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quinta-feira, 12 de março de 2026

CINEMA: "Pillion" | Harry Lighton



CINEMA: “Pillion”
Realização | Harry Lighton
Argumento | Harry Lighton
Fotografia | Nick Morris
Montagem | Gareth C. Scales
Interpretação | Harry Melling, Alexander Skarsgård, Douglas Hodge, Lesley Sharp, Jake Shears, Mat Hill, Nick Figgis, Zoe Engerer, Jake Sharp, Jacob Carter, Christina Carty, Zamir Mesiti, Rosie Sheehy, Miranda Bell, Monica Purcell, Anthony Welsh, Kavcic Miha, Ian Wilson
Produção | Lee Groombridge, Ed Guiney, Andrew Lowe, Emma Norton
Reino Unido, Irlanda | 2025 | Comédia, Drama, Romance | 106 Minutos | Maiores de 16 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 19
11 Mar 2026 | qua | 16:05


Estreia na realização de Harry Lighton, “Pillion” parte de uma metáfora simples e eficaz: no léxico motociclista anglófono, o “pillion” é o “pendura”, o passageiro que segue atrás, o corpo que se entrega à condução de outro. É exactamente nesse lugar, simultaneamente de confiança e submissão, que se instala Colin, personagem interpretada por Harry Melling, um fiscal de estacionamento tímido, ainda preso ao conforto doméstico de uma família extraordinariamente liberal. A adaptação do romance “Box Hill”, de Adam Mars-Jones, desloca a narrativa da década de 1970 para o presente, transformando-a numa espécie de comédia romântica desviada. O encontro com Ray, o motociclista lacónico interpretado por Alexander Skarsgård, rompe a monotonia de Colin, introduzindo-o num universo rigidamente codificado, marcado pela disciplina e a dominação, o sadismo e o masoquismo. O que poderia resvalar facilmente para a caricatura ou para a provocação gratuita revela-se, porém, mais subtil: Lighton organiza o filme como um percurso de formação sentimental, no qual o submeter-se não é mera humilhação, antes uma escolha identitária, um gesto deliberado de pertença. Há, nesse movimento, algo de profundamente contemporâneo, um comentário discreto sobre relações afectivas num tempo marcado pela abundância de encontros efémeros e pela persistente dificuldade em lidar com o compromisso.

A dinâmica entre os dois protagonistas constitui o verdadeiro motor dramático do filme. Skarsgård constrói Ray por subtracção: poucas palavras, gestos controlados, uma presença física que impõe autoridade sem necessidade de explicações. O actor utiliza a própria fisionomia — altura, postura, um certo estoicismo escandinavo — para criar uma figura simultaneamente sedutora e emocionalmente opaca. Em contraponto, Melling compõe Colin como um feixe de ansiedade e entusiasmo, alguém que parece descobrir a própria identidade através da entrega ao outro. A tensão entre estas duas energias — a reserva quase mineral de Ray e o fervor quase infantil de Colin — gera momentos de humor inesperado e também uma delicada estranheza emocional. Lighton filma as práticas BDSM sem o “voyeurismo” que frequentemente marca representações do género no cinema “mainstream”. O erotismo surge antes como linguagem relacional, um conjunto de rituais que estruturam intimidade e poder. Ao contrário de obras como “As Cinquenta Sombras de Grey” ou mesmo “A Secretária”, frequentemente criticadas por simplificarem ou apresentarem estas dinâmicas como doentias, “Pillion” procura uma abordagem naturalista, próxima da experiência vivida. O resultado é um retrato que oscila entre a ternura e o desconforto, recusando transformar o fetiche em mero espectáculo.

É precisamente nessa ambiguidade que o filme encontra a sua dimensão mais interessante. “Pillion” não pretende resolver a tensão entre dominação e afecto; pelo contrário, explora a linha incerta que separa consentimento e dependência emocional. Colin encontra na submissão uma inesperada sensação de liberdade - libertação do peso das escolhas, do vazio de uma vida excessivamente protegida -, mas essa descoberta traz consigo uma interrogação inevitável: até que ponto pode um vínculo estruturado pela desigualdade transformar-se numa relação recíproca? Lighton inscreve essa dúvida tanto nas cenas íntimas como nas sequências familiares, onde a preocupação dos pais de Colin revela menos preconceito do que inquietação perante o desequilíbrio afectivo do casal. Ao mesmo tempo, o realizador constrói um microcosmos credível em torno da comunidade de motociclistas “queer” que gravita em torno de Ray, evitando moralismos e sublinhando a diversidade de códigos dentro da própria cultura BDSM. No final, “Pillion” afirma-se menos como provocação erótica do que como um peculiar amadurecimento. A história de um homem que aprende que seguir alguém - ocupar o lugar do passageiro - pode ser apenas o primeiro passo para descobrir onde, e como, quer realmente conduzir a sua própria vida.

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