CONCERTO: “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”
Ensemble Med
Direcção musical | Daniela Tomaz
Com | Daniela Tomaz (flautas, adufe), Joana Godinho (canto), Sérgio Calisto (viola d’amore a chiavi e nyckelharpa), Laurent Safar (percussão)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Bar do Centro de Artes de Ovar
28 Fev 2026 | sab | 21:00
Mais do que um imenso espaço líquido, ao longo de séculos o Mediterrâneo foi praça pública onde mercadores, peregrinos, exércitos e poetas teceram uma rede de trocas que moldou decisivamente a história cultural dos povos que o habitaram. Das rotas que ligavam o Levante às costas atlânticas da Ibéria chegaram especiarias, técnicas, cosmologias e, com elas, palavras que ainda hoje habitam a língua portuguesa, heranças árabes, hebraicas e latinas que sobreviveram às fronteiras políticas e às ortodoxias religiosas. Essa sedimentação fez-se também de música, dos modos melódicos que atravessaram sinagogas, mesquitas e catedrais aos ritmos que acompanharam o labor agrícola e a celebração litúrgica ou às práticas de transmissão oral que resistiram à erosão do tempo. O legado cultural mediterrânico é, por isso, uma corrente viva que continua a renovar-se na tradição. A língua que falamos, os cantares que reconhecemos como nossos, os timbres que associamos ao sagrado ou ao profano são testemunhos dessa convivência antiga, tantas vezes tensa, tantas vezes fecunda, que faz da diversidade um motor criativo. É essa memória partilhada - frágil e resiliente ao mesmo tempo - que programas como “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval” convoca, lembrando-nos que a identidade ibérica se construiu no encontro e na escuta.
No Bar do Centro de Artes de Ovar, essa história ganhou corpo e respiração. O ambiente descontraído, de copo ou chávena na mão, e a proximidade cúmplice entre intérpretes e público, dissolveu qualquer ideia cristalizada de que a música medieval pertence apenas à penumbra das igrejas ou ao fausto dos palácios. O Ensemble Med apresentou um percurso que, do Cancionero Musical del Palacio às melodias sefarditas recolhidas por Isaac Levy, das inflexões do makam turco às Cantigas de Santa Maria, fez do concerto uma verdadeira cartografia sonora. Mesmo nas peças de natureza litúrgica, a pulsação rítmica e a entrega dos músicos foram capazes de imprimir-lhes uma dimensão festiva, quase dançável, como se cada modo antigo escondesse uma chama ainda viva, pronta a reacender-se ao primeiro fôlego. Foi um concerto marcado pelo rigor histórico, mas nunca rígido; houve estudo e pesquisa, mas sobretudo partilha. As percussões insinuaram pontes invisíveis entre margens, as cordas desenharam arabescos de fina filigrana e os sopros coloriram o espaço com uma paleta capaz de evocar mercados, pátios e claustros. A generosidade dos executantes sentiu-se na forma como ofereceram cada frase ao público, num gesto generoso e hospitaleiro que foi espelho da própria matriz mediterrânica do programa.
Entre a pulsação do adufe de Laurent Safar, a sonoridade única das nyckelharpa de Sérgio Calisto e a doçura das flautas de Daniela Tomaz, foi a voz de Joana Godinho que sobressaiu, erguendo-se como um fio de ouro. Capaz de se expandir na energia contagiante do “Coro das Maçadeiras” e logo depois saber recolher-se na intimidade contemplativa de uma “Cantiga de Santa Maria” - onde cada sílaba nos é oferecida como que suspensa numa oração sussurrada -, a cantora demonstrou uma versatilidade rara, aliando clareza tímbrica a uma expressividade intensamente comunicativa e empática. A sua prestação nunca cedeu ao exotismo fácil, antes caminhou, com verdade e firmeza, na senda de um legado onde cristãos, judeus e muçulmanos partilham uma mesma respiração histórica. Também por isso, o concerto foi mais do que uma sucessão de peças de uma longa e intensa jornada entre oriente e ocidente: foi manifesto discreto contra o esquecimento, uma afirmação de que a música antiga deixa de ser antiga quando se torna presente em corpos vivos e vozes que a reinventam. No final, entre aplausos calorosos e sorrisos cúmplices, ficou a sensação de que aquele bar, à semelhança de tantos cafés de outras épocas, foi por momentos ágora efémera, lugar onde a memória colectiva se celebra não como peso, mas como promessa.
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