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terça-feira, 10 de março de 2026

CONCERTO: “L’aura e o Espelho” | Coro CásterAntiqua



CONCERTO: “L’aura e o Espelho”
Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Com | Pedro Martins (alaúde e teorba), Ezekiel Martins (alaúde e guitarra barroca)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Centro de Artes de Ovar
08 Mar 2026 | dom | 16:00


Tal como sucedera com a primeira edição, coube ao Coro CásterAntíqua a responsabilidade de encerrar o Festival de Música Antiga de Ovar, confiando ao momento derradeiro um gesto artístico que foi também um gesto de comunidade. Num programa concebido para assinalar o Dia Internacional da Mulher, vinte e sete vozes reuniram-se em torno de uma ideia tão simples quanto poderosa: cantar o universo feminino através da memória poética do Renascimento europeu. A dramaturgia partiu da figura platónica de Laura, esse nome que em si contém o sopro do amor e da alma - “l’aura”, na língua italiana -, para atravessar séculos de pensamento, poesia e música. Dos madrigais de Maddalena Casulana, “O notte, o ciel” e “Ben venga il pastor mio”, às leituras de poemas ou textos de Joana da Gama, Madre Brígida, Camões e Pessoa, aquilo que se pôde ver e sentir foi uma tessitura delicada onde a palavra e o som se corresponderam mutuamente. Em palco, os instrumentistas Pedro Martins e Ezekiel Martins sustentaram e ampliaram esse universo sonoro, acompanhando o coro e dando vida a interlúdios da própria Casulana, de Alfonso Ferrabosco e autores anónimos, como pequenas clareiras no interior de uma floresta de gestos e vozes. Construído como um percurso simbólico, o espectáculo afirmou-se na ideia de travessia interior onde a voz humana procurou, na herança renascentista, uma forma de dizer o eterno mistério do feminino.

Mas o que de mais belo teve este concerto foi, muito justamente, aquilo que o torna singular: o seu carácter profundamente comunitário. O CásterAntíqua é um coro que nasce da própria cidade, feito de pessoas que pertencem ao tecido vivo de Ovar e que, em muitos casos, se aproximam dele sem que a música tenha sido antes uma prática formal. Aqui, o canto é acima de tudo um espaço de encontro e de descoberta, uma experiência partilhada onde o entusiasmo substitui a especialização e o compromisso nasce da vontade comum de construir algo incomum e muito belo. Os ensaios começaram no início de Janeiro, numa sucessão de momentos dedicados à paciente arquitectura do som, e logo se percebeu que o desafio era gerador de uma onda de entusiasmo contagiante. Quando finalmente subiram ao palco do Centro de Artes de Ovar, os coralistas trouxeram consigo, não apenas as partituras, mas um sentido profundo de responsabilidade colectiva, como se cada voz se soubesse parte indispensável de um organismo grande e vivo. Sob a direcção musical de Jorge Luís Castro, que concebeu também o dispositivo cénico do espectáculo, o concerto ganhou uma dimensão visual subtil: um jogo de luzes e sombras, discretos elementos de dramaturgia, delicados quadros vivos e uma cuidadosa sonoplastia vocal ampliaram o gesto musical sem jamais o sobrecarregar. E, assim, o espectáculo atravessou simbolicamente a noite escura e fria para alcançar, pouco a pouco, a promessa de um dia luminoso.

No final, permaneceu a sensação de que este momento disse algo importante sobre a própria vida cultural do Município de Ovar. O CásterAntíqua vai-se afirmando, passo a passo, como uma presença identitária no panorama artístico da cidade, à semelhança de outras marcas culturais que o tempo consolidou. Há nisso o trabalho silencioso e persistente de uma organização firme e dedicada — liderada por Hélder Sousa e João Francisco Távora — que, com rara generosidade, soube providenciar os meios e o cuidado necessários para que esta segunda edição do Festival se cumprisse de forma rigorosa, privilegiando a necessária serenidade e hospitalidade que a todos envolveu. Mas há também, inevitavelmente, uma dimensão mais íntima neste testemunho. Escreve-o alguém que escuta a música com a devoção do melómano e que, ao mesmo tempo, partilhou o palco como elemento deste coro tão particular. Talvez por isso seja difícil encontrar a distância que uma verdadeira imparcialidade exigiria. Ainda assim, há experiências que pedem para ser fixadas em palavras, não como crítica, mas como gratidão. E este concerto, nascido da voz de uma comunidade, foi precisamente uma dessas raras ocasiões em que a arte pareceu lembrar-nos que cantar juntos continua a ser uma das formas mais belas, justas, humanas e livres de buscar a Luz.

segunda-feira, 9 de março de 2026

CONCERTO: “Bach e o seu legado: Sonatas para traverso” | Duo Suzanne



CONCERTO: “Bach e o seu legado: Sonatas para traverso”
Duo Suzanne
Com | Teresa Costa (traverso), Katerina Orfanoudaki (cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
07 Mar 2026 | sab | 16:00


O acolhedor espaço do Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, cujos aposentos guardam murmúrios literários de um tempo outro, foi palco de um itinerário sonoro que teve como centro gravitacional o mestre supremo do barroco tardio e do contraponto: Johann Sebastian Bach. Em torno do seu génio nasceu e cresceu uma constelação de discípulos e herdeiros que prolongaram a sua linguagem, como se cada um transportasse consigo um fragmento da sua arquitectura musical. Assim aconteceu com Johann Gottfried Müthel, último aluno directo do mestre de Leipzig, cuja escrita permite entrever um horizonte sensível, quase pré-clássico, de uma expressividade capaz de se expandir para além da disciplina contrapontística. Também Johann Philipp Kirnberger, teórico e fiel guardião da tradição bachiana, dedicou a sua vida a sistematizar e preservar o legado do mestre, como quem recolhe num tratado aquilo que primeiro aprendeu pela escuta e pela prática. Entre estes ecos ergue-se ainda a figura singular de Anna Amalie von Preußen, princesa, mecenas e compositora, cuja formação se fez igualmente sob a sombra tutelar de Bach e dos seus discípulos.

Ao encontro deste leque restrito de compositores, o programa apresentado pelo Duo Suzanne, neste que foi o penúltimo concerto da segunda edição do CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar, desenhou uma pequena genealogia sonora, com quatro Sonatas que, como ramos de uma mesma árvore, revelaram a persistência de uma linguagem musical capaz de atravessar gerações, transformando-se sem jamais perder a sua raiz. O concerto foi o culminar de uma residência artística promovida no âmbito do festival, iniciativa que funciona como uma verdadeira marca distintiva ao abrir espaço a jovens formações emergentes através de uma “open call” internacional. Seleccionado entre treze candidaturas, o Duo Suzanne encontrou neste contexto o lugar para amadurecer um programa original, ao mesmo tempo que recebia mentoria de músicos ligados ao festival. O resultado foi o que se ouviu: quatro peças musicais servidas com rigor, imaginação e frescura, atentamente escutadas por um público numeroso que, na intimidade do Museu, soube beber cada compasso com a devoção silenciosa de quem reconhece que a música antiga continua, afinal, intensamente viva.

Ao longo de quase uma hora, o traverso de Teresa Costa desenhou linhas de respiração clara e flexível, deixando cada frase nascer com naturalidade quase orgânica, enquanto o cravo de Katerina Orfanoudaki sustentou e iluminou o discurso com uma elegância rítmica e harmónica de grande delicadeza. Entre ambas estabeleceu-se um diálogo atento, feito de escuta e confiança, o timbre aveludado do traverso entrelaçado na cintilação articulada do cravo. Na cumplicidade musical entre ambas residiu mais do que uma afinidade interpretativa, percebendo-se uma homenagem silenciosa a Suzanne - musa inspiradora que dá nome ao agrupamento - e a tantas outras mulheres cuja voz foi historicamente obscurecida ou apagada. “Suzanne” convoca a memória de Susana, personagem do Livro de Daniel cuja história atravessou séculos de produção artística. A narrativa inspirou músicos e pintores, como na intensa representação de Artemisia Gentileschi, cuja versão de 1610 fixa no olhar de Susana uma angústia que atravessa o tempo. Não é difícil reconhecer, nesse gesto artístico, uma afirmação de resistência feminina contra a violência e a injustiça. Também o Duo Suzanne pareceu dialogar com essa herança simbólica, oferecendo aos presentes um momento musical encantador e legando-lhes uma centelha de esperança num mundo mais justo e melhor.

domingo, 8 de março de 2026

CONCERTO: “De Folias, Chaconas e Fandangos” | Ensemble Allettamento



CONCERTO: “De Folias, Chaconas e Fandangos”
Ensemble Allettamento
Com | Carlos Oramas (teorba e guitarra barroca), Mario Braña (violino), Sergio Suárez (violino), Elsa Pidre (violoncelo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
06 Mar 2026 | sex | 21:00


Os séculos XVII e XVIII herdaram da tradição popular alguns dos seus mais persistentes impulsos rítmicos, transformando-os em matéria de invenção musical de extraordinária riqueza. Entre esses gestos que atravessaram fronteiras sociais e geográficas destacam-se a folia, a chacona e o fandango, três formas que nasceram do movimento do corpo e da celebração colectiva antes de encontrarem lugar nos salões aristocráticas e no imaginário instrumental barroco. A folia, em particular, constitui um dos exemplos mais fascinantes dessa transfiguração cultural. Muito antes de ser esquema harmónico solene, capaz de sustentar sucessivas variações, viveu como dança popular exuberante, associada à energia das festas e a uma certa vertigem coreográfica. Não deixa de ser revelador que, já no início do século XVI, Gil Vicente a mencionasse no seu “Auto da Sibila Cassandra”, testemunhando a presença da “folia” no universo festivo do quotidiano. O mesmo se poderia dizer da chacona ou do fandango, danças de carácter vivo e teatral, profundamente ligadas ao gesto e à pulsação rítmica. Todos estes géneros partilham uma origem comum: o encontro entre música e movimento, entre improvisação e estrutura, entre a espontaneidade das gentes e a sofisticação das linguagens barrocas. Escutá-los hoje é escutar também a memória de um percurso histórico em que a música absorveu, refinou e perpetuou a energia de antigas danças, convertendo-as em verdadeiros laboratórios de expressão.

Foi precisamente esse universo de ressonâncias ibéricas e europeias que o Ensemble Allettamento trouxe, na noite de ontem, à Igreja Matriz de Ovar, no âmbito do CásterAntiqua. O programa desenhou uma viagem através de diferentes geografias sonoras, abrindo com a imaginação instrumental de Giovanni Girolamo Kapsberger, cujas “arpeggiate” e “toccatas” deixaram logo perceber a liberdade inventiva do barroco inicial. Seguiram-se as danças de Andrea Falconieri e o refinamento guitarrístico de Francesco Corbetta, antes de o repertório ibérico ganhar particular evidência nas páginas de Santiago de Murcia e de Gaspar Sanz. Neste último, o tema “Canários e Jácaras” proporcionou um dos momentos mais luminosos da noite, graças ao virtuosismo e à expressividade de Carlos Oramas, cuja interpretação fez cintilar cada gesto rítmico com naturalidade contagiante. Merece também destaque a inclusão no programa do compositor português Pedro Lopes Nogueira, presença preciosa que recorda como estas danças e esquemas harmónicos se disseminavam entre culturas e repertórios, revelando a vitalidade das trocas musicais na Península. O percurso culminou com páginas de Antonio Vivaldi, entre as quais o Concerto em Ré maior RV 93 e, sobretudo, a célebre Sonata Op. 1 n.º 12 “La Follia”, interpretada com entusiasmo e grande cumplicidade entre os músicos, cujos instrumentos dialogaram em permanência, num tecido de harmonias ricas, feito de graça e luminosidade. Já no encore, o ensemble ofereceu ainda uma delicada chacona de Arcangelo Corelli, extraída da Sonata Op. 2 n.º 12, encerrando o concerto com um gesto de elegância serena.

A atmosfera da Igreja Matriz de Ovar contribuiu decisivamente para a intensidade desta experiência musical. Marcado pela solenidade das suas proporções e pela generosa ressonância acústica, o espaço acolheu o público num silêncio quase reverencial, desses silêncios que antecedem a música como quem prepara o espírito para a escuta. Ao longo do concerto, foi possível ler nos rostos atentos uma mistura de concentração e alegria, como se cada nova dança abrisse uma pequena janela sobre o passado e sobre a vitalidade expressiva do barroco. A qualidade do Ensemble Allettamento revelou-se nessa cumplicidade artística: os dois violinos e o violoncelo formaram a base de um tecido sonoro flexível e vibrante, sustentando com elegância a arquitectura musical de cada peça. No centro desse diálogo destacou-se Carlos Oramas, cuja presença como solista fez brilhar as cordas da teorba e da guitarra barroca com uma expressividade rara. O seu toque, simultaneamente preciso e imaginativo, desenhou linhas de grande delicadeza sobre o manto sonoro do conjunto, equilibrando virtuosismo e subtileza. Quando as últimas notas se dissiparam no ar, permaneceu a sensação de que aquelas antigas folias, chaconas e fandangos tinham cumprido novamente a sua vocação primordial, a de reunir intérpretes e ouvintes numa mesma alegria partilhada, levando a beleza da música ao encontro do seu eco mais humano.

sábado, 7 de março de 2026

CONCERTO: “No Salão de Bach” | William Carter



CONCERTO: “No Salão de Bach”
Com | William Carter (alaúde)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela do Calvário
05 Mar 2026 | qui | 21:00


No arranque da segunda metade do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, a organização elegeu o ambiente intimista e de recolhimento da Capela do Calvário para a apresentação a solo do consagrado alaudista norte-americano William Carter. Depois de aqui termos escutado, no ano passado, um conjunto de obras-primas do Barroco na flauta de bisel de Robert Ehrlich e no cravo de Alexander von Heißen, este foi um retomar da viagem a um dos mais fascinantes períodos da história da música, tendo sido possível apreciar o quanto de subtileza, graça, harmonia e beleza a música pode conter quando devolvida em acordes de rara mestria e virtuosismo. Tornada espaço de afinidades electivas e de emoções contidas, a Capela do Calvário foi palco privilegiado de evocação de um tempo em que os acordes reverberaram na intimidade dos salões, alimentando uma respiração comum entre William Carter e todos aqueles que tiveram o privilégio de o escutar. Instrumento de murmúrios e sombras luminosas, o alaúde foi a voz de uma conversa que atravessou séculos, oferecendo-se com a naturalidade de quem fala com fluência uma língua antiga, feita de madeira, cordas e silêncio.

O programa já insinuava a ideia de reinvenção, a música como matéria viva capaz de se reimaginar e de voltar ao convívio do público sempre livre e renovada. Foi isto que pudemos apreciar “no salão musical de Bach”, uma viagem que teve o seu início muito antes de Bach e que se prolongou para além dele, como se o compositor alemão surgisse no centro de uma constelação de mestres do alaúde. Nesta fascinante viagem, foi a arquitectura sonora do compositor que se impôs como pedra de toque. Para quem raramente escreveu a pensar nas limitações do intérprete, antes imaginou uma música que fosse além das fronteiras naturais dos instrumentos, Bach soube, como ninguém, transportar para o alaúde obras originalmente concebidas para violino ou violoncelo, criando verdadeiras transmutações sonoras que trouxeram uma nova vida musical a um vasto conjunto de peças. Foi nesse território que William Carter se moveu com rara elegância. O seu toque, de uma serenidade quase contemplativa, fez sobressair a continuidade melódica e a subtileza das danças escondidas na escrita bachiana, da leveza de um Adágio à tensão de uma Fuga ou à vertigem de um Presto.

As páginas de Esaias Reusner franquearam as portas do salão com a elegância austera do século XVII, prelúdios e pavanas a ensaiarem a respiração de uma dança processional lenta, solene e majestosa. A música de Sylvius Leopold Weiss trouxe ao programa a plenitude do instrumento, espalhando acordes, ora meditativos, ora cintilantes, capazes de reverberações medievalistas num universo de dança e fantasia. Mais atrás no tempo, o repertório de Ennemond Gaultier evocou a delicadeza francesa do alaúde barroco, cada acorde desenhado com o sentido de suspender o tempo. A pouco conhecida “La Cascade”, uma “chaconne” alegre e plena de lirismo no seu desígnio de mostrar até que ponto definhamos sem um pouco de música (e de vinho), foi um momento de felicidade suprema conduzido por William Carter de forma intensa, entusiástica e sensível. E assim o concerto terminou tal como começara, envolto numa atmosfera encantatória, onde cada nota pareceu suspensa no ar por instantes mais longos do que o tempo. No dedilhar subtil do alaúde, nada pareceu demonstrativo em William Carter; tudo soou simples, fluido, inevitável. E a música, simplesmente, aconteceu.

terça-feira, 3 de março de 2026

CONCERTO: “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval” | Ensemble Med



CONCERTO: “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”
Ensemble Med
Direcção musical | Daniela Tomaz
Com | Daniela Tomaz (flautas, adufe), Joana Godinho (canto), Sérgio Calisto (viola d’amore a chiavi e nyckelharpa), Laurent Safar (percussão)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Bar do Centro de Artes de Ovar
28 Fev 2026 | sab | 21:00


Mais do que um imenso espaço líquido, ao longo de séculos o Mediterrâneo foi praça pública onde mercadores, peregrinos, exércitos e poetas teceram uma rede de trocas que moldou decisivamente a história cultural dos povos que o habitaram. Das rotas que ligavam o Levante às costas atlânticas da Ibéria chegaram especiarias, técnicas, cosmologias e, com elas, palavras que ainda hoje habitam a língua portuguesa, heranças árabes, hebraicas e latinas que sobreviveram às fronteiras políticas e às ortodoxias religiosas. Essa sedimentação fez-se também de música, dos modos melódicos que atravessaram sinagogas, mesquitas e catedrais aos ritmos que acompanharam o labor agrícola e a celebração litúrgica ou às práticas de transmissão oral que resistiram à erosão do tempo. O legado cultural mediterrânico é, por isso, uma corrente viva que continua a renovar-se na tradição. A língua que falamos, os cantares que reconhecemos como nossos, os timbres que associamos ao sagrado ou ao profano são testemunhos dessa convivência antiga, tantas vezes tensa, tantas vezes fecunda, que faz da diversidade um motor criativo. É essa memória partilhada - frágil e resiliente ao mesmo tempo - que programas como “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval” convocam, lembrando-nos que a identidade ibérica se construiu no encontro e na escuta.

No Bar do Centro de Artes de Ovar, essa história ganhou corpo e respiração. O ambiente descontraído, de copo ou chávena na mão, e a proximidade cúmplice entre intérpretes e público, dissolveu qualquer ideia cristalizada de que a música medieval pertence apenas à penumbra das igrejas ou ao fausto dos palácios. O Ensemble Med apresentou um percurso que, do Cancionero Musical del Palacio às melodias sefarditas recolhidas por Isaac Levy, das inflexões do makam turco às Cantigas de Santa Maria, fez do concerto uma verdadeira cartografia sonora. Mesmo nas peças de natureza litúrgica, a pulsação rítmica e a entrega dos músicos foram capazes de imprimir-lhes uma dimensão festiva, quase dançável, como se cada modo antigo escondesse uma chama ainda viva, pronta a reacender-se ao primeiro fôlego. Foi um concerto marcado pelo rigor histórico, mas nunca rígido; houve estudo e pesquisa, mas sobretudo partilha. As percussões insinuaram pontes invisíveis entre margens, as cordas desenharam arabescos de fina filigrana e os sopros coloriram o espaço com uma paleta capaz de evocar mercados, pátios e claustros. A generosidade dos executantes sentiu-se na forma como ofereceram cada frase ao público, num gesto franco e hospitaleiro que foi espelho da própria matriz mediterrânica do programa.

Entre a pulsação do adufe de Laurent Safar, a sonoridade única das nyckelharpa de Sérgio Calisto e a doçura das flautas de Daniela Tomaz, foi  a voz de Joana Godinho que sobressaiu, erguendo-se como um fio de ouro. Capaz de se expandir na energia contagiante do “Coro das Maçadeiras” e logo depois saber recolher-se na intimidade contemplativa de uma “Cantiga de Santa Maria” - onde cada sílaba nos é oferecida como que suspensa numa oração sussurrada -, a cantora demonstrou uma versatilidade rara, aliando clareza tímbrica a uma expressividade intensamente comunicativa e empática. A sua prestação nunca cedeu ao exotismo fácil, antes caminhou, com verdade e firmeza, na senda de um legado onde cristãos, judeus e muçulmanos partilham uma mesma respiração histórica. Também por isso, o concerto foi mais do que uma sucessão de peças de uma longa e intensa jornada entre oriente e ocidente: foi manifesto discreto contra o esquecimento, uma afirmação de que a música antiga deixa de ser antiga quando se torna presente em corpos vivos e vozes que a reinventam. No final, entre aplausos calorosos e sorrisos cúmplices, ficou a sensação de que aquele bar, à semelhança de tantos cafés de outras épocas, foi por momentos ágora efémera, lugar onde a memória colectiva se celebra não como peso, mas como promessa.

segunda-feira, 2 de março de 2026

CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann” | Musurgia Ensemble



CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann”
Musurgia Ensemble 
Direcção musical | João Francisco Távora
Com | João Francisco Távora (Flauta de Bisel), Marta Gonçalves (Traverso), Xurxo Varela (Viola da Gamba), Rodolfo Richter (Violino I), Sergio Suárez (Violino II), Mário Braña (Viola), Marta Jiménez Ramírez (Violoncelo), Hélder Sousa (Cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
27 Fev 2026 | sex | 21:00


Na Leipzig do segundo quartel do século XVIII, a música habitava profusamente igrejas e palácios, mas era igualmente possível escutar a sua respiração no burburinho do Café Zimmermann, no coração da elegante Katharinenstrasse, graças à paixão pela música do dono do Café, o senhor Gottfried Zimmermann. Imaginemo-nos a franquear a porta desse edifício barroco e a sorver o aroma do café acabadinho de torrar, enquanto olhamos em volta e percebemos o rumor expectante de uma burguesia letrada. As mesas alinham-se sob a luz de velas vacilantes, enquanto damas e cavalheiros se acomodam para escutar o Collegium Musicum, dirigido por Johann Sebastian Bach ou, antes dele, pelo seu fundador, Georg Philipp Telemann. Os jovens intérpretes afinam os seus instrumentos, trocam olhares cúmplices. Um cravo ensaia discretamente uma cadência e dá-se início ao concerto: uma abertura solene, talvez uma suite francesa, seguida de um diálogo vibrante de cordas e sopros e de uma ária secular insinuando ironias mundanas. Entre goles de café e apartes sussurrados, a cidade aprende a ouvir-se a si mesma. Não há bilhete a pagar, apenas a promessa de duas horas de invenção sonora, sustentadas pela hospitalidade do anfitrião e pela curiosidade de um público que ali encontra, simultaneamente, entretenimento e elevação.

Mais do que uma recriação, foi a evocação dessa memória que o Musurgia Ensemble chamou à Igreja Matriz de Ovar, na abertura da segunda edição do CásterAntiqua. O “desconcerto” inicial na proposta implícita a que o público se reposicionasse como se de um café setecentista se tratasse não foi mero artifício cénico. Foi, isso sim, um convite a abraçar, com outra disposição do corpo e do espírito, uma música com tanto de presença como de pertença. Inteligentemente urdido, o programa poderia muito bem ter ecoado no próprio Café Zimmermann há três séculos, de tal forma as peças escolhidas são das mais representativas do barroco tardio. A Suite em Si bemol Maior, op. 1 nº3, de Johann Caspar Ferdinand Fischer abriu espaço à elegância coreográfica das danças francesas; os concertos em Lá menor TWV 52:a1 e Mi menor TWV 52:e1, de Telemann, desenharam contrastes de afectos; e as sinfonias e páginas orquestrais de Bach - da BWV 175 à BWV 150, do Oratório da Páscoa BWV 249/2 à Suite Orquestral nº 3 BWV 1068 - transfiguraram a densidade teológica em gesto instrumental. Na nave ampla do templo vareiro, a acústica expandiu o que outrora teria sido intimidade de salão, sem trair nunca o espírito de partilha tão característico das mais brilhantes academias musicais setecentistas.

A qualidade do concerto confirmou o Musurgia Ensemble como guardião atento e criativo da música antiga. Fundado em 2020 por João Francisco Távora e Hélder Sousa, o agrupamento alia investigação e prática historicamente informada a uma pulsação viva, comprometida e revigorada, nunca museológica. O cuidado com a harmonia revelou-se na clareza das vozes intermédias. O ritmo, firme mas elástico, sustentou as danças sem rigidez, os diálogos instrumentais a surgirem como conversas inteligentes, feitas de animados momentos de pergunta e resposta. Particularmente memorável foi o encontro tímbrico entre a flauta de bisel de João Francisco Távora e o traverso de Marta Gonçalves: dois sopros, duas cores, duas respirações que se entrelaçaram com naturalidade, ora em contraste, ora em fusão luminosa. Houve momentos em que o som pareceu suspender o tempo, deixando-se surpreender num Largo em suspenso ou numa Gavotte de sorriso discreto e graça plena. Nesse equilíbrio entre rigor e imaginação, o Musurgia Ensemble mostrou-se hábil no seu compromisso com o passado, tornando-o presente, pulsante e necessário. Um extraordinário concerto de abertura do Festival, a fazer adivinhar dois fins de semana que se afiguram memoráveis.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar



CERTAME: CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Musurgia Ensemble, Ensemble Med, New Collegium, William Carter, Ensemble Allettamento, Duo Suzanne e Coro CásterAntiqua
Direcção artística | João Francisco Távora, Hélder Sousa
Igreja Matriz, Bar do Centro de Artes de Ovar, Capela da Misericórdia, Capela do Calvário, Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense, Centro de Artes de Ovar
27 e 28 de Fevereiro, 01, 05, 06, 07 e 08 de Março de 2026 


Arranca hoje a segunda edição do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, pelo que importa espreitar um programa que, ao longo das próximas duas semanas, promete fazer voltar a atenção dos melómanos para o fascinante mundo da música dos séculos XVI, XVII e XVIII. Como um rio subterrâneo que regressa à superfície, a música antiga reencontra abrigo em alguns dos mais emblemáticos lugares do património ovarense, convocando histórias de sonho e magia e memórias que não cessam de vibrar. Apresentado ao público no passado dia 20 de Fevereiro, o Festival traz com ele uma renovada promessa de qualidade e variedade, cruzando artistas e agrupamentos nacionais como o Musurgia Ensemble e o Ensemble Med, com os neerlandeses do New Collegium ou os espanhóis do Ensemble Allettamento, entre outros. Numa cidade comprometida com o sopro da história e aberta à respiração funda dos instrumentos de antanho, o público vai poder fazer de cada concerto uma travessia, de cada espaço um eco ampliado do tempo. E, tal como sucedeu na primeira edição do CásterAntiqua, vai poder fruir da música antiga não como peça de museu, mas como chama viva que ilumina o nosso próprio tempo, interrogando-o e completando-o.

Como quem franqueia uma porta há muito fechada, o Festival tem o seu início na Igreja Matriz com “Um Outro Café Zimmermann”, pelo Musurgia Ensemble. Sediado em Ovar, o agrupamento promete recriar o fervor musical da Leipzig setecentista, onde pairam, cúmplices, sobre a partilha sonora, os espíritos de Georg Philipp Telemann e de Johann Sebastian Bach. No sábado à noite o Bar do Centro de Artes de Ovar acolhe um “Diálogo Interculturas no Mediterrâneo Medieval”, evocando a confluência das religiões cristã, judaica e árabe, numa geografia onde a música é ponte e memória. O fim de semana termina na Capela da Misericórdia, ao final da tarde de domingo, com o concerto do New Collegium a dar a ver um Telemann camaleónico, de múltiplas máscaras e afectos. Entrando na segunda semana do Festival, o consagrado alaudista britânico William Carter convida-nos a imaginar um serão íntimo “no salão musical de Bach”, a prometer transformar a Capela do Calvário num espaço de intimidade e confidência. Será na quinta-feira, dia 05 de Março, pelas 21h00.

Na sexta-feira o Festival regressa à Igreja Matriz com as cordas dedilhadas do Ensemble Allettamento a conduzirem os presentes por “Folias, Chaconas e Fandangos”, danças que se espalharam por praças e palácios, moldando-se ao engenho de compositores que souberam fazer do ostinato uma arte de infinita metamorfose. Mas o CásterAntiqua não é apenas evocação: é também criação e promessa. A residência artística acolhida no Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense, atribuída por concurso internacional, dará palco, na tarde de sábado, ao Duo Suzanne, um jovem agrupamento emergente disposto a revelar-se entre a experiência e a ousadia. Também a comunidade encontra o seu lugar neste desígnio, o Coro CásterAntiqua, as sessões educativas e as visitas guiadas ao património a convergirem para que a música antiga não seja relíquia, mas pertença.

Ao Coro CásterAntiqua, sob a direcção do maestro Jorge Luís Castro, caberá a responsabilidade de encerrar o Festival, chamando ao Centro de Arte de Ovar, pelas 16h00 de domingo, Dia Internacional da Mulher, a música da compositora italiana Maddalena Casulana e várias outras vozes femininas que a História, por desatenção ou preconceito, deixou na penumbra. Fruto de dois meses de trabalho com a comunidade ovarense, o alinhamento do concerto irá estender-se entre madrigais e palavras, no que pode ser visto como uma homenagem, mas também uma reparação simbólica, devolvendo luz à criação feminina no Renascimento europeu e convidando o público a escutar com outros ouvidos, quiçá mais atentos e mais justos, alguns exemplares notáveis de uma realidade escondida. Assim se cumpre o desígnio maior desta segunda edição do CásterAntiqua: fazer do passado um horizonte habitável, onde tradição e contemporaneidade prometem entrelaçar-se num mesmo fôlego. Não se tratará apenas de revisitar repertórios antigos, mas de os reinscrever na vida presente da cidade, fazendo de cada igreja, de cada museu, de cada sala um lugar de encontro e comunhão, de dádiva e partilha.