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quarta-feira, 11 de março de 2026

CONCERTO: “Brightlight” | Avishai Cohen Quinteto



CONCERTO: “Brightlight”
Avishai Cohen Quinteto
Com | Avishai Cohen (contrabaixo), Itay Simhovich (piano), Yonatan Voltzok (trombone), Yuval Drabkin (saxofones), Eviatar Slivnik (bateria)
Casa da Música – Sala Suggia
08 Mar 2026 | dom | 21:00


Numa Casa da Música fervilhante, o regresso de Avishai Cohen ao Porto permitiu ao muito público presente confirmar o estatuto do músico como figura maior do jazz contemporâneo, hoje também associado a um vínculo português, graças ao recente e muito ansiado passaporte do contrabaixista. Longe de um exercício meramente promocional em torno de “Brightlight”, Cohen preferiu tirar partido do momento para desenhar um arco narrativo mais amplo, recuando a discos fundacionais com mais de duas décadas, casos de “Adama”, “Colors” ou “Unity”. O concerto funcionou, assim, menos como apresentação de um novo trabalho e mais como cartografia de um universo autoral em permanente reescrita, onde jazz acústico, tradição mediterrânica, folclore sefardita e discretas filigranas clássicas convivem numa linguagem imediatamente reconhecível. Pontuado por temas recentes, o alinhamento sugeriu um percurso retrospectivo que reafirmou a consistência estética de um músico cuja linha melódica continua a oscilar entre a memória e a reinvenção.

O novo quinteto encarna essa tensão entre continuidade e renovação, materializando a “missão” que o próprio Cohen tem reiterado: dar palco a uma geração emergente sem transformar o grupo num simples laboratório de talentos. A presença de sopros - saxofone e trombone - permitiu adensar o espectro tímbrico e ampliar a paleta expressiva, ora insinuando ecos do “songbook” americano e de uma certa elegância “West Coast”, ora reforçando a pulsação sobre a qual o contrabaixo de Avishai Cohen se instala como eixo harmónico e centro dramático. Em vários momentos, a música aproxima-se de um “jazz de câmara” musculado, feito de uníssonos rigorosos e escrita densa, não raro vivendo apenas do piano, da bateria e do contrabaixo; noutros, o músico abre espaço ao improviso e à deriva colectiva, equilibrando com habilidade o gesto coreografado de um grande auditório, como é o caso da Sala Suggia da Casa da Música, com a espontaneidade quase táctil de um pequeno e intimista clube de jazz.

Se Avishai Cohen foi o “pivot” por quem passou a distribuição do “jogo”, o grande destaque da noite, a mais extraordinária surpresa num tão delicado equilíbrio, foi o muito jovem pianista Itay Simhovich, recém-chegado ao quinteto em substituição de Guy Moskovich e apresentado pelo próprio Cohen como “o mais novo do grupo mas, quiçá, o mais brilhante”. Com pouco mais de vinte anos, Simhovich revela uma maturidade musical impressionante, dominando o espectro de notas com rara naturalidade e evidenciando uma postura de perfeita simbiose com o instrumento, saltitando sobre ele como quem saboreia um momento alegre e desprendido. Seguro nas composições em verdadeira montanha-russa associadas a um programa rico e variado, alternou blocos rítmicos firmes com uma mão direita lírica, por vezes quase clássica. No diálogo constante com o contrabaixo de Cohen, ora espelhando motivos, ora desviando-os com discretas dissonâncias, o pianista foi a prova provada da intuição do líder para descobrir cúmplices e transformar o palco numa plataforma de afirmação de novos talentos.

sexta-feira, 30 de maio de 2025

CONCERTO: Tó Trips & Fake Latinos



CONCERTO: Tó Trips & Fake Latinos
Com | Alexandre Frazão, António Quintino, Helena Espvall
Participação especial | João Cabrita, Luís Cunha
Casa da Música - Sala 2
28 Mai 2025 | qua | 21:30

“Uma mão cheia de músicas, de lugares de histórias de vida, por vezes mais escuras, outras mais luminosas, mais rítmicas, outras mais jazzy, sempre com um pé em Lisboa e outro fora. Onde o modo de tocar guitarra do passado se encontra com o de hoje! A minha música sempre foi um poderoso meio de dissidência para mim, sendo capaz de transformar sentimentos pessoais em formas de plenitude e de protesto. Ser eu próprio no mundo com a minha música e a minha guitarra!”
Tó Trips

Casa cheia na Sala 2 da Casa da Música para escutar Tó Trips e o seu novíssimo trabalho, “Dissidente”, o primeiro da carreira gravado em formato de quarteto. Com o guitarrista, em palco estiveram os Fake Latinos, um trio composto por Alexandre Frazão na bateria, António Quintino no contrabaixo e Helena Espvall no violoncelo, e, na parte final do concerto, João Cabrita no saxofone e Luís Cunha no trompete. Começando pelos “cúmplices” nesta bela jornada, tanto Quintino como Espvall prolongam as bem sucedidas aventuras de “Guitarra 66”, “Guitarra Makaka” e “Popular Jaguar”, mostrando-se irrepreensíveis na forma como sabem interpretar uma música rica de tons e cores, acrescentando-lhe densidade e intencionalidade. Em particular Espvall é incrível no “arranhar” do violoncelo, recheando cada peça de acordes misteriosos que convidam à contemplação e à viagem. Já Alexandre Frazão, um velho conhecido do guitarrista e do projecto Dead Combo, mostrou o porquê de ser só o melhor baterista da nossa praça, o que diz tudo do que foi a sua presença em palco e da sua interpretação atenta, inteligente, contida e fortemente eficaz. Luís Cunha e João Cabrita quebraram o intimismo do concerto, preenchendo-o com o calor dos metais e enriquecendo-o com uma mão cheia de solos enérgicos e arrebatados.

Fazendo da exploração das potencialidades das suas guitarras um modo de estar na música, Tó Trips fez valer em palco a sua identidade enquanto guitarrista, a sua forma exclusiva de tocar, espécie de impressão digital que o torna único e irrepetível. Sem escapar à sua assinatura autoral, o trabalho agora apresentado reflecte “evolução na continuidade”, sobretudo ao nível dos solos que aproximam a sua música do fado, na qual se percebem, como nunca, influências da guitarra de Paredes e do fado de Coimbra. E se estas “impressões” se iam insinuando em apontamentos solísticos reveladores da classe e virtuosismo do artista, tornaram-se evidentes no original “Levar com o mar nas Trombas”, primeiro de dois temas que preencheram o “encore” e que o guitarrista interpretou sozinho em palco. Mas já lá vamos. “Havana Alfama”, “Fiesta Triste” e “Rua Escura” funcionaram como uma espécie de introdução marcada pela viagem entre paragens sempre distantes, sempre contrastantes, introduzindo os presentes num universo que estabelece pontes e rejeita muros, que faz da partilha um ideal e exalta valores humanistas, de igualdade e liberdade.

Neste universo, em rota de colisão com aquele cada vez mais ambíguo e falso em que nos movemos, “Dissidente” foi a pedra de toque de um concerto todo ele apostado em “meter um pauzinho na engrenagem”. E porque já aqui falei de fado, “Dissidente” é todo ele uma ode àquilo que fomos e somos, um hino à fraternidade, que se viu reforçado nos seguintes “Mornacola” e “Tango Surdina”, o abraço sincero e sentido às comunidades na diáspora de ambos os lados do grande mar Atlântico. A viagem prosseguiu com “Old Times Bunny”, um ligeiro desvio “para quem gosta de desenhos animados”, e com “À Beira Tejo com os meus Amigos Fantasma”. Também aqui cabe apreciar o refinamento do trabalho de Tó Trips, a sua qualidade de guitarrista de excepção, a amplitude dos seus universos musicais. Ampliar o olhar por sobre o público é ver como se deixa envolver pela música, como meneia a cabeça ao seu ritmo, em sinal de assentimento e gratidão. Já com Luís Cunha e João Cabrita em palco, “L.A. Chet” e “Kerouac” são dois outros grandes momentos em jeito de homenagem a duas personagens seminais na vida e obra do guitarrista. “Napoli Blue Dreams” e “Fake Latinos”, os dois temas mais longos do concerto, fecharam o alinhamento em grande estilo, os solos a sucederem-se e a levarem a sala ao rubro. “Pra lá de Marrakesh”, a fechar o “encore”, foi a cereja no topo do bolo desta viagem por mundos contrastantes, tão diferentes mas tão iguais entre si, por força de uma música de excepção.

sábado, 5 de abril de 2025

CONCERTO: New York Tango Trio | Richard Galliano



CONCERTO: Richard Galliano
New York Tango Trio
Com | Richard Galliano (acordeão), Adrien Moignard (guitarra), Philippe Aerts (contrabaixo)
Casa da Música
02 Abr 2025 | qua | 21:30


Richard Galliano entrou sozinho em palco à hora marcada. Após o aplauso inicial, deixou que o silêncio caísse sobre si, enquanto ajeitava nos ombros o seu acordeão. Mal deu a escutar as primeiras notas, a sensação imediata foi a de que estaríamos perante uma daquelas raras noites que se guardam para sempre no baú das mais gratas recordações. A “chanson française” derramava-se em acordes elegantes, chamando ao palco Charles Trenet e “L’Âme des Poètes” numa melodia terna e nostálgica à vez. Bastaria este tema para percebermos o porquê de o “The Guardian” se referir a ele como “o maior acordeonista vivo da actualidade” e mestre Yasuhiro Kobayashi ter afirmado a sua influência na forma como mudou o curso da história do acordeão, ao falar de “um antes e um depois de Galliano”. Ao evocar as mais complexas paisagens sonoras, as notas do seu “Victoria” arrastavam consigo, ora os sons do mar ou um dobrar de sinos, ora o canto dos pássaros ou a chuva a cair, embalando o público numa toada doce e trazendo aos lábios de alguns, num murmúrio, as palavras “Parfois on change un mot, une phrase / Et quand on est à court d’idées / On fait la la la la la la”.

Já com o guitarrista francês Adrien Moignard e o contrabaixista belga Philippe Aerts em palco, o concerto prosseguiu com um conjunto de temas que, ora evidenciavam a sensibilidade e inspiração dos respectivos compositores, ora faziam recair a atenção no virtuosismo e cumplicidade do trio. Sob o “olhar” grave do contrabaixo de Aerts, Galliano e Moignard iam entretecendo um apaixonado encontro entre acordeão e guitarra, feito de diálogos animados, chamamentos atrevidos, insistentes súplicas e finais felizes. Num estilo único e inteiramente pessoal, as abordagens jazzísticas a temas icónicos como “Laurita”, “NY Tango”, “Feu-Rire”, “Ma Plus Belle Histoire d’Amour” ou “Vuelvo al Sur” foram propostas de viagem pela música dos quatro cantos do globo, servindo ao mesmo tempo para prestar homenagem a Nino Rota e Astor Piazzolla, mas também a outras importantes figuras do mundo da música que deram a mão a Galliano em início de carreira e o ajudaram a afirmar-se num meio de enorme exigência, casos dos acordeonistas Joss Baselli e Andre Astier, dos cantores Claude Nougaro, Serge Reggiani e Barbara e de grandes nomes do jazz como Chet Baker, Charlie Haden, Ron Carter e Michel Portal.

Os aplausos continuaram a pontuar cada uma das interpretações, até ao momento em que Richard Galliano tocou “Moon River”, de Henri Mancini, munido de uma original melódica, composta de botões em vez de teclas. Este foi um momento capital do concerto, ao encontro do maior desejo de sempre do artista, o de colocar o acordeão no lugar que merece, fazendo-o descolar do injusto epíteto de “piano dos pobres”. Hoje, com uma carreira de mais de cinquenta anos, Galliano continua a demonstrar um imenso prazer em fazer aquilo que melhor sabe, tocando na Casa da Música para uma plateia rendida ao seu charme e génio interpretativo de temas como “Oblivion”, “Tango pour Claude” ou “Caruso”, tornados clássicos graças à sua criatividade e virtuosismo. No final houve direito a bis (infelizmente apenas um), com o concerto a terminar da melhor forma com a música, ainda e sempre, de Charles Trenet. “Que reste‐t‐il de nos amours?” foi o final perfeito de uma noite perfeita, levando o público a sair da sala com o coração aconchegado, um sorriso largo no rosto, o som daquele acordeão a vibrar (para) sempre no ouvido.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

CONCERTO: Ricardo Toscano Quarteto toca Bernardo Sassetti



CONCERTO: Ricardo Toscano Quarteto toca Bernardo Sassetti
Festival de Jazz Bernardo Sassetti
Casa da Música – Sala 2
09 Dez 2023 | sab | 21:00


Teatro Municipal de Vila do Conde, Centro de Arte de Ovar, Quintal Porta-Jazz, Jardim do Torel, Casa da Música. Em septeto, sexteto, quarteto, trio ou “duplex”. Ricardo Toscano é, seguramente, o músico que mais vezes escutei nos últimos cinco anos e a razão é simples: A abordagem aos grandes referentes do Jazz fazem de cada concerto seu um momento de fruição e prazer único e irrepetível. Em composições próprias de elevado sentido artístico ou nos passos de nomes tão importantes como os de Charlie Parker ou Ornette Coleman, John Coltrane ou Bernardo Sassetti, a sua música, o domínio do instrumento e os músicos de que se faz rodear são sempre valores acrescidos que nos transportam para as dimensões mais puras do género, onde a criatividade e o engenho abraçam a genuinidade e o virtuosismo. Foi isso que aconteceu, uma vez mais, na noite do passado sábado, à boleia do Festival de Jazz Bernardo Sassetti, Toscano e o seu Quarteto a brindarem o público com momentos de enorme talento e significado, numa distinta homenagem ao génio musical desse grande compositor e pianista português que nos deixou demasiado cedo.

Na companhia de João Pedro Coelho (piano), Romeu Tristão (contrabaixo) e João Pereira (bateria e vibrafone), Ricardo Toscano mostrou-se um perfeito mestre de cerimónias. Ao álbum “Mundos”, de 1996, foi buscar “Algumas Coisas não Mudam”, agitando a sala com uma batida quente e vibrante e abrindo o concerto sob o signo da festa e da alegria. O arranjo, como todos os seguintes - à excepção do último tema, “organizado em duas folhas A4” por Romeu Tristão – foi trabalhado em grupo e é notável a forma como o saxofone sabe “esconder-se” tão bem, oferecendo aos restantes instrumentos a quota justa de protagonismo. Como seria expectável, o piano esteve em evidência e João Pedro Coelho mostrou-se à altura das responsabilidades, com intervenções notáveis, tanto no acompanhamento como em apontamentos solísticos intensos e emotivos. Ao mundo da Banda Desenhada foi o Quarteto buscar “Ernesto–Misterioso Obsessivo”, do álbum “Unreal: Sidewalk Cartoon” (2006), naquele que terá sido, quiçá, o mais mágico e intimista tema da noite: uma viagem divertida ao mundo da animação, através de um conjunto de momentos sonoros recriados com imaginação, graça e um apurado sentido do ritmo.

“Olhar”, do álbum “Nocturno” (2002) levou-nos ao encontro do lado mais melancólico de Bernardo Sassetti, com João Pedro Coelho magistral na forma como introduz o tema e o suporta numa linha entre o clássico e o jazz. Notável, primeiro, o diálogo entre o piano e a bateria e, depois, o saxofone de Ricardo Toscano a oferecer-se em beleza e poesia. Poesia que se prolongou num novo diálogo, desta vez entre o piano e o contrabaixo, espécie de viagem carregada de tristeza, mas, ao mesmo tempo, de um lirismo arrebatador (Chopin passeou-se por aqui). O tema seguinte (na verdade dois temas, numa fusão feliz), “Reflexos / Sonhos dos Outros”, ofereceu-se em harmonia e ritmo, abrindo espaço para o momento mais alto da noite, uma “suite” de “Alice”, banda-sonora que Sassetti escreveu para o filme com o mesmo nome, realizado em 2005 por Marco Martins. Entre o hoje e o amanhã, feito de “movimentos invisíveis” e “passagens pela cidade”, de noite, esperas e indiferença, “Alice” escutou-se em suspenso, reverencialmente, a respiração em pausa e o coração aos pulos. Tudo o que de bom se escutara até então (e foi tudo tão bom), surgiu aqui ampliado pela competência, irreverência, dinamismo e energia contagiante de um Quarteto que transpira Jazz por todos os poros. Um grande concerto, quase a fechar um ano jazzístico que teve muito de bom para oferecer.

[Foto gentilmente cedida por Egídio Santos | https://www.facebook.com/egidio.santos.5]

domingo, 15 de maio de 2022

CONCERTO: Stacey Kent



CONCERTO: Stacey Kent
Casa da Música - Sala Suggia
09 Mai 2022 | seg | 21:30


Quando, em 1997, Stacey Kent lançou “Close Your Eyes”, o seu primeiro álbum a solo, uma nova estrela do jazz acabava de nascer. A crítica desfez-se em elogios à sua voz cristalina, à sua presença cativante e ao seu modo sofisticado de tratar temas das mais variadas proveniências. Vinte e cinco anos e quase outros tantos álbuns depois, a cantora continua a deslumbrar plateias, dando a ouvir músicas mil vezes escutadas como se fora a primeira vez. O encontro com o público na Casa da Música veio confirmá-la como uma artista de excepção. Na apresentação do seu mais recente trabalho, “Songs From Other Places”, o concerto foi, todo ele, um primor de sensibilidade e delicadeza, com Art Hirahara (piano) e Jim Tomlinson (saxofone, flauta transversal e percussões) a acompanharem prodigiosamente a cantora. A isto acresce o cuidado e atenção de Stacey Kent em falar ao público em português, comentando o que havia para comentar, corrigindo-se quando percebia um ou outro erro e tornando cada momento de pausa numa verdadeira delícia.

Tema de abertura do concerto, “Tango in Macao” agarrou o público graças ao charme da música composta por Jim Tomlinson e à ironia de uma letra com assinatura do Nobel da Literatura em 2017, Kazuo Ishiguro. De seguida escutámos “Dindi”, a canção de António Carlos Jobim que é uma fusão de Jazz e Bossa Nova e que Stacey Kent interpretou de forma magistral. Ao encontro de Andy Williams e do trabalho que dedicou à cidade-luz no ano de 1960, a cantora trouxe-nos “Under Paris Skies” e então dirigiu ao público as primeiras palavras, juntando o prazer de voltar aos palcos de forma presencial à gratidão por ver uma casa cheia a aplaudi-la. A dupla Tomlinson / Ishiguro esteve uma vez mais em destaque com “I Wish I Could Go Travelling Again”, primeira faixa do novíssimo álbum da cantora, seguindo-se esse clássico dos clássicos que é “Bésame Mucho”, numa versão que Stacey Kent aprendeu com João Gilberto, um músico particularmente querido que lhe abriu horizontes musicais inimagináveis e que levaram a cantora a afirmar: “Ele é tudo para mim!”

Ao álbum “The Changing Lights” (2013) foi a cantora buscar “Waiter. Oh Waiter”, mais um tema de Tomlinson e Ishiguro, seguindo-se nova incursão no universo de Jobim com “Bonita”. “Alfie”, a música que Burt Bacharach compôs para o filme com o mesmo nome antecedeu “Blackbird”, canção icónica da fase final dos “Beatles” escrita pela dupla Lennon / McCartney e que, nesta versão, conta com arranjos de Art Hirahara e com um trabalho de piano incrível. O concerto caminha para o final e “Avec Le Temps”, de Léo Ferré, foi outro dos grandes momentos da noite, a cantora a dedicá-la, num francês escorreito, à memória do seu avô. As duas últimas canções do alinhamento trouxeram Jobim de novo, primeiro com “Imagina” e logo de seguida com “Águas de Março”, que Stacey Kent e Jim Tomlinson cantaram na perfeição, como se de Tom e Elis se tratasse. O “encore” foi preenchido com a versão instrumental de “O Bêbado e a Equilibrista”, de Aldir Blanc e João Bosco, colado ao eterno “Smile”, um tema de Chaplin inspirado na “Tosca” de Puccini e que o realizador usou no filme “Tempos Modernos”. O final perfeito de uma noite inesquecível.

quarta-feira, 30 de março de 2022

CONCERTO: Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento



CONCERTO: Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento
Convidados | Jorge Benvinda, Miguel Araújo, Mafalda Vasques, Pedro Mestre, António Zambujo
Casa da Música - Sala Suggia
26 Mar 2022 | sab | 21:00


“O Cante nasce do ventre da terra. É gerado no interior do chão alentejano, entre pedras fraturadas pela inclemência do clima e por poderosas forças telúricas. Solta-se, ainda débil e frágil, e é transportado maternalmente junto ao solo pela aragem vagarosa dos longos dias de Verão, ganhando o andamento lento e a modulação suave das planícies alentejanas. Vai assimilando e incorporando na sua essência o balir dos rebanhos, o trinar melodioso do pintassilgo, o bater de asas de uma perdiz fugidia, o fragor da água a cair num pego sequioso. Ganha força, coesão e sonoridade ao reflectir-se, repetidamente, na brancura imaculada das paredes das aldeias. O Cante é a voz do Alentejo. É a nossa voz. É a voz do Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento.” Foi em silêncio que o público escutou as palavras que abriram uma noite memorável, como foi em silêncio que guardou a primeira voz do Cante: “Eu cheguei e não falei / Aos senhores que aqui estão / Falo-lhe agora, cantando / Boa-noite, como estão?”

Numa homenagem à sua terra, Aldeia Nova de São Bento, “És a Mãe dos Cantadores” abriu o concerto com a pureza do Cante, as vozes harmoniosas e pujantes dos cantadores a tomarem de assalto o coração do público. Como se de um bloco de som se tratasse, o Rancho dava início ao desfiar de algumas das mais populares modas alentejanas, evidenciando a coesão e força que se funde humildemente na unidade do grupo e mostrando o porquê de ser um dos mais ilustres representantes de um género musical que é Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela UNESCO desde 2014. Pensado como uma celebração do Cante, pretendendo evidenciar a singularidade da sua polifonia, a genuinidade das músicas e letras, a potência das vozes, mas também a sua versatilidade, a forma como integra ou se entrosa noutros géneros musicais, o concerto chamou ao palco, em diferentes momentos, um conjunto de distintos convidados que ampliaram o prazer de ouvir os cantadores e a sua música e contribuíram para fazer deste um momento único de comunhão e de festa.

Num concerto onde Pedro Mestre e a sua viola campaniça assumiram um papel relevante, Jorge Benvinda subiu ao palco para interpretar “Vou Cantar Até Cair” e o delicioso “Gotinha d’Água”. Mafalda Vasques, uma voz que desponta no fado, cantou “Alentejo Infinito” e acompanhou o Rancho em “Quinta-Feira d’Ascensão”, dando-lhe um toque “afadistado” e fazendo uma sublime terceira voz. Miguel Araújo juntou-se ao Rancho para interpretar “Romaria de Santa Eufémia” e António Zambujo cantou “Trago Alentejo na Voz” e “A Moda do Meu Chapéu”. Entre o estrado e um espaço que simulava uma taberna, o Rancho cantou ainda “Pomba Branca”, “Açores”, “Canta Alentejo, Canta”, “Fui ao Jardim Passear”, “Oh Francisca”, “Manjerico da Janela”, “Eu Ia Pela Rua”, “O Triste do Mocho”, “Centro ao Centro”, “Lampião, Lampião”, “Varejo”, “Viva a Quem Vive Tão Longe” e “Despedida, Despedida”. No “encore” (que esteve para não acontecer), cantadores e convidados em palco, recordou-se “Gotinha d’Água” e “A Moda do Meu Chapéu”, rematando com chave de ouro uma noite que deixou o público de coração cheio. Valeu a pena esperar dois anos por este momento!

domingo, 16 de fevereiro de 2020

CINE-CONCERTO: "J'accuse!"



CINE-CONCERTO: “J’accuse!” 
Realização | Abel Gance 
Argumento | Abel Gance 
Fotografia | Marc Bujard, Léonce-Henri Burel, Maurice Forster 
Montagem | Andrée Danis, Abel Gance 
Interpretação | Romuald Joubé, Maxime Desjardins, Séverin-Mars, Angèle Guys, Maryse Dauvray, Mancini, Elizabeth Nizan, Pierre Danis, Blaise Cendrars, Paul Duc 
Produção | Charles Pathé 
Música | Philippe Schoeller (estreia em Portugal) 
Direcção musical | Christian Schumann 
Interpretação | Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música 
França | 1919 | Drama, Horror, Guerra | 167 Minutos | M/12 
Casa da Música, Sala Suggia 
15 Fev 2020 | sab | 18:00


“…war is futile. Ten or twenty years afterward, one reflects that millions have died and all for nothing. One has found friends among one's old enemies, and enemies among one's friends.” 
Abel Gance

Considerado um dos grandes filmes pacifistas da história do Cinema, “J'accuse!”, de Abel Gance, faz inteiramente jus aos seus créditos, desvendando os horrores da guerra nas suas mais diversas vertentes. Morte, violações, stress pós-traumático, vidas desfeitas e sonhos perdidos, são a demonstração plena de que ninguém sai vencedor de eventos desta natureza. Foi este épico francês do tempo do cinema mudo que se apresentou na vasta e belíssima Sala Suggia da Casa da Música ao final da tarde de ontem, perante uma plateia razoavelmente bem composta. Com ele veio também, em estreia no nosso País, uma nova partitura musical para o filme, da autoria de Philippe Schoeller, interpretada ao vivo pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, sob a direcção fervorosa de Christian Schumann. 

Oscilando entre os registos melodramático e épico, esta “tragédia moderna em três épocas” acompanha o destino funesto de um triângulo amoroso, que se vê arrastado, transfigurado e desfeito pelos ventos da guerra. Estreado em Abril de 1919, poucos meses depois da assinatura do armistício da Primeira Guerra Mundial, o filme trouxe uma enorme projecção internacional ao cineasta Abel Gance, considerado por muitos como o “Griffith francês”, pelo fôlego épico e pela complexidade narrativa que soube imprimir aos seus filmes. Recuperando o título do famoso artigo de 1898 de Emile Zola, pela defesa de Dreyfus, “J’accuse!” aplica-se na denúncia dos horrores da guerra, com a sua procissão de mortes inúteis. Se, no final, os mortos ressuscitam e, com o dedo acusador apontado aos vivos, colocam em causa a sua conduta, são também eles que exigem que os sobreviventes sejam dignos do seu sacrifício e que, portanto, a sua morte não tenha sido em vão.

“J'accuse” é um filme igualmente notável na sua inventividade formal. Abel Gance mostra que o Cinema era, na sua concepção, uma arte resolutamente moderna, violenta, mecânica e flexível, cuja missão deveria ser – como afirmou em 1912 no seu manifesto “Qu’est-ce que le cinematographe” –, a evocação de todas as catástrofes da História, delas retirando a sua “lição objectiva imediata.” A montagem, que inclui cenas filmadas em pleno campo de batalha, mostra-se extraordinariamente dinâmica e surpreendentemente moderna, tirando o melhor partido das mais variadas técnicas cinematográficas – movimentos de câmara, sobreimpressões, efeitos de diafragma, tintagens – para construir um universo visual particularmente denso, em que se multiplicam as referências simbólicas, um inquietante bestiário, evocações alegóricas e uma materialidade quase táctil de mãos que se tocam e se apertam. 

O universo espectral em que “J’accuse!” se desenrola é mudo, mas não é silencioso. Não só as imagens nos fazem ouvir as ensurdecedoras explosões de obuses e os toques de clarim, como todo o filme é atravessado por música, lugar privilegiado da manifestação da emoção e do trauma. Foi em 2014, no contexto das comemorações oficiais do centenário da Grande Guerra, que a ZDF – Arte encomendou a Philippe Schoeller uma nova criação musical para acompanhar a projecção do filme. Embora fosse de temer o impacto causado por quase três horas de filme sobre matéria tão devastadora, a verdade é que assistir a este casamento notável entre duas artes maiores se revelou uma experiência emocionante. Radicalmente diferente dos anteriores acompanhamentos musicais de “J’accuse!”, a partitura de Schoeller explora as possibilidades tímbricas e de espacialização da orquestra sinfónica, da electrónica ao vivo e de um “coro virtual”, propondo “uma aliança do olhar e do ouvido”, na qual a música dialoga com a temporalidade própria do filme e se transforma num verdadeiro “campo magnético atravessado pela imagem”. O “dois em um” perfeito, num grande momento de música e cinema.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

CONCERTO: Inescapable - 40th Anniversary Tour | Wim Mertens



CONCERTO: Wim Mertens | “Inescapable – 40th Anniversary Tour”
Casa da Música – Sala Suggia
29 Jan 2020 | qua | 21:00


No momento em que completa 40 anos de carreira, Wim Mertens apresentou-se na noite de ontem na Casa da Música, no âmbito da digressão mundial que assinala a efeméride. Perante uma sala praticamente esgotada, o autor dos clássicos “Maximizing The Audience”, “Struggle For Pleasure”, “The Belly Of An Architect” ou “A Man Of No Fortune, And With A Name To Come” trouxe com ele um quinteto de cordas, uma formação mais alargada do que o seu habitual solo ou ocasional recital em trio, para duas horas de música onde mostrou o porquê de ser uma das “vozes” maiores do piano contemporâneo.

Avesso a convencionalismos, o pianista e compositor belga começou por saudar o público com “The Belly”, um tema que faz parte da banda sonora do filme de Peter Greenaway, “A Barriga De Um Arquitecto”, aqui numa versão particularmente enérgica. Pegando noutros temas bem conhecidos – “Bassin d'Attraction”, “No Testament” e essa notável construção melódica e rítmica que é “Inergys”, por exemplo – Mertens preencheu a primeira metade do concerto com o rigor a que nos habituou, tirando o máximo partido da harmonia e do silêncio que a sua música convoca e oferecendo-nos as mais singulares visões de um colorido e multifacetado universo.

Após um breve intervalo que apanhou toda a gente de surpresa, Mertens interpretou duas melodias a solo e, já com os cinco instrumentistas em palco – dos quais, pela sua qualidade técnica e virtuosismo, me permito destacar a violinista Tatiana Samouil e o violoncelista Lode Vercampt –, enveredou então por um programa mais “redondo”, mais linear mas não menos interessante, “European Grasses” e “Often a Bird” a pontuarem esta segunda parte. O público teve ainda direito a um “encore” de quase dez minutos, totalmente preenchido com uma notável interpretação de “Wound To Wound”.

Para a posteridade fica a noção de um concerto único, a fruição de uma música que traz um acordar às nossas vidas. Uma miríade de estruturas marcadamente originais, melodias nascidas do sonho e uma sucessão de ritmos com um poder encantatório indefectível, fazem de cada composição de Wim Mertens uma preciosa jóia. E depois há a voz do próprio Mertens, elevada aqui à qualidade de instrumento, a expressão de uma infinidade de palavras sem nome (literalmente), de expressões vocais sem sentido aparente, mas que nos conectam com uma atmosfera de emoções primárias, básicas, e que se provam, afinal, o seu verdadeiro significado e alcance. Lírios ondulantes, libelinhas esvoaçantes, dois amantes que se beijam, os olhos bem abertos sobre um corpo em arrepio, a mão que desliza suavemente ao longo do braço, a harmonia dos sentidos. A música de Wim Mertens é tudo isto. E nem se deu pelo avançar da hora.

[Foto: Wim Mertens / facebook.com/WimMertensOfficial/]

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

CONCERTO: Valencianas II | Alceu Valença & Orquestra Ouro Preto



CONCERTO: Alceu Valença & Orquestra Ouro Preto | Valencianas II
Casa da Música - Sala Suggia
20 Jan 2020 | seg | 21:30


À beira de completar 46 anos de carreira e com mais de 35 discos editados, o cantor e compositor pernambucano Alceu Valença regressou ao Porto e à Casa da Música para mais uma revisitação do seu vasto e riquíssimo cancioneiro. Com ele veio também a Orquestra Ouro Preto, sob a direcção do maestro Rodrigo Toffolo, acrescentando à voz do cantor a sobriedade e requinte duma clássica orquestra de cordas, mas também as sonoridades nordestinas saídas de instrumentos tão peculiares como a sanfona, a zabumba, a rabeca, os ferrinhos, o marimbau ou mesmo um vaso ou o testo de uma panela. O resultado cifrou-se em quase duas horas de excelente música, trazendo ao convívio com o público, sobretudo, trabalhos dos anos 70 e 80 e, com eles, o canto dos aboiadores, emboladores, violeiros e cantadores de feira, influências maiores assimiladas da cultura e da música do Brasil profundo.

O primeiro “round” pertenceu exclusivamente à Orquestra, interpretando uma alegre rapsódia que marcou o início de uma fascinante viagem musical pelo sertão. Alceu Valença subiu depois ao palco, começando por anunciar, com “Dia Branco”, que “eu vim de longe / atrás da brisa / com sete pedras / bordei a minha camisa”. A batida, ritmada e dolente, mostra a sua enorme força, remetendo para os cantos de trabalho e para as enormes plantações de algodão, à semelhança do que acontece com o Blues no Mississipi. Mas há uma clara diferença: Esse linguajar essencialmente lusitano, repleto de ressonâncias árabes e mediterrânicas, fazendo com que as duas margens deste vasto Atlântico se toquem na voz do cantor. Do xote ao forró, do coco à toada, aos ouvidos do público vão-se desfiando temas como “Na Primeira Manhã”, “Tesoura do Desejo”, “Solidão”, “Samba do Tempo”, “No Romper da Aurora” ou “Pelas Ruas Que Andei”, através dos seus sons e das suas letras se percebendo estarmos em presença de um engenhoso escritor de canções.

Com o ar saturado de cores e de alegria após a interpretação de mais três temas pela Orquestra, Alceu Valença carregou na sua vertente mais intimista e ofereceu “Eu Vou Fazer Você Voar”, o público a sublinhar com a voz as notas do refrão. Na sensualidade de “Como Dois Animais”, o amor ganha contornos explícitos com “uma moça bonita de olhar agateado” a deixar em pedaços o coração do cantor. Tal como em “Borboleta”, a boca encarnada da feiticeira, “um beijo e uma dentada sempre guardados pra mim”. “O P da Paixão” e “Tomara” colocaram um ponto final no alinhamento, com Valença a guardar para o “encore” o muito celebrado “Taxi Lunar” e, depois, a repetir-se com três temas anteriores - “Tesoura do Desejo”, “Borboleta” e “O P da Paixão” - e a ignorar os apelos do público que clamava por “Morena Tropicana” e “La Belle de Jour”. Tudo acabou em beleza, com “Anunciação” a levar a sala ao rubro, mas o amargo pela “desfeita” ficou. Sem isso - e com um pouco mais de acerto na articulação entre cantor, orquestra e produção -, tudo teria sido perfeito.

[Foto: Diário de Pernambuco | diariodepernambuco.com.br/]


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

CONCERTO: Maria Gadú



CONCERTO: “Pelle”,
de Maria Gadú
Misty Fest 2019
Casa da Música
18 Nov 2019 | seg | 21:00


“Vou debruçar meu caráter
No Negro Rio mata híbrida
Quero contar aos meus filhos
Sobre um mergulho fantástico”

“Axé Acappella” irrompe feroz, como um fogo violento. “Pararam p'ra reparar? Estão ouvindo esse som?” pergunta a cantora, para nos dizer, de seguida, “é guerra, é dente por dente (...) e se bater vai matar!”. Mas a canção não se esgota nas palavras que a conformam e Maria Gadú faz questão de a estender num improviso carregado de intenção: “Em nome do nosso direito de ir e vir, de pensar, de falar, de agir; em nome do nosso direito de estudar, de aprender, de trabalhar, de se aposentar; em nome do nosso direito de votar, de escolher, de mudar de ideia e de lutar; em nome do nosso direito de estar, de permanecer; em nome do nosso direito de cultuar os 305 povos indígenas brasileiros; em nome do nosso direito de cultuar as nossas 274 línguas indígenas brasileiras; em nome dos nossos direitos de casar, de passear por aí com os nossos amores, sem apanhar, sem ser violentado, sem morrer; em nome do nosso divino direito de amar... BOLSONARO, NÃO!”. Uma explosão de palmas e gritos ecoou na sala. “Silente um bom Deus vela a terra sagrada da ingratidão / Um Axé acapella feroz insinua o batidão!”.

Antes disso, porém, mesmo muito antes, começámos por ter a estranheza dum cântico a desdobrar-se na sala, intenso e muito belo, fazendo o público mergulhar num “mundo líquido”. Depois veio a música, nua e crua, a derramar-se do violão e a provocar um arrepio na pel(l)e. Finalmente a poesia, firme e poderosa, catártica, de intervenção, num retorno às origens ancestrais da cultura indígena, clamando pela memória e pela pujança histórica do povo brasileiro. Sob a capa do fantástico e maravilhoso encontro com os sons e as cores deste “Mundo Líquido” - assim se chama a canção com que Maria Gadú abriu o concerto na Casa da Música – escondia-se o convite a que víssemos “a vida de olhos abertos”. Estava dado o mote para um concerto absolutamente incrível, com a palavra a ganhar uma força invulgar e a relegar a própria música para um plano secundário. À sentida homenagem ao povo indígena, sucederam uma saudação à ancestralidade e à infância, respectivamente com “Dona Cila” e “Shimbalaiê”. Com o concerto já em velocidade de cruzeiro, a plateia entoa “(...) quando vejo o sol beijando o mar / Shimbalaiê, toda vez que ele vai repousar” e, de seguida, “Bela flor, pouco disse / Gémea flor, que cresceu no Rio”. Temas como “Tudo Diferente”, “A História de Lily Braun”, “Lounge” ou “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, preencheram o miolo do concerto e serviram de preparação para o primeiro grande momento da noite e já descrito no parágrafo inicial.

A cantora solta-se no calor da sua mensagem e, logo após o extraordinário “Amor de Índio” - “Sim, todo amor é sagrado / E o fruto do trabalho / É mais que sagrado, meu amor”- oferece o segundo grande momento da noite, ao declamar o poema de Beto Guedes “O Sal da Terra”, convidando a uma reflexão profunda: “Vamos precisar de todo mundo / Um mais um é sempre mais que dois / P'ra melhor juntar as nossas forças / É só repartir melhor o pão / Recriar o paraíso agora / Para merecer quem vem depois / Deixa nascer, o amor / Deixa fluir, o amor / Deixa crescer, o amor / Deixa viver, o amor / O sal da terra.” Já no muito celebrado “encore”, Maria Gadú começou por saudar esse outro nome enorme da poesia e do mundo, Jacques Brel, com “Ne Me Quitte Pas”, aproveitando ainda para denunciar as queimadas na Amazónia e no Cerrado, que servem os “lobbies” da soja e do gado - “tem hoje mais gado no Brasil que gente” -, e sugerir que se pense melhor na hora de comer um bife. Do meio da assistência, alguém gritou “Altar Particular” e a cantora não se fez rogada, para gozo e gáudio do público. Com “Laranja” - “Ô menina, parece índia Yanomani seu cabelo preto breu / Simula um toque, que desabroche / Esse teu casto mastigado pelo meu” - Maria Gadú colocou um ponto final nesta noite memorável, mas antes ainda deixou no ar uma pergunta, a raiva na voz, a exigir resposta urgente: “Quem mandou matar Marielle Franco?” Saravá, Maria Gadú!

terça-feira, 28 de maio de 2019

CONCERTO: "Respeitosa Mente"



CONCERTO: “Respeitosa Mente”
Ricardo Ribeiro, com João Paulo Esteves da Silva e Jarrod Cagwin
Casa da Música – Sala Gulhermina Suggia
22 Mai 2019 | qua | 21:30


Após cinco trabalhos de autor que tiveram no fado o denominador comum, Ricardo Ribeiro mudou de registo. Numa Casa da Música praticamente esgotada, “Respeitosa Mente” constituiu uma viragem surpreendente e radical no trajecto do artista, sublinhando a sua extraordinária dimensão enquanto escritor de poemas sensível, autor inspirado de músicas e dono duma voz absolutamente única. Com o pianista João Paulo Esteves da Silva e o percussionista Jarrod Cagwin ao seu lado, Ricardo Ribeiro rompe amarras e estende agora os braços a toda a bacia mediterrânica, levando o público numa viagem pelas toadas berberes e pelo canto gitano, pelos ritmos italianos e, incontornavelmente, pelo cante alentejano e pelo fado também.

“Depois de Ti”, com letra de Tiago Torres da Silva e música de Ricardo Ribeiro, foi o tema escolhido para abrir o concerto e o mínimo que se pode dizer é que, se as coisas se ficassem por aqui, já teria valido a pena a deslocação à Casa da Música. Estou a falar duma pérola, uma composição sublime assente num poema belo e sensível, absolutamente arrebatador. À qualidade invulgar das letras que percorrem este trabalho, não serão alheios os nomes de Pedro Homem de Mello, António Ramos Rosa ou José Carlos Ary dos Santos, mas importa destacar João Paulo Esteves da Silva, autor da maior parte das músicas que se puderam ouvir e, não menos importante, das letras de temas tão belos como “Envoi”, “Atraso” e “O Sítio”.

Num concerto recheado de momentos de enorme intensidade e emoção, destacaria a estreia absoluta de “Estrada Azul”, um poema de Ricardo Ribeiro musicado por João Paulo Esteves da Silva, o instrumental “Naná”, que Ricardo Ribeiro escreveu e dedicou à sua mãe, o arrepiante “As Mondadeiras”, com letra de Francisco Torrão e música de Zeca Torrão e, já no “encore”, o “Canto Franciscano”, baseado no Fado Menor (popular) e com poema de José Carlos Ary dos Santos. Este foi, aliás, um momento muito especial, já que o artista dedicou este fado a uma espectadora que, no decorrer do concerto, protagonizou um dos momentos mais lamentáveis de que tenho memória, ao vaiar o artista e o seu trabalho. Evidenciando um extraordinário “fair play”, Ricardo Ribeiro foi ao encontro do pedido, mostrando que, acima do artista, está uma pessoa com um enorme carácter e um coração do tamanho do mundo. Um senhor!

[Foto: Jarrod Cagwin | facebook.com/jarrodcagwinmusic/]

domingo, 5 de maio de 2019

CONCERTO: "Histórias do Céu e da Terra"



CONCERTO: “Histórias do Céu e da Terra”,
de Isabel Rato
Casa da Música – Sala 2
04 Mai 2019 | sab | 22:00


Isabel Rato esteve na noite de ontem na Casa da Musica para apresentar “Histórias do Céu e da Terra”, o seu segundo trabalho em disco. Numa sala pouco preenchida, uma plateia fria terá prestado uma frouxa recepção à compositora, arranjadora e pianista e aos quatro músicos que a acompanharam em palco, o público a manter enormes reservas em aderir às propostas musicais que foram fluindo ao longo de escassos três quartos de hora. Talvez haja uma razão plausível para este distanciamento, João David Almeida a revelar-se um tremendo “erro de casting”, a inexpressividade da voz a somar-se a uma presença pouco contagiante em palco. Isso foi particularmente notado em “Das Nuvens”, o tema que abriu o concerto e que haveria de o marcar irremediavelmente daí em diante.

As coisas não melhoraram com “Segue o Teu Destino”, sobre um poema de Ricardo Reis e tampouco com “Linho Mourisco”, um tema do cancioneiro popular português, num belíssimo arranjo de Isabel Rato mas que a voz, de novo, não soube valorizar. “Histórias do Céu e da Terra”, o tema que dá nome ao disco, representou em certa medida uma viragem no concerto, os instrumentos a ganharem uma maior autonomia, o piano a conquistar o devido espaço num solo incrível, de enorme expressão e beleza. Também o saxofone de João Capinha, a bateria de Rui Pereira e o contrabaixo de João Custódio a fluirem agora com mais liberdade e a afirmarem a qualidade destes executantes, confirmada depois com “Solstício”, um tema exclusivamente instrumental, harmonioso e sensível. A fechar o concerto, “Passagem” pôs uma vez mais em evidencia a pouca plasticidade da voz de João David Almeida, aqui particularmente gritante face às exigências dum tema que abre enorme espaço à improvisação.

Aquilo que acabo de escrever não faz jus ao trabalho de Isabel Rato na sua globalidade, pelo que importa ressalvar que estamos perante um conjunto de temas que não desmerecem no panorama do actual jazz que se faz em Portugal. Com “Histórias do Céu e da Terra”, a pianista oferece-nos composições de enorme riqueza musical, doces e harmoniosas, que tanto bebem da tradição como do improviso para se fundirem em momentos delicados e muito belos. Depois houve João David Almeida, que até poderia não estar nos seus melhores dias, a garganta “tocada” pela nortada fresca, um trabalho de som longe do “milagre” que se alcança em estúdio. Fica a dúvida. Mas que não foi um grande concerto, lá isso não foi!

[Foto: Anabela Carreira / facebook.com/anabela.carreira/]

quinta-feira, 21 de março de 2019

CONCERTO: "Children of the Light" Ft. Danilo Pérez, John Patitucci e Terry Lyne Carrington



CONCERTO: “Children of the Light”
Ft. Danilo Pérez, John Patitucci e Terry Lyne Carrington
Casa da Música
10 Mar 2019 | dom | 21:00


Quando, em Abril passado, se apresentaram no Centro de Artes de Ovar para um concerto integrado na auspiciosa primeira edição do “Ovar em Jazz”, Danilo Pérez, John Patitucci e Brian Blade proporcionaram aos presentes momentos inolvidáveis do melhor jazz que alguma vez se fez. Na altura escrevi aqui no Blogue ter sido esta uma experiência absolutamente gloriosa, fenomenal, única, o espectador convidado a permanecer “no domínio da visão e do sonho, numa dimensão fluida de gravidade zero”. No final do ano, haveria mesmo de eleger este como o melhor de entre os mais de sessenta concertos a que assisti em 2018.

Com redobrada alegria e uma enorme expectativa, dirigi os meus passos para a Casa da Música, para nova apresentação do projecto “Children of the Light” (que dá nome ao álbum publicado em 2015), agora com Terry Lyne Carrington no lugar de Brian Blade. E de novo, a magia do jazz a derramar-se em toda a sua dimensão. O tema das crianças irá surgir a espaços, quer na carga lúdica que acompanha o tema que dá nome ao concerto, quer, de forma explícita, em “Sunborn and Mosquito”, dedicado a Carolina, uma das filhas de Pérez. Mas foi a luz que atravessou todo o concerto e se impôs em composições como “Light Echo / Dolores”, “Milky Way” (“Via Láctea”), “Looking for Light” ou “Lumen”, o tema que encerrou o concerto. Uma luz que ora se derramou de forma abrupta, intensa e ofuscante, ora se ofereceu suave e doce, em notas tranquilas, acentuando a felicidade do momento.

Aquilo que, porventura, mais impressiona nestes três enormes músicos é a sua cumplicidade e hegemonia, a sua enorme coesão e audácia. Mesmo nos momentos em que cada um coloca o seu talento ao serviço do conjunto, é possível perceber de que forma a sua identidade musical, a sua marca distintiva permanece intacta – fechar os olhos e isolar um instrumento dos restantes constitui, em “Children of the Light”, um exercício deveras inspirador. Ora lineares, verdes prados de formas suaves e flores delicadas, ora complexas, vertiginosos precipícios ou gargantas abruptas por onde correm torrentes caudalosas, as composições do trio são meios de representação, as suas músicas pintam cenários, os sons que produzem contam histórias. Composição ou improviso, é como uma explosão rítmica que marca o bater do próprio coração. É o jazz na sua dimensão orgânica. É vida que se desprende de cada nota.

[Foto: Anna Webber / imnworld.com]

quinta-feira, 14 de março de 2019

CONCERTO: Helena Sarmento



CONCERTO: Helena Sarmento
Casa da Música – Sala 2
12 Mar 2019 | ter | 19:30


O palco da Sala 2 da Casa da Música recebeu, ao final da tarde da passada terça feira, a fadista Helena Sarmento, na apresentação de “Lonjura”, o seu mais recente trabalho. Sob o signo dos afectos, este foi um concerto de homenagem a Joaquim Sarmento, o pai da cantora, com muitos familiares e amigos espalhados pela plateia a marcarem pela emoção um momento tão especial. A reforçar este ambiente intimista e de enorme cumplicidade, um álbum de recordações ia sendo “folheado” com desvelo à medida que a música e a voz fluíam doces e melodiosas, ilustrando a viagem de uma vida que Helena Sarmento fez questão de partilhar com o público.

Repartindo o alinhamento do concerto pelos seus três álbuns – “Fado Azul” (2011), “Fado dos Dias Assim” (2013) e “Lonjura” (2018) -, foi neste último que a cantora se focou mais intensamente, oferecendo um conjunto de temas onde a sensibilidade e autenticidade se passearam de mãos dadas. Foi assim com “Lonjura” ou “Fado Azul (Se Azul Se Atreve)”, dois temas ancorados na tradição mas com um vinco marcadamente pessoal, tal como o foi com o pungente “Fado em Branco”, tema de abertura do álbum ou com o divertido “Fado Jurídico-Criminal”, ambos assentes em poemas preciosos da autoria de João Gigante-Ferreira. E bem assim com temas respigados dos anteriores trabalhos, do “Fado Aritmético” a “A Epopeia do Espumante” ou a “Amor a Caminhar”, um fado que abriu o concerto sob os melhores auspícios.

Extraordinariamente acompanhada em palco por Samuel Cabral na guitarra portuguesa, André Teixeira na viola e Sérgio Marques (Ginho) na viola baixo, Helena Sarmento mostrou a singularidade e versatilidade da sua voz, capaz de cantar com a mesma elegância Amália Rodrigues ou Zeca Afonso. Pela intensidade da interpretação, “Era um Redondo Vocábulo” foi mesmo um dos momentos altos da noite, talvez apenas ultrapassado por “O Bêbedo e a Equilibrista”, uma canção popularizada por Elis Regina ao ritmo do samba e na qual se fundem todas as qualidades do trabalho da cantora: escolha criteriosa das composições, genialidade dos arranjos, um inigualável bom gosto e muita paixão na voz. “Lonjura” é um álbum de consagração e foi muito bom poder escutá-lo assim, emoções à flor da pele, o fado na alma de cada um.

[Foto: facebook.com/helenasarmento/]

sábado, 16 de fevereiro de 2019

CINEMA: "A Quimera do Ouro"



CINEMA: “A Quimera do Ouro” / “The Gold Rush”
Realização | Charles Chaplin
Argumento | Charles Chaplin
Fotografia | Roland Totheroh
Montagem | Charles Chaplin
Musica | Charles Chaplin (1942), com arranjo de Timothy Brock (2007) e interpretação ao vivo da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, dirigida pelo maestro Jayce Ogren
Interpretação | Charles Chaplin, Mack Swain, Tom Murray, Henry Bergman, Malcolm Waite, Georgia Hale, Heinie Conklin, James Dime
Produção | Charles Chaplin
Estados Unidos | 1925 | Aventura, Comédia, Drama | 96 Minutos | M/6
Casa da Música, Sala Suggia
16 Fev 2019 | sab | 18:00


Alasca em plena febre do ouro. Soldados da fortuna de todo o mundo convergiam na região e Charlot, o pequeno vagabundo, está no centro da acção à procura de ouro. Depois de muitos desapontamentos, perigos e privações, a sua persistente busca por riqueza e felicidade acaba por ser recompensada. Pelo caminho confrontar-se-á com a brutalidade de outros garimpeiros, sentir-se-á atraído por uma jovem e bela mulher, montará um banquete com uma bota cozida e com a ajuda de dois garfos e pedaços de pão, construirá uma dança naquela que permanecerá, para sempre, como uma das mais hilariantes sequências da história do cinema.

Charles Chaplin construiu “A Quimera do Ouro” a partir das fontes mais improváveis da comédia. A ideia inicial surgiu quando via imagens em estereoscópio da febre do ouro do Klondike (noroeste do Canadá), em 1896, e chamou-lhe a atenção a imagem de uma fila interminável de garimpeiros serpenteando pelo Chilkoot Pass, a pota de entrada para a região do ouro. Ao mesmo tempo, leu por acaso um livro sobre o Desastre da Expedição Donner de 1846, quando um grupo de imigrantes, preso na Serra Nevada, teve de comer o seu próprio calçado e os cadáveres dos seus camaradas. Chaplin – provando a sua crença de que a tragédia e o ridículo nunca estão muito distantes – decidiu transformar estas histórias de provação e horror em comédia. A sua familiar personagem do vagabundo tornou-se um garimpeiro, juntando-se à massa de bravos optimistas e enfrentando o frio, a fome, a solidão e a incursão ocasional de um urso pardo.

Sobretudo porque o programa oferecido na tarde de hoje pela Casa da Música juntava o melhor de dois mundos – o cinema e a música -, é forçoso que falemos duma banda sonora escrita por Chaplin em 1942, depois de uma compilação de partituras de 1925 (por Carli Elinor e Charles Chaplin) terem acompanhado as exibições iniciais, até o filme deixar de ser programado com frequência após o advento do cinema sonoro. Tal como na maior parte da obra de Chaplin, a música tem como função principal servir as imagens. Aqui se encontra música de tempestade, luta, amor dança. Mas há também música escrita meticulosamente para soluços, fome, sono, comida, alucinações, lutas de bolas de neve, suspeições, indignidade, orgulho e indiferença. A isto responde a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, dirigida pelo maestro Jayce Ogren, de forma magistral, sendo particularmente evidente a fluidez das expressões e do movimento e os estados de espírito e de temperamento em constante mutação. Nas passagens de cordas sombrias e melancólicas, como nos solos coloridos de oboé e fagote, na omnipresente harpa ou na força bruta dos metais, percebe-se uma forte cumplicidade entre a música interpretada pelo agrupamento e a imagética de Charles Chaplin. Será aquilo a que chamaremos o “dois em um” perfeito, a "cereja no topo do bolo"  de um programa de eleição absolutamente inesquecível!

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

CONCERTO: Danças Ocultas com Jacques Morelenbaum e Dora Morelenbaum



CONCERTO: Danças Ocultas com Jacques Morelenbaum e Dora Morelenbaum
Misty Fest 2018
Casa da Música
21 Nov 2018 | qua | 21:00


Quando todos pensavam que, com o sublime “Amplitude” - álbum lançado em 2016 e que contou com a participação da Orquestra Filarmonia das Beiras -, os Danças Ocultas tinham atingido o topo duma carreira de duas décadas de enorme sucesso e já pouco mais teriam para dar, eis que surgem agora, com redobrado “fole”, oferecendo uma nova pérola à qual deram o nome de “Dentro Desse Mar”. Um mar que é o vasto e imenso Atlântico, esse mar que abraça, com mãos ambas, Portugal e o Brasil. Foi para nos dar conta desse “abraço” que Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel, quarteto de Águeda que trata as concertinas como ninguém, subiram ao palco da Casa da Música, trazendo na bagagem mil histórias para contar e mil imagens para mostrar. Mas não vieram sós. No seu seio, acolheram o violoncelista Jacques Morelenbaum – igualmente produtor deste novo trabalho -, Dora Morelenbaum e Carminho, que emprestaram a voz a quatro temas interpretados ao longo do concerto, um quarteto de cordas composto por Mafalda Vilan, Tiago Afonso, João Tiago Dinis e Raquel Andrade e ainda Quiné Teles nas percussões e Marco Figueiredo nas teclas.

Com o som e o ritmo de “Azáfama” a colorirem uma sala bem composta de público, dir-se-ia que o concerto não poderia ter tido melhor começo. Trata-se dum tema alegre e cheio de vida, que remete para sonoridades do centro da Europa, mais propriamente para os Balcãs (quem viu “Gato Preto, Gato Branco” e é fã de Emir Kusturica perceberá muito bem a particular geografia desta música). Entre “S. João”, a música seguinte, e o intimista e muito belo “Oniris” (também aqui podemos associar o cinema e a geografia a este tema, situando-o na Grécia e invocando “A Eternidade e um Dia”, um filme de Theo Angelopoulos com música de Eleni Karaindrou), Dora Morelenbaum marcou presença no palco para interpretar magistralmente “Dessa Ilha”, um poema de Arnaldo Antunes, e “As Viajantes”, com letra de Carlos Rennó. Seguiu-se “Esse Olhar”, um dos temas icónicos do trabalho anterior, e ainda duas músicas de cariz bem popular, “Moda Assim ao Lado” e “Queda d'Água”, do álbum de estreia que tomou o nome do grupo. Embora sem intervalo, devemos aceitar que “Sorriso” marcou o fim da primeira parte do concerto, revelando-se preciosa a forma como o grupo recuperou um tema surgido em 2004 com o álbum “Pulsar”, transformando-o, quiçá, no mais bem acabado exemplo desta ponte musical entre os dois países irmãos.

E se “Sorriso” fechou a primeira metade do concerto, “O Teu Olhar” deu o “pontapé de saída” para a segunda parte, na voz inigualável de Carminho. O resto do concerto foi um saltitar constante entre sons e ritmos, fazendo alternar temas como “Bailar em Silêncio” ou “Soldado”, do álbum mais recente, com autênticos clássicos dos Danças Ocultas, como “Bulgar” (do álbum “Ar”, de 2011), “Tristes Europeus” e “Casa do Rio”, ambos do já referido “Pulsar”, ou ainda “Dança II”, do álbum “Danças Ocultas”. Tempo ainda para um momento de erudição verdadeiramente inesquecível onde se fizeram sentir, um arrepio na pele, os acordes de “Summertime”. Já nos encores, com duas longas ovações e outras tantas vindas ao palco, o público teve o privilégio de voltar a escutar Carminho, recordando a sua participação em “Amplitude” com “O Diabo Tocador”. A finalizar, “No(c)Turno das 7”, talvez aquele que é o tema mais bonito de todos quantos os Danças Ocultas escreveram até hoje e que nos é oferecido logo no álbum de estreia. O mais belo final de todos, um bálsamo para o espírito e com ele a certeza de ter sido este um dos mais fantásticos concertos do ano!

[Foto: dn.pt]

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

CONCERTO: Avishai Cohen Trio



CONCERTO: Avishai Cohen Trio
Misty Fest 2018
Casa da Música
20 Nov 2018 | ter | 21:00


Após a épica digressão de apresentação de “1970”, o seu mais recente trabalho, Avishai Cohen “regressou à calma”, subindo ao palco da Casa da Música, na noite de ontem, para um concerto que viria a revelar-se memorável. Ao longo de uma hora e meia, o contrabaixista, vocalista e compositor israelita mostrou o porquê de ser uma das grandes figuras do jazz contemporâneo, convidando um entusiástico público que esgotou completamente a sala a uma viagem autêntica e meditativa através duma música que, respeitando a tradição, não se coibiu de mostrar novos e improváveis caminhos.

Dando provas dum virtuosismo inexcedível, Cohen revelou-se insaciável na hora de extrair do contrabaixo tudo o que ele pode dar, estabelecendo com o instrumento uma fisicalidade intensa, a roçar o erotismo. No frenético dedilhar das cordas, nos golpes seguros do arco ou na batida ritmada da caixa de ressonância, foi muito mais do que apenas musica aquilo que o público pôde receber, num exercício único de paixão e superação. Justo será dizer, no entanto, que a dimensão superior destes momentos exaltantes foi enormemente potenciada graças aos dois músicos que acompanharam em palco o líder. Elchin Shirinov fez do piano um interlocutor privilegiado dos diálogos com o contrabaixo enquanto Itamar Doari conseguiu a extraordinária proeza de pôr uma bateria a gritar bem alto sem quase se fazer ouvir.

Parco em palavras – retenho pouco mais do que essa novidade que quis partilhar com o público, a de que estará prestar a conseguir a cidadania portuguesa -, Avishai Cohen omitiu o nome dos temas que fizeram parte do alinhamento deste concerto. Resumiram-se a uma dúzia, o que permite afirmar, com toda a certeza, que uma enorme fatia da obra discográfica do artista ficou de fora. Aquilo que ouvimos, porém, é o melhor e mais significativo estímulo para a descobrirmos em toda a sua plenitude. Harmoniosa e delicada, plena de sonoridades reveladoras de influências múltiplas – do Leste Europeu ao Médio Oriente, dos ritmos africanos às ambiências urbanas do Novo Mundo –, a música de Avishai Cohen é um dos mais perfeitos lenitivos para a alma. Em suma, um concerto memorável, daqueles que valem por uma vida, que nos reconciliam com o mundo e connosco próprios!

[Foto: Jos L. Knaepen / avishaicohen.com/imggallery]

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

PALESTRA-RECITAL: "On Playing Mozart", por Alfred Brendel



PALESTRA-RECITAL: “On Playing Mozart”,
por Alfred Brendel
Casa da Música, Porto
21 Out 2018 | dom | 18:00


Jovem enfermeiro em início de carreira, assisti a duas mesas num Congresso de Ortopedia onde se abordavam as novas e revolucionárias técnicas de cirurgia do joelho. Desses momentos, passados quase trinta anos, restou a enorme frustração por não possuir os conhecimentos necessários a processar a informação recebida e a torná-la minimamente prestável. Recordo hoje esta experiência pouco simpática porque foi exactamente assim que me senti na palestra-recital proferida ao final da tarde de ontem, na Casa da Música, pelo pianista Alfred Brendel. Eu e, certamente, muitos outros, entre os quais aqueles que foram abandonando a sala desde os minutos iniciais.

“On Playing Mozart” foi apresentado ao público como uma palestra-recital. Ancorado na prestigiada figura de Alfred Brendel – um regresso ao palco onde inaugurou a primeira temporada de piano da Casa da Música, em 2005 -, o programa prometia a visão e os conselhos de um célebre intérprete de Mozart sobre a obra de um compositor genial que marcou o classicismo vienense, tudo isto complementado com os vários apontamentos pianísticos que sustentariam as ideias de Brendel. E é aqui que as coisas se complicam, primeiro porque a prédica não era para todos os públicos, exigindo um conhecimento prévio da obra de Mozart e das múltiplas formas como pode ser interpretada, e depois porque os (poucos) acordes tocados ao piano não foram além da mera ilustração, parecendo-me abusivo aplicar-lhe o termo de “recital” com que foi anunciado.

Foi tempo perdido? Certamente que não, pelo menos não totalmente. Brendel provou que Mozart não era um hippie, embora os seus contemporâneos achassem os seus contrastes desagradáveis e as contradições desnecessárias. Embora extravagante, era extremamente dotado e podemos considerá-lo um compositor “cantabile”, que fazia o piano cantar. Mas depois vêm questões relativas à notação, até que ponto deve ser literalmente interpretada, ou de que forma se comparam as suas poucas obras em tons menores com as muitas em tons maiores, ou da segunda nota tocada mais suavemente que a primeira, ainda os tempos 6/4 ou a K. 545, K. 589 ou K. 570 que toda a gente devia conhecer mas que só alguns conheceriam, o interesse a ceder rapidamente lugar ao tédio. A rematar, diria que pôr duas peças a tocar no “giradiscos” durante largos minutos só ajudou a fazer crescer na ideia a palavra “logro”.