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terça-feira, 14 de julho de 2026

CONCERTO: Daniel Pereira Cristo + Comunidade



CONCERTO: Daniel Pereira Cristo + Comunidade
Com | Daniel Pereira Cristo (voz, cavaquinho), Tiago Simães (piano), João Dantas Ferreira (acordeão), Carolina Gomes (percussões) e elementos dos coros CásterAntiqua, Canto Décimo e Suspiro e do grupo de cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar
FESTA – Sons da Lusofonia
Parque Urbano de Ovar – Palco Verde
10 Jun 2026 | sex | 19:00


Há concertos que se esgotam nos seus pressupostos e facilmente se apagam da memória. E depois há aqueles que permanecem, pela forma como se transformam em lugar de presença, dádiva e partilha. Está neste último caso o concerto de “Daniel Pereira Cristo + Comunidade”, não apenas pela qualidade da execução ou pelo simbolismo do repertório, mas porque conseguiu suspender, ainda que por instantes, a ilusão de que a cultura é um território de consumo, devolvendo-a à sua condição primordial enquanto lugar de pensamento, encontro e afecto. Entre todas as propostas que deram forma ao primeiro dia do FESTA - Sons da Lusofonia, e sem desprimor para com as demais, esta é aquela que quero destacar. Sem procurar impressionar pela dimensão da produção ou pela exuberância cénica, o concerto optou pelo caminho menos óbvio e, por isso mesmo, mais raro: o de fazer da música um espaço de pertença, no qual tradição, criação e comunidade encontram espaço numa mesma vivência. Num festival que, entre todos os seus pressupostos, faz da música que toca, [da] palavra que voa, [do] tempo que vive, [da] diversidade que se encontra a sua maior razão de ser, dificilmente imaginaríamos tradução mais consequente dessa autêntica carta de intenções.

Foi significativo que tudo tivesse começado muito antes de qualquer ideia de espectáculo. Saída do universo das Cantigas de Santa Maria, “Santa Maria, Strela do Dia” não emergiu como simples evocação do cancioneiro medieval, mas como afirmação de uma linhagem. Através dela, a tradição mostrou-se como raiz viva de uma música que, transformando-se incessantemente, continua a reconhecer-se na mesma seiva. Esta subtil ligação ao Festival de Música Antiga de Ovar fez, por isso, todo o sentido, como se ambos os festivais partilhassem, num mesmo arco temporal, oito séculos de criação musical e de diálogo entre géneros. A passagem para os cantares populares extraídos da banda sonora do filme “Mudar de Vida”, do realizador Paulo Rocha, aconteceu sem rupturas, como se Ovar e o Furadouro, os pescadores, as vozes religiosas, os cantos de trabalho e as melodias festivas fossem apenas diferentes rostos de uma mesma memória colectiva. Abraço caloroso à nossa terra e às nossas gentes, “Bendito”, “Encadeia”, “Aperta, Amor”, “Vareira” ou “Malhão” puderam ser escutados como matéria ainda habitada, capaz de reconhecer nas vozes de hoje a continuidade das vozes de ontem.

Quando Daniel Pereira Cristo assumiu plenamente a condução do concerto, acompanhado por Tiago Simães (piano), João Dantas Ferreira (acordeão) e Carolina Gomes (percussões), tornou-se claro que a comunidade nunca deixaria de ocupar o centro da narrativa. Mais polido ou mais regateiro, o coro foi a imagem visível de uma ideia de criação onde o individual encontra sentido na força do colectivo. Talvez possamos ver nesta forma de ser e de estar a maior singularidade do músico bracarense. A sua biografia fala de instrumentos tradicionais, de composição, de pesquisa e de uma permanente tensão entre passado e presente. Tudo isso é verdade, mas não chega. O que realmente o distingue é uma rara generosidade artística, uma disponibilidade para partilhar o palco, o saber e a responsabilidade da criação que reforçam a sua identidade autoral. Com apenas um workshop e três ensaios, Daniel Pereira Cristo conseguiu transformar mais de meia centena de participantes num organismo musical coeso, em cujo miolo soube cada voz encontrar o seu lugar de forma natural. E esta é uma qualidade que não se aprende nas escolas de música nem se escreve nos currículos: nasce da escuta, da empatia, da confiança e da capacidade de reconhecer talento nos outros, antes de procurar evidenciar o seu próprio talento. Obrigado, Daniel.

Por isso mesmo, o momento mais importante deste concerto não recaiu sobre uma canção em particular, embora “Saúde e Liberdade”“Que Força É Essa”“Confederação”, “Navegar, Navegar”, “Arriba o Monte” ou “Tens de Aprender a Dizer Não” tenham encontrado novas camadas de sentido nesta leitura colectiva. O essencial, contudo, aconteceu num plano menos visível. Uma vez mais o FESTA abriu espaço a um coro comunitário, levando-o a integrar de forma orgânica a programação do festival. Reunindo elementos do CásterAntiqua, do Canto Décimo, das Suspiro e dos cordofones do Grupo Folclórico As Tricanas de Ovar, o coro comunitário prolongou uma quase declaração de princípios que vem fazendo escola no nosso Município. Num tempo em que tantas instituições culturais confundem participação com representação simbólica, projectos como este são a demonstração de que a comunidade pode ser muito mais do que simples destinatária da programação, sendo ela própria matéria de criação artística. Nisto residiu a maior virtude de “Daniel Pereira Cristo + Comunidade”, ao recordar-nos que a tradição só permanece viva quando deixa de ser património para voltar a ser prática, quando deixa de ser memória para voltar a ser gesto partilhado.

terça-feira, 10 de março de 2026

CONCERTO: “L’aura e o Espelho” | Coro CásterAntiqua



CONCERTO: “L’aura e o Espelho”
Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Com | Pedro Martins (alaúde e teorba), Ezekiel Martins (alaúde e guitarra barroca)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Centro de Artes de Ovar
08 Mar 2026 | dom | 16:00


Tal como sucedera com a primeira edição, coube ao Coro CásterAntíqua a responsabilidade de encerrar o Festival de Música Antiga de Ovar, confiando ao momento derradeiro um gesto artístico que foi também um gesto de comunidade. Num programa concebido para assinalar o Dia Internacional da Mulher, vinte e sete vozes reuniram-se em torno de uma ideia tão simples quanto poderosa: cantar o universo feminino através da memória poética do Renascimento europeu. A dramaturgia partiu da figura platónica de Laura, esse nome que em si contém o sopro do amor e da alma - “l’aura”, na língua italiana -, para atravessar séculos de pensamento, poesia e música. Dos madrigais de Maddalena Casulana, “O notte, o ciel” e “Ben venga il pastor mio”, às leituras de poemas ou textos de Joana da Gama, Madre Brígida, Camões e Pessoa, aquilo que se pôde ver e sentir foi uma tessitura delicada onde a palavra e o som se corresponderam mutuamente. Em palco, os instrumentistas Pedro Martins e Ezekiel Martins sustentaram e ampliaram esse universo sonoro, acompanhando o coro e dando vida a interlúdios da própria Casulana, de Alfonso Ferrabosco e autores anónimos, como pequenas clareiras no interior de uma floresta de gestos e vozes. Construído como um percurso simbólico, o espectáculo afirmou-se na ideia de travessia interior onde a voz humana procurou, na herança renascentista, uma forma de dizer o eterno mistério do feminino.

Mas o que de mais belo teve este concerto foi, muito justamente, aquilo que o torna singular: o seu carácter profundamente comunitário. O CásterAntíqua é um coro que nasce da própria cidade, feito de pessoas que pertencem ao tecido vivo de Ovar e que, em muitos casos, se aproximam dele sem que a música tenha sido antes uma prática formal. Aqui, o canto é acima de tudo um espaço de encontro e de descoberta, uma experiência partilhada onde o entusiasmo substitui a especialização e o compromisso nasce da vontade comum de construir algo incomum e muito belo. Os ensaios começaram no início de Janeiro, numa sucessão de momentos dedicados à paciente arquitectura do som, e logo se percebeu que o desafio era gerador de uma onda de entusiasmo contagiante. Quando finalmente subiram ao palco do Centro de Artes de Ovar, os coralistas trouxeram consigo, não apenas as partituras, mas um sentido profundo de responsabilidade colectiva, como se cada voz se soubesse parte indispensável de um organismo grande e vivo. Sob a direcção musical de Jorge Luís Castro, que concebeu também o dispositivo cénico do espectáculo, o concerto ganhou uma dimensão visual subtil: um jogo de luzes e sombras, discretos elementos de dramaturgia, delicados quadros vivos e uma cuidadosa sonoplastia vocal ampliaram o gesto musical sem jamais o sobrecarregar. E, assim, o espectáculo atravessou simbolicamente a noite escura e fria para alcançar, pouco a pouco, a promessa de um dia luminoso.

No final, permaneceu a sensação de que este momento disse algo importante sobre a própria vida cultural do Município de Ovar. O CásterAntíqua vai-se afirmando, passo a passo, como uma presença identitária no panorama artístico da cidade, à semelhança de outras marcas culturais que o tempo consolidou. Há nisso o trabalho silencioso e persistente de uma organização firme e dedicada — liderada por Hélder Sousa e João Francisco Távora — que, com rara generosidade, soube providenciar os meios e o cuidado necessários para que esta segunda edição do Festival se cumprisse de forma rigorosa, privilegiando a necessária serenidade e hospitalidade que a todos envolveu. Mas há também, inevitavelmente, uma dimensão mais íntima neste testemunho. Escreve-o alguém que escuta a música com a devoção do melómano e que, ao mesmo tempo, partilhou o palco como elemento deste coro tão particular. Talvez por isso seja difícil encontrar a distância que uma verdadeira imparcialidade exigiria. Ainda assim, há experiências que pedem para ser fixadas em palavras, não como crítica, mas como gratidão. E este concerto, nascido da voz de uma comunidade, foi precisamente uma dessas raras ocasiões em que a arte pareceu lembrar-nos que cantar juntos continua a ser uma das formas mais belas, justas, humanas e livres de buscar a Luz.

segunda-feira, 9 de março de 2026

CONCERTO: “Bach e o seu legado: Sonatas para traverso” | Duo Suzanne



CONCERTO: “Bach e o seu legado: Sonatas para traverso”
Duo Suzanne
Com | Teresa Costa (traverso), Katerina Orfanoudaki (cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
07 Mar 2026 | sab | 16:00


O acolhedor espaço do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, cujos aposentos guardam murmúrios literários de um tempo outro, foi palco de um itinerário sonoro que teve como centro gravitacional o mestre supremo do barroco tardio e do contraponto: Johann Sebastian Bach. Em torno do seu génio nasceu e cresceu uma constelação de discípulos e herdeiros que prolongaram a sua linguagem, como se cada um transportasse consigo um fragmento da sua arquitectura musical. Assim aconteceu com Johann Gottfried Müthel, último aluno directo do mestre de Leipzig, cuja escrita permite entrever um horizonte sensível, quase pré-clássico, de uma expressividade capaz de se expandir para além da disciplina contrapontística. Também Johann Philipp Kirnberger, teórico e fiel guardião da tradição bachiana, dedicou a sua vida a sistematizar e preservar o legado do mestre, como quem recolhe num tratado aquilo que primeiro aprendeu pela escuta e pela prática. Entre estes ecos ergue-se ainda a figura singular de Anna Amalie von Preußen, princesa, mecenas e compositora, cuja formação se fez igualmente sob a sombra tutelar de Bach e dos seus discípulos.

Ao encontro deste leque restrito de compositores, o programa apresentado pelo Duo Suzanne, neste que foi o penúltimo concerto da segunda edição do CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar, desenhou uma pequena genealogia sonora, com quatro Sonatas que, como ramos de uma mesma árvore, revelaram a persistência de uma linguagem musical capaz de atravessar gerações, transformando-se sem jamais perder a sua raiz. O concerto foi o culminar de uma residência artística promovida no âmbito do festival, iniciativa que funciona como uma verdadeira marca distintiva ao abrir espaço a jovens formações emergentes através de uma “open call” internacional. Seleccionado entre treze candidaturas, o Duo Suzanne encontrou neste contexto o lugar para amadurecer um programa original, ao mesmo tempo que recebia mentoria de músicos ligados ao festival. O resultado foi o que se ouviu: quatro peças musicais servidas com rigor, imaginação e frescura, atentamente escutadas por um público numeroso que, na intimidade do Museu, soube beber cada compasso com a devoção silenciosa de quem reconhece que a música antiga continua, afinal, intensamente viva.

Ao longo de quase uma hora, o traverso de Teresa Costa desenhou linhas de respiração clara e flexível, deixando cada frase nascer com naturalidade quase orgânica, enquanto o cravo de Katerina Orfanoudaki sustentou e iluminou o discurso com uma elegância rítmica e harmónica de grande delicadeza. Entre ambas estabeleceu-se um diálogo atento, feito de escuta e confiança, o timbre aveludado do traverso entrelaçado na cintilação articulada do cravo. Na cumplicidade musical entre ambas residiu mais do que uma afinidade interpretativa, percebendo-se uma homenagem silenciosa a Suzanne - musa inspiradora que dá nome ao agrupamento - e a tantas outras mulheres cuja voz foi historicamente obscurecida ou apagada. “Suzanne” convoca a memória de Susana, personagem do Livro de Daniel cuja história atravessou séculos de produção artística. A narrativa inspirou músicos e pintores, como na intensa representação de Artemisia Gentileschi, cuja versão de 1610 fixa no olhar de Susana uma angústia que atravessa o tempo. Não é difícil reconhecer, nesse gesto artístico, uma afirmação de resistência feminina contra a violência e a injustiça. Também o Duo Suzanne pareceu dialogar com essa herança simbólica, oferecendo aos presentes um momento musical encantador e legando-lhes uma centelha de esperança num mundo mais justo e melhor.

domingo, 8 de março de 2026

CONCERTO: “De Folias, Chaconas e Fandangos” | Ensemble Allettamento



CONCERTO: “De Folias, Chaconas e Fandangos”
Ensemble Allettamento
Com | Carlos Oramas (teorba e guitarra barroca), Mario Braña (violino), Sergio Suárez (violino), Elsa Pidre (violoncelo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
06 Mar 2026 | sex | 21:00


Os séculos XVII e XVIII herdaram da tradição popular alguns dos seus mais persistentes impulsos rítmicos, transformando-os em matéria de invenção musical de extraordinária riqueza. Entre esses gestos que atravessaram fronteiras sociais e geográficas destacam-se a folia, a chacona e o fandango, três formas que nasceram do movimento do corpo e da celebração colectiva antes de encontrarem lugar nos salões aristocráticas e no imaginário instrumental barroco. A folia, em particular, constitui um dos exemplos mais fascinantes dessa transfiguração cultural. Muito antes de ser esquema harmónico solene, capaz de sustentar sucessivas variações, viveu como dança popular exuberante, associada à energia das festas e a uma certa vertigem coreográfica. Não deixa de ser revelador que, já no início do século XVI, Gil Vicente a mencionasse no seu “Auto da Sibila Cassandra”, testemunhando a presença da “folia” no universo festivo do quotidiano. O mesmo se poderia dizer da chacona ou do fandango, danças de carácter vivo e teatral, profundamente ligadas ao gesto e à pulsação rítmica. Todos estes géneros partilham uma origem comum: o encontro entre música e movimento, entre improvisação e estrutura, entre a espontaneidade das gentes e a sofisticação das linguagens barrocas. Escutá-los hoje é escutar também a memória de um percurso histórico em que a música absorveu, refinou e perpetuou a energia de antigas danças, convertendo-as em verdadeiros laboratórios de expressão.

Foi precisamente esse universo de ressonâncias ibéricas e europeias que o Ensemble Allettamento trouxe, na noite de ontem, à Igreja Matriz de Ovar, no âmbito do CásterAntiqua. O programa desenhou uma viagem através de diferentes geografias sonoras, abrindo com a imaginação instrumental de Giovanni Girolamo Kapsberger, cujas “arpeggiate” e “toccatas” deixaram logo perceber a liberdade inventiva do barroco inicial. Seguiram-se as danças de Andrea Falconieri e o refinamento guitarrístico de Francesco Corbetta, antes de o repertório ibérico ganhar particular evidência nas páginas de Santiago de Murcia e de Gaspar Sanz. Neste último, o tema “Canários e Jácaras” proporcionou um dos momentos mais luminosos da noite, graças ao virtuosismo e à expressividade de Carlos Oramas, cuja interpretação fez cintilar cada gesto rítmico com naturalidade contagiante. Merece também destaque a inclusão no programa do compositor português Pedro Lopes Nogueira, presença preciosa que recorda como estas danças e esquemas harmónicos se disseminavam entre culturas e repertórios, revelando a vitalidade das trocas musicais na Península. O percurso culminou com páginas de Antonio Vivaldi, entre as quais o Concerto em Ré maior RV 93 e, sobretudo, a célebre Sonata Op. 1 n.º 12 “La Follia”, interpretada com entusiasmo e grande cumplicidade entre os músicos, cujos instrumentos dialogaram em permanência, num tecido de harmonias ricas, feito de graça e luminosidade. Já no encore, o ensemble ofereceu ainda uma delicada chacona de Arcangelo Corelli, extraída da Sonata Op. 2 n.º 12, encerrando o concerto com um gesto de elegância serena.

A atmosfera da Igreja Matriz de Ovar contribuiu decisivamente para a intensidade desta experiência musical. Marcado pela solenidade das suas proporções e pela generosa ressonância acústica, o espaço acolheu o público num silêncio quase reverencial, desses silêncios que antecedem a música como quem prepara o espírito para a escuta. Ao longo do concerto, foi possível ler nos rostos atentos uma mistura de concentração e alegria, como se cada nova dança abrisse uma pequena janela sobre o passado e sobre a vitalidade expressiva do barroco. A qualidade do Ensemble Allettamento revelou-se nessa cumplicidade artística: os dois violinos e o violoncelo formaram a base de um tecido sonoro flexível e vibrante, sustentando com elegância a arquitectura musical de cada peça. No centro desse diálogo destacou-se Carlos Oramas, cuja presença como solista fez brilhar as cordas da teorba e da guitarra barroca com uma expressividade rara. O seu toque, simultaneamente preciso e imaginativo, desenhou linhas de grande delicadeza sobre o manto sonoro do conjunto, equilibrando virtuosismo e subtileza. Quando as últimas notas se dissiparam no ar, permaneceu a sensação de que aquelas antigas folias, chaconas e fandangos tinham cumprido novamente a sua vocação primordial, a de reunir intérpretes e ouvintes numa mesma alegria partilhada, levando a beleza da música ao encontro do seu eco mais humano.

sábado, 7 de março de 2026

CONCERTO: “No Salão de Bach” | William Carter



CONCERTO: “No Salão de Bach”
Com | William Carter (alaúde)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela do Calvário
05 Mar 2026 | qui | 21:00


No arranque da segunda metade do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, a organização elegeu o ambiente intimista e de recolhimento da Capela do Calvário para a apresentação a solo do consagrado alaudista norte-americano William Carter. Depois de aqui termos escutado, no ano passado, um conjunto de obras-primas do Barroco na flauta de bisel de Robert Ehrlich e no cravo de Alexander von Heißen, este foi um retomar da viagem a um dos mais fascinantes períodos da história da música, tendo sido possível apreciar o quanto de subtileza, graça, harmonia e beleza a música pode conter quando devolvida em acordes de rara mestria e virtuosismo. Tornada espaço de afinidades electivas e de emoções contidas, a Capela do Calvário foi palco privilegiado de evocação de um tempo em que os acordes reverberaram na intimidade dos salões, alimentando uma respiração comum entre William Carter e todos aqueles que tiveram o privilégio de o escutar. Instrumento de murmúrios e sombras luminosas, o alaúde foi a voz de uma conversa que atravessou séculos, oferecendo-se com a naturalidade de quem fala com fluência uma língua antiga, feita de madeira, cordas e silêncio.

O programa já insinuava a ideia de reinvenção, a música como matéria viva capaz de se reimaginar e de voltar ao convívio do público sempre livre e renovada. Foi isto que pudemos apreciar “no salão musical de Bach”, uma viagem que teve o seu início muito antes de Bach e que se prolongou para além dele, como se o compositor alemão surgisse no centro de uma constelação de mestres do alaúde. Nesta fascinante viagem, foi a arquitectura sonora do compositor que se impôs como pedra de toque. Para quem raramente escreveu a pensar nas limitações do intérprete, antes imaginou uma música que fosse além das fronteiras naturais dos instrumentos, Bach soube, como ninguém, transportar para o alaúde obras originalmente concebidas para violino ou violoncelo, criando verdadeiras transmutações sonoras que trouxeram uma nova vida musical a um vasto conjunto de peças. Foi nesse território que William Carter se moveu com rara elegância. O seu toque, de uma serenidade quase contemplativa, fez sobressair a continuidade melódica e a subtileza das danças escondidas na escrita bachiana, da leveza de um Adágio à tensão de uma Fuga ou à vertigem de um Presto.

As páginas de Esaias Reusner franquearam as portas do salão com a elegância austera do século XVII, prelúdios e pavanas a ensaiarem a respiração de uma dança processional lenta, solene e majestosa. A música de Sylvius Leopold Weiss trouxe ao programa a plenitude do instrumento, espalhando acordes, ora meditativos, ora cintilantes, capazes de reverberações medievalistas num universo de dança e fantasia. Mais atrás no tempo, o repertório de Ennemond Gaultier evocou a delicadeza francesa do alaúde barroco, cada acorde desenhado com o sentido de suspender o tempo. A pouco conhecida “La Cascade”, uma “chaconne” alegre e plena de lirismo no seu desígnio de mostrar até que ponto definhamos sem um pouco de música (e de vinho), foi um momento de felicidade suprema conduzido por William Carter de forma intensa, entusiástica e sensível. E assim o concerto terminou tal como começara, envolto numa atmosfera encantatória, onde cada nota pareceu suspensa no ar por instantes mais longos do que o tempo. No dedilhar subtil do alaúde, nada pareceu demonstrativo em William Carter; tudo soou simples, fluido, inevitável. E a música, simplesmente, aconteceu.

quarta-feira, 4 de março de 2026

CONCERTO: “Telemann: Camaleão” | New Collegium



CONCERTO: “Telemann: Camaleão”
New Collegium
Direcção musical | Cláudio Ribeiro
Com | Inês d’Avena (Flautas de bisel), Sara DeCorso (Violino), Nina Hitz (Violoncelo), Cláudio Ribeiro (Cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela da Misericórdia
01 Mar 2026 | dom | 18:00


No quadro do chamado “gosto misto” que marcou o Barroco germânico, poucos compositores encarnaram tão plenamente o ideal camaleónico quanto Georg Philipp Telemann. Se, em 1730, Johann Sebastian Bach sublinhava a necessidade de os músicos alemães dominarem os estilos italiano e francês, Telemann fez dessa exigência um programa estético ao assimilar a retórica da “ouverture francesa”, a teatralidade concertante italiana, o contraponto germânico e até inflexões polacas, fundindo-os numa linguagem surpreendentemente fluida e vivaz. Escrevendo para formações as mais diversas, o genial compositor demonstrou conhecer por dentro a respiração e a matéria de cada instrumento, explorando-lhes as cores próprias com uma naturalidade que ainda hoje soa moderna. Acrescente-se que a fama de Telemann, imensa em vida, assentou tanto na inventividade como na inteligência editorial, bastando para tal lembrar a publicação periódica “Der getreue Music-Meister”, laboratório de géneros e afectos numa altura em que a música se tocava muito dentro de portas, sem olhar a credos religiosos ou a extractos sociais.

Foi essa paleta, ampla e plena de originalidade e bom gosto, que os neerlandeses do New Collegium trouxeram, ao cair da tarde de domingo, à Capela da Misericórdia de Ovar, encerrando o primeiro de dois fins de semana da segunda edição do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar. Desde o Prélude do 6.º Quatuor (TWV 43:e4), com o seu recorte solene e ritmo pontuado, até à vitalidade concertante da Sonata em Sol maior (TWV 42:G7), foi amplamente reconhecível uma respiração comum entre Inês d’Avena, Sara DeCorso, Nina Hitz e Claudio Ribeiro: emotiva, sensível e comovente ao mesmo tempo. A harmonia, clara, nunca estática, encontrou sustentação num contínuo atento, enquanto o jogo rítmico - alternando a elegância francesa e a impulsividade italiana - se desenhava com precisão coreográfica. No Trio em lá menor (TWV 42:a4), o Largo abriu espaço a um cromatismo insinuante; no Vivace, a escrita fugada ganhou leveza sem perder rigor. Já o Duetto (TWV 40:111), superlativamente interpretado, revelou cumplicidades tímbricas subtis entre a flauta doce e o violino, numa alternância de delicadeza e vivacidade nascidas do gesto partilhado.

O ponto axial do concerto foi a suite construída a partir de “Der getreue Music-Meister”: um mosaico de andamentos - “L’hiver: Gravement - Vîte - Largo - Alla breve - Lento - Pastourelle” - que expôs, como num espelho multifacetado, as metamorfoses camaleónicas do compositor. Aqui, a arquitectura fez-se respiração partilhada: cada número pareceu nascer do anterior por subtil inflexão rítmica ou por desvio harmónico calculado, como se o discurso se reorganizasse continuamente sem perder a unidade. Destaque para a Pastourelle e para a sua claridade campestre, desenhada com elegância tímbrica e articulação nítida, a lançar sobre os presentes um sopro de modernidade. Já no “encore”, o Trio em ré menor, inspirado no folclore da Silésia e durante séculos atribuído a Georg Philipp Telemann, soou como epílogo irónico e quase cúmplice: hoje sabe-se ser Pierre Prowo o seu autor, mas a energia que dele se desprende e os seus contornos modais integraram-se sem fricção no universo apresentado. Como se o camaleão, afinal, pudesse também ser máscara. E a música, mais do que assinatura, uma arte de respiração comum.

terça-feira, 3 de março de 2026

CONCERTO: “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval” | Ensemble Med



CONCERTO: “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”
Ensemble Med
Direcção musical | Daniela Tomaz
Com | Daniela Tomaz (flautas, adufe), Joana Godinho (canto), Sérgio Calisto (viola d’amore a chiavi e nyckelharpa), Laurent Safar (percussão)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Bar do Centro de Artes de Ovar
28 Fev 2026 | sab | 21:00


Mais do que um imenso espaço líquido, ao longo de séculos o Mediterrâneo foi praça pública onde mercadores, peregrinos, exércitos e poetas teceram uma rede de trocas que moldou decisivamente a história cultural dos povos que o habitaram. Das rotas que ligavam o Levante às costas atlânticas da Ibéria chegaram especiarias, técnicas, cosmologias e, com elas, palavras que ainda hoje habitam a língua portuguesa, heranças árabes, hebraicas e latinas que sobreviveram às fronteiras políticas e às ortodoxias religiosas. Essa sedimentação fez-se também de música, dos modos melódicos que atravessaram sinagogas, mesquitas e catedrais aos ritmos que acompanharam o labor agrícola e a celebração litúrgica ou às práticas de transmissão oral que resistiram à erosão do tempo. O legado cultural mediterrânico é, por isso, uma corrente viva que continua a renovar-se na tradição. A língua que falamos, os cantares que reconhecemos como nossos, os timbres que associamos ao sagrado ou ao profano são testemunhos dessa convivência antiga, tantas vezes tensa, tantas vezes fecunda, que faz da diversidade um motor criativo. É essa memória partilhada - frágil e resiliente ao mesmo tempo - que programas como “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval” convocam, lembrando-nos que a identidade ibérica se construiu no encontro e na escuta.

No Bar do Centro de Artes de Ovar, essa história ganhou corpo e respiração. O ambiente descontraído, de copo ou chávena na mão, e a proximidade cúmplice entre intérpretes e público, dissolveu qualquer ideia cristalizada de que a música medieval pertence apenas à penumbra das igrejas ou ao fausto dos palácios. O Ensemble Med apresentou um percurso que, do Cancionero Musical del Palacio às melodias sefarditas recolhidas por Isaac Levy, das inflexões do makam turco às Cantigas de Santa Maria, fez do concerto uma verdadeira cartografia sonora. Mesmo nas peças de natureza litúrgica, a pulsação rítmica e a entrega dos músicos foram capazes de imprimir-lhes uma dimensão festiva, quase dançável, como se cada modo antigo escondesse uma chama ainda viva, pronta a reacender-se ao primeiro fôlego. Foi um concerto marcado pelo rigor histórico, mas nunca rígido; houve estudo e pesquisa, mas sobretudo partilha. As percussões insinuaram pontes invisíveis entre margens, as cordas desenharam arabescos de fina filigrana e os sopros coloriram o espaço com uma paleta capaz de evocar mercados, pátios e claustros. A generosidade dos executantes sentiu-se na forma como ofereceram cada frase ao público, num gesto franco e hospitaleiro que foi espelho da própria matriz mediterrânica do programa.

Entre a pulsação do adufe de Laurent Safar, a sonoridade única das nyckelharpa de Sérgio Calisto e a doçura das flautas de Daniela Tomaz, foi  a voz de Joana Godinho que sobressaiu, erguendo-se como um fio de ouro. Capaz de se expandir na energia contagiante do Coro das Maçadeiras e logo depois saber recolher-se na intimidade contemplativa de uma Cantiga de Santa Maria - onde cada sílaba nos é oferecida como que suspensa numa oração sussurrada -, a cantora demonstrou uma versatilidade rara, aliando clareza tímbrica a uma expressividade intensamente comunicativa e empática. A sua prestação nunca cedeu ao exotismo fácil, antes caminhou, com verdade e firmeza, na senda de um legado onde cristãos, judeus e muçulmanos partilham uma mesma respiração histórica. Também por isso, o concerto foi mais do que uma sucessão de peças de uma longa e intensa jornada entre oriente e ocidente: foi manifesto discreto contra o esquecimento, uma afirmação de que a música antiga deixa de ser antiga quando se torna presente em corpos vivos e vozes que a reinventam. No final, entre aplausos calorosos e sorrisos cúmplices, ficou a sensação de que aquele bar, à semelhança de tantos cafés de outras épocas, foi por momentos ágora efémera, lugar onde a memória colectiva se celebra não como peso, mas como promessa.

segunda-feira, 2 de março de 2026

CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann” | Musurgia Ensemble



CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann”
Musurgia Ensemble 
Direcção musical | João Francisco Távora
Com | João Francisco Távora (Flauta de Bisel), Marta Gonçalves (Traverso), Xurxo Varela (Viola da Gamba), Rodolfo Richter (Violino I), Sergio Suárez (Violino II), Mário Braña (Viola), Marta Jiménez Ramírez (Violoncelo), Hélder Sousa (Cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
27 Fev 2026 | sex | 21:00


Na Leipzig do segundo quartel do século XVIII, a música habitava profusamente igrejas e palácios, mas era igualmente possível escutar a sua respiração no burburinho do Café Zimmermann, no coração da elegante Katharinenstrasse, graças à paixão pela música do dono do Café, o senhor Gottfried Zimmermann. Imaginemo-nos a franquear a porta desse edifício barroco e a sorver o aroma do café acabadinho de torrar, enquanto olhamos em volta e percebemos o rumor expectante de uma burguesia letrada. As mesas alinham-se sob a luz de velas vacilantes, enquanto damas e cavalheiros se acomodam para escutar o Collegium Musicum, dirigido por Johann Sebastian Bach ou, antes dele, pelo seu fundador, Georg Philipp Telemann. Os jovens intérpretes afinam os seus instrumentos, trocam olhares cúmplices. Um cravo ensaia discretamente uma cadência e dá-se início ao concerto: uma abertura solene, talvez uma suite francesa, seguida de um diálogo vibrante de cordas e sopros e de uma ária secular insinuando ironias mundanas. Entre goles de café e apartes sussurrados, a cidade aprende a ouvir-se a si mesma. Não há bilhete a pagar, apenas a promessa de duas horas de invenção sonora, sustentadas pela hospitalidade do anfitrião e pela curiosidade de um público que ali encontra, simultaneamente, entretenimento e elevação.

Mais do que uma recriação, foi a evocação dessa memória que o Musurgia Ensemble chamou à Igreja Matriz de Ovar, na abertura da segunda edição do CásterAntiqua. O “desconcerto” inicial na proposta implícita a que o público se reposicionasse como se de um café setecentista se tratasse não foi mero artifício cénico. Foi, isso sim, um convite a abraçar, com outra disposição do corpo e do espírito, uma música com tanto de presença como de pertença. Inteligentemente urdido, o programa poderia muito bem ter ecoado no próprio Café Zimmermann há três séculos, de tal forma as peças escolhidas são das mais representativas do barroco tardio. A Suite em Si bemol Maior, op. 1 nº3, de Johann Caspar Ferdinand Fischer abriu espaço à elegância coreográfica das danças francesas; os concertos em Lá menor TWV 52:a1 e Mi menor TWV 52:e1, de Telemann, desenharam contrastes de afectos; e as sinfonias e páginas orquestrais de Bach - da BWV 175 à BWV 150, do Oratório da Páscoa BWV 249/2 à Suite Orquestral nº 3 BWV 1068 - transfiguraram a densidade teológica em gesto instrumental. Na nave ampla do templo vareiro, a acústica expandiu o que outrora teria sido intimidade de salão, sem trair nunca o espírito de partilha tão característico das mais brilhantes academias musicais setecentistas.

A qualidade do concerto confirmou o Musurgia Ensemble como guardião atento e criativo da música antiga. Fundado em 2020 por João Francisco Távora e Hélder Sousa, o agrupamento alia investigação e prática historicamente informada a uma pulsação viva, comprometida e revigorada, nunca museológica. O cuidado com a harmonia revelou-se na clareza das vozes intermédias. O ritmo, firme mas elástico, sustentou as danças sem rigidez, os diálogos instrumentais a surgirem como conversas inteligentes, feitas de animados momentos de pergunta e resposta. Particularmente memorável foi o encontro tímbrico entre a flauta de bisel de João Francisco Távora e o traverso de Marta Gonçalves: dois sopros, duas cores, duas respirações que se entrelaçaram com naturalidade, ora em contraste, ora em fusão luminosa. Houve momentos em que o som pareceu suspender o tempo, deixando-se surpreender num Largo em suspenso ou numa Gavotte de sorriso discreto e graça plena. Nesse equilíbrio entre rigor e imaginação, o Musurgia Ensemble mostrou-se hábil no seu compromisso com o passado, tornando-o presente, pulsante e necessário. Um extraordinário concerto de abertura do Festival, a fazer adivinhar dois fins de semana que se afiguram memoráveis.

segunda-feira, 24 de março de 2025

CONCERTO: "Divinas Perlinas" | Musurgia Ensemble & Coro CásterAntiqua



CONCERTO: “Divinas Perlinas”
Musurgia Ensemble & Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Apresentação | Ana Isabel Nistal Freijo
Com | João Francisco Távora (flauta de bisel e direção artística), Pedro Martins (guitarra barroca), Helder Sousa (cravo e direção artística)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela de Santo António
23 Mar 2025 | dom | 16:00


“Que idade
tem o rio?
Sua infância flui sempre menimesma
sua voz permanece azul,
água aberta, alçapão por onde o tempo perde a voz
e o imenso se faz imerso.”
Mia Couto, in “Raíz de Orvalho e Outros Poemas”

Um sonho cuja matéria se confunde com as águas de um rio. Uma vontade antiga que retira do Cáster a sua imagem e o seu modelo. Assim foi pensado e gerado o CásterAntiqua, assim viu a luz do dia o primeiro Festival de Música Antiga de Ovar. Com um programa distribuído por actividades formativas, visitas guiadas ao património religioso de Ovar, sete concertos em outros tantos dias e o trabalho comunitário que redundou na criação do Coro CásterAntiqua, o Festival revelou-se uma extraordinária surpresa, tanto pela variedade e qualidade das propostas, quanto pelo próprio desenho, a sua atenção ao detalhe, o seu empenho na criação de novos públicos através da beleza e riqueza do universo da Música Antiga. Está de parabéns o Musurgia - Associação Cultural e, muito em particular, Hélder Sousa e João Francisco Távora, directores artísticos do Festival, pela forma como souberam conduzir esta viagem de celebração da Música Antiga. Parabéns extensivos a toda a equipa que com eles colaborou e à Câmara Municipal de Ovar, parceira nesta aventura inicial e, estou certo, nas edições que se seguirão, certos do potencial da iniciativa e da sua inequívoca qualidade e excelência.

Mas é do Coro CásterAntiqua que gostaria de falar, já que foi com ele e com o Musurgia Ensemble que chegou ao fim o CásterAntiqua, num concerto intitulado “Divinas Perlinas” e que teve lugar na tarde de ontem, na sobrelotada Capela de Santo António. Foi o culminar de um trabalho desenvolvido no Museu Escolar Oliveira Lopes e que, ao longo de quatro sessões de três horas cada, reuniu cerca de três dezenas de elementos. Sob a orientação de Jorge Luís Castro, os coralistas mergulharam nos vilancicos devocionais de Gaspar Fernandes, dando-lhes vida através de uma rica e harmoniosa combinação de vozes. Abro aqui uma nota de carácter pessoal para referir, enquanto membro do coro, que se tratou de uma experiência fantástica, em primeiro lugar pela entrega e entusiasmo, paciência infinita e enorme conhecimento de Jorge Luís Castro, elevando o coro a patamares de grande qualidade. Mas também pelos momentos de cumplicidade e partilha com os demais companheiros de aventura, todos eles conhecedores, empenhados, dedicados e possuidores de vozes maravilhosas, e cujas contribuições foram determinantes para o bem sucedido resultado final.

Com as atenções viradas para Gaspar Fernandes, compositor português (?) activo na Guatemala e no México entre os finais do século XVI e primeiro quartel do século XVII, o programa integrou ainda peças de um conjunto de outros compositores, nomeadamente Diego Ortiz, Giovanni Paolo Cima e Andrea Falconiero. A viagem entre as duas margens do Atlântico fez-se, desta vez, ao sabor da língua: De um lado o português, o castelhano e o biscayno; do outro o mestiço, o índio e o Nahuatl (idioma asteca à época da conquista espanhola e falado ainda hoje por cerca de um milhão e meio de pessoas na região central do México). Com a parte instrumental a cargo de João Francisco Távora, Hélder Sousa e Pedro Martins, o concerto teve no coro o seu elemento de maior relevância, ficando demonstrado o poder alquímico de Jorge Luís Castro em juntar vozes e fazer magia. A ele se deveu a confiança e disponibilidade evidenciada pelos coralistas em “Negrinho tiray vos”, “As divinas perlinas” e “Mi niño dulce y sagrado”, peças de enorme riqueza melódica e rítmica e de uma harmonia sublime que tanto encantaram o público. Caído o pano sobre o evento, ficam momentos únicos de fruição da boa música e uma enorme vontade de podermos assistir à concretização de uma nova edição, já em 2026. As coisas boas não se podem perder e esta é daquelas coisas realmente muito boas.

domingo, 23 de março de 2025

CONCERTO: “A tre: Música para trio nas cortes europeias do séc. XVIII” | Ensemble Navis



CONCERTO: “A tre: Música para trio nas cortes europeias do séc. XVIII”
Ensemble Navis
Com | Beatriz Soares (traverso), Paola Troiano (traverso), Claudia Cecchinato (violoncelo), Sayaka Matsunaga (cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense
22 Mar 2025 | sab | 16:00


Quando falta apenas o concerto de encerramento do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, já começa a apossar-se de nós como que uma nostalgia, uma saudade, pelo vazio tão próximo. Um balanço preliminar desta primeira edição do Festival permite concluir que o objectivo de divulgar a Música Antiga e dar a ver as particularidades de um universo vasto, que se estende no tempo e abraça uma multiplicidade de géneros e estilos, foi claramente atingido. Ao longo de dois fins de semana, assistimos ao desenvolvimento de um programa rico e variado, graças às prestações de altíssimo nível, em distintos palcos, de um apreciável número de agrupamentos de renome. Mas o CásterAntiqua fez questão de não descurar as novas correntes, lançando uma Open Call internacional com o intuito de proporcionar a um grupo de jovens músicos a oportunidade de desenvolver uma residência artística. Ao longo de seis dias, o agrupamento seleccionado, o Ensemble Navis, trabalhou um programa musical original, com a mentoria de intérpretes que integraram a agenda musical do Festival. O resultado pôde ser apreciado na tarde de ontem, no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense.

Centrando a sua atenção no ambiente das cortes europeias do século XVIII, o Ensemble Navis - Beatriz Soares, Paola Troiano, Claudia Cecchinato e Sayaka Matsunaga - propôs uma viagem pelo centro da Europa, visitando as cortes de Luís XIV e Luís XV em França, da princesa Guilhermina, irmã de Frederico o Grande, na Prússia, de Augusto, o Forte, na Polónia ou de Nicolau Esterházy, na Hungria. Mas não apenas as cortes, também os locais de culto foram alvo da atenção do Ensemble, penetrando na intimidade de conventos e igrejas como as de S. Tomás ou de S. Nicolau em Leipzig, de Santa Catarina em Frankfurt ou da Neue Kirche (Igreja Nova) em Arnstadt. “Triosonata No.1 em sol menor, da cravista parisiense Élisabeth Jacquet de La Guerre (1665-1729), e “Pièces pour la flûte traversière op.2”, do flautista “romano” Jacques-Martin Hotteterre (1673-1763), foram as duas peças de abertura do concerto, nelas se evidenciando uma forte noção de movimento a par de uma enorme delicadeza e frescura. O quarteto deu provas da necessária qualidade interpretativa, capaz de transmitir as emoções que se desprendem de ambas as peças, sabendo pôr em diálogo os instrumentos e criando grandes expectativas quanto ao restante programa.

“Triosonata em sol maior para duas flautas e baixo contínuo”, de Johann Sebastian Bach (1685-1750), foi, na sua complexidade e rigor meditativo, um dos momentos altos do concerto, tal como a peça seguinte, bem mais viva e alegre, “Musique de table: Trio em ré maior TWV 42:D5, de Georg Philipp Telemann (1681-1767), espécie de “banda sonora para um jantar”, assim ilustrada por Beatriz Soares, que fez as honras do agrupamento, com uma breve introdução inicial a cada uma das peças. Ainda que indirectamente, voltaríamos a Telemann, já que a peça que escutámos serviu de inspiração a Wilhelm Friedemann Bach, filho de Johann Sebastian Bach, para compor o seu “Trio em ré maior Fk 47”, com o qual se completou o alinhamento do concerto. Antes disso, porém, viveu-se outro momento feliz com a interpretação do “Divertimento Op.3 No.3 em ré menor”, de Anna Bon, peça de uma alegria contagiante escrita por uma compositora que foi uma “menina-prodígio” e que, aos quatro anos de idade, já estudava música no Ospedalle della Pièta, de Veneza. Os fortes e prolongados aplausos finais trouxeram com eles a recompensa de um “miminho”, “Pourquoy doux rossignol”, de Jean-Baptiste Drouart de Bousset, numa versão ornamentada por Michel Blavet, uma canção de amor e de mágoa muito bela e que se constituiu na melhor das despedidas.

sábado, 22 de março de 2025

CONCERTO: “Ad Vesperas - Música para as Vésperas do Corpus Christi” | Musurgia Ensemble & Quarto Tom Ensemble



CONCERTO: “Ad Vesperas - Música para as Vésperas do Corpus Christi”
Musurgia Ensemble & Quarto Tom Ensemble
Musurgia Ensemble | João Francisco Távora (flauta de bisel e direcção artística), Silvia Cortini (flauta de bisel), Xurxo Varela (viola da gamba), Francisco Luengo (viola da gamba), Hélder Sousa (órgão e direcção artística)
Quarto Tom Ensemble | Eva Braga Simões (tiple), Gabriela Braga Simões (alto), Luís Toscano (tenor), Nuno Mendes (baixo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
21 Mar 2025 | sex | 21:30


Corpus Christi ou Corpo de Deus é o nome dado à solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, a qual é celebrada pela Igreja sessenta dias após a Páscoa, na quinta-feira que se segue à Solenidade da Santíssima Trindade. A sua celebração pretende sublinhar a centralidade da Eucaristia na vida cristã, ou seja, “a doação que Jesus Cristo faz de si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem”. Instituída pelo Papa Urbano IV, em 1264, pretendeu pôr cobro às heresias que colocavam em causa a presença do Cristo verdadeiro na Eucaristia, mas também responder ao movimento de devoção ao Santíssimo Sacramento que vinha a intensificar-se na prática dos fiéis. Esta festa convida os crentes a deterem-se, mais demorada e profundamente, no mistério que celebram e que é o centro vital da sua vida crente, renovando a profissão de fé em Cristo, vivo e presente neste Sacramento. O cerimonial deve culminar com uma Procissão Eucarística, de acordo com as orientações da Igreja, sendo a música parte integrante das celebrações, desempenhando um papel fundamental no que lhes acrescenta de solenidade e espiritualidade.

Menos de vinte e quatro horas decorridas sobre o excepcional concerto dos Seconda Prat!ca, a Igreja Matriz voltou a acolher um numeroso público, ávido de escutar as propostas do Musurgia Ensemble e do Quarto Tom Ensemble, para a celebração das Vésperas do Corpo de Deus, tal como se faria em Portugal no século XVII. Integrado no programa do CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar, o concerto teve por base a recolha de música vocal e instrumental conservada em arquivos musicais portugueses e recebeu o título “Ad Vesperas – Música para as Vésperas do Corpus Christi”. A partir do repertório de um vasto conjunto de artistas ibéricos, conhecidos e menos conhecidos - e alguns anónimos -, dos séculos XVI e XVII, os dois agrupamentos trabalharam uma vasta selecção de composições, convidando os presentes a nova viagem pelos tempos da História e seus contornos musicais, voltados inequivocamente para o interior da própria Igreja, com a sua liturgia, os seus dogmas, a sua essência canónica. Daqui resultou uma entre muitas propostas possíveis para as vésperas desta festa de grande solenidade, não apenas em relação ao alinhamento do concerto, mas também no que toca ao número de vozes e à própria parte instrumental seleccionada.

Assente na polifonia e no cantochão, em obras instrumentais e em variadas combinações destes efectivos, o concerto assumiu como prioridade o respeito pela estrutura quase fixa desta festa de grande solenidade, composta por uma evocação, cinco salmos, um hino, um cântico e uma benção final. De Manuel Cardoso a Pero Vaz Rego, de Frei Agostinho da Cruz a Manuel Rodrigues Coelho, o público teve a graça de escutar um conjunto de composições inspiradas, cujos acordes ecoaram no coração da Igreja Matriz com fervor e devoção. Eva Braga Simões e a sua voz cristalina brilharam no “Pange Língua” de Juan Navarro, hino devocional de rara beleza e que possui a particularidade de fugir ao cânone romano e assumir um carácter ibérico. O “Magnificat”, de João Lourenço Rebelo, e o “Benedicamus Domino”, de Aires Fernandes, foram outros dois momentos de profunda espiritualidade, escutados pelo público no mais reverencial silêncio. Já no capítulo dos Salmos, o destaque maior vai para a viola da gamba de Xurxo Varela e para a flauta de bisel de João Francisco Távora, capazes de momentos da maior beleza e emoção. Na linha dos anteriores concertos, “Ad Vesperas - Música para as Vésperas do Corpus Christi” foi mais um momento de altíssima qualidade e a melhor forma de assinalar o Dia Europeu da Música Antiga.

sexta-feira, 21 de março de 2025

CONCERTO: "Nova Europa" | Seconda Prat!ca



CONCERTO: “Nova Europa”
Seconda Prat!ca
Com | Sofia Pedro (soprano), Sophia Patsi (alto), Emilio Aguilar (tenor), João Paixão (barítono), Bram Trouwborst (baixo), Nuno Atalaia (barítono, flautas e direção artística), Asuka Sumi (violino), Xander Baker (viola da gamba), Hugo Sanches (guitarra barroca e tiorba), Martin Billé (guitarra barroca e tiorba)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
20 Mar 2025 | qui | 21:30


“Voltando ao assunto, creio que não existe nada de bárbaro ou selvagem nesta nação, pelo que me foi dito; excepto, que toda a gente chama de bárbaro ao que não é o seu costume. De facto, parece que não temos outro guia para a verdade, para a razão, do que o exemplo e as ideias e as opiniões e os costumes do país onde vivemos. Lá, está sempre a religião perfeita, a etiqueta perfeita, o uso perfeito e realizado de todas as coisas.”
Michel de Montaigne, in “Dos Canibais”

Ao analisar os costumes do povo Tupinambá, Michel de Montaigne, jurista, político, filósofo, escritor e humanista, nascido em 1533 na Dordonha, França, desenvolveu uma notável reflexão sobre “barbárie” e “civilização”, questionando quem estaria com a razão, se o povo Tupinambá ou o Europeu, que em nome de civilizar e tirar os outros povos da barbárie, cometia as maiores atrocidades. Este embate civilizacional, decorrente do achamento do “Novo Mundo” no dealbar do século XVI, levou a que a Europa, até então “o Mundo”, quisesse ser “o Centro do Mundo”. Como resultado imediato, dos vinte e cinco milhões de indígenas do México, só alguns milhares se mantinham vivos passado um século e a população andina diminuiu oitenta por cento em trinta anos. À luta pela sobrevivência seguiu-se a dominação cultural. Não sendo facilmente transmitida pelas armas, a fé cristã teve de ser incutida em cada mente através da arte e da música. Paradoxo dos paradoxos: Nascido em condições atrozes, no meio da destruição e do massacre, o barroco musical colonial está repleto de obras-primas, como facilmente se percebeu na noite de ontem graças ao maravilhoso concerto do Seconda Prat!ca.

A relação ética, política e musical entre a Europa e a América do Sul colonizada está no centro de “Nova Europa”, título do concerto e projecto musical do Seconda Prat!ca, de visita a Ovar na abertura do segundo fim de semana do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar. Numa Igreja Matriz repleta de público, o grupo teve para oferecer uma viagem musical através de um mundo em expansão, seguindo os passos da migração e hibridação da cultura europeia. “Distância”, “Missões”, “Crioulização” e “Catedral” foram quatro etapas de um processo de exploração das mutações das fronteiras e percepções dos continentes recém-colonizados, através da sua música. Mas o programa quis ver mais longe ao propor uma reavaliação dos fundamentos históricos que ainda nos levam a chamar “Novo Mundo” a territórios e culturas previamente existentes, e cuja opressão não é deveras passada. Daí que duas questões se imponham com a força e acutilância que o assunto deve merecer: E se um Novo Mundo nunca existiu? E se a Europa tivesse precisado de inventar um?

Foi, portanto, uma viagem. Através dela, as reflexões maduras andaram a par com os pensamentos de uma música em construção. Margens, tradição e civilização foram laços tecidos entre as diferentes peças, relevando o quanto de artístico, religioso, cultural e político se abriga em cada uma delas. Numa primeira etapa, percebemos a evolução das relações entre o estilo musical europeu e aquele da América do Sul colonizada. Foi tempo de escutar, entre outros, os sublimes “Dime Pedro por tu vida” e “Entre dos álamos verdes”, duas peças extraídos do Codex Zuola, de Cuzco, antiga capital do império Inca, e apreciar o resultado de uma verdadeira mestiçagem cultural. Num segundo momento, vimos como a música, embora com o claro objectivo de transmitir a fé religiosa, persistia nessa mistura de estilos, sendo possível encontrar em Arcangelo Corelli e D. Zipolli, do arquivo de Chiquitos, o muito que os une.

A “crioulização” deu conta da permeabilidade entre a cultura pré-colombiana e a europeia, com um tema como “Lanchas para baylar” (Anónimo, Codex Martinez Compañon, Trujillo) a revelar uma insuspeitada proximidade à passacaglia. Na última etapa, vimos como a música litúrgica se apropria do villancico, de origem profana, nesse afã de converter a população ao Cristianismo. “A la xácara, xacarilla” (J. Gutierrez de Padilla, Maitines de Natividad, Puebla) é disto um delicioso exemplo. Alternando música instrumental com vozes à Capella, coros polifónicos e prédicas recitativas, declamações ou simples apontamentos explicativos de carácter histórico, o Seconda Prat!ca proporcionou uma hora e meia de extraordinária música, no seio de um mundo de uma violência atroz e repleto de contradições. Uma palavra para os instrumentistas, cujos registos notáveis tiveram o condão de nos guiar entre dois mundos tão distintos e, contudo, tão próximos. Mas foi nas vozes das maravilhosas Sofia Pedro e Sophia Patsi, mas também de Emilio Aguilar, João Paixão e Bram Trouwborst que o concerto ganhou asas e se elevou a patamares de excelência. Uma noite inolvidável.

segunda-feira, 17 de março de 2025

CONCERTO: "Baroque Masterpieces"



CONCERTO: “Baroque Masterpieces”
Com | Robert Ehrlich (flauta de bisel), Alexander von Heißen (cravo)
Músico convidado | João Francisco Távora (flauta de bisel)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela do Calvário
16 Mar 2025 | dom | 18:00


A encerrar um fim-de-semana rico e variado em torno da Música Antiga, o CasterAntiqua elevou a fasquia ao ponto mais alto com a proposta de um programa dedicado às obras-primas do período Barroco. Expectativas ao rubro, a Capela do Calvário revelou-se pequena para acolher um vasto público que encontrou no concerto a oportunidade de escutar obras de alguns dos mais consagrados compositores de setecentos, interpretadas por dois músicos de relevo no panorama internacional da música antiga. Robert Ehrlich e Alexander von Heißen são ambos professores na Hochschule für Musik und Theater “Felix Mendelssohn Bartholdy”, em Leipzig, da qual Ehrlich foi reitor durante nove anos. Ambos têm no currículo a conquista de alguns dos maiores prémios em concursos internacionais, um vasto conjunto de digressões por todo o mundo e também a gravação de inúmeras obras como solistas e como membros de ensemble. Para este concerto convidaram João Francisco Távora, mestre em Música Antiga pela referida Escola de Leipzig, na classe do Professor Robert Ehrlich, e um dos directores artísticos do CásterAntiqua.

Foi um concerto de emoções, aquele a que pudemos assistir ao final da tarde de ontem. Emoções fortes, diga-se, desde logo pelo local escolhido para o concerto - um dos mais representativos do nosso património religioso -, sereno pela própria natureza de um espaço de culto, mas de uma enorme carga simbólica pela inquietação e dramatismo do Cristo crucificado e de todas as figuras que o rodeiam, dos soldados que jogam as suas vestes aos dados, a uma mãe também ela em agonia ante a morte eminente do seu filho. De um lado a santidade, do outro a heresia. Um sagrado e um profano contrastantes e cuja presença foi evidente no conjunto de peças musicais escolhidas para o programa deste terceiro dia do Festival, de um mundano e efusivo Händel a abrir, a um Bach profundamente espiritual a fechar. De emoções fortes, ainda, porque trazer para o concerto uma “parada de estrelas”, onde se incluem George Frideric Handel, Jacob van Eyck, Matthew Locke, Arcangelo Corelli e Johann Sebastian Bach, é tudo menos fácil, ainda que o possa parecer. A interpretação das obras-primas destes mestres exige entrega, rigor e um enorme virtuosismo. E foi precisamente aqui que o concerto atingiu os mais altos patamares de excelência, graças à mestria dos intérpretes, à sua técnica exímia, ao seu enorme talento, à sua forte cumplicidade.

A par de uma lição de música de altíssimo nível, “Baroque Masterpieces” foi também uma lição de História. Ciceroneado por Robert Ehrlich, o público bebeu nas suas palavras apaixonadas o sabor da viagem, ao mesmo tempo que se foi cruzando com nomes importantes da história da música, do compositor e flautista francês Jacques-Martin Hotteterre, a Frans Brüggen, maestro neerlandês que devolveu a nobreza de estatuto à flauta de bisel, dando a conhecer ao mundo o seu fascinante repertório da Renascença e do Barroco. A jornada teve início numa Londres pacificada e próspera, onde Handel triunfou graças à genialidade das suas composições, nomeadamente óperas sobre as quais se construiu uma multiplicidade de arranjos e variações. Não tardaríamos a ver a mesma Londres mergulhada em guerras fratricidas e assolada pela peste, disso sendo testemunhas as composições de Matthew Locke. Em Roma, centro do mundo musical à época, deparámo-nos com Arcangelo Corelli, outro dos génios do Barroco, e com a sua maravilhosa Sonata em Lá Maior, Op. 5 No. 9. A viagem terminou em Leipzig, por volta do ano de 1730, no ambiente celestial que só as composições de Bach logram criar. Concluída a primeira parte deste CásterAntiqua, o sentimento é o da maior satisfação, havendo expectativas fundadas de que os quatro últimos dias do Festival serão apoteóticos. Mil bravos!

domingo, 16 de março de 2025

CONCERTO: "Folia Nova"



CONCERTO: “Folia Nova”
Sete Lágrimas
Com | Filipe Faria (voz, viola de mão 4 ordens, bandurra descante, percussão e direcção artística), Sérgio Peixoto (voz e direcção artística), Pedro Castro (flautas), Tiago Matias (guitarra barroca, guitarra romântica e tiorba), João Hasselberg (contrabaixo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Centro de Arte de Ovar
15 Mar 2025 | sab | 21:30


“E toda a gente da cidade foi posta com muita brevidade em danças e folias, com infindas tochas na praça e no Terreiro dos Paços, e por todas as ruas principaes, e tanta gente honrada e nobre, e assi a do povo, que não cabia, nem se viu nunca tanto alvoroço e alegria, e muitos velhos e velhas honradas com sobejo prazer foram juntos cantar e bailar diante de El-Rei e a Rainha, cousa de que suas edades os bem escusavam.”
Garcia de Resende, in Chronica de ‘L Rei D. João II

A folia foi um dos fenómenos mais notáveis da história da música. Com raízes campestres ligadas a rituais de fertilidade, esta melodia musical, que se estende à dança, ao texto e à animação, remonta a finais do século XV e abraça vários públicos, ocorrendo tanto em ajuntamentos populares como nas festas da corte. A página La Folia – A Musical Cathedral, que procede a um inventário de folias, conta cerca de cento e cinquenta compositores que em mais de três séculos conceberam inúmeras variações brilhantes, de Jean Baptiste Lully e Marin Marais, a Corelli, Vivaldi, Bach e Beethoven, ou mesmo Berlioz, Liszt e Rachmaninov. Gil Vicente foi o primeiro autor a mencionar a folia, caracterizando-a, no seu “Auto da Sibila Cassandra”, de 1511, como uma dança de pastores. Já Sebastián de Covarrubias, em pleno reinado dos Filipes, definia-a como “uma certa dança portuguesa, muito barulhenta (…), e é tão grande o ruído e o som tão apressado, que parece estar uns e outros sem juízo”. Apesar deste seu carácter “louco” e da sua raiz popular, a verdade é que a folia conseguiu conquistar a corte, o que concorreu tanto para o seu sucesso como para a sua longevidade.

Nesta sua “Folia Nova”, nome do concerto que preencheu a segunda noite do CásterAntiqua, o Sete Lágrimas voltou a partir do novo para o tempo, levando o público numa viagem pelo vasto território da língua, na sua métrica, ritmos e harmonias. Como se de uma levitação entre mundos se tratasse, esta reinterpretação da Música Antiga resgata a poesia portuguesa e as suas palavras, trazendo-as para o presente em analepses de magia, reinventando-as em novos sons e novas melodias. Filipe Faria e Sérgio Peixoto escrevem os doze novos vilancicos que compõem “Folia Nova” como estações cronográficas da intemporalidade, partindo da “folia” e do seu tradicionalismo harmónico e rítmico para um novo universo conceptual, rico em novas linguagens e diálogos criativos. A música erudita abraça a música popular, o antigo e o contemporâneo dão-se as mãos e é como se a secular diáspora portuguesa dos Descobrimentos e o eixo latino mediterrânico se convertessem em som graças à fiel interpretação dos cânones performativos da Música Antiga e à incorporação de elementos definidores da música tradicional ou do jazz.

O concerto foi, todo ele, um manancial de festa e folia em torno da língua, numa homenagem a alguns dos nossos poetas mais representativos, do já referido Gil Vicente a Pêro de Andrade Caminha, de João Roiz de Castel-Branco a Bernardim Ribeiro e Luis Vaz de Camões. Bernardim Ribeiro de quem se escutou, a abrir o concerto, “Nunca foy mal nenhum moor”, apenas com Filipe Faria em palco e que nos trouxe, na sua voz lindíssima, a certeza de uma noite inesquecível. Todo o restante alinhamento viria a confirmá-lo, a atenção do público presa num apontamento solístico de maior relevância, num verso declamado com graça e engenho, na forma como umas escovas se transformam em instrumentos de percussão ou como o assobio pode ser arte e encanto, ou ainda no som grave do contrabaixo, instrumento estranho à Música Antiga mas que se integra perfeitamente e se revela precioso. Na alma fica a interpretação de “Cantiga sua, partindo-se”, de João Roiz de Castel-Branco e, pela mímica e gestualidade, “Dicem que me case yo”, de Gil Vicente. Também o enérgico e muito belo “El passamezzo antiguo”, de Diego Ortiz, com honras de “encore”, e ainda “Fandango”, escrito e interpretado a solo por Tiago Matias, mais um momento perfeito neste serão magnífico.