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segunda-feira, 2 de março de 2026

CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann” | Musurgia Ensemble



CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann”
Musurgia Ensemble 
Direcção musical | João Francisco Távora
Com | João Francisco Távora (Flauta de Bisel), Marta Gonçalves (Traverso), Xurxo Varela (Viola da Gamba), Rodolfo Richter (Violino I), Sergio Suárez (Violino II), Mário Braña (Viola), Marta Jiménez Ramírez (Violoncelo), Hélder Sousa (Cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
27 Fev 2026 | sex | 21:00


Na Leipzig do segundo quartel do século XVIII, a música habitava profusamente igrejas e palácios, mas era igualmente possível escutar a sua respiração no burburinho do Café Zimmermann, no coração da elegante Katharinenstrasse, graças à paixão pela música do dono do Café, o senhor Gottfried Zimmermann. Imaginemo-nos a franquear a porta desse edifício barroco e a sorver o aroma do café acabadinho de torrar, enquanto olhamos em volta e percebemos o rumor expectante de uma burguesia letrada. As mesas alinham-se sob a luz de velas vacilantes, enquanto damas e cavalheiros se acomodam para escutar o Collegium Musicum, dirigido por Johann Sebastian Bach ou, antes dele, pelo seu fundador, Georg Philipp Telemann. Os jovens intérpretes afinam os seus instrumentos, trocam olhares cúmplices. Um cravo ensaia discretamente uma cadência e dá-se início ao concerto: uma abertura solene, talvez uma suite francesa, seguida de um diálogo vibrante de cordas e sopros e de uma ária secular insinuando ironias mundanas. Entre goles de café e apartes sussurrados, a cidade aprende a ouvir-se a si mesma. Não há bilhete a pagar, apenas a promessa de duas horas de invenção sonora, sustentadas pela hospitalidade do anfitrião e pela curiosidade de um público que ali encontra, simultaneamente, entretenimento e elevação.

Mais do que uma recriação, foi a evocação dessa memória que o Musurgia Ensemble chamou à Igreja Matriz de Ovar, na abertura da segunda edição do CásterAntiqua. O “desconcerto” inicial na proposta implícita a que o público se reposicionasse como se de um café setecentista se tratasse não foi mero artifício cénico. Foi, isso sim, um convite a abraçar, com outra disposição do corpo e do espírito, uma música com tanto de presença como de pertença. Inteligentemente urdido, o programa poderia muito bem ter ecoado no próprio Café Zimmermann há três séculos, de tal forma as peças escolhidas são das mais representativas do barroco tardio. A Suite em Si bemol Maior, op. 1 nº3, de Johann Caspar Ferdinand Fischer abriu espaço à elegância coreográfica das danças francesas; os concertos em Lá menor TWV 52:a1 e Mi menor TWV 52:e1, de Telemann, desenharam contrastes de afectos; e as sinfonias e páginas orquestrais de Bach - da BWV 175 à BWV 150, do Oratório da Páscoa BWV 249/2 à Suite Orquestral nº 3 BWV 1068 - transfiguraram a densidade teológica em gesto instrumental. Na nave ampla do templo vareiro, a acústica expandiu o que outrora teria sido intimidade de salão, sem trair nunca o espírito de partilha tão característico das mais brilhantes academias musicais setecentistas.

A qualidade do concerto confirmou o Musurgia Ensemble como guardião atento e criativo da música antiga. Fundado em 2020 por João Francisco Távora e Hélder Sousa, o agrupamento alia investigação e prática historicamente informada a uma pulsação viva, comprometida e revigorada, nunca museológica. O cuidado com a harmonia revelou-se na clareza das vozes intermédias. O ritmo, firme mas elástico, sustentou as danças sem rigidez, os diálogos instrumentais a surgirem como conversas inteligentes, feitas de animados momentos de pergunta e resposta. Particularmente memorável foi o encontro tímbrico entre a flauta de bisel de João Francisco Távora e o traverso de Marta Gonçalves: dois sopros, duas cores, duas respirações que se entrelaçaram com naturalidade, ora em contraste, ora em fusão luminosa. Houve momentos em que o som pareceu suspender o tempo, deixando-se surpreender num Largo em suspenso ou numa Gavotte de sorriso discreto e graça plena. Nesse equilíbrio entre rigor e imaginação, o Musurgia Ensemble mostrou-se hábil no seu compromisso com o passado, tornando-o presente, pulsante e necessário. Um extraordinário concerto de abertura do Festival, a fazer adivinhar dois fins de semana que se afiguram memoráveis.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

CONCERTO: “Iste Confessor Domini – Música franco-flamenga e portuguesa do séc. XVI”



CONCERTO: “Iste Confessor Domini – Música franco-flamenga e portuguesa do séc. XVI”
Musurgia Ensemble
Direcção musical | João Francisco Távora
Com | António Godinho (flauta de bisel), Emma Reynaud (flauta de bisel), João Francisco Távora (flauta de bisel), Robert Ehrlich (flauta de bisel), Sofia Pedro (soprano), Luís Toscano (tenor)
Apresentação | Ana Isabel Nistal Freijo
Maio do Azulejo 2025
Igreja Matriz de Válega
17 Mai 2025 | sab | 18h00


“Unha lingua é máis ca unha obra de arte; é matriz inesgotábel de obras de arte”.
Castelao

Antes de falar do extraordinário momento que foi “Iste Confessor Domini” e do olhar que o Musurgia Ensemble abriu sobre a música franco-flamenga e portuguesa do século XVI, falarei de um projecto que merece a minha admiração e ao qual este concerto, ainda que programado no âmbito do Maio do Azulejo, se encontra intimamente ligado. Falo de “Inovar as Letras”, residência artística de Ana Isabel Nistal Freijo que tem como sede e laboratório de criação o Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense. É a partir do mais representativo símbolo literário da cidade que a investigadora, natural da Galiza e a residir entre nós, se propõe abordar, de forma inovadora, o sonoro e o musical na literatura portuguesa, ao mesmo tempo contribuindo para a promoção da imagem de Ovar como cidade criativa. O amor às letras e à língua portuguesa e a sua experiência pedagógica nos campos da estética e da hermenêutica, fazem de Ana Freijo a pessoa certa no lugar certo, para júbilo maior daqueles que se mostram dispostos a abraçar uma agenda rica de propostas e conteúdos e que se prolongará no tempo até finais de Março do próximo ano.

O projecto “Inovar as Letras” foi apresentado na tarde de domingo na acolhedora sala do Museu Júlio Dinis, o mesmo lugar que nos dias anteriores recebera os músicos numa residência artística desenvolvida pelo Musurgia Ensemble, sob a orientação de João Francisco Távora. Este facto deixa clara a ligação entre dois momentos de enorme significado e alcance, com cinco dos sete elementos envolvidos no concerto a marcarem presença no dia seguinte e a oferecerem, no decurso da apresentação do projecto, um momento musical que a todos encantou. Olhemos, enfim, para o concerto de sábado, não sem antes admirarmos a beleza do interior da Igreja Matriz de Válega e a riqueza azulejar que encerra, propiciadores das condições ideais para a fruição de uma música de cariz litúrgico. Este concerto foi o culminar do trabalho de investigação do manuscrito P-Cug MM 2, do século XVI, repositório de onze Missas dos mais prestigiados compositores franco-flamengos da época e de um Credo - na verdade incompleto e de autor desconhecido - que podemos encontrar na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

Parte integrante do manuscrito referido, a Missa “Iste Confessor Domini” presidiu ao programa do concerto, o qual incluiu também um conjunto de três peças instrumentais de compositores portugueses e franco-flamengos do mesmo período: “Verso do 4.º Tom”, de Heliodoro de Paiva, “Ricercar 6”, de Jacques Buus, e “Tento do 2.º Tom”, de António Carreira. Dividido em duas partes, o concerto foi apresentado por Ana Freijo, com o intuito de contextualizar o trabalho artístico e laboratorial em causa. A investigadora começou por destacar um repertório representativo do que de melhor se pode achar no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, mas também o facto de estarmos perante um consorte de flautas, todas elas réplicas de instrumentos do século XVI, período a que se reportam as composições seleccionadas. A escuta dos diferentes tons de cada uma das flautas e uma leitura do conteúdo da Missa por Sofia Pedro predispuseram o público para os dois momentos - o “Kyrie” e o “Gloria” - que abriram o concerto e se revelaram preciosos, tanto pela limpidez de vozes dos solistas quanto pela graça e requinte do consorte de flautas. Intrometendo-se entre dois instrumentais, o Credo foi um momento sublime, a harmonia das vozes e das flautas a elevarem o concerto a um patamar de qualidade ímpar.

A dar início à segunda metade do concerto, Ana Freijo falou das peças instrumentais e de que forma as podemos encontrar nos respectivos manuscritos, por vezes reescritas, ainda que com algumas discrepâncias. São vários os ensinamentos que se podem retirar destes factos, desde logo a função didáctica dos manuscritos, um conjunto de peças não sujeitas a uma interpretação rígida, tal como os instrumentos utilizados que poderiam ser outros. Estamos, pois, perante um repertório aberto em todos os sentidos, ao contrário da ideia comum de que uma peça só tem uma forma de ser interpretada. Daí que o programa seja uma proposta de interpretação e não uma recriação exacta de como seria esta música tocada no Mosteiro de Santa Cruz em pleno século XVI. “É sempre bom termos consciência que os próprios músicos do século XVI tinham esta flexibilidade perante o repertório”, concluiu Ana Freijo. Passando à música, a segunda parte teve no Sanctus, da Missa “Iste Confessor Domini” novo momento alto, com Sofia Pedro a impressionar pela beleza de timbre e afinação irrepreensível, enquanto Luís Toscano evidenciava uma superior dinâmica de interpretação. A terminar, o “Agnus Dei” foi a coroa de glória de um concerto marcado pela profunda entrega interpretativa de todos os elementos sem excepção e de um som limpo, harmonioso e muito belo.

segunda-feira, 24 de março de 2025

CONCERTO: "Divinas Perlinas" | Musurgia Ensemble & Coro CásterAntiqua



CONCERTO: “Divinas Perlinas”
Musurgia Ensemble & Coro CásterAntiqua
Direcção musical | Jorge Luís Castro
Apresentação | Ana Isabel Nistal Freijo
Com | João Francisco Távora (flauta de bisel e direção artística), Pedro Martins (guitarra barroca), Helder Sousa (cravo e direção artística)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela de Santo António
23 Mar 2025 | dom | 16:00


“Que idade
tem o rio?
Sua infância flui sempre menimesma
sua voz permanece azul,
água aberta, alçapão por onde o tempo perde a voz
e o imenso se faz imerso.”
Mia Couto, in “Raíz de Orvalho e Outros Poemas”

Um sonho cuja matéria se confunde com as águas de um rio. Uma vontade antiga que retira do Cáster a sua imagem e o seu modelo. Assim foi pensado e gerado o CásterAntiqua, assim viu a luz do dia o primeiro Festival de Música Antiga de Ovar. Com um programa distribuído por actividades formativas, visitas guiadas ao património religioso de Ovar, sete concertos em outros tantos dias e o trabalho comunitário que redundou na criação do Coro CásterAntiqua, o Festival revelou-se uma extraordinária surpresa, tanto pela variedade e qualidade das propostas, quanto pelo próprio desenho, a sua atenção ao detalhe, o seu empenho na criação de novos públicos através da beleza e riqueza do universo da Música Antiga. Está de parabéns o Musurgia - Associação Cultural e, muito em particular, Hélder Sousa e João Francisco Távora, directores artísticos do Festival, pela forma como souberam conduzir esta viagem de celebração da Música Antiga. Parabéns extensivos a toda a equipa que com eles colaborou e à Câmara Municipal de Ovar, parceira nesta aventura inicial e, estou certo, nas edições que se seguirão, certos do potencial da iniciativa e da sua inequívoca qualidade e excelência.

Mas é do Coro CásterAntiqua que gostaria de falar, já que foi com ele e com o Musurgia Ensemble que chegou ao fim o CásterAntiqua, num concerto intitulado “Divinas Perlinas” e que teve lugar na tarde de ontem, na sobrelotada Capela de Santo António. Foi o culminar de um trabalho desenvolvido no Museu Escolar Oliveira Lopes e que, ao longo de quatro sessões de três horas cada, reuniu cerca de três dezenas de elementos. Sob a orientação de Jorge Luís Castro, os coralistas mergulharam nos vilancicos devocionais de Gaspar Fernandes, dando-lhes vida através de uma rica e harmoniosa combinação de vozes. Abro aqui uma nota de carácter pessoal para referir, enquanto membro do coro, que se tratou de uma experiência fantástica, em primeiro lugar pela entrega e entusiasmo, paciência infinita e enorme conhecimento de Jorge Luís Castro, elevando o coro a patamares de grande qualidade. Mas também pelos momentos de cumplicidade e partilha com os demais companheiros de aventura, todos eles conhecedores, empenhados, dedicados e possuidores de vozes maravilhosas, e cujas contribuições foram determinantes para o bem sucedido resultado final.

Com as atenções viradas para Gaspar Fernandes, compositor português (?) activo na Guatemala e no México entre os finais do século XVI e primeiro quartel do século XVII, o programa integrou ainda peças de um conjunto de outros compositores, nomeadamente Diego Ortiz, Giovanni Paolo Cima e Andrea Falconiero. A viagem entre as duas margens do Atlântico fez-se, desta vez, ao sabor da língua: De um lado o português, o castelhano e o biscayno; do outro o mestiço, o índio e o Nahuatl (idioma asteca à época da conquista espanhola e falado ainda hoje por cerca de um milhão e meio de pessoas na região central do México). Com a parte instrumental a cargo de João Francisco Távora, Hélder Sousa e Pedro Martins, o concerto teve no coro o seu elemento de maior relevância, ficando demonstrado o poder alquímico de Jorge Luís Castro em juntar vozes e fazer magia. A ele se deveu a confiança e disponibilidade evidenciada pelos coralistas em “Negrinho tiray vos”, “As divinas perlinas” e “Mi niño dulce y sagrado”, peças de enorme riqueza melódica e rítmica e de uma harmonia sublime que tanto encantaram o público. Caído o pano sobre o evento, ficam momentos únicos de fruição da boa música e uma enorme vontade de podermos assistir à concretização de uma nova edição, já em 2026. As coisas boas não se podem perder e esta é daquelas coisas realmente muito boas.

sábado, 22 de março de 2025

CONCERTO: “Ad Vesperas - Música para as Vésperas do Corpus Christi” | Musurgia Ensemble & Quarto Tom Ensemble



CONCERTO: “Ad Vesperas - Música para as Vésperas do Corpus Christi”
Musurgia Ensemble & Quarto Tom Ensemble
Musurgia Ensemble | João Francisco Távora (flauta de bisel e direcção artística), Silvia Cortini (flauta de bisel), Xurxo Varela (viola da gamba), Francisco Luengo (viola da gamba), Hélder Sousa (órgão e direcção artística)
Quarto Tom Ensemble | Eva Braga Simões (tiple), Gabriela Braga Simões (alto), Luís Toscano (tenor), Nuno Mendes (baixo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
21 Mar 2025 | sex | 21:30


Corpus Christi ou Corpo de Deus é o nome dado à solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, a qual é celebrada pela Igreja sessenta dias após a Páscoa, na quinta-feira que se segue à Solenidade da Santíssima Trindade. A sua celebração pretende sublinhar a centralidade da Eucaristia na vida cristã, ou seja, “a doação que Jesus Cristo faz de si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem”. Instituída pelo Papa Urbano IV, em 1264, pretendeu pôr cobro às heresias que colocavam em causa a presença do Cristo verdadeiro na Eucaristia, mas também responder ao movimento de devoção ao Santíssimo Sacramento que vinha a intensificar-se na prática dos fiéis. Esta festa convida os crentes a deterem-se, mais demorada e profundamente, no mistério que celebram e que é o centro vital da sua vida crente, renovando a profissão de fé em Cristo, vivo e presente neste Sacramento. O cerimonial deve culminar com uma Procissão Eucarística, de acordo com as orientações da Igreja, sendo a música parte integrante das celebrações, desempenhando um papel fundamental no que lhes acrescenta de solenidade e espiritualidade.

Menos de vinte e quatro horas decorridas sobre o excepcional concerto dos Seconda Prat!ca, a Igreja Matriz voltou a acolher um numeroso público, ávido de escutar as propostas do Musurgia Ensemble e do Quarto Tom Ensemble, para a celebração das Vésperas do Corpo de Deus, tal como se faria em Portugal no século XVII. Integrado no programa do CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar, o concerto teve por base a recolha de música vocal e instrumental conservada em arquivos musicais portugueses e recebeu o título “Ad Vesperas – Música para as Vésperas do Corpus Christi”. A partir do repertório de um vasto conjunto de artistas ibéricos, conhecidos e menos conhecidos - e alguns anónimos -, dos séculos XVI e XVII, os dois agrupamentos trabalharam uma vasta selecção de composições, convidando os presentes a nova viagem pelos tempos da História e seus contornos musicais, voltados inequivocamente para o interior da própria Igreja, com a sua liturgia, os seus dogmas, a sua essência canónica. Daqui resultou uma entre muitas propostas possíveis para as vésperas desta festa de grande solenidade, não apenas em relação ao alinhamento do concerto, mas também no que toca ao número de vozes e à própria parte instrumental seleccionada.

Assente na polifonia e no cantochão, em obras instrumentais e em variadas combinações destes efectivos, o concerto assumiu como prioridade o respeito pela estrutura quase fixa desta festa de grande solenidade, composta por uma evocação, cinco salmos, um hino, um cântico e uma benção final. De Manuel Cardoso a Pero Vaz Rego, de Frei Agostinho da Cruz a Manuel Rodrigues Coelho, o público teve a graça de escutar um conjunto de composições inspiradas, cujos acordes ecoaram no coração da Igreja Matriz com fervor e devoção. Eva Braga Simões e a sua voz cristalina brilharam no “Pange Língua” de Juan Navarro, hino devocional de rara beleza e que possui a particularidade de fugir ao cânone romano e assumir um carácter ibérico. O “Magnificat”, de João Lourenço Rebelo, e o “Benedicamus Domino”, de Aires Fernandes, foram outros dois momentos de profunda espiritualidade, escutados pelo público no mais reverencial silêncio. Já no capítulo dos Salmos, o destaque maior vai para a viola da gamba de Xurxo Varela e para a flauta de bisel de João Francisco Távora, capazes de momentos da maior beleza e emoção. Na linha dos anteriores concertos, “Ad Vesperas - Música para as Vésperas do Corpus Christi” foi mais um momento de altíssima qualidade e a melhor forma de assinalar o Dia Europeu da Música Antiga.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

CONCERTO: "Que Sonoramente Canta"



CONCERTO: “Que Sonoramente Canta” | O Bando de Surunyo
Participação especial | Musurgia Ensemble
Direcção artística | Hugo Sanches
Com | Eunice Abranches d’Aguiar, Raquel Mendes (soprano); Patrícia Silveira (alto); Carlos Meireles (tenor); Sérgio Ramos (baixo); Hugo Sanches (alaúde); Pedro Martins* (alaúde); Hélder Sousa* (cravo); João Távora*, Silvia Cortini* (flauta); (*elementos Musurgia)
Produção | Artway
Organização | Divisão da Cultura e Desporto da Câmara Municipal de Ovar
60 Minutos | Todos os públicos
Capela do Calvário, Ovar
11 Jun 2023 | dom | 16:00


Foi um momento verdadeiramente singular aquele que, na tarde de ontem, pudemos escutar na Capela do Calvário, em Ovar. Replicando a música tocada na corte, em casas senhoriais ou em espaços religiosos nos séculos XVI e XVII, dando a ouvir os poemas que estão na sua génese, O Bando de Surunyo ofereceu um concerto onde à qualidade e virtuosismo souberam juntar a graça e a harmonia. Ao longo do concerto, com eles esteve o Musurgia Ensemble, projecto ovarense dedicado à música portuguesa e europeia dos séculos XV a XVIII, e ainda dois convidados especiais, também eles ovarenses - Beatriz Amaral e Ezekiel Martins -, que integraram os conjuntos num dos temas interpretados. Convidado a recuar cerca de quinhentos anos, o público teve a oportunidade de embarcar numa autêntica viagem no tempo, embalado por tonos e responsórios, letrilhas, vilancicos e ensaladas, ao encontro de “um universo musical em que religião e humanismo se fundem numa rica e variada paleta de géneros devocionais, teatrais e poéticos”.

“Que Sonoramente Canta” é um escaparate da música magistralmente escrita pelos cónegos regrantes do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, com finalidade ora litúrgica, ora lírica, ora teatral, ora de todas em simultâneo. Importa salientar que o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra foi um dos principais centros musicais da Península Ibérica durante o século XVII e que, no decurso dos últimos anos, O Bando de Surunyo se tem dedicado à redescoberta da vastíssima colecção de música aí produzida e que, felizmente, resistiu às agruras do tempo e chegou aos nossos dias. Ao trazer esta música de volta à vida, volvidos quase quatro séculos, o grupo oferece-nos a possibilidade de perceber o quanto ela mantém “o poder de encantamento que seguramente teria quando primeiro foi escutada.” É essa a sensação que temos quando, emocionados, escutamos “La justa”, de Mateo Flecha El Viejo, peça que abriu o concerto e que, na sua essência, nos mergulha no ambiente do combate mortal entre o bem e o mal, Deus de Israel e Lucifer, a Salvação das gentes como prémio anunciado.

O concerto prosseguiu com quatro peças produzidas no Mosteiro cerca de 1640/50, todas elas carregadas de um forte lirismo e tendo como tema principal o amor, as suas causas e consequências. Depois de “Beata viscera Mariae”, tema instrumental que é um responsório para o Natal, escutou-se “Dexad al Niño que Llore”, uma deliciosa letrilha onde os açoites propostos para calar o Deus menino prenunciam já os sofrimentos que virá a padecer até ao Calvário. Para o final estavam guardadas duas preciosidades - “A Minino Tam Bonitio” e “Antoniya! Flaciquia! Gazipá!” -, dois vilancicos de negro que remetem para a adoração do Menino Jesus e cujas letras guardam a componente da língua crioula. É no primeiro destes temas que encontramos a expressão “bando de surunyo” e que parece poder ser traduzida por “bando de estorninhos”. É também aqui que Raquel Mendes brilha a grande nível, juntando à beleza da sua voz uma enorme expressividade. A mesma expressividade e belíssima voz que encontramos em Patrícia Silveira no tema derradeiro, da autoria de Filipe da Madre de Deus, o qual inclui um bem humorado momento teatral. Teatro, poesia e música num concerto inesquecível.