnica apurada, mas um compromisso com a história colectiva inscrita na matéria. Entre o realista e o poético, a exposição confirma a actualidade e a urgência do olhar de Vhils, afirmando-o como alguém capaz de transformar a erosão em linguagem e a memória em relevo.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Meu Nome António” | Teresa Couto Pinto



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Meu Nome António”,
de Teresa Couto Pinto
Curadoria | Bárbara Coutinho
MUDE - Museu Design Lisboa
04 dez 2025 > 26 abr 2026


Imperdível para quem segue as linhas com que se cose a cultura portuguesa contemporânea, “Meu Nome António”, exposição patente no MUDE até 26 de Abril, devolve ao olhar do visitante a figura controversa de António Variações graças a um conjunto de oitenta e cinco fotografias de Teresa Couto Pinto, realizadas entre 1981 e 1983, no período decisivo da consagração do artista. Extraído de uma canção inédita do músico, o título da exposição enquadra um percurso que acompanha a afirmação de uma das figuras mais singulares da pop nacional, desde a estreia televisiva com Júlio Isidro até à gravação dos álbuns “Anjo da Guarda” e “Dar & Receber”. O conjunto é apresentado num espaço de forte carga simbólica - o antigo cofre forte, no coração do edifício que foi outrora o Banco Nacional Ultramarino -, o que acentua a dimensão íntima e reveladora destas imagens, guardadas durante décadas e agora expostas como um retrato essencial de um artista que fez da diferença uma forma de estar.

O trabalho de Teresa Couto Pinto revela uma relação de profunda cumplicidade com António Variações, nascida no final da década de 1970, quando ambos atravessavam momentos de transformação pessoal. Amiga, confidente e fotógrafa, é através do seu olhar atento e sensível que Variações se deixa ver para lá da persona mediática. Icónicas, menos conhecidas ou inéditas, as imagens mostram-no em retratos encenados, em casa ou diante de fundos neutros, revelando uma figura simultaneamente provocadora e envergonhada, audaciosa e contida. A exposição integra também peças de vestuário, acessórios e objectos da sua atividade como barbeiro, sublinhando a coerência entre música, imagem, moda e quotidiano, numa identidade construída com rigor, liberdade e intenção estética.

Ao longo dos vários núcleos, emerge um António Variações profundamente visual, que mistura referências do Minho com influências cosmopolitas, do fado ao pop rock, numa linguagem que definiu como situada entre “Braga e Nova Iorque”. As fotografias captam o seu carisma performativo, o cuidado extremo na escolha de roupas e adereços e a força simbólica de gestos e objectos, como as tesouras que se tornaram uma das marcas identitárias do artista. Nos ensaios para a capa de “Dar & Receber”, acompanha-se o processo criativo partilhado entre artista e fotógrafa, onde artifícios simples ganham densidade poética. É esse trabalho rigoroso e empático de Teresa Couto Pinto que permite devolver ao presente uma figura ímpar da sociedade portuguesa, na sua complexidade, fragilidade e ousadia intemporal.