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terça-feira, 17 de junho de 2025

CONCERTO: Pedro Abrunhosa



CONCERTO: Pedro Abrunhosa
Centro de Artes de Ovar
13 Jun 2025 | sex | 21:30


“ (…) A canção não pode continuar a ser apenas entretenimento. Tem de questionar. Já não há lugar para romantismos. Para ilusões.”
Pedro Abrunhosa

Na ressaca dos concertos que celebraram os 30 anos do álbum “Viagens” e que esgotaram o Pavilhão Rosa Mota e a Meo Arena em finais do ano passado, Pedro Abrunhosa regressou a Ovar trazendo na manga alguns dos sucessos desse álbum de estreia, a par com muitos outros que percorreram a quase totalidade da sua discografia e são a demonstração da sua genialidade como compositor, letrista e comunicador. Em Ovar, num Centro de Artes há muito esgotado, o artista começaria por saudar o público, afirmando ser a sua presença o maior tributo à cultura portuguesa”. Uma cultura que, referiria, “nunca foi tão importante para defender a soberania, a democracia e, sobretudo, a paz.” E foi sob o signo da Paz que o concerto decorreu, com a música a carregar consigo mensagens onde as palavras “paz”, “luz” e “amor” foram signos e símbolos de um enorme momento: Íntimo, profundo, intenso, vivo, espiritual. Com Cláudio Souto na direcção musical e nos teclados, Bruno Macedo na guitarra, Miguel Barros no baixo, Pedro Martins na bateria e Patrícia Antunes e Patricia Silveira nos coros, o artista levou o público por caminhos de comunhão e partilha, dando e recebendo em igual medida, falando desta cumplicidade como uma experiência maravilhosa: “Venho aos concertos para vos ouvir”, afirmou, sob uma chuva de aplausos.

“A.M.O.R.”, do álbum “Contramão” (2013), foi a pedra de toque de um concerto que gritou bem alto contra a ignorância, a intolerância, a violência de género, os crimes de ódio, todas as barreiras que se erguem em função de raças, credos ou ideologias diferentes. Porque importa não esquecer, “Balada de Gisberta” falou dos mais fracos dos fracos, para dizer que “o amor é tão longe / e a dor é tão perto”. Num arranjo contido, “É preciso ter calma” pediu “olhar” para dar “amor” e “Não te ausentes de mim” clamou “que a tua luz se acenda em mim”. “Leva-me p’ra casa” fechou um ciclo de canções de tom intimista, ao longo dos quais o músico se manteve ao piano e sobressaíram os acordes da guitarra de Bruno Macedo. Com direito a “falsa partida”, “Fazer o que ainda não foi feito” teve o condão de pôr o público a soltar a voz, “somos um beijo que demora / porque amanhã é sempre tarde demais”. Tarde demais, “sobretudo para as coisas importantes como a paz, talvez a coisa mais importante das nossas vidas, a paz que eu quero celebrar hoje”, disse Pedro Abrunhosa, enquanto a palavra, gigante, se acendia no ecrã. As canções seguintes mantiveram o cariz celebratório e, tanto “Se eu fosse um dia o teu olhar”, quanto “Vem ter comigo aos Aliados”, voltaram a ter no público um interlocutor privilegiado, a paz e o amor sempre presentes.

Num recuo a 1995, ao álbum “F” e a esse incontornável “Talvez foder”, o músico lembra “os mortos em Gaza, os feridos em Israel, os fascistas em Lisboa e em Moscovo”, e pergunta: “E tu e eu o que é que temos que fazer? (talvez foder)”. Talvez valha a pena parar para pensar naquilo que foi um gesto de rebeldia mas que, há 30 anos, já falava de Gaza, que“foder” é uma obscenidade mas “mais obscenas são as bombas a cair sobre as crianças, sobre os hospitais. Obsceno é aquilo que está a acontecer, este genocídio terrível sobre o povo palestiniano e que nos envergonha a todos”, afirmou Abrunhosa. E, lembrando acontecimentos recentes - “nazis que em Lisboa e no Porto espancam barbaramente pessoas que apenas tentam ajudar” -, o artista exortou a que “não façamos silêncio para que a violência não se torne normal: O silêncio é a porta aberta ao caos, é a morte da democracia.” A canção seguinte foi, ainda e sempre, de celebração de um mundo mais justo, livre e fraterno, no qual “ainda há fogo dentro / ainda há frutos sem veneno / ainda há luz na estrada”, e foi também uma primeira oportunidade (haveria mais) para perceber as vozes fantásticas de Patrícia Antunes e Patrícia Silveira.

De Leonard Cohen ouviu-se “Hallelujah” e prestou-se homenagem ao Papa Francisco, na certeza de que “ninguém sai de onde tem paz” e “nenhum de nós pode considerar-se cristão e fechar os olhos a esta tragédia”, disse Pedro Abrunhosa, referindo-se à atitude genocida de Israel sobre a Palestina. A caminhar para o final do concerto, escutaram-se dois temas do álbum “Viagens” - “Não Posso Mais” e “Socorro” -, a que se seguiu um “medley” que incluiu temas dançáveis dos Bee Gees, dos “The Animals” e de Janis Joplin (Bob Dylan também já por aqui tinha passado) e se passearam, de mãos dadas, o country e o reggae, a folk e o hip-hop, o gospel e os blues, o tradicional e o erudito. “Ilumina-me” foi o culminar de um concerto cheio de luz, mas que não se ficaria por aqui. De uma generosidade sem limites, o cantor voltaria ao palco, primeiro sozinho e depois, de novo, com a banda, para interpretar mais quatro temas, começando por “Eu não sei quem te perdeu”. Completamente rendido, o público acompanhou o cantor no mais belo dos refrães, “e uma asa voa / a cada beijo teu / esta noite / sou dono do céu”. Seguiram-se “Para os braços da minha mãe” e “Lua”, para tudo terminar com o belíssimo “Tudo o que te dou”, também do álbum “Viagens”, e que nos deixa com uma muito bela imagem: “Pára, recomeça, faz-me acreditar”. Aleluia!

domingo, 13 de abril de 2025

CONCERTO: "Abundância" | Maria João



CONCERTO: “Abundância” | Maria João
Com | Maria João (voz), João Farinha (teclados), André Nascimento (sintetizadores), Texito Langa (bateria), Mariana Brissos (voz), Inês Almeida (voz), Mariana Silveira Ramos (voz)
Ovar em Jazz 2025
Centro de Artes de Ovar
12 Abr 2025 | sab | 21:30


O Ovar em Jazz 2025 fechou as contas sob o signo da abundância. Abundância de momentos musicais únicos e irrepetíveis, de sonoridades novas e fascinantes, de encontros ricos em conhecimento e partilha. Abundância de emoções, sorrisos e abraços num público que cresce ano após ano e se mostra grato pelo valor de uma programação com tudo para agradar a todos. Abundância na qualidade e competência de uma organização dedicada e que, nos quatro dias do evento, dá o seu melhor para que a festa aconteça dentro e fora dos palcos. Abundância, enfim, porque assim se chama o último trabalho de Maria João, estrela maior da nossa música, e cuja apresentação teve honras de encerrar o Festival, em estreia mundial e com gravação pela televisão pública. Com uma proposta destas, não é de estranhar que o Centro de Artes de Ovar voltasse a esgotar a sua lotação, em mais uma noite memorável, no convite à viagem por paragens meridionais, os sons e tons de Moçambique a oferecerem-se na voz e no gesto por Maria João, nas suas mais variadas dimensões: fortes, quentes, densos, intensos, impressivos!

Antes mesmo de iniciar a apresentação do seu novíssimo trabalho, ao lado de João Farinha e André Nascimento, Maria João interpretou o lindíssimo “Parrots and Lions”, exaltante abraço à natureza e aos valores da tolerância, do respeito e da amizade. Na sua forma única de (en)cantar, Maria João tem neste tema o exemplo acabado da sua extraordinária técnica vocal, à qual acrescenta uma natural expressividade, capazes de transformar o diálogo improvável entre um leão e um papagaio numa obra de arte doce e carinhosa. Depois deste momento imersivo no universo da cantora, tudo o que viesse a seguir era lucro. Já com o baterista Texito Langa e um coro composto por Mariana Brissos, Inês Almeida e Mariana Silveira Ramos em palco, “Abundância” fez-se de temas como “Esperança” e “Maputo Jive”, “O Amor é Verdadeiro” e “Beatriz” (incursão simbólica no universo de Edu Lobo e Chico Buarque), “Dário” e “Papalaty”, cânticos de amor aos frutos da terra e ao labor das gentes, ao valor dos ensinamentos que se transmitem de pais para filhos, ao sentimento de pertença e à beleza que reside nas coisas mais simples, a um coração que pulsa entre dois continentes, dois países, Moçambique e Portugal ligados no corpo e na alma.

O mais belo momento da noite surgiu de forma inesperada na voz de Texito Langa, com as sonoridades etéreas de “As tuas Tranças” em pano de fundo. “O amor, uma das palavras mais usadas e pouco compreendidas. Principalmente nestes tempos, em que objectos são amados e pessoas são usadas, quando deviam ser os objectos usados e as pessoas amadas”. O manto de espiritualidade que se vinha estendendo sobre músicos e público desde o início do concerto torna-se denso e macio, aquece e conforta. Rendido ao valor e significado do momento, o público está por tudo. Escuta com devoção cada tema e aplaude intensamente, ri com as provocações de Maria João e embarca em enérgicos exercícios de percussão, acompanhando os ritmos propostos por Texito e agradecendo com um milhão de palmas e sorrisos. “Fiona”, “Ao Sol” e “Dia” são as propostas finais daquilo que constituiu, no seu todo, um abraço à cultura e à tradição de Moçambique, em poemas de José Craveirinha, Dullmea, José Mucavele ou Stewart Sukuma. É tarde e um novo dia irá nascer, trazendo consigo vida nova, renovada esperança. “Near the village, the quiet village, the lion sleeps tonight”.

sábado, 12 de abril de 2025

CONCERTO: "The Bird of a Thousand Voices" | Tigran Hamasyan



CONCERTO: “The Bird of a Thousand Voices” | Tigran Hamasyan
Com | Tigran Hamasyan (piano e voz), Yessaï Karapetian (teclados), Marc Karapetian (baixo e voz) e Matt Garstka (bateria)
Ovar em Jazz 2025
Centro de Artes de Ovar
11 Abr 2025 | sex | 21:30


Sem desprimor para com todos os nomes que integram a programação do Ovar em Jazz 2025, é inegável que a grande figura de cartaz desta sétima edição é, desde a primeira hora, o pianista arménio Tigran Hamasyan. Foi por ele, pelo reconhecido talento, pelo vigor das suas abordagens musicais, pela exploração dos sons contrastantes da rica tradição do folclore arménio e pela mistura explosiva de um jazz dinâmico com um rock progressivo, que o Centro de Artes de Ovar esgotou a sua lotação para uma noite de festa e de celebração verdadeiramente única. Inspirado num conto ancestral arménio, “The Bird of a Thousand Voices” é uma viagem através de um mundo corrosivo, tumultuoso e ameaçador, nessa busca incessante pela paz e pela harmonia. Longa e difícil, a jornada surge recheada de conflitos, desigualdades e cataclismos, os quais, como se dos níveis de um jogo se tratasse, importa ultrapassar. Envolta pela extraordinária música de Tigran Hamasyan, a história é desvendada graças a um conjunto de melodias e ritmos exóticos, deixando perceber, nas muitas camadas que encerra, todo um substrato de novos mundos que importa explorar.

Um pássaro, mil vozes. É na jóia do Cáucaso, onde culturas milenares se cruzam e os conflitos parecem não ter fim, que encontramos este pássaro mítico, o único capaz de pôr fim à maldição que pesa sobre um Rei cuja generosidade deu a ver a maldade e a ganância do seu povo. O filho mais novo do Rei acabará por trazer consigo o tão ansiado pássaro, fazendo com que a maldição seja quebrada, mas muita coisa acabará por se perder pelo do caminho. Tigran Hamasyan socorre-se de uma história muito bela para, de forma metafórica, alertar para a crise que assola a humanidade e apelar à construção de um mundo melhor e mais justo. Debruçado sobre as teclas do piano, fundido com as sonoridades que dele extrai, o músico constrói delicados motivos de filigrana que se repetem e evoluem, ao mesmo tempo emprestando a voz a um conjunto de frases musicais que parecem fazer parte da tradição oral, como se de uma canção de embalar se tratasse. O efeito sobre o público é imediato, cativando pela beleza envolvente das melodias, emocionando pelos interlúdios contrastantes que se elevam do piano.

Entre a apreensão e o medo, o desembaraço e a audácia, a coragem e a amizade, a persistência e o amor, nem tudo serão rosas ao longo da caminhada. É espantosa a técnica de Hamasyan, criando momentos dissonantes que mimetizam as emoções e instalam a inquietação e a dúvida. O mesmo sucede com os restantes elementos da banda, em total concordância com a música e o desenrolar da história. Temas como “The Curse”, “The Quest Begins”, “Areg's Calling” e “Areg and Manushak” abrem-nos esse mundo pós-apocalíptico, no qual nos movemos pesadamente à procura de salvação. “Red, White and Black Worlds”, “Prophecy of Sacrifice, “He Refuses to be Immortale “Forty Days in the Realm of the Bottomless Eye” são a afirmação de uma obra de arte total. De forma épica, o conto de fadas chegará ao fim com “Flaming Horse”, “Only the One who Brought the Bird can make it Sing” e “The Kingdom”, o derradeiro “The Well of Death and Resurrection” como um mais que merecido “repouso do guerreiro”. Não demasiadamente explícita, a mensagem política está lá. Graças aos Putins e aos Trumps deste mundo, importa dizer que ninguém está a salvo e disto nos fala Tigran Hamasyan. Disto e da necessidade urgente de quebrar todas as maldições que pesam sobre a Humanidade.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

CONCERTO: "Free Celebration" | João Lencastre



CONCERTO: “Free Celebration” | João Lencastre
Com | João Lencastre (bateria), Ricardo Toscano (saxofone alto), Pedro Branco (guitarra), João Bernardo (teclados e sintetizadores), Nelson Cascais (contrabaixo) e João Pereira (bateria)
Ovar em Jazz 2025
Centro de Artes de Ovar - Caixa de Palco
09 Abr 2025 | qua | 21:30


Depois de ter ousado revelar-se ao mundo em 2018, o Ovar em Jazz é hoje uma história de sucesso. Sete anos volvidos sobre esse momento inaugural, percebe-se que são muitas as apostas ganhas e reconhece-se o trabalho consistente que foi sendo desenvolvido e que faz com que ele seja hoje um dos mais apelativos e bem organizados Festivais de Jazz do país. Agora que está de volta, trazendo consigo, ao longo de quatro intensos dias, uma nova rodada de concertos, encontros, conversas, escuta e partilha, o certame abre-se de novo aos mais diversificados públicos, oferecendo a possibilidade de experimentar e vivenciar momentos únicos de gozo e fruição da melhor música. O pontapé de saída desta sétima edição teve lugar na noite de ontem com o projecto “Free Celebration”, do baterista João Lencastre, e que juntou em palco, para além do seu mentor, algumas das mais importantes figuras da cena jazzística nacional: Ricardo Toscano (saxofone alto), Pedro Branco (guitarra), João Bernardo (teclados e sintetizadores), Nelson Cascais (contrabaixo) e João Pereira (bateria). Foram eles que, no ambiente intimista da caixa de palco do Centro de Artes de Ovar, fizeram desta uma noite inesquecível, de liberdade e celebração.

Liberdade e celebração. Na força dos pressupostos que se abrigam nos dois conceitos reside a força do projecto de João Lencastre. Celebração, porque se trata de abraçar a música do saxofonista Ornette Coleman e dos pianistas Herbie Nichols e Thelonious Monk, estrelas maiores do firmamento do Jazz, no respeito pela verdadeira identidade das várias composições. A liberdade vem da abordagem a alguns dos temas referenciais deste trio de gigantes, fundada na veia criativa do sexteto, na capacidade de improvisação que a todos une, nas constantes mudanças de ritmo que sabem imprimir à música, no bom gosto dos arranjos coloridos e vibrantes. Se dúvidas restassem, o momento inteiramente livre que preencheu o início do concerto bastaria para as dissipar. Em modo dissonante, a combinação de solos foi-se “arrumando” num todo harmonioso, mostrando o quanto de intensidade e emoção pode estar contida numa peça de Jazz, sobretudo se é uma daquelas que, ao seu jeito, possui um carácter único e irrepetível. A levar com todo aquele “free” em cima, o público tinha aqui a possibilidade de tomar uma decisão. Entre o “ama-o ou deixa-o”, não se consta que alguém tivesse saído da sala.

Plástica, orgânica e íntegra, a música tomava conta de público e músicos, Ricardo Toscano a mostrar-se em grande forma ao arrancar do seu saxofone alto as mais sedutoras frases com “Giggin’ ” e “Congeniality”, de Ornette Coleman, enquanto João Bernardo a fazer magia com os teclados em “The gig”, de Herbie Nichols. Seguiram-se “Shuffle boil” e “Skippy”, dois temas tão deslumbrantes quanto desafiantes assinados no original por Thelonious Monk, para logo se regressar a Ornette Coleman com “Kathelyn Gray”, uma balada cuja dolência o saxofone de Toscano sublinhou na perfeição, oferecendo o mais delicado, pausado e distendido momento da sessão. Herbie Nichols fez-se de novo ouvir em “The Third World”, mas o melhor estava guardado para o final, com dois temas de Ornette Coleman, “Toy Dance” e “Forerunner”, sublinhados pelo diálogo contrastante entre as baterias de Lencastre e João Pereira e pelo trabalho empolgante de Pedro Branco em cima (e em baixo) da sua guitarra. Sem que os músicos abandonassem o palco, o “encore” trouxe-nos “Humph” de Thelonious Monk, fazendo dos “descontos” um dos momentos capitais do “jogo”. Jubilatório, exaltante, arrebatador, vivo e livre, o concerto coloca a fasquia do Ovar em Jazz 2025 a um nível muito alto. A coisa promete.

domingo, 16 de março de 2025

CONCERTO: "Folia Nova"



CONCERTO: “Folia Nova”
Sete Lágrimas
Com | Filipe Faria (voz, viola de mão 4 ordens, bandurra descante, percussão e direcção artística), Sérgio Peixoto (voz e direcção artística), Pedro Castro (flautas), Tiago Matias (guitarra barroca, guitarra romântica e tiorba), João Hasselberg (contrabaixo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Centro de Arte de Ovar
15 Mar 2025 | sab | 21:30


“E toda a gente da cidade foi posta com muita brevidade em danças e folias, com infindas tochas na praça e no Terreiro dos Paços, e por todas as ruas principaes, e tanta gente honrada e nobre, e assi a do povo, que não cabia, nem se viu nunca tanto alvoroço e alegria, e muitos velhos e velhas honradas com sobejo prazer foram juntos cantar e bailar diante de El-Rei e a Rainha, cousa de que suas edades os bem escusavam.”
Garcia de Resende, in Chronica de ‘L Rei D. João II

A folia foi um dos fenómenos mais notáveis da história da música. Com raízes campestres ligadas a rituais de fertilidade, esta melodia musical, que se estende à dança, ao texto e à animação, remonta a finais do século XV e abraça vários públicos, ocorrendo tanto em ajuntamentos populares como nas festas da corte. A página La Folia – A Musical Cathedral, que procede a um inventário de folias, conta cerca de cento e cinquenta compositores que em mais de três séculos conceberam inúmeras variações brilhantes, de Jean Baptiste Lully e Marin Marais, a Corelli, Vivaldi, Bach e Beethoven, ou mesmo Berlioz, Liszt e Rachmaninov. Gil Vicente foi o primeiro autor a mencionar a folia, caracterizando-a, no seu “Auto da Sibila Cassandra”, de 1511, como uma dança de pastores. Já Sebastián de Covarrubias, em pleno reinado dos Filipes, definia-a como “uma certa dança portuguesa, muito barulhenta (…), e é tão grande o ruído e o som tão apressado, que parece estar uns e outros sem juízo”. Apesar deste seu carácter “louco” e da sua raiz popular, a verdade é que a folia conseguiu conquistar a corte, o que concorreu tanto para o seu sucesso como para a sua longevidade.

Nesta sua “Folia Nova”, nome do concerto que preencheu a segunda noite do CásterAntiqua, o Sete Lágrimas voltou a partir do novo para o tempo, levando o público numa viagem pelo vasto território da língua, na sua métrica, ritmos e harmonias. Como se de uma levitação entre mundos se tratasse, esta reinterpretação da Música Antiga resgata a poesia portuguesa e as suas palavras, trazendo-as para o presente em analepses de magia, reinventando-as em novos sons e novas melodias. Filipe Faria e Sérgio Peixoto escrevem os doze novos vilancicos que compõem “Folia Nova” como estações cronográficas da intemporalidade, partindo da “folia” e do seu tradicionalismo harmónico e rítmico para um novo universo conceptual, rico em novas linguagens e diálogos criativos. A música erudita abraça a música popular, o antigo e o contemporâneo dão-se as mãos e é como se a secular diáspora portuguesa dos Descobrimentos e o eixo latino mediterrânico se convertessem em som graças à fiel interpretação dos cânones performativos da Música Antiga e à incorporação de elementos definidores da música tradicional ou do jazz.

O concerto foi, todo ele, um manancial de festa e folia em torno da língua, numa homenagem a alguns dos nossos poetas mais representativos, do já referido Gil Vicente a Pêro de Andrade Caminha, de João Roiz de Castel-Branco a Bernardim Ribeiro e Luis Vaz de Camões. Bernardim Ribeiro de quem se escutou, a abrir o concerto, “Nunca foy mal nenhum moor”, apenas com Filipe Faria em palco e que nos trouxe, na sua voz lindíssima, a certeza de uma noite inesquecível. Todo o restante alinhamento viria a confirmá-lo, a atenção do público presa num apontamento solístico de maior relevância, num verso declamado com graça e engenho, na forma como umas escovas se transformam em instrumentos de percussão ou como o assobio pode ser arte e encanto, ou ainda no som grave do contrabaixo, instrumento estranho à Música Antiga mas que se integra perfeitamente e se revela precioso. Na alma fica a interpretação de “Cantiga sua, partindo-se”, de João Roiz de Castel-Branco e, pela mímica e gestualidade, “Dicem que me case yo”, de Gil Vicente. Também o enérgico e muito belo “El passamezzo antiguo”, de Diego Ortiz, com honras de “encore”, e ainda “Fandango”, escrito e interpretado a solo por Tiago Matias, mais um momento perfeito neste serão magnífico.

domingo, 12 de janeiro de 2025

CONCERTO: Buba Espinho & Bandidos do Cante



CONCERTO: Buba Espinho & Bandidos do Cante
Centro de Artes de Ovar
10 Jan 2025 | sex | 21:30


Embora curta, a carreira musical de Buba Espinho é um exemplo de sucesso. Entre o Fado e o Cante Alentejano, o cantor natural de Beja posiciona-se hoje, ao lado de António Zambujo e Luís Trigacheiro, como um dos grandes embaixadores da cultura alentejana. Filho e neto de músicos, traz o espírito do Cante rijamente inculcado no seu ADN e a prova disso foi o concerto que deu em Ovar, numa sala praticamente esgotada. Juntando à beleza da sua voz e à qualidade das músicas uma natural humildade e genuinidade, Buba Espinho soube conquistar o público pela forma como a ele se dirigiu e pelo bonito sorriso a espelhar a alegria de poder fazer aquilo que mais gosta junto de quem o sabe apreciar. Neste que foi o seu primeiro concerto de 2025, subiu ao palco na companhia de Luís Aleixo (guitarra e voz), Bruno Chaveiro (guitarra portuguesa e voz), António Manuel Santos (teclas e voz), Jimmy (baixo eléctrico e voz) e Luís Delgado (bateria). Com um pé em “Buba Espinho” (2020) e outro em “Voltar” (2023), os seus dois álbuns de estúdio editados até à data, fez do tempo do concerto um momento de homenagem ao Alentejo, revisitando algumas das suas modas mais populares e honrando a tradição no seu modo único de cantar.

“Tens o sol no coração / Com uma bola na mão / És rei de polo em polo / Fintas todo o mal do mundo / E da linha de fundo / Rematas para o meu colo”.“Jardim Paraíso”, “Afã” e “Digo que Devo Continuar” foram os temas escolhidos para abrir o concerto, cruzando o projecto “Há Lobos Sem Ser na Serra”, com os álbuns em nome próprio e com as colaborações com outros grupos, nomeadamente os Cordel, de Edu Mundo e João Pires. O cuidado de não entrar “a pés juntos” no universo do Cante teve o condão de chamar a atenção para a riqueza que se esconde numa infinidade de músicas, levando o público por paisagens sonoras que têm no Alentejo o seu ponto de partida e se estendem às terras quentes da Andaluzia, da Estremadura e do Norte de África. Rumo ao cancioneiro tradicional, a viagem prosseguiu com “Roubei-te um Beijo”, “Gotinha de Água” e “Não É tarde Nem é Cedo”, palmas a compasso e gargantas ao rubro numa das sequências mais celebradas da noite. Pelo meio “Casa” fez elevar ainda mais o volume na sala, nesse refrão cantado por todos - “A dar-te um beijo / Aninhado ao teu peito” -, volume que foi ao máximo com “Menina Estás à Janela”.

Convidados de honra, os Bandidos do Cante – Duarte Farias, Francisco Raposo, Miguel Costa e Francisco Pestana - fizeram sentir a sua presença em palco, interpretando três temas que não só reforçaram a qualidade e beleza de um concerto de excepção, como mostraram que, com herdeiros desta natureza e calibre, a cultura musical alentejana e a tradição do Cante não correm o risco de desaparecer. “No Verão / A brasa dourada e celeste / Queimando este solo agreste / Dourando mais as espigas / Ceifeiros, corpos curvados / Ceifando e atando em molhos / A benção loira da vida”. Sozinho em palco, as palavras escutadas em respeitoso silêncio, Buba Espinho protagonizou com “Verão, Alentejo e os Homens” um dos mais belos momentos da noite, o Fado a abraçar o Cante, a simbiose perfeita entre duas entidades inscritas na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade. “Ao Teu Ouvido”, “Zé de Alfama” e “Os Guardas Bateram” colocaram um ponto final no alinhamento do concerto, mas Buba Espinho e os seus convidados haveriam de voltar ao palco para espalhar magia com “É Tão Grande”, o Cante entoado na sua forma mais pura, sem o acompanhamento dos instrumentos. “Casa” voltou a cantar-se em uníssono, com mais força ainda, vincando essa nota de “verdade” e de “família” que a todos uniu neste início de 2025.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

CONCERTO: “Beethoven – 200 Anos da 9.ª Sinfonia”



CONCERTO: “Beethoven – 200 Anos da 9.ª Sinfonia”
Orquestra Filarmonia das Beiras
Orquestra Sinfónica do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro
Direcção musical | Luís Carvalho
Com Beatriz Maia (soprano), Rafaela Veiga (contralto), Pedro Rodrigues (tenor), Luís Rendas Pereira (barítono)
Centro de Artes de Ovar
21 Dez 2024 | sab | 21:30

“Freude, schöner Götterfunken / Tochter aus Elysium / Wir betreten feuertrunken / Himmlische, dein Heiligtum // Deine Zauber binden wieder / Was die Mode streng geteilt / Alle Menschen werden Brüder / Wo dein sanfter Flügel weilt”. Lidos assim, isoladamente, poucos de nós identificarão os versos em alemão, mas saíram da pena de Ludwig van Beethoven há 200 anos, numa adaptação livre de um poema de Friedrich Schiller. Sobejamente conhecidos, se associados à música, são parte integrante do quarto andamento da 9.ª Sinfonia do génio alemão, “Coral”, a última sinfonia completa que compôs. Motivada por uma encomenda da Philharmonic Society de Londres, a obra foi estreada a 7 de Maio de 1824 no Theater am Kärntnertor, em Viena, e dedicada a Frederico Guilherme III, rei da Prússia. Beethoven recapitulou os moldes do ideal sinfónico que contribuiu para estabelecer, enriquecendo-os com solistas e coro no andamento final, desta forma condensando vários elementos do Classicismo tardio, como a expansão tímbrica e numérica da orquestra e a influência da música coral usada para educar e galvanizar multidões nos anos que se seguiram à Revolução Francesa. É neste pressuposto que se inscreve o “Hino à Alegria”, trazendo com ele uma mensagem de igualdade e fraternidade, de paz, união e liberdade, tão cara ao compositor.

Estreada há 200 anos, a Sinfonia Coral é uma das criações humanas mais influentes da Contemporaneidade. Com uma complexidade formal sem precedentes, uma orquestração que rompia horizontes, uma tal ousadia diante das premissas artísticas e ideológicas vigentes, tornou-se grandiosa – verdadeiramente monumental. O andamento inicial é uma forma sonata que se materializa a partir de uma pequena célula descendente dominada pela ambiguidade tonal. À atmosfera tensa e trágica, com jogos de pergunta-resposta e contrastes dinâmicos, segue-se um tema lírico e contemplativo. O andamento termina com uma longa coda contrapontística que mistura elementos novos com os temas previamente apresentados. O segundo andamento é marcado pela vivacidade rítmica, em torno de uma célula percussiva, associada a um crescendo. O terceiro andamento apresenta e varia uma melodia lírica inspirada na vocalidade. A melodia, o ritmo e a harmonia são progressivamente transformados, com o processo a ser interrompido por fanfarras percussivas. Misturando a organização da forma sonata com tema e variações, o último andamento começa de forma tensa e dramática, para terminar numa fuga cinética que recapitula e mistura temas dos andamentos anteriores num final glorioso, encarnando em som as novas ideias de Humanidade propagadas pelas Luzes.

Proposta do Município de Ovar para evocar este Natal, a 9.ª Sinfonia de Beethoven veio mostrar que a música salva-nos. No mesmo dia em que um louco apoiante de um partido de extrema-direita alemã semeou o terror num Mercado de Natal em Magdeburgo, no dia seguinte a termos assistido, em Lisboa, a um largo conjunto de pessoas encostadas à parede pela polícia em função da cor da pele, na mesma semana em que o Barómetro da Imigração, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, vem mostrar o quanto há de discriminação e preconceito na nossa forma de ver aqueles que escolheram Portugal para viver e trabalhar - e quando à nossa volta a Guerra na Ucrânia escala, o genocídio do povo Palestiniano parece não ter fim e a extrema-direita, populista e paranóica, cresce a olhos vistos em todo o mundo -, escutamos esta música celestial e damos por nós a pensar que, realmente, a música salva-nos. Depois de três andamentos orquestrais que nos vão preparando para o grande final, Luís Rendas Pereira, num timbre baixo e modulado, clama “freude, freude” [“alegria, alegria”] e as preocupações como que se desvanecem. É o céu que se abre em fulgor divino, em palavras que juntam os homens e se vertem em amizade, humildade e lealdade. Sob a direcção musical de Luís Carvalho, a Orquestra Filarmonia das Beiras soube estar à altura desta obra apaixonada e apaixonante, para a qual contribuíram os seus quase sessenta instrumentistas, assim como o coro. Foi uma noite da melhor música e, como se disse, de salvação. Noite de paz, noite de amor. Um Feliz Natal a todos!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

CONCERTO: "Um Par de Botas" | Nena e Joana Almeirante



CONCERTO: “Um Par de Botas”
Com Nena e Joana Almirante
Centro de Artes de Ovar
13 Dez 2024 | sex | 21:30


Algures na juventude, terá havido um momento em que a música country tomou conta dos nossos corações. Recordo os discos da Patsy Cline, do Willie Nelson ou do Don Williams a rodarem de manhã à noite no gira-discos lá de casa, o “Crazy”, o “Georgia on My Mind” ou o “I Recall a Gipsy Woman” escutados até à exaustão. Género musical que carrega consigo a história da América, o country tem na sua forma única de contar histórias, nas baladas dançáveis, na riqueza de sonoridades onde cabem o banjo, a harmónica ou o violino e num imaginário que, no seu todo, abarca índios e cowboys, as vastas extensões planas do Tennessee, da Virginia ou do Kentucky, longas caravanas a caminho do oeste e saloons repletos de energia, juventude e beleza, todo um manancial inesgotável de temas que se foram constituindo, por direito próprio, em marcos inquestionáveis da história da música. Daí que tenha sido surpreendente ver Nena e Joana Almeirante pisarem o palco do Centro de Artes de Ovar, trazendo consigo um conjunto de propostas que, para além dos seus originais, chamaram a música country para primeiro plano. Uma grata surpresa, devo dizer, que fez da noite da passada sexta feira um momento de festa e animação, de partilha de histórias e avivar de memórias.

“Diz-se aí que o country não é só música, é a arte de contar histórias. Diz-se aí que quem canta country leva na voz a vida que já viveu. Diz-se aí que tudo começou nas estradas de terra sem fim, lá longe, no Nashville, onde o som do banjo e da guitarra se encontram. Diz-se aí que o country tem um poder especial que faz-nos chorar, desde o quarto da infância até este palco. E nós vamos contando histórias à nossa maneira.” Como uma carta de intenções, as palavras quase sussurradas de Nena e Joana Almeirante disseram ao que vinham. Entraram em palco abrindo de par em par as portas do “saloon”, pousaram os chapéus nas respectivas ombreiras, pegaram nas suas guitarras, sentaram-se no meio dos músicos e começaram a cantar. “Mera Ilusão” - “tu só foste uma mera ilusão / e sem dó declaraste / guerra aberta ao meu coração” -, a primeira canção que Joana Almeirante escreveu na vida e aquela que a fez encontrar a sua identidade musical, foi o tema escolhido para abrir o concerto, logo seguido de “É o que é”, uma música que pôs toda a gente a cantar o refrão. Um cheirinho de country perpassava já no ar, mas foi com “You’re So Vain”, de Carly Simon, que o género tomou conta da sala, afirmando-se, pela alegria e ritmo, em dois dedos de conversa e muita e boa música.

Ao longo de uma hora e meia, houve “Jolene” da Dolly Parton e “Landslide” dos Fleetwood Mac, “Please, Please, Please” de Sabrina Carpenter e “Country Roads” de John Denver. Houve “Bem Me Quer”, canção que lançou a carreira de Joana Almeirante, “Portas do Sol”, o tema que faz de Nena uma das mais conhecidas cantoras da actualidade e alguns portentosos solos de guitarra de Joana Almirante. Mas houve também as malandrices do Mick Jagger, festas de empresa e a Sónia das cópias, croquetes e baba de camelo, as mais de trezentas perucas da Dolly Parton (e talvez outras tantas do Miguel Araújo), um olá a Santa Maria da Feira (e outro olá a Lisboa), um dueto na Casa da Música, uma prima que se recusou a subir ao palco, estrelas alinhadas e um par de botas. João Gusmão na guitarra e no banjo, Nuno Mendes no baixo eléctrico e Gonçalo Ribeiro na bateria foram os músicos que acompanharam as duas artistas em palco, fazendo deste o primeiro concerto com banda do projecto. Um projecto feito de coisas simples, da união das pessoas certas e da combinação harmoniosa de duas vozes perfeitas. A plateia soube aplaudir todos os momentos de uma bela noite, correspondendo em energia e afinação, com muitas palmas a compasso, pézinhos de dança e gargantas ao rubro a entoarem “vim até aqui por meu pé”. E pelo seu pé se foi, com Dolly Parton no coração e a cantar “You’re the one that makes it all worth while / You’re the one that taught me how to smile / Darlin’, you’re the highlight of my life”.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Relevos e Brumas - Serra do Gerês”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Relevos e Brumas - Serra do Gerês”,
de Mário Cunha
AMBID - Ambiente Imagens Dispersas 2024/25
Associação Juvenil Amigos do Cáster
Centro de Artes de Ovar
07 Dez 2024 > 07 Mar 2025


O Ambiente Imagens Dispersas está de regresso à cidade de Ovar, trazendo com ele o habitual Concurso de Fotografia, um sempre enriquecedor “CICLOne de Conferências”, Oficinas de Fotografia e de Educação Visual e Ambiental e as muito apreciadas Exposições de Fotografia de Natureza. É nestas que “Relevos e Brumas - Serra do Gerês” se inscreve, oferecendo um conjunto de imagens que, para além de celebrarem a beleza sublime das paisagens do nosso único Parque Nacional, são também uma janela para as aventuras, esforço e dedicação do fotógrafo de natureza Mário Cunha a um projecto que envolve uma ligação íntima com o meio natural que procura retratar. Composta por quase duas dezenas de fotografias, a mostra brinda o visitante com uma profusão de elementos naturais de enorme beleza, realçados pelo engenho e arte de Mário Cunha, exímio na forma como sabe tirar partido da luz e da cor para melhor destacar os objectos da sua atenção. Das estranhas formas que se abrigam num bloco rochoso ou nos ramos de uma árvore, à magia de um bosque envolto em nevoeiro, ao ruído da água que se despenha de uma cascata ou a um esplendoroso pôr do sol, passeamos o olhar demoradamente pela riqueza de imagens que se nos oferecem, percebendo o quão resiliente e harmoniosa a natureza pode ser perante ameaças de toda a ordem que sobre si pesam.

Chamado a abrir as duas sessões vespertinas do “CICLOne de Conferências”, Mário Cunha falou de si e da relação com a natureza, partilhando um conjunto de experiências que estão na base dos seus registos. Na primeira intervenção, intitulada “Ritmos e emoções na paisagem natural”, o fotógrafo falou das suas incursões no Parque Nacional dos Picos da Europa, na vizinha Espanha, em locais como a zona do refúgio de Vega de Ario, o canal de Trea ou o maciço de Cornión. Visitados pela primeira vez em 2021, os Picos da Europa permitiram a Mário Cunha aperfeiçoar a relação “pessoa - natureza - fotografia”, graças a uma melhor compreensão da interacção dos elementos naturais entre si e destes com o homem. “Tendemos a ver as árvores como algo estético, mas não. Olhando com atenção, percebemos que não estão paradas, que interagem entre si e com o espaço em volta”, refere, dando como exemplo os bosques milenares da região de Sajambre, o dramatismo dos seus cenários, as “barbas do diabo” que pendem dos ramos das suas árvores. Neste paraísos de paz e quietude, o momento pede ao fotógrafo que o aproveite. Sem a ansiedade da fotografia que deve respeitar as regras, ou a angústia de não ter a luz ideal, o floco de neve, os fotogénicos nevoeiros. Apenas a natureza a ser ela própria, com um manancial de histórias por contar.

No derradeiro dia do “CICLOne de Conferências”, Mário Cunha debruçou-se sobre “Relevos e Brumas - Serra do Gerês”, tema de uma das exposições do AMBID. De novo o carácter pessoal da fotografia, a interpretação daquilo que vemos a revelar-se algo de único e íntimo. “Quando me perguntam qual o lugar favorito do mundo para fotografar, invariavelmente a resposta é o Gerês”, confessa, lembrando ter com o Gerês uma ligação muito forte, por ter sido aqui que aprendeu a fotografar e por ser este um espaço de paz. Não sendo novo - “vindo da Noruega em 2018 quis saber onde havia montanhas em Portugal e o Gerês foi a resposta óbvia”, lembra -, o projecto de fotografar o Gerês tem-se revelado deveras ambicioso, dado que a Serra ocupa cerca de metade da área do Parque Nacional. No Vale do Homem, no Pé de Cabril, no Rio Caldo, nos baldios de Fafião ou em Pitões das Júnias, a paisagem revela-se preciosa e o desafio faz-se de histórias boas, contadas nos riachos e nas árvores de estranhas formas, nos charcos gelados e nos abrigos de montanha. Estão de parabéns os Amigos do Cáster, pelos 31 anos completados no passado dia 10 de Novembro e pelo sucesso desta 20ª edição do Encontro Internacional de Fotografia de Natureza Cidade de Ovar. A par das imagens de Mário Cunha, as fotografias a concurso, com a identificação dos vencedores nas mais variadas categorias, estão patentes na Galeria de Exposições do Centro de Artes de Ovar e podem ser vistas até ao dia 07 de Março.

sábado, 7 de dezembro de 2024

CINEMA: "O Quarto ao Lado"



CINEMA: “O Quarto ao Lado” / “The Room Next Door”
Realização | Pedro Almodóvar
Argumento | Pedro Almodóvar
Fotografia | Eduard Grau
Montagem | Teresa Font
Interpretação | Julianne Moore, Tilda Swinton, John Turturro, Alessandro Nivola, Juan Diego Botto, Raúl Arévalo, Victoria Luengo, Alex Høgh Andersen, Esther McGregor, Alvise Rigo, Melina Matthews, Sarah Demeestere, Anh Duong, Bobbi Salvar Menuez, Annika Wahlsten
Produção | Agustín Almodóvar
Espanha, Estados Unidos | 2024 | Drama | 107 Minutos | Maiores de 12 Anos
Shortcutz Ovar #90 - Noite Longa
Centro de Artes de Ovar
05 Dez 2024 | qui | 21:30


Primeiro filme de Pedro Almodóvar rodado em inglês, “O Quarto ao Lado” regressou do Festival de Veneza com o Leão de Ouro para Melhor Filme e perfila-se como um dos grandes candidatos aos Prémios Europeus de Cinema que, esta noite, decorrerão na cidade Suíça de Lucerna. Foi esta a prenda que o Município de Ovar quis colocar no sapatinho dos cinéfilos cá do burgo, oferecendo-lhes uma “curta-metragem” com quase duas horas, ou não fosse esta uma noite Shortcutz, a última do ano, com apresentação de Tiago Alves e comentários de Júlio Machado Vaz. Passado em Nova Iorque, o filme narra a história de Martha, renomada repórter de guerra, e Ingrid, uma bem sucedida escritora, duas amigas que se reencontram de forma casual após um longo período de afastamento. Em fase terminal de um cancro no colo do útero, já com metástases ósseas e no fígado, Martha percebe que a eutanásia é a única forma de vencer a doença e socorre-se da amiga, não para a assistir em tão tremenda decisão, mas para estar próximo dela quando decidir morrer, “no quarto ao lado”, por exemplo. Está dado o mote para um filme que se debruça sobre um tema delicado e controverso, mas de extraordinária actualidade.

Profundo, delicado, comovente e vivo, “O Quarto ao Lado” “não é sobre a morte, mas sobre o acto de morrer”, como referiu Tilda Swinton durante a Conferência de Imprensa após a exibição do filme em Veneza. Nele não encontramos qualquer subtexto que examine filosoficamente questões como a vida após a morte ou as consequências da existência da morte no cosmos. Em vez disso, o que o filme consegue é manter uma conversa lógica e promover uma reflexão realista sobre como cada um de nós se posiciona perante a morte numa situação de sofrimento físico insuportável e como agiria se lhe fosse dada a possibilidade de tomar uma decisão consciente e livre sobre o que fazer e como fazer no contexto desse último acto. Desenvolvendo um argumento baseado em “What Are You Going Through”, romance de 2020 da norte-americana Sigrid Nunez, Almodóvar faz com que um tema particularmente denso e pesado se inscreva com naturalidade no nosso quotidiano, quase que sugerindo que a morte importa, na exacta medida em que importam os estudos ou o casamento, um novo emprego ou o nascimento de um filho, e que o acto de morrer deve ser visto com a idêntica emoção ou o mesmo (des)apego.

Apesar dos diálogos em inglês colocarem uma nota de estranheza num filme de Almodóvar, o universo do realizador está presente em cada momento do filme - no detalhe rigoroso dos cenários (espantoso aquele quadro imenso das flores num copo de vidro em casa de Martha), no harmonioso tratamento da cor (onde é notória uma piscadela de olho ao universo solitário de Edward Hopper), numa banda sonora particularmente envolvente. Sobretudo na direcção das duas figuras principais, Tilda Swinton e Julianne Moore, com interpretações magistrais capazes de imprimir, com igual verdade, o que há de dureza e leveza no mais íntimo das suas vidas. Num tema de difícil gestão emocional, são elas o garante da humanidade que envolve “O Quarto ao Lado”, algo que ficou bem patente nos longos momentos de absoluto silêncio durante a passagem do genérico final, o público aceitando os braços que se abrem para o estreitar, em vez do previsível e doloroso “murro no estômago”. Um filme que não se esgota na sua visualização e que reforça o debate sobre um assunto que promete continuar a dar que falar (a lei da eutanásia foi promulgada em Maio de 2023, mas continua a aguardar-se a publicação da regulamentação em Diário da República).

domingo, 24 de novembro de 2024

CONCERTO: Capitão Fausto



CONCERTO: Capitão Fausto
Centro de Artes de Ovar
22 Nov 2024 | sex | 21:30


Começado a preparar em 2021, “Subida Infinita”, o quinto álbum de estúdio dos Capitão Fasuto, acabou por ver a luz do dia no passado mês de Março e, desde então, a banda lisboeta está na estrada a mostrar o seu trabalho e a provar ser ela uma das melhores, mais imaginativas, engenhosas e versáteis bandas portuguesas nas áreas do indie e da pop. Será excessivo falar de um recomeço, mas a saída de Francisco Ferrari, um dos “históricos” dos Capitão Fausto, deixou uma ferida no grupo nada fácil de sarar. Embora Ferrari não esteja esquecido - o concerto de Ovar prova-o -, Miguel Marôco tem sido um substituto à altura, mostrado “unhas” para os teclados e “minimizando danos”, ao mesmo tempo que Fernando Biu se vem revelando como um extraordinário reforço, dando uma mão nas guitarras e fazendo a música levantar voo graças aos solos inspirados de flauta transversal e saxofones. Olhando o resto da banda, Salvador Seabra continua a marcar o ritmo com a sua forte batida na bateria, Manuel Palha é um virtuoso da guitarra e dos teclados, Domingos Coimbra, com o seu baixo eléctrico, é o contramestre de uma segura nau que tem em Tomás Wallenstein o verdadeiro Capitão, a figura que se move com destreza entre a guitarra e o piano e cuja voz é, e sempre será, a inconfundível, incontornável imagem de marca do grupo.

De novo em Ovar e de novo com casa esgotada, os Capitão Fausto tiveram a recebê-los um público fiel, seguro das virtualidades da sua banda de eleição, com os seus favoritos muito bem definidos (Domingos Coimbra parece recolher consensos) e preparado para puxar pela música e pelos músicos do princípio ao fim, abrindo as gargantas em gritos estridentes e não se fazendo rogar em prolongados aplausos. A banda correspondeu com uma mescla de temas do seu mais recente álbum e a revisitação dos seus mais icónicos trabalhos, fazendo do tempo do concerto um tempo de transbordante energia e alegre partilha. Tal como no disco, “Muitas Mais Virão” e “Andar à Solta” foram os temas de abertura do concerto e, com eles, o vislumbre de sonoridades onde a calma e o embalo predominam. Foi assim com a canção de amor magoado que, propositadamente ou não, marca um regresso - “outra vez nesta sala / mais uma a ver se vou falar / sobre esta dor que me cala / (…)”, e confirmado num muito dançável tema onde se reconhece que “já parece tarde para fingir que sou novo / e nada aprendendo com aquilo que provo”. Para além do marcado ecletismo deste novo trabalho, o que os dois temas revelam - e que os restantes virão a confirmar - é uma verdadeira carta de intenções: A manifesta vontade de partilhar dúvidas, questionar relações, assumir fragilidades e abraçar a vida tal como ela é.

No desfiar do seu novo álbum, os Capitão Fausto mostraram a quase totalidade dos temas que o compõem, neles se falando de protestos e sossegos, mãos sem polegar e nervos à flor da pele, o fim de uma amizade e motivos para saber teimar. É difícil destacar um tema, tantas e tão boas foram as propostas atiradas para cima da mesa, mas atrevo-me a eleger, pela sua harmonia e pela beleza do poema, “Nada de Mal” como o ponto mais alto do concerto. Outros pontos altos se sucederam, daqueles que decorreram da sua popularidade e que saltaram dos acordes dos músicos para as palmas e as vozes do público, aos que se extraem de inspirados solos, reveladores do virtuosismo de cada um dos elementos da banda. “Faço as Vontades”, “Corazon”, “Certeza”, “Amanhã Tou Melhor” e, sobretudo, “Boa Memória”, dos álbuns “Os Dias Contados” e “A Invenção do Dia Claro”, dão nota do quão ancorados estão, letras e músicas, no coração dos fãs. Outro dos mais belos momentos do concerto surgiria já no “encore”, primeiro com “Lentamente” e esse delicado e prolongado diálogo do saxofone de Fernando Biu com os teclados de Miguel Marôco e, a finalizar, com “Nunca Nada Muda”, magoada balada que nos vem dizer que “longa é a subida e não vai dar / com cada um para seu lado”. Em Ovar estivemos juntos e unidos. E unidos vamos permanecer num eterno brinde à esperança, à amizade e à boa música dos Capitão Fausto.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Take a Look [Muros / Janelas / Paredes e… Palavras]”



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Take a Look [Muros / Janelas / Paredes e… Palavras]”,
de Eduardo Verde Pinho
Centro de Artes de Ovar
12 Out > 30 Nov 2024


Sempre que passo sob o viaduto da A25 onde vejo escrito, de forma tosca, “buongiorno principessa”, não consigo deixar de pensar no quanto de irreverência, mas também de beleza e poesia, se abriga em duas simples palavras ali deixadas na forma de arte. Esta mensagem de que “a vida é bela” está consistentemente espalhada pelas nossas cidades - das palavras escritas a lapiseira na porta de uma casa de banho, aos murais coloridos que cobrem as laterais de um prédio de cinco andares -, trazendo asneirada à boca de certos políticos e o gáudio a quem faz da subversão um gesto artístico. Do mais explícito ao mais subliminar, a semiótica urbana impõe-se no nosso quotidiano, afirmando-se como uma forma de comunicação plena de originalidade, subtileza e pendor artístico. É isso que Eduardo Verde Pinho nos vem lembrar em “Take a Look [Muros / Janelas / Paredes e… Palavras]”, espécie de resumo / retrospectiva de parte da sua obra produzida nas últimas duas décadas, correspondente àquilo que o artista designa por “séries urbanas”.

Ao longo do tempo, em diferentes momentos, a cidade escreve na sua pele, tatua-se. Ora são os grafiteiros que tentam ser artistas; ora são os namorados apaixonados que lá deixam as juras; depois vem aquele que quer gritar ou contar um segredo a ninguém. E assim se vão fazendo as paredes, a várias mãos, com diferentes almas e vontades, aparentemente sem que nada as una, cada uma com o seu pecado (ira, preguiça, muita luxúria, inveja de não terem museu). É então que por elas ao passar, o artista rasga da parede um quadrado, um retângulo (como um fotógrafo que retalha o mundo), pondo-o debaixo do braço e levando-o consigo para o mostrar noutra parede, mais erudita, submetendo-se ao olhar crítico dos que amam a “arte fina”. Estes quadrados, estes retângulos, são bocados de cidade(s) que também podem caber numa tela, da mesma forma que nela podem caber os artistas do artista e o seu (mental) banco de imagens, dos tcp para 5ª à banana do Warhol, dos quatro de Liverpool à paleta de Vermeer.

Em Eduardo Verde Pinho, os muros tanto dividem quanto unem: Ora assumem a sua função primordial enquanto elementos de fronteira, ora se afirmam como folhas nunca brancas onde a cidade escreve e comunica; ora são suportes para cartazes onde se perpetuam os acontecimentos, ora deixam ver rasgões que mais não são do que a prova de que a cidade é (também) escultora. Ouçamos o artista: “Quando fotografava andava à procura destes planos e sobreplanos, e seus cruzamentos. Agora quando pinto (ou esta coisa que faço) sou como um deus a criá-los. Faço o que quero, abro-os, fecho-os e através deles, com Asas, viajo nas camadas do mundo. Tantas janelas e eu a tricotá-las.” Tal como os muros, também as janelas podem ser diferentes, aqui rasgões para ver para dentro e furos para ver para fora, ali portadas fechadas que prolongam as paredes e vidros que reflectem o mundo, acolá são elas os olhos da casa, “a entrada da luz e o início das viagens da alma”. Fica o convite a olhar de perto este magnífico conjunto de trabalhos. Só até 30 de Novembro.

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

TEATRO: "O Meu Amigo H."



TEATRO: “O Meu Amigo H.”
A partir de “My Friend Hitler”, de Yukio Mishima
Adaptação | Albano Jerónimo, Cláudia Lucas Chéu, Ricardo Braun
Dramaturgia | Ricardo Braun
Encenação | Albano Jerónimo, Cláudia Lucas Chéu
Espaço cénico | Albano Jerónimo
Figurinos | Nuno Esteves (Blue), Albano Jerónimo
Interpretação | Albano Jerónimo, Pedro Lacerda, Rodrigo Tomás, Ruben Gomes
Produção | Teatro Nacional 21
95 Minutos | Maiores de 16 Anos
FESTOVAR - Festival de Teatro de Ovar
Centro de Arte de Ovar
05 Out 2024 | sab | 21:30


“O que pode um Regime fazer quando aqueles de quem precisou, aqueles que manipularam as massas em seu favor, se tornam incómodos? O Regime não sobrevive sem a multidão, é certo, mas tem lugar para intermediários ou precisa de ser ele, no fim de contas, a controlá-la?” Estas e outras questões servem de base a “O Meu Amigo H.”, peça encenada por Albano Jerónimo e Cláudia Lucas Chéu e levada à cena no Centro de Arte de Ovar, no âmbito da 31ª edição do FESTOVAR - Festival de Teatro de Ovar. Partindo de “My Friend Hitler”, um texto para teatro do japonês Yukio Mishima, escrito em 1968, a peça retrata as figuras históricas de Adolf Hitler, Gustav Krupp, Gregor Strasser e Ernst Röhm, usadas como porta-vozes para expressar as próprias opiniões do romancista e dramaturgo sobre os mecanismos do poder. De forma calculista, o enredo acaba por se converter numa parábola da própria História, estabelecendo o reconhecimento do poder como princípio de todas as relações. Faz-se tábua rasa das amizades, sentimentalismos são cartas fora do baralho, todos os meios justificam os fins. No final, só o mais forte triunfará.

Fazendo uso da escrita como meio de repensar o Japão do pós-guerra à luz da sua cultura e tradições milenares, Mishima mostra nesta peça a subversão dos princípios éticos quando só a vontade do líder conta. Palavras como pátria, vitória, glória ou imortalidade ecoam em discursos alucinados, animados pelo mais vincado populismo, estudados para erguer as massas em delírio. Lá estão os inimigos do povo, com os imigrantes à cabeça, alvos de todas as censuras e ameaças, bodes expiatórios perfeitos do mal que empurra para baixo sociedades constituídas por “gente de bem”, impedindo-as de recuperar o valor e a influência dos tempos de outrora. Não nos esqueçamos, porém, que crimes de ódio são precedidos por discursos de ódio e, nas palavras do “grande ditador”, aquilo que escutamos são os pequenos discursos dos “pequenos ditadores” que se vão instalando à nossa volta e ganhando espaço dia após dia. Foi assim com os tutsis no Ruanda, o povo rohingya em Myanmar ou as câmaras de gás em Dachau e Majdanek, Sachsenhausen e Auschwitz. É assim hoje, com os massacres em Gaza, perpetrados pelo exército de Israel.

Fadada para prender o espectador ao longo dos seus pouco mais de noventa minutos, a peça leva-nos até à noite das facas longas (uma de tantas), em que H. deixa de ter como amigos o militar e o intelectual sindicalista, assassinados juntamente com centenas de outros membros do Partido. Ao seu lado ficará o industrial do ferro, a quem a guerra enriquece (e não poderia estar em melhor companhia). Construída sobre um conjunto de diálogos densos, a mensagem é expressiva e acutilante, convidando o espectador a questionar os próprios silêncios, numa altura em que as voltas da História mergulham de novo em vãos por demais sombrios. Rigorosa e contida, a encenação destaca a força e intensidade do texto, trazendo os actores para mais perto do espectador ao mostrá-los numa dimensão fantasmagórica, quase caricatural, recorrendo aos grandes planos filmados em video e projectados em tempo real. Albano Jerónimo, Pedro Lacerda, Rodrigo Tomás, Ruben Gomes formam um naipe de actores competentes, segurando com firmeza a complexidade dos seus papéis. Uma peça que inquieta, interroga e clama por acção.

[Foto: Teatro Nacional 21 | https://www.facebook.com/teatronacional21]

domingo, 6 de outubro de 2024

CONCERTO: Sangue Suor convida Ana Deus



CONCERTO: Sangue Suor convida Surma e Ana Deus
FLO - Festival Literário de Ovar 2024
Centro de Arte de Ovar
22 Set 2024 | dom | 18:00


O convite partiu do Theatro Circo de Braga e uma nova banda nasceu. Adoptou o nome de “Sangue Suor”, juntando em palco três renomados bateristas da cena musical portuguesa: Rui Rodrigues, Susie Filipe e Ricardo Martins. Tudo começou em 2021, com a encomenda a Rui Rodrigues de “Sangue & Suor”, tema de aniversário da centenária sala bracarense. Um ano mais tarde, a formação deixou cair o “&”, passando a denominar-se “Sangue Suor”. A composição de novos temas, fruto de diversas residências artísticas da banda, viria a dar lugar a “O Salto”, seu primeiro álbum, lançado em Abril de 2023, numa edição conjunta do Theatro Circo e da Omnichord Records. Um momento raro no panorama musical português, elevando a importância da percussão e de três importantes bateristas na busca de liberdade criativa, novos sons, fúria, desassossego, fusão e experimentação. Em Ovar, coube-lhe colocar um ponto final no programa da décima edição do FLO - Festival Literário de Ovar. À inspiração que corre no seu sangue e se derrama em suor, de ritmo e energia feito, juntaram a voz e a palavra em poemas de Gedeão. O público reagiu de forma diversa: Enquanto alguns saíam a meio, os demais permaneceram até ao fim, aplaudindo de pé. Ninguém ficou indiferente.

A batida é forte, sincopada. Uma espécie de respiração rompe o ar e, bem ao longe, escutam-se chocalhos. Naturalista, pastoril, com um acentuado cunho tribal, a música traz-nos a voz de Surma, como um grito melancólico que se ergue no espaço e se espalha em todas as direcções. A guitarra de Vítor Hugo preenche vazios, os sintetizadores completam o rufar dos tambores. Está lançada a viagem a um mundo que rejeita a facilidade e a superficialidade, repleto de sons irrequietos, que cruzam fronteiras e linguagens, abrem caminho à exploração e permitem desvendar novos horizontes. A partir daqui, a ordem é “Para a Frente”, mesmo que de um salto no escuro se trate. Ao longo de quase uma hora de espectáculo, mais saltos se seguirão: Em equilíbrio, de costas, revirado, em parafuso. Além de Surma, cruzamo-nos com as vozes e os sons de Cabrita e Selma Uamusse, mas também com a presença do teclista Óscar Silva e da cantora e performer Ana Deus. É ela que nos trará a interpretação magistral de um poema de Gedeão: “Os homens da minha aldeia / formigam raivosamente / com os pés colados ao chão. / Nessa prisão permanente / cada qual é seu irmão.”

Instrumento rítmico por excelência, a bateria carrega em si a ancestralidade da pele esticada sobre uma caixa de ressonância e, ao mesmo tempo, aquela forma de ser organizada, metódica, segura de quem conduz ou consente que a conduzam. Foi isto que os “Sangue Suor” tão bem souberam exprimir no palco do Centro de Artes de Ovar, convertendo uma hora de espectáculo numa experiência sensorial ímpar. Cada tema é um salto, cada música um risco. E eis Gedeão de novo, e de novo na voz de Ana Deus: “O universo é feito essencialmente de coisa nenhuma. / Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. / Espaço vazio, em suma. / O resto, é a matéria.” Perguntava-me o que teria passado pela cabeça do programador ao eleger esta banda para encerrar um Festival Literário. Hoje, a resposta parece-me óbvia, pela poesia em forma de música que dela se derrama, poesia definida em risco (no seu duplo sentido). Nela se descobre a essência do ser mutante, a violência de permanecer num limbo, o ferro de um lado, do outro o algodão (doce). Construção, destruição, reconstrução. Salto, a queda no vazio, o mergulho. Subir as escadas e de novo o salto. Desta vez em pontapé à Lua.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

TEATRO: "A Noite"



TEATRO: “A Noite”,
de José Saramago
Encenação e adaptação |  Paulo Sousa Costa
Assistência de encenação | Luís Pacheco
Interpretação |  Diogo Morgado, Jorge Corrula, João Didelet, Luís Pacheco, Elsa Galvão, Ricardo de Sá, Henrique de Carvalho, Sara Cecília, João Redondo
Produção | Yellow Star Company
90 Minutos | Maiores de 12 anos
FLO - Festival Literário de Ovar 2024
Centro de Artes de Ovar
21 Set 2024 | sab | 22:30


Redacção do Jornal de Lisboa, 24 de abril de 1974. Há no ar qualquer coisa de indefinido no momento em que se prepara o fecho de mais uma edição do jornal. Entre alterações de última hora e os habituais contactos com o exame prévio, as tensões avolumam-se e os conflitos estalam. De um lado, o chefe de redação e o diretor do jornal, submissos ao poder político, que normalizam a censura. Do outro, o jornalista idealista que luta pela verdade e que tem na redacção preciosos aliados nas pessoas da estagiária e do tipógrafo. O conflito ganha uma dimensão ainda mais dramática quando surge o boato de que poderá estar a acontecer uma revolução na rua. A agitação e o nervosismo crescem no seio do jornal, com uma parte dos jornalistas e tipógrafos a exigirem que os factos, se comprovados, sejam notícia de última hora. Do outro lado da barricada, tanto o director como o chefe de redação tudo fazem para desvalorizar a alegada convulsão social, na certeza de que não irão imprimir notícia alguma, nem que para isso tenham de alegar uma avaria nas rotativas. Está instalada uma micro-revolução na redacção.

Graças à atribuição do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago tem uma enorme quota de responsabilidade no reconhecimento do romance escrito em língua portuguesa no mundo inteiro. Obras como “Ensaio Sobre a Cegueira”, “O Memorial do Convento”, “Jangada de Pedra” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis” são disso excelentes exemplos. Menos conhecidas e, simultaneamente, pouco valorizadas pela crítica, são as peças de teatro, apesar da sua importância no conjunto da obra do escritor. Está neste caso “A Noite”, texto de temática histórica que reflecte sobre a censura imposta aos meios de comunicação social, situação que Saramago viveu de perto. Na peça, a preocupação do autor não está em copiar o dia a dia de um jornal no período da ditadura, antes chamar a atenção para as relações de poder em que se fundava o Estado Novo nas mais variadas instâncias. Apesar de não se considerar dramaturgo (em entrevista a Carlos Reis, em 1998), José Saramago assina um manifesto fortíssimo de denúncia e revolta, olhando de perto as primeiras horas do dia inicial inteiro e limpo.

Integrando, muito a propósito, o programa da décima edição do Festival Literário de Ovar, “A Noite” foi levada à cena pela Yellow Star Company num Centro de Artes de Ovar com lotação esgotada. Seguros dos seus papéis, respeitando a intensidade dramática do texto e garantindo a necessária segurança e vivacidade nos diálogos, os actores souberam honrar a escrita de Saramago, acrescentando realismo à verdade histórica. No papel de Jerónimo, o chefe dos tipógrafos, Jorge Corrula representa bem a qualidade e versatilidade de um excelente naipe de actores, com a sua forte presença em palco e o cerrado sotaque alentejano. Visualmente precioso, o cenário coloca-nos no centro de uma redacção há meio século atrás, onde não falta o contínuo, a mancar de uma das pernas, figurando o estado de um país a duas velocidades, pobre e inculto, preso às glórias do passado e que, do presente, só tem os êxitos do Benfica para se vangloriar. Empolgante, o final lembra-nos aqueles que fizeram da resistência e da luta a sua bandeira, abrindo caminho à liberdade e à democracia.