Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Centro de Artes de Ovar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Centro de Artes de Ovar. Mostrar todas as mensagens

domingo, 4 de outubro de 2026

PERFORMANCE POÉTICA E MUSICAL: “As Palavras Procuram Lugar” | Filipa Leal



PERFORMANCE POÉTICA E MUSICAL: “As Palavras Procuram Lugar”
Ideia original | João Martins
Com | Filipa Leal (voz), João Martins (composição, teclados, sopros), Óscar Marcelino da Graça (piano)
XII Festival Literário de Ovar
Centro de Artes de Ovar
16 Set 2026 | qua | 22:30


Há um gesto feliz em inaugurar um Festival Literário perguntando às palavras se querem abandonar o lugar que lhes está destinado. “E se as palavras procurassem um outro lugar?” foi a pergunta que deu origem à criação de João Martins, cuja estreia absoluta teve lugar no Centro de Arte de Ovar. Terno e generoso, frequentemente brilhante, o espectáculo preferiu pôr as palavras em trânsito e deixar aos espectadores a tarefa de responder à questão. Filipa Leal trouxe consigo cidades esquecidas, rios exactos, quintas-feiras adiadas, corpos sem intervalo, aves que recusam pousar no coração, poetas que não aceitam que lhes cortem a língua. João Martins, nos teclados e sopros, e Óscar Marcelino da Graça, ao piano, fizeram o resto. Longe de acompanharem os poemas, no sentido subalterno que a palavra “acompanhamento” tantas vezes encerra, preferiram por-se ao lado de Filipa Leal e escreverem com ela. Houve poemas que a música empurrou para a vertigem e outros que obrigou a respirar mais devagar. Houve palavras que pareceram nascer do silêncio e silêncios que adquiriram uma densidade quase verbal. O poema tornou-se música não porque tivesse sido musicado, mas porque se revelou feito também de ritmo, pausa, repetição, respiração. E a música tornou-se escrita porque inscreveu nos poemas uma outra sintaxe, feita de avanços e recuos. Nesse território comum, a premissa “ouvir é a maneira mais pura de calar” deixou de ser verso para se tornar método.

Se fosse possível retirar da noite um único poema, ele talvez começasse numa janela. Ela diria: sou uma cidade esquecida. Ele responderia: sou um rio. Entre os dois haveria ar, telefone, mãos libertas e a dificuldade imensa de dizer adeus. Depois chegaria uma quinta-feira - não esta, a próxima - porque o amor precisa de tempo extra para arranjar o cabelo, o coração, a lista do que ainda há por fazer. Paris seria talvez demasiado cara; Guimarães serviria. E, se nem Guimarães fosse possível, haveria palha, cordas, lona, uma cabana aprendida no Youtube e a esperança de encontrar um lugar seguro. Mais adiante, esse poema atravessaria todas as casas que já não são as mesmas, todas as camas, cidades, línguas, músicas, crenças e paisagens que mudámos para descobrir que mudar quase tudo pode ser uma forma de permanecer no mesmo lugar, no interior de alguém. O corpo, entretanto, dançaria por dentro, sem intervalo, até ao fim. E o poeta, noctívago, pediria que não lhe cortassem a língua, porque há coisas que só podem ser salvas se forem ditas. Nos dias tristes, contudo, não se falaria de aves; pedir-se-ia lume como quem pede um coração novo. E, no limite desse poema, apareceria a morte, não como acontecimento mas como ensaio: morrer muitas vezes, por medo de morrer, dormir virado para o lado que permita continuar vivo mais uma noite. Talvez seja esta a súmula secreta dos textos trazidos a Ovar: tudo o que amamos contém já a ameaça da perda, e tudo o que perdemos continua, de alguma maneira, em busca do lugar certo onde a palavra melhor se possa exprimir.

Há na autora a tentação do quotidiano, da frase sentenciosa, da pequena revelação moral, como se a banalidade das coisas - o supermercado, o IRS, o computador, o cabelo, os dias da semana - se contentasse em anunciar uma profundidade que o poema não chega a construir. A observação pode até ser pertinente enquanto exercício íntimo de leitura, mas o palco introduz uma perturbação decisiva nessa economia. A frase deixa de ser apenas frase: ganha voz, duração, respiração; a sentença pode desfazer-se em música; a imagem, que na página parece querer encerrar um sentido, pode, no palco, permanecer aberta porque o som se recusa a fechá-la. Não se trata de a música absolver a poesia, mas de lhe revelar zonas que a leitura silenciosa pode deixar em surdina. Filipa Leal, João Martins e Óscar Marcelino da Graça levaram-nos a descobrir que estes poemas, tão povoados de coisas concretas, são também poemas de intervalos, seja entre duas pessoas, entre uma cidade e um rio, entre o amor e a sua recusa, entre a vida e a morte ou entre aquilo que se diz e aquilo que apenas se escuta. Os dois músicos perceberam-no com uma delicadeza rara. Não cobriram os poemas, antes abriram-lhes espaço. E Filipa Leal, ao dizê-los, pareceu procurar esse espaço com o público. As palavras tinham, afinal, encontrado outro lugar. Não no interior dos livros, mas no lugar preciso onde a literatura deixa de ser apenas palavra e arrasta consigo a emoção.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

CONCERTO: "Ether Sculptures" | Hélder Bruno



CONCERTO: “Ether Sculptures”
Com | Hélder Bruno (piano e composições), Jorri (baixo eléctrico), Surma (teclados, sintetizadores e guitarra eléctrica), Iúri Oliveira (bateria e percussões), Maria Redes Martins (violoncelo)
XII Festival Literário de Ovar
Centro de Artes de Ovar
20 Set 2026 | dom | 18:00


Terceiro trabalho discográfico de Hélder Bruno, “Ether Sculptures”, encerrou no Centro de Artes de Ovar a XII edição do Festival Literário de Ovar com uma proposta que procurou dar corpo ao que, por natureza, é imaterial. Ao piano, o compositor teve a seu lado Jorri, no baixo e direcção musical, Surma, na electrónica e guitarra, Iúri Oliveira, na bateria e percussão, e a promissora violoncelista Maria Redes Martins. A formação reflecte a própria natureza de uma música que sabe cruzar, sem se deixar aprisionar por nenhuma delas, linguagens do jazz, do rock alternativo, da música erudita e experimental e mesmo algumas ressonâncias do fado. Há neste terceiro álbum um Hélder Bruno mais seguro da sua linguagem e mais disponível para explorar as possibilidades do som. A melodia convive com a textura, a delicadeza com a tensão, a estrutura com a liberdade. Mais do que exibir referências, o compositor parece assimilá-las e transformá-las numa escrita própria, em que o timbre deixa de ser mero atributo do instrumento para assumir uma função estrutural. O piano continua a ser o centro, mas já não é o limite: à sua volta, a música ganha espessura, profundidade e movimento.

É na execução ao vivo que a ideia de “esculturas no éter” encontra a sua tradução mais convincente. A electrónica de Surma prolonga e desfigura o piano; a percussão de Iúri Oliveira introduz uma pulsação física, por vezes inquieta; o baixo de Jorri dá gravidade a uma música que gosta de pairar; e o violoncelo de Maria Redes Martins, ainda que surgindo só a espaços, acrescenta uma dimensão orgânica e expressiva ao conjunto. Em “In2Between”, talvez um dos melhores exemplos da estética do álbum, a música instala-se precisamente num território de fronteira, entre apaziguamento e tensão, tonalidade e ruído, contenção e transgressão. Nem tudo, porém, precisa de ser traduzido em “paisagem” ou “imagem”, como a própria apresentação do projecto por vezes parece sugerir. Há momentos em que o conceito de música imersiva ameaça tornar-se demasiado abrangente e condicionar a escuta. Os instantes mais fortes são aqueles em que “Ether Sculptures” se liberta dessa obrigação de representar e deixa simplesmente o som acontecer, com a sua densidade, as suas fissuras e os seus contrastes. É então que a metáfora escultórica deixa de ser um conceito promocional e passa a ser uma realidade musical, acrescentando, retirando, sobrepondo, criando volume e espaço através do tempo.

A escolha de “Ether Sculptures” para encerrar o Festival Literário revelou-se, por isso mesmo, particularmente feliz. Depois de dias dedicados à palavra, à narrativa e à imaginação, a música de Hélder Bruno propôs uma espécie de literatura sem palavras, capaz de sugerir ambientes, criar tensão e deixar ao ouvinte a tarefa de completar o sentido. A ligação à tradição da música programática não está tanto em contar histórias, mas em abrir possibilidades narrativas. Os títulos podem orientar a escuta, mas não a determinam; as imagens podem surgir, mas não são impostas. É nesse espaço entre o que a música diz e aquilo que apenas deixa entrever que o projecto encontra a sua maior força. O Hélder Bruno que se apresentou em Ovar parece, assim, ter chegado a uma fase mais consistente do seu percurso: uma fase em que as referências se tornam menos visíveis porque já fazem parte de uma linguagem própria. No final, fica uma matéria paradoxal - invisível, efémera, impossível de conservar -, mas suficientemente densa para permanecer. A escultura desfaz-se no instante em que o som termina; fica, porém, a memória do belo, graças à forma que chegou a ter.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

CERTAME: XII Festival Literário de Ovar - Dia 5



CERTAME: XII Festival Literário de Ovar
Ágata Pereira, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Carlos Nuno Granja, Cristiana Rodrigues, Hélder Bruno, Iuri Oliveira, João Pedro Vala, Jorry, José J. Cabral, Mara Domingues, Maria Martins, Marisa Lemos, Miguel Gouveia, Rafael Gallo, Rui Guedes, Surma, Teresa Carvalho, Zetho Cunha
Parque Urbano de Ovar, Bar do CAO e Centro de Artes de Ovar
20 Set 2026 | dom | 10:00 e 15:00


Há sempre uma espécie de melancolia no último dia de um Festival. Em Ovar, no passado domingo, ela foi-se insinuando devagar, entre livros, desenhos, histórias e conversas, como se ninguém se atrevesse a dar por adquirido que a festa estava a chegar ao fim. O Parque Urbano recebeu as primeiras palavras do dia, com a apresentação de “Sr. Loisas - A biblioteca itinerante é bastante extravagante”, de Carlos Nuno Granja, ilustrado por Yana Marques. Seguiu-se uma oficina de ilustração de Cristiana Rodrigues e uma conversa moderada por Rui Guedes e dedicada à mediação da leitura. Marisa Lemos, Ágata Pereira e Mara Domingues, as convidadas desta penúltima mesa do FLO, falaram da escrita como lugar de humildade, da leitura como encontro e das histórias como instrumentos capazes de nos tocar antes mesmo de sabermos exactamente porquê. “A criança lê pelos ouvidos”, lembrou Marisa Lemos. Ágata Pereira haveria de dizer que, mesmo se tivesse escrito vinte livros, não abdicaria nunca de ser professora. E Mara Domingues deixou uma ideia particularmente bonita: um livro pode ser apenas uma história que nos soube bem; não tem necessariamente de carregar consigo uma moral. Depois, os contos de Miguel Gouveia prolongaram essa manhã em que as palavras ainda hesitavam em despedir-se.

À tarde, já no Bar do CAO, a literatura ganhou outros contornos. “Cinzas & Sudário”, de Aurelino Costa, abriu caminho para uma “Poesia A Meias”, partilhada pelo próprio autor, com Zetho Cunha Gonçalves e Aurora Gaia, num encontro em que a palavra poética encontrou uma particular dimensão de voz, respiração e presença. Mas seria na última mesa do Festival, moderada por Teresa Carvalho, que a conversa haveria de se deter sobre esse território onde a literatura respira entre o íntimo e o colectivo. João Pedro Vala falou de uma literatura mais próxima da vírgula do que do ponto de exclamação, um espaço de respiração e não de exaltação. Rafael Gallo lembrou o perigo dos pontos de exclamação quando se pretende dar demasiado peso às frases e falou do medo de perder a casa ou o emprego de que se alimentam as narrativas neofascistas. José J. Cabral reclamou para os escritores a responsabilidade de reflectirem a verdade dos seus países e contrariarem as narrativas institucionais: nem tudo o que vemos, disse, é postal ilustrado. Entre o manguito e a vírgula, entre a História que herdámos e aquilo que ainda precisamos de reinventar, ficou a literatura como lugar de confronto, mas também de conforto e transformação.

A música reservava uma surpresa para o final de um programa que, ao longo de cinco dias, teve tudo para agradar a todos. “Ether Sculptures”, de Hélder Bruno, encerrou o Festival Literário de Ovar como se o fim pudesse, afinal, ser uma outra forma de começo. No palco, piano, baixo eléctrico, teclados, guitarra, sintetizadores, bateria, percussões e violoncelo construíram uma matéria narcadamente sensorial. Hélder Bruno, acompanhado por Jorri, Surma, Iúri Oliveira e Maria Redes Martins, levou o público para esse território onde o som deixa de ser apenas som e passa a ser paisagem, memória, emoção. Foi, em grande medida, a despedida perfeita para um Festival feito de palavras: depois de tantos livros, autores, leitores, perguntas e respostas, restava aquilo que talvez seja mais difícil de nomear. Uma atmosfera. Uma vibração. Qualquer coisa que permaneceu dentro de nós quando as cadeiras começaram a esvaziar-se e as luzes se apagaram. Se uma imagem vale mil palavras, como dizia a apresentação do espectáculo, talvez uma música possa valer mil imagens. E naquela última hora, Ovar pareceu guardar dentro de si todas elas.

Foi assim que terminou a XII edição do Festival Literário de Ovar: sem um verdadeiro ponto final, porque os livros não sabem terminar assim, nem as histórias, nem as conversas que ficam a trabalhar dentro de quem as ouviu ou nelas participou. Escritores e leitores despediram-se da cidade, guardando consigo aquilo que os festivais verdadeiramente deixam: frases impossíveis de esquecer, outras tantas perguntas, encontros que continuam para lá destes dias inesquecíveis e a sensação rara de ter pertencido, por instantes, a uma comunidade reunida em torno da palavra. Depois, começa o silêncio. A cidade regressa ao seu ritmo habitual, os lugares onde durante dias se ouviram vozes ficam novamente à espera, instala-se aquele vazio agridoce que acompanha todas as despedidas felizes. O festival acaba, mas Ovar fica com a memória do que aconteceu e com a longa, quase insuportável espera pelo dia em que os livros voltarão a ocupar a cidade, as palavras tornarão a atravessar praças e ruas e alguém voltará a dizer que é hora de recomeçar.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

CONCERTO: Fourward | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Fourward
Com | Simão Duque (fliscorne), José João Viana (guitarra eléctrica), Gonçalo Cravinho Lopes (contrabaixo), Tomás Alvarenga (bateria)
Ovar em Jazz 2026
Bar do Centro de Artes de Ovar
11 Abr 2026 | sab | 17:00


No espaço informal do Bar do Centro de Artes de Ovar, a abertura do último dia do Ovar em Jazz 2026 esteve a cargo dos bracarenses Fourward, quarteto que tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais inquietas da nova cena jazzística nacional. Longe de qualquer ortodoxia, o grupo apresentou-se com a confiança de quem já encontrou um léxico próprio, ainda que permanentemente aberto a novas ideias e conceitos. A música de “Freedom”, o seu trabalho de estreia, serviu de eixo ao concerto, permitindo perceber diferentes formas de deriva, expansão e confronto de linguagens em temas como “Colmeia”, “Assobio”, Gruta”, “Deicida” ou o tema que dá nome ao álbum. Desde o primeiro instante, foi evidente que a promessa de “reinvenção” do jazz não seria aqui um mero artifício promocional, antes uma prática concreta de desconstrução, sustentada numa recusa deliberada do academismo e numa escuta atenta do presente. Próximo, ruidoso, por vezes disperso, o ambiente do Bar do CAO acabou por favorecer essa abordagem, permitindo que o som se infiltrasse de forma orgânica no espaço, sem a solenidade que tantas vezes cristaliza o género.

A instrumentação clássica - fliscorne, guitarra eléctrica, contrabaixo e bateria - funciona, no caso dos Fourward, como ponto de partida e não como limite. Simão Duque explorou o fliscorne com um fraseado que oscila entre o lirismo contido e um conjunto de incisões rítmicas, enquanto José João Viana, sem fugir à tentação de um virtuosismo que lhe é inato - o futuro abre-se, luminoso, a este enorme guitarrista -, pôs no ar uma delicada teia de texturas e camadas, em diálogos profícuos com o pulso colectivo. Gonçalo Cravinho Lopes assegurou um contrabaixo simultaneamente estruturante e maleável, muitas vezes ancorado em padrões repetitivos a evocar tanto o hip-hop como certas linguagens electrónicas. Já Tomás Alvarenga revelou-se peça-chave na arquitectura sonora, graças a uma bateria precisa e inventiva, criando um campo expandido onde as composições tiveram espaço para respirar. Houve, no modo como o quarteto soube trabalhar o groove e a repetição, uma clara filiação geracional: o loop deixou de ser vício para se tornar dispositivo expressivo, abrindo espaço a uma escuta mais dilatada.

O concerto em Ovar confirmou os Fourward como parte de um movimento mais amplo, mas também como entidade autónoma, difícil de encaixar em categorias estanques. Se há algo que se afirma como marca distintiva do projecto é a recusa em escolher entre tradição e modernidade. Percebe-se que o repertório nasce tanto de uma urgência de palco como de um trabalho mais reflectido em residência, e essa dualidade traduz-se numa música que alterna entre momentos de grande coesão e outros de risco calculado. Nem todas as passagens atingiram o mesmo grau de intensidade - houve secções onde a exploração tímbrica se prolongou além do necessário -, mas mesmo aí persistiu a sensação de procura genuína. Os Fourward estão ainda a mapear o seu território, fazendo-o com uma clareza de intenções rara, firmes no propósito de avançar, sempre, sem olhar em demasia para trás. Enquanto lá fora o vento fez questão de soprar rijo, parecendo querer levar consigo a novidade que começa a pintar de verde as árvores e os campos, foi no coração do Bar do CAO que a verdadeira “revoada” se fez sentir, num misto de intensidade, emoção e liberdade.

terça-feira, 14 de abril de 2026

CONCERTO: Oxímoro | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Oxímoro
Com | João Martins (bateria, sintetizador, caixa de ritmos), Gabriel Neves (saxofone soprano), Daniel Dias (trombone), Nuno Trocado (guitarra eléctrica), Fernando Rodrigues (sintetizador), Laura Rui (voz e sintetizador)
Ovar em Jazz 2026
Bar do Centro de Artes de Ovar
10 Abr 2026 | sex | 23:00


Foi no cair da noite que o terceiro dia do Ovar em Jazz encontrou o seu momento mais desassombrado, com a apresentação de “Oxímoro”, projecto de João Martins, compositor e instrumentista que tem sido um dos grandes motores deste festival desde a primeira hora. Misto de lucidez e ousadia, o concerto afirmou-se como um laboratório vivo de tensões instáveis e equilíbrios precários, à altura do que de melhor podemos usufruir em matéria de jazz. Se, na tertúlia / escuta comentada de Maio de 2025 [AQUI], o músico havia exposto ao detalhe a arquitectura conceptual do álbum, aqui foi o corpo sonoro que tomou a dianteira, libertando-se de explicações para se afirmar numa linguagem de permanente risco e reinvenção. Desde os primeiros instantes, tornou-se claro que este sexteto não vinha para fazer concessões. Ora pulsante ora fragmentária, a bateria de João Martins assumiu-se como eixo catalisador de um discurso onde o inesperado recusou ser excepção, abrindo caminho a um fluxo sonoro que oscilou entre momentos de suspensão rarefeita e uma densidade quase caótica.

A instrumentação alargada revelou-se determinante na construção desta narrativa. Gabriel Neves, no saxofone soprano, desenhou linhas com tanto de abrasivo como de insinuante, enquanto Daniel Dias trouxe ao trombone uma fisicalidade rugosa, frequentemente em confronto directo com a guitarra eléctrica de Nuno Trocado, cujo registo oscilou entre texturas saturadas e subtis incursões atmosféricas. Dividida entre a voz e o sintetizador, Laura Rui evitou qualquer lirismo óbvio, optando antes por vocalizações fragmentadas, quase espectrais, integradas num tecido electrónico que Fernando Rodrigues ajudou a expandir com camadas de síntese ora envolventes, ora dissonantes. O resultado foi um contínuo em mutação, onde ritmos quebrados, loops insinuados e explosões súbitas coexistiram numa espécie de improvisação guiada, mais próxima de um “acto de fé” colectivo do que de uma execução estritamente planeada.

Não sendo música para todos os gostos e públicos - e ainda bem que assim é -, “Oxímoro” afirma-se como uma experiência estética exigente, que se impõe pela negação de uma certa linearidade e lança o desafio ao público a que abdique de todas e quaisquer referências estáveis. Momentos há em que a turbulência sonora parece roçar o colapso, com a bateria a disparar rajadas em doses industriais e os sintetizadores a distorcerem o espaço auditivo até ao limite, mas é precisamente nessa vertigem que o projecto encontra a sua coerência interna. Tal como nas melhores expressões do “free jazz”, o concerto não buscou sustentação na desobstrução por mero efeito ou acaso, antes partiu ao encontro de novas formas de articulação entre som, silêncio e gesto. No final, ficou a certeza de termos assistido a algo irrepetível, um objecto artístico em permanente devir que, fiel ao seu título, fez da contradição não um obstáculo, mas o seu mais fértil princípio criativo.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

CONCERTO: Anna Setton | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: Anna Setton
Com | Anna Setton (voz e guitarra), Edu Sangirardi (piano), Pedro Santos (bateria)
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar – Caixa de Palco
08 Abr 2026 | qua | 21:30


A abertura do Ovar em Jazz 2026 ficou marcada por um concerto de assinalável coerência estética e rara delicadeza expressiva, protagonizado por Anna Setton. A viver há três anos no nosso país, a cantora e compositora brasileira apresentou-se no ambiente intimista da Caixa de Palco do Centro de Artes de Ovar exibindo uma maturidade artística consolidada ao longo de mais de uma década e meia de um percurso que cruza o jazz, a bossa nova e a MPB. Desde “Sim”, sugestivo tema de abertura de um concerto afirmativo a muitos títulos, tornou-se evidente a solidez de uma linguagem própria, construída tanto na vivência dos clubes de São Paulo como na experiência internacional ao lado de nomes maiores da música brasileira. A sua voz timbrada, aconchegante e calorosa, revelou uma capacidade invulgar de transmitir emoções sem recorrer a excessos, privilegiando antes uma contenção expressiva que se traduziu numa proximidade quase confidencial com o público. Num ambiente descontraído, o concerto desenrolou-se com uma fluidez narrativa notável, cada tema como prolongamento natural do anterior, num equilíbrio subtil entre originalidade e tradição.

Acompanhada ao piano por Edu Sangirardi e com Pedro Santos na bateria, Anna Setton tirou o maior partido de um suporte instrumental simples, mas de uma enorme versatilidade e cumplicidade. O trio destacou-se pela forma como soube trabalhar o espaço e o silêncio, evitando qualquer tentação de virtuosismo gratuito em favor de uma construção sonora coesa, feita de elegância e bom gosto. Depurados e minuciosos, os arranjos permitiram evidenciar tanto a sofisticação harmónica como a riqueza rítmica de temas como “Morena Bonita”, “Ponta de Areia”, “Canto de Aruanda” ou “Revoada”, vertidos com naturalidade numa linguagem jazzística contaminada, no melhor sentido, pelos ecos do xote e do choro, do forró e do baião. Parceiro criativo de longa data, Sangirardi revelou-se peça central na arquitectura do concerto, oferecendo intervenções de grande musicalidade, enquanto o diálogo rítmico com a bateria sustentou com discrição e firmeza a dinâmica do grupo. Nos momentos em que Anna Setton tocou a solo ou pousou a guitarra, a sua presença cénica ganhou uma nova dimensão, mais solta e corporal, aprofundando ainda mais a ligação com o público.

Num registo de elegância discreta e profunda consistência artística, o trio ofereceu um espectáculo que, mais do que impressionar, soube permanecer, prendendo o público pela qualidade e sensibilidade das interpretações. Cuidadosamente escolhido, o repertório percorreu temas originais dos três álbuns anteriores da cantora (e do próximo que está quase a chegar), para além de revisitar clássicos como “É Preciso Perdoar”, “Carinhoso”, “Chega de Saudade” ou “Chovendo na Roseira”. No balanço entre temas originais de Anna Setton e Edu Sangirardi, o calor das composições de João Gilberto, António Carlos Jobim ou Pixinguinha e a sugestão doce e delicada de vozes como as de Chico Buarque, Elis Regina ou Ivan Lins, o público foi conduzido por uma experiência sensorial onde a emoção se impôs pela via do tom e do ritmo, da nuance e da interpretação. Mais do que revisitar a tradição, Anna Setton soube inscrevê-la numa contemporaneidade subtil, memória e reinvenção de mãos dadas numa clara afirmação de identidade. Um belo momento inaugural do Ovar em Jazz, a confirmar a pertinência da inclusão da artista no cartaz do festival e a colocar bem alto a fasquia para as noites seguintes.

terça-feira, 10 de março de 2026

CONCERTO: “L’aura e o Espelho” | Coro CásterAntiqua



CONCERTO: “L’aura e o Espelho”
Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Com | Pedro Martins (alaúde e teorba), Ezekiel Martins (alaúde e guitarra barroca)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Centro de Artes de Ovar
08 Mar 2026 | dom | 16:00


Tal como sucedera com a primeira edição, coube ao Coro CásterAntíqua a responsabilidade de encerrar o Festival de Música Antiga de Ovar, confiando ao momento derradeiro um gesto artístico que foi também um gesto de comunidade. Num programa concebido para assinalar o Dia Internacional da Mulher, vinte e sete vozes reuniram-se em torno de uma ideia tão simples quanto poderosa: cantar o universo feminino através da memória poética do Renascimento europeu. A dramaturgia partiu da figura platónica de Laura, esse nome que em si contém o sopro do amor e da alma - “l’aura”, na língua italiana -, para atravessar séculos de pensamento, poesia e música. Dos madrigais de Maddalena Casulana, “O notte, o ciel” e “Ben venga il pastor mio”, às leituras de poemas ou textos de Joana da Gama, Madre Brígida, Camões e Pessoa, aquilo que se pôde ver e sentir foi uma tessitura delicada onde a palavra e o som se corresponderam mutuamente. Em palco, os instrumentistas Pedro Martins e Ezekiel Martins sustentaram e ampliaram esse universo sonoro, acompanhando o coro e dando vida a interlúdios da própria Casulana, de Alfonso Ferrabosco e autores anónimos, como pequenas clareiras no interior de uma floresta de gestos e vozes. Construído como um percurso simbólico, o espectáculo afirmou-se na ideia de travessia interior onde a voz humana procurou, na herança renascentista, uma forma de dizer o eterno mistério do feminino.

Mas o que de mais belo teve este concerto foi, muito justamente, aquilo que o torna singular: o seu carácter profundamente comunitário. O CásterAntíqua é um coro que nasce da própria cidade, feito de pessoas que pertencem ao tecido vivo de Ovar e que, em muitos casos, se aproximam dele sem que a música tenha sido antes uma prática formal. Aqui, o canto é acima de tudo um espaço de encontro e de descoberta, uma experiência partilhada onde o entusiasmo substitui a especialização e o compromisso nasce da vontade comum de construir algo incomum e muito belo. Os ensaios começaram no início de Janeiro, numa sucessão de momentos dedicados à paciente arquitectura do som, e logo se percebeu que o desafio era gerador de uma onda de entusiasmo contagiante. Quando finalmente subiram ao palco do Centro de Artes de Ovar, os coralistas trouxeram consigo, não apenas as partituras, mas um sentido profundo de responsabilidade colectiva, como se cada voz se soubesse parte indispensável de um organismo grande e vivo. Sob a direcção musical de Jorge Luís Castro, que concebeu também o dispositivo cénico do espectáculo, o concerto ganhou uma dimensão visual subtil: um jogo de luzes e sombras, discretos elementos de dramaturgia, delicados quadros vivos e uma cuidadosa sonoplastia vocal ampliaram o gesto musical sem jamais o sobrecarregar. E, assim, o espectáculo atravessou simbolicamente a noite escura e fria para alcançar, pouco a pouco, a promessa de um dia luminoso.

No final, permaneceu a sensação de que este momento disse algo importante sobre a própria vida cultural do Município de Ovar. O CásterAntíqua vai-se afirmando, passo a passo, como uma presença identitária no panorama artístico da cidade, à semelhança de outras marcas culturais que o tempo consolidou. Há nisso o trabalho silencioso e persistente de uma organização firme e dedicada — liderada por Hélder Sousa e João Francisco Távora — que, com rara generosidade, soube providenciar os meios e o cuidado necessários para que esta segunda edição do Festival se cumprisse de forma rigorosa, privilegiando a necessária serenidade e hospitalidade que a todos envolveu. Mas há também, inevitavelmente, uma dimensão mais íntima neste testemunho. Escreve-o alguém que escuta a música com a devoção do melómano e que, ao mesmo tempo, partilhou o palco como elemento deste coro tão particular. Talvez por isso seja difícil encontrar a distância que uma verdadeira imparcialidade exigiria. Ainda assim, há experiências que pedem para ser fixadas em palavras, não como crítica, mas como gratidão. E este concerto, nascido da voz de uma comunidade, foi precisamente uma dessas raras ocasiões em que a arte pareceu lembrar-nos que cantar juntos continua a ser uma das formas mais belas, justas, humanas e livres de buscar a Luz.

domingo, 28 de setembro de 2025

CONCERTO: "Na Primeira Pessoa" | Carlos Alberto Moniz



CONCERTO: “Na Primeira Pessoa”,
de Carlos Alberto Moniz
Com | Gabriel Pinto (piano), Hugo Carvalhais (contrabaixo), João Martins (bateria)
XI Festival Literário de Ovar 
Centro de Artes de Ovar
17 Set 2025 | qua | 22:30


Carlos Alberto Moniz é, indiscutivelmente, uma das figuras mais singulares e versáteis da música portuguesa do pós-25 de Abril. Nascido em Angra do Heroísmo, assumiu desde muito novo um papel destacado num período em que a música era, acima de tudo, veículo de consciência política e social. A sua participação activa no movimento da música de intervenção traduziu-se numa obra profundamente comprometida com os valores da liberdade, da justiça e da solidariedade, servindo de contraponto às narrativas da ditadura e como força mobilizadora no processo de transição democrática. Colaborou com Fausto Bordalo Dias, José Mário Branco, Sérgio Godinho ou José Afonso, e envolveu-se em projectos colectivos como o Grupo de Acção Cultural – Vozes na Luta. Apesar da clara matriz ideológica, a sua música não se limitou ao panfleto; nela, a dimensão estética e a qualidade melódica foram uma preocupação constante, conferindo-lhe um carácter poético, imune ao desgaste do tempo e das conjunturas políticas.

Não foi no papel de cantor da revolução que Carlos Alberto Moniz se apresentou em Ovar, na noite inaugural da décima primeira edição do Festival Literário. Dedicado a alguns dos autores que Moniz musicou ao longo da sua carreira, o concerto abraçou o desígnio do activismo literário, cruzando a música e a poesia e potenciando uma nova forma de fruição da palavra escrita. Superiormente acompanhado pelo pianista Gabriel Pinto, pelo contrabaixista Hugo Carvalhais e pelo baterista João Martins, Moniz abriu o concerto com “Coração Ilhéu”, um poema de Fernando Gomes dos Santos que abraça com carinho os Açores - “Nasci no meio do mar, / O meu berço foi a espuma. / Aprendi cedo a escutar / O ritmo das marés, o som da bruma.” Temas como “Angra 50 Anos Depois”, “Se Vieres à Ilha Como Dizes”, “Recados da Ilha” e “Avé Sardinha” serviram para homenagear o poeta Álamo Oliveira, com quem Carlos Alberto Moniz manteve uma colaboração de cinquenta anos de canções e que nos deixou há muito pouco tempo.

Mas a voz do cantor não nos trouxe apenas a poesia de Álamo Oliveira, arrastando consigo uma plêiade de poetas talentosos, de Avelino Gualdino Rodrigues a Manuel Alberto Valente, de António Melo e Souso a Liliana Lima, fazendo das suas palavras canção e tornando-as memória colectiva e emoção partilhada. A riqueza da lírica insular teve nas “Populares Açoreanas” um momento destacado, com a interpretação da “Charamba” e do “Bravo”, da “Lira” e do “Samacaio”, a saltarem do palco e a estenderem-se à plateia. Num serão feito de poesia, os últimos temas - “E um Dia fez-se Abril” e “Quero Agradecer” - lembraram tempos de liberdade e projectaram futuros que se esperam de paz e harmonia, temas universais que, a juntar à qualidade artística do cantautor, elevaram o concerto a um patamar de excelência. Simultaneamente voz da terra que o viu nascer e ponte entre as margens da cultura nacional, Carlos Alberto Moniz mostrou em Ovar a riqueza do nosso cancioneiro e a pertinência de o escutarmos e acarinharmos.

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/ovarcultura]

terça-feira, 23 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 5



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Agrupamento de Escolas de Esmoriz – Ovar Norte | Curso Técnico de Multimédia | Alice Caetano, Andreia Confusa, Belmiro Carvalho, Bruno Henriques, Cândida Jardim, Carlos Nuno Granja, Cristina Carvalho, Edgar Pedro, Fernando Soares, Joana Leitão, José Manuel Castanheira, Lúcia Bandeira, Madalena Sá Fernandes, Manuel Frias Martins, Marcelo Teixeira, Matilde Horta, Nuno Bernardo, Paula Margato, Pedro Reisinho, Rita Correia, Rui Couceiro, Rui Guedes, Rui Manuel Almeida, Sérgio Duarte, Teresa Carvalho, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vanessa Martins
Parque Urbano de Ovar, Centro de Artes de Ovar, Bar do CAO
21 Set 2025 | dom | 10:00 e 15:00


A décima primeira edição do Festival Literário de Ovar chegou ao fim e o balanço, feito na primeira pessoa por Carlos Nuno Granja, programador de conteúdos literários e, incontestavelmente, a alma e o coração do certame, resume-se numa frase: “Esta foi a melhor edição de sempre do Festival.” Uma ideia partilhada pelos indefectíveis do FLO, que o vêm acompanhando com renovado interesse, e que vêem nele o ponto de encontro perfeito no final de cada Verão. Durante cinco dias, Ovar foi a cidade da palavra e da cultura, com onze mesas literárias, quinze apresentações de livros, seis concertos e performances, oito oficinas, três sessões de teatro ambulante e uma curta-metragem em estreia mundial. Ainda na ressaca duma verdadeira maratona de celebração da palavra, a emoção prevalece, pela alegria da novidade e o reconhecimento da surpresa, pelo abraço de amigos de antes e de agora. Mas há também como que uma estranheza, uma quase sensação de orfandade, pelo fim deste ambiente acolhedor, vivo e livre, que sabe bem e faz bem.

De uma beleza ímpar, o Parque Urbano de Ovar foi o palco da manhã do último dia do Festival Literário de Ovar. A jornada não poderia ter começado melhor, com a apresentação de “O descabido caso dos livros desaparecidos”, uma obra de Carlos Nuno Granja, com ilustrações de Andreia Confusa. Matilde Horta dirigiu uma oficina de ilustração, Paula Margato trouxe para a Sessão de Conto “Um Lobo, Uma Capuchinho & Companhia Ilimitada” e houve igualmente lugar a uma mesa, a penúltima do programa, superiormente moderada por Rui Guedes e que contou com a participação de Vanessa Martins, Alice Caetano e Joana Leitão. A sessão resultou num vivo e enriquecedor momento em torno da literatura infantil, no qual se falou do processo criativo, de onde nascem as ideias para escrever, do acto da escrita como catarse e da dificuldade em provar aos mais novos, fascinados pelas novas tecnologias, que o livro é um objecto carregado de magia e sedução. A tarde teve o seu início no Bar do CAO e, logo a abrir, foi animada por uma excelente conversa moderada por Marcelo Teixeira, com Cristina Carvalho e José Manuel Castanheira ao seu lado na mesa, nela se falando da vasta obra dos dois convidados e, em particular, do livro que escreveram em parceria, “Fabulário ou o Pequeno Circo do Mundo”.

A apresentação dos livros “A Dança dos Pássaros Invisíveis”, de Edgar Pedro, e “O Rufo do Tambor que Levamos no Peito”, de Rui Guedes, prenderam igualmente a atenção dos presentes, bem como a Sessão de Contos, animada por Cândida Jardim, e a Oficina de Ilustração, com Rita Correia. O Auditório do Centro de Arte de Ovar abriu-se ao público para a última mesa do Festival, com Madalena Sá Fernandes, Manuel Frias Martins e Rui Couceiro, e moderada por Teresa Carvalho. Sob uma frase de Miguel Torga - “Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem” –, os convidados fizeram aquilo a que a moderadora chamou “esfregar sal na ferida que somos”. Também aqui se falou do processo de escrita, com Madalena Sá Fernandes a afirmar que “a literatura pode pouco, mas é esse pouco que a torna insubstituível” e Manuel Frias Martins a dizer que a base da escrita ficcional está no “não é, mas poderia ser”. Enfim, Rui Couceiro salientou que, “ainda que o futuro esteja sob a ameaça da Inteligência Artificial, haverá sempre uma literatura sem batota para nosso consolo.” A curta-metragem “Fui logo a Bela para Todos”, realizada por Belmiro Carvalho, e “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante”, por Trigo Limpo Teatro ACERT, colocaram um ponto final numa edição memorável do Festival. O FLO regressa daqui a um ano. Viva o FLO!

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Zorrinho, aRita, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Bruno M. Franco, Carla Pais, Cátia Cardoso, Cristina Marques, Diana de Oliveira, Elsa Teixeira, Filipa Amorim, Filipa Vera Jardim, Helena Ribeiro, Joana Nogueira, João B. Ventura, José Riço Direitinho, Joaquim Margarido, Lúcia Moniz, Luís Correia Carmelo, Miguel d’Alte, Minês Castanheira, Miriam Gonçalves, Nuno Alexandre Vieira, Paula Mendes Coelho, Pedro Lamares, Pedro Reisinho, Ricardo Santos, Raquel Patriarca, Rita Tormenta, Rodrigo Vieira Dias, Rui Sobral, Sara Dias Oliveira, Sílvia Lima, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vasco Prazeres, Vera Morgado, Vítor Gil Cardeira, Zetho Gonçalves
Parque do Buçaquinho, Museu Júlio Dinis, Jardim dos Campos, Centro de Artes de Ovar e Bar do CAO
20 Set 2025 | sab | 10:00, 14:00 e 21:30


Tradicionalmente o mais exigente, mas também o mais aliciante, o quarto dia do Festival Literário de Ovar voltou a prender a atenção dos amantes do livro e da leitura, pela sua rica e variada oferta. “Patrulha Raposa – Vigilantes da floresta”, escrito por Diana de Oliveira e apresentado por Pedro Reisinho, deu início a uma viagem que teve o seu início no Parque Ambiental do Buçaquinho e viria a terminar, mais de quinze horas depois, no Bar do Centro de Artes de Ovar. Num espaço dedicado à Literatura Infantil, a manhã foi preenchida com uma Oficina de Ilustração dinamizada por aRita, uma sessão de contos com Luís Correia Carmelo e ainda uma Mesa moderada por Helena Ribeiro e que teve num painel constituído por Miriam Gonçalves, Elsa Teixeira e Rodrigo Vieira Dias, três figuras muito especiais. Entre as estratégias para adormecer os mais novos e o poder das ideias em frente da folha em branco, os convidados falaram de livros, das fontes de inspiração dos seus trabalhos, da necessidade da literatura infantil para o crescimento e desenvolvimento infantil, mas também da importância do “aborrecimento” das crianças, da ausência de estímulos que muitas vezes deixam os pais exauridos, mas que as obriga a serem criativas.

Ao início da tarde, no Museu Júlio Dinis, procedeu-se à entrega de prémios da “III Edição do Concurso Literário e de Ilustração Júlio Dinis 2025”, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas Ovar Sul e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Ovar. A mais conhecida “Casa Ovarense” da cidade foi igualmente palco da apresentação do livro “O Flâneur de Paris”, de João B. Ventura, e de uma conversa com o escritor Bruno M. Franco sobre o género policial na literatura portuguesa contemporânea. Simultaneamente, no Jardim dos Campos, decorria a apresentação dos livros “Truz Truz, Abre a Porta, Avestruz”, de Vera Morgado, e “Agora sou capaz”, de Ricardo Santos e Joana Nogueira, com ilustração de Sílvia Lima, a par com uma bem participada Oficina de Ilustração com Nuno Alexandre Vieira e, no espaço fronteiro da Câmara Municipal de Ovar, uma nova representação de “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante” pelos actores da companhia Trigo Limpo - Teatro ACERT, de Tondela. A apresentação de livros teve ainda um último capítulo ao início da noite, num Centro de Artes de Ovar quase lotado, com as atenções a virarem-se para “Cartografia”, “poesia escrita a quatro mãos e dois corações” por Minês Castanheira e Raquel Patriarca, e que resultou num momento de generosa partilha de poemas, afectos e emoções.

Além do momento da manhã referido anteriormente, o programa teve para oferecer mais três mesas de conversa, duas das quais no Museu Júlio Dinis. Rico, vivo, apaixonante, o primeiro desses momentos contou com a moderação de Cátia Cardoso e deu a escutar as impressões de Rita Tormenta, Filipa Vera Jardim e Vítor Gil Cardeira sobre a vaidade e a inveja no seio do complexo mundo da escrita. Em termos muito gerais, Vitor Cardeira falou da escrita como uma doença da qual não é possível livrar-se, no que foi acompanhado por Filipa Vera Jardim, ciente de que “sem livros morreria”. Rita Tormenta admitiu que “ninguém escreve sem um pouco de vaidade” e Filipa Vera Jardim acrescentou que “é preciso saber distinguir a inveja da admiração: narcisos somos todos”. Enfim, sobre o acto da escrita, Vítor Gil Cardeira afirmou que “o escritor constrói e destrói mundos” e que “escrever é uma luta brutal contra a auto-censura”. Uma frase de Agustina Bessa-Luís - “Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia.” - serviu de mote à segunda mesa da tarde. Com moderação de Sara Dias de Oliveira, para quem “escrever é um processo doloroso e um acto de amor”, Miguel D’Alte, José Riço Direitinho e Vasco Prazeres abordaram os temas da amizade e da inveja, do interesse e da distração que as redes sociais constituem (para o bem e para o mal) e, naturalmente, do amor, nas suas mais variadas vertentes. A conversa estendeu-se ao público, com a escritora Raquel Patriarca a fazer notar que “os livros dão algo aos leitores que estes nunca irão pagar”.

A mesa da noite, no Centro de Artes de Ovar, foi beber o tema a uma citação de Raúl Brandão: “Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros.” Foi sobre o ofício da escrita e as muitas reflexões que suscita que se debruçaram as escritoras Carla Pais, Filipa Amorim, Ana Zorrinho, numa conversa moderada por Cristina Marques. Ofício da escrita onde se cruzam os episódios do quotidiano, as personagens saídas de um imaginário fácil de contextualizar mas difícil de explicar, a surpresa com aquilo que vai passando para o papel e um certo grau de loucura. Numa mesa que abriu espaço à leitura de excertos dos livros das autoras, o destaque vai para o conto “O Louco”, de Ana Zorrinho, lido superiormente pela autora e sobre o qual Carla Pais afirmou: “Quem não se arrepiou com este momento, não percebe nada acerca do poder da Literatura”. Outro ponto alto do serão foi a performance “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, com Lúcia Moniz e Pedro Lamares a cruzarem a poesia de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen com as cartas que ambos trocaram ao longo de dezoito anos e que constituem um impressionante retrato social, histórico e moral do Portugal dos anos 60 e 70, o retrato de um país roubado. Já a noite ía adiantada quando, no Bar do CAO, “Poesia A Meias”, de Aurelino Costa & Zetho Cunha Gonçalves, com Aurora Gaia, fechou da melhor forma o penúltimo dia do Festival.

terça-feira, 27 de maio de 2025

FESTIVAL: CIRC-UN-FLEX



FESTIVAL: CIRC-UN-FLEX
Festival de Circo Contemporâneo
Ovar, vários espaços
23 Mai > 25 Mai 2025


Nos últimos anos, as artes circenses têm sabido reinventar-se com base em abordagens pluridisciplinares, assegurando o surgimento e a afirmação de novas estéticas e mantendo esse desígnio maior de levar o circo a todos os públicos. A variedade da oferta e a sua qualidade intrínseca – e aqui importa relevar o trabalho do INAC – Instituto Nacional de Artes do Circo, sediado em Famalicão – têm feito com que o circo contemporâneo seja chamado, com frequência crescente, a integrar os mais variados programas culturais, quer através de espectáculos isolados, quer de forma conjugada com outras propostas, complementares entre si, sob a forma de um festival. Está neste caso o CIRC-UN-FLEX, evento promovido pelo Município de Ovar e que, no passado fim-de-semana, espalhou pela cidade a magia desta arte milenar no seu poder de contar histórias e explorar novos universos. Em cinco momentos distintos, entre espaços ao ar livre e o palco do Centro de Artes de Ovar, esta primeira edição deu a ver o trabalho de um conjunto de artistas que, das mais variadas formas, desafiaram os limites da arte circense, cruzando a acrobacia, o malabarismo ou a pantomina com o teatro, a dança ou a música.

Não falarei aqui dos espectáculos da dupla “Ferrer & Weidman” (Espanha) e de “Tatsuya” (Japão), grandes protagonistas da noite de estreia do Festival, uma vez que não tive oportunidade de os ver. Já na tarde de sábado, o Largo do Tribunal foi palco de “Les Poids des Nuages”, da companhia “Hors Surface” (França), uma peça que explora a relação entre duas personagens em busca da perfeição. Um enorme trampolim e uma escada erguida aos céus serviram de adereços a uma série de acrobacias de enorme efeito visual e valia técnica, graças ao trabalho coordenado do português Diogo Santos e do marroquino Mohamed Nahhas, dois extraordinários executantes da companhia fundada em 2010 por Damien Droin. Entre o sonho de Ícaro e o desafio das leis da gravidade, os “Hors Surface” foram merecedores do aplauso entusiástico do público neste seu esforço de pôr em cena a capacidade da pessoa em compreender o outro e saber aproximar-se dele, em relativizar entre o que é e o que parece (o “peso das nuvens” funciona como uma bela metáfora) e, através da união de esforços, entregar-se num abraço a um ideal maior.

“Furo Lento”, de Rui Paixão (Portugal), fechou o segundo dia do Festival com um espectáculo de grande efeito, convidando o espectador a olhar um mundo pós apocalíptico, habitado por entidades cibernéticas como que saídas de jogos de computador, dispostas a subjugar e a humilhar os humanos (leia-se “o público”) de forma autoritária e arrogante. Num cenário evocativo de “2001: Odisseia no Espaço”, Rui Paixão, Pedro Matias e Alan Sencades deram nota de uma extraordinária coordenação e destreza física, juntando à apurada linguagem corporal a componente de expressividade “clownesca” capaz de arrancar saborosas gargalhadas à plateia. “Lost in Translation”, uma criação de Anna Kristin McCarthy, com interpretação de Ireen Peegel, Jaakko Repola e Aleksey Smolov, fechou o Festival na tarde de domingo, lançando para cima da mesa uma série de questões que falam de compreensão, empatia, união. Com um conjunto de adereços simples e muito humor e criatividade, o colectivo da Estónia, Finlândia e Letónia explorou um mundo povoado de muros e fronteiras e no qual as palavras, como os gestos, se reduzem cada vez mais a meros estereótipos. “Alguma dúvida?”

sexta-feira, 2 de maio de 2025

CONCERTO: Sérgio & Os Assessores



CONCERTO: Sérgio & Os Assessores
Com | Sérgio Godinho (voz), João Cardoso (teclados, coros), Sérgio Nascimento (bateria), Nuno Espírito Santo (baixo, coros), Miguel Fevereiro (guitarras, percussão, coros) e Nuno “Rafa” Rafael (direcção musical, guitarras, coros)
Centro de Artes de Ovar
30 Abr 2025 | qua | 21:30


“Na verdade quero ser p’ra já / O número dois / P’ra me ultrapassar depois, dois, um / Eleito o rei do zum zum.” Foram estes os versos escolhidos por Sérgio Godinho para abrir o concerto que o trouxe, e aos seus assessores, ao Centro de Artes de Ovar, uma casa que conhece bem. “Famoso por ser famoso”, o artista chamou à sala os seus incondicionais e outros que tais, transformando-a num espaço emotivo, de festa e cumplicidade, repleto de um público incansável no aplauso, sedento de celebrar a música e a poesia numa altura em que passam cinquenta e um anos sobre a Revolução dos Cravos. Com mais de meio século de uma carreira sólida, de força e de luta pela defesa dos valores “da paz e do pão, da habitação, saúde e educação”, o cantautor trouxe-nos os sons e as cores da liberdade num conjunto de canções, umas mais antigas que outras, todas elas icónicas, como icónica é a sua obra. A mescla de “novo” e “menos novo”, num alinhamento inteligentemente construído, foi um dos aspectos marcantes do concerto, evidenciando a enorme coerência, homogeneidade e qualidade de uma obra intemporal, inscrita nos genes de quem não desiste de associar as suas cores às do dia inicial inteiro e limpo.

É no palco que se vê e sente a força da obra de Sérgio Godinho: Nesse espalhar a palavra que nos une, no convocar certezas que nos fazem “soltar a rolha que nos tapava a garganta”. “A minha luta não é sozinho que a faço / tem tantos no mesmo passo / braço a braço somos muitos” leva-nos a estender o olhar pela sala e a sentir o coração pequenino ao ver gente de todas as idades a cantar “com um brilhozinho nos olhos”, numa “maré alta” de sonho e ilusão. Para quem “andava há já vinte dias, ao frio, ao vento e à fome”, este reencontro sabe sempre a pouco, mas sabe sempre a tanto. Com “O Charlatão” sobe ao palco José Mário Branco, “Em Dias Consecutivos” traz consigo Bernardo Sassetti, “Ora Vejam Lá” homenageia o Conjunto António Mafra e, porque o Zeca não poderia faltar, “Os Vampiros” vêm lembrar-nos que “eles comem tudo e não deixam nada”. É um caloroso e emotivo matar saudades - “eu matar não gosto nada / mas saudades é diferente / como matar pulgas, alivia a gente” -, que o público sublinhou com a força das suas vozes e o vigor das suas palmas. Força e vigor que os músicos souberam reconhecer, estendendo o “encore” por muito saudadas quatro canções.

Nada ficou por cantar. Nada ficou por contar. Se lido à letra, a certeza seria a de que as doze horas que medeiam o tempo do concerto e o tempo em que escrevo este texto seriam horas de música e estaríamos ainda no Centro de Artes, de tal forma é vasta a discografia de Sérgio Godinho. De “Que Força é Essa?”, a “Bem-Vindo Sr. Presidente”, são dezoito álbuns de originais com muitas dezenas de temas, aos quais se devem acrescentar álbuns ao vivo e em colaboração (com José Mário Branco, Fausto, Manuela Azevedo, Jorge Palma, Galandum Galundaina e outros), colectâneas, compilações e bandas sonoras. Mas “Dancemos no Mundo”, “Cuidado com as Imitações”, “Balada da Rita”, “Quatro Quadras Soltas” e “O Primeiro Dia”, trouxeram consigo “Os Conquistadores”, “Lisboa Que Amanhece”, “É Terça Feira”, “A Vida É feita de Pequenos Nadas”, “Tantas Vezes Fui à Guerra” e tantos, tantos outros temas absolutamente fundamentais da obra de Sérgio Godinho, que os reunimos todos num só, “nas certezas do meu mais brilhante amor”. Na despedida, copo erguido, “brinda-se aos amores com vinho da casa” e deixa-se um voto para que possamos continuar a colher de Sérgio Godinho a inspiração de muitos “primeiros dias do resto das nossas vidas”.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

CONCERTO: "Concavexo" | NoA (trio)



CONCERTO: "Concavexo" | NoA (trio)
Com | Nuno Costa (guitarra), Óscar Marcelino da Graça (piano), André Sousa Machado (bateria) e Rão Kyao (flauta)
Ovar em Jazz 2025
Centro de Artes de Ovar
10 Abr 2025 | qui | 21:30


Surfar uma onda na Nazaré ou dar umas braçadas nas cálidas águas do Barril ou da Manta Rota? Ele há momentos para tudo, mas a questão não pode deixar de se colocar a propósito dos concertos que preencheram a primeira metade do Ovar em Jazz 2025. Se “Free Celebration”, de João Lencastre, foi essa descida vertiginosa de uma parede líquida, a onda a crescer e a rugir atrás de nós com a força de um milhão de cavalos, “Concavexo”, do NoA (trio) é aquela banhoca relaxada entre dois dedos de conversa ou o levantar os olhos de um livro da Bonnie Garmus. É tudo uma questão de adrenalina. Não é que a banhoca seja um contratempo ou um frete, mas pouco diz, pouco acrescenta, a uma tarde morna. Da mesma forma que dos NoA (trio) e da sua passagem por Ovar, daquilo que puderam (ou souberam) acrescentar a este particular festival de Jazz, não ficará para a história grande coisa. “Agora vamos tocar Jazz”, disse Nuno Costa, guitarrista da banda e cicerone de serviço, no momento que antecedeu um forçado segundo “encore”, já com o público a abandonar a sala. Mas agora, caro Nuno, “agora é tarde, Inês é morta”. Ainda assim, louve-se a franqueza. Afinal, “quem diz a verdade não merece castigo”.

Não foi, portanto, um concerto ao qual possamos chamar “de jazz”, por muito amplo que possa ser um “saco” onde (quase) tudo parece caber. Se nos conseguirmos abstrair deste facto, forçoso será reconhecer que também não foi um mau concerto. Acompanhadas de um atabalhoado trocar de guitarras, as palavras iniciais de Nuno Costa serviram para apresentar a banda - do Óscar (Marcelino da Graça), o senhor do piano, ao André (Sousa Machado), o senhor da bateria -, falar das suas origens e de uma carreira onde se incluem dois trabalhos discográficos, “Evidentualmente” (2020) e “Concavexo” (2022). Deste último escutou-se “Zás Trás!!”, a abrir o concerto, seguido de “Batista” e “Inquieto”, com “Valéria”, do primeiro álbum, de permeio. Com quase meia hora de concerto, as primeiras impressões levam a música dos NoA (trio) para um universo que se alimenta da pop e do rock em partes iguais. Elegante, a música não se furta a assumir a matriz inicial de uma banda que começou como um grupo de amigos, há treze anos, “a tocar nuns sunsets de praia, para nos divertirmos”. Se vista pela óptica da harmonia de conjunto, parece haver ali André Sousa Machado a mais e Óscar Marcelino da Graça a menos. Pelo menos a julgar pelo que deles conhecemos (e que tanto apreciamos) de outros projectos.

O grande momento da noite impõe-se com a chegada de Rão Kyao, um amigo que emprestou a sua colaboração à feitura de “Concavexo”. Que não restem dúvidas que foi por ele que a casa se apresentou tão bem composta, o público a fazer questão de mostrar o seu apreço a quem tanto vem acrescentado ao panorama musical português nos últimos cinquenta anos. Não defraudando os fãs, foi ele que soube impor a sua enorme técnica e virtuosismo em “Dança Ritual do Zambeze” e Passadas do Daitya”, dois temas da sua autoria que fazem parte do álbum “Aventuras da Alma” (2021) e também em “Por Shankar”, outro tema seu de “Coisas que a gente sente”, trabalho discográfico de 2012. Torna-se evidente a enorme afinidade que a sua música tem com sonoridades que remetem para a Índia, ponto fulcral de uma obra quase inteiramente dedicada à redescoberta do elo perdido entre a música portuguesa e a música do oriente. “Circo do Oriente”, um tema dos NoA (trio) de tributo a Rão Kyao surge neste contexto, acabando por se assumir como o mais belo momento do concerto. Em jeito de homenagem a Zeca Afonso, escutámos “Os Índios da Meia-Praia”, sendo justo reconhecer a genialidade de Rão Kyao, com uns breves apontamentos finais, a acrescentar-lhe vida e colorido. Enfim, “All the things you are”, standard com a assinatura de Jerome Kern, foi aquele momento de jazz fora de horas, que já nada veio acrescentar.

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

TEATRO: "O Amor é Fodido"



TEATRO: “O Amor é Fodido”,
de Miguel Esteves Cardoso
Adaptação, direcção artística e interpretação | João Garcia Miguel
Apoio ao desenvolvimento do personagem | Michael Margotta
Figurino | Rute Osório de Castro
Produção | A Companhia João Garcia Miguel
70 Minutos | Maiores de 18 Anos
Centro de Artes de Ovar
17 Jan 2025 | sex | 21:30


No prefácio à edição reimpressa de “O Amor é Fodido” (Bertrand Editora, Outubro de 2020), Ricardo Araújo Pereira escreve o seguinte: “O sobressalto começa no título. Mesmo o leitor menos experiente suspeita que, embora escritores de todos os tempos e lugares se tenham dedicado a tentar definir o amor, talvez seja improvável que alguém alguma vez tenha optado por terminar uma frase começada pela expressão ‘o amor é’ com a palavra ‘fodido’. O amor costuma ter, apesar de tudo, boa imprensa - o que, pensando bem, é incompreensível. Dizer que o amor é fodido é, finalmente, tratá-lo como ele merece. É resumir, para quem não quer perder tempo com eufemismos eruditos, a etimologia da palavra paixão. Mas talvez ‘O Amor é Fodido’ seja menos uma história do que uma tese. Uma sugestão acerca de um modo de falar. Uma hipótese sobre o modo de lidar, literariamente e não só, com o amor. Uma proposta que questiona se será apropriado descrever uma doença aterradora com metro e rima e que propõe, por isso, uma espécie de antilirismo. Ou, talvez mais exactamente, um lirismo antilírico. De acordo com esta tese, dizer que o amor é fogo que arde sem se ver é que é obsceno. Notar que é fodido é mera candura.”

Tem razão Ricardo Araújo Pereira no que escreve e talvez devêssemos adoptar a sua forma de ver as coisas para melhor podermos valorizar o trabalho de João Garcia Miguel à volta de um assunto incapaz de gerar consensos. Apropriando-me do título daquilo que começou por ser um livro e que é agora levado à cena no gesto e na voz de um único actor em palco, direi que estamos perante uma peça fodida. Não só pelos altos e baixos de um texto complexo e que chega a ser incoerente na exploração que faz das memórias obsessivas em torno de um amor doentio, mas também pela opção de João Garcia Miguel em colar-se àquilo que a maior parte do público interpretará como “stand up comedy”, tão ao gosto de uns e tão repelente para outros. Aliás, este será mesmo o grande óbice da peça, pela forma como o (cada vez mais) popular género de fazer comédia se associa facilmente à alarvidade, à boçalidade, à grosseria e ao mau gosto. Não é essa, claramente, a intenção do encenador e actor, antes afirmar-se na vontade de explorar as suas capacidades interpretativas, numa abordagem a um “método” tão ao gosto do Actors Studio e aceitando correr todos os riscos na criação da sua personagem. Caso para dizer que o preconceito é fodido.

Se aplausos João Garcia Miguel merece, terão a ver com a sua vontade e capacidade em agarrar um texto do qual muitos fugiriam. Um texto desconfortável na sua essência, porquanto arrasta consigo verdades incontornáveis, sobre as quais continua a pesar um espesso e pesado manto de silêncio e hipocrisia. E, sim, refiro-me ao sexo na terceira idade, cujos contornos são entendidos como desajustados, doentios, aberrantes, ao passo que esses mesmos contornos, num contexto de pessoas vinte ou trinta anos mais novas, passam por “normais”, ou “um bocadinho à frente”, vá. Marcada por constantes variações de ritmo, de rima, de humor, a peça tende a não prender o público como seria expectável e desejável (há quem “desligue” e passe o tempo a olhar para o relógio, há quem adormeça). Mas vale a pena não desistir dela, pelo quanto se mostra capaz de despertar “o mostrengo que se esconde e habita nas profundezas” de cada um de nós, convidando-o a libertar-se. Talvez o actor pudesse optar por “suavizar” a linguagem, mostrar-se mais contido no gesto, ser menos directo com o público. Talvez. Mas alguém pagava bilhete para ver um amor “cozido”?

[Foto: Manuel Vitoriano | Ovar/Cultura]

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

CERTAME: FLO - Festival Literário de Ovar 2024 (V)



CERTAME: Festival Literário de Ovar 2024
Adriano Cerqueira, Alexandre Rosas, Ana Isabel Gonçalves, Carlos Nuno Granja, Dénis Conceição, Elisabete Pinho, Eltânia André, Jorge Reis-Sá, José Pereira Pinto, José Vaz Nunes, Luísa Sobral, Mafalda Mota, Mantraste, Marcelo Teixeira, Maria Saraiva de Menezes, Miguel Marques, Ozías Filho, Patrícia Furtado, Paula Pina, Pedro Guilherme-Moreira, Rosário Alçada Araújo, Teresa Carvalho
Parque Urbano de Ovar, Centro de Artes de Ovar
22 Set 2024 | dom | 10:00 e 14:30


“Esta décima edição do FLO foi a melhor de sempre”. Proferida no discurso de encerramento do Festival Literário de Ovar, a afirmação é de Carlos Nunos Granja, a alma (e uma boa parte do corpo) do FLO. Uma afirmação que exprime o sentimento geral de quem acompanhou o Festival ao longo de cinco longos dias, deliciando-se com uma oferta rica, variada e de enorme qualidade, apreciando a sua dinâmica, vivendo as histórias de Ozías Filho, a poesia de Lauren Mendinueta, os contos de Marta Hugon, os livros infantis de Rosário Alçada Araújo ou a música de Jorge Névoa, da mesma forma que se emocionou com Camões, Pessoa ou Agostinho da Silva, no sentir e nas palavras de António Manuel Ribeiro e Maria José Quintela, Ana Isabel Marques e José Emílio-Nelson, Aurora Gaia e Jorge Reis-Sá, entre tantos outros. Numa altura em que se começa a construir a edição que assinalará uma década de Festival Literário de Ovar, o sucesso destes dias constitui o maior estímulo para quem vem pugnando, ano após ano, por mais e melhor FLO. Numa óptica de crescimento do Festival, a tão falada internacionalização já no próximo ano encerra enormes desafios, mas é uma aposta ganha à partida dada a forma como a marca FLO se soube afirmar e consolidar no circuito dos grandes festivais literários do país.

No último dia do Festival, o Parque Urbano de Ovar abriu-se aos mais pequenos “com sol entre os dedos, com estrelas nos olhos, e o vento aos segredos”. Histórias de encantar, desenhos mil, apresentações de livros e uma mesa temática preencheram um tempo de reflexão e partilha sobre aquilo que a literatura dita infantil pode significar no crescimento e desenvolvimento da pessoa e na sua forma de ver o mundo. José Vaz Nunes, Mafalda Mota e Luísa Sobral tiveram oportunidade de falar dos seus livros, com esta última a referir-se ao peso esmagador de certas palavras quando dirigidas a alguém de forma pejorativa ou maldosa. São as “palavras-elefante” que tantos estragos provocam na concepção que temos de nós próprios e do mundo e que muitos acabam por carregar toda uma vida. Com moderação de Carlos Nuno Granja, a mesa temática juntou Dénis Conceição, Rosário Alçada Araújo, Patrícia Furtado e Maria Saraiva de Menezes, quatro escritores dedicados à literatura infantil que, muito generosamente, partilharam a sua visão de um mundo particular no qual as palavras e as ilustrações se passeiam de mãos dadas. Um mundo de livros, reunido numa só frase por Rosário Alçada Araújo: “Um livro para crianças é um livro para todas as idades.”

A tarde dividiu-se pelo espaço exterior do Centro de Artes de Ovar, o Bar do CAO e o seu Auditório. Lá fora, as actividades continuaram a visar um público mais jovem com a apresentação do livro “Eureka! As descobertas que mudaram a ciência”, de Adriano Cerqueira, mas também uma sessão de contos com Ana Isabel Gonçalves e Paula Pina e ainda uma oficina de ilustração por Mantraste, artista visual com uma ligação estreita à Arte Urbana. Enquanto isso, o espaço do Bar mostrava-se pequeno para escutar a conversa com os escritores Ozías Filho e Eltânia André, na qual o moderador, Marcelo Teixeira, fez questão de manifestar o seu apreço por um festival que consegue reunir autores consagrados e muitos outros que dão os primeiros passos nas letras, sem esquecer “o apoio à actividade local”. E mais pequeno ainda ficou com o público que acorreu em grande número para ouvir José Pereira Pinto falar do segundo volume do livro “Associação Desportiva Ovarense - Clube Centenário: Uma Chama que Resiste”. Moderada por Teresa Carvalho, a última mesa do Festival juntou os escritores Pedro Guilherme-Moreira e Jorge Reis-Sá, voltando a chamar Camões para falar de vida e morte. Por fim, os “Sangue Suor”, projecto musical que junta as baterias de Ricardo Martins, Rui Rodrigues e Susie Filipe e que carregou de energia o Auditório do Centro de Artes. Um final em grande, sincopado e bem batido, feito de música que soube passear-se entre a alucinação da prosa e o fulgor da poesia.