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sábado, 19 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 2



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Ana Maria Ferreira, Carla Louro, Carlos Nuno Granja, Francisco Coelho Neves, João Rasteiro, Rui Oliveira, Rui Sobral
Escola de Artes e Ofícios
17 Set 2026 | qui | 21:00


Noite de sonho e de magia. Noite das palavras vertidas em poesia, que ajuda a preencher os lugares, a respeitar os silêncios, a iluminar a memória de uma frase que regressa quando já ninguém a espera. Foi assim a segunda noite da 12.ª edição do Festival Literário de Ovar, uma noite inteiramente dedicada às palavras e aos poemas. Na bonita Sala Expande da Escola de Artes e Ofícios, fizeram-se anunciar de rompante, a ameaçar a queda, mas foram-se firmando e ocupando o espaço, como quem entra na casa pelo pátio com a familiaridade das coisas nossas. Poemas houve que trouxeram consigo o cheiro das batatas e do pão, do chão da infância. Outros que falaram da queda, da memória, do vazio, do que somos quando escrevemos, daquilo em que nos transformamos quando o poema começa a existir. Houve ainda palavras ditas e palavras cantadas, acompanhadas por sons nascidos do instante. Sucessão de ideias e reflexões, de questionamento e emoções, a noite foi um longo encontro com a poesia, capaz de nos fazer parar, de nos inquietar e, por breves instantes, de nos devolver ao princípio da nossa própria vida.

João Rasteiro abriu este segundo dia com “A Beleza da Queda”, um livro onde tudo parece estar em desequilíbrio e, paradoxalmente, ainda assim guardar um fulgor: o corpo, o amor, a memória, a linguagem, Portugal, a Europa, a própria ideia de permanência. Moderado por Carlos Nuno Granja, o encontro deixou palavras que ficaram a pairar na sala. “A poesia é, e continua a ser, a mais útil de todas as inutilidades”, disse o poeta, antes de lhe reconhecer a capacidade de retardar a nossa “queda colectiva”. Essa ideia de resistência pela palavra viria a encontrar continuidade, ao fim da noite, em “As Palavras”, de Rui Oliveira. Com uma presença cénica forte, desarmante e profundamente cúmplice, o músico e cantor transformou a Sala Expande numa espécie de sala de estar comum, onde deixou de haver espectadores para passar a haver convidados. António Gedeão, Natália Correia, Maria Velho da Costa, Eugénio de Andrade, Fernando Pessoa e Almada Negreiros encontraram-se com José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Rui Reininho e Carlos do Carmo. E, com a sua viola e uma caixa de loop, Rui Oliveira foi construindo as paisagens sonoras de cada poema e de cada canção, num exercício de mestria que fez do instante algo de sublime e de verdadeiramente irrepetível.

Na mesa moderada por Ana Maria Ferreira, uma das vozes mais reconhecíveis e persistentes do FLO, encontrou a noite o seu centro de gravidade. Carla Louro, Prémio de Poesia Nuno Júdice 2025, Francisco Coelho Neves e Rui Sobral sentaram-se à volta de uma pergunta antiga e sempre renovada: quem é esse outro que aparece quando escrevemos? A frase de José Cardoso Pires - “Espantoso como bruscamente o meu eu se transformou ali noutro alguém” - abriu caminho para uma conversa onde autobiografia, ficção, memória e criação se confundiram sem nunca perderem uma saudável e profícua tensão. Rui Sobral lembrou que “o sujeito poético não sou eu, ainda que eu esteja todo lá” e que a memória é a matéria primeira que a escrita transforma, acrescentando novos significados aos acontecimentos. Carla Louro falou dos seus vários “eus”: o da inspiração, o da matéria do poema, o do vazio e aquele outro, inquietante, que surge depois de um livro publicado e que a leva a perguntar: “E agora?”. Francisco Coelho Neves encontrou na escrita uma maneira de montar “fragmentos” de si próprio que desconhecia. E talvez tenha sido precisamente aí que a conversa tocou uma verdade essencial: escrever não é apenas dizer o que somos; é descobrir, no acto de dizer, aquilo que ainda não sabíamos de nós.

A poesia de Carla Louro ajudava, quase silenciosamente, a responder à pergunta. Em “Entra-se na casa pelo pátio”, a casa não é apenas lugar: é linguagem, memória, corpo. Entra-se nela como se entra num verso, percorrendo divisões onde cada objecto parece guardar a marca de quem o tocou. Há cheiros que escrevem recordações, uma cozinha que respira, mãos que alinham palavras como quem cose tecido, uma filha que olha o mundo com a surpresa inaugural de quem ainda sabe que uma pedra pode ter a forma de uma televisão e que o azeite “é que liga tudo”. Talvez tenha sido essa atenção ao pequeno, ao quase invisível, que atravessou também a mesa e, de certo modo, toda a noite: a certeza de que qualquer coisa pode ser matéria de poema, como lembrou Carla Louro, e de que até uma batata, nas palavras de Rui Sobral, pode ser uma infinidade de coisas. No final, depois dos livros, das vozes, dos poemas e das canções, ficaram as palavras - esses pequenos milagres que alguém escreve para que algo não se perca. E por momentos, a memória foi casa, a casa poema e o poema porta escancarada que convida a entrar. E a ficar.

sábado, 20 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 2



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Abigail Ascenso, Ana Deus, Ana Maria Ferreira, Cláudia Lobo, Daniel Maia Pinto-Rodrigues, Lília Tavares, Luca Argel, Maria Toscano, Nuno Gomes, Vítor Pinto Basto
Escola Secundária José Macedo Fragateiro, Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2025 | qui | 21:00 


Depois de um arranque recheado de emoções, o Festival Literário de Ovar enfrentou com renovada ilusão um novo dia, tendo para oferecer um programa em versão curta, mas nem por isso menos aliciante. Entre portas abertas à leitura e azulejos vestidos de poesia, por esta ocasião a cidade reforça o seu abraço às letras. As palavras soltam-se dos livros e revolteiam no ar, dispostas a verter-se em conversas íntimas e em concertos em que a música se curva perante a poesia. Como velhos cúmplices de um segredo partilhado, escritores cruzam de novo olhares e ideias com leitores. Em palcos de pensamento e emoção, a cada novo dia, os livros falam mais alto, os corpos dizem textos, os sons desenham imagens e o FLO cumpre-se no seu desígnio de celebrar a palavra, orgulhoso da escrita de mais um capítulo de uma história com final feliz.

A Escola de Artes e Ofícios foi o epicentro de um programa que atraiu um público leitor entusiasta, disposto a reforçar os laços que, através dos livros, busca estabelecer com o escritor. E quase apetece dizer que o milagre aconteceu de novo, com a bonita Sala Expande a transformar-se, no breve espaço de um serão, num mundo de partilha, imaginação e ideia cúmplice. Lília Tavares, Vítor Pinto Basto e Maria Toscano animaram a terceira mesa do FLO, dispondo-se, sob a moderação de Ana Maria Ferreira, a dissecar uma frase de Fernando Namora: “A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade.” Numa conversa emotiva, interventiva e viva, abanão vigoroso às consciências dos mais distraídos, falou-se da poesia como “o território da pura liberdade” (Lília Tavares), de democracia como elemento-chave de uma trilogia onde se inclui a literatura e a liberdade (Maria Toscano) e da função social da literatura (Vítor Pinto Basto).

“O Corredor Interior”, romance de Daniel Maia Pinto-Rodrigues, editado pela Exclamação e apresentado por Nuno Gomes, tinha aberto o serão, cabendo a Ana Deus e Luca Argel fechar a noite com um concerto intitulado “Canções para beber com Pessoa”. Nele, os artistas revisitaram as “Canções de beber" (ou Rubaiyat), do poeta-astrónomo Omar Khayyam e que, desde a Pérsia do Século XI, inspiraram Fernando Pessoa a traduzir de forma muito livre (do inglês, baseado em Edward Fitzgeral) cerca de duas centenas de quadras. Foi sobre esses poemas que o concerto incidiu, aos quais a dupla acrescentou um conjunto de temas extraídos de “Ruído Vário – Canções com Pessoa”, álbum de estúdio de 2017, uma encomenda da Casa Fernando Pessoa. Ao transformar e atualizar o génio de Fernando Pessoa – “passando por diversas das suas facetas, da solenidade trágica ao escárnio humorístico” –, Ana Deus e Luca Argel ofereceram a possibilidade de escutar a palavra de uma outra forma – igualmente celebrativa, jubilosa e livre. E que siga o FLO!

segunda-feira, 31 de março de 2025

TERTÚLIA | CONCERTO | FINISSAGE: “Espaços de Pensar - Teias de Sentir”



TERTÚLIA | CONCERTO | FINISSAGE: “Espaços de Pensar - Teias de Sentir”
Com | Rosa Bela Cruz, Ana Ferreira, Luís de Matos, Domingos Silva e Grupo Vocal Canto Décimo
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
29 Mar 2025 | sab | 16h00


“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
José Saramago, epígrafe de Ensaio sobre a Cegueira

No trabalho artístico de Rosa Bela Cruz, são várias as particularidades que prendem a nossa atenção. Ainda despojado do ardor crítico, um primeiro olhar abarca a delicadeza do traço, a suavidade da cor, a harmonia do conjunto. Alvo preferencial da atenção da artista, as mulheres figuram nas suas obras em graça e beleza: Sedutoras, ousadas, irreverentes. Ao mesmo tempo frágeis, delicadas, inquietas, angustiadas. Para as mulheres de Rosa Bela Cruz, a certeza de si e do lugar que ocupam está longe de ser chão seguro. A pintura da artista desdobra-se. Como uma moeda, mostra as duas faces. Fosse ela pau e ameaçar-nos-ia com os seus dois bicos. Perante isto, o olhar apura-se. Percorre o quadro e encontra nele matéria de constante desassossego. Detém-se nos olhos das mulheres que, como um íman, o atraem. Olhos grandes e vivos, que se movem incessantemente. Olhos que nos seguem para onde quer que vamos. Nesse encontro de olhos que nos olham, somos invadidos pelo desconforto. Neles encontramos a urgência do muito que têm para contar.

Aproximamo-nos e a inquietação adensa-se. Reparamos que são delicadas as rendas que velam rostos e corpos, que sobre eles fazem pousar as marcas do charme discreto e do bom gosto. Rendas que não são suficientes para disfarçar essas outras marcas, mais fundas e terríveis, da adversidade, da mágoa, do desprazer. Marcas de uma bofetada seguida de um pedido de desculpa, de um murro na boca seguido de cem pedidos de desculpa, de uma facada no rosto seguida de mil pedidos de desculpa. Como se o mal pudesse ser apagado com palavras bonitas. Entre “espaços de pensar” e “teias de sentir”, abraçamos Rosa Bela Cruz neste seu “eterno retorno” a Ovar. Abraçamos igualmente as mulheres que nos trouxe, todas as mulheres. Mulheres como Ana Luísa Amaral, Sophia de Mello Breyner, Adília Lopes, Maria Teresa Horta ou Florbela Espanca que, na verdade da sua poesia, continuam a mostrar-se decisivas na luta contra o preconceito e a discriminação que enfermam uma sociedade conservadora e machista. Arautos da mudança, elevam-se à condição de sujeitos primordiais num contexto de afirmação de princípios e valores que as distingue como sublimes e únicas.

Pudemos olhar e vimos. Pudemos ver e reparámos. Sendo as mesmas, as mulheres de Rosa Bela são agora diferentes. Os tons sombrios quase desapareceram dos seus rostos, os véus são cada vez menos um resguardo, os queixos ergueram-se e as poses fizeram-se causa e razão, vigor e altivez. Não há dúvida de que estas mulheres mudaram. A sua atitude mudou. Também a sua vontade e a sua confiança. São mulheres mais conscientes dos seus direitos, mais fortes, mais audazes. Logo, mais elegantes e graciosas, mais harmoniosas, mais belas. Rosa Bela Cruz tem o dom de, com a sua arte, expressar as emoções mais vivas no que o “ser mulher” tem de íntimo e precioso. Lançamos um último olhar a cada trabalho. Lá encontramos, ainda, uns olhos enormes e penetrantes que parecem não nos querer largar. Eles dizem-nos que há ainda caminho a percorrer no que aos direitos das mulheres e à igualdade de género diz respeito. Mas o olhar destas mulheres é, hoje, o olhar que vê.

[Texto inserto no Catálogo do projecto de Rosa Bela Cruz, “Espaços de Pensar - Teias de Sentir”]