Tal como sucedera com a primeira edição, coube ao Coro CásterAntíqua a responsabilidade de encerrar o Festival de Música Antiga de Ovar, confiando ao momento derradeiro um gesto artístico que foi também um gesto de comunidade. Num programa concebido para assinalar o Dia Internacional da Mulher, vinte e sete vozes reuniram-se em torno de uma ideia tão simples quanto poderosa: cantar o universo feminino através da memória poética do Renascimento europeu. A dramaturgia partiu da figura platónica de Laura, esse nome que em si contém o sopro do amor e da alma - “l’aura”, na língua italiana -, para atravessar séculos de pensamento, poesia e música. Dos madrigais de Maddalena Casulana, “O notte, o ciel” e “Ben venga il pastor mio”, às leituras de poemas ou textos de Joana da Gama, Madre Brígida, Camões e Pessoa, aquilo que se pôde ver e sentir foi uma tessitura delicada onde a palavra e o som se corresponderam mutuamente. Em palco, os instrumentistas Pedro Martins e Ezekiel Martins sustentaram e ampliaram esse universo sonoro, acompanhando o coro e dando vida a interlúdios da própria Casulana, de Alfonso Ferrabosco e autores anónimos, como pequenas clareiras no interior de uma floresta de gestos e vozes. Construído como um percurso simbólico, o espectáculo afirmou-se na ideia de travessia interior onde a voz humana procurou, na herança renascentista, uma forma de dizer o eterno mistério do feminino.
Mas o que de mais belo teve este concerto foi, muito justamente, aquilo que o torna singular: o seu carácter profundamente comunitário. O CásterAntíqua é um coro que nasce da própria cidade, feito de pessoas que pertencem ao tecido vivo de Ovar e que, em muitos casos, se aproximam dele sem que a música tenha sido antes uma prática formal. Aqui, o canto é acima de tudo um espaço de encontro e de descoberta, uma experiência partilhada onde o entusiasmo substitui a especialização e o compromisso nasce da vontade comum de construir algo incomum e muito belo. Os ensaios começaram no início de Janeiro, numa sucessão de momentos dedicados à paciente arquitectura do som, e logo se percebeu que o desafio era gerador de uma onda de entusiasmo contagiante. Quando finalmente subiram ao palco do Centro de Artes de Ovar, os coralistas trouxeram consigo, não apenas as partituras, mas um sentido profundo de responsabilidade colectiva, como se cada voz se soubesse parte indispensável de um organismo grande e vivo. Sob a direcção musical de Jorge Luís Castro, que concebeu também o dispositivo cénico do espectáculo, o concerto ganhou uma dimensão visual subtil: um jogo de luzes e sombras, discretos elementos de dramaturgia, delicados quadros vivos e uma cuidadosa sonoplastia vocal ampliaram o gesto musical sem jamais o sobrecarregar. E, assim, o espectáculo atravessou simbolicamente a noite escura e fria para alcançar, pouco a pouco, a promessa de um dia luminoso.
No final, permaneceu a sensação de que este momento disse algo importante sobre a própria vida cultural do Município de Ovar. O CásterAntíqua vai-se afirmando, passo a passo, como uma presença identitária no panorama artístico da cidade, à semelhança de outras marcas culturais que o tempo consolidou. Há nisso o trabalho silencioso e persistente de uma organização firme e dedicada — liderada por Hélder Sousa e João Francisco Távora — que, com rara generosidade, soube providenciar os meios e o cuidado necessários para que esta segunda edição do Festival se cumprisse de forma rigorosa, privilegiando a necessária serenidade e hospitalidade que a todos envolveu. Mas há também, inevitavelmente, uma dimensão mais íntima neste testemunho. Escreve-o alguém que escuta a música com a devoção do melómano e que, ao mesmo tempo, partilhou o palco como elemento deste coro tão particular. Talvez por isso seja difícil encontrar a distância que uma verdadeira imparcialidade exigiria. Ainda assim, há experiências que pedem para ser fixadas em palavras, não como crítica, mas como gratidão. E este concerto, nascido da voz de uma comunidade, foi precisamente uma dessas raras ocasiões em que a arte pareceu lembrar-nos que cantar juntos continua a ser uma das formas mais belas, justas, humanas e livres de buscar a Luz.
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