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quarta-feira, 11 de março de 2026

CONCERTO: “Brightlight” | Avishai Cohen Quinteto



CONCERTO: “Brightlight”
Avishai Cohen Quinteto
Com | Avishai Cohen (contrabaixo), Itay Simhovich (piano), Yonatan Voltzok (trombone), Yuval Drabkin (saxofones), Eviatar Slivnik (bateria)
Casa da Música – Sala Suggia
08 Mar 2026 | dom | 21:00


Numa Casa da Música fervilhante, o regresso de Avishai Cohen ao Porto permitiu ao muito público presente confirmar o estatuto do músico como figura maior do jazz contemporâneo, hoje também associado a um vínculo português, graças ao recente e muito ansiado passaporte do contrabaixista. Longe de um exercício meramente promocional em torno de “Brightlight”, Cohen preferiu tirar partido do momento para desenhar um arco narrativo mais amplo, recuando a discos fundacionais com mais de duas décadas, casos de “Adama”, “Colors” ou “Unity”. O concerto funcionou, assim, menos como apresentação de um novo trabalho e mais como cartografia de um universo autoral em permanente reescrita, onde jazz acústico, tradição mediterrânica, folclore sefardita e discretas filigranas clássicas convivem numa linguagem imediatamente reconhecível. Pontuado por temas recentes, o alinhamento sugeriu um percurso retrospectivo que reafirmou a consistência estética de um músico cuja linha melódica continua a oscilar entre a memória e a reinvenção.

O novo quinteto encarna essa tensão entre continuidade e renovação, materializando a “missão” que o próprio Cohen tem reiterado: dar palco a uma geração emergente sem transformar o grupo num simples laboratório de talentos. A presença de sopros - saxofone e trombone - permitiu adensar o espectro tímbrico e ampliar a paleta expressiva, ora insinuando ecos do “songbook” americano e de uma certa elegância “West Coast”, ora reforçando a pulsação sobre a qual o contrabaixo de Avishai Cohen se instala como eixo harmónico e centro dramático. Em vários momentos, a música aproxima-se de um “jazz de câmara” musculado, feito de uníssonos rigorosos e escrita densa, não raro vivendo apenas do piano, da bateria e do contrabaixo; noutros, o músico abre espaço ao improviso e à deriva colectiva, equilibrando com habilidade o gesto coreografado de um grande auditório, como é o caso da Sala Suggia da Casa da Música, com a espontaneidade quase táctil de um pequeno e intimista clube de jazz.

Se Avishai Cohen foi o “pivot” por quem passou a distribuição do “jogo”, o grande destaque da noite, a mais extraordinária surpresa num tão delicado equilíbrio, foi o muito jovem pianista Itay Simhovich, recém-chegado ao quinteto em substituição de Guy Moskovich e apresentado pelo próprio Cohen como “o mais novo do grupo mas, quiçá, o mais brilhante”. Com pouco mais de vinte anos, Simhovich revela uma maturidade musical impressionante, dominando o espectro de notas com rara naturalidade e evidenciando uma postura de perfeita simbiose com o instrumento, saltitando sobre ele como quem saboreia um momento alegre e desprendido. Seguro nas composições em verdadeira montanha-russa associadas a um programa rico e variado, alternou blocos rítmicos firmes com uma mão direita lírica, por vezes quase clássica. No diálogo constante com o contrabaixo de Cohen, ora espelhando motivos, ora desviando-os com discretas dissonâncias, o pianista foi a prova provada da intuição do líder para descobrir cúmplices e transformar o palco numa plataforma de afirmação de novos talentos.

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