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domingo, 16 de janeiro de 2022

CONCERTO: "Alceu Valença Solo"



CONCERTO: “Alceu Valença Solo”
Centro de Arte de Ovar
14 Jan 2022 | sex | 21:30


De ar breve e contornos indefinidos, a nostalgia foi, a par da alegria, um dos aspectos mais marcantes do concerto que Alceu Valença deu em Ovar na noite da passada sexta feira (e que viria a repetir no dia seguinte). Ancorado em composições icónicas que marcam quase meio século de vida musical, o cantor e compositor pernambucano fez questão de pôr em palco a sua melhor música, vincando a forte ligação que une os muitos temas da sua autoria. Improvavelmente conceptual, o concerto decorreu sob o signo da viagem entre o hoje e o amanhã, por ruas que andei, subindo ladeiras, na beira mar ou na Estação da Luz, a acompanhar os blocos do Carnaval de Olinda, entre Ovar e a Lua. Maioritariamente brasileiro, o público que esgotou a sala transformou o Centro de Arte de Ovar no Mercado do Bonsucesso de Olinda ou no Eufrásio Barbosa, incansável no apoio ao cantor e tirando partido da sequência de xotes e frevos (“quase fados”) para menear o corpo e gritar bem alto: “Eu acho é pouco… é bom demais!”.

“Alceu Valença Solo” foi um concerto marcadamente intimista. A ausência de uma banda “isolou” o cantor num palco que soube encher apenas com a força da sua voz e a doçura do seu violão. A coloquialidade foi uma constante, o artista a falar das suas origens e das ligações familiares a Portugal, das suas conquistas (de alguns fracassos, também), do momento presente e do confinamento que acabou por estar na origem deste projecto, assente em três álbuns - “Sem Pensar no Amanhã”, “Saudade” e “Senhora Estrada” - com a chancela da Deckdisc e lançados no ano passado. É neles que o concerto vai beber todos os seus momentos, convocando canções de “outros tempos” e músicas actuais, combinando cores e ritmos, pessoas e lugares e trazendo para o palco aqueles que trilharam os mesmos caminhos, de Luíz Gonzaga a Jackson do Pandeiro, de Vicente Moreira Barreto a José Ramalho Neto ou Geraldo Azevedo de Amorim.

Os primeiros minutos trouxeram com eles a colombiana Mari Segura, que muitos terão reconhecido do The Voice Portugal 2020. Com ela vieram cinco canções muito bonitas, numa voz doce e bem cuidada, mas sem grandes diferenças de tom e ritmo entre si. Com “Pau de Arara”, Alceu Valença entrou “a matar”, trazendo no matolão o triângulo, o gunguê e a zabumba, o xote, o maracatú e o baião. Penou, mas chegou. E logo fez questão de chamar Luíz Gonzaga, num “Xote das Meninas” que só querem, só pensam em namorar. “Papagaio do Futuro” mostrou como, há quatro décadas, as questões ambientais eram já uma preocupação do cantor - “vamos salvar as serras da beira do rio a Santana” - e “Estação da Luz” uniu-se a “Era Verão” nesse “pintar passageiro colorindo o mundo inteiro”. A cidade de Olinda, com a sua arquitectura colonial, as suas colinas e ladeiras, tomou conta dos momentos seguintes, seguindo-se “Marim dos Caetés”, “Flor de Tangerina”, “P da Paixão”, “Coração Bobo” e o muito saudado “Como Dois Animais”. “Taxi Lunar” e “Tropicana” fecharam o alinhamento, com “Sabiá” (na companhia de Juba Valença) e “La Belle de Jour | Girassol” a colocarem um ponto final em quase duas horas de concerto. Um luxo em dias que correm. Um concerto não menos luxuoso.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

CONCERTO: Valencianas II | Alceu Valença & Orquestra Ouro Preto



CONCERTO: Alceu Valença & Orquestra Ouro Preto | Valencianas II
Casa da Música - Sala Suggia
20 Jan 2020 | seg | 21:30


À beira de completar 46 anos de carreira e com mais de 35 discos editados, o cantor e compositor pernambucano Alceu Valença regressou ao Porto e à Casa da Música para mais uma revisitação do seu vasto e riquíssimo cancioneiro. Com ele veio também a Orquestra Ouro Preto, sob a direcção do maestro Rodrigo Toffolo, acrescentando à voz do cantor a sobriedade e requinte duma clássica orquestra de cordas, mas também as sonoridades nordestinas saídas de instrumentos tão peculiares como a sanfona, a zabumba, a rabeca, os ferrinhos, o marimbau ou mesmo um vaso ou o testo de uma panela. O resultado cifrou-se em quase duas horas de excelente música, trazendo ao convívio com o público, sobretudo, trabalhos dos anos 70 e 80 e, com eles, o canto dos aboiadores, emboladores, violeiros e cantadores de feira, influências maiores assimiladas da cultura e da música do Brasil profundo.

O primeiro “round” pertenceu exclusivamente à Orquestra, interpretando uma alegre rapsódia que marcou o início de uma fascinante viagem musical pelo sertão. Alceu Valença subiu depois ao palco, começando por anunciar, com “Dia Branco”, que “eu vim de longe / atrás da brisa / com sete pedras / bordei a minha camisa”. A batida, ritmada e dolente, mostra a sua enorme força, remetendo para os cantos de trabalho e para as enormes plantações de algodão, à semelhança do que acontece com o Blues no Mississipi. Mas há uma clara diferença: Esse linguajar essencialmente lusitano, repleto de ressonâncias árabes e mediterrânicas, fazendo com que as duas margens deste vasto Atlântico se toquem na voz do cantor. Do xote ao forró, do coco à toada, aos ouvidos do público vão-se desfiando temas como “Na Primeira Manhã”, “Tesoura do Desejo”, “Solidão”, “Samba do Tempo”, “No Romper da Aurora” ou “Pelas Ruas Que Andei”, através dos seus sons e das suas letras se percebendo estarmos em presença de um engenhoso escritor de canções.

Com o ar saturado de cores e de alegria após a interpretação de mais três temas pela Orquestra, Alceu Valença carregou na sua vertente mais intimista e ofereceu “Eu Vou Fazer Você Voar”, o público a sublinhar com a voz as notas do refrão. Na sensualidade de “Como Dois Animais”, o amor ganha contornos explícitos com “uma moça bonita de olhar agateado” a deixar em pedaços o coração do cantor. Tal como em “Borboleta”, a boca encarnada da feiticeira, “um beijo e uma dentada sempre guardados pra mim”. “O P da Paixão” e “Tomara” colocaram um ponto final no alinhamento, com Valença a guardar para o “encore” o muito celebrado “Taxi Lunar” e, depois, a repetir-se com três temas anteriores - “Tesoura do Desejo”, “Borboleta” e “O P da Paixão” - e a ignorar os apelos do público que clamava por “Morena Tropicana” e “La Belle de Jour”. Tudo acabou em beleza, com “Anunciação” a levar a sala ao rubro, mas o amargo pela “desfeita” ficou. Sem isso - e com um pouco mais de acerto na articulação entre cantor, orquestra e produção -, tudo teria sido perfeito.

[Foto: Diário de Pernambuco | diariodepernambuco.com.br/]