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segunda-feira, 31 de março de 2025

TERTÚLIA | CONCERTO | FINISSAGE: “Espaços de Pensar - Teias de Sentir”



TERTÚLIA | CONCERTO | FINISSAGE: “Espaços de Pensar - Teias de Sentir”
Com | Rosa Bela Cruz, Ana Ferreira, Luís de Matos, Domingos Silva e Grupo Vocal Canto Décimo
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
29 Mar 2025 | sab | 16h00


“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
José Saramago, epígrafe de Ensaio sobre a Cegueira

No trabalho artístico de Rosa Bela Cruz, são várias as particularidades que prendem a nossa atenção. Ainda despojado do ardor crítico, um primeiro olhar abarca a delicadeza do traço, a suavidade da cor, a harmonia do conjunto. Alvo preferencial da atenção da artista, as mulheres figuram nas suas obras em graça e beleza: Sedutoras, ousadas, irreverentes. Ao mesmo tempo frágeis, delicadas, inquietas, angustiadas. Para as mulheres de Rosa Bela Cruz, a certeza de si e do lugar que ocupam está longe de ser chão seguro. A pintura da artista desdobra-se. Como uma moeda, mostra as duas faces. Fosse ela pau e ameaçar-nos-ia com os seus dois bicos. Perante isto, o olhar apura-se. Percorre o quadro e encontra nele matéria de constante desassossego. Detém-se nos olhos das mulheres que, como um íman, o atraem. Olhos grandes e vivos, que se movem incessantemente. Olhos que nos seguem para onde quer que vamos. Nesse encontro de olhos que nos olham, somos invadidos pelo desconforto. Neles encontramos a urgência do muito que têm para contar.

Aproximamo-nos e a inquietação adensa-se. Reparamos que são delicadas as rendas que velam rostos e corpos, que sobre eles fazem pousar as marcas do charme discreto e do bom gosto. Rendas que não são suficientes para disfarçar essas outras marcas, mais fundas e terríveis, da adversidade, da mágoa, do desprazer. Marcas de uma bofetada seguida de um pedido de desculpa, de um murro na boca seguido de cem pedidos de desculpa, de uma facada no rosto seguida de mil pedidos de desculpa. Como se o mal pudesse ser apagado com palavras bonitas. Entre “espaços de pensar” e “teias de sentir”, abraçamos Rosa Bela Cruz neste seu “eterno retorno” a Ovar. Abraçamos igualmente as mulheres que nos trouxe, todas as mulheres. Mulheres como Ana Luísa Amaral, Sophia de Mello Breyner, Adília Lopes, Maria Teresa Horta ou Florbela Espanca que, na verdade da sua poesia, continuam a mostrar-se decisivas na luta contra o preconceito e a discriminação que enfermam uma sociedade conservadora e machista. Arautos da mudança, elevam-se à condição de sujeitos primordiais num contexto de afirmação de princípios e valores que as distingue como sublimes e únicas.

Pudemos olhar e vimos. Pudemos ver e reparámos. Sendo as mesmas, as mulheres de Rosa Bela são agora diferentes. Os tons sombrios quase desapareceram dos seus rostos, os véus são cada vez menos um resguardo, os queixos ergueram-se e as poses fizeram-se causa e razão, vigor e altivez. Não há dúvida de que estas mulheres mudaram. A sua atitude mudou. Também a sua vontade e a sua confiança. São mulheres mais conscientes dos seus direitos, mais fortes, mais audazes. Logo, mais elegantes e graciosas, mais harmoniosas, mais belas. Rosa Bela Cruz tem o dom de, com a sua arte, expressar as emoções mais vivas no que o “ser mulher” tem de íntimo e precioso. Lançamos um último olhar a cada trabalho. Lá encontramos, ainda, uns olhos enormes e penetrantes que parecem não nos querer largar. Eles dizem-nos que há ainda caminho a percorrer no que aos direitos das mulheres e à igualdade de género diz respeito. Mas o olhar destas mulheres é, hoje, o olhar que vê.

[Texto inserto no Catálogo do projecto de Rosa Bela Cruz, “Espaços de Pensar - Teias de Sentir”]

terça-feira, 18 de março de 2025

TERTÚLIA: “Conversas à Volta do Tanque” | Mafalda Cruz e Iolanda Fontaínhas



TERTÚLIA: “Conversas à Volta do Tanque”
Com Mafalda Cruz e Iolanda Maciel Fontaínhas
Moderação | Joaquim Margarido
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
08 Mar 2025 | sab | 16:00


Podem as artes plásticas desencadear uma reflexão sobre o papel da Mulher na sociedade, ou sobre o modo como, ainda hoje, o seu papel é (des)valorizado? “Espaços de Pensar – Teias de Sentir”, projecto multidisciplinar levantado do chão pela artista plástica Rosa Bela Cruz, parte ao encontro desta e outras preocupações, “sempre com as artes plásticas como suporte inicial e a temática da Mulher como pano de fundo”. Neste contexto foram programadas, entre outras iniciativas, três “conversas à volta do tanque”, a última das quais teve lugar no Dia Internacional das Mulheres e permitiu ao muito público presente na acolhedora sala do Museu Júlio Dinis escutar as opiniões da médica e sexóloga Mafalda Cruz e da socióloga Iolanda Maciel Fontaínhas. Sob a moderação de Joaquim Margarido, as convidadas desenvolveram importantes considerações à volta do tema “Nem Castradas Nem Invisíveis, Abordagem da Evolução Social e Sexual da Mulher ao Longo dos Tempos”, debatendo conceitos, revelando factos, esgrimindo números, recordando factores diferenciadores do binómio mulher-homem e questionando os mecanismos de apropriação, depreciação e rejeição da Mulher e do lugar que ocupa na sociedade.

“No Ensino Superior, há 54% de mulheres e 46% de homens, com o número de mulheres diplomadas a ser de 58% e de 42% no caso dos homens. Apesar disto, as mulheres com altas qualificações ganham menos 26% do que os homens, em cargos iguais. Também 3/4 das tarefas domésticas são feitas por mulheres e a violência doméstica tem aumentado, com dezenas de mulheres assassinadas por ano. As questões sexuais e sociais, apesar da grande evolução em alguns aspectos, ainda são tabu para a maioria das pessoas. Falar sobre estes assuntos sem discriminações, sem constrangimentos e sem tabús é fundamental.” Colocando o dedo em várias feridas, as palavras de Rosa Bela Cruz na apresentação da sessão serviram de mote a uma conversa livre de preconceitos, enriquecedora a muitos títulos e com um enfoque especial em palavras como influência, autonomia, certeza, afirmação, equidade, assertividade, confiança e empoderamento. Uma conversa que teve como fio condutor “a paz, o pão, habitação, saúde, educação”, temas lançados à discussão por esta ordem.

De Adão e da sua “costela” a Galeno, da Revolução Industrial aos nossos dias, Iolanda Fontaínhas abordou as relações de poder, a dimensão estrutural do género no que toca à violência e de que modo as sociedades se organizam, colocando a mulher numa posição de submissão, abuso e violência. Com o dedo apontado aos discursos sociológicos, religiosos e médicos, a convidada lembrou que a ambiguidade legislativa que reside na própria Constituição da República é promotora de desigualdades que implicam lógicas de relações de poder e que, construídas, naturalizadas e reproduzidas, estão na base de fenómenos como a violência doméstica, cujos números assustadores teimam em replicar-se ano após ano. Sobre esta temática, Mafalda Cruz começou por definir a “Saúde Sexual”, segundo a Organização Mundial de Saúde como “o bem-estar físico, mental e social” em relação à sexualidade, para logo referir a falta de abrangência em matéria de educação sexual em Portugal, “legislada desde os anos 90, mas posta em prática de forma muito precária” nas escolas, com conteúdos insuficientes e baseados numa sexualidade restritiva, virada sobretudo para a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e para a prevenção da gravidez.

No tocante ao “pão”, que o mesmo é dizer “trabalho”, o moderador chamou à discussão a Constituição Portuguesa que, no seu Artigo 59.º (Direitos dos Trabalhadores), consagra “o princípio de que para trabalho igual salário igual”, ao qual Iolanda Fontaínhas faz um reparo, arriscando dizer “salário igual para trabalho de igual valor”. Foi tempo de lembrar as disparidades salariais (que chega aos 770 euros entre homens e mulheres num cargo de topo), o facto de 79% das mulheres assumirem a ida ao médico com os filhos ou as tarefas domésticas serem maioritariamente assumidas pela mulher. Mas também as questões de assédio no local de trabalho, e cujas denúncias, segundo Mafalda Cruz, continuam a não ser valorizadas, com muitas das vítimas a serem descredibilizadas ou silenciadas, com a conivência de uma sociedade que continua a tolerar muitas das situações de abuso. Em matéria de habitação, a médica falou das dificuldades “em usufruir da sexualidade e do prazer se o casal luta para conseguir pagar uma casa” ou a viver em condições precárias “com os filhos no mesmo quarto, pais no quarto ao lado, muitas vezes fragilizados e doentes”, sem tempo ou condições sequer “para uma conversa sem interrupções.” À boleia destas preocupações partilhadas, Iolanda Fontaínhas lembra que “as dinâmicas familiares estão a mudar”, reflectindo-se numa saída de casa tardia, numa constituição de família tardia, num primeiro filho tardio.

“Em termos de investigação científica as mulheres estão completamente em desvantagem, porque a maioria dos estudos em saúde inclui homens, apenas, o que significa que as conclusões que tiramos são baseadas na fisiologia do homem”. Quem o diz é Mafalda Cruz, estendendo esta realidade aos campos do diagnóstico e do tratamento (“quando uma mulher tem uma queixa cardíaca, o tempo até ser feito um diagnóstico é superior cinco vezes em relação ao homem”). Ao mesmo tempo, desconstruiu as diferenças na resposta sexual entre homens e mulheres e vincou que “mais importante do que ter desejo é ter prazer”. A conversa encerrou com o tema da “educação”, com Iolanda Fontaínhas a evidenciar a escola como “o lugar seguro para podermos alimentar a nossa curiosidade, mas dependente da capacidade de educadores e professores em fazer dela esse lugar seguro”. Ao longo de duas horas de conversa muito mais se falou, mas fica aqui esta proposta de resumo. Importante, mesmo, é que o facto de tantas mulheres estarem sentadas naquela sala a falar abertamente de si, das suas ideias, do seu corpo, da sua sexualidade, é reflexo das muitas conquistas que foram sendo feitas em lutas travadas ao longo dos tempos.” Todavia, como bem lembrou Iolanda Fontaínhas, “múltiplas conquistas coexistem com múltiplos desafios no tocante à igualdade entre os géneros” e há ainda muito caminho por fazer. Ainda que pequenino, aqui foi dado mais um passo.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

EXPOSIÇÃO: "O Regresso" | Rosa Bela Cruz



EXPOSIÇÃO: “O Regresso”,
de Rosa Bela Cruz
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
01 Fev > 29 Mar 2025


Depois de “Minha Senhora de Mim (de Quê)?”, há uma nova exposição de Rosa Bela Cruz para ver no Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense. A mostra, de carácter antológico, intitula-se “O Regresso” e, para além da delicadeza e sensibilidade do conjunto da obra, mostra o rigor e a coerência de uma pintura centrada desde sempre na figura da mulher. Adentremos a bela sala de exposições, bebamos a luz cálida que se derrama do enorme janelão que abre para o quintal da casa e espantemo-nos com a quantidade de trabalhos expostos, muitos deles reconhecidos de outros momentos. Ainda despojado do ardor crítico, um primeiro olhar abarca a delicadeza do traço, a suavidade da cor, a harmonia do conjunto. Alvo preferencial da atenção da artista, as mulheres figuram nas suas obras em graça e beleza: Sedutoras, ousadas, irreverentes. Ao mesmo tempo frágeis, delicadas, inquietas, angustiadas. Para as mulheres de Rosa Bela Cruz, a certeza de si e do lugar que ocupam está longe de ser chão seguro.

O olhar apura-se, percorre o quadro e encontra nele matéria de desassossego. Detém-se nos olhos das mulheres que, como um íman, o atraem. Olhos grandes e vivos, que se movem incessantemente. Olhos que nos seguem para onde quer que vamos. Nesse encontro de olhos que nos olham, somos invadidos pelo desconforto. Neles encontramos a urgência do muito que têm para contar. Aproximamo-nos e a inquietação adensa-se. Reparamos que são delicadas as rendas que velam rostos e corpos, que sobre eles fazem pousar as marcas do charme discreto e do bom gosto. Rendas que não disfarçam essas outras marcas, mais fundas e terríveis, da adversidade, da mágoa, do desprazer. Da intensa e constante luta que travam as mulheres de Rosa Bela Cruz, que travam todas as mulheres, nos fala cada um destes trabalhos. Em forma e cor, abrem-se contra o preconceito e a discriminação de que enferma uma sociedade conservadora e machista. Nos rostos que se erguem, nas poses que se fazem causa e razão, vigor e altivez, mostram-se as mulheres como arautos da mudança.

Para esta exposição, Rosa Bela Cruz desenvolveu uma nova série de trabalhos que agrupou sob o nome de “Encaixotadas”. Através deles, a artista propõe “uma reflexão crítica sobre a exploração que transforma o corpo da mulher, sempre jovem e esbelto, numa ferramenta ao serviço de estratégias comerciais sem qualquer relação ou ligação directa com a circunstância de ser mulher”. Trata-se do prolongar desse incessante grito de revolta, ao mesmo tempo desconstruindo este tipo de representações que ilustram “essa falsa juventude eterna e essa beleza estereotipada como elementos cruciais das narrativas criadas com recurso a corpos com pele sedosa e perfeita, medidas ideais e sem marcas da passagem do tempo e das agruras da vida. “Pesadelo”, instalação onde figuram, na tela, 28 facas sobre um coração rendilhado, envolto por um véu aos pés do qual jaz um ramo de rosas vermelhas, fecha a exposição. É o derradeiro “murro no estômago”, a lembrar as mulheres mortas em contexto de violência doméstica. Para nossa tão grande tristeza e culpa. Para nossa maior vergonha.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

TERTÚLIA: "Conversas à Volta do Tanque"



TERTÚLIA: “Conversas à Volta do Tanque”
Com Manuela Grazina
Moderação | Joaquim Margarido
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
18 Jan 2025 | sab | 16:00


“Em 2022, as mulheres receberam menos quase cinco milhões de euros que os homens com idênticas qualificações. A desigualdade é tanto maior quanto maior é a qualificação e o nível de escolaridade das mulheres. Se a felicidade não se mede em euros, até que ponto a persistente discriminação das mulheres nos seus locais de trabalho é ou não um fator de instabilidade, de desmotivação ou de descrença na construção de uma sociedade mais justa e equilibrada? Numa sociedade em permanente mudança, o que explica as persistentes resistências ao reconhecimento e valorização da importância da mulher no tecido social? Qual a razão para as mulheres não conseguirem inserir-se no espaço público em paridade com os homens? Será o sofrimento, a desconsideração, a secundarização, sina da condição de ser mulher? Está vedado às mulheres o direito à felicidade plena?”
“Conversas à Volta do Tanque”, excerto da Folha de Sala

“O nosso cérebro tem uma série de sensores que captam os estímulos. Processamos mais ou menos rapidamente em função das memórias armazenadas, das aprendizagens que fomos fazendo, das experiências boas ou más que fomos tendo, das emoções que associamos a cada experiência. E vamos pondo as coisas em ‘gavetas’, numa estrutura que se chama hipotálamo e que é a nossa placa de memórias.” No início de mais uma “conversa à volta do tanque”, as palavras são de Manuela Grazina, doutorada em Ciências Biomédicas, comunicadora de ciência dinâmica e promotora de literacia científica em saúde, defensora da ciência para todos, alguém que acredita firmemente que a instrução e o conhecimento são os melhores indicadores para o desenvolvimento, preparação de melhores profissionais e melhoria das condições de saúde das populações. Uma conversa marcada por momentos de partilha com um numeroso público, ávido de abraçar a ciência e o conhecimento que se esconde até nas coisas mais simples: Nos tachos e panelas, numas costelas de vaca grelhadas e numa massa ou num arrozinho branco para acompanhar.

Na mesma casa onde Júlio Dinis contactou, no Verão de 1863, com um quotidiano simples e que viria a verter em magníficas obras literárias, Manuela Grazina mostrou, de forma igualmente simples, como é bom espalhar aquilo que designou por “sementes de Ciência”. A sentença da avó Maria - “é no dar que se recebe” -, é hoje um dos lemas mais caros à cientista, que encontra recompensas no facto de “estar a fazer alguma coisa de bom pelo outro”. Mentes abertas, portanto, a conversa foi-se projectando ao encontro da importância de ajudar alguém, pelo efeito transformador na vida da pessoa ajudada, mas também pela reacção em cadeia que daí pode advir. Mas atenção: “Não nascemos todos com a mesma probabilidade de ser felizes ou de fazer o bem”, cabendo aqui enunciar factores genéticos e ambientais que podem estar na base das diferenças e que incluem, entre outros, aquilo que comemos, a água que bebemos, o exercício físico que fazemos e todos os estímulos que nos chegam através dos sentidos e que mexem com as nossas emoções. Ou seja, “isto de tomar boas decisões não é para quem quer, é para quem pode”.

“Que importância têm as memórias na construção da felicidade?” O moderador pergunta e a interlocutora, num primeiro momento, pega na questão e dirige-a ao público. À volta do tanque, é tempo de falar de filhós e café de cafeteira, carroceis cor de rosa e cheios de luzes, um cheiro a queijo picante, uma cadeirinha, um sapatinho de verniz e um guarda chuva, um dedo que rapa o tacho com restos de massa de bolo de coco, as histórias de “faz de conta” do avô Hélio. As mesmas histórias de “faz de conta” que hoje nos ajudam a não colapsarmos, “quando os familiares adoecem, avaria o frigorífico e a máquina de lavar, rebenta a caldeira, pára o carro no meio da ponte”, e que dão um contributo fundamental para a criação da esperança. “São sementes no nosso jardim da esperança, sem as quais vivemos, mas vivemos mal”, que nos socorrem com as memórias de que é possível que, nos piores momentos, tudo venha a correr bem. Acordar, pestanejar, é motivo para nos sentirmos felizes e devermos fazer algo pelos outros, é a lição seguinte. De uma coisa podemos estar certos: “Desde o momento em que entraram aqui, o vosso cérebro vai mudar para sempre”, afirma Manuela Grazina, fazendo crescer a boa disposição (e a felicidade) na sala.

“A felicidade é como o açúcar, o sol ou o sal: Deve ser q.b.” Em velocidade de cruzeiro, fala-se agora de felicidade, “algo que em excesso faz muito mal”. As pessoas querem muito ser felizes, mas diz Manuela Grazina que “só de vez em quando”, acrescentando que “ser sempre feliz dava connosco em tolinhos”. Daí o devermos estar gratos “a todas as pessoas que nos dificultam a vida”. É que os ciclos de “calmaria” são muito importantes para conseguirmos ser felizes, “caso contrário nem teríamos consciência do que é a felicidade”. De passagem pelo hipocampo, pelo sistema límbico e pela amígdala, falamos de Dopamina e de “tratar a dor com beijinhos”, para logo abordar a questão dos placebos e a quantidade de antidepressivos e de analgésicos que chumbam nos ensaios clínicos porque um comprimido de açúcar e farinha consegue mostrar-se mais eficaz. O facto está relacionado com um fenómeno neuroquímico extraordinário que é a fé: “Porque acreditam em algo, as pessoas vão estar a activar a via da recompensa e, como isso é importante na resposta à dor, na resposta ao mau-humor, vai tudo melhorar.”

Em que medida é que a felicidade pode ser uma questão de sorte? A resposta é afirmativa, até porque todos nós somos uma “lotaria de eventos”. A cientista lembra como tudo começa - “com duas células, uma do pai, outra da mãe” -, mas lembra igualmente que a genética é a primeira grande variável no quadro das probabilidades, ao dar a uns, mais do que a outros, a possibilidade de reagir mais adequadamente a um estímulo, a ser “a pessoa certa, no sítio certo, à hora certa”. Enfim, “sorte temos todos, mas não temos todos a mesma sorte”, sendo a nossa maior sorte “ter conhecimento para fazer o melhor possível com aquilo que somos e para nos irmos construindo de uma forma que nos dê bem estar, mas sobretudo a todos à nossa volta”. Portanto, “isto da sorte, mais do que receber, constrói-se: Com conhecimento, todos os dias e a cada momento.” Mas então, e se ganhássemos o Euromilhões? “Era espectacular”, refere Manuela Grazina, não pelos bens pessoais que pudesse adquirir, mas pela possibilidade de fazer coisas fantásticas.

Foi na fase de perguntas do público que surgiu a questão que presidiu à “conversa à volta do tanque”: A Felicidade também se conjuga no Feminino?”. A resposta volta a ser sim, começando Manuela Grazina por lembrar que “as mulheres são o berço da Humanidade”. Levando a questão para o campo social e para a construção de uma ideia de nós próprios que advém dos estímulos daqueles que estão à nossa volta, a falta de protecção das mulheres, a sua não valorização e desconsideração, apenas vem mostrar que, enquanto sociedade, há um longo caminho a percorrer. Levantou-se ainda a questão da diferença entre o cérebro de um homem e o de uma mulher. A resposta é simples, sem estereótipos: “O cérebro do homem é 7% maior do que o da mulher, mas como em tudo o tamanho não quer dizer nada”. Finda a gargalhada geral, Manuela Grazina explica que “o cérebro é como uma noz, tem duas metades divididas por uma estrutura chamada corpo caloso, um conjunto de fibras que fazem comunicação entre os dois hemisférios e cuja estrutura é maior nas mulheres.”

Para o final da tertúlia estava guardada a questão sacramental, aquela pela qual todos aguardaram quase duas horas e meia. Após ter passado o tempo da conversa à volta do tanque a dar pistas sobre verdades e consequências em torno da felicidade, Manuela Grazina não quis assumir sozinha a tarefa de elencar os ingredientes para a receita da felicidade, partilhando com o público mais um momento feliz. Foi tempo de falar de cuidar dos outros, sentir que a nossa vida é uma dádiva, mostrar-se grato, adoptar uma atitude sorridente (“porque, quem passa, usufrui daquele que pode ser o único sorriso que vê nesse dia”), pensar positivo (“as pessoas mais optimistas adoecem menos”), nunca perder a esperança, ser autêntico, aceitar (“porque não há pessoas más, só com alguns desarranjos”), ser determinado, ser verdadeiro, amar o próximo. O momento encerrou com a leitura de um poema, um gesto de gratidão de quem moderou a quem tão generosamente espalhou sementes de ciência e fez de nós pessoas melhores: “(…) É proibido não procurarmos a felicidade / Não vivermos a vida de forma positiva, / Não pensarmos que podemos ser melhores, / Não sentirmos que sem nós este mundo não seria igual.”

[Foto: Alexandre Rodrigues | Ovar/Cultura]

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: "Minha Senhora de Mim (De Quê)?"



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Minha Senhora de Mim (De Quê)?”,
de Rosa Bela Cruz
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
09 Nov 2024 > 24 Jan 2025


Pródiga, benfazeja, a luz derrama-se do grande janelão que abre para o pátio da casa, dando à sala um tom de mel e tornando-a ainda mais acolhedora. Lá fora, o tanque e a relva, a laranjeira de onde pende um cacho de frutos, o muro que um gato atravessa. Mas é na sala que o meu olhar fica preso, na longa parede vestida de cinco pinturas, de cinco poetisas, de cinco mulheres: Ana Luísa Amaral, Sophia de Mello Breyner, Adília Lopes, Maria Teresa Horta, Florbela Espanca. Foram elas que Rosa Bela Cruz quis convidar para a sala, inaugurando o Projecto Cultural “Espaços de Pensar - Teias de Sentir”, conjunto de momentos distintos a convocar a reflexão, tendo as artes plásticas como suporte inicial e a temática da mulher como pano de fundo. Quem acompanha o percurso da artista, sabe o quanto os seus trabalhos se mostram “à flor da pele” e se afirmam num “eterno retorno” à figura da mulher. “Um olhar que vê” para o interior daquelas que, numa sociedade conservadora e machista, continuam reféns do preconceito e da discriminação, mas que encontram na arte de Rosa Bela Cruz um meio de ascenderem à condição de sujeitos primordiais num contexto de afirmação de princípios e valores que as distingue como sublimes e únicas.

Mas volto às cinco mulheres, ao olhar que em mim poisam e que acompanha os meus passos. Os seus olhos brilham, decerto não pela minha presença, mas pela conversa que mantinham antes da minha chegada. De que falariam para que assim se mostrassem, num misto de inquietação e arrebatamento, apaixonadas, seguramente felizes? Gosto de pensar, agora que a noite se aproxima, que Ana Luísa exortava as companheiras a não deixarem a lua “entrar pela ombreira, sentar-se e conversar”. De soslaio, o olhar de Sophia mostrar-se-ia em desacordo e a palavra não tardaria: “Em todos [os jardins] beberei a lua cheia”. Sarcástica, Adília brincaria com as palavras e, numa gargalhada, diria ser, não a lua, mas “a luva” (“eu sou a luva / e a mão / Adília e eu / quero coincidir / comigo mesma”). Maria Teresa gostaria da lua (“desperta-me de noite / o teu desejo”) e gostaria da luva (“na vaga dos teus dedos / com que vergas / o sono em que me deito”). Da lua, Florbela teria pena: “Eu tenho pena da Lua! / Tanta pena, coitadinha, / Quando tão branca, na rua, / A vejo chorar sozinha!…”. Saio ao de leve deixando-as a conversar, recolho a folha de sala e sigo para o corredor.

Murmúrios. Diálogos. Dois a dois, os quadros figuram a mulher no que tem de sujeito e complemento, no que lhe é intrínseco e no que aceita dos outros, no que mostra e no que decide ocultar, no yin e yang tão seu. Poiso os olhos na folha que tenho nas mãos e caminho enquanto leio: “Trabalhar e representar o universo feminino é uma forma de questionar as certezas estabelecidas num mundo tão adverso para a mulher. É uma forma de dar expressão a dúvidas e angústias que tantas vezes marcam o quotidiano feminino. Cada mulher aqui representada tem algo de nós, seja qual for o género com que nos identificamos. São espelhos de mundos interiores, de sentimentos e preocupações.” Quando volto a erguer os olhos, tenho à minha frente uma instalação com uma pintura, têxteis e espelhos. Chama-se “À Procura de um Rosto (Rosa?!)” e o título remete para a tia de Júlio Dinis, que nesta casa acolheu o escritor no Verão de 1863. Procuro esse rosto de mulher, senhora de si (de quê?), mas é o meu que encontro reflectido. Ao meu lado, Ana Luísa Amaral sussurra-me: “A mesma folha. / De um lado, analisar, / do outro - eu. // Mas o lado primeiro / também eu. Outro eu”. Só até 24 de Janeiro!