Sensível e íntimo, instigante e provocador, assim foi a finissage das exposições da residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”, momento de convívio e de memória feito de emoções e afecto. Com “um pé no passado e outro no futuro”, Ana Isabel Nistal Freijo, fez uma retrospectiva daquilo que foi o “Inovar as Letras - À Escuta da Literatura”, projecto cultural e residência artística que agora chega ao fim. Em ambiente de grande familiaridade, percebemos que o projecto não nasceu da fria arquitectura do pensamento, mas de um impulso íntimo, quase indizível, onde o coração se impôs como princípio e fim de todas as coisas. Com tudo o que foi acrescentando, o percurso foi marcado pelo reencontro com raízes biográficas e espirituais, nesse lugar onde a literatura e a música se entrelaçam na experiência de quem escuta e recria. Do deslumbramento inaugural pela palavra à maturidade da escuta contemporânea, ergueu-se uma ponte onde o ensino, a criação e a memória fluíram, dando corpo a uma ideia que encontrou no Museu Júlio Dinis não apenas um espaço físico, mas uma casa plural aberta ao sonho e à metamorfose.
“Toda a alma precisa de um corpo para se manifestar, e esse corpo é para nós o Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense”. Foi nesse corpo, vivo e acolhedor, que a alma do projecto se manifestou plenamente, sustentada pelo encontro entre impulsos criativos e vontades institucionais. O Museu revelou-se como lugar de confluência, a herança dinisiana projectada no presente através da experimentação artística. Entre Abril de 2025 e o passado domingo, as artes dialogaram de múltiplas formas, da celebração de projectos contemporâneos à encomenda de novas obras, das exposições às instalações sonoras que transformaram o espaço em matéria sensível. Cada gesto criativo - fosse nas composições, nas artes plásticas ou na palavra dita e cantada - constituiu um prolongamento desse legado, fazendo ressoar vozes que, mesmo ausentes, permanecem vivas na tessitura do projecto. Assim, o “Inovar as Letras” afirmou-se como território de criação partilhada, no qual tradição e invenção coexistiram num delicado equilíbrio, alimentado pelo estímulo e pela confiança de todos quantos nele acreditaram.
Mas foi sobretudo na comunidade que o projecto encontrou o seu verdadeiro centro de gravidade. Oficinas, conversas, ensaios abertos e concertos fizeram do público parte integrante do processo, assumindo-se como presença activa, cúmplice e transformadora. “Verdadeiros espectadores emancipados”, contribuindo para uma obra colectiva em permanente construção. E, como num ciclo que se cumpre sob o signo das flores - símbolo de esperança, ilusão e efemeridade -, o projecto encerra levando consigo um delicado ramo de memórias. “Há flores assim que só os sentidos muito delicados lhes reconhecem o perfume”, escreveu Júlio Dinis em carta endereçada a sua tia. Assim parte esta experiência, e com ela uma nómada que deixa atrás de si uma fragrância leve, nesse gesto de partida residindo a promessa de que o que foi vivido continuará a ecoar, subtil e indelével, no coração de quem o escutou. Mas nele residindo também a certeza de que este não é “o fim do encantamento”. O gracioso virginal, cópia fiel de um instrumento de início do século XVII e cuja sonoridade Hélder Sousa tão delicadamente mostrou, é a prova de que “a procissão ainda vai no adro”.
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