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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Alberto Pereira, Alice Brito, Ana Rute Elias Lopes, Ana Zorrinho, Andreia Baptista, António Cabrita, Caius, Carlos Nuno Granja, Carlos Querido, Celina Lopes, Cláudia Pena, Cristina Carvalho, Cristina Marques, Daniel Completo, Elisa Costa Pinto, Filipa Mota Nesbitt, Francisco Mota Saraiva, Gonçalo Serras, Katya Delimbeuf, Luís Filipe Sarmento, Helena Ribeiro, José Fanha, Manuella Bezerra de Melo, Marco Neves, Maria Cláudia Rodrigues, Miguel Bonneville, O Poeta da Cidade, Paola d’Agostino, Rute Campanha, Sara Dias de Oliveira, Wake Up Sleep
Parque Urbano de Ovar, Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, Centro de Artes de Ovar
19 Set 2026 | sab | 09:30, 14:30 e 21:00


Por tradição o dia mais preenchido do Festival Literário de Ovar, o passado sábado voltou a servir de teste à vontade e persistência dos muitos adeptos do Festival e a fazê-los sentir os mais variados momentos não como um programa, mas como uma viagem. O quarto dia do FLO foi, assim, uma longa viagem entre livros, vozes, rostos, memórias, perguntas e reflexões, começada por volta das nove da manhã e só finalizada quando no relógio da torre da Matriz se escutaram as doze badaladas. Entre o Parque Urbano, o Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense e o Centro de Artes de Ovar, escritores, leitores ou simples curiosos foram-se movendo entre uma palavra e outra, uma mesa e outra, como quem muda de sala no interior da sua própria casa. Apresentações de livros, oficinas, contos, poesia e cinco mesas de conversas constituíram, mais do que uma autêntica maratona, um exercício de resistência à voracidade dos dias. Porque se há coisa que a literatura nos pede é, justamente, que paremos. Que olhemos. Que abramos uma porta, mesmo não sabendo onde ela nos irá levar. E, por uma vez, que não tenhamos pressa de chegar ao outro lado.

A manhã começou com os livros a falarem para aqueles que estão ainda a descobrir o mundo, mas rapidamente se percebeu que falar de literatura infantil é falar de todos nós. Ana Rute Elias Lopes lembrou que, quando conta a história de um livro, conta também a sua própria história, fazendo com que essa humanidade aproxime o pequeno leitor daquilo que tem diante de si. Celina Lopes falou de uma ferida antiga transformada em livro. Andreia Baptista lembrou que mediar a leitura não é simplesmente contar uma história, mas criar condições para que ela seja descoberta com prazer, fruição e surpresa. Talvez seja por isso que a literatura para os mais novos tenha uma responsabilidade tão grande: porque pode ser o primeiro lugar onde alguém percebe que as palavras não servem apenas para dizer o mundo, mas também para inventar outros mundos, quiçá mais maravilhosos e fantásticos. Entre a oficina de ilustração de Cláudia Pena e os contos de Daniel Completo e José Fanha, a manhã foi deixando essa impressão bonita de que um livro começa muito antes de ser aberto e continua muito depois de dobrada a última página.

À tarde, no Museu Júlio Dinis, a conversa tornou-se mais densa, como se a literatura tivesse tirado o casaco leve da manhã e entrado noutra estação. Carlos Querido, Marco Neves e Elisa Costa Pinto falaram da complexidade e da simplificação, dessa tendência contemporânea para tornar tudo imediatamente compreensível, arrumado, consumível. Mas a literatura, talvez porque conhece demasiado bem a vida, desconfia das respostas fáceis. “Quem conhece a aldeia, conhece o mundo”, disse Carlos Querido, e ficou-me a frase. Porque é exactamente isso que os livros fazem, ao abrirem para nós um pequeno postigo e mostrarem-nos uma paisagem que não sabíamos que pudesse estar ali. Marco Neves lembrou que reduzir a língua à oposição entre simples e complexo é diminuir aquilo que ela nos oferece. Elisa Costa Pinto falou de uma Escola que não deve simplificar o mundo, mas dar-nos ferramentas para entrar no que ele tem de mais difícil. E ficou a sensação de que, num tempo que tantas vezes nos pede atalhos, a literatura continua a preferir o caminho menos fácil e menos óbvio. O caminho mais longo.

Foi também no Museu Júlio Dinis que Samuel Beckett apareceu, não como estátua literária, mas como homem. Alberto Pereira apresentou um livro que procura imaginar esse Beckett que poderia ter sido outra coisa, ter encontrado outras pessoas, vivido outra vida. Um homem entre a lucidez e o desequilíbrio, acompanhado pelo absurdo, pela espera, por Shakespeare, Joyce, Nietzsche, Hélia Correia, Dante, Saramago. Foram ideias através das quais se assistiu a uma das mais bonitas reflexões do dia, já que “falar de Beckett é falar de nós”. Porque também nós esperamos. Por um amor, por uma mudança, por alguma coisa que ainda não chegou, pela morte. Esperamos enquanto corremos. E corremos tanto que já quase não vemos os lugares por onde passamos. “A palavra fulcral é a velocidade”, ouviu-se. Talvez seja. Mas nessa tarde, em Ovar, tentou-se contrariá-la. Na mesa moderada por Ana Zorrinho, António Cabrita falou da paixão como força capaz de incendiar a escrita, para o bem e para o mal. Luís Filipe Sarmento encontrou na obscuridade da notícia o gatilho para escrever e a literatura apareceu, uma vez mais, como o lugar possível para chegar ao ponto cego, a esse cruzamento improvável entre diferentes maneiras de olhar.

Depois veio a memória, e com ela tudo aquilo que ainda não passou inteiramente. A última mesa da tarde trouxe para o centro da conversa os cinquenta anos da nossa democracia e os vestígios de um país que não se evaporam só porque o calendário avança. Paola d’Agostino falou de uma censura que pode terminar depressa, mas de uma auto-censura cujo desaparecimento é muito mais lento. Francisco Mota Saraiva evocou a reverência antiga ao patriarcado, à autoridade, ao “senhor”, e falou de um país onde ainda permanecem formas de desconfiança e desamor. Miguel Bonneville deixou uma pergunta difícil: nascer depois de Abril significa necessariamente ter nascido em liberdade? Talvez a literatura seja também isto: não deixar que as perguntas envelheçam. À noite, Cristina Carvalho e Alice Brito voltaram a essa memória através de “Perdeu-se Relógio de Senhora”, romance que olha para o fascismo no quotidiano, para aquilo que pode parecer pequeno, doméstico, quase invisível, e que, justamente por isso, se torna tão perigoso. “Esquecer”, disse Alice Brito, “é compactuar com um passado que não queremos que volte”.

Quando a última mesa começou, já o dia pesava no corpo, mas não na conversa tão habilmente moderada por Cristina Marques. Maria Cláudia Rodrigues falou da escrita como uma tentativa de iluminar aquilo que permanece na obscuridade. Filipa Mota Nesbitt lembrou a literatura como algo que resiste ao tempo, da leitura como lugar de encontro com o outro e da necessidade de escrever porque não basta viver: é preciso testemunhar. Katya Delimbeuf lembrou a força quase inexplicável desse acto que é escrever, essa tentação de deixar alguma coisa para além de nós. O verdadeiro fio de todo o dia estava encontrado: deixar. Deixar uma frase, uma imagem, uma pergunta, uma memória. Deixar qualquer coisa no outro. Na voz d'O Poeta da Cidade, “Metafisicamente d’Outro Mundo” veio fechar a noite com poesia. E assim se chegou ao final do quarto e penúltimo dia do FLO, após quase quinze horas de literatura, com a sensação paradoxal de cansaço e de fome. Cansaço no corpo, certamente. Mas fome de continuar. Porque estamos à beira do último dia e há viagens que, quando estão quase a terminar, nos dizem que não queremos realmente que cheguem ao fim. O Festival Literário de Ovar é uma dessas viagens.

quarta-feira, 25 de março de 2026

TERTÚLIA | CONVÍVIO: Finissage das Exposições da Residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”



TERTÚLIA | CONVÍVIO: Finissage das Exposições da Residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”
Com | Ana Isabel Nistal Freijo, Solange Azevedo e Hélder Sousa
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
22 Mar 2026 | dom | 16:00


Sensível e íntimo, instigante e provocador, assim foi a finissage das exposições da residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”, momento de convívio e de memória feito de emoções e afecto. Com “um pé no passado e outro no futuro”, Ana Isabel Nistal Freijo, fez uma retrospectiva daquilo que foi o “Inovar as Letras - À Escuta da Literatura”, projecto cultural e residência artística que agora chega ao fim. Em ambiente de grande familiaridade, percebemos que o projecto não nasceu da fria arquitectura do pensamento, mas de um impulso íntimo, quase indizível, onde o coração se impôs como princípio e fim de todas as coisas. Com tudo o que foi acrescentando, o percurso foi marcado pelo reencontro com raízes biográficas e espirituais, nesse lugar onde a literatura e a música se entrelaçam na experiência de quem escuta e recria. Do deslumbramento inaugural pela palavra à maturidade da escuta contemporânea, ergueu-se uma ponte onde o ensino, a criação e a memória fluíram, dando corpo a uma ideia que encontrou no Museu Júlio Dinis não apenas um espaço físico, mas uma casa plural aberta ao sonho e à metamorfose.

“Toda a alma precisa de um corpo para se manifestar, e esse corpo é para nós o Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense”. Foi nesse corpo, vivo e acolhedor, que a alma do projecto se manifestou plenamente, sustentada pelo encontro entre impulsos criativos e vontades institucionais. O Museu revelou-se como lugar de confluência, a herança dinisiana projectada no presente através da experimentação artística. Entre Abril de 2025 e o passado domingo, as artes dialogaram de múltiplas formas, da celebração de projectos contemporâneos à encomenda de novas obras, das exposições às instalações sonoras que transformaram o espaço em matéria sensível. Cada gesto criativo - fosse nas composições, nas artes plásticas ou na palavra dita e cantada - constituiu um prolongamento desse legado, fazendo ressoar vozes que, mesmo ausentes, permanecem vivas na tessitura do projecto. Assim, o “Inovar as Letras” afirmou-se como território de criação partilhada, no qual tradição e invenção coexistiram num delicado equilíbrio, alimentado pelo estímulo e pela confiança de todos quantos nele acreditaram.

Mas foi sobretudo na comunidade que o projecto encontrou o seu centro de gravidade. Oficinas, conversas, ensaios abertos e concertos fizeram do público parte integrante do processo, assumindo-se como presença activa, cúmplice e transformadora: “Verdadeiros espectadores emancipados”, capazes de dar o seu contributo para uma obra colectiva em permanente construção. E, como num ciclo que se cumpre sob o signo das flores - símbolo de esperança, ilusão e efemeridade -, o projecto encerra levando consigo um delicado ramo de memórias. “Há flores assim que só os sentidos muito delicados lhes reconhecem o perfume”, escreveu Júlio Dinis em carta endereçada a sua tia. Assim parte esta experiência, e com ela uma nómada que deixa atrás de si uma fragrância leve, nesse gesto de partida residindo a promessa de que o que foi vivido continuará a ecoar, subtil e indelével, no coração de quem o escutou. Mas nele residindo também a certeza de que este não é “o fim do encantamento”. O gracioso virginal, cópia fiel de um instrumento de início do século XVII e cuja sonoridade Hélder Sousa tão delicadamente mostrou, é a prova de que “a procissão ainda vai no adro”.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO: "Cores e Sons para Júlio Dinis" | Solange Azevedo



EXPOSIÇÃO: “Cores e Sons para Júlio Dinis”,
de Solange Azevedo
INoVAR as LETRAS
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
02 Nov 2025 > 22 Mar 2026


“O nosso pensamento, à semelhança de um vaso metálico, ressoa por muito tempo, quando, embora de leve, percutido; como ondas sonoras, as nossas recordações, movidas por uma palavra, por um som, por uma flor, por um perfume, sucedem-se, dilatam-se cada vez mais vastas, cada vez mais suaves.”
Júlio Dinis, in “Serões da Província”

A exposição “Cores e Sons para Júlio Dinis” oferece-nos um duplo desafio: olhar a natureza através da palavra e escutá-la através da matéria. Dois poemas do escritor - “Nuvens” e “Dai-me do Campo” -, aliados ao herbário adquirido por Júlio Dinis numa das suas estadias na ilha da Madeira, funcionam como sementes de um processo criativo que se desdobra entre a pintura e a composição musical. Na sala polivalente do Museu, as telas organizam-se como se de um percurso sensorial se tratasse: próximas ou afastadas, as formas tendem a diluir-se, suspensas num território onírico onde a cor é estado e atmosfera. À medida que o olhar desce, a mancha condensa-se, o contorno emerge, e aquilo que parece ilusão revela-se presença. Tal como nas nuvens observadas à distância - belas, promissoras -, também aqui a proximidade transforma o encantamento em verdade material. São obras que derivam da observação do herbário, reinterpretando-lhe tonalidades e texturas, vendo nas marcas do tempo sinais de envelhecimento e de permanência, mas também valiosos elementos plásticos e poéticos. A pintura é, assim, gesto de preservação, um modo de fixar o instante antes que ele se desfaça.

No corredor do Museu, o visitante é convidado a entrar no avesso das obras graças a um curioso e vasto conjunto de esboços, anotações, experiências e inquietações. Este espaço funciona como um caderno aberto, onde se revelam as ideias de permanência, longevidade e eternidade associadas ao herbário e aos poemas e que consubstanciam o processo criativo. Para Solange Azevedo, “o herbário tem a capacidade de nos transportar para o sítio de onde vieram as plantas”, assim também uma obra de arte pode funcionar como uma viagem ao ponto zero da criação. Na análise que faz do poema “Nuvens”, a artista introduz o contraste entre realidade e ilusão, juventude e finitude, numa leitura atravessada pela biografia de Júlio Dinis, marcada pela doença e pela consciência precoce da fragilidade da vida. A distância, observa a artista, enfeita as coisas de esperança; a proximidade revela-lhes a substância. Esta transição - do contorno para a matéria, do sonho para o corpo - atravessa toda a exposição, ecoando em notas soltas: Olhar as nuvens como se olham os sonhos, perguntar se dói desabrochar, reconhecer no azul um estado de espírito e não apenas uma cor.

É precisamente desse encontro entre gesto e escuta que surgem as duas instalações sonoras que preenchem a parte final do percurso. Enquanto pintava, Solange Azevedo percebeu que o som seco do pincel sobre a tela a acompanhava, transformando o acto pictórico numa experiência audível. Daí nasce o “Herbário Sonoro”, uma instalação onde a tela se converte em instrumento: os sons produzidos durante a pintura são recolhidos, preservados e traduzidos em símbolos e instruções, convidando o visitante a tocar, a ouvir e a reflectir sobre a relação entre matéria e som. A instalação “Ecos e Gestos” amplia esse princípio, funcionando como uma partitura visual que articula os diferentes modos de interacção com o herbário sonoro, tornando visível a escrita do som. Tal como na pintura, a música constrói-se pela soma de partes: formas que se prolongam, ritmos que se complementam, silêncios que respiram. O silêncio da natureza, o silêncio do herbário e o silêncio entre as notas coincidem num mesmo espaço de escuta. Entre fragilidade e permanência, palavra, imagem e som encontram-se. E o tempo, ainda que apenas por um instante, torna-se visível.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Pela Janela do Olhar" | Mafalda Rocha



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Pela Janela do Olhar”,
de Mafalda Rocha
XI Festival Literário de Ovar
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
05 Jul > 03 Out 2025


“Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares demais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.”
Miguel Sousa Tavares

Quase a chegar ao fim a exposição de pintura “Pela Janela do Olhar”, da autoria de Mafalda Rocha, tempo ainda para algumas palavras sobre este magnífico conjunto de trabalhos, com a secreta esperança de que alguns daqueles que lerem esta mensagem possam encontrar a disponibilidade necessária a visitá-los no Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense. Começando pela autora, importa dizer que Mafalda Rocha é artista plástica e que a sua pintura habita um território contemporâneo e expressivo, cruzamento de emoções, matéria e consciência cívica. Entre paisagens interiores e exteriores, a obra da artista evoca atmosferas onde o olhar repousa e se demora, mas também convoca temas urgentes como a Paz, a condição da Mulher, a Literatura e a Democracia. Na pintura de Mafalda Rocha, cada obra é “um lugar habitável, onde quem vê possa parar, escutar e, talvez, encontrar-se”. A série “Pela Janela do Olhar” é um exemplo dessa fusão entre a arte e a palavra: rostos de escritores e escritoras cruzam-se com fragmentos das suas obras, num tributo à literatura e ao milagre da criação.

“Pela Janela do Olhar”, série surgida na sequência do Festival Literário ESCRITARIA e propriedade do Município de Penafiel, é disso um excelente exemplo. Através dela, Mafalda Rocha homenageia os autores e autoras de língua portuguesa celebrados pelo evento desde a sua génese, em 2008, interpretando os rostos e, sobretudo o olhar, dos sujeitos retratados. Com uma paleta minimal onde, num fundo de vermelhos, se destacam a prata, o estanho ou o cobre, Mafalda Rocha abre uma janela sobre a alma dos escritores, num exercício que resulta em memória viva, gesto performativo e homenagem colectiva. Na sua obra pictórica, o gesto nasce do silêncio — um silêncio denso, habitado, onde a emoção encontra forma e a matéria se torna linguagem. A artista trabalha num território íntimo e contemporâneo, onde luz, transparência e textura se entrelaçam numa busca subtil em territórios do visível e do invisível. A sua pintura é feita de escuta e de intenção, de intuição e consciência, exprimindo-se entre o gesto contido e a expressão crua, sem descurar a ética do olhar.

Entre paisagens interiores e exteriores, os rostos de Ana Luísa Amaral, Alice Vieira, Mia Couto, António Lobo Antunes, ou Mário de Carvalho cruzam-se com as suas palavras, num tributo à literatura e à dignidade da criação. E se o ESCRITARIA se afirma como ponto de encontro entre a literatura e as artes visuais graças à obra de Mafalda Rocha - e Penafiel é palco onde o olhar e a palavra dançam cúmplices -, as virtualidade da itinerância estendem o abraço a outra cidade e a outro Festival que tem na celebração da palavra um desígnio comum. Ovar é, desde 2015, palco de um evento literário que se consolida ano após ano e este “casamento”, intermediado pela pintura, acrescenta-lhe força e substância, enobrece-o. E, por isso, aqueles que tiveram a oportunidade de, neste mesmo local, escutar as palavras de Filipa Vera Jardim, Rita Tormenta, Vítor Gil Cardeira ou Vasco Prazeres, irão encontrar na pintura de Mafalda Rocha o espelho e o reverso da identidade literária que une todos os criadores. Para ver até ao dia 3 de Outubro.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

TERTÚLIA / ESCUTA COMENTADA: “Oximoro” | João Martins



TERTÚLIA / ESCUTA COMENTADA: “Oxímoro”,
de João Martins
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
01 Mai 2025 | qui | 10:30


oximoro |csimó| 
(o·xi·mo·ro)

nome masculino
Combinação engenhosa de palavras cujo sentido literal é contraditório ou incongruente (ex: silêncio ensurdecedor é um oximoro). = OXÍMORO, OXÍMORON, OXIMÓRON
Origem etimológica: latim tardio oxymorum, -i, do grego oxúmoron, -ou. “Oximoro”
in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

O Dia do Trabalhador deu azo a que João Martins pusesse mãos à obra e apresentasse, no ambiente acolhedor e intimista do Museu Júlio Dinis, “Oximoro”, o seu terceiro álbum de estúdio, com edição do Carimbo Porta-Jazz. Ao invés de um formalíssimo concerto, o músico optou por dar a conhecer o álbum através de passagens seleccionadas, revelando o seu conceito, a razão de ser dos títulos dos oito temas que integram o trabalho, as curiosidades que várias das suas passagens abrigam, a aventura do acto de compor, a articulação com os restantes músicos, alguns pormenores da gravação do álbum nos estúdios do CARA - Centro de Alto Rendimento Artístico, o invulgar desenho da capa do álbum, da autoria de Maria Mónica, ou o momento ansiosamente aguardado da sua apresentação ao público, no passado dia 9 de Abril, no portuense espaço Porta-Jazz. Foi uma conversa animada que envolveu Laura Rui, voz do álbum e que também emprestou a sua colaboração ao nível dos sintetizadores, e que teve na interacção com o público um elemento da maior riqueza e dinamismo.

“Como se fosse a apresentação de um livro, só que em versão áudio”. Foi desta forma que João Martins começou por explicar o pressuposto da sessão, na expectativa de que ninguém tivesse vindo ao engano. Poucos, mas bons, os espectadores começaram por ouvi-lo falar do título do álbum, desse “oximoro”, palavra que desconhecia mas que, muito casualmente, serviu na perfeição à intenção do músico em criar um trabalho “que estudasse os opostos, os paradoxos”. Inspirados neste conceito, os temas foram sendo compostos e os títulos surgiram quase naturalmente. “Os Pequenos Passos do Gigante” é o tema de abertura do disco, com o trabalho do sintetizador a sugerir estes pequenos passos, agigantados graças à duração do tema. “Dicotomia Singular”, o tema seguinte, fala do diálogo entre os saxofones de Fábio Almeida e Gabriel Neves, enquanto “Profundamente Superficial” tem a ver com a forma como João Martins sente a diferença entre as várias texturas do tema, acentuadas pelo trabalho de Nuno Trocado na guitarra eléctrica.

Incongruência das incongruências, “A Dança Sem Movimento” é um “bolero camuflado” cujo som vive em parte de uma caixa de ritmos. “Diversificado Incongruente” é a excepção que confirma a regra, já que o título não encerra um oximoro, embora se encaixe na conceptualidade do álbum ao falar das dificuldades que o trabalho de composição implica. “Ligados pela Interrupção” reflecte os silêncios que também são música, ao passo que “O Acaso Planeado”, a balada do álbum, parte de uma base rítmica à qual cada músico deveria acrescentar um tom (embora na prática as coisas não se passassem exactamente assim) e tem numa máquina de escrever um original instrumento. “A Turbulência da Serenidade” é um título que se explica por si só, antecipando um tema onde as diferenças de ritmo, som e textura são notórias. A conversa progrediu entre o que é jazz e o que não é jazz, os espaços para a experimentação e a improvisação, a voz sem poema e os poemas sem voz, o poder catalisador da bateria, os desafios de um estúdio de gravação, uma residência artística que percorreu uma tanoaria, o interior de uma igreja ou o seio de uma floresta. Um momento enriquecedor a muitos títulos, ficando a aguardar-se a sequência lógica desta tertúlia: o concerto de apresentação de "Oximoro" na cidade de Ovar.

segunda-feira, 31 de março de 2025

TERTÚLIA | CONCERTO | FINISSAGE: “Espaços de Pensar - Teias de Sentir”



TERTÚLIA | CONCERTO | FINISSAGE: “Espaços de Pensar - Teias de Sentir”
Com | Rosa Bela Cruz, Ana Ferreira, Luís de Matos, Domingos Silva e Grupo Vocal Canto Décimo
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
29 Mar 2025 | sab | 16h00


“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
José Saramago, epígrafe de Ensaio sobre a Cegueira

No trabalho artístico de Rosa Bela Cruz, são várias as particularidades que prendem a nossa atenção. Ainda despojado do ardor crítico, um primeiro olhar abarca a delicadeza do traço, a suavidade da cor, a harmonia do conjunto. Alvo preferencial da atenção da artista, as mulheres figuram nas suas obras em graça e beleza: Sedutoras, ousadas, irreverentes. Ao mesmo tempo frágeis, delicadas, inquietas, angustiadas. Para as mulheres de Rosa Bela Cruz, a certeza de si e do lugar que ocupam está longe de ser chão seguro. A pintura da artista desdobra-se. Como uma moeda, mostra as duas faces. Fosse ela pau e ameaçar-nos-ia com os seus dois bicos. Perante isto, o olhar apura-se. Percorre o quadro e encontra nele matéria de constante desassossego. Detém-se nos olhos das mulheres que, como um íman, o atraem. Olhos grandes e vivos, que se movem incessantemente. Olhos que nos seguem para onde quer que vamos. Nesse encontro de olhos que nos olham, somos invadidos pelo desconforto. Neles encontramos a urgência do muito que têm para contar.

Aproximamo-nos e a inquietação adensa-se. Reparamos que são delicadas as rendas que velam rostos e corpos, que sobre eles fazem pousar as marcas do charme discreto e do bom gosto. Rendas que não são suficientes para disfarçar essas outras marcas, mais fundas e terríveis, da adversidade, da mágoa, do desprazer. Marcas de uma bofetada seguida de um pedido de desculpa, de um murro na boca seguido de cem pedidos de desculpa, de uma facada no rosto seguida de mil pedidos de desculpa. Como se o mal pudesse ser apagado com palavras bonitas. Entre “espaços de pensar” e “teias de sentir”, abraçamos Rosa Bela Cruz neste seu “eterno retorno” a Ovar. Abraçamos igualmente as mulheres que nos trouxe, todas as mulheres. Mulheres como Ana Luísa Amaral, Sophia de Mello Breyner, Adília Lopes, Maria Teresa Horta ou Florbela Espanca que, na verdade da sua poesia, continuam a mostrar-se decisivas na luta contra o preconceito e a discriminação que enfermam uma sociedade conservadora e machista. Arautos da mudança, elevam-se à condição de sujeitos primordiais num contexto de afirmação de princípios e valores que as distingue como sublimes e únicas.

Pudemos olhar e vimos. Pudemos ver e reparámos. Sendo as mesmas, as mulheres de Rosa Bela são agora diferentes. Os tons sombrios quase desapareceram dos seus rostos, os véus são cada vez menos um resguardo, os queixos ergueram-se e as poses fizeram-se causa e razão, vigor e altivez. Não há dúvida de que estas mulheres mudaram. A sua atitude mudou. Também a sua vontade e a sua confiança. São mulheres mais conscientes dos seus direitos, mais fortes, mais audazes. Logo, mais elegantes e graciosas, mais harmoniosas, mais belas. Rosa Bela Cruz tem o dom de, com a sua arte, expressar as emoções mais vivas no que o “ser mulher” tem de íntimo e precioso. Lançamos um último olhar a cada trabalho. Lá encontramos, ainda, uns olhos enormes e penetrantes que parecem não nos querer largar. Eles dizem-nos que há ainda caminho a percorrer no que aos direitos das mulheres e à igualdade de género diz respeito. Mas o olhar destas mulheres é, hoje, o olhar que vê.

[Texto inserto no Catálogo do projecto de Rosa Bela Cruz, “Espaços de Pensar - Teias de Sentir”]

domingo, 23 de março de 2025

CONCERTO: “A tre: Música para trio nas cortes europeias do séc. XVIII” | Ensemble Navis



CONCERTO: “A tre: Música para trio nas cortes europeias do séc. XVIII”
Ensemble Navis
Com | Beatriz Soares (traverso), Paola Troiano (traverso), Claudia Cecchinato (violoncelo), Sayaka Matsunaga (cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense
22 Mar 2025 | sab | 16:00


Quando falta apenas o concerto de encerramento do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, já começa a apossar-se de nós como que uma nostalgia, uma saudade, pelo vazio tão próximo. Um balanço preliminar desta primeira edição do Festival permite concluir que o objectivo de divulgar a Música Antiga e dar a ver as particularidades de um universo vasto, que se estende no tempo e abraça uma multiplicidade de géneros e estilos, foi claramente atingido. Ao longo de dois fins de semana, assistimos ao desenvolvimento de um programa rico e variado, graças às prestações de altíssimo nível, em distintos palcos, de um apreciável número de agrupamentos de renome. Mas o CásterAntiqua fez questão de não descurar as novas correntes, lançando uma Open Call internacional com o intuito de proporcionar a um grupo de jovens músicos a oportunidade de desenvolver uma residência artística. Ao longo de seis dias, o agrupamento seleccionado, o Ensemble Navis, trabalhou um programa musical original, com a mentoria de intérpretes que integraram a agenda musical do Festival. O resultado pôde ser apreciado na tarde de ontem, no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense.

Centrando a sua atenção no ambiente das cortes europeias do século XVIII, o Ensemble Navis - Beatriz Soares, Paola Troiano, Claudia Cecchinato e Sayaka Matsunaga - propôs uma viagem pelo centro da Europa, visitando as cortes de Luís XIV e Luís XV em França, da princesa Guilhermina, irmã de Frederico o Grande, na Prússia, de Augusto, o Forte, na Polónia ou de Nicolau Esterházy, na Hungria. Mas não apenas as cortes, também os locais de culto foram alvo da atenção do Ensemble, penetrando na intimidade de conventos e igrejas como as de S. Tomás ou de S. Nicolau em Leipzig, de Santa Catarina em Frankfurt ou da Neue Kirche (Igreja Nova) em Arnstadt. “Triosonata No.1 em sol menor, da cravista parisiense Élisabeth Jacquet de La Guerre (1665-1729), e “Pièces pour la flûte traversière op.2”, do flautista “romano” Jacques-Martin Hotteterre (1673-1763), foram as duas peças de abertura do concerto, nelas se evidenciando uma forte noção de movimento a par de uma enorme delicadeza e frescura. O quarteto deu provas da necessária qualidade interpretativa, capaz de transmitir as emoções que se desprendem de ambas as peças, sabendo pôr em diálogo os instrumentos e criando grandes expectativas quanto ao restante programa.

“Triosonata em sol maior para duas flautas e baixo contínuo”, de Johann Sebastian Bach (1685-1750), foi, na sua complexidade e rigor meditativo, um dos momentos altos do concerto, tal como a peça seguinte, bem mais viva e alegre, “Musique de table: Trio em ré maior TWV 42:D5, de Georg Philipp Telemann (1681-1767), espécie de “banda sonora para um jantar”, assim ilustrada por Beatriz Soares, que fez as honras do agrupamento, com uma breve introdução inicial a cada uma das peças. Ainda que indirectamente, voltaríamos a Telemann, já que a peça que escutámos serviu de inspiração a Wilhelm Friedemann Bach, filho de Johann Sebastian Bach, para compor o seu “Trio em ré maior Fk 47”, com o qual se completou o alinhamento do concerto. Antes disso, porém, viveu-se outro momento feliz com a interpretação do “Divertimento Op.3 No.3 em ré menor”, de Anna Bon, peça de uma alegria contagiante escrita por uma compositora que foi uma “menina-prodígio” e que, aos quatro anos de idade, já estudava música no Ospedalle della Pièta, de Veneza. Os fortes e prolongados aplausos finais trouxeram com eles a recompensa de um “miminho”, “Pourquoy doux rossignol”, de Jean-Baptiste Drouart de Bousset, numa versão ornamentada por Michel Blavet, uma canção de amor e de mágoa muito bela e que se constituiu na melhor das despedidas.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

EXPOSIÇÃO: "O Regresso" | Rosa Bela Cruz



EXPOSIÇÃO: “O Regresso”,
de Rosa Bela Cruz
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
01 Fev > 29 Mar 2025


Depois de “Minha Senhora de Mim (de Quê)?”, há uma nova exposição de Rosa Bela Cruz para ver no Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense. A mostra, de carácter antológico, intitula-se “O Regresso” e, para além da delicadeza e sensibilidade do conjunto da obra, mostra o rigor e a coerência de uma pintura centrada desde sempre na figura da mulher. Adentremos a bela sala de exposições, bebamos a luz cálida que se derrama do enorme janelão que abre para o quintal da casa e espantemo-nos com a quantidade de trabalhos expostos, muitos deles reconhecidos de outros momentos. Ainda despojado do ardor crítico, um primeiro olhar abarca a delicadeza do traço, a suavidade da cor, a harmonia do conjunto. Alvo preferencial da atenção da artista, as mulheres figuram nas suas obras em graça e beleza: Sedutoras, ousadas, irreverentes. Ao mesmo tempo frágeis, delicadas, inquietas, angustiadas. Para as mulheres de Rosa Bela Cruz, a certeza de si e do lugar que ocupam está longe de ser chão seguro.

O olhar apura-se, percorre o quadro e encontra nele matéria de desassossego. Detém-se nos olhos das mulheres que, como um íman, o atraem. Olhos grandes e vivos, que se movem incessantemente. Olhos que nos seguem para onde quer que vamos. Nesse encontro de olhos que nos olham, somos invadidos pelo desconforto. Neles encontramos a urgência do muito que têm para contar. Aproximamo-nos e a inquietação adensa-se. Reparamos que são delicadas as rendas que velam rostos e corpos, que sobre eles fazem pousar as marcas do charme discreto e do bom gosto. Rendas que não disfarçam essas outras marcas, mais fundas e terríveis, da adversidade, da mágoa, do desprazer. Da intensa e constante luta que travam as mulheres de Rosa Bela Cruz, que travam todas as mulheres, nos fala cada um destes trabalhos. Em forma e cor, abrem-se contra o preconceito e a discriminação de que enferma uma sociedade conservadora e machista. Nos rostos que se erguem, nas poses que se fazem causa e razão, vigor e altivez, mostram-se as mulheres como arautos da mudança.

Para esta exposição, Rosa Bela Cruz desenvolveu uma nova série de trabalhos que agrupou sob o nome de “Encaixotadas”. Através deles, a artista propõe “uma reflexão crítica sobre a exploração que transforma o corpo da mulher, sempre jovem e esbelto, numa ferramenta ao serviço de estratégias comerciais sem qualquer relação ou ligação directa com a circunstância de ser mulher”. Trata-se do prolongar desse incessante grito de revolta, ao mesmo tempo desconstruindo este tipo de representações que ilustram “essa falsa juventude eterna e essa beleza estereotipada como elementos cruciais das narrativas criadas com recurso a corpos com pele sedosa e perfeita, medidas ideais e sem marcas da passagem do tempo e das agruras da vida. “Pesadelo”, instalação onde figuram, na tela, 28 facas sobre um coração rendilhado, envolto por um véu aos pés do qual jaz um ramo de rosas vermelhas, fecha a exposição. É o derradeiro “murro no estômago”, a lembrar as mulheres mortas em contexto de violência doméstica. Para nossa tão grande tristeza e culpa. Para nossa maior vergonha.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

TERTÚLIA: "Conversas à Volta do Tanque"



TERTÚLIA: “Conversas à Volta do Tanque”
Com Manuela Grazina
Moderação | Joaquim Margarido
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
18 Jan 2025 | sab | 16:00


“Em 2022, as mulheres receberam menos quase cinco milhões de euros que os homens com idênticas qualificações. A desigualdade é tanto maior quanto maior é a qualificação e o nível de escolaridade das mulheres. Se a felicidade não se mede em euros, até que ponto a persistente discriminação das mulheres nos seus locais de trabalho é ou não um fator de instabilidade, de desmotivação ou de descrença na construção de uma sociedade mais justa e equilibrada? Numa sociedade em permanente mudança, o que explica as persistentes resistências ao reconhecimento e valorização da importância da mulher no tecido social? Qual a razão para as mulheres não conseguirem inserir-se no espaço público em paridade com os homens? Será o sofrimento, a desconsideração, a secundarização, sina da condição de ser mulher? Está vedado às mulheres o direito à felicidade plena?”
“Conversas à Volta do Tanque”, excerto da Folha de Sala

“O nosso cérebro tem uma série de sensores que captam os estímulos. Processamos mais ou menos rapidamente em função das memórias armazenadas, das aprendizagens que fomos fazendo, das experiências boas ou más que fomos tendo, das emoções que associamos a cada experiência. E vamos pondo as coisas em ‘gavetas’, numa estrutura que se chama hipotálamo e que é a nossa placa de memórias.” No início de mais uma “conversa à volta do tanque”, as palavras são de Manuela Grazina, doutorada em Ciências Biomédicas, comunicadora de ciência dinâmica e promotora de literacia científica em saúde, defensora da ciência para todos, alguém que acredita firmemente que a instrução e o conhecimento são os melhores indicadores para o desenvolvimento, preparação de melhores profissionais e melhoria das condições de saúde das populações. Uma conversa marcada por momentos de partilha com um numeroso público, ávido de abraçar a ciência e o conhecimento que se esconde até nas coisas mais simples: Nos tachos e panelas, numas costelas de vaca grelhadas e numa massa ou num arrozinho branco para acompanhar.

Na mesma casa onde Júlio Dinis contactou, no Verão de 1863, com um quotidiano simples e que viria a verter em magníficas obras literárias, Manuela Grazina mostrou, de forma igualmente simples, como é bom espalhar aquilo que designou por “sementes de Ciência”. A sentença da avó Maria - “é no dar que se recebe” -, é hoje um dos lemas mais caros à cientista, que encontra recompensas no facto de “estar a fazer alguma coisa de bom pelo outro”. Mentes abertas, portanto, a conversa foi-se projectando ao encontro da importância de ajudar alguém, pelo efeito transformador na vida da pessoa ajudada, mas também pela reacção em cadeia que daí pode advir. Mas atenção: “Não nascemos todos com a mesma probabilidade de ser felizes ou de fazer o bem”, cabendo aqui enunciar factores genéticos e ambientais que podem estar na base das diferenças e que incluem, entre outros, aquilo que comemos, a água que bebemos, o exercício físico que fazemos e todos os estímulos que nos chegam através dos sentidos e que mexem com as nossas emoções. Ou seja, “isto de tomar boas decisões não é para quem quer, é para quem pode”.

“Que importância têm as memórias na construção da felicidade?” O moderador pergunta e a interlocutora, num primeiro momento, pega na questão e dirige-a ao público. À volta do tanque, é tempo de falar de filhós e café de cafeteira, carroceis cor de rosa e cheios de luzes, um cheiro a queijo picante, uma cadeirinha, um sapatinho de verniz e um guarda chuva, um dedo que rapa o tacho com restos de massa de bolo de coco, as histórias de “faz de conta” do avô Hélio. As mesmas histórias de “faz de conta” que hoje nos ajudam a não colapsarmos, “quando os familiares adoecem, avaria o frigorífico e a máquina de lavar, rebenta a caldeira, pára o carro no meio da ponte”, e que dão um contributo fundamental para a criação da esperança. “São sementes no nosso jardim da esperança, sem as quais vivemos, mas vivemos mal”, que nos socorrem com as memórias de que é possível que, nos piores momentos, tudo venha a correr bem. Acordar, pestanejar, é motivo para nos sentirmos felizes e devermos fazer algo pelos outros, é a lição seguinte. De uma coisa podemos estar certos: “Desde o momento em que entraram aqui, o vosso cérebro vai mudar para sempre”, afirma Manuela Grazina, fazendo crescer a boa disposição (e a felicidade) na sala.

“A felicidade é como o açúcar, o sol ou o sal: Deve ser q.b.” Em velocidade de cruzeiro, fala-se agora de felicidade, “algo que em excesso faz muito mal”. As pessoas querem muito ser felizes, mas diz Manuela Grazina que “só de vez em quando”, acrescentando que “ser sempre feliz dava connosco em tolinhos”. Daí o devermos estar gratos “a todas as pessoas que nos dificultam a vida”. É que os ciclos de “calmaria” são muito importantes para conseguirmos ser felizes, “caso contrário nem teríamos consciência do que é a felicidade”. De passagem pelo hipocampo, pelo sistema límbico e pela amígdala, falamos de Dopamina e de “tratar a dor com beijinhos”, para logo abordar a questão dos placebos e a quantidade de antidepressivos e de analgésicos que chumbam nos ensaios clínicos porque um comprimido de açúcar e farinha consegue mostrar-se mais eficaz. O facto está relacionado com um fenómeno neuroquímico extraordinário que é a fé: “Porque acreditam em algo, as pessoas vão estar a activar a via da recompensa e, como isso é importante na resposta à dor, na resposta ao mau-humor, vai tudo melhorar.”

Em que medida é que a felicidade pode ser uma questão de sorte? A resposta é afirmativa, até porque todos nós somos uma “lotaria de eventos”. A cientista lembra como tudo começa - “com duas células, uma do pai, outra da mãe” -, mas lembra igualmente que a genética é a primeira grande variável no quadro das probabilidades, ao dar a uns, mais do que a outros, a possibilidade de reagir mais adequadamente a um estímulo, a ser “a pessoa certa, no sítio certo, à hora certa”. Enfim, “sorte temos todos, mas não temos todos a mesma sorte”, sendo a nossa maior sorte “ter conhecimento para fazer o melhor possível com aquilo que somos e para nos irmos construindo de uma forma que nos dê bem estar, mas sobretudo a todos à nossa volta”. Portanto, “isto da sorte, mais do que receber, constrói-se: Com conhecimento, todos os dias e a cada momento.” Mas então, e se ganhássemos o Euromilhões? “Era espectacular”, refere Manuela Grazina, “não pelos bens pessoais que pudesse adquirir, mas pela possibilidade de fazer coisas fantásticas”.

Foi na fase de perguntas do público que surgiu a questão que presidiu à “conversa à volta do tanque”: A Felicidade também se conjuga no Feminino?”. A resposta volta a ser sim, começando Manuela Grazina por lembrar que “as mulheres são o berço da Humanidade”. Levando a questão para o campo social e para a construção de uma ideia de nós próprios que advém dos estímulos daqueles que estão à nossa volta, a falta de protecção das mulheres, a sua não valorização e desconsideração, apenas vem mostrar que, enquanto sociedade, há um longo caminho a percorrer. Levantou-se ainda a questão da diferença entre o cérebro de um homem e o de uma mulher. A resposta é simples, sem estereótipos: “O cérebro do homem é 7% maior do que o da mulher, mas como em tudo o tamanho não quer dizer nada”. Finda a gargalhada geral, Manuela Grazina explica que “o cérebro é como uma noz, tem duas metades divididas por uma estrutura chamada corpo caloso, um conjunto de fibras que fazem comunicação entre os dois hemisférios e cuja estrutura é maior nas mulheres.”

Para o final da tertúlia estava guardada a questão sacramental, aquela pela qual todos aguardaram quase duas horas e meia. Após ter passado o tempo da conversa à volta do tanque a dar pistas sobre verdades e consequências em torno da felicidade, Manuela Grazina não quis assumir sozinha a tarefa de elencar os ingredientes para a receita da felicidade, partilhando com o público mais um momento feliz. Foi tempo de falar de cuidar dos outros, sentir que a nossa vida é uma dádiva, mostrar-se grato, adoptar uma atitude sorridente (“porque, quem passa, usufrui daquele que pode ser o único sorriso que vê nesse dia”), pensar positivo (“as pessoas mais optimistas adoecem menos”), nunca perder a esperança, ser autêntico, aceitar (“porque não há pessoas más, só com alguns desarranjos”), ser determinado, ser verdadeiro, amar o próximo. O momento encerrou com a leitura de um poema, um gesto de gratidão de quem moderou a quem tão generosamente espalhou sementes de ciência e fez de nós pessoas melhores: “(…) É proibido não procurarmos a felicidade / Não vivermos a vida de forma positiva, / Não pensarmos que podemos ser melhores, / Não sentirmos que sem nós este mundo não seria igual.”

[Foto: Alexandre Rodrigues | Ovar/Cultura]

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Minha Senhora de Mim (De Quê)?"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Minha Senhora de Mim (De Quê)?”,
de Rosa Bela Cruz
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
09 Nov 2024 > 24 Jan 2025


Pródiga, benfazeja, a luz derrama-se do grande janelão que abre para o pátio da casa, dando à sala um tom de mel e tornando-a ainda mais acolhedora. Lá fora, o tanque e a relva, a laranjeira de onde pende um cacho de frutos, o muro que um gato atravessa. Mas é na sala que o meu olhar fica preso, na longa parede vestida de cinco pinturas, de cinco poetisas, de cinco mulheres: Ana Luísa Amaral, Sophia de Mello Breyner, Adília Lopes, Maria Teresa Horta, Florbela Espanca. Foram elas que Rosa Bela Cruz quis convidar para a sala, inaugurando o Projecto Cultural “Espaços de Pensar - Teias de Sentir”, conjunto de momentos distintos a convocar a reflexão, tendo as artes plásticas como suporte inicial e a temática da mulher como pano de fundo. Quem acompanha o percurso da artista, sabe o quanto os seus trabalhos se mostram “à flor da pele” e se afirmam num “eterno retorno” à figura da mulher. “Um olhar que vê” para o interior daquelas que, numa sociedade conservadora e machista, continuam reféns do preconceito e da discriminação, mas que encontram na arte de Rosa Bela Cruz um meio de ascenderem à condição de sujeitos primordiais num contexto de afirmação de princípios e valores que as distingue como sublimes e únicas.

Mas volto às cinco mulheres, ao olhar que em mim poisam e que acompanha os meus passos. Os seus olhos brilham, decerto não pela minha presença, mas pela conversa que mantinham antes da minha chegada. De que falariam para que assim se mostrassem, num misto de inquietação e arrebatamento, apaixonadas, seguramente felizes? Gosto de pensar, agora que a noite se aproxima, que Ana Luísa exortava as companheiras a não deixarem a lua “entrar pela ombreira, sentar-se e conversar”. De soslaio, o olhar de Sophia mostrar-se-ia em desacordo e a palavra não tardaria: “Em todos [os jardins] beberei a lua cheia”. Sarcástica, Adília brincaria com as palavras e, numa gargalhada, diria ser, não a lua, mas “a luva” (“eu sou a luva / e a mão / Adília e eu / quero coincidir / comigo mesma”). Maria Teresa gostaria da lua (“desperta-me de noite / o teu desejo”) e gostaria da luva (“na vaga dos teus dedos / com que vergas / o sono em que me deito”). Da lua, Florbela teria pena: “Eu tenho pena da Lua! / Tanta pena, coitadinha, / Quando tão branca, na rua, / A vejo chorar sozinha!…”. Saio ao de leve deixando-as a conversar, recolho a folha de sala e sigo para o corredor.

Murmúrios. Diálogos. Dois a dois, os quadros figuram a mulher no que tem de sujeito e complemento, no que lhe é intrínseco e no que aceita dos outros, no que mostra e no que decide ocultar, no yin e yang tão seu. Poiso os olhos na folha que tenho nas mãos e caminho enquanto leio: “Trabalhar e representar o universo feminino é uma forma de questionar as certezas estabelecidas num mundo tão adverso para a mulher. É uma forma de dar expressão a dúvidas e angústias que tantas vezes marcam o quotidiano feminino. Cada mulher aqui representada tem algo de nós, seja qual for o género com que nos identificamos. São espelhos de mundos interiores, de sentimentos e preocupações.” Quando volto a erguer os olhos, tenho à minha frente uma instalação com uma pintura, têxteis e espelhos. Chama-se “À Procura de um Rosto (Rosa?!)” e o título remete para a tia de Júlio Dinis, que nesta casa acolheu o escritor no Verão de 1863. Procuro esse rosto de mulher, senhora de si (de quê?), mas é o meu que encontro reflectido. Ao meu lado, Ana Luísa Amaral sussurra-me: “A mesma folha. / De um lado, analisar, / do outro - eu. // Mas o lado primeiro / também eu. Outro eu”. Só até 24 de Janeiro!

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Querer Dizer"


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EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Querer Dizer - 50 Anos entre a Pintura e a Escrita 1973/74 - 2023/24”,
de Emerenciano
Festival Literário de Ovar FLO 2023
Galeria do Centro de Artes de Ovar e Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
13 Set > 02 Dez 2023

“Querer Dizer”, do artista plástico ovarense Emerenciano, é uma das grandes ofertas do cartaz cultural da cidade no último quadrimestre de 2023. Inaugurada no passado dia 13 de Setembro, no âmbito do Festival Literário de Ovar, a mostra distribui-se pelo Centro de Artes de Ovar e pelo Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, percorrendo cinquenta anos de carreira artística de Emerenciano. Entre a pintura e a escrita, a obra do artista tem na expressão figurativa e no simbolismo elementos determinantes, disso dando prova o importante conjunto de pinturas, desenhos, gravuras e livros de artista que compõem esta exposição. Neles é possível perceber o extraordinário significado e alcance de um longo percurso artístico, solidamente fundado em valores estéticos e formais de uma enorme coerência e homogeneidade, mas sobretudo na urgência da mensagem que importa espalhar, nesse “querer dizer” que a todos é dirigido.

Pese embora a racionalidade que a envolve - o desenho fortemente estruturado, a minúcia das composições, a precisão dos elementos, a escrita caligráfica -, a obra de Emerenciano é do domínio dos sentidos. O título dado à exposição tem a força de uma evidência, as letras alinhadas ou desenhadas em diferentes planos, ora claras e nítidas, ora enigmáticas, indecifráveis, surdos borrões de tinta levantados do chão num “querer dizer” que se desfaz em grito. Grito de coragem no traço que rompe a monotonia de um padrão e se ergue em tumulto e desvario. Grito de revolta no corpo-ampulheta que refaz o tempo e desfaz a ordem. Grito de audácia na máscara que se torna em rosto e voz dos que não têm voz. Grito de liberdade, nas mãos como nos corpos, nas histórias que se querem contadas como nas memórias que importa preservar. Coragem, revolta, audácia, liberdade. Será que todos ouvimos esses gritos?

O sentido da metáfora espalha-se na tela ou no papel. Revela-se com clareza o “desafio aberto à compreensão de quem vê e quer perceber”. O visitante aceita o desafio como se de um desígnio se tratasse. Abraça formas e cores, lê nos símbolos e nos signos, descobre o rasto das palavras e vê como despontam, intensas e vivas, marcas de uma vida onde a vigilância e a perseverança seguem de mãos dadas com o inconformismo e a insubmissão. São como linhas que se cruzam sem cessar até formarem uma densa teia que tudo esconde, ou se distanciam cada vez mais à medida que se aproximam do infinito. Falam com todas as letras do pensamento ou apenas se dão a ver numa nesga de lúcida loucura. Coração em desassossego, ei-las que surgem umas após outras: Arquivar, proibir, calar, ficar. Sonhos, histórias, conspiração, prisão. Liberdade de expressão, guerra colonial. Razão de morrer. Querer. Dizer!

domingo, 27 de agosto de 2023

VISITA ORIENTADA: "160 Anos da Chegada de Júlio Dinis a Ovar"


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VISITA ORIENTADA: “160 Anos da Chegada de Júlio Dinis a Ovar”
Apresentação e orientação | António França
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
25 Ago 2023 | sex | 15:00


“E’ nesta casa que viveu Julio Diniz ha quarenta e três anos, no verão de 63, desde Maio a princípios de Setembro. Aqui ouvira elle contar casos sucedidos na terra, e conhecera costumes, crenças, conceitos e maximas de que depois se serviu nos seus romances. Aqui teve á mão o medico de aldeia, o boticário doutorado, o fatuo tendeiro, o padre, o bacharel nos typos tradicionaes que estimava encontrar e que não via no Porto porque, fazendo vida arredada, systhematicamente se afastava dos meios onde os pudera estudar. Aqui conviveu com pessoas que depois se chamaram Dorotheia de Alvapenha, Victorina do Mosteiro, Margarida, Maria, José das Dornas, João Semana e João da Esquina. Aqui finalmente, o seu espírito desalentado pela doença criou firmes esperanças de cura!”
Anthero de Figueiredo

Estou no Museu Júlio Dinis, no espaço nobre desta Casa Ovarense, a sala virada a norte, com porta e janela que abrem para o Jardim dos Campos. É aqui que António França, curador da Casa-Museu, me recebe, participante solitário que sou na Visita Orientada à exposição que assinala os “160 Anos da Chegada de Júlio Dinis a Ovar”. A partir daqui irei encetar uma viagem no tempo, recuando a 7 de Maio de 1863, o dia (ventoso, por sinal) em que, na companhia de um almocreve, Joaquim Guilherme Gomes Coelho viajou do Porto para Ovar, vindo a instalar-se na casa da sua tia paterna, Rosa Coelho. É este o ponto de partida de uma exposição que irá integrar e relacionar o mobiliário da casa, objectos de época, um grande número de fac-símiles com notas e apontamentos de Júlio Dinis relativos ao processo de escrita, à obra literária a publicar e publicada durante a sua vida e referências à sua passagem por Ovar, particularidades do território, relação entre a obra literária e a produção pictórica e cinematográfica no século XX, um “Gabinete de Curiosidades” profusamente ilustrado com recurso, sobretudo, a fotografias de época e, ainda, o fac-símile da reportagem de Anthero de Figueiredo resultante da sua visita à “Casa dos Campos”, onde entrevistou Maria Coelho, sobre a passagem do seu primo por Ovar no verão de 1863.

Antes da visita às peças que compõem a exposição, António França começou por contextualizar a vinda de Júlio Dinis para Ovar, sublinhando aspectos como a mobilidade na época (“já havia linha férrea, mas não havia estação”), a caracterização de um território dividido entre mar, ria e floresta e uma sociedade híbrida, de vila e aldeia, onde coabitavam as gentes simples com uma burguesia ciosa dos seus pergaminhos. Mas, sobretudo, a situação de doença (tuberculose) que afligia o jovem médico, a importância de um ambiente tranquilo e a necessidade de haver alguém que lhe fosse próximo e pudesse prestar-lhe os cuidados que a situação exigia. Olhamos a pequena mesa à nossa frente e parece-nos ver Júlio Dinis, no final de um dia esgotante, a escrever a primeira carta durante a sua estadia em Ovar. Muitas outras se seguirão, a dar conta do seu mal-estar e de uma certa aversão à terra onde se instala e às suas gentes. António França dirá que esta fase de negação durará sensivelmente dois meses, dando como prova as palavras que podem ler-se noutra carta fac-similada, situando no mês de Julho o início da escrita de “As Pupilas do Senhor Reitor”. Entretanto, Júlio Dinis encontrará alento para se dedicar a uma exaustiva viagem pelo tecido social vareiro, trabalhando na recolha de usos e costumes, questões de género e de classe, complexidades do real e do aparente, encontrando aí a base dos seus muito aclamados romances.

Dos primórdios da escrita, aquando da incursão no teatro em plena adolescência pela mão do irmão mais velho, à forma obsessiva como regista os mais ínfimos detalhes do seu dia a dia, vamos descobrindo um Joaquim Guilherme Gomes Coelho e percebendo, entre a realidade e o mito, os porquês do pseudónimo Júlio Dinis. Vamos também penetrando na alma deste homem que se sabe condenado por uma doença que, só com a descoberta da estreptomicina, oito décadas mais tarde, passou a ter cura. António França revela-se um extraordinário cicerone e, com ele, contamos as 17 tábuas do tecto do quarto de dormir, adivinhamos as maçãs a corar nos frisos dos quartos, escutamos as conversas de esquina na parte da frente da casa, acompanhamos os passeios do escritor pelos campos ou numa excursão à Senhora da Saúde na companhia da prima e de uma amiga, sentamo-nos ao borralho na ampla cozinha ou, no eido, participamos numa desfolhada. Nas paredes da casa, o material expositivo vai abrindo espaço nas gavetas da nossa imaginação. Os nomes de Egas Moniz ou Leitão de Barros, Custódio Passos ou Roque Gameiro cruzam-se com as fotografias de Ricardo Ribeiro ou de Mário Almeida, com um singular coração ou com um lenço dos namorados. A sensação é de plenitude e também de gratidão por tão belos e enriquecedores momentos em torno de uma exposição extraordinariamente concebida e que permite ao visitante aflorar o viver e o sentir de uma figura ímpar da nossa literatura. A exposição irá estar patente até 14 de novembro e é imperdível!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Ovar na Fotografia de Teófilo Rego"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ovar na Fotografia de Teófilo Rego”
Curadoria | Inês Azevedo, Joana Mateus
Investigação | Casa da Imagem, Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, Guilherme Terra
Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense
27 Nov 2022 > 15 Abr 2023


A mais recente proposta do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense leva-nos ao encontro de Teófilo Rego e da sua fotografia. Personalidade portuense do século XX, Teófilo Rego nasceu no Brasil, a 2 de Julho de 1914. Em 1924 veio repatriado para o nosso país, ficando órfão no ano seguinte. Ingressa então nas Oficinas Marques Abreu onde irá manter-se até 1944, desenvolvendo conhecimentos nas áreas da gravura, fotogravura e tipografia. Antes de se estabelecer por conta própria, trabalhará dois anos nas oficinas da Lito Maia como fotógrafo de fotolito. Após este período, monta o seu próprio estúdio fotográfico onde começa por realizar clichés fotomecânicos para gravadores de etiquetas. O reconhecimento da genialidade do seu trabalho, aliado a um brio profissional irreparável, leva-o a percorrer o país de norte a sul, quer trabalhando para vários municípios, quer fazendo reportagens em fábricas, barragens, museus. Trabalhou com artistas e estudiosos na ilustração das suas obras, quer de arte, quer de ensino, e fez importante coberturas jornalísticas, nomeadamente a da Rainha de Inglaterra quando visitou, no Porto, a Feitoria Inglesa. Viria a falecer em 1993, deixando uma vasta obra que merece ser reconhecida.

Uma reduzida mas particularmente valiosa parte desse espólio pode ser apreciada no Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, distribuindo-se entre a sala de exposições e o espaço da casa propriamente dito. São, na sua maioria, trabalhos fotográficos realizados no concelho de Ovar e região norte, com destaque para uma sequência de imagens do bairro piscatório e Barrinha de Esmoriz e do Carnaval de Ovar em 1956. A mostra integra ainda um curioso conjunto de objectos relacionados com o trabalho de Teófilo Rego, dos envelopes de papel glassine que acomodavam e protegiam as fotografias, à tabuleta publicitária da “Foto-Comercial Teófilo Rego”. A possibilidade de apreciar a exposição no âmbito de uma visita orientada pelas curadoras Inês Azevedo e Joana Mateus, ao final da tarde do passado dia 26 de Janeiro, representou um momento único de fruição e partilha, assente não apenas na descrição e explicações em torno dos materiais expostos, mas sobretudo numa laboriosa e criativa performance que pretendeu cruzar os universos do “patrono” Júlio Dinis e do “convidado” Teófilo Rego.

A copa, lugar de convívio da família, foi o ponto de partida desta visita performativa, dando a ver o quanto a casa, espaço de reprodução e manutenção, e a indústria, espaço de produção, coincidiam no caso da “Foto-Comercial” de Teófilo Rego. A contabilização de um espólio onde cabem pratos, copos, talheres, alguidares ou uma ratoeira, a par de folhas de papel fotográfico de várias marcas e tamanhos, fotografias pintadas, peras de sopro ou cabos de disparador, reforça a ideia de mistura dos espaços. Nas paredes do “quarto da Maria” desenha-se o mapa dos “passeios de Quintino” e dos “percursos de Carlos”, descritos na obra “Uma Família Inglesa”, devidamente ilustrado com imagens de Teófilo Rego. Neste caso, é bem patente a ruralidade inscrita nos habitantes e nos espaços da urbe, apesar de texto e imagem se encontrarem a uma distância de cem anos entre si. Na sala, evoca-se uma vez mais o imaginário bucólico através do diálogo entre as obras de Júlio Dinis “O Canto da Sereia”, “A Morgadinha dos Canaviais” e “As Pupilas do Senhor Reitor” e um conjunto de positivos da autoria de Teófilo Rego. Finalmente o quarto, lugar de intimidade e de todas as revelações, primeiro laboratório fotográfico do artista onde, segundo relembra Hortência, a filha, o pai revelava “nos pés da cama”. A merecer atenta visita, a exposição pode ser vista até 15 de Abril, coincidindo a finissage com o lançamento do respectivo Catálogo.