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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 1



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Alexandra Gondin, Ana Paula Tavares, António França, Aurora Gaia, Bruno Henriques, Carlos Nuno Granja, Domingos Silva, Filipa Leal, Hélder Ventura, João Martins, Joaquim Arena, José Ferreira, José Ferreira Soares (Zé da Vesga), Lourdes Lara, Óscar Graça
Museu Júlio Dinis, Centro de Artes de Ovar
16 Set 2026 | qua | 18:00 e 21:00


Vivo, dinâmico, alegre, disponível e recheado de propostas irrecusáveis, o Festival Literário de Ovar abriu as portas da sua décima segunda edição na passada quarta-feira. Entre o Museu Júlio Dinis e o Centro de Artes de Ovar, o FLO começou a desenhar o seu território, preenchendo-o de livros, de vozes, de memórias, de música e, sobretudo, de encontros. Primeiro, Aurora Gaia, 87 anos de uma vida entregue às artes, foi estrela em cena através da exposição “Aurora – (Com)Vivências… Teatro, Cinema, Televisão e Literatura”, como que regressada a uma casa onde persistem tantos pedaços de si. Depois, na abertura oficial do certame, Carlos Nuno Granja lembrou que o FLO é essa utopia que se tornou realidade e que não desiste de aproximar os escritores dos leitores, a cidade dos livros. Domingos Silva, Presidente do Município, falou de um espaço de encontros que o tempo tornou necessário, evocando a contradição de um presente em que “preferimos o resumo ao ensaio, a legenda ao artigo”. E talvez o FLO exista para contrariar isso mesmo, afirmando-se como uma espécie de resistência tranquila à voragem dos dias, um lugar onde ainda se pode parar. Parar para ouvir. Parar para pensar. Parar, simplesmente, para estar.

Foi nesse lugar de encontro que se escutou o “Grito Calado”, de Zé da Vesga, livro onde a poesia se mistura com as canções e onde uma vida inteira parece procurar palavras para serem contadas. Lourdes Lara disse-o com uma imagem feliz: “[Zé da Vesga] aprendeu a falar com a vida através das palavras, a falar com o coração através da música”. Nisto reside a essência de um livro que reúne poemas, inquietações e memórias, mas também muitas das canções que escreveu para o Cantar os Reis, guardando nas suas páginas uma parte da memória colectiva da cidade. Aos 87 anos, o autor entrou na noite sem a solenidade dos que chegam para falar de uma obra acabada. Chegou com desassombro, as dúvidas à flor da pele: “Porque não brincam os homens ao pião em vez de se preocuparem em brincar às mortes?”. E depois deixou uma frase que podia ser lema, desejo ou oração: “Menos armas, mais poesia”. Quando a música e a poesia tomaram finalmente o palco, Filipa Leal, João Martins e Óscar Graça fizeram exactamente isso: procuraram um lugar onde as palavras pudessem encontrar ninho. Entre silêncios, piano, teclados e sopros, os poemas foram deixando de ser apenas palavras para se tornarem matéria sonora. Num gesto cúmplice, os instrumentos souberam acompanhar a voz sem nunca a aprisionar, respeitando-lhe as pausas, prolongando-lhe os silêncios, sublinhando uma frase mais emotiva ou apenas sussurrada, acrescentando camadas de sentido aos poemas.

Mas houve um momento em que o FLO se agigantou e que correspondeu à primeira de onze mesas que, até ao final da tarde do próximo domingo, assumirão o papel de protagonistas numa programação rica e variada. Sentados frente a frente, sob a moderação inteligente e bem humorada de Bruno Henriques, Ana Paula Tavares e Joaquim Arena falaram de viagens que nem sempre precisam de estrada ou geografias e que, mesmo quando ficam para trás, continuam a viver dentro de quem parte. Ana Paula Tavares, Prémio Camões 2025, falou de Angola como se fala de uma ausência que nunca se ausenta. “Estar fora de Angola tira muito mais do que acrescenta”, disse. A distância não lhe resolveu a relação com os lugares de nascimento e crescimento; pelo contrário, devolveu-os na forma de solidão, memória e escrita. Mas a memória, sabe-o a historiadora, não é imóvel. É fugaz, reconstrói-se, reinventa-se. “A memória da guerra, numa Angola onde 75 por cento da população tem hoje vinte anos, já não é necessariamente memória vivida: é memória reconstruída, recebida, retrabalhada”, afirma. É contra a possibilidade da perda que a sua escrita se ergue. A memória da mãe, da avó, das vozes antigas, das formas de dizer e de entender o mundo, tudo isso se reúne nesse “fio da memória” que a poeta procura tecer no laboratório da poesia. Escrever é, para Ana Paula Tavares, uma forma de não deixar morrer. Uma maneira de trazer para o presente aquilo que o presente, tantas vezes, parece querer esquecer.

Joaquim Arena acrescentou à conversa outra geografia da ausência. Cabo Verde, os que partem e os que ficam, as famílias que aprendem a viver separadas, a diáspora, a saudade que se torna matéria de escrita. “Movimento é literatura. A minha escrita é uma escrita em trânsito”, disse. E, por momentos, Angola e Cabo Verde pareceram encontrar-se nesse lugar sem fronteiras onde a literatura transforma a distância em presença e a ausência em memória. Joaquim Arena falou da literatura como “um dos poucos espaços da nossa liberdade”; Ana Paula Tavares falou da poesia como espaço capaz de recuperar formas de vida ameaçadas pela voragem do mundo moderno. Houve, nas palavras de ambos, uma inquietação comum: o que acontece quando se perde a memória? O que acontece quando se perde a capacidade de ler, de reflectir, de pensar? Falaram de controlo, de vigilância, do incómodo que o pensamento livre provoca nos que detêm o poder. E falaram do escritor como alguém que permanece na linha da frente dessa batalha silenciosa. “O escritor é uma espécie de ‘frente de combate’ contra aqueles que querem cercear a nossa liberdade”, afirmou Joaquim Arena. Ana Paula Tavares lembrou que os poderes não gostam de ser incomodados. E foi nesse cruzamento entre memória e liberdade, entre identidade e escrita, que a conversa ganhou uma dimensão maior do que a própria literatura, obrigando-nos a reflectir sobre o que ainda queremos ou podemos preservar de nós mesmos.

Talvez por isso, noite alta, quando as luzes do Centro de Artes se desvaneceram e Filipa Leal começou a descobrir lugares para as suas palavras, os resistentes da sessão encontraram um lugar cinestésico, imune às leis da gravidade, da cor do arco-íris, que foi colo, afago, doçura e amor. Porque as palavras tinham passado toda a tarde e noite a procurar esse lugar: na vida de Aurora Gaia, nas memórias e canções de Zé da Vesga, nas palavras de dois autores que escreveram a partir da distância, da história e da ausência, e finalmente na música que João Martins e Óscar Graça lhes ofereceram como espaço de escuta. “Ouvir é a maneira mais pura de calar”, dizia o projecto. Terá sido essa a última lição da noite inaugural do FLO: compreender que há palavras que não pedem respostas, pedem presença. Que há memórias que só sobrevivem se forem ditas. Que há viagens que começam muito depois de regressarmos. E que a literatura, quando assim acontece, não termina no momento em que o leitor fecha o livro, nem quando o poema acaba, nem quando a música deixa de se ouvir. Fica. Algures entre a memória e o silêncio. Agora que a cidade dorme, as palavras dormem com ela, certas de terem encontrado o seu lugar.

segunda-feira, 9 de março de 2026

CONCERTO: “Bach e o seu legado: Sonatas para traverso” | Duo Suzanne



CONCERTO: “Bach e o seu legado: Sonatas para traverso”
Duo Suzanne
Com | Teresa Costa (traverso), Katerina Orfanoudaki (cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
07 Mar 2026 | sab | 16:00


O acolhedor espaço do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, cujos aposentos guardam murmúrios literários de um tempo outro, foi palco de um itinerário sonoro que teve como centro gravitacional o mestre supremo do barroco tardio e do contraponto: Johann Sebastian Bach. Em torno do seu génio nasceu e cresceu uma constelação de discípulos e herdeiros que prolongaram a sua linguagem, como se cada um transportasse consigo um fragmento da sua arquitectura musical. Assim aconteceu com Johann Gottfried Müthel, último aluno directo do mestre de Leipzig, cuja escrita permite entrever um horizonte sensível, quase pré-clássico, de uma expressividade capaz de se expandir para além da disciplina contrapontística. Também Johann Philipp Kirnberger, teórico e fiel guardião da tradição bachiana, dedicou a sua vida a sistematizar e preservar o legado do mestre, como quem recolhe num tratado aquilo que primeiro aprendeu pela escuta e pela prática. Entre estes ecos ergue-se ainda a figura singular de Anna Amalie von Preußen, princesa, mecenas e compositora, cuja formação se fez igualmente sob a sombra tutelar de Bach e dos seus discípulos.

Ao encontro deste leque restrito de compositores, o programa apresentado pelo Duo Suzanne, neste que foi o penúltimo concerto da segunda edição do CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar, desenhou uma pequena genealogia sonora, com quatro Sonatas que, como ramos de uma mesma árvore, revelaram a persistência de uma linguagem musical capaz de atravessar gerações, transformando-se sem jamais perder a sua raiz. O concerto foi o culminar de uma residência artística promovida no âmbito do festival, iniciativa que funciona como uma verdadeira marca distintiva ao abrir espaço a jovens formações emergentes através de uma “open call” internacional. Seleccionado entre treze candidaturas, o Duo Suzanne encontrou neste contexto o lugar para amadurecer um programa original, ao mesmo tempo que recebia mentoria de músicos ligados ao festival. O resultado foi o que se ouviu: quatro peças musicais servidas com rigor, imaginação e frescura, atentamente escutadas por um público numeroso que, na intimidade do Museu, soube beber cada compasso com a devoção silenciosa de quem reconhece que a música antiga continua, afinal, intensamente viva.

Ao longo de quase uma hora, o traverso de Teresa Costa desenhou linhas de respiração clara e flexível, deixando cada frase nascer com naturalidade quase orgânica, enquanto o cravo de Katerina Orfanoudaki sustentou e iluminou o discurso com uma elegância rítmica e harmónica de grande delicadeza. Entre ambas estabeleceu-se um diálogo atento, feito de escuta e confiança, o timbre aveludado do traverso entrelaçado na cintilação articulada do cravo. Na cumplicidade musical entre ambas residiu mais do que uma afinidade interpretativa, percebendo-se uma homenagem silenciosa a Suzanne - musa inspiradora que dá nome ao agrupamento - e a tantas outras mulheres cuja voz foi historicamente obscurecida ou apagada. “Suzanne” convoca a memória de Susana, personagem do Livro de Daniel cuja história atravessou séculos de produção artística. A narrativa inspirou músicos e pintores, como na intensa representação de Artemisia Gentileschi, cuja versão de 1610 fixa no olhar de Susana uma angústia que atravessa o tempo. Não é difícil reconhecer, nesse gesto artístico, uma afirmação de resistência feminina contra a violência e a injustiça. Também o Duo Suzanne pareceu dialogar com essa herança simbólica, oferecendo aos presentes um momento musical encantador e legando-lhes uma centelha de esperança num mundo mais justo e melhor.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Zorrinho, aRita, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Bruno M. Franco, Carla Pais, Cátia Cardoso, Cristina Marques, Diana de Oliveira, Elsa Teixeira, Filipa Amorim, Filipa Vera Jardim, Helena Ribeiro, Joana Nogueira, João B. Ventura, José Riço Direitinho, Joaquim Margarido, Lúcia Moniz, Luís Correia Carmelo, Miguel d’Alte, Minês Castanheira, Miriam Gonçalves, Nuno Alexandre Vieira, Paula Mendes Coelho, Pedro Lamares, Pedro Reisinho, Ricardo Santos, Raquel Patriarca, Rita Tormenta, Rodrigo Vieira Dias, Rui Sobral, Sara Dias Oliveira, Sílvia Lima, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vasco Prazeres, Vera Morgado, Vítor Gil Cardeira, Zetho Gonçalves
Parque do Buçaquinho, Museu Júlio Dinis, Jardim dos Campos, Centro de Artes de Ovar e Bar do CAO
20 Set 2025 | sab | 10:00, 14:00 e 21:30


Tradicionalmente o mais exigente, mas também o mais aliciante, o quarto dia do Festival Literário de Ovar voltou a prender a atenção dos amantes do livro e da leitura, pela sua rica e variada oferta. “Patrulha Raposa – Vigilantes da floresta”, escrito por Diana de Oliveira e apresentado por Pedro Reisinho, deu início a uma viagem que teve o seu início no Parque Ambiental do Buçaquinho e viria a terminar, mais de quinze horas depois, no Bar do Centro de Artes de Ovar. Num espaço dedicado à Literatura Infantil, a manhã foi preenchida com uma Oficina de Ilustração dinamizada por aRita, uma sessão de contos com Luís Correia Carmelo e ainda uma Mesa moderada por Helena Ribeiro e que teve num painel constituído por Miriam Gonçalves, Elsa Teixeira e Rodrigo Vieira Dias, três figuras muito especiais. Entre as estratégias para adormecer os mais novos e o poder das ideias em frente da folha em branco, os convidados falaram de livros, das fontes de inspiração dos seus trabalhos, da necessidade da literatura infantil para o crescimento e desenvolvimento infantil, mas também da importância do “aborrecimento” das crianças, da ausência de estímulos que muitas vezes deixam os pais exauridos, mas que as obriga a serem criativas.

Ao início da tarde, no Museu Júlio Dinis, procedeu-se à entrega de prémios da “III Edição do Concurso Literário e de Ilustração Júlio Dinis 2025”, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas Ovar Sul e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Ovar. A mais conhecida “Casa Ovarense” da cidade foi igualmente palco da apresentação do livro “O Flâneur de Paris”, de João B. Ventura, e de uma conversa com o escritor Bruno M. Franco sobre o género policial na literatura portuguesa contemporânea. Simultaneamente, no Jardim dos Campos, decorria a apresentação dos livros “Truz Truz, Abre a Porta, Avestruz”, de Vera Morgado, e “Agora sou capaz”, de Ricardo Santos e Joana Nogueira, com ilustração de Sílvia Lima, a par com uma bem participada Oficina de Ilustração com Nuno Alexandre Vieira e, no espaço fronteiro da Câmara Municipal de Ovar, uma nova representação de “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante” pelos actores da companhia Trigo Limpo - Teatro ACERT, de Tondela. A apresentação de livros teve ainda um último capítulo ao início da noite, num Centro de Artes de Ovar quase lotado, com as atenções a virarem-se para “Cartografia”, “poesia escrita a quatro mãos e dois corações” por Minês Castanheira e Raquel Patriarca, e que resultou num momento de generosa partilha de poemas, afectos e emoções.

Além do momento da manhã referido anteriormente, o programa teve para oferecer mais três mesas de conversa, duas das quais no Museu Júlio Dinis. Rico, vivo, apaixonante, o primeiro desses momentos contou com a moderação de Cátia Cardoso e deu a escutar as impressões de Rita Tormenta, Filipa Vera Jardim e Vítor Gil Cardeira sobre a vaidade e a inveja no seio do complexo mundo da escrita. Em termos muito gerais, Vitor Cardeira falou da escrita como uma doença da qual não é possível livrar-se, no que foi acompanhado por Filipa Vera Jardim, ciente de que “sem livros morreria”. Rita Tormenta admitiu que “ninguém escreve sem um pouco de vaidade” e Filipa Vera Jardim acrescentou que “é preciso saber distinguir a inveja da admiração: narcisos somos todos”. Enfim, sobre o acto da escrita, Vítor Gil Cardeira afirmou que “o escritor constrói e destrói mundos” e que “escrever é uma luta brutal contra a auto-censura”. Uma frase de Agustina Bessa-Luís - “Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia.” - serviu de mote à segunda mesa da tarde. Com moderação de Sara Dias de Oliveira, para quem “escrever é um processo doloroso e um acto de amor”, Miguel D’Alte, José Riço Direitinho e Vasco Prazeres abordaram os temas da amizade e da inveja, do interesse e da distração que as redes sociais constituem (para o bem e para o mal) e, naturalmente, do amor, nas suas mais variadas vertentes. A conversa estendeu-se ao público, com a escritora Raquel Patriarca a fazer notar que “os livros dão algo aos leitores que estes nunca irão pagar”.

A mesa da noite, no Centro de Artes de Ovar, foi beber o tema a uma citação de Raúl Brandão: “Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros.” Foi sobre o ofício da escrita e as muitas reflexões que suscita que se debruçaram as escritoras Carla Pais, Filipa Amorim, Ana Zorrinho, numa conversa moderada por Cristina Marques. Ofício da escrita onde se cruzam os episódios do quotidiano, as personagens saídas de um imaginário fácil de contextualizar mas difícil de explicar, a surpresa com aquilo que vai passando para o papel e um certo grau de loucura. Numa mesa que abriu espaço à leitura de excertos dos livros das autoras, o destaque vai para o conto “O Louco”, de Ana Zorrinho, lido superiormente pela autora e sobre o qual Carla Pais afirmou: “Quem não se arrepiou com este momento, não percebe nada acerca do poder da Literatura”. Outro ponto alto do serão foi a performance “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, com Lúcia Moniz e Pedro Lamares a cruzarem a poesia de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen com as cartas que ambos trocaram ao longo de dezoito anos e que constituem um impressionante retrato social, histórico e moral do Portugal dos anos 60 e 70, o retrato de um país roubado. Já a noite ía adiantada quando, no Bar do CAO, “Poesia A Meias”, de Aurelino Costa & Zetho Cunha Gonçalves, com Aurora Gaia, fechou da melhor forma o penúltimo dia do Festival.

domingo, 21 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 3



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Abel Mota, Ana Carvalho, Ana Sofia Marçal, António Cabrita, António Carlos Santos, Carlos Coutinho, Carlos Nuno Granja, Joana Alegre, Joaquim Margarido, José Fialho Gouveia, José Saro, Luís Correia Carmelo, Mafalda Rocha, Nuno Artur Silva, Paulo Freixinho, Pedro Guilherme-Moreira, Rogério Charraz, Sofia Paulino, Trigo Limpo – Teatro ACERT
Escola Secundária Júlio Dinis, Biblioteca Municipal de Ovar, Museu Júlio Dinis, Escola de Artes e Ofícios
19 Set 2025 | sex | 10:30, 14:30, 18:00 e 21:30

Foi gigante, o terceiro dia do Festival Literário de Ovar, não apenas pela sua dimensão no tempo, mas também pela quantidade de momentos preciosos que encerrou. A companhia Trigo Limpo Teatro ACERT abriu as hostilidades, levando à Escola Secundária Júlio Dinis, a meio da manhã, a peça “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante”. Ao início da tarde, na Biblioteca Municipal de Ovar, Paulo Freixinho orientou uma oficina de leitura e escrita intitulada “Palavras Cruzadas”, e pelas 18h00, o Museu Júlio Dinis foi palco da apresentação do livro “Um Pouco Mais de Sol”, de Abel Mota, uma edição da Guerra e Paz. Neste mesmo espaço, a fechar uma tarde bem preenchida, Pedro Guilherme-Moreira moderou a quarta mesa do Festival, na qual participaram Carlos Nuno Granja, Carlos Coutinho e Ana Sofia Marçal. Incidindo sobre “O Festival Literário e a relação com o território e sua comunidade”, a conversa permitiu partilhar factos, números e curiosidades e reflectir sobre os desafios em torno de Festivais como a Maratona de Leitura da Sertã, o FÓLIO - Festival de Literatura de Óbidos e o FLO - Festival de Literatura de Ovar.

Após o jantar, os passos encaminharam-se para a Escola de Artes e Ofícios onde, a abrir a sessão, Ana Carvalho apresentou o livro “PHOSPHOROS (100 amorfos)", de António Carlos Santos, momento que teve na declamação “comunitária” de poemas do livro um dos seus pontos fortes. Seguiu-se a Mesa 5 do FLO, com os escritores António Cabrita e Nuno Artur Silva a pesarem as palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen - “A cultura é uma das formas de libertação do homem. Por isso, perante a política, a cultura deve sempre ter a possibilidade de funcionar como antipoder”. Com moderação de Joaquim Margarido, os convidados debruçaram-se sobre a escrita como acto político, olharam para o livro como um agente interventivo capaz de suscitar o debate público e político, analisaram um tempo de polarização política e a forma como isso influencia a aceitação da obra dos escritores de hoje e concordaram que, mesmo que o discurso político se faça, muitas vezes, nas redes sociais, também aí pode haver lugar para a literatura. Nuno Artur Silva particularizou a sua experiência enquanto Presidente do canal público de televisão para avaliar os media actuais como espaços culturais e António Cabrita comentou o papel da diáspora e das migrações na redefinição da literatura moçambicana, num país onde o mercado do livro é praticamente inexistente e os jovens escritores cedem facilmente às novas tendências do mercado, abdicando da singularidade da sua escrita.

O concerto “ANÓNIMOS de Abril” fechou a noite da melhor forma, trazendo consigo um conjunto de canções originais e inéditas que trazem para um plano central o nome de mulheres e homens que tiveram a coragem e a ousadia de enfrentar e fragilizar um regime que, durante quarenta e oito anos, explorou e oprimiu o nosso povo. Estreado em de Janeiro de 2024 e inserido nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, o projecto é baseado em textos de José Fialho Gouveia, Aurora Rodrigues (um relato arrepiante da sua experiência de prisão e tortura) e Miguel Carvalho, jornalista e sobrinho de Branca Carvalho (outra das homenageadas do projeto) e conta com a música de Rogério Charraz e as vozes do próprio Charraz e de Joana Alegre. Procurando preservar a memória colectiva do nosso país e ampliá-la com as histórias menos conhecidas daqueles que, nalguns casos, pagaram com a própria vida a luta pelos ideias de liberdade e democracia, o colectivo trouxe-nos palavras fortes e vivas que lembraram  Celeste Caeiro e Aurora Rodrigues, Jorge Alves e o Padre Alberto, Arajaryr Campos e Francisco Sousa Mendes, entre várias outras figuras. O concerto fechou com a sala em pé, irmanada nos ideais de liberdade que nortearam todo o serão, a cantar o hino dos Hinos, “Grândola Vila Morena”.

terça-feira, 18 de março de 2025

TERTÚLIA: “Conversas à Volta do Tanque” | Mafalda Cruz e Iolanda Fontaínhas



TERTÚLIA: “Conversas à Volta do Tanque”
Com Mafalda Cruz e Iolanda Maciel Fontaínhas
Moderação | Joaquim Margarido
Espaços de Pensar - Teias de Sentir
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
08 Mar 2025 | sab | 16:00


Podem as artes plásticas desencadear uma reflexão sobre o papel da Mulher na sociedade, ou sobre o modo como, ainda hoje, o seu papel é (des)valorizado? “Espaços de Pensar – Teias de Sentir”, projecto multidisciplinar levantado do chão pela artista plástica Rosa Bela Cruz, parte ao encontro desta e outras preocupações, “sempre com as artes plásticas como suporte inicial e a temática da Mulher como pano de fundo”. Neste contexto foram programadas, entre outras iniciativas, três “conversas à volta do tanque”, a última das quais teve lugar no Dia Internacional das Mulheres e permitiu ao muito público presente na acolhedora sala do Museu Júlio Dinis escutar as opiniões da médica e sexóloga Mafalda Cruz e da socióloga Iolanda Maciel Fontaínhas. Sob a moderação de Joaquim Margarido, as convidadas desenvolveram importantes considerações à volta do tema “Nem Castradas Nem Invisíveis, Abordagem da Evolução Social e Sexual da Mulher ao Longo dos Tempos”, debatendo conceitos, revelando factos, esgrimindo números, recordando factores diferenciadores do binómio mulher-homem e questionando os mecanismos de apropriação, depreciação e rejeição da Mulher e do lugar que ocupa na sociedade.

“No Ensino Superior, há 54% de mulheres e 46% de homens, com o número de mulheres diplomadas a ser de 58% e de 42% no caso dos homens. Apesar disto, as mulheres com altas qualificações ganham menos 26% do que os homens, em cargos iguais. Também 3/4 das tarefas domésticas são feitas por mulheres e a violência doméstica tem aumentado, com dezenas de mulheres assassinadas por ano. As questões sexuais e sociais, apesar da grande evolução em alguns aspectos, ainda são tabu para a maioria das pessoas. Falar sobre estes assuntos sem discriminações, sem constrangimentos e sem tabús é fundamental.” Colocando o dedo em várias feridas, as palavras de Rosa Bela Cruz na apresentação da sessão serviram de mote a uma conversa livre de preconceitos, enriquecedora a muitos títulos e com um enfoque especial em palavras como influência, autonomia, certeza, afirmação, equidade, assertividade, confiança e empoderamento. Uma conversa que teve como fio condutor “a paz, o pão, habitação, saúde, educação”, temas lançados à discussão por esta ordem.

De Adão e da sua “costela” a Galeno, da Revolução Industrial aos nossos dias, Iolanda Fontaínhas abordou as relações de poder, a dimensão estrutural do género no que toca à violência e de que modo as sociedades se organizam, colocando a mulher numa posição de submissão, abuso e violência. Com o dedo apontado aos discursos sociológicos, religiosos e médicos, a convidada lembrou que a ambiguidade legislativa que reside na própria Constituição da República é promotora de desigualdades que implicam lógicas de relações de poder e que, construídas, naturalizadas e reproduzidas, estão na base de fenómenos como a violência doméstica, cujos números assustadores teimam em replicar-se ano após ano. Sobre esta temática, Mafalda Cruz começou por definir a “Saúde Sexual”, segundo a Organização Mundial de Saúde como “o bem-estar físico, mental e social” em relação à sexualidade, para logo referir a falta de abrangência em matéria de educação sexual em Portugal, “legislada desde os anos 90, mas posta em prática de forma muito precária” nas escolas, com conteúdos insuficientes e baseados numa sexualidade restritiva, virada sobretudo para a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e para a prevenção da gravidez.

No tocante ao “pão”, que o mesmo é dizer “trabalho”, o moderador chamou à discussão a Constituição Portuguesa que, no seu Artigo 59.º (Direitos dos Trabalhadores), consagra “o princípio de que para trabalho igual salário igual”, ao qual Iolanda Fontaínhas faz um reparo, arriscando dizer “salário igual para trabalho de igual valor”. Foi tempo de lembrar as disparidades salariais (que chega aos 770 euros entre homens e mulheres num cargo de topo), o facto de 79% das mulheres assumirem a ida ao médico com os filhos ou as tarefas domésticas serem maioritariamente assumidas pela mulher. Mas também as questões de assédio no local de trabalho, e cujas denúncias, segundo Mafalda Cruz, continuam a não ser valorizadas, com muitas das vítimas a serem descredibilizadas ou silenciadas, com a conivência de uma sociedade que continua a tolerar muitas das situações de abuso. Em matéria de habitação, a médica falou das dificuldades “em usufruir da sexualidade e do prazer se o casal luta para conseguir pagar uma casa” ou a viver em condições precárias “com os filhos no mesmo quarto, pais no quarto ao lado, muitas vezes fragilizados e doentes”, sem tempo ou condições sequer “para uma conversa sem interrupções.” À boleia destas preocupações partilhadas, Iolanda Fontaínhas lembra que “as dinâmicas familiares estão a mudar”, reflectindo-se “numa saída de casa tardia, numa constituição de família tardia, num primeiro filho tardio”.

“Em termos de investigação científica as mulheres estão completamente em desvantagem, porque a maioria dos estudos em saúde inclui homens, apenas, o que significa que as conclusões que tiramos são baseadas na fisiologia do homem”. Quem o diz é Mafalda Cruz, estendendo esta realidade aos campos do diagnóstico e do tratamento (“quando uma mulher tem uma queixa cardíaca, o tempo até ser feito um diagnóstico é superior cinco vezes em relação ao homem”). Ao mesmo tempo, desconstruiu as diferenças na resposta sexual entre homens e mulheres e vincou que “mais importante do que ter desejo é ter prazer”. A conversa encerrou com o tema da “educação”, com Iolanda Fontaínhas a evidenciar a escola como “o lugar seguro para podermos alimentar a nossa curiosidade, mas dependente da capacidade de educadores e professores em fazer dela esse lugar seguro”. Ao longo de duas horas de conversa muito mais se falou, mas fica aqui esta proposta de resumo. Importante, mesmo, é que o facto de tantas mulheres estarem sentadas naquela sala a falar abertamente de si, das suas ideias, do seu corpo, da sua sexualidade, é reflexo das muitas conquistas que foram sendo feitas em lutas travadas ao longo dos tempos.” Todavia, como bem lembrou Iolanda Fontaínhas, “múltiplas conquistas coexistem com múltiplos desafios no tocante à igualdade entre os géneros” e há ainda muito caminho por fazer. Ainda que pequenino, aqui foi dado mais um passo.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (IV)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Ana Cristina Silva, Ana Isabel Marques, António Canteiro, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Beatriz Francisco, Carlos Nuno Granja, Célia Correia Loureiro, Cristina Marques, David Pintor, Diogo Carvalho, Dora Maria Nunes Gago, Emerenciano Rodrigues, Fernanda Cunha, Helena Ribeiro, Inês Viegas Oliveira, Jorge Valentim, João Eduardo Ferreira, José Emílio-Nelson, Lara Xavier, Lauren Mendinueta, Leandro Ribeiro, Luís Aguiar, Manuel Halpern, Patrícia Ribeiro Martins, Paulo Romão Brás, Pedro Almeida Maia, Renata Bueno, Rosário Alçada Araújo, Susana Amaro Velho, Victor Oliveira Mateus, Yana Marques, Zetho Cunha Gonçalves
Parque Ambiental do Buçaquinho | Museu Júlio Dinis | Jardim dos Campos | Centro de Artes de Ovar
21 Set 2024 | sab | 10:00, 14:30 e 21:00


Dia grande. Dia em grande. Por tradição, o sábado é aquele dia que mais dilemas coloca ao público do Festival Literário de Ovar, já que a sua programação é um verdadeiro non-stop de apresentações de livros, conversas, oficinas, histórias contadas e mesas temáticas. Deste dia fizeram parte, ainda, a apresentação da terceira edição do concurso literário e de ilustração Júlio Dinis, uma visita guiada e encenada à antiga vila histórica de Ovar, uma peça de teatro e, a encerrar catorze horas intensas à volta dos livros e da leitura, um sarau de poesia “a meias”. A cafetaria do Parque do Buçaquinho abriu as suas portas ao público para a apresentação do livro “A Arte de Gostar de Ler”, de Carlos Nuno Granja, com a qual teve início o quarto dia do FLO10. Seguiu-se uma mesa temática dedicada à literatura infantil com as autoras Ana Isabel Marques, Inês Viegas Oliveira e Lara Xavier, moderada por Helena Ribeiro. Nela se falou do valor e dos valores que a escrita encerra e se partilharam histórias sobre a arte e o engenho de escrever para os mais novos. Enquanto isso, no verde e fresco espaço exterior, a escritora e artista visual Renata Bueno orientava uma oficina de ilustração na qual crianças e adultos davam asas à sua criatividade. A fechar o período da manhã, as atenções recaíram numa conversa com David Pintor sobre a arte da ilustração e ainda numa sessão de contos pela dupla “O Som do Algodão”.

Após o almoço, o FLO10 deixou o espaço verde do Buçaquinho e mudou-se para o Jardim dos Campos e para o Museu Júlio Dinis com mais uma mão cheia de propostas irrecusáveis. A tarde começou com a apresentação da terceira edição do concurso literário e de ilustração Júlio Dinis, seguindo-se uma mesa temática moderada por Jorge Valentim e que reuniu os escritores Dora Maria Nunes Gago, Lauren Mendinueta e Luís Aguiar para um exercício de reflexão em torno da escrita enquanto espaço de liberdade e de vida. Fernanda Cunha, João Eduardo Ferreira, Manuel Halpern e Paulo Romão Brás apresentaram, de forma brilhantemente encenada, excertos do volume 7 de “A Morte do Artista”, uma “revista literária de periodicidade eventual. José Emílio-Nelson falou do seu livro de poemas “Rosa Canina”, tendo ao seu lado o artista plástico Emerenciano Rodrigues, autor das ilustrações do livro, o poeta e dizedor Aurelino Costa que leu um escrito de Maria Estela Guedes e a poetisa Aurora Gaia que declamou dois poemas. Victor Oliveira Mateus conduziu uma nova mesa temática que juntou Ana Cristina Silva, António Canteiro e Pedro Almeida Maia em torno do processo de transformação de uma folha em branco em livro. Entretanto, no espaço exterior ao Museu, Carlos Nuno Granja apresentava o livro “Tralhas e Coisas do Sr. Loisas”, com ilustrações de Yana Marques, e Rosário Alçada Araújo falava de “Quem Me Dera Ser Assim”, ilustrado por Beatriz Francisco. Uma oficina de ilustração orientada por Nic e Inês e uma visita guiada e encenada à vila histórica de Ovar, por Leandro Ribeiro, fecharam as contas da tarde.

À noite, todos os passos foram dar ao Centro de Artes de Ovar. Diogo Carvalho foi o primeiro protagonista ao apresentar o seu livro “Sol”, vincando que “a Banda Desenhada não é um género, antes é um meio de comunicação.” Presença assídua nas andanças do Festival desde a primeira hora, Cristina Marques moderou a quarta e última mesa temática do dia. Sob o mote de Camões e daquilo a que o nosso maior poeta chamou “caminho da virtude”, o “alto e fragoso” caminho da escrita, as jovens escritoras Célia Correia Loureiro e Susana Amaro Velho partilharam as suas ideias sobre a escrita de ontem e de hoje, com a primeira a afirmar que “estamos a viver uma época dourada no sentido em que há muito interesse por parte dos leitores portugueses na literatura portuguesa” e a considerar iniciativas como o FLO a prova disso mesmo pela possibilidade que oferece aos leitores de “estar perante autores vivos, autores que ainda podem discutir a sua obra”. Perante uma sala completamente esgotada, a Yellow Star Company representou a peça “A Noite”, de José Saramago, com encenação e adaptação de Paulo Sousa Costa. Através dela, o público recuou à noite de 24 para 25 de Abril de 1974, mergulhando no espaço da Redacção do “Jornal de Lisboa” e vivendo os sentimentos opostos daqueles que manifestavam a sua fidelidade ao regime fascista e dos outros que sentiam nascer ali “o dia inicial inteiro e limpo”. Com os ponteiros do relógio muito para lá da meia noite, Aurora Gaia, Aurelino Costa e Zetho Cunha Gonçalves encerraram o programa com um momento de “Poemas a Meias”.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

EXPOSIÇÃO: "L - Luta e Liberdade"



EXPOSIÇÃO: “L - Luta e Liberdade”,
de Adélia Oliveira, Filomena Bettencourt, João Católico, Maria Branca Silva, Maria José Valente, Ricardo Pinho, Sara Alves, Vitória Castanho
Coordenação | Maria João Cartaxo
Museu Júlio Dinis
23 Mar > 21 Set 2024


Chama-se “Projeto L - Livros, Luta e Liberdade” e foi a forma encontrada pelo Agrupamento de Escolas de Ovar Sul para, com o apoio e envolvimento da Câmara Municipal de Ovar, se associar às comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Alertar para a necessidade diária e premente de proteger a liberdade e a democracia é um dos seus objectivos primordiais, dele fazendo parte um conjunto de iniciativas que, das mais variadas formas, convidam à participação e à cidadania activa dos ovarenses. Cinema, teatro, dança, música, literatura e artes plásticas são vectores de um projecto que traz para primeiro plano a liberdade de expressão e faz de cada artista um mensageiro da reflexão crítica em prol da sociedade. Inscreve-se nesta linha a exposição “L - Luta e Liberdade” - assim como as visitas orientadas, performances e tertúlias que lhe estão associadas -, reunindo no Museu Júlio Dinis um conjunto de trabalhos desenvolvidos por docentes / artistas do Agrupamento. Uma dessas iniciativas foi a visita orientada e comentada pelos autores, realizada ao final da tarde do dia 29 de Maio, e que ofereceu a possibilidade aos participantes de terem uma outra visão sobre os trabalhos, descortinar os seus significados e perceber os diferentes processos criativos nos quais se baseiam.

Das palavras iniciais, proferidas pela coordenadora do projecto, Maria João Cartaxo, infere-se uma grande cumplicidade entre aqueles que abraçaram o desafio de se juntarem ao projecto e de dar corpo à exposição. Adélia Oliveira, a primeira convidada a falar do seu trabalho e da forma como se inscreve no ideário de Abril, oferece-nos uma imagem poética de libertação, a partir de duas figuras estilizadas que dialogam entre si e com o espaço exterior do Museu. É uma peça muito bela, passível de ser lida de forma metafórica graças ao antes e depois, ao dentro e fora ou ao preto e branco e à cor que nela se evidenciam. Filomena Bettencourt opta, através da pintura, pela conjugação de várias expressões artísticas, tomando como fonte de inspiração os poemas “Livre”, de Carlos de Oliveira, e “As Palavras”, de Manuel Alegre, dois hinos à liberdade de pensamento, enquadrados pelo lápis azul da censura e pelos cravos que brotam dos canos das armas. Maria Branca Silva propõem uma leitura diferente das palavras “liberdade”, “luta”, “expressão”, “igualdade”, “justiça e “democracia”, bem como da frase “ninguém cala esta revolta”. É esta frase que, dialogando com o cravo que se vê a ficar sem pétalas, a perder a vida e a cor, nos lembra que a liberdade nunca é um valor garantido e que precisa de ser cuidada diariamente.

Num outro espaço do Museu Júlio Dinis, Ricardo Pinho apresenta um trabalho de 2006 desenvolvido de forma quase artesanal, podendo relacionar-se com um mosaico bizantino ou com um bordado em ponto de cruz. Parte integrante de uma série de trabalhos de cariz pessoal, foi escolhida pelo seu autor pelo sentimento de raiva que dele transparece e que funciona como resposta ao esquecimento a que parecem votadas as conquistas de Abril. Vitória Castanho junta num mesmo trabalho a paixão pela fotografia e aquele que, no dizer da artista, é o Herói do nosso país: Salgueiro Maia. Por fim, Maria José Valente traz-nos um conjunto escultórico em arame, composto por um vasto conjunto de figuras que, de olhos e bocas bem abertos, parecem clamar que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Ausente da visita, João Católico é o autor do logótipo do projecto e desenvolveu um vídeo de apresentação que pode ser visto na sala a abrir a exposição. Também ausente, Sara Alves oferece-nos uma malha desenhada sobre papel, na qual a bidimensionalidade adquire um tom tridimensional. É um trabalho de grande impacto visual, que pede que atentemos no detalhe e que retira a sua energia da persistência e do gesto, duas “virtudes adormecidas” que se afirmam e que importa valorizar nestes tempos imprevisíveis que são os nossos.

sábado, 9 de abril de 2022

FILME-ENSAIO: [sem título]



FILME-ENSAIO: [sem título],
de Paula Caspão
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
08 Abr 2022 | sex | 18:00


Patente ao público no Museu Júlio Dinis até ao próximo dia 01 de Maio, a exposição “Desencapados”, de Felipe Marcondes da Costa, conheceu, ao final da tarde de ontem, um momento particularmente significativo com a apresentação do Filme-ensaio de Paula Caspão. Sem perder de vista matérias que são do seu particular interesse - “entre práticas de arquivo e formas de desenfadamento de tudo o que nas nossas vidas e trabalhos quotidianos continua a performar violências colonizadoras” -, a artista, investigadora e docente no Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa procura, através do filme, dialogar com o material expositivo, abrindo espaços de reconhecimento e interpretação dos objectos e ampliando o leque de leituras possíveis.

Com uma duração ligeiramente superior a vinte e quatro minutos, o filme não assume (mas também não rejeita) a chancela de “objecto artístico”. A sua natureza estetizante aproxima-o de “Desencapados”, pelo que tem de transgressor e livre, mas também pelo pendor de estranheza que provoca no espectador e pela forma como alerta para uma certa visão unidireccional do funcionamento das sociedades. É, nessa medida, um objecto “de pensamento e para o pensamento”, assente em camadas (algumas das quais analógicas, cujos suportes foram colocados à disposição dos próprios espectadores), convocando e estimulando a discussão. Outra ponte evidente entre os objectos que compõem a exposição e o filme-ensaio reside na dimensão marcadamente política de ambos, denunciando práticas reiteradas de violência, cujo cariz normalizador acentua e tende a perpetuar a matriz imperialista que nos ofende.

À exibição do filme seguiu-se uma animada tertúlia, na qual Paula Caspão e Felipe Marcondes da Costa assumiram as despesas da conversa. Na mesa estiveram também Vitória Auer e Francisco Silva, co-fundadores da “maio maio”, editora independente sediada em Ovar, e que são também os curadores desta exposição e programadores das várias iniciativas a ela associadas. A escassez de público favoreceu a proximidade e cumplicidade entre os presentes, abrindo espaço à convivialidade e a uma muito produtiva troca de ideias. O quanto de epidérmico há no filme-ensaio e que faz dele um objecto inacabado, a necessidade de explorar e contestar o lado violento que se abriga na legitimação das instituições, os condicionalismo que nos levam a olhar para um objecto híbrido e a hierarquizá-lo, a precariedade e a estranheza como motores de desenvolvimento do pensamento, enfim, a arte nas suas múltiplas formas e interpretações, foram tópicos de discussão ricos, vivos e livres. Belos momentos de partilha a conservar no baú das boas e gratas memórias.

domingo, 29 de novembro de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #18



1. Numa altura em que Ovar celebra a inscrição do “Cantar dos Reis” no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, está patente ao público no Museu Júlio Dinis uma exposição dedicada a António Dias Simões, dilecto filho da terra e grande arauto da tradição do Cantar dos Reis, para além de historiador, poeta, dramaturgo, comediógrafo, pintor, miniaturista e calígrafo. Em “150 Anos do Nascimento de António Dias Simões 1870 – 2020”, o visitante é convidado a recuar a um tempo determinado pela memória, revivendo com “o devido respeito e imensa gratidão a grandeza deste homem e a mística que alimentava naquelas obras que o projectavam na comunidade vareira”. Fotografias de época, recortes de jornais, correspondência vária e uma detalhada linha cronológica constituem o cerne desta exposição que se irá manter aberta ao público até ao dia 03 de Abril do próximo ano.

2. Instalada no primeiro andar do Centro de Memória, em Vila do Conde, a Galeria Julio assinala 118 anos do nascimento de Julio-Saúl Dias com a exposição “Julio e a memória da arte popular”. Patente até 09 de Maio do próximo ano, a exposição integra um conjunto de óleos, desenhos e peças de cerâmica da coleção da Câmara Municipal de Vila do Conde, da autoria de Julio e doados por José Alberto Reis Pereira, filho do artista. Trata-se de peças desconhecidas da maioria do grande público onde se inclui um conjunto de figurado em barro de Estremoz. Esta nova proposta expositiva contribuirá certamente para dar a conhecer uma faceta para muitos desconhecida de Julio: o seu enorme interesse pela arte popular e a atividade de colecionador. Assim, nesta exposição, será possível ao visitante conhecer obras de cerâmica que o próprio executou e que também coleccionou, o que permitirá explorar as relações entre a sua obra plástica e a rica tradição popular de cerâmica em Portugal.

3.  O Circuito Aberto de Arte Pública de Paredes é o resultado de uma iniciativa da Câmara Municipal de Paredes que visa dotar a cidade de obras de arte geradoras de um percurso urbano que ilustra a diversidade de linguagens da arte contemporânea e que exprime diferentes possibilidades de intervenção no espaço público. Composto por 18 obras criadas por reconhecidos artistas nacionais e internacionais – com destaque para João Cutileiro, Fernanda Fragateiro, Rui Chafes, António Olaio, José Pedro Croft e Artur Fontinha -, o circuito configura um património artístico de grande atualidade, criado no quadro da operação de regeneração urbana e de dinamização cultural que o núcleo urbano de Paredes conhece com vista à sua definição enquanto Cidade Criativa focada no Design de Mobiliário. O projeto é da autoria do arquiteto Belém Lima e a sua implementação ficou a cargo da Escola de Artes da Universidade Católica, através do Centro de Investigação em Ciência e Tecnologia das Artes.