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domingo, 16 de março de 2025

CONCERTO: "Folia Nova"



CONCERTO: “Folia Nova”
Sete Lágrimas
Com | Filipe Faria (voz, viola de mão 4 ordens, bandurra descante, percussão e direcção artística), Sérgio Peixoto (voz e direcção artística), Pedro Castro (flautas), Tiago Matias (guitarra barroca, guitarra romântica e tiorba), João Hasselberg (contrabaixo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Centro de Arte de Ovar
15 Mar 2025 | sab | 21:30


“E toda a gente da cidade foi posta com muita brevidade em danças e folias, com infindas tochas na praça e no Terreiro dos Paços, e por todas as ruas principaes, e tanta gente honrada e nobre, e assi a do povo, que não cabia, nem se viu nunca tanto alvoroço e alegria, e muitos velhos e velhas honradas com sobejo prazer foram juntos cantar e bailar diante de El-Rei e a Rainha, cousa de que suas edades os bem escusavam.”
Garcia de Resende, in Chronica de ‘L Rei D. João II

A folia foi um dos fenómenos mais notáveis da história da música. Com raízes campestres ligadas a rituais de fertilidade, esta melodia musical, que se estende à dança, ao texto e à animação, remonta a finais do século XV e abraça vários públicos, ocorrendo tanto em ajuntamentos populares como nas festas da corte. A página La Folia – A Musical Cathedral, que procede a um inventário de folias, conta cerca de cento e cinquenta compositores que em mais de três séculos conceberam inúmeras variações brilhantes, de Jean Baptiste Lully e Marin Marais, a Corelli, Vivaldi, Bach e Beethoven, ou mesmo Berlioz, Liszt e Rachmaninov. Gil Vicente foi o primeiro autor a mencionar a folia, caracterizando-a, no seu “Auto da Sibila Cassandra”, de 1511, como uma dança de pastores. Já Sebastián de Covarrubias, em pleno reinado dos Filipes, definia-a como “uma certa dança portuguesa, muito barulhenta (…), e é tão grande o ruído e o som tão apressado, que parece estar uns e outros sem juízo”. Apesar deste seu carácter “louco” e da sua raiz popular, a verdade é que a folia conseguiu conquistar a corte, o que concorreu tanto para o seu sucesso como para a sua longevidade.

Nesta sua “Folia Nova”, nome do concerto que preencheu a segunda noite do CásterAntiqua, o Sete Lágrimas voltou a partir do novo para o tempo, levando o público numa viagem pelo vasto território da língua, na sua métrica, ritmos e harmonias. Como se de uma levitação entre mundos se tratasse, esta reinterpretação da Música Antiga resgata a poesia portuguesa e as suas palavras, trazendo-as para o presente em analepses de magia, reinventando-as em novos sons e novas melodias. Filipe Faria e Sérgio Peixoto escrevem os doze novos vilancicos que compõem “Folia Nova” como estações cronográficas da intemporalidade, partindo da “folia” e do seu tradicionalismo harmónico e rítmico para um novo universo conceptual, rico em novas linguagens e diálogos criativos. A música erudita abraça a música popular, o antigo e o contemporâneo dão-se as mãos e é como se a secular diáspora portuguesa dos Descobrimentos e o eixo latino mediterrânico se convertessem em som graças à fiel interpretação dos cânones performativos da Música Antiga e à incorporação de elementos definidores da música tradicional ou do jazz.

O concerto foi, todo ele, um manancial de festa e folia em torno da língua, numa homenagem a alguns dos nossos poetas mais representativos, do já referido Gil Vicente a Pêro de Andrade Caminha, de João Roiz de Castel-Branco a Bernardim Ribeiro e Luis Vaz de Camões. Bernardim Ribeiro de quem se escutou, a abrir o concerto, “Nunca foy mal nenhum moor”, apenas com Filipe Faria em palco e que nos trouxe, na sua voz lindíssima, a certeza de uma noite inesquecível. Todo o restante alinhamento viria a confirmá-lo, a atenção do público presa num apontamento solístico de maior relevância, num verso declamado com graça e engenho, na forma como umas escovas se transformam em instrumentos de percussão ou como o assobio pode ser arte e encanto, ou ainda no som grave do contrabaixo, instrumento estranho à Música Antiga mas que se integra perfeitamente e se revela precioso. Na alma fica a interpretação de “Cantiga sua, partindo-se”, de João Roiz de Castel-Branco e, pela mímica e gestualidade, “Dicem que me case yo”, de Gil Vicente. Também o enérgico e muito belo “El passamezzo antiguo”, de Diego Ortiz, com honras de “encore”, e ainda “Fandango”, escrito e interpretado a solo por Tiago Matias, mais um momento perfeito neste serão magnífico.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

CONCERTO: Surma



CONCERTO: Surma
Salão Novo Ático
11.Dez.2022 | dom | 19:00


“alla” já está na estrada. A digressão de lançamento do segundo álbum de originais de Surma teve início no passado dia 6, em Leiria e vai terminar no próximo sábado na Culturgest, em Lisboa. Entretanto, a compositora e multi-instrumentista esteve no Novo Ático do Coliseu do Porto, no passado domingo, e foi lá que, perante uma plateia de indefectíveis admiradores, apresentou o seu mais novo “rebento”. Conjunto de temas solidamente desenvolvidos, “alla” representa um crescimento significativo na forma como Surma constrói a sua música, quer de um ponto de vista conceptual, quer pelas formas e texturas com que a reveste e de cuja fusão resulta um todo poderoso, pleno de energia, vitalidade, harmonia e ritmo. Com João Hasselberg no contrabaixo e teclados e Pedro Melo Alves na bateria, Surma escancarou as portas do seu mundo e, entre dúvidas e certezas, mostrou os caminhos que a música pode abrir, haja para tanto paixão, talento, sensibilidade e inspiração.

Preenchendo o alinhamento do concerto, na sua quase totalidade, com temas do novo álbum, Surma quis vincar o quanto a aposta numa nova dimensão da sua música é para valer. No conjunto de dez temas interpretados no palco do Novo Ático, a artista fez questão de incluir “Maasai”, revisitando os primórdios de uma relação apaixonada e apaixonante com a música e deixando a mensagem do quanto “é importante não nos esquecermos de onde viemos”. Já no “encore” escutaríamos “Bregenset”, um dos temas mais intimistas do fascinante “Antwerpen”, o seu primeiro álbum. Mas era “alla” que ali falava mais alto e foi “alla” que nos foi dado a viver e sentir. Elegante e envolvente, “etel.vina” abriu o concerto da melhor forma, fazendo despertar a atenção para o calor que se derrame das suas linhas melódicas, em contraste com as tonalidades glaciais que revestem a generalidade dos temas do álbum anterior. Envolvente, positiva, carregada de boas sensações, Surma soube agarrar o público desde o primeiro acorde, preparando-o para o muito de bom que estava para vir.

“Nyanyana” ofereceu-nos um cheirinho de África, com as suas grandes extensões, onde correm, livres, búfalos e gazelas, girafas e gnús. Abro aqui um parêntesis para referir esse fenómeno chamado Pedro Melo Alves que, na bateria, ia chamando a si uma boa parte das atenções (mas isso são outros “quinhentos”). Resultante de uma parceria com Cabrita e Victor Torpedo, “Tous les nuages” é uma deliciosa incursão no reino da fantasia, um delírio, uma quimera assente em doces melodias que fazem vibrar todas as cordas da nossa emoção. Diferente de tudo o que escutámos antes e iremos escutar no que resta do concerto, “Aïda” é como um pequeno brinquedo que não apetece largar, um capricho em forma de música que se permite mudar de tom, de ritmo, como quem baralha e volta a dar para depois, batida a última carta, esboçar o leve sorriso de quem sabe que já ganhou. Viagem introspectiva, chegada ao coração, “Myrtise” constituiu um momento muito especial neste concerto, pela serenidade que dele se desprende, pela forma como nos envolve e aquece, como nos conforta.

Depois do já referido “Maasai”, Surma atacou da melhor forma a ponta final desta apresentação com o tema “Huvastï”, feito em colaboração com os dois músicos que com ela partilharam o palco. Vibrante e inspirada, a composição mostrou-se um convite à dança, à expressão de um sentir leve e livre, que muitos espectadores na sala não enjeitaram. Com “Did I drop acid and this is my ego death?” chegou, enfim, aquele que, numa perspectiva muito pessoal, constituiu o momento alto do concerto. Composto em plena “crise existencial”, de acordo com a própria Surma, o tema é um verdadeiro murro no estômago, a dor e o sofrimento a revelarem-se de forma crua, a tomarem conta de nós. De uma entrega incrível, de uma generosidade sem limites, “Did I drop acid (...)”é a prova provada da maturidade musical de Surma. “Islet”, o primeiro single deste novo álbum, foi como um bombom, algo que já faz parte de nós mas que sabe sempre bem saborear. O fecho ideal do concerto, reforçando a qualidade e significado de momentos tão intensos e desafiantes, estimulantes e plenos de sedução.