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quarta-feira, 4 de março de 2026

CONCERTO: “Telemann: Camaleão” | New Collegium



CONCERTO: “Telemann: Camaleão”
New Collegium
Direcção musical | Cláudio Ribeiro
Com | Inês d’Avena (Flautas de bisel), Sara DeCorso (Violino), Nina Hitz (Violoncelo), Cláudio Ribeiro (Cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela da Misericórdia
01 Mar 2026 | dom | 18:00


No quadro do chamado “gosto misto” que marcou o Barroco germânico, poucos compositores encarnaram tão plenamente o ideal camaleónico quanto Georg Philipp Telemann. Se, em 1730, Johann Sebastian Bach sublinhava a necessidade de os músicos alemães dominarem os estilos italiano e francês, Telemann fez dessa exigência um programa estético ao assimilar a retórica da “ouverture francesa”, a teatralidade concertante italiana, o contraponto germânico e até inflexões polacas, fundindo-os numa linguagem surpreendentemente fluida e vivaz. Escrevendo para formações as mais diversas, o genial compositor demonstrou conhecer por dentro a respiração e a matéria de cada instrumento, explorando-lhes as cores próprias com uma naturalidade que ainda hoje soa moderna. Acrescente-se que a fama de Telemann, imensa em vida, assentou tanto na inventividade como na inteligência editorial, bastando para tal lembrar a publicação periódica “Der getreue Music-Meister”, laboratório de géneros e afectos numa altura em que a música se tocava muito dentro de portas, sem olhar a credos religiosos ou a extractos sociais.

Foi essa paleta, ampla e plena de originalidade e bom gosto, que os neerlandeses do New Collegium trouxeram, ao cair da tarde de domingo, à Capela da Misericórdia de Ovar, encerrando o primeiro de dois fins de semana da segunda edição do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar. Desde o Prélude do 6.º Quatuor (TWV 43:e4), com o seu recorte solene e ritmo pontuado, até à vitalidade concertante da Sonata em Sol maior (TWV 42:G7), foi amplamente reconhecível uma respiração comum entre Inês d’Avena, Sara DeCorso, Nina Hitz e Claudio Ribeiro: emotiva, sensível e comovente ao mesmo tempo. A harmonia, clara, nunca estática, encontrou sustentação num contínuo atento, enquanto o jogo rítmico - alternando a elegância francesa e a impulsividade italiana - se desenhava com precisão coreográfica. No Trio em lá menor (TWV 42:a4), o Largo abriu espaço a um cromatismo insinuante; no Vivace, a escrita fugada ganhou leveza sem perder rigor. Já o Duetto (TWV 40:111), superlativamente interpretado, revelou cumplicidades tímbricas subtis entre a flauta doce e o violino, numa alternância de delicadeza e vivacidade nascidas do gesto partilhado.

O ponto axial do concerto foi a suite construída a partir de “Der getreue Music-Meister”: um mosaico de andamentos - “L’hiver: Gravement - Vîte - Largo - Alla breve - Lento - Pastourelle” - que expôs, como num espelho multifacetado, as metamorfoses camaleónicas do compositor. Aqui, a arquitectura fez-se respiração partilhada: cada número pareceu nascer do anterior por subtil inflexão rítmica ou por desvio harmónico calculado, como se o discurso se reorganizasse continuamente sem perder a unidade. Destaque para a Pastourelle e para a sua claridade campestre, desenhada com elegância tímbrica e articulação nítida, a lançar sobre os presentes um sopro de modernidade. Já no “encore”, o Trio em ré menor, inspirado no folclore da Silésia e durante séculos atribuído a Georg Philipp Telemann, soou como epílogo irónico e quase cúmplice: hoje sabe-se ser Pierre Prowo o seu autor, mas a energia que dele se desprende e os seus contornos modais integraram-se sem fricção no universo apresentado. Como se o camaleão, afinal, pudesse também ser máscara. E a música, mais do que assinatura, uma arte de respiração comum.

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