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quarta-feira, 25 de março de 2026

TERTÚLIA | CONVÍVIO: Finissage das Exposições da Residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”



TERTÚLIA | CONVÍVIO: Finissage das Exposições da Residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”
Com | Ana Isabel Nistal Freijo, Solange Azevedo e Hélder Sousa
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
22 Mar 2026 | dom | 16:00


Sensível e íntimo, instigante e provocador, assim foi a finissage das exposições da residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”, momento de convívio e de memória feito de emoções e afecto. Com “um pé no passado e outro no futuro”, Ana Isabel Nistal Freijo, fez uma retrospectiva daquilo que foi o “Inovar as Letras - À Escuta da Literatura”, projecto cultural e residência artística que agora chega ao fim. Em ambiente de grande familiaridade, percebemos que o projecto não nasceu da fria arquitectura do pensamento, mas de um impulso íntimo, quase indizível, onde o coração se impôs como princípio e fim de todas as coisas. Com tudo o que foi acrescentando, o percurso foi marcado pelo reencontro com raízes biográficas e espirituais, nesse lugar onde a literatura e a música se entrelaçam na experiência de quem escuta e recria. Do deslumbramento inaugural pela palavra à maturidade da escuta contemporânea, ergueu-se uma ponte onde o ensino, a criação e a memória fluíram, dando corpo a uma ideia que encontrou no Museu Júlio Dinis não apenas um espaço físico, mas uma casa plural aberta ao sonho e à metamorfose.

“Toda a alma precisa de um corpo para se manifestar, e esse corpo é para nós o Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense”. Foi nesse corpo, vivo e acolhedor, que a alma do projecto se manifestou plenamente, sustentada pelo encontro entre impulsos criativos e vontades institucionais. O Museu revelou-se como lugar de confluência, a herança dinisiana projectada no presente através da experimentação artística. Entre Abril de 2025 e o passado domingo, as artes dialogaram de múltiplas formas, da celebração de projectos contemporâneos à encomenda de novas obras, das exposições às instalações sonoras que transformaram o espaço em matéria sensível. Cada gesto criativo - fosse nas composições, nas artes plásticas ou na palavra dita e cantada - constituiu um prolongamento desse legado, fazendo ressoar vozes que, mesmo ausentes, permanecem vivas na tessitura do projecto. Assim, o “Inovar as Letras” afirmou-se como território de criação partilhada, no qual tradição e invenção coexistiram num delicado equilíbrio, alimentado pelo estímulo e pela confiança de todos quantos nele acreditaram.

Mas foi sobretudo na comunidade que o projecto encontrou o seu centro de gravidade. Oficinas, conversas, ensaios abertos e concertos fizeram do público parte integrante do processo, assumindo-se como presença activa, cúmplice e transformadora: “Verdadeiros espectadores emancipados”, capazes de dar o seu contributo para uma obra colectiva em permanente construção. E, como num ciclo que se cumpre sob o signo das flores - símbolo de esperança, ilusão e efemeridade -, o projecto encerra levando consigo um delicado ramo de memórias. “Há flores assim que só os sentidos muito delicados lhes reconhecem o perfume”, escreveu Júlio Dinis em carta endereçada a sua tia. Assim parte esta experiência, e com ela uma nómada que deixa atrás de si uma fragrância leve, nesse gesto de partida residindo a promessa de que o que foi vivido continuará a ecoar, subtil e indelével, no coração de quem o escutou. Mas nele residindo também a certeza de que este não é “o fim do encantamento”. O gracioso virginal, cópia fiel de um instrumento de início do século XVII e cuja sonoridade Hélder Sousa tão delicadamente mostrou, é a prova de que “a procissão ainda vai no adro”.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar



CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Musurgia Ensemble, Ensemble Med, New Collegium, William Carter, Ensemble Allettamento, Duo Suzanne e Coro CásterAntiqua
Direcção artística | João Francisco Távora, Hélder Sousa
Igreja Matriz, Bar do Centro de Artes de Ovar, Capela da Misericórdia, Capela do Calvário, Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, Centro de Artes de Ovar
27 e 28 de Fevereiro, 01, 05, 06, 07 e 08 de Março de 2026 


Arranca hoje a segunda edição do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, pelo que importa espreitar um programa que, ao longo das próximas duas semanas, promete fazer voltar a atenção dos melómanos para o fascinante mundo da música dos séculos XVI, XVII e XVIII. Como um rio subterrâneo que regressa à superfície, a música antiga reencontra abrigo em alguns dos mais emblemáticos lugares do património ovarense, convocando histórias de sonho e magia e memórias que não cessam de vibrar. Apresentado ao público no passado dia 20 de Fevereiro, o Festival traz com ele uma renovada promessa de qualidade e variedade, cruzando artistas e agrupamentos nacionais como o Musurgia Ensemble e o Ensemble Med, com os neerlandeses do New Collegium ou os espanhóis do Ensemble Allettamento, entre outros. Numa cidade comprometida com o sopro da história e aberta à respiração funda dos instrumentos de antanho, o público vai poder fazer de cada concerto uma travessia, de cada espaço um eco ampliado do tempo. E, tal como sucedeu na primeira edição do CásterAntiqua, vai poder fruir da música antiga não como peça de museu, mas como chama viva que ilumina o nosso próprio tempo, interrogando-o e completando-o.

Como quem franqueia uma porta há muito fechada, o Festival tem o seu início na Igreja Matriz com “Um Outro Café Zimmermann”, pelo Musurgia Ensemble. Sediado em Ovar, o agrupamento promete recriar o fervor musical da Leipzig setecentista, onde pairam, cúmplices, sobre a partilha sonora, os espíritos de Georg Philipp Telemann e de Johann Sebastian Bach. No sábado à noite o Bar do Centro de Artes de Ovar acolhe um “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”, evocando a confluência das religiões cristã, judaica e árabe, numa geografia onde a música é ponte e memória. O fim de semana termina na Capela da Misericórdia, ao final da tarde de domingo, com o concerto do New Collegium a dar a ver um Telemann camaleónico, de múltiplas máscaras e afectos. Entrando na segunda semana do Festival, o consagrado alaudista britânico William Carter convida-nos a imaginar um serão íntimo “no salão musical de Bach”, a prometer transformar a Capela do Calvário num espaço de intimidade e confidência. Será na quinta-feira, dia 05 de Março, pelas 21h00.

Na sexta-feira o Festival regressa à Igreja Matriz com as cordas dedilhadas do Ensemble Allettamento a conduzirem os presentes por “Folias, Chaconas e Fandangos”, danças que se espalharam por praças e palácios, moldando-se ao engenho de compositores que souberam fazer do ostinato uma arte de infinita metamorfose. Mas o CásterAntiqua não é apenas evocação: é também criação e promessa. A residência artística acolhida no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, atribuída por concurso internacional, dará palco, na tarde de sábado, ao Duo Suzanne, um jovem agrupamento emergente disposto a revelar-se entre a experiência e a ousadia. Também a comunidade encontra o seu lugar neste desígnio, o Coro CásterAntiqua, as sessões educativas e as visitas guiadas ao património a convergirem para que a música antiga não seja relíquia, mas pertença.

Ao Coro CásterAntiqua, sob a direcção do maestro Jorge Luís Castro, caberá a responsabilidade de encerrar o Festival, chamando ao Centro de Arte de Ovar, pelas 16h00 de domingo, Dia Internacional da Mulher, a música da compositora italiana Maddalena Casulana e várias outras vozes femininas que a História, por desatenção ou preconceito, deixou na penumbra. Fruto de dois meses de trabalho com a comunidade ovarense, o alinhamento do concerto irá estender-se entre madrigais e palavras, no que pode ser visto como uma homenagem, mas também uma reparação simbólica, devolvendo luz à criação feminina no Renascimento europeu e convidando o público a escutar com outros ouvidos, quiçá mais atentos e mais justos, alguns exemplares notáveis de uma realidade escondida. Assim se cumpre o desígnio maior desta segunda edição do CásterAntiqua: fazer do passado um horizonte habitável, onde tradição e contemporaneidade prometem entrelaçar-se num mesmo fôlego. Não se tratará apenas de revisitar repertórios antigos, mas de os reinscrever na vida presente da cidade, fazendo de cada igreja, de cada museu, de cada sala um lugar de encontro e comunhão, de dádiva e partilha.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 1



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Freijo, Bruno Henriques, Capicua, Carlos Alberto Moniz, Carlos Nuno Granja, CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, Gabriel Pinto, Hugo Carvalhais, João Martins, José Ferreira, Luís Portugal, Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl
Museu Júlio Dinis, Centro de Artes de Ovar
17 Set 2025 | qua | 18:00 e 21:30


Recuemos no tempo, a 03 de Setembro de 2015, dia em que o Festival Literário de Ovar nascia para o mundo sob os melhores auspícios. Nesse início de um fim-de-semana prolongado, a cidade vivia um primeiro grande momento à volta dos livros, numa união franca e aberta entre escritores e leitores, ilustradores, livreiros e demais agentes ligados à escrita e à leitura. Se há loucura na escrita e ousadia na literatura, se os sentimentos se revelam mais facilmente no universo literário, se é possível fugir às contradições da sociedade, foram questões, de então e de sempre, às quais Miguel Real, Carlos Campaniço, Pedro Guilherme-Moreira, Jaime Rocha, Margarida Fonseca Santos, Afonso Valente Batista, Filipa Leal, João de Melo e vários outros escritores souberam responder, num verdadeiro exercício de “dar cultura às nossas gentes”, como afirmou Salvador Malheiro, Presidente da autarquia à data. Dez anos depois, o FLO pode orgulhar-se de um currículo invejável, assente em muito trabalho e perseverança, dedicação e crer, que fazem dele um dos mais relevantes Festivais Literários do nosso país.

Passada uma década, quantos livros, quantas palavras, quantos autores? Quantas memórias? Quantas pessoas? Quantos momentos? Não haverá, no contexto do FLO, pessoa mais indicada para responder a esta questão do que Carlos Nuno Granja, a mais importante figura do certame, alguém que acredita, desde sempre, no poder inabalável da leitura para a construção do pensamento crítico, autonomia e profundidade interior da pessoa, mas também na oportunidade que os livros oferecem de desacelerar, reflectir e desenvolver uma visão mais ampla e fundamentada do mundo, ajudando a formar indivíduos mais conscientes e íntegros, menos influenciáveis. Ele, a par de uma pequena mas valiosa equipa, são os responsáveis pela manutenção de um verdadeiro selo de qualidade que o Festival detém, e que volta a programar, de forma sólida e segura, um conjunto de actividades que, ao longo de cinco ininterruptos dias – entre conversas, concertos, teatro, apresentações de livros, cinema e muito mais –, prometem transformar a cidade numa imensa e apaixonante biblioteca.

O pontapé de saída do FLO 2025 teve lugar ao final da tarde no Museu Júlio Dinis com a inauguração de “Mais tempo por aqui…”, Instalação Sonora da autoria de Tiago Schwäbl, inserida no projecto “Inovar as Letras – À Escuta da Literatura”. Oportunidade única para escutar os sons de uma casa e as palavras de um escritor, sabiamente escrutinadas na obra dinisiana e abertas ao público com sensibilidade e emoção. Seguiu-se a primeira mesa do Festival, dedicada a debater “O processo de criação artística e a obra literária”. Moderada por Carlos Nuno Granja e com Mafalda Rocha, Tiago Schwäbl, Ana Freijo e José Ferreira como convidados, a conversa foi ao encontro da Literatura e do Teatro, da Pintura, do Som e da Música, recuperando o ambiente acolhedor e familiar de uma casa ovarense e lançando a discussão em torno do processo criativo, suas dificuldades e condicionalismos, seus desafios e recompensas. A tarde encerrou com a performance “Pela Janela do Olhar”, encenada por José Ferreira e interpretada por um leque de actores da CONTACTO – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar, numa homenagem sentida aos autores que, desde 2008, passaram pelo Festival Escritaria, e que nos olham das paredes do Museu em belíssimas pinturas da autoria de Mafalda Rocha.

Com a presença em palco de Carlos Nuno Granja e do Presidente do Município de Ovar, Domingos Silva, a abertura oficial do FLO 2025 teve lugar ao início da noite, nela se falando de ousadia e utopia, de sonho e muito querer, elementos determinantes de afirmação de um Festival que constitui “uma das marcas identitárias de Ovar”. As palavras de Vergílio Ferreira, “Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer” deram o mote à segunda mesa do Festival. Bruno Henriques moderou uma conversa que teve como convidados Luís Portugal e Capicua e que resultou, entre o sério e o irónico, num extraordinário momento de reflexão e partilha. De Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto ou Zeca Afonso como fontes de inspiração para a escrita de canções, à dificuldade crescente em romper com o “establishment” e assumir a música como um acto de resistência, ambos os convidados coincidiram na ideia de que “a liberdade [para criar], ou é total, ou não é liberdade”. O primeiro dia do Festival encerrou com o concerto “Na Primeira Pessoa”, de Carlos Alberto Moniz. Em palco, na companhia de Gabriel Pinto (piano), Hugo Carvalhais (contrabaixo) e João Martins (bateria), o cantor ofereceu, em graça e beleza, a força da música açoriana, numa celebração da palavra de alguns dos seus maiores poetas.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

CONCERTO: “Iste Confessor Domini – Música franco-flamenga e portuguesa do séc. XVI”



CONCERTO: “Iste Confessor Domini – Música franco-flamenga e portuguesa do séc. XVI”
Musurgia Ensemble
Direcção musical | João Francisco Távora
Com | António Godinho (flauta de bisel), Emma Reynaud (flauta de bisel), João Francisco Távora (flauta de bisel), Robert Ehrlich (flauta de bisel), Sofia Pedro (soprano), Luís Toscano (tenor)
Apresentação | Ana Isabel Nistal Freijo
Maio do Azulejo 2025
Igreja Matriz de Válega
17 Mai 2025 | sab | 18h00


“Unha lingua é máis ca unha obra de arte; é matriz inesgotábel de obras de arte”.
Castelao

Antes de falar do extraordinário momento que foi “Iste Confessor Domini” e do olhar que o Musurgia Ensemble abriu sobre a música franco-flamenga e portuguesa do século XVI, falarei de um projecto que merece a minha admiração e ao qual este concerto, ainda que programado no âmbito do Maio do Azulejo, se encontra intimamente ligado. Falo de “Inovar as Letras”, residência artística de Ana Isabel Nistal Freijo que tem como sede e laboratório de criação o Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense. É a partir do mais representativo símbolo literário da cidade que a investigadora, natural da Galiza e a residir entre nós, se propõe abordar, de forma inovadora, o sonoro e o musical na literatura portuguesa, ao mesmo tempo contribuindo para a promoção da imagem de Ovar como cidade criativa. O amor às letras e à língua portuguesa e a sua experiência pedagógica nos campos da estética e da hermenêutica, fazem de Ana Freijo a pessoa certa no lugar certo, para júbilo maior daqueles que se mostram dispostos a abraçar uma agenda rica de propostas e conteúdos e que se prolongará no tempo até finais de Março do próximo ano.

O projecto “Inovar as Letras” foi apresentado na tarde de domingo na acolhedora sala do Museu Júlio Dinis, o mesmo lugar que nos dias anteriores recebera os músicos numa residência artística desenvolvida pelo Musurgia Ensemble, sob a orientação de João Francisco Távora. Este facto deixa clara a ligação entre dois momentos de enorme significado e alcance, com cinco dos sete elementos envolvidos no concerto a marcarem presença no dia seguinte e a oferecerem, no decurso da apresentação do projecto, um momento musical que a todos encantou. Olhemos, enfim, para o concerto de sábado, não sem antes admirarmos a beleza do interior da Igreja Matriz de Válega e a riqueza azulejar que encerra, propiciadores das condições ideais para a fruição de uma música de cariz litúrgico. Este concerto foi o culminar do trabalho de investigação do manuscrito P-Cug MM 2, do século XVI, repositório de onze Missas dos mais prestigiados compositores franco-flamengos da época e de um Credo - na verdade incompleto e de autor desconhecido - que podemos encontrar na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

Parte integrante do manuscrito referido, a Missa “Iste Confessor Domini” presidiu ao programa do concerto, o qual incluiu também um conjunto de três peças instrumentais de compositores portugueses e franco-flamengos do mesmo período: “Verso do 4.º Tom”, de Heliodoro de Paiva, “Ricercar 6”, de Jacques Buus, e “Tento do 2.º Tom”, de António Carreira. Dividido em duas partes, o concerto foi apresentado por Ana Freijo, com o intuito de contextualizar o trabalho artístico e laboratorial em causa. A investigadora começou por destacar um repertório representativo do que de melhor se pode achar no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, mas também o facto de estarmos perante um consorte de flautas, todas elas réplicas de instrumentos do século XVI, período a que se reportam as composições seleccionadas. A escuta dos diferentes tons de cada uma das flautas e uma leitura do conteúdo da Missa por Sofia Pedro predispuseram o público para os dois momentos - o “Kyrie” e o “Gloria” - que abriram o concerto e se revelaram preciosos, tanto pela limpidez de vozes dos solistas quanto pela graça e requinte do consorte de flautas. Intrometendo-se entre dois instrumentais, o Credo foi um momento sublime, a harmonia das vozes e das flautas a elevarem o concerto a um patamar de qualidade ímpar.

A dar início à segunda metade do concerto, Ana Freijo falou das peças instrumentais e de que forma as podemos encontrar nos respectivos manuscritos, por vezes reescritas, ainda que com algumas discrepâncias. São vários os ensinamentos que se podem retirar destes factos, desde logo a função didáctica dos manuscritos, um conjunto de peças não sujeitas a uma interpretação rígida, tal como os instrumentos utilizados que poderiam ser outros. Estamos, pois, perante um repertório aberto em todos os sentidos, ao contrário da ideia comum de que uma peça só tem uma forma de ser interpretada. Daí que o programa seja uma proposta de interpretação e não uma recriação exacta de como seria esta música tocada no Mosteiro de Santa Cruz em pleno século XVI. “É sempre bom termos consciência que os próprios músicos do século XVI tinham esta flexibilidade perante o repertório”, concluiu Ana Freijo. Passando à música, a segunda parte teve no Sanctus, da Missa “Iste Confessor Domini” novo momento alto, com Sofia Pedro a impressionar pela beleza de timbre e afinação irrepreensível, enquanto Luís Toscano evidenciava uma superior dinâmica de interpretação. A terminar, o “Agnus Dei” foi a coroa de glória de um concerto marcado pela profunda entrega interpretativa de todos os elementos sem excepção e de um som limpo, harmonioso e muito belo.